História Reverie - Capítulo 14


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Categorias Histórias Originais
Tags Interativa
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Palavras 5.568
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 16 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Fantasia, Ficção Científica, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Shonen-Ai, Shoujo-Ai, Universo Alternativo
Avisos: Bissexualidade, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


ADIVINHEM QUEM ACABOU DE SAIR DE UM HIATUS!
Eu mesma, a duquesa de copas. Queria agradecer a minha mãe, meu pai, minha prima que eu não vejo há 10 anos, meu gato, a gata de uma íman, a própria íman, uma maçã, uma batata, e um pedaço de neve em uma estação inapropriada.

Tenho muitas notícias boas para vocês!

Para começar, eu tentei incluir o máximo de personagens nesse capítulo possível. Infelizmente era para ter mais uma transição aqui, o que significa que a Ellie e a Alice não vão aparecer ainda (sad), mas aparecerão na primeira transição do capítulo seguinte. Desculpem, eu realmente me esforcei para terminar isso hoje.

A segunda é que tenho uma grade para os NPCs! Ela está, de momento, ainda num processo meio wip, mas já poderão todos ver e apreciá-la. É muito boa, mesmo. c:

Esse capítulo tem nova exposição mas eu escrevi de modo a que mesmo quem não lembra direito dos detalhes da fic consiga compreender. Não precisam de voltar a reler nada, embora se quiserem mesmo sempre vá ajudar.

Capítulo 14 - The Three Goddesses


Aquele não era, definitivamente, o dia de sorte de Arìn.

O encontro com a criatura desconhecida durara no máximo cinco minutos antes do trio ser humilhantemente derrotado. Yuuta fora o primeiro a partir contra a mesma, mas o cansaço ainda presente da luta recente apenas resultara nele caindo no chão em poucos segundos e incapaz de se levantar pela dor. Arìn tentara usar a sua magia, mas a velocidade da outra era muito superior à sua, uma garotinha que até há pouco tempo nunca tivera de sequer ponderar a possibilidade de lutar contra alguém, pelo que foi incapacitada em meros segundos. Elise tentara ainda pegar na espada caída de Yuuta, de modo a lutar, mas rapidamente se rendeu após ver a criatura da noite na sua frente com as garras apontadas para o seu pescoço.

Aquela criatura da noite – cujo nome sequer conheciam – em muito assemelhava-se a uma mulher, não fosse pelas enormes orelhas canídeas surgindo por entre os seus cabelos castanho-claros, a sua cauda felpuda da mesma cor e as garras escuras no lugar de uma das mãos. Após prender os três uns aos outros com umas cordas improvisadas, não se demorou a enchê-los de perguntas sobre o porquê de estarem humanos tão dentro de uma floresta. Arìn foi quem respondeu, recebendo olhares de raiva de Yuuta e Elise por algum motivo que ela desconhecia.

Após alguns momentos de extrema ponderação, a criatura da noite mandou-os se levantar e segui-la pela floresta, ainda atados pelas mãos uns aos outros. Arìn era quem ia na frente, seguida por Elise e finalmente por Yuuta, seguindo o manto vermelho da mulher que balançava no ar de forma hipnótica.

Não tinha noção de quanto tempo havia passado quando chegou a uma enorme clareira. O lugar era particularmente bonito – um enorme lago se estendendo à sua frente, as árvores cobrindo o mesmo por todos os lados. A luz do sol entrava pela clareira, fazendo a água cristalina brilhar e um arco-íris se formar ao fundo, junto a uma pequena colina onde se formava uma igualmente pequena cascata. O que chamou mais atenção à garota, porém, não fora isso – logo ao chegarem, a criatura da noite os puxou para a direita, em direção ao que parecia uma pequena vila no meio da floresta. As casas estavam montadas em cima, em baixo e dentro das próprias árvores – com diversas pontes de cordas as unindo numa teia confusa por entre o arvoredo. Em nada se assemelhava à vila dos humanos, com as suas casas e tendas improvisadas com materiais quase aleatórios, esta parecia ter sido cuidadosamente esculpida de modo a se confundir com a própria floresta, o que, para Arìn, em muito lhe lembrava Astera, a sua casa.

