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História Resgate-os - Capítulo 17


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Notas do Autor


"-Agora somos cúmplices, não é?
-É, somos cúmplices"
Ei, parceiros, sejam fortes nessa época na epidemia. Que Deus esteja com vocês.

Capítulo 17 - Irmãos cúmplices


Depois de concertar as coisas com meu pai, eu precisava falar com Will. Acho que ele não está bravo de verdade, apenas decidiu se emburrar como um garotinho mimado quando não recebe o que quer. Não vai ser difícil convencê-lo a me dar atenção.

Abri a porta do quarto e lá estava meu irmão, sem camisa, rodando em frente ao espelho. Ele estava olhando seu abdômen, costas e ombros machucados. A maioria das feridas já haviam se tornado cicatrizes finas ou grossas.

-O que está fazendo? - perguntei.

-Só observando – ele respondeu sem olhar para mim.

-Ah.

Me joguei sobre a cama e soltei um longo suspiro. Fiquei olhando Will de canto e vi quando ele puxou a barra da calça para frente e olhou para seu pênis.

-Merda – ele resmungou.

-O que foi?

Ele se virou para mim e lançou um olhar enraivecido.

-Ah, desculpe, eu não quero mostrar para você.

-Will, pare com isso.

-Babaca.

E voltou a se olhar no espelho. Revirei os olhos e puxei o papel do bolso. Se é isso que ele quer, então que seja. Não sinto-me mais tão constrangido.

-Aqui está – falei, mostrando o papel.

Will o pegou rapidamente, como se quisesse impedir que eu mudasse de ideia, então sentou-se na cama e começou a ler.

-Por que não queria me mostrar? - ele perguntou.

-Estava com vergonha.

-Mas isso é sobre os xingamentos, não é? Você está tentando parar de falar aquelas coisas.

-Sim, mas eu não queria que você visse o quanto eu acabei dominado pelo que aqueles homens falavam. Desculpe.

Ele me devolveu o papel e deitou-se na sua cama ao lado da minha.

-Thom, eu gosto que você esteja se importando comigo. Depois de tudo o que passamos, sua maior preocupação é em não desencadear aqueles meus ataques. Então, obrigado, e você não precisa se envergonhar disso.

-É, acho que você tem razão. Eu vou tomar cuidado com o que falo na hora da raiva.

Ele sorriu, por poucos segundos, depois ficou sério novamente.

-Sabe, eu escutei a conversa entre você e o papai.

Sentei de supetão e o encarei fixamente.

-Você ouviu? Então você sabe? Ah, não, não era para você saber.

-Ei, calma, eu sei que vocês estão bem agora.

-Mas eu não queria que você visse o papai com os meus olhos, entende? Eu não queria que você ficasse com medo ou raiva dele também.

-Thom, eu não estou com raiva. É tudo passado. Cara, eu tenho você, o papai e a mamãe. Quase morri nas mãos daqueles lixos. Então, não estou com a menos vontade de ficar com raiva das pessoas que amo.

Precisei absorver o que ele acabara de dizer. Will pensou bem, na verdade, muito bem. Suas palavras foram um verdadeiro tapa de realidade.

-Você tem razão. O yoga fez você pensar.

-Ah, cale a boca – ele riu, depois ficou sério novamente. - Queto voltar para a escola.

-O que?

-Acho que estou com saudade e a terapeuta me ajudou a decidir sobre isso. Quero meus amigos, quero a comida do recreio, quero a Alice.

-Alice?

-É, a ruiva, a menina que eu gosto.

-Ah, então é esse o nome dela?

-Cara, eu já te falei sobre ela, como conseguiu esquecer?

-Acho que eu não estava preocupado com isso.

-Ah, obrigado, irmão, pelo seu apoio na minha vida amorosa.

Soltei uma risada e deitei novamente.

-Eu também sinto saudades, mas será que estamos prontos? As pessoas sabem sobre nós.

-Então não se atreva a ficar comentando sobre o que aconteceu, certo? Vamos deixar eles com os pensamentos deles.

