História Revolution Interativa - Capítulo 16


Escrita por: e LethFersil

Visualizações 8
Palavras 12.520
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Ecchi, Famí­lia, Fantasia, Festa, Ficção, Ficção Adolescente, Ficção Científica, Hentai, Lemon, LGBT, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Musical (Songfic), Orange, Poesias, Romance e Novela, Saga, Shonen-Ai, Shoujo (Romântico), Shoujo-Ai, Sobrenatural, Survival, Suspense, Terror e Horror, Violência, Yaoi (Gay), Yuri (Lésbica)
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Estupro, Gravidez Masculina (MPreg), Heterossexualidade, Homossexualidade, Incesto, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Mutilação, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Suicídio, Tortura, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 16 - A Última Praga (Parte 2)


Gray contava calmamente as facas que tinha guardado em seu estojo, precisava prestar bastante atenção para que tudo desse certo. Estava esperando todos se aproximarem para ele determinar as ordens. 

Um som tranquilo de crianças brincando, o vento passando pelas árvores verdes daquele local, os pássaros cantarolando de forma deliciosa. Tudo tinha encontrado um ponto de equilíbrio ali. A violência contra mulheres e homens tinha diminuído de forma surreal, a comida, que antes era escassa, estava conseguindo ser repartida entre a população — agora não só os fracos e desprovido de status tinham que trabalhar —, tinham, finalmente, conseguido expandir o território e, para somar, conquistado novas tecnologias, o que provava que uma boa gestão conseguia modificar muitas coisas e, principalmente, que um líder deveria ser um exemplo para os seus seguidores. 

Estava tão distraído, aéreo em seus pensamentos, que apenas conseguiu ver as milhões de pessoas juntas quando foi chamado pela moça de cabelos ruivos, Alice.

— Perdão. — Comentou à garota e logo virou-se para os outros sorrindo animador. — Estamos aqui hoje para ajudar essa pequena criança lupina, outrora expulsa por Regulares, de volta para a alcatéia dela em segurança. — Iniciou, via algumas caras de espanto, nojo e insatisfação no meio da multidão curiosa, então continuou — Por anos vivemos nos escondendo. Vivemos séculos de intolerância e medo, onde nós, o grupo mais forte, acabamos cultivando um ódio, por aqueles que eram contra nossos pensamentos, e, principalmente, matando seres indefesos, como esse pequeno lupino que nada estava fazendo além de fugir de outros que, igual a nós, estavam cometendo um genocídio.

Os grupos de caçadores, que no passado foram tratados como animais pelos amigos do antigo líder, sentiam-se, enfim, representados naquele jovem de sorriso sincero e simpático, o qual os dava motivação para seguir adiante. Os mais fortes, os quais eram uma minoria, apenas conseguiam soltar alguns resmungos de insatisfação, reprimidos pela onda de emoção do povo.

Gray encarou tudo aquilo como o início de um novo começo. Sorriu mais ainda, sendo abraçado por Noah. Então, sem quebrar o clima, finalizou. — Esse é um novo tempo, uma nova era, iremos refazer tudo de forma correta, sem intolerância e sem medo. Faremos um mundo melhor. QUEM ESTÁ COMIGO? — Gritou ansioso recebendo gritos de seus aliados, todos concordando com ele. Sorriu, novamente, então começou a declarar as ações de cada membro, separando os mais debilitados dos mais capacitados, dando ordens de acordo com as limitações de cada pessoa. 

Poderia sair daquela sociedade por um tempo, totalmente cronometrado, para conseguir fazer o seu trabalho e retornar à base. Se desse tudo certo, nenhum caçador voltaria ferido, no máximo com um arranhão, uma dor na musculatura de tanto andar, ou um tapa caso tentasse acasalar com uma lupina e a mesma não deixasse. 

Sorriu ao ver Noah abraçar Hart na frente de todos, as alturas totalmente diferentes acabavam criando um contraste enorme e, para aqueles que não eram íntimos, acabava fazendo parecer que o lupino era séculos mais novo em comparação com o loiro. O garoto se segurou no pescoço do outro, colocando suas pernas ao redor da cintura do mesmo e sussurrando palavras de gratidão, além de algumas informações pessoais sobre o estado deles. Seu amigo lhe encarou pedindo, de forma muda, um momento para se retirarem e para conversarem sobre aquele assunto tão delicado, o que foi concedido sem qualquer pestanejar. Enquanto esperava os dois braços, direito e esquerdo, retornarem, ficou designando ordens e sanando dúvidas, além de outros problemas diários da população. 

— Gray… — Sussurrou o amigo com Noah, em sua forma lupina, nos braços. As orelhas felpudas do Ômega estavam abaixadas, junto com o olhar sem vida e a cauda entre as pernas, o menino não havia gostado daquele bate-papo. 

O caçador passou as mãos sobre a cabeça do lupino tentando transmitir conforto para ele, o que não ajudou muito. Hart também parecia um pouco frustrado com aquela conversa. 

— Vamos? — Questionou o líder aos companheiros, sendo bem recebido por eles. 

Todos caminhavam sorrateiros pela floresta, alguns iam pela terra, pisando nas folhas e nos galhos, outros usavam as árvores como caminho, sabiam como planar de um lado para o outro, tornando-se tão leves e delicados quanto uma pluma. Felizmente, nenhum caçador estava distraído, pelo contrário a concentração estava os fazendo conquistar mais pontuação com o novo líder. 

Parou quando começou a escutar gritos e gemidos de dor. Gray olhou para Noah, que parecia estar se debatendo nos braços do companheiro, o garoto estava aterrorizado com alguma coisa. Deu mais um passo, retirou umas folhas de sua frente vendo corpos em estado de decomposição espalhados pelo chão. Algumas fêmeas eram domesticadas com o uso de violência, eram abusadas sexualmente, fisicamente e psicologicamente, igualmente como os ômegas machos e alguns betas. Alfas eram usados como animais cargueiros ou, em outras palavras, escravos. Compreendia bem aquela hierarquia, havia vivenciado ela por anos. 

Escutou Noah, o qual estava inquieto, soltar um gemido de dor. Provavelmente, algum feromônio forte estava deixando o menino assim. Farejou o ar tentando inalar o perfume do lupino que liberava aquela fragrância natural. Um cheiro amargo e forte atingia seu nariz, talvez do pai do garoto estivesse vivo e transmitindo sua presença aos seus. Abriu passagem na moita, ignorando as chances de ser pego.

Alguns regulares lhe encararam, porém foi surpreendido com a falta de interesse dos mesmos. Nem mesmo quando fez um som agudo aqueles que torturavam, riam, matavam e abusavam dos pobres lupinos indefesos lhe encararam como uma possível ameaça. Rosnou alto, sendo recebido com um resmungo de algum vampiro regular, o qual arrastava seu Ômega, maltrapilho, para o meio da praça e o humilhava perante os outros. Via as lágrimas escorrendo das fêmeas grávidas, as quais eram abusadas, outras tinham os filhos sendo arrancados de seus úteros, algumas acabavam, infelizmente, passando por um aborto espontâneo. 

Foi quando viu um senhor, seus cabelos negros, com fios brancos, a barba por fazer, o porte físico era de uma pessoa forte e poderosa. Os lupinos encaravam-no, todos angustiados, mas viam nele um pouco de esperança e temor, ele parecia como um símbolo de honra. Seus braços estavam amarrados com cordas grossas, era puxado por dois regulares ao mesmo tempo, além de suas pernas também estarem presas,  com uma corda amarrada em cada lado. O homem não parecia ter medo da morte, apenas encarava seu povo como se estivesse fazendo a coisa mais digna. 

— O rei de vocês veio para salvar vocês, olhem! — Zombou uma mulher de cabelos ruivos vivos, seus lábios, tão manchados de sangue, pareciam estar com um batom avermelhado, unhas grandes, olhos azulados, pele pálida. Ela sorriu maliciosamente, vendo o velho se aproximar calado. — Ele veio morrer para salvar a vida de vocês. Não é, velhote?

— Cumpra a sua parte do trato, Teresa. — Ordenou o homem, sua voz fraca falhava perante a moça, mas ainda carregava sua autoridade e, principalmente, a superioridade de um líder, um Alpha. 

— Oh, céus, onde está a minha educação. — Brincou. — Eu não tenho que escutar palavras de um homem tão nojento quanto você. — Gritou dando um tapa no rosto do mesmo, arranhando a face dele e recebendo rosnados dos lupinos irritados. Era como se estivessem batendo em alguém da família. — Os cachorros se irritaram? Manda-os calar a boca! — Rosnou vendo o senhor levantar as mãos e dizendo, de forma muda, para que os mesmo se calassem. — Ótimo. 

— Irá libertar eles? — Questionou o homem hesitante. 

Gray sabia a resposta para aquela frase, mas o lupino parecia tão desesperado em conseguir libertar seu povo daquela tortura que se falassem "A Terra é plana" o mesmo iria acreditar piamente. O humano deu mais um passo, desnorteado com aquele o silêncio sufocante. Quando ia se aproximar mais um pouco, para acabar com a existência da mulher, foi surpreendido. Ela simplesmente colocou suas mãos sobre as bochechas do senhor, fazendo carícias e, por fim, virando brutalmente a cabeça do homem, rompendo a ligação do cérebro com as outras partes do corpo. Havia sido uma morte instantânea, fria, sem dor. Apenas durou o tempo de um resfolegar para que o corpo se encontrasse com o chão. Os olhos claros vítreos do alfa encaravam, mortos, a imagem do seu filho, o qual retribuía o olhar, com lágrimas nos olhos, além de um soluço preso na garganta. 

Seu pai pregava a liberdade e o amor, tratava todos como se fossem irmãos, sempre buscando fazer amizades com novas raças, mesmo que muitas não os aceitassem, mas estava ajudando aqueles que precisavam. Era alguém bom e simpático, cheio de novas piadas para compartilhar, ele teria gostado de Hart, aceitaria-o como seu parceiro eterno, possivelmente, o velho acabaria planejando um casamento para o dia seguinte. 

