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História Resquício - Capítulo 3


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Notas do Autor


Divirtam-se!

Capítulo 3 - Lúcio


Quanto tempo se passou mesmo? Dias ou semanas? Meses? Aqui estou eu de novo. Contemplando o túmulo branco com flores secas, tão sem vidas quanto Lílian. Tão inertes quanto meu coração, pesaroso com as lembranças de nossa última conversa. O nosso problema sabe, as nossas questões  estão em nosso pensamento de uma morte longínqua. Deixamos de ver o óbvio sobre a morte, então sem refletir falamos coisas sem pensar, tomamos atitudes imprudentes e colhemos seus amargos frutos.

Aqui, em meio as cruzes, contemplando a glória que os vivos dão aos mortos desatei a chorar como uma criança desesperada e sedenta por se sentir aliviada. Mais lágrimas queriam desatar a cair, mas uma presença se fez ser notada por mim; braços imponentes repousando sobre meus ombros, numa tentativa vã de me confortar. De dizer com gestos algo como, ‘vai ficar tudo bem’ ou ‘estou com você’. Uma presença que chegou silenciosa como os filmes apresentam os fantasmas e embora fosse minha irmã naquele túmulo, meus pelos eriçaram até mesmo onde pensei não ser possível.

A presença silenciosa era um homem preto, alto, másculo, bem apessoado de expressão séria escondendo enigmas por trás da face, escondendo de quem quer que pudesse dissolve-los. Roupas chiques e parecia estar certo de que eu era a pessoa que ele procurava. Não disse nenhuma palavra, mas permaneceu ao meu lado. Não olhou para o túmulo, nem mesmo para mim. Parecia um robô com os olhos fixos num ponto mais adiante entre os túmulos. Poderia ser um advogado, mas creio que não, pois não tinha nenhuma pasta, e esta não era a melhor forma de ter uma reunião ainda que particular, a menos que ele fosse um advogado do diabo, como os de bicheiros e bandidos. O que poderiam querer comigo, um homem condolente pelas palavras ditas – agora – amargamente num ímpeto de ira, e que jamais se poderia alcançar o perdão.

Sequei as lágrimas pensando a respeito. Deveria correr? Sim, pensei em correr, mas existe algo em mim que supera o medo: curiosidade. Quem é este cara diante do túmulo de minha irmã? Olhei para ele de verdade, pela primeira vez. Sua expressão ainda era a mesma, porém alguns traços revelavam impaciência.

_Já terminou? – Ele soltou do nada – Precisamos ir a outros lugares.

Aquilo foi uma surpresa. Um estranho, bem vestido dizendo que ‘precisamos ir a outros lugares’. Soltei sem nem se quer pensar um sorriso, tão inesperado quanto a aparição dele.

_Eu preciso ir para minha casa, tomar um banho bem gelado e duas xícaras de café. Forte, quente e doce. – Disse com certo sarcasmo, mas o homem reagiu como se gostasse do rumo que nossa conversa tomou.

_É livre para ir, mas se for só não será mais minha responsabilidade.

Já ouviu o ditado “ mais perdido que cego em tiroteio”? Este cara é doidão.

_Sua responsabilidade. – Franzi as sobrancelhas. – Nos conhecemos?

_Não, mas é necessário que a partir de agora você me acompanhe. Te levarei para um lugar seguro.

_Então você é um guarda costas. Creio que está se referindo a pessoa errada. Sinto muito. – Deixei-o só e divaguei para retornar a minha casa.

_Treze de janeiro do ano passado, um cara chamado Lucas morre por atropelamento. Sete de março, Fernanda: suicídio. Miguel a vinte e três de abril; afogado.  Dezessete de julho, Márcia encontrada sem vida, o marido preso como responsável. Vinte e dois de agosto, Fábio suicídio por depressão. Quinze de outubro, morte súbita para um rapaz de vinte e três anos. Quer que eu continue?

