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História Right Time - Capítulo 23


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Notas do Autor


Hey Earpers

Espero que gostem do capítulo.

L. 💞

Capítulo 23 - Decisão


Fanfic / Fanfiction Right Time - Capítulo 23 - Decisão

Gradativamente, os convidados foram chegando ao anoitecer. A decoração estava simples, mas agradava a todos que chegavam. Wynonna vestiu Alice com uma pequena jaqueta de couro preta, uma idêntica a que ela estava usando. Ela poderia até ser atrapalhada na vida, mas estava sendo uma ótima mãe. Ela recepcionava os convidados segurando Alice nos braços, e o comentário era sempre o mesmo.

 

- Ó céus, você está a cara da sua mãe! – Uma senhora aparentemente simpática dizia ao segurar a pontinha da jaqueta de Alice. Minha irmã sorria orgulhosa. 

 

- Viu? – Wynonna sussurrava sorridente ao se aproximar de mim. – Minha ideia de comprar uma jaqueta igual está funcionando, ninguém diz que ela está a cara do pai. 

 

- Mas se colocar um bigode aí... – Ri ao lembrar da frase que ela havia me dito ao telefone uma vez. 

 

- Cala a boca, Waves, você tem que estar do meu lado. Ah, oi! – E lá se vai ela novamente, cumprimentar mais pessoas que chegavam. 

 

Doc estava em pé, próximo ao alpendre na varanda, segurando uma garrafa de cerveja nas mãos. Minha mãe questionou o motivo de colocar bebidas alcoólicas em uma festa comemorativa de criança, mas é aquela coisa, a mãe era a Wynonna, e ela já deveria conhecer bem a filha que tem.  Avistei Rosita e Perry entrando e cumprimentando Doc, ela segurava uma caixa mediana nas mãos, embalada com um papel colorido. Ao me avistar, seu enorme sorriso apareceu.

 

- Waves! – Ela entregou a caixa a Perry e envolveu seus braços ao meu redor. – Como você está linda. – Ela disse ao se afastar, segurando minhas mãos e me analisando de cima a baixo. 

- Você fala isso porque é minha amiga. – Abanei a mão diante dela, negando com a cabeça. 

- Você sempre foi belíssima, Earp. E os anos só te favoreceram. – Ela piscou, e virou para pegar a caixa das mãos do marido, que estava concentrado em uma conversa qualquer. – Cadê sua irmã? Eu trouxe isso pra ela. 

- Está lá dentro, vem. – Puxei Rosie pela mão, indo em direção a pequena sala que tinha no interior da casa.

Na sala, havíamos espalhado algumas mesas e cadeiras, e no meio, uma enorme mesa com comidas e bebidas, e balões coloridos ao redor. Wynonna estava sentada em uma, com alguns colegas de trabalho, uns que eu nunca havia visto antes.

- Eu espero ela terminar de falar. – Disse enquanto caminhava em direção a mesa com as comidas e pegava um pequeno doce. – Nossa, isso aqui tá muito bom.

Enquanto eu sorria concordando, o rangido da porta da frente tirou minha atenção, e de maneira involuntária, virei meu rosto em direção ao som. Era Xavier, o outro policial e colega de trabalho deles.

- Ô Waves... – Rosita chamou minha atenção. – Já é a terceira vez que você olha pra porta. Tá esperando alguém especial? – Ela me pegou de surpresa. 

- Eu? Não. – Neguei rapidamente. – É que ainda não me acostumei com esse barulho, já falei que eles deveriam colocar um pouco de óleo nessas dobradiças. – Ela me olhava, desconfiada. 

- Heey! – Minha irmã se aproximou, segurei a caixa que Rosie estava nas mãos, enquanto elas se abraçaram. – Que ótimo que você veio, cadê o olho puxado? 

- Está lá fora, no clube do bolinha, pelo visto. – As duas olharam em direção a varanda, revirando os olhos. – Homens. E, ah meu Deus do céu, olha pra isso! – Ela estendeu os braços e Wynonna colocou Alice na concha que ela havia feito com eles. Ela está a sua cara! – Minha irmã olhou mais uma vez para mim, com um sorriso debochado e enorme. 

- Ela vai passar o resto da noite se achando por conta disso. – Falei próximo ao seu ouvido, fingindo ser um segredo. Rosita riu. 

 

- Waverly, querida. – Minha mãe dizia, enquanto passava por nós segurando uma pequena bandeja nas mãos. – Você poderia buscar mais cupcakes para repor a mesa? 

 

- Claro, mãe. Só um minuto, já volto, ok? – Toquei o braço de Rosita, que acenou com a cabeça. 

 

A cozinha estava uma zona. Caixas e mais caixas de comidas espalhadas na bancada, respirei fundo enquanto procurava a caixa com os bolinhos. Usando a ponta dos pés, alcancei uma outra bandeja que estava no armário acima da minha cabeça, e cuidadosamente fui organizando um a um. Meus pensamentos estavam longe de Purgatory naquele momento. Pensei no meu trabalho, que mesmo estando de férias, me fazia falta... Pensei em Jack, se ele havia se recuperado bem e se estava explorando novos lugares. Pensei nas pessoas que deixei temporariamente em Londres, e meu coração ficou pequeno. Charlotte havia me mandado uma mensagem mais cedo, mas diante da correria, acabei não respondendo. Coloquei uma nota mental, para lembrar de responder o mais rápido possível.