Noah apenas conseguiu sentir as lágrimas transbordarem impiedosamente, os soluços altos cresciam gradualmente. Hart nada conseguiu fazer, nem mesmo tinha a capacidade de raciocinar o horror que havia presenciado. Preparou um discurso convincente, com mais de cem qualidades, para deixar o sogro contente, sem mesmo conhecer o homem criou uma empatia enorme ao escutar as histórias que Noah lhe sussurrava durante horas e horas. O loiro respirou fundo, não estava preparado para aquela cena. 

Quando notou, Gray estava parado, sendo observado pelos lupinos e vampiros, até mesmo os caçadores estavam curiosos com aquela atitude anormal. Noah havia se calado, os olhos tomavam uma tonalidade escura, como se estivesse em um transe.

— O que está acontecendo? — Questionou Hart ao menor. — Gray… — Chamou novamente o amigo, que não compreendia nada.

Silenciosamente, o caçador retirou uma faca do bolso e jogou-a contra a vampira, que aparou sem ligar para a lâmina cortando a mão branca dela. A mulher largou o objeto ensanguentado e encarou o humano com desdém. Mas o mesmo não se deixou abalar começando a se aproximar, com passos longos e pesados ele encarava fixamente a moça e parecia criar uma confusão na mente dos lupinos, os quais não paravam de choramingar ou rosnar. 

— Noah… — Chamou Hart balançando o garoto. — Hey, Noah, acorda. — Suplicou agoniado com aquela situação. Encarou Gray, o qual parecia ter sido tomado pela ira e, finalmente, conseguiu tirar o menino do transe.

— Hart… — Choramingou o menor abraçando o loiro e beijando sua bochecha com carinho.

— O que está acontecendo? — Questionou o loiro que, como os outros caçadores, parecia estar totalmente perdido naquele mar de atrocidades.

Licantropos rosnavam alto, como se estivessem ameaçando matar qualquer coisa que estivesse na frente deles a qualquer momento. Os Regulares, outrora se divertindo, tinham seus olhares fixados na vampira de cabelos ruivos, a mesma que matou o líder. Acreditavam que iriam sair vivos e sem qualquer arranhão, mas foi quando o primeiro lobisomem começou a se manifestar contra a tirania dos vampiros que o jogo pareceu virar. Uma das fêmea, antes domesticada, uma das milhares que estavam sofrendo abuso, apenas virou-se e mordeu o pescoço do homem que a violava. Aquela matança apenas havia apenas começado, logo, pouco a pouco, outros, dos mais passivos aos mais violentos, começaram a se revoltar.

Os licantropos pareciam ter sido tomados pela adrenalina e pelo ódio, estavam destruindo todos os vampiros sem ligar para seus membros dilacerados, ou dando pouca importância para o fato do corpo estar fraco e cansado. O que Gray tinha feito ia além da compreensão dos leigos, mas alguns, os que tiveram contato com aquela cena, compreendiam com muito orgulho. 

O antigo líder tinha uma raiva enorme das outras raças, principalmente, dos lupinos, por não conseguir controlar eles. Um caçador, com um nível elevado, conseguia ludibriar os licantropos produzindo fluidos corporais, quando um dessa raça farejava o corpo do humano imaginava ser um deles, um lobisomem. Poderia, até mesmo, conseguir atrair ou controlar alguns ômegas e deltas caso o cheiro fosse agradável. Entretanto, chegar a cativar uma alcatéia, render ela de tal maneira que era impossível ela se negar a cumprir qualquer ordem dada, aquilo, sim, era extraordinário.

— Ele está liberando um feromônio muito forte, parece um alfa. — Comentou o menor afundando seu nariz no pescoço do humano loiro. — Vou ficar cheirando aqui até ele acabar. — Murmurou aproveitando aquele local quentinho para receber um pouco de afeto. 

Hart encarou os caçadores paralisados, chocados, então suspirou batendo palmas para eles despertarem e irem ajudar o líder. 

Gray olhou de rabo de olho os licantropos, que também lutavam pela liberdade deles. Ele encarou a moça, segurando o rosto dela e o direcionando contra o seu joelho, quebrando o nariz dela. A chutou para longe deixando os Regulares espantados. O jovem a segurou pelo pescoço, os Licantropos estavam dominando tudo novamente.

— Quem lhes mandou para cá? — Questionou autoritário.

— Por qual motivo quer saber? — Zombou a vampira não ligando para a clara ameaça de morte. Ela simplesmente cuspiu no rosto do caçador, não recebendo qualquer reação.

— Eu quero saber quem lhes mandou para cá. — Repetiu mais sério, fazendo os lupinos ficarem mais violentos, mais destrutivos. — Agora!

— Eu vou morrer e você vai ficar sem saber. — A moça não parecia ter o mínimo desejo de contar. Nela não havia vontade de morrer, nem de permanecer viva por mais tempo. — Mas eu posso contar se você me fizer um favor. 

— Qual favor? — Questionou ele ainda a segurando com força. — Poderia me dizer?

— Me mantenha segura, eu quero permanecer viva e ter metade de todos os lupinos que você tem cativo aqui. — Ditou ela sorrindo. — Se me mantiver segura, se me der a sua palavra, eu irei contar quem nos trouxe aqui. Mas se...

— Tudo bem! — Interrompeu ele, largando o pescoço da vampira, que tossiu. — Preparem uma montaria para a moça e alguns licantropos. — Ordenou, o que fez Noah arregalar os olhos e lutar para impedir do humano, mas Hart, incerto, o segurava com força.

Após boa quantidade dos lupinos estarem elegantemente organizados, amordaçados, e a montaria preparada, o humano ajudou a vampira a subir e sentou-se ao lado dela. Alguns licantropos choramingavam alto por estarem sendo, como escravos, arrastados para um local distante de suas famílias. 

Foi quando a menina tentou avançar contra o pescoço do humano. Já preparado, Gray a colocou contra a parede da bela carruagem de madeira. Ele segurava um recipiente com um líquido viscoso, o cheiro forte ardia nas narinas da vampira fazendo-a tentar, inutilmente, recuar. Ele aproximou o frasco do rosto dela, retirando um gemido de dor.

— Sabe, o pai do Noah pode até ter falhado, mas ele foi muito inteligente em bolar um veneno contra vocês. Aprendi na marra que isso daqui... — Comentou balançando o vidrinho — desfigura lentamente o corpo de vocês e, para piorar, não tem como cicatrizar, ou seja, vai ficar um buraco aberto até você morrer. — Sussurrou. — Mas em nós humanos isso é quase como uma bebida típica, não nos faz mal caso tomemos em doses pequenas, até ajuda na digestão de alimentos. — Comentou. Então, voltando a seriedade, questionou: — Me diga quem foi que lhes mandou aqui.

A garota arfava, estava sendo tomada pelo cheiro sufocante do veneno, sentia um nó em sua garganta, o qual acaba com suas forças. Ela encarou, quase suplicante, para Gray, mas apenas viu uma face indescritível, igualmente como a da pessoa que a arrancou tudo. Lágrimas de dor escorriam pelo seu rosto, havia, em poucas palavras, sido vítima de um roubo, de uma violação. — Peter… Tepes... — Sussurrou baixo. Gray pediu para ser repetido o nome, dito e feito, ela finalizou, repetindo tudo. — Peter Tepes. Esse vampiro nojento, da elite, um vampiro Sangue-Puro, arrancou tudo de todos nós. — Gritou se debatendo. — Estava tudo indo bem até ele, sem qualquer motivo, transformar cada pessoa, uma por uma, em servos, apenas para fazer ele feliz. — Chorou. — Eu fui uma das muitas que ele não conseguiu controlar totalmente. Eu e muitos outros fugimos daquela prisão e acabamos gostando da liberdade.

— Isso dá o direto de acabarem com as vidas alheias?

— Nada no mundo é um conto de fadas, ou você mata ou você morre, ou você domina os outros ou eles te dominam. — Repetiu ela como se fosse uma passagem bíblica. 

— Você me enoja.

— Não estou fazendo nada de diferente de você. Ao menos, eu admito que faço coisas erradas, e você? — Zombou.

— Ao menos, eu não sou uma criança birrenta querendo descontar em inocentes a minha raiva, como se eles fossem mudar alguma coisa, e você? — Revidou calmamente. — Infelizmente, senhorita, nosso tempo acabou. — Zombou ele a largando, deixando seus soldados arrombarem a frágil porta do móvel e a arrancassem dali sem qualquer pena. 

— Você prometeu, caçador. — Gritou ela. — cumpra a sua promessa.

— Eu cumpri a minha parte, não disse até quando ia manter você segura, dei os licantropos, que estou tomando de volta.. — Brincou deixando o líquido no seu bolso. — E, ademais, nada no mundo é um conto de fadas, ou você mata ou você morre. — Comentou soltando os lupinos e pedindo perdão pelo ato.

— Eles irão achar você, irão lhe matar. — Rosnou a mulher antes de sentir o humano jogar o frasco em seu rosto, o qual se abriu e derramou sobre as coxas da mesma. A mulher berrou alto, sua carne derretia, deteriorando-se junto com os seus ossos, parecendo uma sopa, ou um sólido sendo derretido. Ela tentou se afastar, mas até mesmo dar uma única mexida doía. A mesma arfou sôfrega e encarou bem os olhos de Gray, que desapareciam no escuro da floresta. 

 

 

Gray retornou vendo Noah encolhido nos braços do companheiro, o qual acariciava suas costas lentamente sussurrando palavras doces. Sentou-se próximo ao garoto sendo observado fixamente pelo amigo loiro. 

— Os lupinos voltaram, Noah. — Sussurrou Gray.

— Você os deu para aquela nojenta. — Rosnou alto indignado. 

— Olhe para cá e veja, eles estão ajudando uns aos outros. — Comentou alegremente. — Mas talvez você esteja muito chocado para isso. — Murmurou. — Irei dar o tempo que for necessário para que vocês possam respirar e compreender o que aconteceu — Disse calmamente, saindo do local.

— Ele já foi? 

— Sim. — Sussurrou o humano acariciando os cabelos do menino e aspirando seu cheiro terroso.

— É verdade o que ele falou? 

— Olha você mesmo, Noah. — Falou sobre o ouvido do menino, mordendo lentamente sua orelha e fazendo o garoto soltar um suspiro doce. — Todos estão aqui, se ajudando na reconstrução da alcatéia. — Sussurrou. — E você, como único herdeiro, deverá ser o alfa desse local. 

