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História Reviravolta da Promotoria - Capítulo 1


Escrita por:


Notas do Autor


Oi!
Essa é uma oneshot do jogo Ace Attorney/Advogados de Primeira, com um cenário sem conexão com a história principal dos jogos em si.
O shipp NaruMitsu (Fênix x Eduardo) é o foco principal, então se não gosta, não leia! A classificação indicativa, porém, é por causa do fluffy e da narração simples da história (qualquer coisa, eu mudo)

Enfim, boa leitura! :3

Capítulo 1 - Capítulo Único - Um Caso Ordinário


1 de Dezembro, 11:58

Tribunal Local

Sala de espera, nº 4

 

O caso que pegamos hoje é mais um dos caprichos de Alice, porque ela simpatizou com nosso cliente. Não posso dizer que senti o mesmo, mas não me importo em defende-lo, pois tenho a certeza de sua inocência. É um dos nossos poucos casos em que não há assassinatos e testemunhas escondendo informações vitais para protegerem a si próprias. Um simples roubo, um simples engano de quem foi o ladrão.

Estou aliviado, na verdade. Encontrar um caso comum e ordinário se parece com um milagre, depois destes últimos meses. Sinto como se uma grande pressão se afastasse de mim aos poucos, embora saiba que, com minhas crescentes vitórias e minha busca pela verdade, mais e mais clientes com situações complexas aparecerão em meu escritório. Não estou reclamando, mas ter muitos pedidos não é fácil para um escritório pequeno, ainda mais quando nunca se sabe se seu cliente é mesmo inocente.

Às vezes, penso que virar promotor seria muito mais prazeroso, mas lembro-me das expressões de Eduardo Spada, meu amigo de infância e rival legal. Já estivemos juntos na tribuna, antes. Nosso reencontro não foi cheio de abraços e lembranças, na verdade, foi mais como se ele quisesse me apagar de sua vida. Literalmente, porque chegou a me pedir que eu não aparecesse em sua frente outra vez.

Ignorando estes pequenos detalhes, no entanto, podemos dizer que nossa relação é tão boa quanto possa ser. Digo, nunca saímos juntos para comer um dogão nem nada assim (até porque não acho que ele coma esse tipo de coisa), mas no geral nos ajudamos a encontrar a verdade. À frente do juiz, tenho a impressão de não sermos “defesa” e “acusação”, mas apenas advogados com perspectivas diferentes, tentando encontrar os reais motivos, os reais acontecimentos e, quando possível, os reais culpados.

Não sei dizer se ele sente o mesmo. As vezes espero que sim, outras vezes, penso que não se importa.

Mas então lembro-me... Dênis Gaspar, inspetor da polícia. Foi ele quem me fez a primeira revelação sobre o Eduardo que realmente me deixou sem reação. Foi logo após o nosso segundo caso juntos, ele tinha-me ajudado a inocentar Liam Ferraz...

“Ele não parava de falar de você! Sabe, aquele tipo de coisa, ‘não esperava menos do Veríssimo’, ‘Fênix Veríssimo’ isso, ‘Veríssimo’ aquilo...”

Não comentei com o próprio, mas tendo a pensar que ele está me ridicularizando. À minha frente, me chama de “Novato” e “Amador” (ah, como ele ama jogar na minha cara toda a sua experiência, enquanto eu sou um mero amador!) e, pelas minhas costas, está me elogiando. Tudo é tão confuso, não sei em qual das faces de Spada devo acreditar.

Seu relacionamento com o Inspetor Gaspar é uma “ótima relação profissional”, não consigo imaginá-lo zombando de mim com tamanha ironia. Talvez... talvez ele tenha visto algum talento em mim... ou algo assim.

Mesmo depois de alguns encontros em outros contextos, não nos aproximamos realmente. Temos este pacto não oficializado de nos dedicarmos à veracidade, e nada mais. Ou melhor...

Bem, não. Aquilo não conta como nada. Não para ele, isso eu posso apostar. Mas deveria contar, porque importou demais para mim. Foi uma das poucas vezes em que nos vimos fora de uma audiência e eu consegui conversar de verdade com ele. Consegui, de fato, sentir o Eduardo que eu conhecia.