 

- Hey... – Eu estava de costas quando a sua voz ecoou da porta, senti um calafrio na nuca. Eu sabia quem era. 

 

- Hey. – Virei, apoiando minhas mãos na bancada atrás de mim. – Você veio, então... 

 

- Se eu não viesse, era bem provável que sua irmã enchesse meu celular de mensagem. Todas seriam me xingando, aliás. – Ela sorria, olhando diretamente para mim. E eu não soube o que responder. 

 

- Quer cupcake? – Perguntei sobre os ombros, voltando ao que eu estava fazendo antes. E ouvi o som do rangido da madeira se aproximando de mim. 

 

- Eu aceito. – Nicole parou ao meu lado apoiada na bancada.

 

Ergui a bandeja e ela esticou a mão buscando um. Ela colocou seus fios ruivos atrás da orelha, e deu uma pequena mordida. Fechando os olhos em aprovação.

 

- Eu reconheceria de longe um cupcake da confeitaria da minha mãe. – Ela limpou o canto da boca com a palma da mão. – É de lá, não é? 

 

- Sim. – Confirmei com um sorriso. – Tudo foi encomendado lá, era uma exigência da minha irmã. – Nicole agora olhava pro chão, mas seu sorriso não estava mais o mesmo. Havia tristeza nele. – Esse sabor é novo, pelo visto, na minha época não tinha essa cor tão forte. – Falei tentando afastar o sentimento ruim, e descontrair. Ela riu. 

 

- E é, esse é de blueberry. Quer provar? – Ela puxou um pedaço do papel, e se aproximou, colocando o bolinho perto da minha boca. 

 

Senti meu estômago gelar. Eu consegui sentir o seu perfume, de tão perto que ela estava. Sem conseguir pensar, dei uma mordida no doce que ela segurava. Em momento algum ela retirou os olhos de mim. 

 

- Humm. – Respondi de boca cheia. – É realmente muito bom.

 

Nicole soltou uma risada gostosa, colocando o bolinho de volta na bandeja e erguendo um pano que pegou próximo a pia, e levando até meu rosto.

 

- Você tá parecendo um avatar agora. – Ela passou a pano na ponta do meu nariz, que estava sujo com glacê azul. – Pronto. – Meu corpo estremeceu com o toque, e me senti um pouco idiota por isso. 

 

- Waverly! – A voz da minha mãe faz o corpo de Nicole se afastar rapidamente. – Cadê os doces, menina? 

 

- Vai lá... – Nicole ergueu as sobrancelhas, sorrindo. 

 

- Eu já vou, mãe! – Revirei os olhos. – O meu nome parece que está na ponta da língua das pessoas dessa casa, impressionante. – Resmunguei colocando mais uns cupcakes e indo até a sala. 

 

Coloquei a bandeja no centro, ao lado de outros doces. Avistei Hetty com aquele seu amigo, Jeremy, se não me engano. Eles estavam todos reunidos em uma mesa próximo a janela. Hetty ergueu as mãos assim que me viu, me chamando para se juntar a eles.

 

- Desculpa a demora. – Sentei entre Hetty e Rosie. – Estava tentando organizar as coisas na cozinha. Vocês acreditam que minha mãe transformou aquilo em uma zona de guerra? 

 

- Guerra dos cupcakes. – Jeremy falou com a boca ainda cheia. 

 

- Nossa! – Toquei em seu braço por cima da mesa, e ele arregalou os olhos em um susto. – Eu AMAVA esse programa! 

 

- Sério? – Ele levava outro pedaço a boca. – Eu era viciado! Era cada sabor esquisito, não é? – Concordei em meio a uma risada.

 

- E aí, como você está? – Hetty acariciava minhas costas suavemente. 

 

- Estou bem, fiquei feliz de ver que você veio hoje. Wynonna comentou que talvez você fosse dobrar seu horário. 

 

- É, e eu ia. – Ela deu um gole na bebida a sua frente. – Mas eu não podia fazer essa desfeita. Alice também é minha sobrinha, de certa forma. – Ela deu de ombros. 

 

- Claro que ela é! – A abracei de lado. – Você é da família, aceitando ou não. – Hetty abriu um sorriso tímido, e seus olhos foram levados para fora da janela. Nicole estava cumprimentando Xavier. 

 

- E aí? – Ela voltou o olhar ao meu. – Vocês já se falaram? 

 

- Quem? – Peguei a bebida dela, dando um gole. 

 

- Ah, Waverly, não faz a sonsa. – E nesse momento, todos a mesa deram atenção a mim. 

 

- Nicole? – Tentei mostrar naturalidade. – Já sim. Tá vendo tudo isso pendurado? – Eu apontava pras decorações. – Ela me ajudou, segurando a escada. 

 

- Tá me zoando?! – Rosie agarrou meu braço e Hetty arregalou os olhos. – Conta isso direito, vocês estão se falando? Tipo, bem? 

 

- Estamos, ué. – Dei de ombros. – Ela é amiga da minha irmã, eu não poderia ignorar isso. E além do que, faz muito tempo que tudo aconteceu, não vi necessidade de tratá-la mal por isso. – Dei de ombros. 

 

- É, você tem razão. – Hetty confirmava com sua cabeça. – Não tem motivos pra você ser rude com ela, não é? 

 

- Correção. – Ergui o dedo. – Motivo eu tenho, óbvio, mas não vejo necessidade. Vocês achavam que eu ia fazer o que? Empurrar e expulsar ela daqui? Credo, eu não faria isso. 