Dirigiram-se por entre as habitações, algumas pessoas – que pareciam, em grande parte, elfos e criaturas da noite – os encarando à sua passagem com uma expressão curiosa. Chegaram a uma das várias plataformas de madeira que pareciam funcionar como meio para alcançar as casas superiores. Com um gesto rápido, a mulher-lobo indicou-os para se sentar, fechando a baixinha porta e puxando uma alavanca, fazendo a plataforma se elevar, as cordas que a suportavam rangendo até alcançarem o seu objetivo. Logo depois, caminharam por uma pequena ponte até alcançar uma das casas no meio da árvore. Parecia ser, definitivamente, uma das casas mais vistosas dali – a árvore à sua volta tinha sido coberta com uma pedra branca, a entrada adornada com formas ondulantes e abstratas e uma pequena estátua de uma elfa num dos cantos. Dois elfos com roupa de guarda estavam à entrada, mas eles sequer se mexeram quando o grupo passou por eles. Ao entrarem, foram logo recebidos com uma voz amigável.

- Já de volta, Victoria? Aconteceu alguma coisa? – Inquiriu. Depois, por trás de um biombo, saiu a mesma elfa que tinha sido esculpida na estátua, só que em vez de estar de pé, puxava numa cadeira de rodas de madeira. Ao vê-los, os seus olhos muito azuis estenderam-se em surpresa – Oh.

- Majestade. – Começou a criatura da noite, logo se baixando e apoiando em um joelho perante a elfa e fazendo uma respeitosa vénia. O seu olhar efusivo lançado para os outros três fez com que também eles repetissem o gesto. – Encontrei esses três humanos na floresta.

- Na verdade, eu sou uma ma—

- Não me interrompa. – Cortou Victoria rispidamente, antes de retornar a sua atenção à elfa. – Eles parecem feridos. Segundo o que me contaram, a vila humana nos arredores da floresta foi atacada por criaturas da noite. Ainda assim, fiz questão de os subjugar e prender, pois estavam perigosamente perto daqui.

A elfa voltou a encarar o trio numa expressão indecifrável. Parecia que ela sequer tinha ouvido o que a mulher disse, perdida nos seus pensamentos antes de voltar a falar. Demorou algum tempo, ao ponto que o joelho de Arìn já doía.

- O que é que você disse que era? – Inquiriu num quase murmúrio, virada para Arìn.

- Uma magi. – Explicou-se. – Eu venho de Astera, um mundo diferente dess—

Porém, a elfa elevou a mão delicadamente, o que de alguma forma Arìn compreendeu que era sinal para que se calasse – não era costume da garota perceber aquele tipo de coisas. Com um aceno afirmativo, a elfa voltou a cair nos seus pensamentos antes de voltar a falar.

- Isso é certamente… uma boa coincidência. Pensar que um deles estaria aqui... Oh, por favor, levantem-se, levantem-se. Não há necessidade de ficarem assim durante tanto tempo. – Indicou, agitando a mão para cima e sorrindo amigavelmente – Bom, isso é certamente uma surpresa, mas uma boa surpresa. Victoria, desate-os.

A mulher encapuzada acenou afirmativamente, elevando a sua garra e cortando as cordas em um gesto rápido com as suas unhas afiadas. Posto isso, a elfa continuou.

- Peço desculpa pelo mal-entendido. Vocês sabem, nos tempos que correm, é difícil de saber em quem confiar, e tendo em conta o meu estatuto, é de se imaginar que Hécate queira enviar algumas pessoas para me controlar, no melhor dos casos. Oh, vocês parecem confusos. Desculpem, eu vou começar do início. O meu nome é Taika.

Levou a mão ao peito, como que se precisasse disso para deixar claro que falava dela mesma.

- Estou a ver que vocês os dois já perceberam quem eu sou. – Comentou casualmente – Mas a mais nova não. Bom, suponho que seja normal. Não é daqui, afinal. Como pode ver, garotinha, eu sou uma elfa. Porém, não sou qualquer elfa, como também sou uma das três deusas de Ignis Fatuus. Eles dão-me o título de Taika, a protetora dos elfos.

Arìn voltou o seu olhar para Elise e Yuuta. Ambos estavam com uma expressão surpresa, até mesmo um tanto chocada, dando-lhe a entender que eles sabiam quem ela era. Porém, para a magi, além de particularmente interessante (que tipo de implicações isso teria para sua pesquisa? Conseguiria ela ajudá-la?), aquela mulher lhe dizer que era uma deusa ou que era uma mendiga tinha-lhe praticamente o mesmo significado. Porém, havia algo que pairara na sua mente, e talvez pelo seu olhar caindo na cadeira de rodas sobre a qual a elfa de sentava, a mesma pareceu adivinhar a questão que se seguiria.

- Bom, eu não sou mais do que uma mera sombra do que era antes. – Comentou, um tanto desapontada. – Por isso não sou realmente capaz de vos ajudar muito.

- Porquê? – Inquiriu Arìn, avidamente procurando por mais informação. Victoria soltou um esgar irritado e provavelmente ia dizer alguma coisa, mas foi parada por Taika que, mais uma vez, elevou a mão como que pedindo licença.

