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História Residência Jeon - Capítulo 17


Escrita por:


Notas do Autor


Oii
Pessoal, eu falei no twt que esses dias eu não estava bem, por isso demorei mais dessa vez pra retornar. Mas já está td melhor. Aproveitem o capítulo.

Capítulo 17 - Chapter XVII


Fanfic / Fanfiction Residência Jeon - Capítulo 17 - Chapter XVII

 

Não sei a quanto tempo estou assim.

Mergulhado em pensamentos.

Em algum momento depois de tudo que Jungkook falou, eu já estava levantando e logo nós dois já estávamos dentro de um táxi qualquer – e sendo vítimas mais uma vez de olhares questionadores. Um cemitério?

Todavia, não tinha como eu me importar menos. Tudo que minha mente conseguia captar era a paisagem passando rápida pelo o vidro do carro e diversas, tantas, cenas, palavras e... dolorosas verdades nos acompanhando como se corresse na mesma velocidade.

Era como se de repente Jungkook fosse tão fácil de desvendar – algo que jamais achei possível. Toda aquela frieza, toda aquela culpa e indiferença. A fraqueza contra algo que ele no fundo achava que merecia. E no meio disso tudo tinha eu.

Eu era um deles. Jungkook provavelmente sempre soube. Isso me deixava mais atônito do que gostaria, pois não sei o que eu faria no lugar dele. Não sei o que eu faria caso fosse eu a ser obrigado a tirar a vida de Taehyung, enquanto via alguém que amo morrer na minha frente.

Taehyung. Recordando-me de suas reações sempre que via meu amigo, muita coisa faz sentido. Mesmo Tae sendo ou não o seu antigo melhor amigo, certamente era difícil encarar o rosto de alguém que você foi obrigado a...

O carro parou e por instantes não notei. Sai acompanhado do mesmo. Jungkook esteve calado até agora ou eu sequer ouvi suas palavras?

Ao pensar em tudo que ele me disse, em tudo que ele passou, era quase impossível achar palavras que pudesse expressar toda a gigantesca montanha russa que me assolava. Não era justo. Nada disso era. E pensar que meu povo foi o responsável por isso me deixava pior.

— Jungkook?

Parecendo acompanhar vagarosamente meu chamamento, o outro aos poucos me fitou, mas não era o que eu esperava.

Por que suas íris pareciam quase... perdidas? Temerosas?

 Droga, o fato de ter ficado todo esse tempo com os pensamentos exclusivos em minha cabeça lhe afetou? Ele pensava que eu de algum modo o culpava por todas as escolhas e ações que teve que fazer? Eu não tenho tamanho poder de julgamento. Não passei nem um terço de todo seu pesar.

Antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, um questionamento forte me veio antes.

— O que você queria me perguntar? – lembrei-me – Disse que antes precisava me contar sua história.

A chave da porta ainda na minha mão, esperava. Eu só iria desviar meu olhar do seu, quando o mesmo me falasse.

— Eu escutei tudo que você disse então você pode me dizer – falei – Pergunte.

— Eu...

Não pôde terminar, pois no mesmo momento a porta foi aberta com rapidez sem nem mesmo eu tocá-la.

Jimin? Sabe há quantas horas estamos te esperando?

Dando um riso culposo mirei a atenção para eles. Sim, eles.

Na minha frente estava Taehyung, Hoseok e mais atrás Yoongi. Hoseok me olhava como se esperasse um segundo membro em mim.

— Sua avó nos disse que você sofreu um acidente ontem garoto, e já está de saidinhas? Mas que... – parecendo finalmente perceber a presença de Jungkook ao lado da porta, quase que escondido, o ruivo se cala – Ah, é...você seria?

— Meu primo.

— O daddy do Jimin – fala Taehyung.

Arregalei os olhos enquanto Tae apenas serenamente sorria.

— Como é que é? –Yoongi pareceu se interessar, soltando o celular.

— D-daddy? – escutei em murmúrio ao meu lado. Não, Jungkook. Não pergunte!

Taehyung, sua cobra maldosa!

— Vamos entrar, sim? – o chamei.