Tento não pensar sobre aquele dia, porque ele claramente acredita ser um erro se aproximar de mim, mas é àquela conversa que sempre me seguro, quando penso no Eduardo. Digo, ele solta algumas coisas inexplicáveis no tribunal, como a vez em que acidentalmente revelou que “o Sr. Veríssimo só faz essa cara ridícula quando suas costas estão contra a parede”. Eu ainda não superei o que essa fala em especial quis dizer, mas este não é o ponto. Ele continua repetindo o quão desnecessários são os sentimentos que desperto, e ainda não cheguei tão a fundo para descobrir o que ele quer expressar com isso.

A não ser, é claro, levando em consideração aquela conversa.

 

10 de Outubro, 19:57

Caminho para a casa de Fênix

 

Eduardo Spada definitivamente não caminha à noite, e definitivamente não por este lado da cidade. A única coisa que me ocorre é que ele está prestes a se encontrar com alguém, mas algo em minha mente bloqueia qualquer pensamento que relacione este promotor a encontros e relacionamentos românticos. Acho que o jeito dele simplesmente me faz pensar que ele não combina com a maioria das pessoas.

É um pensamento triste, mas não posso evitar de tê-lo. Olhar para ele tão bem arrumado no meio da rua  me faz pensar que ele está prestes a jantar com alguém especial, mas de alguma forma não consigo montar um par para ele. Imaginei o completo oposto dele, uma mulher extrovertida e alegre, mas imagino que ele se sentiria desconfortável perto de tantas energias positivas. Também pensei em uma jovem caladona, toda misteriosa, quase uma gêmea, mas ele certamente se entediaria e não desenvolveria paixão por ela.

Depois de imaginar o possível par romântico dele por mais algumas tentativas, percebi que estive parado literalmente no meio da rodovia esse tempo todo. Podia ter sido atropelado, e tinha certeza de que nem sentiria. Quando olhei para a frente, percebi que ele me encarava. Eduardo veio em minha direção, e agora eu tinha certeza de ter estragado a noite dele. Eram quase oito horas, com certeza ele estava estressado com seus próprios problemas, e ver um ex-amigo tão indesejado, como ele mesmo já havia explicitado... certamente não era a melhor das possibilidades.

- Spada, não tinha visto você aí! – dei a pior resposta que pude, porque era óbvio que eu ficara minutos o encarando antes de voltar à realidade. Ele apenas sorriu, sarcástico, como costuma fazer quando minha objeção não faz sentido.

- Ah, é mesmo? Então o que parecia tão interessante na minha direção?

Por um breve momento, o olhar de Eduardo parecia brincar comigo. Sua voz carregava o mesmo tom provocador que ele usava para me fazer falar, as vezes, simplesmente por ficar muito envergonhado. Ele sempre soube que o embaraço é o meu ponto fraco.

Também por um breve momento, eu consegui imaginar que o par dele não necessariamente era uma mulher... e então voltei ao pensamento de estar sendo demasiadamente invasivo em relação à vida pessoal dele. Afinal, ele tem o direito de namorar quem quiser, não?

Mas, ugh, eu simplesmente não conseguia encaixar ninguém com ele. Ninguém.

Quando ele cruzou os braços e tomou uma pose defensiva, eu voltei a prestar atenção no momento. Me repreendi mentalmente, sabendo que sempre haveria algo com que me distrair, mesmo quando não estava propriamente conversando com alguém.

- Você estava me encarando, não é, Veríssimo? – as vezes acho que o Eduardo tem realmente algo contra mim, porque adora me fazer ficar nervoso. Não importa se era uma simples pergunta de sim ou não, ele ainda conseguia.

- E-eu... eu achei estranho ver você aqui, por acaso encarar é crime? – perguntei, e ainda não conseguia entender minhas próprias ações. Eu me sentia preso em alguma espécie de transe, sem conseguir controlar meu comportamento. Esse era o efeito do Eduardo, todo mundo sabe.

- Onde está a sua médium? – ele finalmente se virou diretamente para mim. Examinei-o rapidamente, por força do hábito. Não trazia nada nas mãos, além do celular, que seria rapidamente guardado no bolso direito de sua calça. Demorei um segundo para assimilar a pergunta.

- Ela... ah, sim, ela está em casa.

- Precisa de ajuda com isso? – olhei ao meu redor, e percebi que ele falava da maleta que eu trazia, juntamente a um saquinho de pedras azuis que Alice me pedira para comprar. Eu realmente não precisava de ajuda, mas o fato de ele tê-la oferecido lhe dava um ponto. Ele nunca era gentil comigo quando nos encontrávamos no dia-a-dia.

