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História Repensando o Masculino - Capítulo 2


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Notas do Autor


Oque exponho aqui é oque EU penso sobre a questão da masculinidade, oque vejo nela, eu poderia trazer dados e mais dados, pesquisas, mas o objetivo disso aqui não é ser uma verdade e sim uma reflexão, obrigado.

Capítulo 2 - O Pensar


A masculinidade é um espantalho, uma caricatura mal desenhada de um ideal inalcançável e até, diga-se de passagem, indesejável. Oque ocorre é o fetiche pelo poder, o poder é tudo aquilo que te dá a ilusória sensação de controle, superioridade. O poder dessa forma se manifesta em características estilizadas de roteiristas e diretores de cinema de quinta, que precisam de um herói idealizado para inspirar aquele que assiste, tal como os semideuses da mitologia grega, uma necessidade de uma figura que reafirma uma potencialidade inerentemente masculina.

    Questão é, que tal potencialidade foi incorporada em uma rigidez emocional para além da física. Para além do herói o masculino é aquele que suporta não só o mundo em seus ombros, mas os seus demônios internos. O fechamento completo para as angústias que, jamais contidas para sempre, retornam em forma de agressividade, uma frustração acumulada que se manifesta na violência, pois a raiva é o único sentimento tido como masculino e que reforça os ideais de poder.

    O masculino torna-se então uma figura a ser venerada, o ideal de herói ideal manifestado na força física e moral, mas também no poder, uma figura impositiva, imperativa e jamais cedendo a uma fraqueza que se manifesta no sensível, na demonstração de sentimentos.

    A figura do homem másculo é contraditória, a força dos heróis míticos aparece na agressividade, rigidez e na ausência de sentimentos, jogando fora a ideia de força moral que existia, o herói agora é um anti-herói, é protagonista, igualmente imponente, rígido e inabalável, porém, se pauta no egoísmo e na satisfação de seus desejos.

    Força agora é sinônimo de agressividade e de imponência, controle. O masculino se manifesta de uma forma patética numa competitividade que vai para além da que ocorre no mundo animal, os machos brigam pelas fêmeas no mundo animal, o masculino aqui permanece selvagem mas com uma faceta a mais, a da idealização, idealização de si, o masculino busca superar os outros e também a si mesmo, encontra no inalcançável aquilo que deseja ser. Oque resta ao homem que está entre o selvagem e o herói, que se confundem entre si? 

 

Sociedade

    O papel da sociedade para além da propagação, adoração e comercialização do ideal de masculinidade também limita seus freios para a imposição masculina, essa natureza agressiva e impositiva se torna naturalizada, herdada, disseminada. Surge o homem que crê possuir o mundo para si, incluindo as mulheres, pois o único capaz de bater de frente com esse homem simbólico é outro maior e mais imponente, a mulher é reduzida a um objeto de bajulação, o feminino que estaria seduzindo, pois o homem não se conforma com o feminino que habita em si mesmo, o rejeita.

Nesse amálgama do selvagem com o herói, o masculino que aqui somado com a privação do sensível, se manifesta como abusador, uma espécie de ser dionisíaco, a imponência masculina é também uma imponência sexual, primitiva, como quem quer se firmar como o topo da hierarquia, aquele que está mais perto do herói mítico e sem perceber se rendeu a selvageria pra chegar neste patamar. A parte libidinosa masculina se torna então outro objeto de adoração, é a natureza do homem, sua marca registrada, um painel de troféus imaginários, a mulher sendo aqui o objeto, a conquista sexual é portanto parte de uma demonstração de poder e soberania.

Essa noção do homem dionisíaco também implica em um entendimento do homem como ser de sexualidade ativa, de ser aquele que toma para si as relações de poder na vida sexual, mesmo entre os homossexuais essa imperatividade sexual se manifesta no entendimento mútuo de que ambos procuram a mesma coisa, satisfazer suas necessidades carnais, de forma a naturalizar a imposição sexual. O homem hétero tal como o homem homo são dotados de um libido descontrolado, em uma sexualidade que entende o homem dessa forma e portanto suas relações passam por um tesão imediato que são incapazes de controlar, não estão acostumados a não manifestá-lo com toda a liberdade que a sociedade dá. É a velha história do ID x Superego, o homem entende a questão ética que implica em segurar sua vontade de urinar por estar na calçada, em locais públicos, portanto a ética aqui vem acima da imposição do desejo, no desejo sexual a lógica se inverte, a ética agora é um mero obstáculo para a satisfação dos desejos.