 

- Mas você fez. – Hetty disse rápido. 

 

- É, eu fiz, mas faz muito tempo... 

 

- Aposto que ela pensou que você sequer iria olhar pra cara dela. – Rosie disparou. – Vocês... sabe.... tocaram no assunto sobre vocês? 

 

- Não, e nem vamos. Se depender de mim, esse assunto morreu. 

 

- Mas acho que deveriam conversar. – Hetty parecia saber de algo, desconfiei desde o dia que ela tentou puxar assunto sobre a Nicole. 

 

- Por que você insiste tanto nisso? – Finalmente perguntei, e ela apenas balançou a cabeça negativamente. 

 

- É só um pressentimento. – Ela olhava através da janela novamente. 

Minha mãe serviu um jantar em outra mesa, e o seu grito chamando todos para comer, tirou a atenção ao assunto. De um a um, as pessoas iam se dirigindo a mesa e se servindo.

 

- Você não vem, Waves? – Rosie perguntou enquanto levantava para se servir junto com Hetty. 

 

- Daqui a pouco, não estou com muita fome agora. – Tentei sorrir. 

 

- Desculpa ser meio intrometido. – Jeremy veio deslizando até a cadeira ao meu lado. – Mas quem é essa pessoa misteriosa que vocês estão falando? – Abri um sorriso com seu comentário. 

 

- É minha ex. – Franzi o nariz. – Nosso término não foi dos melhores, podemos dizer assim. 

 

- Ah, e ela é daqui de Purgatory? – Ele perguntava baixinho. 

 

- É. – Eu ri. – Você deve conhecê-la. – Toquei sua mão. – A Nicole. 

 

- Nicole... Nicole... – Ele dava tapinhas em suas têmporas, como se tentasse lembrar. 

 

- Haught? Não sei por qual nome você a conhece. 

 

- Nicole Haught?? – Ele apertou minha mão. E eu maneei com a cabeça. – Eu estou chocado. – Dizia com a mão na boca. – Eu não sabia que você era gay, aliás. 

 

- Eu sou. – Sorri envergonhada. – Ela foi minha primeira namorada, a primeira garota que fiquei, na verdade.

 

Enquanto Jeremy permanecia chocado, a porta da frente se abriu e todos os rapazes que estavam no alpendre entraram, em direção a sala para jantar. Doc ergueu sua garrafa no ar.

 

- A bebida é de graça, meus amigos! – Enquanto os outros soltaram gritos de comemoração.

 

Nicole veio logo atrás, segurando uma garrafa de cerveja. Na sala, ela se encostou próximo a uma janela, e encarava os próprios pés.

 

- Falando no diabo. – Jeremy soltou, me fazendo gargalhar. – Ela é linda, não é? Se eu não gostasse do outro fruto... 

 

- Quem? 

 

- Como quem, Waves? – Com os olhos, ele tentava apontar pra ela. Me fazendo rir novamente, ele era engraçado. 

 

- Ela sempre foi. – Dei de ombros. 

 

Todos voltaram para as mesas, com seus pratos. Ficamos conversando sobre assuntos aleatórios, sobre trabalho, casa e contas a pagar. Tentando reverter um pouco do tempo perdido entre nós. Contei um pouco sobre como era minha rotina no hospital, e que eu amava o que fazia. Em certo momento, meu olhar se ergueu e na mesa a minha frente, Nicole tomava um gole de sua garrafa, enquanto me encarava. Senti meu rosto esquentar quando ela sorriu de volta, e por um longo momento, não desviamos o olhar. O resto da noite se resumiu em Doc totalmente bêbado com seus colegas de trabalho, Wynonna feliz da vida pelos comentários de sua semelhança com Alice e matando a saudade dos meus amigos. Quando quase todos os convidados foram embora, Hetty estava jogada no sofá da sala, ela bebeu além do que deveria.

 

- Hetty, levanta. – Jeremy cutucava a garota loira no sofá. – Temos que ir. 

 

- Ela pode ficar aqui essa noite, acho melhor. – Toquei em seu ombro. – Você também, se quiser. 

 

- Tudo bem. – Ele suspirou. – Eu posso dormir no sofá, não tem problema. 

 

- Não, de maneira alguma! Vocês podem dormir na minha cama, eu faço questão de dormir no sofá. 

 

- Eu posso ir ao banheiro antes? – Ele tinha um dedo erguido no ar. – Alguma coisa não me fez bem.

 

Indiquei a Jeremy o caminho até o banheiro, assim que ele subiu as escadas, tentei acordar Hetty. Por duas vezes, não tive sucesso. Na última tentativa, ela resmungou algo que sequer eu entendi.

 

- Eu vou começar a esconder as bebidas quando você estiver perto. – Ajudei ela a se levantar, e a apoiei em meus ombros. – Nossa, desde quanto você ficou tão pesada? 

 

Nas escadas, tentamos subir cada degrau por vez. Por um milagre, não escorregamos quando os pés da loira embolaram nos degraus.

 

- Jesus! – Me segurei no corrimão. – Hetty, você vai me derrubar.

 

Ouvi passos atrás de mim, subindo rápido a escada. E segurando Hetty pelo outro lado, Nicole surgiu.

 

- Nem sempre é fácil lidar com quem extrapola na bebida. – Ela sorria. – Eu te ajudo a subir com ela. – Sorri em agradecimento.