— Eu não estou preparado.

— Está mais do que pronto e, além disso, você tem a mim para ficar do seu lado. — Iniciou seguindo sua mão pela cintura do garoto e subindo até suas costas, arranhando-as lentamente. — Como amigo, como braço direito, como namorado e como tudo aquilo que você precisar. — Ditou finalmente vendo os orbes castanhos lhe encarando. Estava se aproximando dos lábios do garoto, começando um beijo calmo. Noah segurou seus cabelos aprofundando o contato, enquanto entrelaçava as pernas ao redor da cintura do mesmo. — Entendeu?

— Sim… — Sussurrou um pouco mais calmo. — Precisamos fazer uma reunião para conversarmos com os três poderes, vamos nos aliar a vocês. — O loiro sorriu com a atitude do menor dando mais um beijo neste. — Assim você tira a minha autoridade. — Murmurou chateado. 

 

 

Todos se reuniram aos pés da grande Árvore-Mãe da alcatéia, parecia como uma festa, uma grande celebração. Os lupinos, mesmo machucados, ainda sentiam-se acolhidos e, finalmente após de passarem meses sendo torturados, seguros.

Uma jovem mulher, beta, cujos cabelos já rendiam para o grisalho, tocou a bochecha do lupino, que estava nos braços do companheiro humano, sorrindo para ele e, logo em seguida, esticou os dedos para tocar a testa do loiro, abençoando-os. Ela se recolheu e saiu de perto, sorrindo contente.

Mesmo a dor que eles passaram não tinha sido o suficiente para tirar a esperança daquele povo tão simplório e pacífico. 

Noah soltou uma pequena risada ao ver o cenho do amante franzido, o humano não havia compreendido nada do que tinha acontecido. Mas, após ver um sorriso largo no rosto do companheiro sorriu também.

O lupino parou, então olhou nos olhos de Hart, tão fundo que parecia ser engolido lentamente. — Você sabe que irei me tornar o futuro alfa daqui.

— Não irei ficar de quatro para você. — Afirmou fazendo bico.

— Não é isso. — Brincou arrumando um fio loiro. — Você não tem escolha quanto às posições. — informou Noah rapidamente, logo mudando o assunto. — Eu passarei algumas noites sozinho, para que meu corpo possa se acostumar com a mudança. 

— Como assim? Não dá para você continuar neste corpo?

— Licantropos modificam seus corpos sempre que avançam ou regridem na hierarquia. Não é questão de escolha, mas para manter a alcatéia segura. — Afirmou. — Vou compreender se não desejar mais ficar ao meu lado por algo do tipo.

Hart riu alto, então mordeu o pescoço do companheiro com leveza. — Pronto, agora estaremos ligados para a eternidade, não importa a sua aparência.

— Não é assim que funciona — disse Noah rindo, fazia cócegas — Mas, se desejar, posso lhe mostrar como se faz…

— Não tão rápido — ditou Gray colocando a mão nos ombros do seu amigo. Com uma das mãos segurava papeladas, mapas, na outra, um frasco de vidro antigo com um líquido verde estranho — Tenho curiosidades.

Uma caçadora de cabelos vermelhos se aproximou com mais papéis, seus olhos coloridos pareciam concentrados nos inúmeros detalhes que haviam naquelas simples folhas. A mulher segurou uma maçã, a qual vinha na sua direção rapidamente, com uma das mãos e a jogou de volta para o dono, apenas olhando para o jovem humano para o repreender. Ela se aproximou do líder, curvou o corpo e, sem qualquer pudor, informou — Aparenta um veneno, senhor. Essa planta citada serve para matar vampiros. Causa alergia quando ainda está na folha, corrói a pele quando em seu estado se seiva, além de impedir regeneração naquela área. Por fim, quando diluído numa bebida os envenena e mata lentamente.

— O que é isso, Gray? — questionou o lupinos saindo dos braços do seu companheiro e segurando os papéis. Seus olhos estavam atentos a qualquer coisa estranha. Estalou a língua no céu da boca — Meu pai falou que estava desenvolvendo algo que pudesse nos proteger desses Regulares que estavam atacando nossas famílias, imagino que seja disto que ele estava falando — sussurrou — Porém, não posso afirmar com veemência, ele jamais deixou a gente entrar na barraca dele, nem mesmo minha mãe ou eu.

A moça se juntou ao grupo, abrindo o mapa sobre uma tora de árvore e convidando o grupo para se unir a ela. Colocou uns pesos sobre as pontas e apontou para um ponto entre as florestas — Aqui é onde nós estamos, Senhor Gray — A mesma moveu o indicador até uma gravura em formato de casa — Esta daqui é a nossa base, Líder — ditou — E todas essas gravuras com formatos de gota de sangue, lua, monstros e casas, significam, respectivamente, famílias de vampiros, licantropos, mestiços e Humanos.

— Ele tinha mapeado todo o nosso território — ditou Gray sorrindo. Estava totalmente surpreso com a inteligência do Alpha, o mesmo havia feito o impensável e, para cuidar da sua alcatéia, havia aprendido e anotado todos os caminhos e obstáculos — Existem mais raças, muitas delas devem estar sofrendo nas mãos desses Regulares.

Noah deu um passo para perto, mas logo sentiu uma forte pontada no ventre, seus olhos verdes se arregalaram e os dentes rangeram. Hart segurou-o pelos ombros, porém o garoto foi para o chão, se encolheu tossindo sangue, tremendo e gritando de dor.

Os Ômegas e Deltas se reuniram ao redor do lupino, filho do líder, então, em uníssono ficaram anunciando que o herdeiro iria tomar o seu verdadeiro posto, seu verdadeiro corpo. Os betas, logo se aproximaram observando tudo, calados, meros expectadores. Já os alfas rosnavam para o futuro líder, expulsando-o da alcatéia.

Noah assustado se arrastou pelo chão. Os inúmeros feromônios ameaçadores torturaram-o, pareciam afiadas fechas acertando violentamente seu corpo. Ele tentou se levantar, mas caiu no chão, vomitando outro bolo de sangue. Seu corpo tremia, mas precisava sair dali, sentia como se fosse ser devorado pelos Alphas, em suas formas lupinas, os quais se aproximavam ferozmente com as bocas cheias de saliva e espuma, as garras afiadas arranhando a terra, os dentes apontados em sua direção. Tentou novamente correr mais caiu, novamente. 

— O que vocês estão fazendo? — rosnou Hart, o qual foi segurado pelos betas. O homem começou a se debruçar e tentar sair dali. Seu corpo era segurado por quase três ou quatro betas — Eles vão matar o Noah. É isso que vocês fazem?

Gray não falou nada, apenas acompanhou perdido. Os Ômegas uivavam alto, os alfas rosnavam, Noah gritava, os betas não faziam nada além de manter aquela cerimônia acontecendo. Foi quando viu seu melhor amigo escapar e, correndo, chegar até Noah o levando para longe. Os alfas correram atrás do humano tomados por uma ira inexplicável.

— Senhor, o que faremos? — questionou a ruiva.

— Podem começar não interferindo em nossos assuntos — ditou um Beta apontando seus dedos para os rosto do humano, o qual encarou fundo nos olhos do jovem, que se encolheu.

— O que acontecerá com Hart? — Questionou Gray.

— Possivelmente, morrerá, se não for nas mãos dos Alphas, será na mão do lúpus — ditou outro beta, também irritado.

— "Mão do lúpus"? — questionou Gray ficando ansioso com aquela história.

 

 

Hart corria, segurava Noah que gemia com dor entre os braços, sempre tentando desviar de algum galho ou raíz, fazia ziguezagues e, em seu interno, ele clamava por segurança. Nunca em toda a sua vida havia torcido para ser ouvido e abençoado com um local seguro onde pudesse deixar seu companheiro abrigado. 

Após correr pelo que pareciam horas, o loiro encontrou uma pequena caverna. Deitou seu companheiro sobre o piso rochoso e beijou a testa do amado. 

O pequeno lupinos arfava, arranhava o chão e salivava com os olhos arregalados. Seu corpo parecia prestes a convulsionar a qualquer momento. Não havia dado nem tempo para Hart pensar no que tinha se metido, outro bolo de sangue saiu pelos lábios pálidos do garoto, o qual se encolheu trêmulo.

O loiro despertado pegou várias folhas, madeira, tudo o que conseguia. Se ninguém iria cuidar do seu companheiro ele iria. Preparou uma fogueira para limpar a água e dá-la ao parceiro.

— Abre a boca, Noah — sussurrou o caçador acariciando os cabelos escuros do garoto e vendo seus olhos verdes lhe olhando de um jeito que cortava o coração — Você precisa beber água.

— O que você faz aqui? — reclamou o menor, o qual tentou se erguer, mas caiu no chão novamente. Seu corpo estava mole — Você não deveria estar aqui, volte para a alcatéia.

— E deixar você morrer? Nunca.

— Hart, olha para mim, Hart — choramingou o menor cansado, aos poucos deixando-se ser abatido pelo sono e dor — Você precisa voltar… por favor…

Lentamente, o loiro viu uma gota d'água escorrer pelos olhos do pequeno. Não iria abandonar a pessoa que amava por conta de qualquer besteira.

A noite era conturbada, o menor se remexia, tinha crises, espasmos, às vezes acordava gritando e se aproximava do amado para sentir-se acolhido em algum local. Hart conseguia notar algumas diferenças no corpo do menor, o mesmo estava um pouco maior, seus cabelos mais longos, os olhos mais puxados e ferozes. Até o rosto havia se modificado com o passar de apenas alguns dias, parecia tender para o formato de um diamante, seus lábios tinham um desenho perfeito e o nariz, caso ainda estivesse bem da cabeça, aparentava estar mais fino. 

Suspirou, tirou outro fio escuro e semi-encaracolado da testa suada, então beijou o local — Eu te amo. Por favor, fique melhor logo — sussurrou. Aos poucos, foi fechando os olhos, deixando-se ser embalado pelo vento fresco da noite.

— Hart…? — falou o jovem lupino acordando assustado. Olhou ao redor e encarou o homem deitado ao seu lado com desespero. O humano não deveria estar ali, principalmente, se este humano fosse seu parceiro. Tentou acordar o outro de todas as formas, mas sempre que tentava se mover parecia que seu corpo travava, como se estivesse cheio de ferrugem — Hart, acorda e sai daqui agora, você está em perigo.

