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História Resgate-os - Capítulo 14


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Notas do Autor


"...eu não queria sair do meu esconderijo sob as cobertas"

Capítulo 14 - Prisioneiro na cama


Geralmente, você evita admitir que está deprimido, ou sugere que seja apenas por um tempo. Alguns momentos são como lágrimas travadas, que criam um nó na sua garganta, outros deixam você tonto e enjoado de tudo. Principalmente de você mesmo. A vontade de destruir algo é forte, mas, às vezes, você não tem nada além de si mesmo para quebrar.

Eu percebi que estava assim quando passei uma semana inteira deitado na cama, sem levantar para absolutamente nada. Mesmo quando precisava muito ir ao banheiro, eu não queria sair do meu esconderijo sob as cobertas. Comer nem sequer passava pela minha cabeça. Consegui ficar horas assistindo vídeos de comédia no meu notebook com fones de ouvido, sem sair debaixo das cobertas. Quando o suor começou a grudar na minha testa, ousei descobrir o rosto, mas foi por meros dez segundos antes que Will entrasse no quarto e olhasse para mim.

Minha mãe tentou de tudo para me fazer sair. Tentou me obrigar a comer, a levantar, a ir lá para fora, mas nada adiantava. Ela ficou um tempo conversando comigo, dizendo que essa atitude iria me matar e que estava deixando todo mundo preocupado. Eu não respondi. Talvez devesse ter dito algo, talvez devesse tê-la obedecido, mas eu simplesmente não queria.

Will não teve muita paciência. Ele tentou arrancar-me da cama a força, puxando meus pés e ignorando meus protestos.

-Você precisa comer alguma coisa, Thom – ele insistiu. - ou, pelo menos, ir ao banheiro.

Quando eu caí de bunda no chão, com o cobertor enrolado em mim e Will segurando meus pés, não consegui reprimir uma risada. No entanto, aquele momento engraçado para nós não durou muito. Eu realmente não estava me sentindo bem.

A verdade é que fiquei sob as cobertas para não ver o espelho quebrado e os cortes nas minhas mãos. Também queria evitar ter que falar com meu pai. Tentei afastar qualquer contato, agindo rudemente com minha mãe e com Will, até que eles não falavam mais comigo. Acho que disse algo muito errado para meu irmão, pois ele ficou um dia inteiro sem entrar no quarto e não tentou mais se comunicar comigo. Consegui conquistar meu próprio buraco quente e solitário debaixo das cobertas. Eu estava tão deprimido, que aquilo poderia durar para sempre. Porém, eu não contava com o fato de que ficar vários dias acumulando as toxinas do meu corpo na minha bexiga resultaria em uma tremenda dor nos rins.

Acordei no meio da madrugada sentindo uma dormência na barriga. Pensei que, como estavam todos dormindo, eu não correria o risco de ser visto indo até o banheiro. Mas, assim que levantei da cama, a dor intensificou. Minha virilha estava inchada e parecia dar socos em mim como forma de punição por ter me segurando durante tanto tempo. Tentei andar até o banheiro, a cada passo era um novo golpe nos rins. Eu soltei gemidos baixos e estava inundado de suor e lágrimas silenciosas. Eu nem percebi quando comecei a chorar.

Passei pelo corredor quase me arrastando. Fiquei repetindo para mim mesmo “vá ao banheiro, Thomas, não se atreva a pegar uma infecção”. Esse era meu medo. Se eu ficasse doente, teriam que me examinar de novo. Na minha situação atual, preferiria morrer ao ter que ser tocado intimamente por mão estranhas.

Em determinado momento, não aguentei mais. Caí de bruços e soltei um gemido alto. Com a respiração afobada e a mão direita apoiando minha virilha, eu continuei me arrastando até o banheiro. Era a única coisa que eu tinha em mente. Isso acabaria com a dor e então eu poderia voltar para meu buraco seguro.