Pensei em responder “O que aconteceu com o Eduardo que eu conheço?”, ou simplesmente negar ou aceitar a ajuda oferecida, mas o que saiu de minha boca foi mil vezes mais espontâneo e ridículo.

- Quem foi que você veio ver aqui?

- O quê? – não culpo a reação dramaticamente confusa que ele assumiu. Decerto acertei na pergunta, e ele realmente estava se preparando para um encontro. Mas... neste caso, por que ele teria se importado em me oferecer ajuda? Até parece que estávamos indo para o mesmo lugar. – Você é idiota mesmo?

- É que, bom... e-eu pensei... – outra vez, uma palavra dita fora o suficiente para me desarmar. Inspirei e forcei minha voz a seguir uma linha firme. – Eu apenas estranhei você por aqui. Sabe, o seu apartamento é do outro lado da cidade, então pensei... que, bem, você só anda todo arrumado, não me culpe por imaginar que fosse um encontro!

- Ah! – de alguma maneira, senti que ele estava ofendido. Uma reação definitivamente imprevisível, mas que não me surpreendeu, afinal. – O que eu faço com na minha vida pessoal...

- Não me interessa, pois é. – agora era eu quem estava frio, imitando a personalidade dele. – É, eu sei. Só esqueça que perguntei algo assim. – ultrapassei ele, andando mais rápido do que deveria, e o fazendo vir atrás. Ouvi o som irregular de passos, e soube que ele estava me alcançando. Ainda não tinha entendido qual era a dele em mostrar tanta empatia por mim hoje.

- Fênix. – eu congelei. Há quanto tempo ele não me chama pelo primeiro nome? Sempre “Veríssimo”, se mantendo distante. Sempre formal, claramente não desejando se aproximar de novo. Eu já tinha entendido, sabia que ele não queria ser meu amigo. Sentia uma curiosidade enorme, e uma preocupação indefinível. Calei todos os pensamentos, queria ouvir o que ele tinha a dizer. – Eu vim ver você.

- O-o quê?! – um pensamento mínimo tentou se alastrar, embora eu o tenha reprimido. O par dele...

- Não vou sair com você, seu grande... Fênix Veríssimo. – não entendi o xingamento, tomaria mais por um elogio. Então apenas ignorei o comentário, deixando-o prosseguir. Voltamos a andar, eu tomando o caminho do prédio por hábito, e ele me seguindo. – Eu vim porque... achei que precisava.

- Esse... e-esse definitivamente não é você. – soltei, recebendo um olhar assustado como resposta. Não chegou a durar um segundo, mas consegui interpretar aquilo como um dos “sentimentos desnecessários” que eu despertei nele, insegurança.

- Isso foi um erro. – Spada suspirou, murmurando baixinho. Eu estava pronto para responder, quando paramos em frente ao prédio da Veríssimo Advogados. – Eu não planejava falar com você.

- Isso soa ainda mais estranho, você sabe disso, né? – ri, e acho que isso o fez perder um pouco da apreensão. Queria saber o motivo de sua visita, queria saber se ele também sentia como se houvesse um enorme abismo entre nós, e quisesse reatar nossa amizade. Queria pensar que era qualquer coisa emocional, mas sabia que estava me enganando. Nos poucos casos em que trabalhamos juntos, pude perceber. Aquele Eduardo não era capaz de sentir afeição por mim.

- Fênix... – ainda não consigo expressar como foi horrível ouvir meu nome ser professado com tanta dor. Ele claramente não estava bem.

- Eduardo! – apoiei a maleta e o saquinho de pedras em um único braço, estendendo o outro até seu ombro. Ele acompanhou o gesto com o olhar, sem recuar. Entendi isso como um sinal para continuar. Eu não entendia sua motivação para me ver, menos ainda como isso se encaixava em “não falar comigo”, mas não conseguia olhar para ele e ver sofrimento. Eduardo pode não ser comunicativo, mas ele nunca mentiu para mim. Não quinze anos atrás, e quero acreditar que agora também não. Se ele está aqui, é um sinal. Ele pode conseguir não falar nada, mas eu vou investigar. Eu vou entende-lo.

- O que foi?

- O quê?

- Você gritou o meu nome. – insensível, ali estava seu tom oficial de novo. Senti como se seu corpo quisesse se afastar, mas não tinha certeza de que era aquilo que ele sentia. Não sabia que nossa interação estava com as perguntas contadas, até fazer a próxima.