O garoto encarou suas mãos trêmulas, as quais imploravam por sangue e sentiu os caninos crescerem. Em sua mente, só havia uma coisa sendo dita e não Noah estava gostando.

— Faz quase uma semana que nem o Noah nem o Hart retornam — rosnou Gray a um Beta, o qual tomava pacificamente um chá e, sem nenhum interesse na conversa, continuava a ignorar o humano. Todos estavam estranhamente calmos. Respirou fundo, sentou-se e, irritado, tomou um daqueles chás verdes.

— Agora que está mais calmo, podemos conversar — informou o Beta — Seu amigo será devorado pelo Alpha, aceite isso.

— Que grande ajuda, você conseguiu fazer com que minha preocupação desaparecesse — ironizou Gray terminando sua bebida — Quero tropas procurando o Hart e o Noah em todos os perímetros desta floresta — informou o humano à ruiva.

— Se tentar mandar seu pessoal para a floresta, eles irão morrer também — comentou o jovem, cujos olhos castanhos pareciam adentrar a alma do humano — Noah irá virar o próximo Alpha, ele será como uma besta, indomável, faminto e tudo na frente dele será seu inimigo, incluindo o parceiro dele, o tal Hart.

O humano sentiu seu estômago se embrulhar com a imagem vívida do pequeno lupinos devorando seu amigo — Por qual motivo não falaram nada? — rosnou.

— Tentamos, vocês, incapazes de compreender nossa cultura, como sempre, ignoraram nossas tradições e pisaram sobre elas como se as de vocês fossem superiores. Não é verdade? — questionou calmamente. O sorriso de desdém cresceu no rosto do lupino, o que apenas fez Gray sentir o orgulho ser atingido, mas, infelizmente, havia apenas chegado e determinado, como um ditador, seus costumes.

— Senhor — Interrompeu a ruiva pegando um papel meio amassado e entregando-o ao líder. —, temos boas e más notícias — iniciou formalmente. — A tropa leste voltou, os lupinos haviam sido quase todos devastados pelos Regulares, a tropa norte encontrou um ninho hostil e o neutralizou, a sul e a oeste encontraram dois reinos bastante conhecidos, não temos informações além dessas sobre o local. Além disso, há um reino que entrou em contato com uma de nossas tropas, eles estão ameaçando nos atacar.

— Que reino é esse? — questionou o Beta olhando o mapa enigmático. A moça apontou para um canto mais afastado, quase chegando no limite do papel — Eles não são um reino, são loucos, acham que podem abusar das fêmeas, a filha do líder fugiu o mais rápido que possível após ser violentada por vários lupinos. 

— Você sabe para onde ela pode ter ido? Podemos acabar contactando ela e descobrindo uma forma de ajudar a família dela.

— Agora ficou submisso? — brincou o Beta vendo Gray cerrar o dentes. O homem levantou-se, andou até as costas do humano e, massageando os ombros deste, falou calmamente — Mesmo que eu saiba onde ela está, não adiantará nada, o reino está sobre defesa do presidente John. Precisamos chegar nele e decretar nossa revolta contra esse local.

— Como planeja fazer algo assim?

— Use sua moça ruiva como mensageira, mande-a entrar em contato com o nosso mais novo aliado, o presidente.

Gray encarou a mulher, a qual estava parada em uma posição confiante — Você tem certeza que consegue fazer isto?

— Nasci para servir o meu povo, Senhor Gray, será uma honra poder ajudar desta maneira — comentou séria, o peito estufado, a voz confiante e alta.

— Tudo bem. Diga que desejo ver esse tal John — iniciou o líder, o qual ainda era massageado pelo Beta.

O homem arrumou a gravata e continuou encarando Valentine bem nos olhos, ao lado deste, Theodore encarava John com uma cara não muito bem convidativa. O dono da casa estava sentado ao lado do presidente com um sorriso fraco. Foi quando uma das servas colocou o suco de laranja na xícara do homem que este se pronunciou, quebrando todo o silêncio.

— Imagino que estejam confusos, mas posso explicar calmamente tudo para vocês...

— Eu não quero ouvir suas desculpas — Afirmou Valentine irritado.

— Acho que houve um equívoco. Seu pai não deve ter lhe informado que sou seu noivo — Prosseguiu, ignorando as palavras do companheiro. — E quanto ao seu amigo, não compreendo o motivo de ele ter vindo para cá, talvez tenha sido enviado como um presente? Uma concubina real? — Brincou vendo Theodore enojar-se e Tine expressar desprezo. — Perdão… Não irei repetir isso — Sussurrou.

— Eu não me interesso em saber quem deveria ser, ou não, o meu noivo. Estou com o Theodore e não irei mudar de ideia. Continuarei ao lado dele, com todo o respeito.

— Creio que isso não será possível — Afirmou o ruivo finalmente. O homem, baixo em comparação com os demais, colocou informalmente os cotovelos sobre a mesa, as mãos uma encostada sobre a outra e, por último, entrelaçou os dedos. Seus olhos ficaram nos jovens, um casal que até daria certo se não tivesse acontecido um gigantesco erro durante o transporte das informações — Você, Valentine, é de uma família rica, cujo pai, louco, irá fazer se tudo para unir-te com o John.

— E daí? 

— "E daí" que ele pode acabar mandando matar o seu amante — Comentou vendo John tomar um grande gole de suco. O homem parecia animado com o desenrolar daquela história — Quer mesmo botar em risco a vida da pessoa que você ama?

Um silêncio sufocante se fez presente. Desde quando sua vida era importante? Quer dizer, para o seu pai, sempre que conseguisse lucrar algo, iria ser utilizado como um simples produto. O vampiro se ergueu, completamente transtornado com aquela história e, irado, pegou seu copo virando-o contra o colo do seu verdadeiro noivo. Uma clara mensagem de desprezo, muito bem recebida pelo humano, o qual ficou calado durante aquela atitude desonrosa. 

Assim que o vampiro se distanciou, deixando somente os três na mesa, John soltou seus comentários ácidos ao amante do seu noivo, lógico que não iria perder seu companheiro para um qualquer por motivos banais, iria deixar marcado, e muito bem marcado, o seu território — Não chegue perto do meu noivo, não fale com ele, se possível, nem esteja nesta casa ao amanhecer.

Theodore riu alto, debochando o máximo que podia em cada segundo, depois, ficou sério — Aceite, essa briga está perdida, você chegou tarde, não há nada que você possa fazer para chegar ao coração dele.

— Infelizmente, Reed, é como o meu comigo aqui, Amorim, falou. Valentine não tem escolha. Veja, se ele tivesse o poder de mandar em si mesmo, não estaria aqui, não teria te conhecido e, muito menos, se apaixonaria por você — Avisou, retirando o terno lentamente, não tinha pressa para contar verdades, para encravar escaras em peitos alheios — Compreende? Você foi apenas o intruso que, convenhamos, se intrometeu na história. 

— Isso não funciona comigo — Informou irritado.

— Não quero nada além do seu respeito. Valentine é o meu noivo e não terei pena de proteger ele, mesmo que eu precise sujar minhas mãos — Avisou se levantando. Deu alguns passos para perto do vampiro de cabelos ruivos e, sorrindo, completou. — Tenha um bom dia.

Reed encarou Roy de forma condenatória. Simplesmente, não estava acreditando naquela situação e, para piorar, o vampiro na sua frente parecia não se arrepender dos seus atos.

— Você fez toda aquela cena no início apenas para criar um briga agora?

— Inicialmente, eu não sabia que Valentine iria casar com o John, imaginei, erroneamente, que seria contigo — Afirmou terminando sua bebida — Se eu fosse você, seguiria clareamento o que o John falou enquanto ainda são apenas avisos.

— Não tenho medo desse cretino.

— Você não sabe do que ele é capaz de fazer. — Afirmou levantando-se — Não sabe uma porcentagem do quão perigoso John Hendrick é — Ditou olhando, melancólico, para as próprias mãos, parecia como se estivessem cheias de sangue, manchadas — Irei para a minha sala, qualquer dúvida, apenas me chame.

Após o ruivo sair, deixando Théo sozinho na mesa, Peter entrou no local, arrumou a gola de sua roupa, escondendo as diversas marcas avermelhadas, colocou a mão sobre o ombro do seu mestre.

— Deseja que eu faça as suas malas? Podemos sair deste local hoje.

— Não irei deixar Valentine — Ditou. Em seus pensamentos, planos bem calculados passavam de diversas formas.

— Receio que isso seria uma péssima ideia, Senhor Reed — Informou o jovem um pouco preocupado. 

— Eu não irei sem o Valentine — Rosnou e, finalmente naquele dia, encarou seu fiel servo. Pela primeira vez em anos, havia olhando para uma pessoa com chamas queimando nos olhos coloridos.

Hendrick, com um belo buquê de flores em uma das mãos, bateu lentamente na porta de eucalipto. Estava com uma traje social preto, simples, mas estiloso. Havia praticado por horas o seu melhor sorriso, queria dar uma apresentação digna ao companheiro, conquistar ele de uma forma honorável e inesquecível. Tentou outra vez bater na porta, porém foi recebido por uma moça, uma vampira aparentemente rude.

A mulher, quando reconheceu sua presença, endireitou-se e, assustada, mexeu as mãos pedindo silenciosamente para as companheiras pararem de fazer alguma atrocidade.

— Senhor Hendrick, o que lhe traz aqui? — Questionou a moça agoniada, abrindo, finalmente, caminho para o homem entrar. 

— Lhe indagou a mesma coisa, senhorita — Comentou ácido. Não iria permitir que ninguém tocasse em sua propriedade daquela forma — O que estão fazendo com o meu noivo, posso saber?

— Apenas estamos o arrumando, queremos que ele esteja apresentável para você, certo, meninas? — Afirmou. O tom da sua voz havia caído diversos níveis enquanto falava aquilo, parecia temer o homem na sua frente. Quem não teria medo? John Hendrick era o atual presidente, um ex soldado, alguém que deveria receber o mundo — Veja como ele está maravilhoso — Disse apressada, mostrando o vampiro deslumbrante. 