As caras curiosas e desconfiadas dos meus amigos em direção de Jungkook seriam hilárias se por dentro eu não tivesse surtando com  a possibilidade de Tae dar com a língua nos dentes num alto e bom som ele substituir o “Ele é o daddy do Jimin” por “Ele é o fantasma do Jimin” .

Sinceramente, não sei qual dos dois é o pior.

— Seu primo? Nunca ouvi falar de nenhum primo seu – continuou Hoseok. Ele e Yoongi mantinham-se sentados mais ao longe, enquanto Taehyung apenas confortavelmente se sentou perto de mim e Jungkook.

—Ah, ele... Ele é um primo distante. Chegou hoje. Parte da família da minha mãe – falei – Ele veio passar alguns dias com a gente.

— Hum – respondeu Yoongi. Super falante.

— Mas e aí? O que vieram fazer? – mudei de assunto e mirei o moreno que inacreditavelmente parecia não estar um pingo desesperado com as olhadelas de Hoseok e Taehyung.

— O que viemos fazer aqui?! Você não tinha se envolvido em um acidente?

— Ah, isso? Está tudo bem. Graças a Jungkook – respondi e lutei contra a vontade fitá-lo novamente.

— Mas você não disse que ele chegou hoje? – pressionou os olhos.

Ih, merda.

— Eu disse hoje? Não! Eu quis dizer ontem – falei rapidamente – Ele chegou ontem e quando fui buscá-lo de carro quase um acidente acontecia. Mas Jungkook foi mais rápido.

— Uuh, incrível – comentou Taehyung.

Incrível...

No empurrar firme ao automóvel as minhas costas. Na pressa desesperada dos seus dígitos na minha face, no meu cabelo.

Uma de suas mãos entrara nos meus fios agarrando as raízes do mesmo e rompendo o silêncio esbaforido em um suspiro profundo.

Ok, para. Melhor nem começar.

De canto de olho foi impossível não fitar Jeon novamente. Aquela face temerosa de poucos minutos antes já havia sido substituída por uma máscara quase amigável. Não é como se ele odiasse a todos, pensei aliviado.

Precisamos conversas sobre tantas coisas. Principalmente sobre...

— Você realmente nunca ouviu esse termo? – a voz de Hoseok me chamou minha atenção. Distraído, nem percebi que meus amigos pelo o que parecia estavam tentando puxar papo com Jungkook.

— Não que eu me lembre – educadamente, respondeu.

— Bem, então vou te explicar – o ruivo se arrastou no sofá um pouco mais perto – Daddy significa alguém mais velho que você e...

Me levantei.

— OK! Alguém quer comida?

— Por que está gritando?

— Já almoçamos, Jimin – respondeu Yoongi me olhando lascivamente.

— Mas vocês conhecem a comida da minha vó, né...

— Espera – Hoseok ergueu uma mão colocando o celular na orelha – Ah não, cara. Sério? Não vou arrumar essa porra dessa vez. Se virem. O que? Não vou nem aparecer aí. A última vez não deu certo...Tá.

— Quem era? – questionou Yoongi olhando-o.

— Era o Chanyeol. Pelo visto os caras tão organizando outra festa lá na fraternidade – respondeu.

— Sério? Nós vamos! – animou-se Taehyung depois virando para olhar Jungkook – Seria a primeira festa, festa, para ele né, Jimin? Épico.

Jungkook numa festa cheio de adolescentes baderneiros? Não acho que combine com ele.

— Primeira festa? – céus, odeio o ouvido atendo do Yoongi. Ignorei-o.

— Enfim, ele não vai – respondi convicto.

Não deu nem um segundo á mais e sua voz juntou-se na conversa.

— Por que eu não iria?

— Ah, porque... Você não gosta?

— Nunca disse isso – falou.

Não era como se ele tivesse me dando uma bronca, mas foi inevitável não me repreender. Quem eu era tentando controlar Jungkook? Aish...

— Bom... – engoli em seco recebendo todos aqueles olhares – Então, tudo bem.

Uma sensação forte que nada tem haver com o sobrenatural ou poderes, me dizia que com certeza isso não daria certo.

. . .