- Você está bem, Eduardo?

- Não.

Eu tive certeza. Ele nunca mentiria para mim voluntariamente.

 

Depois daquilo, Alice gritou da janela do escritório. Eu me preparei para gritar de volta, pedindo que ela esperasse mais um pouco, quando Spada retirou minha mão de seu ombro, gentil e lentamente. Um verdadeiro cavalheiro, como sempre foi. Ele conduziu meus pertences até que eu os segurasse com ambas as mãos novamente, deu um sorriso minúsculo e triste e saiu.

Lembro de tentar gritar para ele, mas não lembro se consegui. Ele não olhou para trás em nenhum momento, seguiu seu caminho e eu senti que não deveria ir atrás. Ele me contou o que pôde, e aquilo provavelmente já foi um grande sacrifício.

Tenho certeza de ter exagerado um pouco, mas algumas coisas realmente se encaixam. Ele me chamou pelo primeiro nome. A maioria dos meus amigos me chama de Vero, e eventualmente ele deixaria escapar este apelido uma ou duas vezes, mas “Fênix”. Foi isso que ficou gravado. Só o fato de ele não se distanciar com suas formalidades, só o fato de ele saber pronunciar tão perfeitamente o meu maldito nome.

Porém, como disse, aquilo não o fez mudar de postura em relação a mim. Ainda estamos distantes. Fora os falsos flertes que eu com certeza interpreto errado e uma ou outra vez em que ele me chama de Vero (ignorando todas as vezes em que eu o chamo de Eduardo), e o fato de ele ter começado a responder minhas perguntas “irrelevantes”. Ainda estamos distantes.

O dia de hoje certamente não mudaria muita coisa.

- Ei! – é Alice, me chamando, provavelmente. – Terra chamando Vero!

Ela também me assustou um pouco, hoje. Me pediu para vir de branco, e eu rejeitei. Ela literalmente escondeu meu terno azul, e me obrigou a vir com o de sua escolha. Quando lhe perguntei o motivo, ela riu e disse que eu deveria me adequar às ocasiões. Ainda não entendi mesmo o que isso quis dizer, e simplesmente imaginei que seu treinamento espiritual demandasse energias melhores no ambiente e o branco estivesse relacionado a isto. Suspirei quando ela se recusou a contar onde escondeu o terno, e aqui estamos. Eu, de branco, parecendo um idiota prestes a casar.

Agora que notei... ela traz uma guirlanda de flores no pescoço. É melhor não questionar, e apenas responde-la antes que se aborreça. Não quero entrar na sessão com ela de mau humor.

- Ah! Sim? – atendi seu chamado, deixando os pensamentos desconexos entre Eduardo Spada e as preferências cromáticas de minha parceira. Falando no Eduardo, ninguém me falou quem vai ser o promotor deste julgamento... que começa em dois minutos!

- Você não estava prestando atenção!

(...Não mesmo, foi mal)

- Eu tenho um caso em que pensar, sabia? – foi a minha escolha de resposta que, de fato, faria sentido, se eu não estivesse pensando em outros assuntos completamente diferentes.

- E daí?! Nós mal pegamos os arquivos e você já sabe até quem roubou!

- I-isso não é verdade...! E que nós é esse? Você definitivamente não leu nem a denúncia do roubo!

- Claro que não, o advogado aqui é você. – riu, e soube que aquilo tudo era apenas uma tentativa de aliviar meu estresse antes de entrarmos.

Meio-dia em ponto.

- Espero que goste, Vero. – sorriu. Eu só tive tempo de olhá-la de modo confuso enquanto entrávamos. Ela parecia ansiosa por algo, e torci para que não fosse algo bobo e a prejudicar nossa defesa. Mas agora eu precisava me focar em inocentar o Sr. Topaz.

Tomamos nosso lugar, e precisamos esperar por um minuto para que o Promotor chegasse. Torci para que não fosse aquele velho ridículo de meu primeiro caso e, realmente... minhas preces foram ouvidas.

O que aconteceu na fração de segundo seguinte só foi comprovado porque olhei para Alice, e tive certeza de que ela via o mesmo que eu. A precisão com a qual me lembro do acontecimento pode ser impressionante, mas apenas porque estava chocado, surpreso e... bem, não vamos esconder, algum sentimento bastante bom se instalou num cantinho.

