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História Resquícios de esperança - Capítulo 3


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Capítulo 3 - A tempestade depois da calmaria


   As nuvens escureceram ainda mais toda a área da Rua do Vergalhão e das ruas adjacentes, talvez até de toda a cidade, de modo que a luz amarela alaranjada dos postes brilhava com mais intensidade. Isso aliviou um pouco os nervos do garoto, pois em poucas horas escureceria e ele não queria ligar as luzes de casa temendo que chamasse a atenção da polícia. Por que eles estavam fazendo aquilo afinal? A doença era tão perigosa ao ponto de ter que exterminar os enfermos? E aquela área estava mesmo infectada? Se fosse assim, ele também estaria e supostamente sentiria todos os sintomas da doença. Além disso, os policiais deveriam usar máscaras para adentrar num lugar contaminado ou também se contagiariam, então deveria ser seguro ficar ali, certo? Ou a doença era mais complicada que isso? Aleixo teve que empurrar essas questões para o fundo da mente e tratar das novas prioridades: tinha que consertar a porta da frente que tinha sido arrombada, limpar o rastro de destruição deixado pelos policiais e contatar os pais novamente para contar-lhes o que tinha acontecido.

   Começou por fechar as janelas do andar superior que os policiais tinham aberto, talvez para checar o perímetro de outro ângulo ou para ver se tinha alguém no telhado, e depois desceu para trancar tudo no andar inferior. A porta da frente estava caída na sala e o vento frio entrava livremente e gelava o ambiente e um irritante grunhido baixo, possivelmente de algum animal, tornava o ambiente extremamente desagradável e hostil. As trancas e dobradiças tinham sido completamente partidas, mas felizmente a toda a extensão do móvel permanecia intacta fora uma ou duas marcas de impacto e terra seca. Aleixo tratou de bloquear as janelas escancaradas pelos agentes rapidamente e correu em seguida para a despensa onde guardavam as ferramentas num pequeno amontoado de caixas de metal no cantinho do quarto que obrigou o garoto a se ajoelhar. O problema era que não tinha ideia do que deveria consertar nem por onde começar. Talvez só devesse erguer a porta e mantê-la em pé com algum suporte até os pais chegarem. A falta de notícias destes já estava começando a incomoda-lo demais, apesar de fazer poucas que falara com eles. Onde estariam?

   A resposta chegou um segundo depois quando seu celular vibrou no bolso e ele atendeu imediatamente a chamada do pai.

- Pai? – falou, levantando-se de um salto e indo para a cozinha, o irritante grunhido tornara-se mais alto. – Cadê vocês? Vão demorar muito? – ele hesitou em falar isso, mas não era hora para heroísmos e sim para preocupação. – Eu tô com medo.

- A gente tá chegando! – gritou o pai com várias vozes ao fundo falando ao mesmo tempo, algumas chorosas e amedrontadas. – Estamos quase no ponto! Os trens todos pararam, foi uma confusão gigante no centro e... Olha, fica calmo, tá bem? Vai segurando as pontas que a gente já tá chegando!

- A mãe tá aí com você? – perguntou com a voz falhando.

- Tá, sim, vou passar pra ela. Só um instante. – por alguns segundos só se ouviu os ruídos das pessoas praticamente gritando umas para as outras, mas logo a calmante voz de Helena adocicou seus ouvidos.

- Aleixo? Graças à Deus! Eu ouvi que a polícia tinha ido aí...

- Eles vieram, mãe! – falou Aleixo. – Eu fiquei escondido, mas vi eles... Eles...

- Eu sei, meu filho, eu sei. Mas fica calmo, tá bem? Quando a gente chegar vamos arrumar nossas coisas e sair daqui!

- Pra onde a gente vai? – perguntou Aleixo com uma lágrima, sem conter o medo na voz. – E como a gente vai? Não temos carro.

- A gente dá um jeito, tá, filho? – disse a mãe, pesarosa, porém mantendo firme a calma. – Vai arrumando as malas e põe toda a comida que tiver nas caixas que tem lá atrás, tá? Beijo.

- Beijo... pra você e pro pai... – respondeu ele.

- Beijão, filho. – falou Edson e desligou.