Depois dos meninos encherem meu saco mais um pouco – diga-se Taehyung com suas indiretas nada indiretas, Yoongi observando tudo a olhadelas lascivas e Hoseok amigavelmente batendo papo com Jungkook – eles resolveram ir embora e se arrumar.

No momento eu me perguntava se Jungkook se agradaria das roupas que eu havia lhe emprestado. Há algum tempo vovó –louca por promoções – tinha comprado um conjunto de jaqueta e calça para mim. Todavia, acabei não usando-as devido seu tamanho mais largo. Por sorte, elas talvez caíssem bem no Jeon.

— Jimin? – ouvi sua voz no meu quarto.

Jungkook estava de costas enquanto mirava o espelho.

Uma blusa branca lisa cobria seu torso junto à jaqueta vermelha vinho que não ficara boa em mim, mas nele... Uau. Nele, definitivamente, havia dado certo. A calça escura jeans era só mais um detalhe.

 — As roupas ficaram confortáveis? – perguntei.

— Acho que sim, mas... – passou as mãos nos fios.

— Seu cabelo é bom demais, isso é injusto – resmunguei me aproximando – Mas falta um pente aí – entreguei-lhe o objeto.

Jungkook por outro lado não o pegou das minhas mãos.

— O que? – questionei.

— Pode fazer como o seu? – mirou-me.

Meus fios caiam na sobrancelha apenas de um lado, enquanto no outro eu havia os penteado um pouco para trás.

— Ah, claro – assenti enquanto o mesmo vinha mais perto.

Mesmo que eu levantasse meu corpo, sua altura não ajudava muito meu trabalho.

— Você poderia tipo, se abaixar mais?

O moreno encostou-se na cômoda descendo um pouco.

— Melhor – sorri, enquanto percebi Jungkook teimar um levantar de lábios. Aposto que ria de mim.

Assim como pela manhã quando a brisa me fez levar os dedos até seus fios, novamente senti sua maciez. Naquele momento foi um momento impulsivo que instantaneamente me fez recuar, porém neste instante o próprio Jungkook havia me pedido. Como apenas pentear os cabelos de alguém poderia me causar tanto frio na barriga? Tenho quase certeza que minhas mãos deveriam estar absolutamente estáveis.

— Você é bom nisso – falou – Suas mãos são leves, Jimin.

Deixando entrar mais oxigênio nos pulmões, assenti. Seu olhar abaixo de mim, tão perto, definitivamente atrapalharia meu trabalho, então me concentrei em seus fios. Mas os Jimin, Jimin, Jimin persistiam na minha cabeça.

— Vovó também diz isso – respondi.

Eu ainda sentia meu rosto queimar, sinal que ele ainda me fitava. Parecia se remoer em algo.

— Park?

— Hum?

Sua voz hesitante foi o impulso necessário para finalmente levar meu olhar até o seu. Lembrei-me de sua temerosa face mais cedo.

Jungkook não desviou como eu já sabia que não faria, apenas firmou-se mais ainda no meu mar castanho. Velejando e velejando. Notei suas mãos firmemente agarradas à cômoda.

— Em 189 anos, eu nunca precisei me preocupar com o quanto minha alma parecia suja. Eu saber disso era o suficiente. Todavia, conhecer você... mudou tudo. De repente, eu desejei não ser tão quebrado. Não ser tão eu.

— Jungkook...

— Não, me deixe terminar – interrompeu-me – O que eu quero dizer é que não parece justo eu o arrastar para esse barco sem fundo, Jimin. Não quando tudo que eu mais quero é pular pra onde você está, essa terra firme e segura. Nesse mundo cheio de luz. Nessa sensação que parece novamente existir esperança para mim – eu já nem sequer o penteava mais, as mãos caídas em seus ombros – Mas agora que você sabe de tudo, eu não serei egoísta. O que você escolher eu farei. Se quiser que eu parta, eu partirei. Se minha vida o assustou demais e acha não conseguir lidar com tudo isso, eu também o entenderei. Não abuse de sua bondade, Park.

Eu entendia.