- Qual é o seu nome? – Perguntou, sorrindo maternalmente.

- Arìn.

- Pequena Arìn. – Repetiu a elfa, com um sorriso. A garota sentiu-se meio incomodada de ser chamada de "pequena"; mas optou por não comentar nada. – Para explicar a você, e a todos os três aqui presentes, o porquê de eu estar nesse estado, tenho que te dar uma pequena explicação da génese Ignis Fatuus. Parece-te uma boa ideia?

A loira acenou afirmativamente, interessada. Taika voltou a sorrir, e então agarrou nas rodas da sua cadeira e começou a deslizar pelo pequeno quarto, até alcançar uma pequena mesa onde, com um aceno, convidou os presentes a se sentarem mais confortavelmente. Depois, logo começou sua pequena história.

 

Ignis Fatuus existe muito antes de vocês ou até mesmo eu sequer nascermos. É dito que, antigamente, era um lugar em constante mudança, começando com algo simples como uma pequena cidade e evoluindo para um grande planeta. Dizem que ele não passava de um experimento de alguém, alguém que o criava e testava teorias, criava histórias e pessoas para ver o que acontecia. Não se sabe ao certo o quanto disso é verdade, pois ninguém sobra desses tempos. Porém, a certa altura, nós nascemos.

As três deusas de Ignis Fatuus, cada uma encarregue de cuidar de uma das diferentes raças inteligentes do planeta.

Hécate, mãe das criaturas da noite.

Capala, governante dos humanos.

E é claro, Taika, protetora dos elfos.

Cada uma tinha uma especialidade que lhe permitisse seguir o seu cargo. Capala tinha uma inteligência superior, permitindo que guiasse os humanos a criar toda uma tecnologia superior e avançada comparativamente a qualquer uma das outras raças. Eu, por outro lado, era dotada da maior magia de toda a Ignis Fatuus. Para proteger os elfos, elevei a cidade onde habitávamos aos ares, e vagueámos pelo mundo nos céus, observando os outros enquanto procurávamos outro tipo de conhecimento. Hécate, por outro lado, era diferente. Ela tinha a capacidade de criar novas criaturas, criar toda uma população conforme lhe apetecesse. É por isso que, até hoje, não existe uma criatura da noite igual à outra. Todas elas são criações únicas de Hécate, a mãe de todas elas.

Durante muito tempo vivemos as três em paz. Na verdade, atrevo-me a dizer que fomos grandes amigas. Porém, a certa altura, algo terrível começou a acontecer. Ignis Fatuus, um mundo próspero e repleto de magia, começou a demonstrar sinais de decadência. As florestas móveis de que tanto se falavam começaram a ter os seus movimentos diminuídos. Pétagma, a cidade que eu tinha elevado nos céus, agora diminuía a sua altitude a um ritmo constante. Preocupada, voltei-me para Capala, esperando que ela tivesse alguma boa notícia para me dar. A informação que ela me deu foi, sinceramente, inesperada.

Capala informou-me de que acreditavam na existência de um multiverso, onde vários mundos coexistiam sem nunca se conectarem entre eles. Ela tinha motivos para crer, também, que eles dão força uns aos outros, mantendo-os vivos e livres da destruição. Porém, por algum motivo, Ignis Fatuus havia perdido o seu elo. Estávamos morrendo, e eramos como uma bomba relógio do planeta. Porém, Capala tinha uma solução.

Se Ignis Fatuus não tinha alguma conexão com os outros mundos, teríamos de forçá-la. Assim sendo, ela mesma desenvolveu máquinas potentes o suficiente para trazer habitantes de outros mundos para o nosso. Segundo ela, a mera presença dos mesmos estagnaria a constante morte de Ignis Fatuus, efetivamente nos salvando. Porém, para isso funcionar, tínhamos que trabalhar todas juntas.

Para fazer tal coisa, era necessária muita magia. É claro, eu logo me predispus, e Capala criou uma máquina que fosse amplificar a minha magia ainda mais. Isso seria o suficiente para criar uma ligação aos outros mundos. Depois era necessário garantir que os indivíduos cá chegassem em segurança, inteiros e vivos. Foi aí que o poder de Hécate se tornou útil, com o seu poder de criação. Em meros meses estávamos prontas para pôr o plano em prática e salvar o mundo.