Os cabelos claros escorriam pelos ombros de uma forma provocante. Valentine vestia uma blusa branca, leve, sob uma túnica também desta cor, cujos botões, grandes e redondos, tinham uma bela tonalidade amarelo-queimado. Não usava gravata, mas colares dourados com o símbolo da sua família sendo carregado. Um short branco estava cobrindo um pedaço da sua perna, a qual tinha uma meia-calça clara. Nos pés, Albuquerque calçava um sapato de fivela da mesma cor que o restante do conjunto, esse tinha um pequeno salto de, no máximo, cinco centímetros, preto.

John ficou calado por um tempo, aquela pessoa na sua frente realmente parecia com um anjo. Sorriu e se aproximou dando as flores de tons fortes, amarelo, laranja e vermelho, nas mãos do vampiro.

— Eu não irei contigo — Afirmou irritado.

— Me dê uma chance — Pediu pegando a mão do outro e beijando seus dedos levemente. — Prometo que cuidarem bem de você — Sussurrou puxando-o para se levantar, segurando sua cintura e, por fim, beijando sua testa — Farei o que for necessário para cuidar de você.

— Você acha mesmo que irei cair em suas palavras? — Ditou afastando-se — Os amigos do meu são…

O homem riu baixinho, o que fez o outro ficar mais irritado — Eu não sou amigo do seu pai, sei que ele apenas me uniu com você para ter status, mas, pense numa coisa, se ele tem os status que ele quer e eu tenho você, posso cuidar da sua segurança, assim ele não tocará em um fio do seu cabelo. Você não anseia ficar longe do seu pai? — Questionou gentilmente, encarando os olhos brilhantes do companheiro.

Era uma oportunidade maravilhosa. Viver sem o Senhor Albuquerque nos seus pés? Aquilo era mais do que um sonho, era um desejo que lhe consumia todas as noites, o remédio para a sua ferida.

— Eu irei pensar — Sussurrou Valentine virando o rosto. — Não quero tomar uma decisão errada.

— Compreendo — Ditou calmo e, como um último gesto de carinho, beijou o nariz do vampiro, surpreendo-o — Podemos ir? Estou ansioso.

— Certo.

O humano tocou, delicadamente, as mãos do jovem e, após beijar os dedos, encaminhou seu companheiro para a porta. Além disso, ao virar-se para as moças deu-as um olhar furioso, fazendo-as, uma por uma, sentirem um arrepio percorrer o corpo delas.

Assim que chegaram no jardim, John puxou a cadeira para que Valentine sentasse, arrumou os pratos e encheu as taças de vinho.

— Como conheceu o meu pai?

— Você gosta de algum livro?

— Sim, gostou, mas não mude de assunto. — Pigarreou o vampiro.

— Não estou mudando — Falou feliz — Eu sou o presidente, acho que já ouviu falar de mim em algum local.

— Não. Suas forças são limitadas, logo, não ficamos sabendo. Vocês humanos tem uma forma muito arcádia de governo — Comentou o outro bebericando seu vinho.

— Você fala isso, mas também não vive uma vida futurista, preso numa mansão como se fosse uma pobre donzela esperando ser salvo por um príncipe.

— Sabemos que isso não é verdade.

— Da mesma forma como a sua afirmação não é verifica. Os seres humanos, admito, possuem uma forma meio violenta de resolver seus problemas, são um tanto lentos e, às vezes, falta capacidade intelectual, mas ele não se diferem tanto das outras raças — Ditou bebendo, finalmente, seu vinho.

— Touché! — Disse o vampiro se arrumando na mesa e encarando os olhos profundos do seu companheiro, parecia como se houvessem profundos abismos naqueles orbes negros.

— Minha vez de perguntar, certo?

— Imagino que sim. 

— Por que o Reed?

John conseguiu ver o outro se engasgar com a pequena mordida no omelete. Tapou os lábios para não rir daquela cena triste e cômica, um vampiro perdendo a pose na sua frente.

— Sério que me perguntou isso?

— Você perguntou sobre o seu pai.

— Não são a mesma coisa.

— Você não conhece o meu pai, não tem como eu questionar sobre ele. Vamos mesmo ficar nessa brincadeira?

— Não sei. Quanto de paciência você tem? — Provocou.

— Depende, quanto de resistência física você tem? — Revidou.

— Como assim? — Indagou tentando compreender se realmente havia alguma segunda intenção naquela simples frase. Sentia até mesmo um rubor crescer em suas bochechas. 

— Acho que está na hora de voltarmos, aparentemente, irá chover e não queremos que você molhe sua roupa e fique resfriado. 

— Vampiros possuem uma imunidade maior que a dos humanos — Ditou sorrindo debochado.

John Hendrick, pela primeira vez, imaginou ter encontrado a pessoa provocativa que desejava. Aquele fogo que queimava vividamente nos olhos do Albuquerque o causava fascinação, excitação. Queria domar aquele vampiro, mostrar quem era o dono dele.

Voltaram juntos para dentro da mansão. Valentine compartilhava algumas experiências, escondendo de John partes importantes de sua vida, não confiava no homem, porém, como uma forma de manter uma relação aceitável com o mesmo, contou algumas histórias banais sobre si. Da mesma forma, Hendrick dizia algumas banalidades sobre as aventuras que viveu, mas mantinha alguns conteúdos, principalmente os relacionados a sua carreira militar, escondidos.

Foi quando o humano deixou Albuquerque no quarto, depositando um beijo sobre as mechas amareladas do outro, que Theodore apareceu, o vampiro ao ver aquela cena deixou um prato cair no chão, assustando o casal. Reed correu, envergonhado, porém, para a infelicidade do homem, Valentine correu atrás do companheiro.

— Você jamais irá conseguir separar eles — Comentou Roy atrás do humano.

— Irei sair para tomar um ar e já volto — Ditou Hendrick sorrindo para o amigo.

Um arrepio passou pelo corpo do vampiro, o qual apenas concordou ao sentir as mãos pesadas apertarem com força seu ombro. Não poderia fazer nada.

— Tudo bem — Sussurrou o ruivo guardando uma fotografia antiga no bolso.

John cantarolava pequenas frases, encarnado a lua cheia no céu. Sentia-se, finalmente, mais calmo, como se, finalmente, após anos estivesse em paz consigo mesmo. Foi quando, em seu momento de calmaria, escutou as folhas de um arbusto se chacoalhando. 

Uma moça de cabelos ruivos e trançados, atravessou os galhos, seus olhos encararam sérios os do John, que nada falou, apenas observou aquele ato receptivo. 

— Você se chama John Hendrick? — Questionou a garota ainda séria. 

— Até agora, sim. E você, qual o seu nome? 

— Meu nome não interessa, Senhor John, sou apenas uma mensageira. — Ditou a mulher batendo continência, colocando-se em pose de soldado, esperando um comando. 

— Descansar. — Sussurrou vendo-a ficar em uma posição mais confortável, porém, sem perder a pose de soldado. — O que você tem para mim, soldado?

— O meu líder, Gray Zephyrum, também conhecido como o Inquisitor, me mandou até aqui. Ele disse para eu pedir sua presença numa discussão sobre um reino que, infelizmente, está causando dano às outras raças.

— Esse nome me soa familiar. — Sussurrou se aproximando da menina e, notando sua segunda intenção, sorriu levemente. — Se eu não quiser ir, você vai me ameaçar com uma seringa? — Questionou irônico. — Eu esperava mais de uma pessoa como você, não sou tolo. 

A ruiva se assustou ao escutar aquilo e apertou o objeto. Como poderia ter revelado seu plano tão fácil para o seu inimigo? Ela soltou deixando o líquido adentrar o solo. — Estou sem nada, agora pode confiar em mim?

— Ainda tenho dúvidas, você me parece muito suspeita com essa falas tão vagas. Aparenta ser uma armadilha.

— Jamais faríamos algo com você! — Afirmou ela recebendo um olhar interrogatório. Sentiu-se horrível por ter levado aquela seringa, mas o medo havia a consumido. — Era só para se as coisas ficassem complicadas.

— Compreendendo. — Ditou ele. O homem sorriu e bagunçou os cabelos da menina. — Quando partimos?

Com o rosto ruborizado, ela respondeu calmamente: — Agora. São apenas algumas horas se formos a cavalo. 

— Cavalo? 

— Sim. — Falou a menina abaixando alguns ramos do arbusto e mostrando uma égua branca de olhos azulados, com a crina platinada.

Fazia um bom tempo que John não andava a cavalo, principalmente, sobre uma égua tão violenta quanto Cristina. Seus cabelos estavam bagunçados, sua roupa amarrotada e, possivelmente, ainda tinha alguns insetos esmagados contra o seu belo rosto.

Desceu do mamífero um tanto hesitante, imaginava que a égua poderia dar um chute contra ele a qualquer momento, mas fora o animal, não temia nada. 

Encarou, em um canto isolado, uma mesa de eucalipto, nela um homem de cabelos negros como a noite distribuía um líquido verde dentro de copos, que, devido a coloração, lembravam esmeraldas. O jovem usava um sobretudo escuro, uma blusa negra e não deixava de encarar a bebida.

Gray se sentou na mesa e, olhando sobre os ombros do humano, viu um outro ser segurando um sniper, o qual estava bem direcionado para a sua cabeça. Sorriu e, pegando um copo, começou a falar: — O verdadeiro motivo de terem me chamado, qual era?

Finalmente os olhos animalescos do caçador focaram nos despreocupados do John, o qual bebia o chá com graciosidade. — Não há nenhum motivo escondido. Lhe chamamos para um acordo, como bem dito pela moça ao seu lado. — Gray estendeu a mão pedindo para a garota pegar o mapa e o colocar sobre a mesa. Assim que feito, o humano de cabelos escuros tocou no ponto específico, na ditadura dos lupinos.

— Sim, um reinado que está sob o comando de um líder lupino.

— Um aliado seu. — Respondeu prontamente.

— E querem me matar achando que vão conseguir alguma reação com este ato.

— Seria maravilhoso explodir a sua cabeça em milhões de pedaços. — Comentou o beta, tendo sua voz repercutida pelo interfone na mesa. — Pena que o nosso líder não deixa isso. Ele é um amorzinho.

John colocou as mãos sobre a boca tentando não rir daquele flerte terrível, o qual foi ignorado pelo receptor. — Então, líder, qual o seu plano?