À minha frente, vi Eduardo Spada caminhar, com o passo firme, até sua bancada. Seu traje icônico não se fora, de todo, porque o laço inseparável ainda estava ali, mas o terno que usava definitivamente não era o usual. Branco, parecendo novo, e com um estilo levemente mais moderno do que o outro, ele parecia inevitavelmente combinar comigo.

Em seu rosto, pude ver algo que me fez duvidar definitivamente dos meus olhos, mas tenho certeza. Ele sorria. Sorria de verdade. Não era irônico, nem forçado, e nem provocador, como muitas vezes o tinha feito durante sua acusação. Ele sorria para mim, direta e claramente.

Senti como se eu estivesse muito lento, mas com certeza fiz o movimento em menos de um segundo. Olhei para ele, e então para Alice, que tinha o olhar fixo em suas flores e, então, pela primeira vez, no juiz de sempre que, de alguma forma, parecia também estar mais alegre.

Voltei a observar meu ex-amigo. Ele continuava sorrindo sinceramente. Obviamente, eu não podia perguntar nada sobre aquele comportamento, afinal, não é crime mudar de terno as vezes, e eu mesmo também usava um novo. Porém toda aquela coincidência me inquietava, eu precisava saber o que todo mundo sabia ali, menos eu.

- O que é que tá acontecendo, afinal?! – perguntei, em alto e bom som, para que todos na corte escutassem. O riso foi imediato, mas Eduardo apenas piscou e cruzou os braços, deixando um leve vestígio de alegria em sua face.

- O que está acontecendo, Veríssimo? Ora, não sabe usar seu cérebro ou, no mínimo, seus olhos? Estamos em um tribunal. – tudo corria tão comum quanto em qualquer outro dia, exceto que tudo estava diferente!

(E ah, não me diga! Que grande observador você é, Eduardo.)

- É sério! O que é que tem hoje que ninguém me contou? – ignorei seu comentário sarcástico que, de tom irônico, nada tinha. Quando refiz minha pergunta, o juiz limpou a garganta, prestes a iniciar a sessão. Por um momento, eu quase tinha esquecido de que estávamos em um ambiente profissional, e que nada ali dizia respeito ao que eu estava percebendo. Abaixei minha cabeça, sentindo vergonha por ter atrapalhado um julgamento antes mesmo de ele começar. A voz rouca de sua excelência logo se fez audível.

- Daremos início à sessão, se as partes estiverem prontas. Acusação?

- Estou pronto, Meretíssimo. – havia algo de errado... “Estou pronto”? Eduardo sempre diz “A acusação está pronta”. É apenas um detalhe, e acho que estou ficando louco. O conjunto formado entre minhas lembranças daquele encontro e a situação nova e estranha me fazia pensar em possibilidades absurdas. Olhei para o juiz, procurando firmar meus pés no chão e não me deixar distrair durante a sessão. Afinal de contas, aquilo tudo poderia ser um jogo do Eduardo. Mas por que Alice o estaria ajudando...?

- Defesa? – o juiz havia hesitado um pouco antes de me perguntar. Me perguntei o porquê, mas nada comentei sobre. Minha resposta foi o usual e, quando me dei conta, estava encarando meu rival novamente. O primeiro sorriso se fora, mas sua expressão ainda era um misto de coisas que eu provavelmente estava interpretando errado. Ele parecia sentir ansiedade e confiança ao mesmo tempo. Estar certo de seus argumentos, mas com algum medo indecifrável. Parecia querer provocar minhas frustrações, e ao mesmo tempo se mantinha na defensiva.

Dei mais uma rápida inspeção enquanto a denúncia estava sendo lida. A sala de audiência estava realmente mais vazia do que o normal. Não apenas isto, mas o Inspetor Gaspar trazia uma grande cesta com o que acho que parecia confete. Mas o que é isto?! Será que tudo não passa de uma grande encenação? Um teste, ou apenas um meio de rir da minha cara? Não conseguia levar as palavras de Eduardo a sério enquanto ele acusava o Sr. Topaz de roubo. Eu nem mesmo havia visto o par de alianças que ele supostamente furtou.

Imaginava que ambas as partes seriam avisadas quando o item em questão fosse encontrado, mas Eduardo simplesmente o apresentou aos autos do processo no início da sessão. É óbvio que ele tentará usar suas vantagens em relação à evidência sobre mim, assim como é tão previsível que terei de chegar a examinar os anéis ainda nesta audiência.