Mas é claro, se tudo tivesse corrido tão bem, talvez nenhum de nós estaria aqui conversando. Os dois jovens estariam em Nova, eu estaria em Pétagma cuidando do meu povo e Victoria estaria ainda em Elysium. Poucas semanas antes do primeiro experimento, fui abordada por Hécate. Segundo ela, as invenções de Capala suportavam apenas uma utilizadora, e não duas. Assim sendo, ela me veio pedir que eu lhe transferisse a minha magia temporariamente, e ela mesma suportaria o fardo… E eu, boba e ingénua, limitei-me a acreditar nela. Não durou muito para que eu percebesse o grande erro que cometera. Após ter transferido tanto poder mágico quanto conseguisse para Hécate, ela limitou-se a desaparecer sem resposta, deixando-me sozinha no meu castelo de Pétagma, confusa e ainda exausta do processo doloroso que acabara de passar. Nunca mais recebi notícias de Hécate e Capala. A magia de Ignis Fatuus não parecera melhorar, também. Assumi apenas que Capala havia sido enganada da mesma forma que eu fui, e Hécate nos traíra às duas, destruindo quaisquer hipóteses do nosso plano dar certo.”

 

Taika fez uma pequena pausa, a expressão pesarosa. Arìn encarou-a, curiosa. Ainda não recebera a explicação para ela estar ali, no meio de uma floresta, e não na dita cidade voadora de elfos.

- Não durou muito até que eu percebi as verdadeiras consequências da magia desaparecer. – Explicou, preocupada – Você sabe, maior parte dos seres de Ignis Fatuus utiliza a magia como energia vital. É claro, quanto mais magia eles usam, mais eles precisam. Os elfos são dos seres que mais magia utilizam desse mundo.

Uma pequena lágrima surgiu no seu rosto, a qual Taika logo veio a limpar com um pequeno lenço que retirara do bolso. Victoria interveio prontamente.

- Majestade, você não precisa…

- O-oh, está tudo bem. Eles necessitam de saber, mais cedo ou mais tarde. – Fez mais uma pequena pausa, como que ganhando coragem – Tendo em conta a diminuição da magia no mundo, os elfos foram os primeiros seres a senti-lo. Inicialmente, era só um certo desconforto, só que a certa altura, era pânico. Os elfos começaram a agir… de forma diferente.

Engoliu em seco, como se a mera recordação fosse dolorosa.

- Era como se entrassem num estado primitivo de auto-preservação. – Explicou – Quanto mais poderosos fossem, mais afetados eram. Alguns nunca o foram. Os elfos começaram a se assassinar, a destruir a cidade, os artefactos mágicos que tínhamos. Destruindo a competição que tinham por magia, como se de animais se tratassem. Nenhum deles tinha noção… Nenhum deles conseguia se controlar… E eu, agora fraca, não fui afetada, e apenas pude ficar a ver a destruição da cidade que prometera proteger sem poder fazer nada…

As lágrimas caíram no tampo da mesa, a elfa já incapaz de as impedir a todas de cair com o seu lenço. Inspirou fundo, o lábio inferior tremendo antes de continuar.

- A certa altura, alguns guardas que n-não tinham sido afetados pela condição apareceram e m-me resgataram. Não fosse eu imortal, provavelmente teria morrido no meio daquela confusão, atacada pelos meus próprios súditos. Quando escapámos ainda encontrámos outros fugitivos sãos, e viemos todos para aqui, para Tortue.

- Sendo a única floresta imóvel de Ignis Fatuus, é um lugar seguro e inteligente para escolher. – Elogiou Victoria – Embora previsível. Vários de nós, criaturas da noite que não queriam seguir as ordens de Hécate, já tinham vindo para cá e construído essa vila onde poderíamos viver em paz. E mais tarde, vocês, humanos, criaram uma vila nos arredores da floresta.

- É um lugar realmente contestado. – Concordou Taika, recompondo-se. – Bom, mas essa é a minha história.

- Só tenho uma dúvida… majestade. – Começou Elise, nervosa. A elfa ergueu os olhos, como que lhe incentivando a continuar. – Porque é que… porque é que nos contou estas coisas todas?

- Bom, a pequena Arìn aqui é a prova de que o plano, na verdade, resultou. – Explicou-se a deusa – Já há algum tempo que eu tenho notado que a magia de Ignis Fatuus parece ter estagnado, e possivelmente recuperado um pouco. Agora, tenho motivos para acreditar que isso não é apenas um delírio meu. Porém, tenho motivos para acreditar que a presença de pessoas de outros mundos em Ignis Fatuus não é algo que a Hécate quer. Assim sendo, eu venho-vos fazer uma pequena proposta, especialmente à pequena Arìn.

A sua expressão era agora séria, profissional. Os momentos emotivos pareciam já ter sido anos atrás, e agora era a hora das negociações.

- Eu desejo que criemos uma aliança contra Hécate.