— Lhe matar está fora de cogitação — Ditou recebendo um rosnado irritado do Beta — porém quero que você traía o seu aliado e nos ajude a matar ele. Sei que você tem um grande poder de fogo, apenas isso frustra nossos planos, e, como nenhum de nós queremos perder vidas valiosas, podemos fazer uma união, uma aliança.

— Deixa eu compreender. Você quer a cabeça de cada pessoa do reinado Abiola? Isso é surreal, não acha? — Zombou um pouco, mas, após acabar de beber o chá, completou sua frase — A cabeça de todos eu não posso lhe dar, isso seria genocídio, sangue inocente manchando o chão. Mas, como um conhecedor dos horrores que ocorrem naquele local, posso prometer que a cabeça do líder será sua — Afirmou calmo — Porém.

— Sempre tem um porém — Comentou o beta quase apertando o gatilho.

— Desejo você como meu aliado. Preciso de pessoas que tenham a capacidade de reconhecer essa imundície que algumas raças são capazes de fazer e, principalmente, preciso de pessoas capazes de colocar na linha locais como o clã Abiola. 

—  Você precisa de assassinos? 

— Preciso de pessoas que busquem livrar o mundo de mais sangue inocente sendo derramado sem motivo. — Afirmou sorrindo.

O beta sorriu, mirou com mais precisão na testa do John, que, debochando de si, revidou olhando-o calmamente. Resmungou contra o interfone. Não vinha nenhuma palavra de Gray. O que ele estava esperando para dizer alguma palavra? Ele estava preocupado, em uma situação como aquela? O homem saiu do seu esconderijo, abaixando sua BFG 50 e se posicionou atrás do humano colocando suas mãos sobre os ombros deste.

John conseguia ver pairar o quão possessivo aquele lupino parecia ser com o líder deles. Não estava tão surpreso, podem, mesmo assim, era interessante ver um relacionamento daqueles, um humano e um lupino de alta classe.

— Diz logo que você aceita — Ditou o beta. 

— Você realmente acha que será uma boa ideia? — Questionou Gray não deixando de encarar o presidente na sua frente, queria encontrar algum traço, algum movimento que retirasse toda a sua confiança.

— Concorde logo com esse homem, senão eu terei que matar ele, não quero manchar você de sangue, não com um tão nojento quanto o dele — Afirmou fazendo uma leve massagem nos ombros do humano.

— Certo, Presidente John Hendrick.

— Só John está bom.

— Certo, John, temos um trato? 

— Claro que temos! — Informou contente. O homem se levantou e, virando-se para fazer um comentário, falou: — Lhe convido a ir, qualquer dia desses, na mansão onde estou para que possamos conversar mais sobre esse assunto. Certo?

Gray bebeu o chá e concordou. Seus olhos viram a ruiva levar, sobre a égua, o aliado.

O beta sentou ao seu lado, encarando-o, analisando-o beber aquele líquido simples.

— Não irá falar nada?

— O que deseja que eu fale?

— Não sei, alguma ameaça boba — Brincou recebendo um soco no ombro e uma risada — Finalmente, você riu. 

— Não tem como ficar sério todas as horas quando estou falando com um humano estúpido feito você. Vamos para a alcatéia.

— Mas ela ainda não chegou com a égua. — Lembrou o humano atentamente.

— Não se preocupe ela sabe voltar para casa. — Sussurrou calmamente, então segurou o jovem entre seus braços — Já andou sobre um licantropo?

— Isso é muito estranho. — Afirmou Gray dando um passo para trás, mas foi surpreendido quando o beta se transformou em um grande lobo, talvez tinha o dobro ou triplo do tamanho de um lupino comum, a pelagem negra brilhava, os olhos o secavam fixamente. O licantropo se abaixou para que o humano sentasse sobre ele. — Certo. — Comentou o homem, que se agarrou ao pescoço peludo do outro quando este se levantou rapidamente.

O beta, se estivesse em sua forma humanoide, teria dado um belo sorriso, mas se contentava apenas em delirar a face curiosa do companheiro. O Lobo começou a caminhar rapidamente pela floresta, sempre prestando atenção nas reações do humano. 

 

 

O lupino se levantou, cobrindo o corpo do humano, relembrando o momento de prazer que teve durante toda a noite. Sem fazer barulho, catou suas roupas, tomou banho e se alimentou. Arrumou os cabelos longos, prendendo-os em um rabo de cavalo e, arrumando o terno preto, deixou um beijo sobre a testa do Sem-Nome, então saiu da casa. Precisava resolver seus assuntos e não iria envolver um humano nisto, ao menos era o seu plano.

Andrius se levantou assim que escutou o som da porta sendo fechada, se vestiu rapidamente, havia tomado banho pela madrugada após o lupino adormecer. Olhou pela janela vendo o licantropo virar a esquina, esquivando-se das pessoas que o achavam bonito e tentavam se aproximar dele com outras intenções. 

Deixou as chaves na bancada do estabelecimento, seguindo o homem o mais rápido que pode, ignorando o fato de também estar sendo observado pelas pessoas.

Não compreendia o motivo de o lupino estar indo rumo às cinzas do hotel cinco estrelas no fim da rua de uma humana qualquer. De longe, conseguiu vê-lo passar pelos policiais como se nada estivesse acontecendo, atravessando entre eles sem dar importância para os rosnados ou para os que o mandavam sair dali, entretanto, após mostrar uma carteira, todos se calaram. Aquilo, sim, era curioso.

Andrius continuou seguindo ele com o olhar, esperando a hora certa para poder agir. Quando a quantidade de pessoas começou a diminuir, aproveitou para entrar no local. 

As paredes em ruínas, acinzentadas ou tostadas, davam um aspecto assombroso ao local principalmente pela pouca luz que atravessava algumas brechas. Caminhou, tentando encontrar o cheiro fraco dos feromônios daquele lupino misterioso. Quanto mais fundo ia, mais escuro ficava, goteiras de canos furados ecoavam pelos corredores, destroços se espalhavam pelo chão inundado com sujeira, sangue e água. Conseguiu, em meio a caminhada, notar alguns cereais boiando, abaixo deles, uma tigela branca.

Escutou um chiado de porta abrindo e fechando, como se estivessem arranhando o chão com uma barra de metal, logo procurou algo que fosse parecido com aquela descrição mental, abriu uma porta, enferrujada, atravessando-a sem qualquer medo, conseguia sentir um cheiro diferenciado naquele local, então continuou a caminhar. Quando chegou ao fim, viu o lupino encarando as escadas, analisando tudo o que fosse possível. Seguiu até uma sala estranha, no subterrâneo, que, curiosamente, estava intacta.

— Então quer dizer que esse maldito tinha conhecimento disso e estava escondido aqui o tempo todo? — Rosnou o lupino descrente — Um nojento mesmo — Afirmou olhando livros sobre plantas, alguns sobre animais, onde haviam tutoriais de desmembramento, misturas e algumas passagens religiosas. Um emaranhado de informações atropelando a razão, parecia loucura, mas era a verdade, a pessoa responsável por aquilo já tinha perdido a humanidade, se é que um dia a teve. 

O lupino pegou tudo o que conseguiu, saindo do local pela mesma passagem que qualquer pessoa mal intencionada teria, a de emergência, instalada de forma estratégica ao lado dos livros e arquivos. Caminhou sentindo um cheiro estranho de mestiço impregnar suas narinas, deixando-o curioso, talvez houvesse ligação entre o terrorismo e aqueles arquivos. A pessoa que fugiu pode ser o causador daquilo tudo.

Andrius apenas se mantinha calado, suspeitando do prostituto. Parecia ficar mais interessante aquela história a cada momento que se passava e, entediado, faria de tudo para se divertir mais um pouco. 

Kira tentou tomar o controle do avião, puxando o volante, apertando botões, ligando e desligando tudo o que conseguia, entretanto nada funcionava, nem conseguia ativar o modo de emergência do móvel, apenas restava rezar para sobreviverem.

Caminhou até todos pálida, vendo-os perderem o sorriso de esperança e passarem a tomar um medo enorme. 

Foi quando Rantaro pegou algumas bolsas, as quais tinham um paraquedas dentro, e encarou todos como se fossem idiotas por entrarem em pânico em vez de buscar uma solução inteligente. Ele olhou para sua parceira, esperando que ela fosse se aproximar dele para pegar uma mochila, entretanto Yuri tomou-a de sua mão e jogou na menina alegando que não tinha tempo para romances adolescentes.

Kira pegava alguns itens necessários no pouco tempo que ainda tinham, estavam altos e não poderiam saltar naquele momento, talvez tivesse uns cinco minutos sobrando. Arrumou uma bolsa com mantimentos, o que foi feito por cada um também e, após isso, saltou.

Yuri encarou a Ruby e a puxou para saltar ao lado dele, deixando Rantaro para trás, o qual acompanhou o vôo dos dois. O Jovem alpha segurava as mãos delicadas de sua parceira, sorrindo para ela e encarando-a direto nos orbes. Parecia que estava sendo confrontado, sem sombra de dúvidas.

O vento atravessava os cabelos finos das moças, fazendo-os darem cambalhotas conforme o ar se atrevia a correr solto contra elas, tocavam suas roupas, subindo as barras até o pescoço, vez ou outra era quase impossível manter a roupa no lugar. Mas a lupina estava gostando daquela sensação, o tatear violento, porém deleitoso contra a sua pele, além da calmaria. Conseguia ver o verde da grama, das copas rechonchudas e felpudas, cheias de frutos.

Foi quando escutou alguém gritar seu nome que voltou à realidade, estavam caindo e de uma altura absurda. Entrou ligeiramente em pânico, mas sentiu a mão pesada do companheiro em seus ombros tentando a relaxar, ele sussurrou algo que foi levado pelo vento violento, pois não conseguiu escutar e logo teve sua corda puxada e seu paraquedas aberto. 

Rantaro estava logo atrás de Ruby, também puxando seu cordão.

Foram precisas algumas horas para eles chegarem no chão em segurança, arrancaram as mochilas do corpo e se fixaram em um local.

— Então, quer dizer que a princesa foi salva pelo príncipe encantado novamente? — questionou Kira sarcasticamente, vendo os homens caçando alguma coisa para elas comerem. — Eu esperava alguma atitude mais ousada vinda de você.