Sua visão de culpa e ocasionador de todos aqueles eventos não o deixa ver o quão vítima ele também fora. Jungkook não conseguia enxergar o que eu via sobre ele mesmo. E por mais que minhas opiniões fossem diferentes, isso ainda não me dava nenhum direito de julgá-lo.

Ele precisava compreender isso. Que seus medos, ações e julgamentos do passado não o faziam o verdadeiro culpado de tudo. Ele jamais seria sujeito de pena, medo ou julgamento oriundos de mim.

Depois de pensar, dessa vez minhas mãos foram firmes e decididas em irem até as maças de seu rosto.

— Não estou sendo bondoso ou condolente com você, Jungkook. Todas as minhas escolhas foram sinceras. Eu espero que você entenda quando digo que não o julgo nem um pouco. Que veja o quanto também estou sendo sincero dessa vez – meus dedos passavam por sua bochecha – Não quero que vá.

As mãos do moreno, antes agarradas fortemente a cômoda aparentam tremer, e aqueles dois pares negros infinitamente turbulentos agora podiam até serem considerados calmaria.

— Você tem certeza que ainda me quer por perto? – insistiu.

Sorri.

— Eu odeio mentiras, Jeon. Não mentiria pra você.

Minhas últimas palavras pareceram desatar as cordas invisíveis de suas mãos, pois no momento seguinte eu as senti na minha cintura.

Minha respiração rarefeita voltou com força total ao que o moreno endireitou-se, ficando mais alto novamente. Pensei em tirar meus dedos de sua face, mas antes que isso fosse possível ele foi mais rápido em cobri-las.

— Não se arrependa, por favor – falou, dando um beijo casto em minha mão.

Puxei toda a respiração. O ar parecia queimar. A parte que seus lábios me tocavam iriam explodir em chamas.

Eu iria sorrir ou provavelmente tremer, todavia a batidas na porta levou consigo qualquer reação atrapalhada que eu pudesse ter.

— Jimin? Os meninos estão lá embaixo – gritou minha avó – Venha antes que eles quebrem minha sala.  

. . .

Yoongi achou uma boa ideia pegar a Van emprestada do seu irmão. Uma lata velha usada para emergência e pouco usufruída por nós.

Na frente iam ele e Hoseok brigando entre quem ficava na escolha das músicas. Yoongi queria colocar seus rock clássicos, por outro lado Hoseok exigia Ariana Grande e mandava-o ser mais moderno, enquanto atrás ficou Tae, Jungkook e eu. Este que observava a paisagem pelo o vidro do carro.

Depois de arrumar seu cabelo e descermos, só assim me permiti olhar Jungkook. E vê-lo vestido assim – tão jovem e leve – me fazia imaginar um mundo no qual, Jeon Jungkook – um garoto qualquer, filho de uma família qualquer, com gostos e sonhos qualquer – poderia viver livremente. Sem amarras ou pesares.

— Acho que realmente fiquei bem com estas vestes.

Levantei os olhos. Jungkook tinha um sorriso ladino.

— Se você diz – dei de ombros as bochechas queimando ao ser pego.

— Seus olhos dizem.

Controlando a vontade de virar o rosto num gesto mais que evidente, lembrei-me de algo que estava curioso.

— Por que você aceitou sair com a gente? Sabe que não bem o estilo de festas do seu tempo, certo? – sorri. De alguma maneira imaginar Jungkook, tão certinho e culto, no meio de uma festa adolescente, era a coisa mais hilária de todas.

— Não quer que eu vá?

— Não é isso – respondi verdadeiramente. Imaginar Jungkook cedendo e voltando para a maldição – como fora pela a manhã – era indescritível. Se eu puder o carregarei até para o banheiro comigo... Ou não. Claro que não – Só fiquei curioso.

— Ah – virou o rosto parecendo selecionar palavras – Eu só... Não sei quanto tempo isso vai durar – fez um gesto para si – Não tenho certeza que daqui a cinco minutos não estarei preso novamente naquela mansão. Um lugar que um dia fora minha casa, agora é como um inferno particular. Enquanto estou aqui quero aproveitar com você.

Neguei. O cenho em indignação. Ele sequer deveria cogitar pensar isso.

Olhei Taehyung, porém ele parecia muito vidrado no celular.