-Ok – lembrei de antes. - o que você estava olhando ali embaixo?

Ele ficou ligeiramente vermelho e desviou o olhar.

-Ainda está muito machucado e assusta olhar – sua voz e seu olhar ficaram longe. - Não queria que ninguém tivesse tocado aqui sem que eu deixasse.

Suspirei, apoiando a cabeça sobre minhas mãos.

-É, foi uma verdadeira merda.

-Foi.

/**/

Na manhã seguinte, falamos com nossos pais sobre voltar a escola. Foi uma conversa tensa, pois todos nós sabíamos aonde o sequestro havia acontecido. Will se esforçou mais para convencê-los, insistindo que poderíamos ficar burros se não voltássemos agora. Minha mãe aprovou a ideia, desde que eles fossem nos levar e buscar nos primeiros meses. Aceitei, mas não comentei sobre o fato de que eles provavelmente não vão conseguir fazer isso por causa do trabalho.

Poderíamos voltar em duas semanas, assim teríamos tempo para organizar as coisas e conversar com a srta. Hunter outra vez. Will estava ansioso, falava sobre rever nossos amigos e sobre jogar basquete com eles. Me contou – pela segunda vez eu acho – sobre a Alice e o quanto ela era bonita e inteligente. Por outro lado, eu ainda estava inseguro. Queria muito voltar a ser um estudante normal, mas como fazer isso quando os professores e nossos amigos sabem que fomos estuprados durante três meses? Essa provavelmente vai ser a primeira coisa que eles vão pensar quando nos virem chegar.

Fiquei matutando nisso enquanto assistia uma reportagem sobre nós. Estava sentado no sofá, com o controle na mão e cuidando para que minha mãe não visse o que eu assistia. Ela não quer que vejamos o que as pessoas falam sobre o nosso caso.

-É melhor abaixar o volume se não quer que a mamãe escute – Will apareceu e ficou me encarando de braços cruzados.

-Não conte para ela.

Ele sorriu.

-Relaxa, minha fase de irmão dedo-duro já passou faz tempo. - ele deitou no sofá, apoiando a cabeça nas minhas pernas. - agora somos cúmplices, não é?

-É. - abaixei o volume e prestei atenção no que a repórter falava.

-Os irmãos estão seguros em casa, mas não quiseram dar entrevista. Nossa equipe conversou com os pais, que decidiram não expor as crianças.

-Tarde demais, nós já fomos expostos – Will resmungou.

Uma mulher morena vestindo um blazer cor-de-rosa se pronunciou. Lembro de já tê-la visto em outro programa, acho que era de entrevista.

-É uma pena que eles não queiram fazer uma entrevista, mas, se mudarem de ideia, meu programa estará de portas abertas para esses irmãos sobreviventes.

-Irmãos sobreviventes? É isso que somos agora? - Will fez uma careta.

-Bom, não está totalmente errado – tentei argumentar. - nós saímos ilesos por pouco.

Will virou a cabeça para me encarar mesmo deitado, erguendo uma sobrancelha.

-Está bem, saímos quase ilesos – consertei o que tinha dito, então tive uma ideia. - mas e essa entrevista? E se nós fizéssemos…

-Não.

-Pensa, Will, um programa de TV gera muito dinheiro e ajudaria nossos pais.

-Em troca vamos contar ao mundo todo sobre o que passamos. A resposta é não.

-Mas nós poderíamos…

-Thom, você não queria contar sobre o que passamos para uma terapeuta, mas quer contar para milhões de pessoas?

-É diferente agora.

Ele se sentou.

-Eu não quero voltar para a escola com todos sabendo sobre minha vida. Se fizermos a entrevista, nossos amigos, professores e até pessoas que não conhecemos saberão tudo sobre nós, Thom.

-Mas talvez fosse melhor assim.

Ele franziu o cenho e balançou a cabeça.

-Como pode ser melhor?

-Will, todos já sabem pelo que passamos, mas vão fazer perguntas. Se fizermos a entrevista, iriamos responder a essas perguntas de uma só vez e não seria tão incomodo voltar para a escola.