 

– X –

 

O caminho para Elysium era longo e árduo, especialmente tendo em conta que a cidade em si não parava quieta em um lugar em particular. Gamaliel arrastava os seus pés por entre os campos longos, parando ocasionalmente para ver alguma coisa fantástica que nunca vira antes – como um pássaro do tamanho de uma cidade inteira com uma floresta às costas passando a voar por cima deles, a sombra que ele deixava por baixo de si os cobrindo durante uns bons dez minutos até que ele se afastou e, eventualmente, desapareceu no horizonte. Outras vezes, ele limitava-se a fitar a grama verde por baixo de si mesmo, descobrindo com encanto a existência de pequenas peças de xadrez com o tamanho de insetos pulando à volta dos seus pés. Porém, os momentos em que ele se detinha para observar aqueles pequenos detalhes eram sempre diminutos, pois logo Chijindum comentaria como pausas apenas diminuiriam as probabilidades de encontrar a cidade ou Hawen perguntaria, numa expressão enfadada, se ele já estava cansado demais e se precisava de uma pausa.

É claro, Gamaliel, sendo o único humano ali, era o que mais depressa se cansava, e isso era uma facada no seu orgulho mais profunda do que ele queria admitir. Chijindum era a guia do trio, deslizando numa posição estática de uma forma muito pouco natural, mas infatigável. Hawen, a maior dos três, era obrigada a dar passos bem menores do que o normal para não acabar na frente, o que lhe frustrava particularmente. Além disso, o seu corpo de Jää parecia muito mais habituado a cobrir longas distâncias sem uma única pausa do que o dele. Após cinco horas a andar sem uma única pausa, não só Gamaliel já tinha fome como as suas pernas já estavam dormentes, mas as outras duas não pareciam minimamente afetadas. Assim sendo, ele nada dizia – fazia questão de não ser ele a dar a parte de fraco e pedir por uma pausa.

- Devemos parar agora. – Afirmou finalmente Chijindum, para seu grande alívio – Há ali uma árvore da qual podemos aproveitar a sombra e onde vocês poderão comer o que Vahid nos forneceu.

- É realmente seguro a gente comer isso? – Inquiriu Hawen, torcendo o nariz com incerteza. A fantasma limitou-se a flutuar até à zona da sombra onde se voltou para os outros dois e os encarou por baixo da sua máscara agora rachada. – Chijindum?

- Sim?

- Eu te fiz uma pergunta. – Resmungou a Jää.

- Sim, é seguro. Vahid disse a verdade sobre nos querer ajudar. – Afirmou melodiosamente. Gamaliel soltou um suspiro, sentando-se bruscamente sobre o chão e cruzando as pernas, o alivio de finalmente parar um pouco tomando conta de si por uns momentos antes de finalmente abrir a sua mochila. Tateou o seu interior magicamente aumentado, procurando por uma das várias comidas fornecidas pelo elfo, decidindo pegar num pote de arroz com frango e tirando para si mesmo. Enquanto Hawen procurava algo para si mesma, o homem fez questão de reclamar.

- Ele definitivamente nos ajudou imenso, deixando a Lue virar uma assassina superpoderosa.

- Afé focê figou fodsida. – Comentou Hawen ao mesmo tempo que enchia a boca, grãos de arroz voando para todo o lado. Embora Gamaliel tivesse lançado um longo olhar de desaprovação, a fantasma não pareceu muito incomodada.

- Aquela mulher, Hécate, é capaz de criar novas verdades. – Explicou com a casualidade de quem afirma que a cor do céu é azul – Ela criou uma nova verdade para Vahid, assim como também criou uma nova verdade para Lue, agora Lubentina. Eu não estava preparada para tal. Porém, Vahid não é portador de tal poder, logo não serei enganada por ele.

Hawen revirou os olhos, enfiando mais uma enorme garfada de carne na sua boca.

- Focê fabe, ifo é oito arroande. – Engoliu ruidosamente o que estava a mastigar e soltou um sonoro arroto.

- Não é arrogância, é a verdade. – Contrapôs Chijindum sem hesitações. Hawen parecia que queria falar, mas foi interrompida por um acontecimento súbito no céu. Como se alguém tivesse carregado em um interruptor, a luz começou a desaparecer e, em menos de dois minutos, as estrelas brilhavam no céu. No meio delas, uma Lua em quarto minguante surgira, por cima do que seria uma cidade ao fundo. Não foi preciso dizer nada para que Hawen e Gamaliel se levantassem em um pulo, a primeira quase derrubando a sua taça ao chão.