 

Com ajuda da Nicole, consegui retirar os sapatos de Hetty e a colocar na cama. No escuro do quarto, Nicole me encarou. Ela de um lado da cama, e eu do outro. Nossos olhos não se desviaram nenhum segundo, e eu senti um arrepio na espinha quando ela sussurrou.

 

- Ele continua exatamente como eu lembrava. – Agora ela olhava ao redor, pro ambiente que estávamos.

 

Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, Jeremy entrou no quarto, e paralisou na porta quando viu que Nicole estava ali. 

 

- Desculpa, eu volto outra hora. – Ele ia saindo novamente. 

 

- Não, espera. Já estávamos saindo. – Falei, saindo do quarto. – Cuida dela, tá bom? E se ela quiser vomitar, por Deus, que seja no chão e não na minha cama. – Jeremy sorriu tímido em resposta.

 

Ao fechar a porta do quarto, descemos juntas até o andar de baixo. Na varanda, avistei Wynonna e minha mãe, sentadas juntas.

 

- Posso te pedir um favor? – Nicole parou ao ouvir meu pedido. – Você poderia dizer a Wynonna que a Alice estava a cara do pai hoje?

 

Nicole riu, mas balançou a cabeça em concordância. Na varanda, minha mãe falava sobre alguns dos convidados, perguntando sobre a vida deles. Quando surgimos, percebi no olhar da minha irmã a gratidão por salvar ela daquela conversa.

 

- Haught! – Ela gritou. – Senta aqui do meu lado. – Ela dava tapinhas no chão. 

 

- Infelizmente, eu preciso ir agora, Wynonna. O trabalho me chama amanhã às 7. 

 

- Impressionante como entra ano e sai ano, e você continua a mesma certinha sem graça de sempre. – Minha irmã bufou. 

 

- Eu também gosto de você, Earp. – Nicole sorria de lado, enquanto descia as escadas e seguia em direção ao seu carro. – Ah, e Wynonna... Alice estava deslumbrante hoje, a cara do pai. 

 

- O que que você disse, ruiva? – Wynonna levantou, limpando a calça onde havia sentado, e começou a descer os degraus, mas parou, virando para mim. – Isso foi ideia sua, não foi? Eu vou te matar, Waverly. 

 

- Aí Deus. – Minha mãe levantou junto. – Vão começar? – Ela puxou Wynonna pelo braço. – Querida, você pode fechar a porta? Doc não tem condições alguma disso. 

 

- Tudo bem, mãe. Durmam bem. – Gritei, ainda rindo, quando elas já estavam na metade da escada.

 

Ao me virar, Nicole ainda estava parada no meio do caminho, virada em minha direção.

 

- Fico feliz que tenha aparecido. – Soltei. – E obrigada por me ajudar com a Hetty. – Ela sorriu, colocando o cabelo para trás. 

 

- É sempre um prazer poder ajudar, Earp. – A forma como ela falou, me arrepiou a nuca. 

 

- Te vejo por aí, então? – Sem graça, encarei meus próprios pés. 

 

- Eu vou esperar por isso. – Ela respondeu com um sorriso nos lábios, antes de entrar no carro e ir embora.

***

 

No dia seguinte acordei com cookie lambendo minha mão, tentei ignorar, mas ele subiu no sofá e deitou nos meus pés. O peso dele me fez levantar logo em seguida.

 

- Tá bom, você venceu.

 

Ela abanava o rabo, feliz da vida, pois finalmente sua tigela seria preenchida. Caminhei até a cozinha, em busca do seu pote de ração que ficava no armário debaixo da pia. Minha mãe já estava de pé, coando um café fresquinho.

 

- Já levantou, querida? 

 

- Eu não entendi porque você me acordou. – Olhei pro cachorro sentado ao meu lado, com os olhos brilhando. – Ele me acordou, pedindo comida. 

 

- Ah, Cookie, não acredito! – Mama ria da situação. – Ele gosta de você, Waves. 

 

Olhei pro cachorro ainda ao meu lado, me encarando como quem implora por um pedaço de pão. Levantei, peguei a ração e preenchi sua tigela. Cookie lambeu minha mão, entendi como um agradecimento.

 

- Da próxima vez você pode acordar outra pessoa, combinado? – Ele sequer me deu atenção, só queria encher a barriga agora.

 

Quando eu pensei que finalmente teria um momento de paz, e dormiria mais um pouco, minha mãe me chamou lá da cozinha.

 

- Você poderia ir ao mercado pra mim? – Pensei cedo demais. – Eu estou com uma dor terrível nas costas, e não quero pedir pra sua irmã ir comprar, ela sempre pega qualquer coisa, nunca segue minha lista, desde criança. 

 

- Tem que ser agora? – Olhei para o relógio na parede, nove e meia da manhã. 

 

- Você tem algum compromisso? – Ela perguntou sem tirar os olhos do coador de café. 

 

- Tinha, com minha cama. Mas eu posso ir. – Antes de subir as escadas, voltei até a entrada da cozinha. – A senhora pode avisar a Hetty que tive que sair? Ela provavelmente não vai acordar cedo. 

 

- Eu aviso, querida. Mas não quer tomar um café antes? – Ela pegava uma xícara no escorredor. 

 

- Não, eu tomo alguma coisa por aí. Obrigada, mãe.

 

Após realizar minha higiene pessoal, coloquei a primeira roupa que achei na pilha de roupas limpas. Eu não queria ter que entrar no quarto e correr o risco de acordar os dois. Peguei as chaves do carro, a lista de compras e segui até o carro. O dia estava ensolarado, mas com um vento gelado. O relinchar dos cavalos vindo do celeiro, me trouxe uma sensação de calmaria. E respirei fundo quando senti o cheiro da grama recém cortada. 