— Eu não pude fazer nada, estava em um estado de choque, talvez eu acabasse morrendo se o Rantaro não tivesse prestado atenção — comentou dando de ombros o semblante de desprezo que havia recebido.

— Você apenas vai sair perdendo com isso — afirmou, então pegou uma faca do sapato apontando a lâmina contra o pescoço branco da lupina — Se eu fosse uma pessoa ruim, você estaria morta e eu, sem qualquer arranhão — sussurrou ameaçadora. — Mas é lógico que eu não faria isso com uma amiga como você — disse rindo alto.

Ruby, muitas vezes, tinha medo das ações ofensivas e opressoras. Parecia que Kira queria deixar claro quem mandava, não era preciso nenhum especialista para deduzir aquilo.

— Então, como vão fazer para consertar o jato? — perguntou Kira aos dois homens na sua frente, os quais trocavam olhares de dominância. — Ei — gritou estalando os dedos próximo deles — Quero saber como irão consertar aquela joça.

— Eu não vou fazer nada — anunciou Yuri se transformando em um lupino e, sem enrolar, correndo para a floresta.

— Um babaca — rosnou a irmã encarando aquela atitude infantil — Ao menos, traga alimento — Ela encarou Rantaro, então sorriu formalmente, não seria bom fazer inimizade com alguém da elite, estava sozinha e, mesmo que Ruby estivesse triste, a pessoa no interior dela acabaria participando da briga — Me ajude a pegar suprimentos. O jatinho morreu e, pelo menos, precisamos arrumar algo para passar a noite aqui. Recolha alguns galhos para fazermos uma fogueira. 

O lupino nada disse, sinceramente, se sentia um tanto culpado por ter acabado com a única chance de ser perdoado pela companheira, mas não tanto, porque o maldito Yuri havia se intrometido na sua vida o que piorou tudo.

Caminhava silenciosamente, encarando o ambiente onde estavam, um local frio, com bastante árvores, possivelmente, havia acabado de chover ali e o vento fresco dava um aspecto mais gélido que o normal. Catou os galhos mais secos que conseguiu, entretanto, no meio da caminhada, sentou um odor diferente entre a mata. Um cheiro que se destacava dentre a essência comum de madeira e folhas, quase perfumado, adocicado, como uma bela fatia de doce, recheado com mas uma camada, interna e externa. 

Havia voltado rápido ao possível acampamento, vendo as faces desgostosas dos, talvez, aliados. Ruby estava calma, encolhida, ainda ponderando sobre o que havia acontecido. Arrependia-se amargamente por não ter esperado a hora da garota, mesmo que, na sua mente, estivesse confuso. Dark havia lhe prometido que nada de ruim aconteceria depois e, bem, como um noivo esperando, ansioso, para desflorar sua noiva, ele foi.

Sentou-se ao lado da parceira, então, sem pensar duas vezes, começou a dizer o que havia encontrado. Infelizmente, não poderiam escalar sozinhos, mas conseguiria se livrar deles caso fosse necessário fazer algo do tipo.

— Você não acha que é alguma alucinação sua, Vira-Lata? — questionou Yuri arrancando um pedaço da lebre e comendo-o junto com os ossos. 

— Não é alucinação alguma — rosnou. — De qualquer forma, se acreditam ou não em mim, eu não me importo. — afirmou. — E você, mocinha, vai vir comigo. — afirmou apontando para a Ruby.

— Eu não vou com você, irei ficar com a Kira — ditou ignorando o homem. A cada palavra que dizia sentia como se algo estivesse amassando o seu coração, apertando seus pulmões, sequer conseguia esconder o semblante de medo diante dos outros.

O homem suspirou e encarou a menina, compreendia que ela estava ressentida, mas aquilo não era motivo suficiente para ser uma burra — Veremos, por hora, precisamos descansar.

— Eu e o Yuri vamos pegar mais informações sobre o local, podem ficar conversando livremente — afirmou a jovem nativa, sentia repulsa de cenas amorosas. Caminhou com o irmão, o qual tentava protestar, então, quando distantes, o jogou contra um tronco e apontou para ele — Não ouse me desrespeitar na frente dos outros, Yuri.

O jovem segurou o braço dela, retirando o dedo fino da sua frente — E você não comece a querer mandar em mim como se fosse importante para alguém.

— Cale a boca — revidou — Nossos inimigos são outros, não viemos aqui para brincar, precisamos encontrar uma forma de levar eles para casa e voltar para a nossa. Se o Vira-Lata não for um inútil e tiver realmente encontrado o que ele disse, estaremos na sorte e podemos matar eles dois e fingir que nada aconteceu.

— Então, você está propondo uma trégua?

— Se quiser chamar assim — disse revirando os olhos.

— Qual o seu plano? — questionou calmo.

De longe, Ruby segurava as lágrimas e apertava os ombros do companheiro, havia sido enganada novamente. Antes de falar algo, foi abraçada pelo Rantaro.

— Ficará tudo bem, Ruby, encontraremos uma forma de fugirmos novamente, como sempre fazemos. Não vai precisar a viver aquele pesadelo.

— Eu não quero mais fugir, preciso parar de ser covarde — afirmou dando um olhar determinado para o outro, o qual sorriu deslumbrado e a beijou, segurando sua cintura.

— Será perigoso — sussurrou, não tentando convencê-la do contrário, mas tendo certeza de que a garota iria fazer aquilo.

— Não me importo, cansei de ser covarde.

— Finalmente alguém está crescendo… — sussurrou beijando-a calmamente, arranhando as costas dela, a puxando para perto de si.

— Ma…-mas isso não significa que eu ainda não estou com raiva de você — Falou birrenta — Não era para a Dark ser a primeira, mas sim, eu.

— Podemos mudar isso agora mesmo. Dark é muito violenta, com você serei mais doce — Brincou.

— “Esse canalha falou o quê?!” — Gritou Dark à Ruby.

— Sempre — revidou a garota sorrindo para o parceiro e sendo recebida com vários beijos e carícias. 

Bonnie deitou-se, estava exausta, não sentia nada no seu corpo, Angélica havia drenado completamente suas energias tentando fazê-la trabalhar o dia inteiro. Compreendia que a garota apenas estava tentando lhe deixar para cima, dar um Up, mas estava tão acabada que nada conseguia passar por sua cabeça.

Sentiu Angélica passa um dos braços ao redor da sua cintura, então a lupina começou a fazer leves ondulações com as mãos, tentando lhe acalmar, algo que, incrivelmente, estava, sim, funcionando. Bonnie se virou, encarando os olhos da outra, a qual sorriu e beijou sua testa voltando a desenhar sobre sua pele com os macios dedos. 

— Você é a coisa mais importante de todas, para mim, Bonnie. — Sussurrou. — Eu te amo. — Ditou dando outro beijo, desta vez, sobre as madeixas da menina.

— Boa noite, Angélica. — Falou a garota, encolhendo-se devido a sua arrogância, virando seu corpo para dormir. — Conversamos amanhã.

Ao amanhecer a garota foi uma das primeiras a se levantar, tateou os pés no chão gélido sentindo um arrepio atravessar todo o seu corpo. Porém nada falou, apenas ficou ali apreciando o piso de madeira escura e escutando a companheira resmungar baixinho, chamando-a, sussurrando seu nome. Em outros tempos encontraria graça se estivesse em uma situação como aquela.

Retirou a fina blusa e andou, com certa dificuldade, pois seu corpo doía, até o banheiro. Calmamente, suspirando, tomou seu banho. De sua mente, não conseguia sair a ideia de que estava presa naquele local para sempre, sem ter a chance de fazer alguma coisa.

Bonnie despertou ao sentir as mãos firmes de Angélica sobre sua cintura, apertando-a de forma possessiva. Sabia que a moça atrás de si não estava tentando passar algo doentio, mas uma forma de mostrar a menina de cabelos claros que esta não estava sozinha. Sentiu os lábios beijarem delicadamente sua nuca, caminhando para o seu pescoço e descendo para o seu ombro.

— Ficará tudo bem — sussurrou ante o ouvido da jovem — vamos tomar café?

— Tudo bem — Respondeu ainda encarando o nada. Não sentia ânimo algum para continuar naquele momento. Havia sido enganada, perdido Kelly, a que troco?

Angélica segurou as mãos da garota, puxando-a para a cozinha, mostrando-a o quão bom a vida poderia ser. Talvez uma vida simples não fosse tão ruim assim, suas mães passaram por diversas atrocidades e agora, juntas, estavam tendo um dia invejável.

Sorriu quando a garota derrubou um copo de água molhando o próprio corpo. Se abaixou, pegou o objeto e colocou ele sobre a cuba da pia.

— Irei pegar um pano para você.

— Eu adoraria, mas vou precisar tomar banho, senão, ficarei com cheiro de cachorro molhado — A menina ditou rindo de sua própria desgraça.

— Então vou ligar a torneira para você se banhar.

— Você consegue fazer o café sem mim?

— Claro que eu consigo — birrou colocando as mãos sobre a cintura — Está duvidando da minha capacidade gastronômica, Senhorita Angélica?

— Jamais duvidaria dos seus dons — sussurrou beijando os lábios da moça — Apenas não quero deixar a minha doce garota fazendo todo o trabalho sozinha.

— Ah, pare com…

Angélica colocou as mãos sobre os lábios da menina, calando ela. Encarava afoita as paredes da cozinha, prestando total atenção a qualquer som estranho.

Os batimentos cardíacos de Bonnie conseguiam ser escutados em meio aquele tenso silêncio. Caia lentamente, como um tique de relógio, gotas da torneira dentro de um prato cheio de água.

— Tem alguém aqui — sussurrou. Antes de falar mais alguma palavra, escutou um grupo caminhando dentro da casa, davam passos silenciosos, sabiam o que estavam fazendo.

Angélica puxou uma faca de cozinha, além de outras pequenas facas de manteiga, mas bem adiadas, e caminhou para o canto do cômodo, encarando as pessoas dentro da sala. Pareciam dois pares de casais, duas meninas e dois meninos andavam atentos pela sua simples casa. Mirou e jogou uma das lâminas contra um dos estranhos, vendo o homem de cabelos escuros pegar o objeto metálico e lhe encarar ferozmente.