 

A cidade era estranha e um tanto desconexa. Algumas partes pareciam futurísticas, com as luzes de néon multicoloridas dos prédios iluminando fracamente as ruas estreitas por onde o trio passava. Outras, por outro lado, pareciam tradicionais ao ponto de relembrar a Gamaliel a sua casa, com casinhas pequenas tomando o lugar dos prédios que apareciam ao fundo. As ruas subiam, desciam, cruzavam-se em diversas pontes em ângulos estranhos fazendo com que aquele lugar fosse um autêntico labirinto. Os indivíduos que passavam por eles eram todos muito distintos uns dos outros. Alguns eram mais altos que até mesmo Hawen, outros eram tão pequenos que tinham de ter cuidado para não os pisar. Alguns eram alados, outros rastejavam sem pernas, e mais uns ainda coxeavam de uma forma pouco natural. As ruas estavam sempre parecendo cheias, mas nenhum daqueles indivíduos olhara para eles – ou pelo menos, era isso que Gamaliel preferia acreditar. Passavam todos direto, como se o trio fosse invisível, mesmo com Chijindum avançar por entre as ruas sem hesitações com uma enorme bola de luz a guiando. 

- Hey, fantasminha. – Sussurrou Hawen a certa altura, após se desviar de um sujeito corcunda com um enorme capuz, que utilizava uma igualmente enorme pá como bengala – A gente está perto?

- Apenas mais um pouco. – Respondeu Chijindum, a voz tilintando como um sino.

De tempos a tempos, Gamaliel levava a mão às costas, palpando o cabo duro da sua lança enfeitiçada, confirmando a sua presença. Aquele lugar era, no mínimo, desconfortável. Atravessando um pequeno beco no meio da rua principal, acabaram numa zona coberta com uma abertura no centro, onde o homem conseguiu perceber que se encontravam a vários andares acima do solo. As luzes festivas e decorações de vários tipos de culturas mesclavam umas com as outras, o calor das possíveis centenas de pessoas caminhando por ali deixando a sua face ruborizada.

- Por favor, tenham cuidado. – Avisou a fantasma num tom pacífico – Esse lugar parece ter efeitos hipnóticos. Certifiquei-me de vos proteger, mas não se afastem muito.

Foi quando notou que, à volta dos três, estava uma pequena esfera de luz que Gamaliel assumiu ser um escudo. As pessoas sem rosto continuavam na sua investida pelo passeio de madeira, dando encontrões umas nas outras enquanto avançavam para um lado específico, mas não pareciam atravessar aquela pequena barreira, dando aos três um pouco mais de espaço para respirar. Mas isso não era o suficiente para deixar nenhum deles mais confortável.

- A gente tem realmente de estar aqui? – Comentou Hawen. Não escondia o seu desconforto, a sua posição claramente defensiva, e Gamaliel sabia que ela agora se arrependia da decisão de ir procurar os outros. Não a censurava, mas para ele isso não era tanto uma decisão quanto era uma obrigação. Salvar os outros era o que ele nascera para fazer, afinal.

- Estamos muito perto. – Não parecia uma resposta, mas mais uma aviso de Chijindum enquanto voltava a avançar por entre as pessoas, os outros dois praticamente colados à mesma – Ali.

Quando finalmente se libertaram da multidão, já não estavam na zona coberta. Em vez disso, estavam numa enorme abertura por entre os edifícios com uma fogueira de vários metros de altura ardendo no meio. As sombras dançavam de forma estranha umas com as outras antes de, enfim, serem lançadas para a fogueira, como que num ritual macabro e sem sentido. No meio deles, conseguiam ver Aenerys, saltando de um lado para o outro feita uma louca, o rosto corado como se tivesse uma febre particularmente grave e o olhar vazio.

- É ela! Ah, porra, como é que ela se chama? – Resmungou Hawen, levantando o braço para chamá-la. – Ó garota!

Aenerys, porém, não parecia ligar, continuando a saltar de um lado para o outro numa dança louca, as asas batendo ligeiramente quando ela levitava nos ares por um minuto para dar uma pirueta com uma mulher aleatória.

- Ela não nos ouve. – Concluiu Chijindum, como se o seu parecer desse o ponto final naquela história. – E o seu nome é Aenerys.

- Então vamos lá pegá-la! – Comentou Gamaliel, pegando a sua lança num movimento rápido. – Ela deve estar pega por essa tal hipnose, certo? Temos só de acordá-la!

Chijindum acenou afirmativamente antes de responder.

- Correto. Porém, não sei como fazê-lo. – Afirmou com simplicidade. Hawen grunhiu, irritada.

- Bom, vamos só tirá-la daqui primeiro e depois a gente vê.