 

Dirigi até o centro da cidade, ao maior supermercado que tínhamos disponível. Ao passar pela cancela, achei uma vaga no estacionamento. Encontrei um carrinho solto próximo ao meu carro, eu não tinha muita coisa pra comprar, retirei a lista do bolso para conferir. Alguns itens na sessão de limpeza, frutas, legumes e iogurte. E massa, nunca faltava massa lá em casa. Andei rapidamente entre as sessões, desejando chegar em casa o quanto antes e dormir. O sofá me deixou quebrada, dormir no chão talvez tivesse sido melhor. Quando o carrinho já estava quase preenchido, meu celular vibrou dentro da bolsa. Tinham duas mensagens. Charlotte e Doc. A recente era dele. 

 

“Ei, Earp! Será que você poderia vir aqui na delegacia buscar um dinheiro? O fornecedor da cevada dos cavalos vai fazer entrega hoje, e eu esqueci de sacar o dinheiro ontem. Você poderia me dar uma ajudinha nisso?”

 

Perfeito. 

 

Mas, infelizmente, eu tinha uma grande dificuldade em dizer não. E além do mais, a delegacia ficava no caminho de volta. Respondi a mensagem confirmando que em alguns minutos eu estaria lá para buscar o dinheiro. Passei as compras no caixa, caminhei pelo estacionamento e guardei-as no porta mala. A cidade estava calma, com poucos carros trafegando na avenida. E não muito tempo depois, avistei a delegacia logo a frente. Por falta de vagas na frente, fui obrigada a parar do outro lado da rua. Desliguei a chave da ignição, e abri a porta para saltar do carro. Atravessei a rua em passos apressados, mas antes de chegar até a calçada, avistei os cabelos ruivos.

 

Ela estava dentro de um carro, estacionado na lateral da delegacia. E ao seu lado, uma garota loira de cabelos ondulados. Elas estavam bem próximas, e por algum motivo ridículo, eu não parei de observar. A mulher ao seu lado falou alguma coisa, que fez Nicole gargalhar, ela tinha um sorriso bonito. E quando eu menos esperei, a loira segurou delicadamente as pontas do cabelo da ruiva, e com a outra mão livre, ela puxou Nicole pelo queixo, selando seus lábios. Não parecia um beijo apaixonado, mas um beijo urgente e feroz. Senti as pontas dos meus dedos formigarem, e uma raiva sem sentido dominar meus pensamentos. Ao se afastarem, Nicole abriu a porta do carro, e dando meia volta, se despediu da mulher com um selinho delicado. Nesse momento, seus olhos encontraram os meus, e seu semblante ficou sério.

 

Continuei caminhando até a entrada da delegacia, ignorando completamente o seu olhar que me acompanhou. Doc estava na recepção, conversando com um senhor.

 

- Waves. – Ele me chamou. – Só um momento, Sr. Duran. – Doc atravessou a pequena porta, correu até um pequeno gabinete e voltou com um envelope entre as mãos. – O valor está completo aqui, é só entregar a ele, tudo bem? – Apenas assenti, e ele franziu a testa. – Está tudo bem, Waves?

 

Segundos depois, Nicole entra no estabelecimento. 

 

- Tudo perfeito, Doc. – Fingi um sorriso.

 

Peguei o envelope e dei meia volta em direção a saída, passando por ela sem ao menos cumprimentar. Percebi quando ela parou e olhou para trás, mas preferi ignorar. Coloquei o envelope na bolsa, e corri em direção ao meu carro do outro lado da pista. 

 

- Isso só pode ser piada! – Cruzei os braços diante do pneu traseiro furado do meu carro. 

 

Abri a mala do carro, procurando pelo estepe e o macaco. 

 

- Essas porcarias sempre acontecem comigo, SEMPRE! – Comecei a reclamar pros quatro ventos. – Ah, o dia da Waverly tá ruim? Toma mais um pouquinho. – Agachei no asfalto, tentando rosquear os parafusos. – Quem foi que fechou essa porcaria? O Hulk?

 

Enquanto eu tentava retirar o primeiro parafuso, ainda, ouvi o som de passos se aproximando por trás de mim. Até que alguém parou. Olhei disfarçadamente para trás, e avistei as botas marrons, ao erguer o olhar, Nicole estava parada com as mãos nos bolsos.

 

- Precisa de ajuda? – Sua pergunta pareceu sincera. 

 

- Não, estou ótima, não está vendo? – Dizia enquanto fazia força para rosquear aquele treco. Eu estava irritada, e sequer sabia de onde vinha tanta irritação. 

 

- É, estou vendo. – Ela se aproximou, segurando minha mão e pegando a chave que estava no pneu. – Vem, deixa eu te ajudar. 

 

- Não. – Retirei rapidamente sua mão da chave. – Eu consigo sozinha. 

 

- Waverly, para de ser teimosa, isso está muito apertado. Tem que ter um jeitinho pra girar. – Ela insistia. – E o macaco está colocado errado, Waves. 

 

- Eu não preciso de você, Nicole. – Gritei. – Eu não preciso que você me ajude. 

 

A mulher ruiva não esboçou reação alguma, por um momento ela só me encarou. Em seguida, largou as ferramentas no chão, da altura em que estava, claramente irritada. 