Eduardo chamou Dênis Gaspar como sua testemunha, e o homem foi conduzido até nós rapidamente. Suas declarações eram simples, embora alguma coisa nelas me fizesse pensar sobre como o caso era tão exagerado, tão parecido com o procedimento de um assassinato, mesmo sendo mil vezes mais simples. Até parecia que as coisas estavam acontecendo propositalmente.

Algumas perguntas a Gaspar foram o suficiente para que o formato do tribunal virasse de ponta cabeça. Primeiro, porque Alice de repente podia falar e inquirir nossa testemunha. É claro, ela não podia fazê-lo, mas o juiz não a repreendeu quando ela fez uma pergunta (completamente fora de contexto e sem utilidade, por sinal). As coisas começaram a desandar a partir daí, embora eu tenha conseguido sustentar meu ponto por mais alguns minutos antes de tudo simplesmente explodir em fronte a mim.

Começaremos por esta situação, então.

- Sr. Gaspar, então o senhor confirma que o fato de um dos anéis ter uma marca gravada possivelmente desestimularia um assalto, não? – pergunto, direcionando-me ao inspetor.

- Protesto! – Eduardo aponta uma mão para mim, e em seguida dá uma pancada na mesa. O tipo de coisa que estamos acostumados a fazer para intensificar as energias de uma disputa. – Isto é uma hipótese, sem fundamento!

- Protesto! – não perco a oportunidade e também aponto para ele, batendo com as duas mãos na bancada. – Ouça o curso das perguntas antes de me cortar!

- Qual é o seu raciocínio então, Sr. Veríssimo? – de repente, todo o deboche vêm à tona, quando ele cruza os braços e me olha de modo superior, com os olhos apertados.

- Veja bem. O réu não tem nenhum motivo para cometer o delito! A marca no anel – e neste ponto ele corrigiu, afirmando que haviam marcas nos dois anéis. – é apenas um fator a mais para a lista de contras. Uma pessoa pode afirmar tê-lo visto suspeito, saindo da loja, mas ninguém o viu furtar as alianças!

- Parece-me que você se esqueceu da próxima testemunha que desejo chamar... A atendente da joalheria!

- Um momento! Eu ainda não terminei a inquirição do Sr. Gaspar!

- Ah! – neste momento, Alice interrompeu. – Inspetor, qual é a numeração do anel? – subitamente senti uma vontade imensa de perguntar “por quê, quer ficar com ele?” ironicamente, mas tudo o que pude pensar foi em como ela poderia estar fazendo o papel da defesa naquele momento, sem ser censurada.

- Numeração, chapa? – Gaspar coçou a nuca. – Acho que era, bem, são dois anéis. Cada um com uma marca, e acho que um é dezessete, e o outro é dezoito? – sua afirmação saiu mais como um questionamento, mas eu não entendia como aquilo podia nos ajudar. O fato de a aliança caber ou não nos dedos de um ladrão não o impede de roubar. Se aquilo fosse relevante, eu já teria perguntado sobre. Mas o que me intrigava era porque Eduardo não protestava, como sempre, acusando a defesa de fazer perguntas irrelevantes.

- Alice – sussurrei, e voltei meu rosto para sua direção. – Você acha mesmo que isso é importante?

- Sim! Bem, eu não sabia medir muito bem, mas acho que é dezoito, sim. – não entendi nada e apenas ignorei esta parte tão aleatória e cheia de dúvidas do julgamento. Prossegui com a inquirição, mas Eduardo não desistia. Na verdade, ele parecia um pouco frustrado com algo, o que não é comum para seu deboche e sua ironia.

Com aquele temperamento, era realmente difícil imaginar um par ideal... E então me repreendo por estar-me distraindo com algo assim. Por que eu insistia em encontrar um par romântico? Ou era a falta de um que despertava a curiosidade? Eu não conseguia entender nem a mim mesmo, então não estar entendendo o dia de hoje talvez seja apenas uma consequência.

O que importa é que a atendente da joalheria foi finalmente chamada. A nova testemunha era uma mulher baixinha, com o cabelo liso perfeito, parecendo uma boneca muito bem cuidada. Senti-me tentado a achar que ela era capaz de organizar e perceber cada particularidade das joias com que trabalhava. Uma profissional perfeita. Seu modo de falar certamente não condizia com a suave e fina aparência que possuía, e isto, em minha mente, aludia às tentativas de par que eu insistia em pensar.