— De onde veio isso?

— Da cozinha.

— Realmente, Vira-lata, tinha alguém aqui — zombou Yuri dando mais um passo rumo ao cômodo onde Angélica se escondia com Bonnie.

A ruiva encarou a menina de cabelos claros, tentando transmitir conforto para esta, mas apenas recebeu uma encarada triste. Suspirou, não tinha muito o que fazer, precisava defender a pessoa que tanto amava. 

Andou até a entrada, segurando as facas afiadas, preparada para jogá-las naqueles que se oporem a ela.

— Quero todo mundo longe da minha casa — informou num rosnado alto.

Yuri soltou uma risada e deu um passo ignorando o aviso. Porém, para sua infelicidade, o mesmo sentiu o metal cravar bem fundo no seu ombro, rompendo os ligamentos da clavícula. Angélica vinha em alta velocidade, pulando sobre si e arrancando a faca daquele ponto, chutando as costas do lupino. Apenas deu tempo do jovem cair no chão e urrar de dor. A menina apontou a faca contra o pescoço de Kira, que se surpreendeu com aquela velocidade.

— Eu mandei vocês saírem daqui — rosnou colocando a faca com mais força contra o pescoço da lupina.

— Ei, nós não queremos briga — informou Rantaro vendo Ruby correr para perto de Yuri, mas sendo surpreendida com uma rápida lâmina que atravessou ante aos olhos da garota a fazendo ser puxada pelo companheiro.

Se o homem não tivesse tirado a garota dali, seria uma morte na certa. Angélica encarava todos com um olhar ameaçador. Suas pupilas estavam dilatadas, focadas naqueles que haviam invadido sua casa. Ela deu mais uma passo, chutando o corpo fraco do lupino para perto do estranho.

—  Vão embora enquanto eu não mato cada um de vocês — comentou irritada com aquilo. Já deveria ter os enviado para o inferno naquela altura do campeonato.

— Calma, não viemos fazer algo contra você — informou Kira tentando parecer amigável —, apenas nos perdemos enquanto caminhávamos por aqui. 

— É um bom momento para vocês se reconciliarem saindo da minha casa — ordenou Angélica puxando a faca de cortar frango, girando-a ameaçadoramente em seus dedos. Seus olhos focaram na cabeça do lupino de cabelos escuros, o qual agarrava a companheira. Daria um basta naquela brincadeira. 

Yuri se ergueu, segurava um dos braços com força. Seus olhos marejaram, havia sentido uma dor insuportável e, principalmente, não conseguia mexer seu braço direito. Bufou e rosnou à Angélica, vendo-a virar-se para atacar ele com outra facada muito bem direcionada, desta vez, para a nunca dele. Seria uma morte rápida e indolor. 

Porém, antes de ela fazer algo, Kira a segurou por trás, mas, esta, foi derrubada logo em seguida. A ruiva pulou para trás, então, para escapar, pisou com toda a força contra o chão levantando Kira e a jogando no chão com força. Levantou a lâmina, tentando acertar na jugular da adversária, entretanto foi parada pela outra moça, Ruby, que segurou seus pulsos.

— Não tem para onde correr, companheira — disse Kira se levantando e dando um soco em Angélica, a qual se contorceu de dor, então, sobre o ombro da moça na sua frente, viu Bonnie encolhida, assustada, vendo-a ser torturada por estrangeiros. 

— Imprestáveis.

— Obrigada pelo elogio — zombou Kira vendo seu irmão carregar o próprio corpo até o sofá da sala — O que você fez com ele é imperdoável. Sabe o que acontecerá, certo? Olho por olho e dente por…

A ruiva, presa, cuspiu bem forte contra o rosto da outra, vendo esta se enfurecer e tentar socar seu rosto, mas Angélica apenas abaixou a cabeça vendo o punho acertar a face da menina atrás de si, fazendo-a, consequentemente, ser solta. Deu uma bela rasteira nas duas garotas e, sem piedade, esfaqueou as pernas de uma delas, rasgando a pele superficialmente.

Rantaro segurou a menina pelos braços, agarrando-a com força. Angélica se debatia violentamente, estava longe do chão, não conseguia usar seu corpo contra o homem. Foi quando sentiu um outro soco contra o seu estômago, seguido de outro e mais. Kira apenas parou de socar quando viu a ruiva cuspir sangue.

Bonnie tremeu no seu lugar, via aquela cena de terror com horror estampado no rosto. Foi quando viu Yuki se aproximando dela, pegando-a, com o braço esquerdo, pelo pescoço e a jogando no chão, perto de Angélica, a qual se debateu, novamente, para poder ajudar sua companheira. 

— Uma coleguinha — brincou o homem se aproximando da menina e a puxando pelos cabelos, vendo-a com um pequeno arranhão nos lábios. 

— Não não viemos fazer mal a eles, Yuri — falou Ruby tentando parar o jovem. 

— Você e o seu namorado não vieram, eu não prometi nada. Mas, enfim, acabei de achar uma pequena criança para brincar conosco. 

— Solta ela! — rosnou Angélica, a qual recebeu outro soco e, perdendo o autocontrole, rosnou alto, grunhiu, usou as unhas para rasgar a pele do homem que a segurava, nada funcionava.

Yuri riu daquela cena e ameaçou socar a menina na sua frente, porém, durante alguns minutos de silêncio, a mesma parecia ter perdido a consciência. Bonnie estava desmaiada entre seus dedos. Havia perdido a vontade de continuar molestando a menina. Virou-se e, ao se aproximar da ruiva, acabou sendo surpreendido com uma mordida violenta contra seu braço, uma que acabou arrancando um pedaço de sua carne.

A garota de cabelos claros parecia ter perdido o olhar de inocência, agora, com uma faca nas mãos, o encarava com ódio. Apenas deu tempo de sentir a menina esfaquear seus ovos e, com raiva, desmembrar o braço direito. O olhos do lupino quase viraram quando sentiu a dor de sua carne sendo rasgada, um grito alto silenciou todo o ambiente deixando um ar sufocante. Todos olhavam para Bonnie assustados.

A menina deu um passo, pisando sobre o crânio do lupino com força, quase espocando-o. Girou a faca em seus dedos.

— Soltem ela, agora.

— Você não manda na gente, garota — disse Kira, cerrando os dedos e ameaçando machucar a outra, mas, tão rápido quanto a luz, a faca nas mãos da menina rasgaram um pedaço da sua coxa, deixando tanto a carne flexionada, caída. Bonnie aproveitou o momento de surpresa para derrubar a Lupina contra o chão, então, bateu o crânio desta com bastante força, fazendo-a desmaiar. 

Ruby encarava aquilo surpresa, Dark, principalmente, estava completamente intrigada com aquela outra pessoa. Esta deu um passo para trás e sentiu sua outra personalidade lutar para defender o corpo delas, assim, facilmente, Dark tomou o controle.

Kelly, finalmente, havia voltado, porém parecia mais violenta que antes. Puxou a faca do chão e a jogou contra o jovem que segurava Angélica, vendo-o pegar rapidamente a lâmina entre os dedos, soltando a ruiva, que chutou sua mandíbula com força, fazendo-o cair no chão.

Dark olhou as duas sorrindo. Havia encontrado pessoas dignas para lutar.

Kelly seguiu controlando o corpo de Bonnie, andando lentamente, emanando toda a sua ameaçadora postura. Angélica se preparava para um possível ataque. 

As três entidades se encaravam de forma voraz. Os olhares transmitiam gritantes mensagens naquele silêncio perturbador. Dark posicionou seu corpo para defender qualquer ataque, porém nada aconteceu. Kelly parou abruptamente, apenas encarou-a e riu freneticamente.

— Você não vale o meu tempo.

— Acho que está se precipitando ao dizer algo assim.

— Olhe para você — iniciou Kelly abrindo os braços, apontando para os corpos desmaiados atrás de si — sequer consegue defender seus amigos. Dei tantas chances para alguém contra-atacar, mas apenas ficaram chocados com uma menina de pouca idade usando uma simples faca para desabilitar vocês. Qual o problema? Sem palavras? O gato comeu a sua língua? — provocou a jovem de cabelos claros vendo Dark rosnar alto. 

— Não me importo com suas brincadeiras, garota, elas não me abalam. 

— A morte do seu parceiro, imagino, te abaterá. Foi dito, claramente, com todas as sílabas, saiam daqui — informou Kelly andando lentamente, pegando uma faca de cozinha no chão do grande salão — saiam da minha casa. O que vocês fizeram?

— Não ouse mexer com ele — gritou Dark vendo aquela cena. Sem que percebesse, Angélica havia andado até sua parte traseira e, agora, violentamente, acertou seu pescoço com a lateral da mão, fazendo-a desmaiar. 

Quatro corpos desacordados em um chão de madeira escura. Não havia coisa mais linda do que aquela cena. Kelly sorriu vendo que havia feito bem o seu trabalho, tinha protegido Bonnie e sua companheira. Sentiu o corpo amolecer, mas foi, rapidamente, pega pela ruiva. Beijou os lábios da garota, vendo-a se surpreender com o gesto, então, sussurrou, como último pedido — Cuida bem da minha criança por mim.

— O que você quer dizer com isso?

— Sabes bem o que desejo dizer — murmurou fechando os olhos e terminando de adormecer. 

As lágrimas caiam sobre o corpo de sua amada, não havia nada mais assustador que perder a pessoa amada. Como iria explicar para Bonnie que Kelly acabou morrendo? Desaparecendo? Ou qualquer verbo que se encaixasse naquele contexto. 

Foi quando viu um homem de terno escancarar sua porta, deixando a luz ardente da tarde ofuscar sua visão que viu o quão ruim era a sua vida. Mesmo que fugisse atrairia problemas e, principalmente, devido sua pessoa, o amor da sua vida estava daquela forma. 

O jovem licantropos entrou apontando uma arma para Angélica, vendo-a chorar com um corpo aparentemente morto em suas mãos e outros quatro no chão. Atrás de si sentiu a presença de outra pessoa, Andrius havia o seguido até ali. Revirou os olhos. 

— O que caralhos aconteceu aqui? — perguntou o homem de cabelos claros.

— Eu quem deveria perguntar isso — resmungou o licantropo vendo aquele cenário.



Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...