- Se eu fosse a vocês não faria isso, MAAAS vocês é quem sabem. – Disse uma voz feminina vinda de cima. O trio voltou as suas atenções para cima, vendo uma garota de cabelos castanhos e olhos azuis sentada em cima do telhado de uma das casas enquanto lambia um sorvete descontraidamente. Fez uma careta logo a seguir, jogando o mesmo para o chão com uma expressão enjoada.

- É, você tinha razão. – Comentou para a outra que estava ao seu lado, uma criança de cabelos roxos até ao fim das costas com uma expressão um tanto incerta. – Essas coisas são horríveis.

- Bom, eu só achei que esses… seres – Disse a menina de uma forma tímida, dando uma ênfase estranha à palavra “seres” e pausando por um segundo antes de continuar – Não iam comer nada que você fosse gostar, Charlotte.

- Ah, Seren. Você é muito chata, viu.

- E-eu…

- Brincadeirinha. – E a tal de Charlotte fez um sinal de “ok” com a mão e piscou os olhos. Levantou-se, sacudindo lentamente as pernas antes de se lembrar do trio que estava lá em baixo. – Ah é! Então, como eu estava dizendo, eu não tocava na garota louca dançando ali no meio.

Fez uma pequena pausa, voltando as suas orbes azuladas para Aenerys antes de continuar.

- A não ser que vocês queiram morrer, quero dizer.

 

– X –

 

A caminhada para Nova era mais longa do que parecia, e certamente uma que Sora não estava interessado em fazer. Porém, após tudo o que acontecera, voltar para a vila para encontrar vários corpos não era algo que lhe dava muita vontade, um sentimento certamente partilhado por todos os outros. Após terem sido abandonados e Arìn ter desaparecido, Eros fora quem tomara a posição de liderança, para grande surpresa do albino.

Vamos para Nova.” Recordava-se o rapaz de ver o loiro a afirmar sem quaisquer dúvidas “Tenho a certeza que vamos ter respostas lá. Eu preciso… eu preciso de compreender o que está acontecendo.”

Sora e Isaak protestaram, mas Silas parecia concordar com Eros. Após uma pequena discussão sobre o que fazer, acabaram por aceitar a sugestão do loiro – que parecia, pela primeira vez desde que se conheceram, bastante convicto em levar a sua avante. Por causa disso, estavam agora em direção à cidade de onde supostamente todas as pessoas naquela pequena vila tinham fugido.

O falcão de Sora esvoaçava pelo ar em cima deles, patrulhando a zona antes de finalmente pousar no seu ombro e piar afetuosamente. O rapaz sorriu, levando a mão à nuca do animal e o coçando ligeiramente como se de um gato se tratasse.

- Está tudo livre à nossa frente. – Confirmou por fim. Ninguém respondeu, mas o rapaz também não esperava por uma resposta. Cada uma das pessoas daquele grupo estava preso nos seus próprios pensamentos. Ironicamente, ele gostaria que Arìn ainda estivesse ali, pois a garotinha pelo menos volta e meia quebrava o silêncio enquanto pensava alto com vários termos técnicos e incompreensíveis. Isaak, porém, pareceu aperceber-se do quão desagradável estava aquele ambiente ao mesmo tempo que Sora, pelo que lhe soltou um sorriso amigável.

- Como é o nome dele? – Inquiriu, o seu olhar saltando para o falcão ao ombro do albino. Sora encarou o animal como se o estivesse a ver pela primeira vez.

- Eu… Sabe, na verdade, no meio disso tudo, acabei esquecendo de lhe dar um nome. – Comentou, coçando a cabeça. Isaak soltou um riso abafado.

- Bom, é melhor pensar num, nesse caso. – Disse com simplicidade. – Que tal… Hm, sei lá. “James”?

Por algum motivo, a imagem de um homem de cabelos roxos e olhos verdes surgiu na cabeça de Sora, o que o fez automaticamente recusar o nome.

- Isso… não parece combinar muito com ele. – Afirmou, pesaroso. Silas fez um som ao soltar ar pela boca, mas o seu significado era indecifrável.

- Parece nome de veado. – Afirmou por fim, após algum tempo. Eros se voltou para o garoto, elevando a sobrancelha em confusão.

- Você devia de dar alguma ideia, então. – Sugeriu o loiro pacificamente. O soldado bufou em resposta, impaciente.

- Não sou bom com essas coisas. – Disse por fim. Dessa vez, era Isaak que insistia.

- Aposto que você consegue achar um nome ótimo. – Comentou, sorrindo de forma motivadora. Coçando a nuca, o homem finalmente responder.

- Tá. Calma aí. – Ele olhou em volta, até encarar (ou pelo menos, parecer que encarava por trás do capacete) uma planta aos seus pés. – Flor.