— Isso não vai acontecer – respondi no mesmo tom baixo – Não vou deixar.

Sei que minha avó disse que a maldição não fora quebrada. Sei que provavelmente sua criadora estava por aí. Todavia, deixar Jungkook não era mais uma opção. Espero que ele perceba que naquelas palavras, havia uma promessa.

— Os pombinhos vão descer?

Yoongi já havia estacionado o carro junto ao meio fio, enquanto Taehyung nos olhava sem reservas. De alguma maneira nem percebi o quanto envolto estávamos.

Revirei os olhos para o acastanhado e juntos saímos.

A primeira coisa que percebi foi o aparelho luminescente em várias cores bem no teto. Alguém havia foi mais criativo dessa vez e como esperado das festas na fraternidade, havia muitas pessoas. Alguns não eram nem mesmo da nossa escola.

Meus amigos foram na frente cumprimentar alguns colegas e eu apenas permanecia perto da porta esperando Jungkook. Em qualquer indício dele não se sentir confortável, partiríamos.

Dava para ver em sua face o quanto poderia ser estranho aquilo tudo. Tanta gente dançando e bebendo, tinha mesmo alguns fumando. Roupas e jeitos diferentes.

— Quer beber algo? – perguntei chamando sua atenção que no momento mirava duas garotas virando um copinho de tequila.

Jungkook assentiu.

— Você costuma beber? – desviamos dos corpos dançantes até chegarmos à bancada. Como não tinha ninguém, peguei as bebidas eu mesmo.

— Sim – respondi tímido que ele começasse a brigar – Dizem até que sou muito resistente.

O outro balança a cabeça.

— Diferente de mim. Sempre fui muito fraco – segura o copo que lhe dei – Krystal até ria sobre isso.

— Ela era mais forte? – dava para ver o quanto seus olhos brilhavam ao tocar no nome da irmã.

— Muito mais.

Prevendo alguma onda nostálgica, resolvi intervir.

— Quer dançar?

Jungkook me olhou como se eu tivesse dito algo inacreditável e hilário ao mesmo tempo.

— O que foi? – resmunguei.

— Nada. Apenas não costumo gostar disso.

— O que? Não gosta de dançar? – indignei-me.

— Não é isso, é só... – parecendo lembrar-se do copo de whisky em mãos, o moreno leva-o até os lábios e em seguida foi impossível me segurar.

A cara que Jungkook fez foi tão única, como se questionasse se aquele líquido tinha mesmo o objetivo de divertir ou de matar.

Ri alto.

— N-não ria... – disse tossindo, a careta evidente.

— Nem vou me desculpar – tentei segurar inutilmente o riso –Sua cara foi demais.  

— Eu disse que era fraco – justificou-se, agora mais recomposto.

— Sim, você disse – confirmei sem tirar o sorriso dos lábios. Não como o de antes, mas porque seu rosto corado e ainda visivelmente abalado fazia uma bagunça, já costumeira, em mim.

— Aposto que se divertiu.

— Com certeza – peguei seu copo e mudei a bebida – Mas você não me respondeu por que não gosta de dançar.

Ainda parecendo hesitante, Jeon novamente trouxe o copo até a boca. Como eu esperava, o gosto da bebida junto às frutas daria um gosto melhor para ele. Apesar de ter sido terrivelmente engraçado sua cara, algo doce o faria esquecer o gosto amargo.

— No passado, houve algumas ocasiões em que eu era obrigado a dançar – disse – Belas moças de família com seus sorrisos tímidos. Meu pai sempre sorria orgulhoso para mim no momento em que me via no salão. Mas eu no fundo sabia o quanto aquele sorriso pra mim não significava nada a nãos ser uma tentativa covarde de filho modelo. Não me lembro uma vez que quis dançar por minha vontade – levou novamente o copo à boca – Na verdade, houve algumas vezes – falou com um leve sorriso como se pudesse ver uma memória só sua.

— Teve? – perguntei. Quem chamou sua atenção Jungkook a ponto de falar com tanto carinho?

Ele bebeu novamente.