   Apesar das lágrimas e da sensação ruim que sentia por conta daquilo tudo, Aleixo se apaziguou um pouco com a ligação. Os pais estavam bem e logo chegariam e tudo iria dar certo. Eles sairiam da cidade e se refugiariam em algum lugar longe do caos, da tal doença e de toda a baderna que estava acontecendo na cidade. Recompôs-se rapidamente e decidiu voltar ao plano de erguer a porta e mantê-la escorada com algum objeto pesado. Ele enxugou sua lágrima e retornou à sala que para seu temor não estava vazia. Alguém, um homem de regata preta suja de sangue estava de costas para ele no meio do aposento e respirava pesado e arquejante e emitia um som arranhado. Aleixo gelou ao lembrar da cena terrível em que o policial atirara em seu estômago sem piedade, sem remorso, frio. Como o homem poderia estar ali depois disso? Como ainda não tinha ido ao hospital? Já estava tarde, o sol logo se poria e a pouca luz que conseguia atravessar o aglomerado de nuvens dificultaria qualquer coisa, pois aqueles postes velhos não iluminavam nada direito à noite. Ele engoliu seco e se aproximou um passo.

- O-olá? – chamou, cauteloso. – O senhor precisa de ajuda?

   O homem virou o corpo e lá estavam os buracos abertos pelos projéteis, o sangue seco que havia encharcado da cintura para baixo. A hemorragia tinha-o empalidecido terrivelmente e seus olhos estavam totalmente brancos com uma suave borda amarela ao redor e as veias vermelhas aparecendo ao redor dos olhos castanhos opacos pela brancura leitosa que dominara. O homem arquejava, mas seu peito não subia e descia; era como se seus pulmões não se enchessem de ar – era como se nem sequer estivesse respirando. A boca estava aberta e revelava dentes amarelos que bateram ao ver o garoto em a poucos passos à sua frente. Ele começou a andar em direção a Aleixo um pouco desajeitado como um bêbado, as pernas arqueadas, e mordendo o ar debilmente, porém sem tirar suas pupilas medonhas de cima do garoto.

   Aleixo recuou amedrontado de ré e correu para a sala de jantar, aterrorizado, e se posicionou no outro extremo do aposento, perto do balcão da cozinha que ligava os dois cômodos. Aquele homem já estava morto, lá estavam os tiros, lá estava boa parte do sangue que ele perdeu. Como ele estava de pé? E pior, atrás dele, querendo morde-lo? Ele não queria acreditar que fosse realmente um morto-vivo como nos filmes e séries. Não podia ser, era tudo ficção. O barbudo soltou um grunhido que lhe pareceu irritado e foi em sua direção. O garoto olhou em todas as direções da cozinha ainda atordoado com os pensamentos confusos e seus olhos pararam na pia. Tinha uma faca na pia, a que ele usara no almoço. Era pequena, mas tinha de servir. O cadáver era rápido, mas bastante estúpido e Aleixo o fez contornar a mesa para ganhar tempo arrastando uma das cadeiras e a colocando como obstáculo quase sendo agarrado pela mão da criatura – ele sentiu um ventinho frio no cangote ao se safar da captura – e correu para a pia da cozinha.

   O morto tropeçou na cadeira e foi ao chão, mas não pareceu sentir o impacto e prontamente começou a se levantar. Aleixo enfiou a mão na louça e catou os dois talheres duma vez, porém a criatura já estava atrás dele e antes que tivesse a chance de ataca-lo ele instintivamente cravou a faca em sua garganta e o empurrou com toda a força que a adrenalina lhe presenteou, deixando o garfo cair no chão, seu coração acelerado. O morto recuou cinco passos atrapalhados para trás e Aleixo não perdeu tempo. Se agachou para pegar o garfo, mas o talher escorregou de sua mão. O barbudo começou a se aproximar novamente. Aleixo tentou pega-lo mais uma vez, as mãos suadas e escorregadias, e conseguiu, mas o morto já se lançava sobre ele.