- É que assim, é... – mesmo com todo o requinte em sua face, parecendo segura de si, sua fala não era nada precisa. Gaguejava e alternava o olhar entre a direita e a esquerda. – Eu vi esse homem aí no meu turno, sim.

- Quando percebeu que o par havia sumido? – perguntei.

- Uma meia hora antes do turno acabar? Ou uns vinte minutos...? Eu não tava cronometrando, sabe?

- E por que suspeitou do Sr. Topaz?

- Não suspeitei, não! Mas depois que me fizeram pensar um pouco, ele parecia ter feito isso aí, né.

Ninguém aqui queria dar uma informação consistente a mim?! Quando olhei para frente, percebi o tédio que Eduardo sentia. Realmente, acusar um homem de roubo não deve ser o trabalho mais emocionante. Defender este acusado, no entanto, era com certeza ainda mais irritante e entediante.

Encurralado, resolvi tentar a tática de Alice, porque fora a única vez em que Eduardo não protestou. Eu ainda não havia chegado perto dos anéis, também.

- Senhorita, pode me dizer por que as Alianças estavam expostas? – a mulher teve um sobressalto de leve.

- Oh! Bem... Elas foram uma encomenda, como o senhor deve saber... M-mas alguns clientes precisavam de exemplos e, bem... Como elas só seriam levadas no dia seguinte, eu deixei lá... pra eles verem.

- E posso saber quem foi o responsável pela encomenda?

- Ah! – ela olhou diretamente para o Eduardo. Diretamente? Será que ela não sabia quem havia encomendado? Afinal, ela é apenas a atendente, mas a joalheria não deve ter tantos funcionários. Ela poderia facilmente anotar os pedidos, também. – B-bem... eu acho que não posso dizer o nome...

- Um momento. Meretíssimo! A defesa exige examinar as alianças!

- Pedido aceito.

Assim o fiz. Sob os olhares nervosos de uma atendente desesperada, imaginei já ter encontrado a culpada deste furto. Alice olhava para mim com ansiedade, e percebi que também estava tirando a guirlanda de flores do pescoço (e desde o começo me perguntei se aquilo não a estava machucando).

Olhar para alianças me deixava com um sentimento esquisito. Não sabia o motivo, mas desde pequeno eu o sinto. O poder do amor tem uma grande importância para mim, e a aliança é o símbolo deste poder. Olhar para um par me fazia lembrar de vários momentos de pouca importância, em que citei o “poder do amor”. Ele realmente era enorme. Mas... não era apenas isto. Também percebi, em menos de um segundo, que Eduardo é o tipo de pessoa que usaria um anel de compromisso logo depois de pedir seu par em namoro, ou algo assim. Ainda não consigo enxergar este par, mas sei que ele não usa anel algum. Será que eu realmente só estava pensando em coisas sem sentido?

Não é tão difícil me ocorrer ideias malucas, mas aquela estava realmente me fazendo imaginar diferentes tipos de pessoa, e para quê? Para combiná-las com Eduardo Spada e julgar o nível de afeição que eles teriam um pelo outro? Aquilo era ridículo. Aquilo era completamente inútil, e nem mesmo me dizia respeito. Mas acho que a junção do poder do amor com essa afeição imaginada por mim entre ele e alguém me fizeram perceber que, sendo ou não da minha conta, eu sempre me perguntaria. E sempre me preocuparia. E sempre tentaria me convencer de que ele não combina com ninguém, porque...

- Sr. Veríssimo? – a voz do dito cujo estava muito mais perto do que eu esperava ouvi-la.

A um ou dois passos de mim, Eduardo me encarava, com um ar incrivelmente leve. Ele normalmente não age assim. Não comigo, não profissionalmente. Mas o que eu poderia dizer? Hoje tudo está saindo às avessas. Não tenho escolha a não ser deixa-lo perguntar ou falar qualquer coisa enquanto, imóvel, eu congelo sob sua presença tão próxima.

- Está satisfeito em seu exame?

- O quê?

- As alianças, Fênix, as alianças. – parei de escutar depois de ouvir meu primeiro nome. Não disse que entrei em pânico, mas foi exatamente isso o que eu fiz. Estava completamente congelado. Depois daquilo, eu não seria capaz de continuar o julgamento em perfeitas condições. Está bem, eu sempre o chamo pelo primeiro nome, mas o contrário não aconteceu desde que o reencontrei.