Senti uma pontada tão forte que quase me fez vomitar, a sensação era de sangrar por dentro através de um corte profundo. O banheiro estava perto, mas não o suficiente. Tentei me arrastar por mais alguns centímetros até chegar ao meu limite. Deixei-me cair de lado, agarrando a virilha com ambas as mãos e encolhido na parede do corredor. Então eu chorei, reprimindo os soluços. Queria ajuda, mas, ao mesmo tempo, não queria. Eu sabia que não conseguiria. Lembro que tive muito medo de morrer ali.

Talvez Will saísse do quarto e viesse preocupado até mim, ou talvez minha mãe aparecesse assustada e me socorresse. Porém, quem saiu do quarto foi meu pai.

-Thomas! - ele exclamou e correu ao meu lado, esticou as mãos para me ajudar, mas eu encolhi ainda mais. - Louise! Venha ajudar!

Minha mãe apareceu amarrando seu roupão na cintura. Ela me olhou horrorizada e se abaixou junto do meu pai.

-O que aconteceu, filho? - ela perguntou.

Fiquei calado. Ela tentou retirar minhas mãos da minha barriga, esperando ver algum hematoma ou algo do tipo, mas eu recoloquei as mãos assim que senti outra pontada.

-Dói – choraminguei.

Minha mãe segurou meus braços, colocando-me em pé, depois me levou no colo até o banheiro. Meu pai veio atrás. Ele tentou ajudá-la a me levar, mas eu não deixei.

Tentei urinar, mas não saiu muito e foi doloroso. Estava com calafrios, náuseas e febre. Minha mãe ajudou a me lavar no chuveiro enquanto meu pai esperava na porta. Tentei ignorar a presença dele, mas não consegui por muito tempo, então pedi que saísse e fechasse a porta, deixando-me sozinho com minha mãe.

Eu ainda estava chorando, as lágrimas se misturavam com a água do chuveiro. Os cortes nas minhas mãos ardiam e o cansaço estava quase me dominando.

-Está tudo bem, querido – minha mãe falou suavemente no meu ouvido, enquanto acariciava meu cabelo com shampoo.

Soltei um grunhido em resposta. Era o máximo que conseguia naquele momento.

Ela ajudou-me a colocar uma roupa limpa e cheirosa. O cheiro me fez perceber que eu não tirava o pijama ou tomava banho há dias. Foi uma sensação ótima.

-Eu sei que isso parece bem ruim agora, mas, acredite em mim, vai melhorar – ela dizia enquanto secava meu cabelo com a toalha. - Você sempre foi forte, Thomas, e vai precisar ser outra vez.

-Posso tomar um analgésico? - perguntei, querendo mudar de assunto.

Ela parou e soltou um longo suspiro.

-Vou levar você ao hospital.

-Não!

-Thomas, você não está bem. Ficou duas semanas sem comer ou usar o banheiro. Não saiu da cama durante esse tempo e, agora que saiu, você quase morreu no chão do corredor – ela tremeu ao prosseguir. - é isso que vai acontecer se continuar com essa atitude.

-Eu não vou morrer – respondi, forçando-me a acreditar nisso. Eu realmente tive medo de acabar ali.

-Por um milagre, você está aqui conversando comigo, então, queira você ou não, eu vou levar essa sua bunda para o hospital.

-Mãe…

-Fique quieto e guarde sua energia. Diferente do seu pai, eu não sou tão paciente.

Engoli um seco.

-Desculpe.

Minhã mãe guardou as toalhas e me ajudou a andar de volta ao corredor. Esperava ver Will e meu pai aguardando, mas eles não estavam ali.

Estávamos indo até a cozinha quando minha mãe parou.

-Filho, seu irmão estava muito preocupado – ela falou, olhando dentro dos meus olhos.

-Eu sei.

-Não, querido, você não faz ideia. Will estava assustado, ele vomitou algumas vezes e se trancou no banheiro durante um dia inteiro.

-O que?

-Ele disse que vocês brigaram quando tentou te tirar da cama.

Então, de repente, eu lembrei. A coisa errada que disse ao meu irmão foi chamá-lo de “moleque fodido”. Foi tão automático que eu sequer me lembrava. Droga! Como pude ser tão idiota? Depois de tudo o que ele me contou sobre Yuri e sobre as vozes, como eu tive a capacidade de ser um babaca outra vez?