Ele arqueou as sobrancelhas, como se não pudesse acreditar no que acabara de ouvir, então levantou e desligou a TV.

-As pessoas sabem quem somos, igual aquele casal no parque, mas não precisam saber mais do que os jornais contam.

-Will…

-Ninguém da escola precisa saber sobre nossos traumas, medos e sobre aonde aqueles caras nos tocaram. Para as pessoas que acompanham nosso caso, nós fomos sequestrados, violentados, matamos os agressores e agora estamos bem. Ponto final.

Fiquei sem saber o que dizer. Me sentindo realmente idiota por ter sugerido a entrevista, mas, ao mesmo tempo, não queria que tivessem a ideia errada sobre nós. Eu queria poder explicar tudo.

Soltei um longo suspiro e desviei o olhar do meu irmão. Ele voltou a sentar do meu lado.

-Thom, quando voltarmos para a escola, não quero que fale sobre o que aconteceu.

Suspirei outra vez.

-As pessoas vão perguntar, então você só responde que não quer falar sobre isso, por favor, Thom.

Will puxou meu rosto com as mãos, fazendo-me encará-lo.

-Por favor me prometa que não vai falar sobre mim e sobre nossos medos se alguém perguntar. Por favor.

Percebi a súplica em seu olhar e desisti.

-Está bem, Will, não vou contar.

Ele sorriu aliviado e me abraçou.

-Quer jogar bola? - perguntei. - você precisa entrar em forma, se não vai ser massacrado quando voltarmos.

-Massacrado? Irmão, eu estou em ótima forma. Melhor do que você, seu sedentário.

Achei graça, mas não consegui tirar da cabeça o fato de que, quando perguntassem, eu não ia conseguir resistir a contar toda a verdade.

/**/

Acordei com o barulho de alguém chorando. Ainda com os resquícios do sono, olhei para a cama de Will. Ele estava sentado, escorado na cabeceira e agarrado ao travesseiro, usando-o como escudo.

-Ei, você está bem? - perguntei.

Ele apenas negou com a cabeça, sem olhar para mim. Levantei, chutando as cobertas, e me sentei de frente para ele.

-Teve um pesadelo?

Ele negou novamente, as lágrimas correndo por seu rosto apoiado no travesseiro. Will ainda não olhava diretamente para mim.

-Por que eles fizeram aquilo, Thom? - sua voz saiu com dificuldade.

Franzi o cenho, sem entender.

-Como assim?

-Nick e Yuri, por que machucaram a gente?

Não soube o que responder. Will apenas continuou, como se falasse além de mim.

-Eles tocaram no meu corpo todo. Yuri mexeu lá embaixo e… e agora eu mal consigo olhar sem lembrar das mãos dele.

As lágrimas dele escorriam em abundância e os nós de seus dedos estavam brancos ao redor do travesseiro.

-Eu implorei para eles tantas vezes. Foi humilhante, mas eu só não queria ser abusado. E quando eu via ele molestar você…

-Ah, mano...

-Por que fizeram aquilo, Thom? Doeu tanto. Às vezes eu lembro da sensação de ter ele dentro de mim… se mexendo e machucando…

-Will, por favor…

Então ele chorou mais, soluçando. Escondeu o rosto no travesseiro e soltou um grito abafado. Me adiantei para abraçá-lo e ele praticamente sumiu nos meus braços. Will pareceu tão pequeno e frágil, chorou alto e desesperado. Eu chorei também, mas em silêncio, querendo proteger meu irmão com todas as forças.

-Eu amo você, Will – sussurrei em seu ouvido. - Não vou deixar que te machuquem outra vez.

-Eu também amo você.


Notas Finais


"Ninguém da escola precisa saber sobre nossos traumas, medos e sobre aonde aqueles caras nos tocaram"
Will e Thomas voltarão para a escola, mas ainda estão enfrentando seus traumas, como será que irão lidar com as pessoas perguntando? Thomas vai guardar segredo?
Não percam o próximo capitulo.
Bjs e Deus abençoe.


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