E agora... parece que foi tão natural. O meu primeiro nome, como se ainda fôssemos próximos. E a frase, o conjunto da frase, sem contexto. Isso deveria me fazer rir, mas acredito que me faria sorrir, se pudesse controlar meus movimentos.

- A-ah! Eu... – eu não havia examinado nada nas alianças. Quanto tempo será que demorou até ele ficar impaciente, se levantar e vir pedir pessoalmente para que eu as deixasse no lugar? – Eu não as examinei... Um... um momento!

Aquilo foi rápido. Em cada um dos anéis estava marcada a sigla “V-S”. Um tinha, realmente, o diâmetro um pouco maior do que o outro, e ambos pareciam ser feitos de prata ou algo muito delicado. De alguma forma, as iniciais gravadas me lembravam... Oh, não. Não me diga que era isso que eu estava perdendo durante toda a audiência.

- Isso é...? – não pude completar. Eduardo ainda estava a uma curta distância esperando, calmamente, que eu assimilasse as coisas. Acredito que meu corpo inteiro estava esquentando. Quanto desse dia havia sido obra dele? O caso era real? Era só uma coincidência? Houve mesmo um roubo?

Apenas aquelas iniciais não me davam resposta alguma!

- Não me diga que você ainda não entendeu. – uma de suas sobrancelhas se arqueou, e eu me senti levemente ofendido.

- Espere, é isso mesmo?! C-como você conseguiu-

- Eu vou responder o que você quiser, mas primeiro você precisa me responder também. – o desgraçado sorria! E a droga do sorriso dele era a coisa que eu mais queria ver desde que o vi na nossa primeira sessão! Ele sabia, com certeza, os meus pontos fracos. Usou de tudo para construir um momento... E como?! O Eduardo que eu havia visto nunca tomaria uma iniciativa tão grande.

O Eduardo que eu havia visto aqui nunca sentiria algo maior que platônico por mim. Mas parece que ele me conhece melhor do que eu o conheço. Pensando assim, me sinto envergonhado. Eu deveria saber tudo sobre ele, também. Mas como poderia?

Mas eu quero saber.

- É sério... não me faça dizer com todas as palavras. – eu, perdido em pensamentos, tinha estado completamente calado. Será que ele realmente acreditava que eu poderia dizer não? Depois de todas as nossas conversas, em 2001, sobre o poder do amor?! Ele sabe que eu o amo, não sabe?

É claro que ele sabe. E, é claro, a única parte falha em seu plano foi a minha reação. Ou será que até mesmo isso ele pôde prever? Talvez sim, talvez não. Eu ainda tenho milhões de dúvidas surgindo a cada segundo.

Minha intuição estava certa, afinal. Ele proporia um relacionamento acompanhado de uma aliança. Mas eu, não. A minha resposta seria muito mais no estilo “Fênix”. Foi com isso que eu me motivei a devolver os anéis à mesa e lhe dar um beijo antes de qualquer resposta falada. Se aquilo não fosse o suficiente, eu não sei o que seria.

Mas ele com certeza armou tudo. O meu terno, meu terno branco, que só agora percebi o motivo. Mas que droga, Eduardo, isso ainda não é um casamento! Até mesmo pediu a ajuda de Alice, que colocava sua guirlanda de flores em meus cabelos. E a Gaspar, que jogava confete em tudo e todos.

Ele fez algo que juntava as maneiras de nós dois. Ele me conhecia demais, e isso fez tudo parecer tão perfeitamente encaixável. Eu fui um alvo fácil, que caiu numa ilusão inicial, mas tudo saiu do jeito como ele planejou. Mas nada mais importava, e o fato de o julgamento ser uma farsa até mesmo contribuiu para que eu apreciasse seu ato um pouco mais. Ele fez isto por causa de seus sentimentos desnecessários. Os meus, posso garantir, são completamente necessários agora.

A aliança de numeração dezoito repousava em meu dedo anelar direito quando saí da sala de audiência. O quanto daquele julgamento foi real? Não posso dizer. Mas consigo dizer o quanto este dia foi real, para mim. Porque é realmente difícil parar de sorrir depois de uma reviravolta desta natureza feita pela promotoria.


Notas Finais


Sinceramente, vocês gostaram? Eu posso considerar postar alguns outros coisinhos...

E se você não conhece minha fic principal de Ace Attorney, dá uma passada aqui: https://www.spiritfanfiction.com/historia/vence-a-subjetividade-17435408


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