 

Ressignificação

    O masculino enquanto não ressignificado fica preso a essa figura medíocre, escravo de seus desejos sexuais que se manifestam nessa objetificação da mulher e na figura do masculino absoluto, o homem fetichiza a si mesmo. A ressignificação começa pela quebra do ideal, o rompimento de uma noção de homem perfeito como herói semideus, o norte daqueles que se renderam aos costumes e sua natureza bestificada. Ao romper com o ideal o homem se volta para si, não mais apenas como o masculino, mas como ser dotado de traços femininos e masculinos, o feminino antes rejeitado pelo homem é agora aceito e incorporado. Nessa aceitação do homem como ser empírico e sensível, liberta de si os sentimentos reprimidos, as angústias acumuladas.

    A ressignificação do masculino também é a ressignificação da força e do poder, agora o poder que fora exacerbado fisicamente, se manifesta aqui como força moral também, oque implica no controle de seus desejos sexuais, não castrando o homem, mas entendendo que o desejo sexual não é absoluto perante questões éticas. E o poder agora não é mais um poder impositivo e sim permissivo, o homem não toma para si o espaço dos outros, não atua em uma lógica territorialista e de objetificação, mas sim de usar o “poder” como quem pode fazer algo, aquele que tem liberdade dentro de condições externas e internas que limitam tal liberdade que só pode ser exacerbada quando as questões éticas se tornarem obsoletas, isto é, quando esse libido se manifestar na arte como expressão ou na atividade sexual consentida.

    E por último, o que é ou oque seria este novo masculino? Dentro do seu poder de se afirmar como um ser, um ser-em-si-mesmo e não um ser-para-um-fim, fim esse que seria o idealizado. O ser-em-si-mesmo afirma, não impõe, a sua natureza, o seu norte é a si mesmo e seus ideais, a reflexão é o único imperativo desejável, o homem que se aprimora repensando o ser-em-si-mesmo e o ressignificando quantas vezes achar necessário. Já o masculino como força, este se mostra como força ética, mas também força emotiva, um ser sensível, aquele que demonstra a capacidade de autocontrole, não para se castrar, mas para o bem coletivo de si mesmo e dos outros, o ser-em-si-mesmo forte não é aquele que goza, mas sim aquele que se expõe o sensível e é capaz de controlar o agressivo e o libido exacerbado.

O homem sensível, esse novo homem forte é nada muito novo voltando ao romantismo, mas o mundo dá voltas, e voltamos para trás, a indústria cinematográfica desde os filmes de hollywood até os filmes pornográficos exacerbaram uma caricatura tosca de homem, o homem fraco, aquele que é frágil por temer o feminino em si mesmo e que é uma mera projeção de um ideal. O homem forte e poderoso, isto é, ético, sensível, livre e auto-controlado é o homem que não vê a luz do dia hoje, a imagem que (perigosamente) idealizo deste novo homem é aquele que ergue sua cabeça, não se esconde, não se retrai, muito pelo contrário, se expõe, intimida aqueles fracos em volta, intimida não por sua agressividade, mas sim pelos seus olhos cheios de lágrimas sem medo de os expor ao público, aquele que não tem medo de demonstrar que é humano, aquele que mais assusta a sociedade.

 

Para finalizar, eis um aforismo que sintetiza (em parte) oque é esse novo homem aos olhos da sociedade, e em sua contraposição a mulher, que também está passando pelas suas revoluções, certamente mais avançadas que os homens tolos que ainda temem demonstrar os demônios que neles habitam:
    “Não há nada mais ultrajante para uma sociedade, moralmente debilitada, que um homem que ousa falar de amor sem falar de sexo e uma mulher que ouse falar de sexo sem falar de amor.” 

 


Notas Finais


Isso não passa de um ensaio, filosófico ou não, e caso discorde fique a vontade, mas àqueles que vierem debocharem ou xingarem, vocês apenas reforçam tudo oque eu disse.


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