O rapaz citou todos os meus parentes paternos que faleceram no último ano.

_O que você quer dizer com isso? – perguntei.

_Não é estranho que uma família perca tantas pessoas num espaço de tempo tão curto? Você não questionou isso ainda?

_O que você quer? Em que os meus mortos te importam?

_Me importa que você não venha estar entre eles tão cedo. Precisamos de você. Precisamos daquilo que você guarda.

_Eu não sei do que você está falando, e não gosto de um cara estranho aparentemente sabendo mais coisas sobre mim que eu mesmo. – caminhei para as portas do cemitério.

_Por isso eu fui enviado. Minha missão é esclarecer sua razão e impedir que você seja assassinado até que cheguemos ao covil.

_Assassinado? Está dizendo que todos os meus parentes falecidos no último ano foram assassinados? É tipo uma lista e eu sou o próximo?

_É surreal não é? – O homem continuava a me acompanhar embora eu estivesse achando-o louco e tenha apressado o passo na tentativa – inútil –  de deixá-lo para trás.

_Eu não preciso de guarda costas. Você me entende? Consegue entender? Não preciso que me proteja das suas ilusões e não quero que me siga.

Alcançamos a calçada e aguardamos o sinal fechar. Adiantei o passo para me afastar do homem louco, passos curtos e rápidos, mas fui atingido por algo. Trotei com o impacto antes de atingir o solo ao som dos gritos desesperados. Outro impacto próximo. Bati a cabeça, mordi a língua. Sangue jorrou e minha pele ardeu. O que houve? O sinal não havia fechado?

_Que porra é essa? – Gritei furioso contemplando o caminhão que foi parado por um poste de luz, a fiação arrebentada soltando faíscas perigosamente. – Seu filho da puta! Não viu a porra do sinal, seu desgraçado?!

O homem louco? Lá estava ele, caído ao chão rodeado por bisbilhoteiros. Sangue empoçando o chão pintando uma obra de arte chamada morte.

_Tudo bem com você? – alguém perguntou ao louco – Você foi atropelado, fique deitado e não se mecha. Já chamamos um resgate adequado.

_Olha o caminhão! Vá ver você mesmo! Eles querem você morto! Volte pra sua casa! Vá embora! Eu vou te encontrar! Não se preocupe! Vou te achar! – O homem gritava de fato como um louco, mas gritava para mim.

_Como você está? – Alguém perguntou, eu ainda estava desnorteado com o impacto. – Ele salvou você, mas deve ter tido uma concussão. Age como louco.

_Eu vou ficar bem.

Ouvi boatos dos transeuntes a despeito do caminhão desgovernado avançar o sinal, e também sobre não haver ninguém na cabine, logo após o impacto no poste. O caminhão estava vazio.

Parti para casa. Não queria ficar preso com a burocracia dos policiais e enfermeiros até atestarem que eu estava bem e compreender todos os fatos.

_Que dia... Estranho. – Sentei no sofá apenas de cueca tomando meu copo de café depois de um banho bem merecido, mas o café deve esperar. Língua ferida, lábios inchados.

Exausto, adormeci.

A sensação era de liberdade. Pura liberdade. Tinha alguém comigo, e nós corríamos na floresta. Eu não podia vê-lo, ele havia ficado para trás. Isso não importava, ele não era importante. Eu me sentia livre, isso é o que importava. Havia me libertado de minha prisão e era libertador a sensação de cada junta, cada articulação se movimentando e toda a adrenalina acompanhando o pulsar do coração. O arfar de cansaço, os lábios secos e a desaceleração por causa dos limites do corpo.

Não me lembro de ter me sentido assim, tão leve como se o corpo fosse sustentado por quatro pés.

_Vamos parar? – O outro me alcançou a ponto de eu poder ouvi-lo.

Eu ignorei. Correr era o melhor remédio para minhas tensões.

_Não posso te acompanhar! Se correr mais vou cuspir minhas tripas! – Ele tinha razão. Quantos quilômetros havíamos percorrido?