— Na primeira vez que o vi eu estava só. Meus pais haviam feito uma festa de aniversário a Krystal. Na praça, perto de casa, quase toda a cidade havia vindo lhe ver, pois muitos gostavam dela. Eu apenas lembro que estava na varanda olhando o povo lá embaixo sorrindo, cantando e dançando como se não tivesse nada para se preocupar, como se logo o medo não os faria evitar até sair. Mas tinha essa pessoa que de todas, me chamou a atenção. Ele dançava só, como se precisasse apenas de si e da música. Eram passos tão... livres, sabe? – sorriu – Livres como eu jamais seria.

Dando uma pausa, pensei que o moreno não voltaria a falar, até que continuou.

— Na noite em que tudo aconteceu pensei ter o visto novamente. Dançando ao longe da sua maneira como sempre. Lembro-me de me imaginar indo até ele e chamando-o para dançar. Ali, no meio de todos. Queria que me ensinasse sua liberdade.

— Você fez? – mesmo com a garganta apertando, perguntei.

— Não. Jamais sequer consegui ver seu rosto.

Quando Jungkook contou-me sua história, eu entendi que grande parte do que ele chamava de covardia se devia ao fato dele não ter se envolvido com alguém de Isangha, no lugar de sua irmã. Talvez ele pensasse que dessa forma, ela estaria viva. Longe do canalha que os levou até aquela bruxa.

Todavia, como poderia ele saber? Como poderia se entregar um simples acordo político com uma qualquer por pressão dos pais? Se hoje ainda existem preconceitos, imagine em pleno século XXI dois garotos juntos dançando.

— Jimin – Hoseok chega como se tivesse o procurado por horas – O Tae não está muito bem. Acho que deram alguma bebida batizada pra ele.

Levantei-me. Taehyung apesar de gostar muito de beber, era muito sensível a qualquer tipo de droga e sabia disso. Ele não seria idiota de tomar algo sabendo. Devia ter sido algum babaca.

Yoongi estava em um dos sofás com um Taehyung semi-acordado.

— Vamos sair daqui – falei conduzindo-os até a cozinha dos fundos, onde não tinha muitas pessoas e o barulho era menor.

Jungkook, o mais forte ali, ajudou a segurar Taehyung. Eu não sabia o que se passava na sua cabeça. Se quando via o meu amigo ele via também o seu. Todavia, eles não eram os mesmos e esperava de o moreno visse isso também.

— Tae? – tentei chamar sua atenção.

— Eu tô bem – responde baixo – Só estou um pouco tonto.

— Traga água – fala Jungkook.

Yoongi como estava mais perto da geladeira, trás o copo de vidro e eu ajudo Taehyung a beber. Mesmo com a cabeça doendo, ele se força a tomar. Ficamos um tempo esperando-o se recompor.

— Eu tô bem, gente. Sério – volta a dizer – Devia ter prestado atenção quando aceitei a bebida.

— Acho melhor você ir pra casa – digo.

— Vou é porra – responde.

Ao que eu já formava um discurso enorme, Yoongi nem se deu o trabalho de responder, já tirando as chaves do bolso.

— Cala a boca e vamos – diz se virando.

Hoseok, também concordando como o outro, começa o seguir. Yoongi mal chega à porta da cozinha e suas chaves caem.

Hoseok, como estava bem atrás do mesmo, as pega.

Mas não as entrega.

Ele mira as chaves como se estivesse vendo-as pela a primeira vez – o que talvez fosse. Raramente saiamos com a van do irmão de Yoongi. Mas seu cenho franzido não me dava respostas do por quê.

Logo ele mete a mão no bolso da calça e trás um objeto.

Suspirei. Bem que eu tive o pressentimento que algo não ia prestar essa noite. É como insistir sair de casa, mesmo o céu cinza lhe dando um chamativo alerta vermelho cheios de pontos de exclamação. Mesmo que ainda o faça, no fim você sabe que foi burrice.

Hoseok segurava em mãos, um par daquele pingente de asas metálicas na qual ficara preso em suas vestes no dia de Halloween, então ergue uma das partes das chaves de Yoongi.

Ele os junta.

Encaixam perfeitamente.