-Ah, não – minha voz saiu em um suspiro desesperado.

-Thom, o que aconteceu entre vocês? Por que seu irmão ficou tão mal depois de uma briga?

-Mãe, eu… fiz besteira.

-Que tipo de besteira?

-Eu não estava raciocinando e ele tentou me tirar da cama, perdi a cabeça e o chamei de uma coisa que aqueles caras nos chamavam. - Comecei a chorar. - desculpa, eu não queria fazer isso.

Ela me abraçou e chorou também.

-Sim, Thom, eu sei que você não queria. Sinto muito, filho.

-Eu odeio eles, mãe, odeio mesmo.

-Eu sei, querido.

 

 

Seguimos para a cozinha, meu pai e Will estavam conversando e pararam de falar quando nós entramos.

-Vou levar Thomas para ao hospital e talvez comprar algum remédio para dor – minha mãe explicou, pegou a chave do carro e beijou meu pai.

-Quer que eu o leve, amor? - meu pai perguntou. - Está tarde e amanhã você precisa trabalhar.

Ela me olhou.

-Não acho que seja uma boa ideia. Fique com Will, nós voltaremos logo.

-Está bem.

Meu irmão sequer olhava para mim. Ele ainda estava magoado e preferia evitar ter contato comigo. Eu não podia deixar isso começar, se ficarmos sem nos falar vamos ter uma péssima convivência. A culpa é toda minha.

-Will – chamei.

Ele me olhou de canto.

-Você está bastante doente, não é? - perguntou.

-Sim.

-Eu avisei. Eu disse que você precisava ir ao banheiro.

-Eu percebi isso agora. - tentei sorrir, mas ainda estava com dor.

-É melhor você ir.

E se virou para voltar ao corredor, mas eu segurei seu braço e o puxei para perto. Ele me olhou cansado, como se não estivesse com vontade de me ouvir.

-Will, sobre o que eu disse… sinto muito.

-Ah, é?

-Desculpa, sei que você só queria me ajudar e eu falei aquilo. Você não é o que eu te chamei.

Ele puxou o braço bruscamente e ficou com raiva.

-É claro que eu sou! Nós dois somos!

-Will, não somos…

-Moleques fodidos? Nós somos sim, Thomas. Aqueles caras fizeram isso com a agente e foi uma droga, mas você não pode continuar vivendo como um presidiário na sua cama.

-Eu sei que você tem razão, mas não podemos ser as coisas que eles nos chamavam.

-Por que? Sou eu quem vomita ao ouvir a voz de estupradores mortos. Você não tem esse problema, ou tem?

-Não desse jeito…

Ele revirou os olhos.

-Ah, é, você tem medo de ser tocado por outros homens. Sabe, isso serve para provar que nós dois somos moleques fodidos.

Eu o abracei, querendo fazê-lo ficar quieto. Senti meu coração acelerar e lágrimas surgirem.

-Para de falar assim, cara. Desculpe, me desculpe, você é ótimo.

Will não se moveu para me abraçar de volta.

-Sinto muito… - consegui sussurrar antes da dor em minha virilha fazer-me cair e gemer no chão, agarrando a região estomacal.

-Thomas! - ouço minha mãe gritar e correr para me ajudar.

Will se abaixou e segurou-me sentado. Eu olhei em seus olhos e chorei ainda mais ao pedir desculpas. Pedi várias vezes enquanto a dor aumentava, senti que eu merecia passar por aquele desconforto e que isso só iria embora depois que eu me desculpasse o suficiente. Sabe aquela sensação de que toda a dor que você sente não passa de uma punição? Talvez nem toda dor seja, mas a minha era e estava me matando.


Notas Finais


"Aqueles caras fizeram isso com a agente e foi uma droga, mas você não pode continuar vivendo como um presidiário na sua cama."
Thomas está enfrentando momentos exaustivos e Will sente seu medo aumentar. Será que eles irão pedir ajuda profissional? Não perca o próximo capitulo.
Bjs e Deus abençoe.


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