Alcançamos uma fonte de água, um pequeno córrego de água azul, tão azul que refletia perfeitamente as árvores do céu.

Aproximei da margem, o cheiro da floresta era maravilhoso. Eu parecia fazer parte dela.

Eu vi um animal grande refletido nas margens, assustei e olhei para trás, não havia nada além de árvores. Olhei novamente e curvei a cabeça. O animal era um lobo gigante, bélico e imponente, mas não era só isso: eu era o animal.

_Como você aguenta? – O outro me alcançou e para minha surpresa ele era como eu, só que menor e cinzento.

_Eu não sei. – e contemplei de novo meu reflexo animalesco nas águas claras.

Batidas insistentes na porta da frente me trouxeram de volta. Casa escura, sol posto. Respirei fundo reclamando no silêncio da mente pela paz que me fora roubada. Mais batidas e batidas mais fortes. Deste eu não me livraria.

Abrir a porta pareceu uma tarefa difícil, a maçaneta e a fechadura estavam quebradas e por isso a porta estava emperrada. Não me recordava de tê-la encontrada assim quando cheguei e de fato não estava.

_Boa noite. – eu disse sem a pretensão de esconder minha insatisfação.

Era um dos vizinhos.

_Boa noite, eu só queria me certificar de que estava tudo bem com você. Sua prima me ligou. Estava preocupada e não conseguia falar com você. Ela disse que lamenta, e pede que eu te diga que o senhor Eduardo sofreu um infarto. Ele está no hospital, mas pede que você ligue pra eles.

_Ah, sim! Muito obrigado. Eu cheguei hoje e... Bom, não vi as mensagens ainda.

_Eu sinto muito. – tornou ele sendo mais enfático, isso era preocupante. – Parece que ele não vai resistir. Duas paradas cardíacas.

Houve um barulho de algo caindo na cozinha, o visitante pareceu curioso na mesma medida que eu.

_Muito obrigado. Eu irei ir para lá! – Eu queria me livrar dele, mas parecia que ele tinha algo mais a falar.

_A propósito... Belo carro.

_Ah... Certo. – Não fazia a mínima ideia sobre o que ele estava falando. Fechei a porta me perguntando se havia deixado algo ligado na cozinha.

Caminhei para lá sutilmente, afinal a maçaneta poderia ser sinal de arrombamento. Que imbecil passaria pela sala sem me ver no sofá? Cheiro de cebola queimada, alguém estava cozinhando.

_Eu não acredito. – Soltei quando reconheci o homem que me seguiu no cemitério. – Eu definitivamente não acredito.

_Ah!? Tudo bem se eu fazer alguma coisa? Meu dia não foi fácil. Você não tem carne fresca? Essas coisas devem estar aqui a meses. Tudo está babando. A propósito, a quanto tempo não limpa essa geladeira. Está péssima!

_O que você está fazendo aqui?

_Comida de verdade meu caro, aquelas sopas de hospitais são terríveis. Aquilo não faz bem a ninguém. É apenas barato e portanto bom para o orçamento apertado dos hospitais.

Ele jogou bifes de fígado na frigideira, em meio a vários condimentos.

_Estou perguntando sobre você estar na minha casa! Como me encontrou?

_Seu cheiro meu amigo. Sinceramente parecia que você não banhava há uns três dias, e a propósito você transou a noite passada. – A forma tranquila como ele disse me impactou. Onde estava o tabu sobre assuntos determinados ou os limites de privacidade um com outro, levando muito em consideração que ele não era nada próximo a mim.

_Como você?... Cara falar disso é nojento!

_Está bem melhor agora se te importa, e mais suportável também.

Ele pôs a mesa servindo os bifes mal passados, o cheiro era maravilhoso e minhas tripas deram nós revelando uma fome desnorteante.

_Você poderia preparar sua bolsa de viagem, vamos sair antes da meia-noite. Poucas coisas por favor.