Seus olhos seguem até Yoongi.

— Eu não acredito – sussurra.

Já prevendo merda, dou uma olhava fulminante para Taehyung em um aviso sério que não soltasse nenhuma piadinha e calasse a boca. Ele a fecha com um bico.

— Foi você – murmura o ruivo e como se para deixar claro a si mesmo e até todos, ele grita – Foi você, seu idiota!

— Gente – tento interferir – Conversem sobre isso feito pessoas civilizadas.

Eu sabia o quão irado Hoseok conseguia ficar quando mentiam pra ele. E o rosto desesperado do Min deixava claro que ele iria deixar o outro ficar irado o quanto quisesse.

— Hobi, eu... – o chama pelo o apelido de infância, os olhos ainda mirando as duas partes da chave – Eu...

— Você é um covarde, Min Yoongi – vocifera saindo num rompante, mas não sem antes jogar as asinhas junto à chave no chão.

Yoongi o segue.

Taehyung assovia. Eu sabia que dessa vez eu não controlaria sua boca.

— Eu avisei – fala.

Pressiono as mãos na testa.

— O que aconteceu aqui? – escuto Jungkook se pronunciar. E então sua voz confusa e mediante, tentando entender uma situação a qual claramente exigia uma boa dose de dramas adolescentes e beijos roubados, me fez rir.

— Eu não sei vocês, mas eu vou atrás desses dois, antes que se matem – falou Taehyung.

— Eu sei que você está apenas curioso, seu baderneiro – o acuso. Taehyung nem retruca, saindo saltitante como se não tivesse desmaiando a poucos minutos, atrás dos outros dois.

Eu e Jungkook voltamos para a festa, enquanto explicava-o toda a situação. Sua opinião era que Yoongi deveria se desculpar decentemente por ter o beijado sem permissão e que Hoseok tinha razão de ter ficado furioso. Eu concordei com ele.

No ambiente claro e reluzente, Jungkook falava fácil e se mantinha perto. O cotovelo encostado no balcão ao que segurava um copo, intacto. Nossos corpos virados um por outro enquanto observávamos cada uma de nossas falas, expressões, e risadas. Eu podia ver os sinais em seu rosto.

Eu estava quase o convencendo de que dançar não o faria se arrepender até a morte, quando um toque no ombro me chamou.

— Olá, Park – era Chanyeol.

Os óculos redondinhos ainda o acompanhava e o sorriso tímido.

— Iai, Chanyeol – respondi – Hoje você não é barman – indiquei a bancada.

— Desisti dessa profissão – responde e então me olha hesitante – Você... Quer dançar?

Dançar seria muito legal, não é a toa que eu estava a horas tentando arrastar Jungkook comigo. Todavia não quero o deixar sozinho e também existia o fato que com quem eu queria realmente dançar era esse velho pomposo de 189 anos.    

Eu já iria recusar, quando escuto a voz do moreno.

— Desculpe, mas já o havia convidado para esta dança – diz, como sempre muito educado.

Abro a boca e no momento seguinte ele me puxa para o meio do amplo espaço.

— Jeon... – começo falar, mas explodo em risadas – Você tem uma maneira muito engraçada de falar, já disse? “Já o havia convidado para está dança?” Qual é? Não é como se estivéssemos num baile.

— Apenas fui educado.

Hum. Uma coisa eu sabia. Já havia decorado todos os tons de voz de Jungkook e aquele usado com Chanyeol foi muito diferente do usado com, tipo, sua mãe ou amigos.

— Se você diz – dou de ombros.

Então tentamos dançar, o que resultou em várias risadas. Aquela jaqueta de Jungkook, os cabelos caídos no rosto risonho, a leveza em torno dele, a sensação de um leque de infinitas possibilidades a apenas um passo. Tudo isso me preenchia ao mesmo tempo. Inspirar. Expirar.

— Ok – coloco as mãos em seus ombros – Deixa eu te mostrar como eu faço. Me observe – vou me afastando de costas – Não pode rir.

Jeon leva a mãos ao peito como se repreendesse a possibilidade, mas eu tinha bastante ciência do quão fácil era para ele rir da minha cara.

Então eu danço.