 

- Certo, Waverly, como quiser. 

 

Nicole caminhou de volta a delegacia, e não voltou. Minutos depois, Doc surgiu ao meu lado, oferecendo ajuda. Aceitei, eu sabia que não ia conseguir desparafusar aquilo sozinha. Ele retirou o pneu furado, e colocou o novo no lugar. Disse que levaria em uma borracharia depois, que eu não me preocupasse. Mas eu nem estava mais pensando no pneu. O caminho de volta pra casa pareceu ainda mais longo, e meus pensamentos estavam todos bagunçados. Estacionei de qualquer jeito na entrada da casa, subi as escadas do alpendre feito um furacão. Eu precisava de um banho gelado. Urgente. Minha mãe me viu subindo as escadas e gritou:

 

- Já voltou, filha? Conseguiu comprar as coisas? 

 

- Já, mãe. E ó – Me aproximei da beirada da escada, e joguei a chave do carro. – As compras estão na mala, pode retirar pra mim? – Minha mãe ergueu as sobrancelhas surpresa. 

 

- Vai ver o que aconteceu com ela. – Pude ouvir a voz da minha mãe dizendo baixo na cozinha. 

 

Entrei no meu quarto, e pelo vazio, deduzi que Hetty e Jeremy já haviam ido embora. Sentei na beirada, lançando meus tênis para longe, e me joguei de bruços. Eu só queria ficar ali, deitada, sozinha e em silêncio. Uma batida na porta me tirou do meu momento de paz.

 

- Posso entrar? – Era Wynonna, mas nada respondi. E mesmo assim, ela entrou. Sentando ao meu lado na cama. – Tá tudo bem? 

 

- Tudo perfeito. – Minha voz saiu abafada pelo travesseiro. 

 

- Babygirl... – Ela acariciava meus cabelos. – Sou eu. 

 

- Eu acho que fui uma completa imbecil. – Me remexi na cama, virando para encará-la. 

 

- Você não é. Waverly, todo mundo ama você. Quem que poderia achar isso de você? – Seu olhar ela acolhedor, cheio de amor, como sempre foi. 

 

- Várias pessoas. Mas hoje, Nicole, especificamente. – Revirei os olhos. E ela esperou que eu explicasse. – Eu fui buscar o dinheiro do fornecedor de cevada com o Doc. E encontrei ela na entrada. 

 

- Certo... – Sua expressão era confusa. – Mas vocês estavam se dando bem antes, não estavam? Digo, ontem vocês pareciam... ok. – Ela buscava usar as palavras com cautela. 

 

- Sim, e é por isso que eu fui uma imbecil. Digamos que, bom, hipoteticamente eu tenha visto ela com outra mulher. 

 

- Oh. Entendi. – Suas sobrancelhas arquearam. – Loira? Cabelo selvagem? 

 

- Você conhece? – Levantei rápido, sentando na cama. 

 

- Não exatamente, mas sei quem é. 

 

- Ta, e? – Esperei o resto da explicação. 

 

- E nada, eu só sei disso. – Ela deu de ombros. – Maninha, você tá com ciúmes da Haught? 

 

- Eu? Claro que não. Eu só... vi tudo isso e por um motivo, que eu não faço ideia, fiquei extremamente irritada. E pra piorar, o pneu do meu carro furou! Você acredita? Eu tentei trocar aquela merda, mas aparentemente todos os vingadores ajudaram a fechar aquele parafuso. – Eu estava vomitando as palavras. – E daí ela apareceu, assim do nada, logo depois que eu a vi com aquela garota lá, oferecendo ajuda para desparafusar aquela merda. E eu fui uma grossa, estúpida. 

 

- É muita merda em uma frase só. - Wynonna suspirou profundo. – Mas é, você foi escrota mesmo. 

 

- Viu? – Ergui minhas mãos diante dela. – Eu disse! 

 

- O que você disse pra ela? – Ela perguntou. 

 

- Falei que não precisava dela. 

 

- Aí. Doeu até em mim. – Wynonna tinha uma expressão de dor e a mão sobre o peito. 

 

- Obrigada, você está realmente me ajudando. – Voltei a deitar na cama. Minha cabeça estava explodindo de dor. 

 

- Ei, calma. Não é o fim do mundo também. – Ela deu tapinhas leves em minha bunda. – Levanta e escuta. Você e ela não tem nada, certo? 

 

- Certo. – Minha voz estava abafada novamente. 

 

- Então o que a Waverly sensata que eu conheço, faria nessa situação? 

 

- Pediria desculpas. – Respondi sem nem precisar pensar. 

 

- Ótimo. – Ela levantou da cama, dando mais um tapa, mas agora em meus ombros. – Você já sabe o que deve fazer. 

 

- Mas Wynonna, eu vou chegar assim do nada pedindo desculpas depois do que eu falei pra ela? 

 

- Wave, acho que você precisa tirar um cochilo. E eu tenho certeza, absoluta, que quando você acordar saberá exatamente o que fazer. – Ela piscou pra mim, fechando a porta do quarto em seguida.

 

Ela tinha razão. Eu precisava de um cochilo. 