- Isso foi o melhor que você achou? – Zombou Sora, rindo ligeiramente. O homem bateu com o pé no chão, irritado.

- Então não me chateiem! – Rugiu, logo fazendo o sorriso do albino desaparecer, fazendo-o dar um salto para trás com o susto.

- E que tal “Cosmo”? – Apressou-se Eros a intervir, tentando desviar a atenção do outro – Sabe, tipo cosmos, universo. Parece digno, visto que a gente não vem daqui e tal?

Sora voltou a sua atenção para o pássaro, como que lhe inquirindo o que ele achava o nome. O animal piou, satisfeito com a opção, e o rapaz logo acenou afirmativamente em concordância.

- Ele gostou. – Declarou, fechando o assunto. Isaak levantou a mão, apontando para a frente.

- E mesmo a tempo. Parece que chegámos.

À frente do grupo, uma enorme cidade elevava-se, os edifícios centrais mais altos perfurando o céu com a sua altura imensa. Estava rodeada de uma enorme muralha, mas eles encontravam-se à frente da entrada que, para a surpresa de todos, estava completamente deserta. Fitando-se uns aos outros de forma incerta, começaram a adentrar a cidade com alguma hesitação.

Na opinião de Sora, parecia um lugar sujo e desagradável. Embora os prédios ao fundo tivessem um aspeto futurístico, a zona logo à entrada parecia antes um ferro-velho: estava cheia de pedaços de metal espalhados amontoados em todas as direções, fazendo pequenas montanhas de lixo que se sobrepunham às pequenas e rasteiras casas que se encontravam abandonadas ali no meio. Alguns carros também eram visíveis: e também esses estavam completamente inutilizáveis, faltando várias peças essenciais ao seu funcionamento. O primeiro sinal de algo mais ali se movia foi quando um pequeno robô acastanhado apareceu por entre o lixo metálico, abrindo um compartimento dentro dele puxando o entulho para dentro de si com os seus braços mecânicos antes de sair para outro lugar, voltando a deixá-los completamente sozinhos.

Ainda assim, Sora não conseguia deixar de sentir que estava a ser observado.

Caminharam silenciosamente por entre as montanhas de desperdício metálico durante uns longos minutos até alcançarem o que parecia a primeira rua habitável dali. Aquela zona já parecia mais dentro da cidade, com os prédios altos adornando cada lado da rua, e algumas lojas com letreiros coloridos brilhando ao seu lado. Porém, a atividade humana parecia nula. Sora aproximou-se de uma loja que parecia ser um café de nome “Bubble Pop!”, olhando por entre a vitrine para o seu interior, descobrindo um café totalmente equipado e funcional, mas completamente desprovido de vida não fosse por um outro pequeno robô flutuando no meio, segurando uns pratos de cupcakes nos braços enquanto voava de um lado para o outro sem rumo.

- Eles não estavam mentindo. – Analisou Eros, olhando em volta – Esse lugar não parece ser mais habitado. Só não compreendo exatamente o que é que eles queriam dizer que humanos não podem viver aqui.

- Devíamos… nos manter alerta. – Comentou Isaak com um tom ausente que definitivamente dava a sensação que ele não estava a seguir o seu próprio conselho.

Foi quando começaram a ouvir passos atrás deles. Como já tivessem coreografado há muito tempo, os quatro viraram-se em perfeita sincronia na direção do som, cada um numa postura defensiva. Sora segurou Cosmo com a mão, pronto para mandá-lo atacar e picar os olhos de seja lá quem fosse. Porém, logo se apercebeu que isso não seria possível.

O rapaz que estava ali presente envergava vestes negras, e o seu rosto era coberto por uma máscara de coelho, as suas orelhas enormes pendendo e balançando com cada passo que ele deu. Depois de perceber que tinha sido visto, parou e acenou cordialmente com a cabeça.

- Capala manda uma mensagem. – Afirmou sem grandes delongas – Ela diz que vocês são todos bem-vindos a Nova.

Ninguém disse nada por um tempo. Silas foi, surpreendentemente, a pessoa a quebrar o silêncio.

- Mas…? – Começou, esperando o mascarado continuar.

- Mas qualquer ameaça à integridade da cidade será respondida com violência. – Afirmou ele com frieza – Por isso, pensem bem o que querem fazer aqui.


Notas Finais


Espero que tenham gostado! Eu estou meio morta após escrever isso por isso vou dormir.

Grade dos NPCs: https://duchessofheartss.tumblr.com/rev2

Até ao próximo! (que não vai durar dois anos a aparecer, não se preocupem)


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