_Vamos? – enfatizei.

_ Eu disse que te levaria comigo, mas estava dormindo tão profundo que decidi sairmos a noite. Deve ser mais seguro.

_Eu não estou indo a lugar nenhum com você! Eu preciso ir ao... – Ele me interrompeu.

_Não precisa não.

_Ele está morrendo!

_E você vai acompanhá-lo se for lá. Foi bom esse tempo, e você vir sozinho te deu uma camuflagem e eu tive tempo de me recuperar fisicamente. Já pensou que é isso que querem que você faça? Sair desgovernado, como um louco. Daria a eles um álibi perfeito.

Reparei pela primeira vez que em sua pele escura tinha uma mancha mais escura, uma ferida certamente do impacto de ser atropelado.

_Como assim?! Meu ente querido está preso a uma máquina, como se viver fosse uma prisão e a morte a liberdade.

_Você é muito lerdo cara. Por acaso você notou que está vivo porque eu te empurrei e fui atropelado no seu lugar? Já sabem sobre você, já sabem sobre esta sua casa, sobre sua rotina, quem são seus amigos, quem são seus parentes, aonde você vai, já possuem o teu cheiro, eles vão te matar. Devem saber até mesmo sobre mim.

_Não vou discutir sobre isso. Me diga: por que os médicos te deram alta no mesmo dia. Você não deveria... Sei lá! Ficar em observação?

_Você está tentando se livrar de mim? – Ele parou de comer, esperando minha resposta.

_Então você percebeu?

_Bom. – Continuou a devorar com a mesma intensidade de antes – Não vai funcionar. Como disse, esta é minha missão. Não estou aqui por que quero. É uma grande risco defender um homem que possui um alvo na testa, você vira alvo também.

_Certo. Como conseguiu alta? – ele riu com a pergunta.

_Não consegui, eu fugi. Aqui. – Ele mexeu nos bolsos do terno com manchas de sangue já escuras e secas – pode usar isso para ligar para seus parentes, - era uma aparelho celular aparentemente bem simples, com uma antena –  vai descobrir que seus aparelhos estão todos grampeados. Use eles primeiro, por gentileza. Vão perceber se você não for emotivo.

Disquei o número de minha prima e me diz conta de algo: eu não sabia para qual prima ligar. Então disquei para Marília, filha de Edu.

_Oi Carlos! Finalmente! O que aconteceu com você?

_Ah, eu... Estava correndo.

_Desde ontem! Porque não olha sua caixa de mensagem? Foi um sacrifício conseguir número do seu vizinho.

_Me desculpe. Como ele está? – Ela começou a chorar com minha pergunta.

_Ele não aguentou, assinamos os documentos e os doutores desativaram os aparelhos.

_Sinto muito.

_Vamos esperar você. Por favor venha logo.

_Certo, eu já estou separando umas peças de roupas.

_Obrigada. Te aguardo. Tchau.

_Tchau. – Fiquei em silêncio por um tempo.

_O mesmo jogo de sempre. Eles nunca mudam. – Meu guarda costas tornou.

_O que quer dizer? – Quis saber.

_O vizinho mencionou para quem você deveria ligar. – ele tinha razão, mas eu já havia percebido isso.

_Como sabe disso?

_Eles não esperam que nós tenhamos te encontrado. Ligue deste aqui agora.

Disquei novamente o número, não chamou, foi apenas para operadora.

_Este número está desativado ou impossibilitado de receber chamadas. – Desligou.

Estranhamente meus instintos estavam me dizendo para acreditar naquele homem. De alguma forma, tudo aquilo parecia fazer algum sentido.

_A propósito: me chamam Lúcio. Parece que vamos passar algum tempo juntos então é bom que me chame pelo meu nome.


Notas Finais


Desculpem a demora, muitos compromissos, pouco tempo. Sigam meu perfil por favor, assim ficaram avisados sobre alteração nas minha publicações.


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