***

 

Acordei sentindo um peso enorme na cabeça, a dor ainda estava ali, mesmo que fraca. Levantei o braço, olhando a hora do meu relógio de pulso. 16:30. Eu dormi tanto assim? Sentei na cama, observando homestead através da janela. Eu gostava tanto daqui. Purgatory era uma cidade completamente diferente da vida corrida de Londres, mas eu também gostava da vida pacata que aqui me oferecia. Uns dias atrás, ouvi minha mãe cogitando a possibilidade de se mudar pra cá, viver ao menos por um tempo aqui. Eu entendo, ela queria acompanhar o crescimento da neta. Mas e eu? Voltaria para Londres sozinha, e toda minha família estaria aqui.

 

Fechei os olhos, puxando todo ar que meus pulmões pudessem captar. Eu precisava respirar fundo agora. No mesmo instante, a imagem de Nicole sorridente ao lado de outra mulher me veio a mente. 

 

- Droga. – Resmunguei.

 

E lembrei que precisava resolver o papelão ridículo que eu fiz essa manhã. Nicole não mereceu a forma como eu a tratei. Independente do que tenha acontecido entre nós no passado, naquele momento, a minha reação não convinha. Ela me ajudou na decoração de Alice, me ajudou com a alimentação dos cavalos e até me ofereceu ajuda com o pneu! Eu não tinha direito algum de tratá-la assim.

 

- Onde você estava com a cabeça, Waverly? – Tentei massagear minhas têmporas, tentando eliminar qualquer lembrança ridícula. – Acho que sei o que eu tenho que fazer.

 

Levantei da cama rápido, procurando meu calçado. Corri até o quarto de Alice, onde imaginei que pudesse encontrar minha irmã.

 

- Nonna, tive uma ideia. – Falei ao encontrá-la com Alice após o banho. – Você tem algum vinho fechado aqui? 

 

- Wave, não me diz que você vai encher a cara. – Ela olhou séria sobre os ombros, enquanto colocava a fralda de Alice. 

 

- Não, idiota. – Me aproximei da duas, permitindo que a pequena agarrasse meu dedo. – Você sabe onde a Nicole mora?

 

Wynonna parou o que estava fazendo, e me encarou com um sorriso de lado, e apontou o dedo em minha direção rindo.

 

- Earp, Earp... Que que você vai aprontar, eim? – Uma de suas sobrancelhas permanecia arqueada. 

 

- Credo, nada. – Revirei os olhos. – Eu só pensei em levar um vinho de presente, como pedido de desculpas. Todo mundo gosta de uma taça de vinho. 

 

- Nem todo mundo. – Disse me corrigindo. – Eu não sei se ela ainda bebe, faz muito tempo que ela parou. 

 

- Ela parou por que? – Me apoiei no trocador de Alice, curiosa. 

 

- Isso é algo que você deveria perguntar a ela. – Wynonna deu de ombros. – E os vinhos estão na adega. Você acha mesmo que ia faltar bebida aqui? 

 

- Eu sabia que você não ia me decepcionar. – Dei dois tapinhas em seu ombro. – Eu vou tomar um banho primeiro.

 

Entrei no banheiro e preparei a banheira. Depois que verifiquei a temperatura da água, fui até minha penteadeira e retirei os brincos que gostaria de usar. Atravessei meu quarto, e no armário, peguei meu estojo de maquiagem. Retirei um gilete e meu sabonete líquido, me despindo sem seguida diante do espelho. Voltei para o banheiro, fechando a torneira e deixei uma toalha ao alcance das minhas mãos. E entrei cuidadosamente na banheira. 

Eu gostava do modo como a água morna me relaxava, e me permiti afundar um pouco mais. O dia foi cansativo e estressante. Minhas costas estavam tensas, mas agora me sentia aliviada. Fiz espuma nas mãos, com o sabonete, e passei nas pernas e comecei a raspá-las. Enquanto isso pensei em alguém específico, e me peguei imaginando o que ela acharia a respeito da minha decisão. Não tinha dúvidas que ela desaprovaria. Fiquei um pouco mais de molho dentro da banheira antes de finalmente me levantar e me enxugar com a toalha. 

 

Fui até meu armário e procurei um vestido. Escolhi um amarelo pastel, cuja frente era ligeiramente decotada. Um tipo de vestido que uso bastante em Londres. Me olhei no espelho, virando de um lado para o outro. O vestido me deu um ar muito feminino, mas acabei desistindo e guardando no armário de volta. Escolhi uma calça justa, com um cropped branco de mangas longas. Embora não tivesse ficado tão bom quanto o vestido, transmitia uma imagem que achei mais apropriada. Coloquei pouca maquiagem, só algo para acentuar meus olhos. Depois, perfume, mas não muito. Peguei o par de brincos pequenos, de argola, e os coloquei. Calcei minha bota curta marrom claro, escovei os cabelos e me olhei no espelho.

 

Quando acabei de me arrumar, dei um passo para trás e me avaliei. Estava bem, nem muito arrumada e muito menos informal. Eu não queria parecer exagerada. Afinal de contas, eu só estava indo pedir desculpas. E eu não sabia o que esperar, depois da forma como a tratei. Fora que, ela poderia estar acompanhada em sua casa, mas evitei pensar sobre isso. Olhei para baixo e vi que minhas mãos estavam tremendo, e ri. 

 

- Você é idiota, Waverly. – Sussurrei pro meu eu interior.

 

Era estranho, não tinha motivo para estar nervosa assim. Eu me tornei uma mulher confiante, e me peguei lembrando que isso até foi um problema quando cheguei em Londres. Especialmente quando saí com alguém, porque as mulheres sempre pareciam intimidadas. Peguei a bolsa e as chaves do carro. Remexi a chave na mão algumas vezes, pensando se eu estaria fazendo a coisa certa em ir até a sua casa assim. Desci as escadas, e parei diante da porta, tocando a maçaneta. 