   A criatura desabou e Aleixo jogou o corpo para longe dele e rolou pelo piso frio de cerâmica com o garfo a salvo em suas mãos. A criatura espalmou o chão e começou a se erguer outra vez, mas o garoto não permitiria que ele investisse contra ele de novo. Aleixo se apoiou com uma mão no chão e dobrou os joelhos, levantando-se rapidamente e enfiando o garfo num olho do monstro, mas isso só atrasou seus movimentos. Imediatamente ele arrancou a faca do pescoço gelado do morto e cravou, segurando o cabo com as duas mãos, na testa do barbudo que parou enfim de se mexer. Uma poça de sangue escuro e viscoso escorreu do ferimento e Aleixo se virou para a pia para vomitar enquanto a água jorrava e lavava suas mãos ensanguentadas.

   Foi até o quintal tomar um ar incrédulo. Estava mesmo acontecendo aquilo? Sério? A tal doença era um vírus zumbi? A confusão e descrença logo se transformaram em lágrimas de horror, de tensão, de pânico. O que faria quando seus pais chegassem? Isto é, se chegassem? Cogitar que foram mortos, atacados pelos mortos ou se transformaram num deles era demais para o garoto, mas ele tinha que analisar todas as opções. Respirou fundo e começou a pensar no que fazer. Tinha que preparar tudo para fugirem dali rapidamente. Ele retornou à cozinha e viu o cadáver que tinha acabado de matar novamente. Era um humano, apesar da doença, e ele o tinha matado. Ele estava doente, precisava de ajuda e ele simplesmente o matou. Claro, ele não teve outra alternativa no meio do frenesi de medo e terror que o acometeu, mas ainda assim... como era grotesco um humano matar o outro quaisquer que fossem os motivos. Aleixo se sentiu enojado consigo mesmo, sujo por dentro. Matar monstros semelhantes a humanos na ficção era uma coisa épica, mas na realidade ainda era assustador.

   Ele ficou desorientado por um minuto sem saber para onde ir primeiro – tinha que buscar caixas para a comida e malas para as roupas, além de arrumar algo para usar como arma. Não gostava de armas, do barulho dos tiros, do que os tiros faziam, da violência que proporcionavam, do medo que era imposto somente por alguém possuir uma que fosse. “Daqui pra frente vai ser ainda pior”, pensou ele. Uma explosão seguida de uma gritaria no lado de fora o fez tremer e coisas pareciam estar sendo quebradas enquanto carros com sirenes de polícia chegavam. Aleixo correu escada acima de volta para a sala de visitas e olhou pela janela. Na Rua do Vergalhão uma multidão com tochas e coquetéis molotov gritavam, destruíam as garrafas no chão, incendiavam as belas e sinistras casas pontudas, batiam na polícia com paus, pedras, frigideiras e diversos objetos que tivessem em mãos. A polícia retaliava com tiros e bombas de gás. Uma casa começou a se iluminar e o fogo logo se espalhou por seu interior. Em seguida, outra queimou por reação em cadeia e logo várias residências estavam em chamas. O rastro de destruição já vinha de ruas mais distantes e um caminhão de bombeiros tentava apagar o fogo. Haviam outros carros, camburões, peruas com malas amarradas no teto, fuscas, vans de reportagem, ônibus todos num grande alvoroço e vindo de vários lados, um aglomerado de mortos. Aleixo não aguentou imaginar seus pais no meio daquilo e tentou ser positivo. Eles estavam escondidos, decerto, ou na casa de alguém por ali. Mas por que não ligaram ou mandaram mensagem avisando que estavam bem? Mais uma vez sufocou os sentimentos e desceu as escadas. Ergueu a porta e a pôs em seu lugar sobre a soleira e empurrou o sofá para bloqueá-la sem muito esforço já que já estava frenético de adrenalina.

   Não sabia se os pais viriam logo ou não, ou sequer se ainda viriam, mas seu instinto o levou a correr para o quarto, trancar a porta e se esconder debaixo da cama abraçado ao celular. Que eles lhe dessem algum sinal, mandassem alguma mensagem. E ela veio, surpreendendo-o. Tanto seu pai quanto sua mãe tinham enviado a mesma palavra com várias exclamações e erros de digitação: Sobreviva.


Notas Finais


Agora que realmente tudo começa a desandar...


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