As batidas guiavam meu corpo, ou seria melhor dizer que eu as guiava? Era intuitivo e sem regras. Dançar, se entregar era tão revigorante quanto correr na praia descalço. A brisa macia em suas pálpebras.

Por um momento é isso.

Movimento, calor e... Euforia. Uma explosão de estrelas me preenchia. Os olhos do moreno traçavam-me como um pincel. E por este mesmo momento, aquele sorriso que descobri ter tanto afeição, decorava sua face.

Eu sorri.

Rodei.

E de repente algo mudou.

Jungkook continuava lá me mirando infinitamente. Mas o sorriso se fora e os olhos mergulhado em contemplação, agora pareciam firmes em rocha direcionados a mim.

Senti, como se de alguma maneira, Jeon tivesse me vendo pela a primeira vez.

O que foi? – sussurrei através da música alta.

Mas ele permanecia parado lá, como se assistisse a um filme. Parando de dançar, fui até ele.

— Jungkook? O que foi?

As pupilas do outro passavam por mim inteiramente. Quase podia senti-lo me vasculhando.

— Jimin – ele disse.

Como eu já havia dito antes, eu conhecia todos os tons de Jungkook. E este pareceu particularmente novo.

Então ele sorriu.

— Tá tudo bem? – voltei a questionar. Temia que ele se deixasse afogar em suas antigas sombras.

Ele assenti.

— Sim, só... – pausa – Você estava incrível, é isto.

Estreito os olhos.

Antes que eu pudesse o acusar de péssimo mentiroso, um silêncio repentino rasga em volta.

A luz obscureceu.

— Ôh, quem foi o idiota? – ouço alguém reclamar.

— É a polícia? 

Posso sentir Jungkook ainda ao meu lado, então rapidamente enlaço seu braço. Não por medo, mas para não perdê-lo caso fosse realmente a polícia.

O que estava errado? Mesmo que a música tivesse parado, tudo aparentava ainda mais silencio. Os passos das pessoas de lá para cá, o tagarelar incansável. Tudo isso parecia abafado.

Disse a mim mesmo que havia sido apenas uma falta de energia. Alguém brincando com a nossa cara. Não havia motivo nenhum para repentinamente sentir isso.

Medo.

Um calafrio me subiu a espinha.

Eu não me mexia e, Jungkook ao meu lado, também não.

Uma brisa veio, primeiro leve, depois feroz. Meus fios balançavam violentamente.

Agora que eu pensava a respeito da situação, a casa não parecia nenhum pouco silencioso. Sob o silêncio, eu podia ouvir...

Asas?

Sussurros confusos como um milhão de asas batendo. Como um milhão de folhas rasgando. Como gritos a quilômetros de distância.

O aperto em volta de meu braço ficou maior. Eu podia sentir a respiração de Jungkook indo e vindo apressadamente. O que estava acontecendo? O que ele ouvira?

Tentei me concentrar naquele gralhar sussurrante. Confuso.

Mas era impossível. Era sintonizar numa frequência totalmente desconhecida da sua habituada, distorcida.  Mas no fim, como um aviso solto, eu pude ouvir. Uma palavra.

Uma ordem.

Entregue-o.

A escuridão foi-se como o vento e a luz voltou.

Pisquei os olhos.

— Mas que merda, ein! Não está vindo ninguém. Liga de novo o som.

E o som é ligado. A música é posta alta novamente. Os passos voltam com nitidez e as risadas são constantes.

Olho para todos os lados. Ninguém assustado. Ninguém dizendo algo do tipo, “Você ouviu aquilo?”

Irritei-me com tudo aquilo. Com tanta futilidade e despreocupação. Eles não sentiram isso? Esse frio, essa sensação de... Nada. Esse fervoroso rasgar de asas? Como se fosse uma escuridão muito maior?

Eles poderiam ser ignorantes o suficiente, todavia um olhar para Jeon e eu soube.

Eu não havia sido o único. E se eu tinha escutado apenas uma palavra, para Jungkook tinha sido um livro inteiro.

 


Notas Finais


Os sope se descobriram, opsss
Espero que tenham gostado, até a próxima.


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