 

- Não vá desistir agora. – Fechei meus olhos. 

 

Quando quase sai de casa, dei um passo para trás e sentei no degrau da escada. Pensando mais uma vez. Olhei meu relógio e era quase seis e meia. Eu tinha que sair logo, não queria chegar tarde lá, mas eu senti que precisava de mais um tempo.

 

- Ei. – Wynonna estava encostada no arco da cozinha, segurando uma garrafa de vinho lacrada nas mãos. Aparentemente observando tudo. Ela me olhou de uma forma acolhedora, e veio sentar ao meu lado. – Se você não está se sentindo segura pra isso, não vá. É simples, Waves. 

 

- Eu sei. – Meus olhos ergueram até seu rosto. – E se ela me tratar mal? 

 

- É uma consequência dos seus atos. – Ela deu de ombros. E eu respirei fundo. 

 

- E se... ela estiver acompanhada? 

 

- Babygirl – Ela tocou minha coxa. – Você vai entregar o vinho, pedir desculpas, e ir embora. Parece um monstro, mas também é simples. Você vai fazer a sua parte, como ela vai receber, isso você já não tem como controlar. 

 

- Eu sei. – Meus olhos encaravam minhas botas, e a vontade de desistir só aflorou ainda mais. 

 

- Toma. – Ela segurava a garrafa em minha direção, e eu peguei. – E aqui está o endereço, caso você se perca. 

Peguei o pedaço de papel, com o endereço e um ponto de referência. Com cuidado para não rasgá-lo, guardei no bolso. 

 

- Droga. – Murmurei pouco antes de descer as escadas da varanda e entrar no meu carro.

 

Não tive dificuldade de encontrar o endereço, era um ótimo lugar. Um condomínio de casas próximo a um lago, perfeito. Com mais uma curva, avistei a casa ao longe. Uma luz fraca iluminava a varanda, e outra permanecia acesa no interior da residência. Conforme fui me aproximando, diminui a velocidade quanto passei por um conjunto de árvores logo na entrada. Estacionei debaixo de uma. Por um breve momento, segurei firme o volante, procurando coragem em meio ao nervoso. Andei devagarinho até a casa, e respirando fundo quando subi os degraus do alpendre. O ranger da madeira me causou um arrepio esquisito na nuca, e eu precisei segurar firme a garrafa nas mãos. Parei em frente a porta, respirei fundo, e toquei a campainha. Esperei por segundos, impaciente. Meus pés, começaram a bater de leve no assoalho, e eu quase dei meia volta. Até que ouvi o som da chave girando na fechadura. Nicole parou diante da porta assim que abriu, com uma expressão que eu não soube decifrar. 

 

Ficamos nos encarando. Nenhuma se moveu.

 

Seus músculos pareciam ter congelado, e por um segundo achei que ela não tinha me reconhecido. O que foi um pensamento claramente bobo. De repente, me senti culpada por aparecer assim do nada, e aquele silêncio tornou tudo ainda mais difícil. Ela deveria estar acompanhada, óbvio. Não sei onde pensei que aquilo seria simples, eu achei que saberia o que dizer. Mas estava errada. Tudo o que me vinha a cabeça, parecia insuficiente ou inapropriado. Ela usava um blusão que caia por cima de uma calça de moletom, e seus cabelos soltos caiam sobre seus ombros. Quando finalmente achei que estivesse pronta, respirei fundo e tentei esboçar um sorriso.

 

- Oi, Nicole. – Ela apoiou a mão na porta. – Desculpa vir assim do nada, sem avisar. É que eu estive pensando sobre hoje cedo, e deduzi que eu fui muito grossa com você. – Eu falava mais rápido do que deveria. – Eu nem sei porque eu fui grossa, na verdade, você não merecia. Afinal de contas me ajudou lá em casa. – Minhas mãos gesticulavam rápido, e ela observando em silêncio. – E eu achei injusto, e é por isso que te trouxe isso aqui. – Ergui a garrafa diante de mim e ela prontamente segurou, olhando o rótulo. – Eu nem sei se você toma vinho, ou se toma alguma coisa. Quer dizer, claro que você deve tomar alguma coisa, nem que seja água, não é? – ri, nervosa, balançando a cabeça tentando entender o que eu estava dizendo. – É isso, eu só queria me desculpar pessoalmente. E eu não pude esperar, você sabe, eu sou um pouco ansiosa e isso ia tirar meu sono. Desculpa te incomodar, tá bem?

 

Dei meia volta, caminhando em direção ao meu carro. Me senti uma idiota, onde que eu estava com a cabeça de ir ali? Não teria sido muito mais simples enviar uma mensagem? Procurei correndo a chave do carro dentro da bolsa, quando achei, as derrubei no chão.

 

- Merda! – Me abaixei, e recolhi o molho de chaves. 

 

Nicole saiu da entrada, e caminhou até a ponta da varanda, parando nas escadas. Eu tentava abrir a porta do carro, mas meus olhos não saiam dela. Ela desceu a varanda e começou a se aproximar de mim, caminhando com tranquilidade, depois congelou um pouco antes de onde eu estava.

 

- Eu não bebo tudo isso sozinha. – Sua fala me surpreendeu, e eu a encarei com uma expressão de espanto. Ela balançou ligeiramente a cabeça, e sorriu. – Você não gostaria de entrar? 

 



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