História Ringo - Capítulo 16


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Categorias B.A.P
Tags Banglo, Bangzelo, Bap, Menção!banghim, Ringo, Yongguk, Zelo
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Palavras 2.256
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), Romance e Novela, Shonen-Ai, Universo Alternativo, Yaoi (Gay)
Avisos: Bissexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Eu tenho que implorar por algum perdão ou coisa assim. Mas a realidade é que eu não sei como essa história acontece, ela só acontece.

Capítulo 16 - Angel


Ei, Zelo, é engraçado como o começo fica nebuloso quando o fim acontece.

Foi no final do meu terceiro show da tour nacional. Eu estava mentalmente exausto e fisicamente esgotado, mas ainda sabia o que estava fazendo. As luzes diminuiriam, eu iria para o camarim e ligaria para Zelo do celular, era aniversário de morte da mãe dele e eu não estava sendo exatamente exemplar, eu devia a ele aquela ligação, devia a ele muitas coisas.

Na última música, Daehyun estava cantando comigo e enquanto sua voz vibrava através das paredes daquela casa de show acesa em milhares de luzes vermelhas no formato engraçado de finger gun – uma arma feita com o os três dedos da mão –, eu me lembrava de Junhong e implorava para que a bateria estivesse carregada. Fiquei tão concentrado nisso que, por um instante, foi como se as minhas preocupações me drenassem para dentro delas e eu já não me lembrasse mais do que havia ido fazer ali, naquele palco, quando a voz de Daehyun parou de soar.

Aquela composição era minha, eu me lembrava de ter me debruçado sobre ela por horas, de tê-la começado na sala, comendo cereal sem leite, e terminado no fim da tarde com o caderno apoiado no fim da coluna de Zelo, um horizonte vasto de pele branca e macia, pontuada por sinais de nascença que eram como constelações para a minha criação. Mas, de repente, eu não era capaz de me lembrar de nada do que ela dizia.

E o meu corpo balançava como se eu estivesse no mar, não oferecendo resistência nenhuma contra as ondas que me levavam para longe. Os olhos de Daehyun me diziam vamos, Yongguk, abra essa maldita boca, mas minha cabeça dizia Foda-se, Daehyun, esqueci a letra, e não importa, porque eu preciso ligar para o Junhong e sabe-se lá onde ele está, eu tenho me tornado um especialista do abandono.

Meu garoto, meu universo que cheirava a céu, chuva e maçã. Eu o havia deixado.

No primeiro ano de estrelato, havia sido Himchan, Zelo e eu. O tempo todo. Quando meu primeiro álbum foi lançado, eu larguei o trabalho na Sweet Caroline e passei a cumprir algumas das minhas novas obrigações que envolviam pequenos shows, vídeos de propaganda, sessões de fotos, programas de rádio. O tempo era meu aliado, as coisas iam crescendo, mas sempre que eu voltava para o meu apartamento suburbano encontrava os mesmos dois otários, bebíamos cerveja, e quando Himchan ia para casa Zelo e eu transávamos tanto que ficávamos sem fala.

Ele me adorava e eu o adorava de volta. Eu devia tudo a ele, tudo aquilo, cada pequeno alicerce da minha nova vida. Quando eu ficava cansado de todo aquele papo de imagem, odiava as sessões de fotografia, odiava a dieta e os apresentadores canastrões da televisão, ele colocava minha cabeça em seu peito, acariciando meu cabelo e me dizia “logo você estará no estúdio, são só as promoções”.

Deram-me um estúdio na NHS, cheio de aparelhos chiques e coisas que um cara como eu, interiorano e estúpido acostumado ao trabalho cru, mal sabia manusear. Mas fui aprendendo. A drum machine, os programas de equalização e tratamento de som, as pedaleiras, microfones caros e sistema de som milionário. Foi o dia mais feliz da minha vida quando Himchan sentou na cadeira de rodinhas presidencial na frente de um teclado instalado no meu estúdio e começou a tocar Roxanne. Nós estávamos rindo e comemorando. Junhong tirou o casaco e pulou, gritando a letra fora do tempo. Acho que as sombras dos sorrisos que dei naquele dia ainda estão pelo meu rosto.

Dois anos ativo como Bang Yongguk, a celebridade, o rapper. Larguei meu antigo apartamento com aquela janela de navio que eu adorava e comprei um flat num prédio decente, no último andar, com meu próprio dinheiro das promoções e das composições vendidas. Levou três anos, mas agora eu tinha chuveiro elétrico de verdade e dinheiro para as compras.

Zelo praticamente morava comigo. Ele havia adquirido um espaço no meu guarda-roupas no dia da mudança. Em seu último dia de escola, ele atravessou Seul correndo e ofegando só para entrar com tudo no estúdio onde eu preparava meu terceiro álbum, me abraçar com o corpo inteiro recendendo a suor e um rastro distante de sua doce colônia masculina e dizer:

- Estou livre. Vou morar contigo, eu posso morar contigo?

Desde que a mãe dele morreu, Zelo fez um acordo consigo mesmo. Iria terminar o Ensino Médio e partir, largar a vida que tinha com o pai e o irmão e usar seu fundo de faculdade para continuar os estudos e alugar um lugar, além de começar a trabalhar para se manter. É claro que ele não precisou fazer as últimas duas coisas, mas a faculdade ele começou a pagar – e não que eu não tenha me oferecido, mas ele me convenceu de que meu nome em seu cheque da faculdade não seria uma boa ideia.

Junhong habitava a sombra que eu fazia ao caminhar entre os flashes, ele prezava demais pelo seu anonimato e somente os fãs mais dedicados e amigos mais próximos sabiam sobre o cara que morava comigo, mas era somente quando a porta estava fechada e rua ficava vazia uma centena de metros abaixo que nós éramos dois namorados na varanda, que dançávamos em frente as luzes fazendo sombras fantasmagóricas nas cortinas fechadas, que ele me contava o dia dele na faculdade e todas as coisas absolutamente triviais que eu adorava saber.

Eu me via depois de um dia inteiro de trabalho e constipação emocional de olhos bem abertos, observando o modo como os fiozinhos de cabelo preto carvão caíam sobre a testa dele enquanto ele movia aqueles lábios sem qualquer maldade, falando barbaridades sobre um colega de turma ou um professor especialmente enfezado. Eram nesses momentos em que eu percebia que meu garoto havia crescido.

Não no sentido em que as pessoas costumam crescer, Zelo já era grande o suficiente, mas era como se ele estivesse finalmente perdendo aquela irresponsabilidade tão saborosa, como se seus sonhos estivessem começando a criar raízes no chão e houvessem parado, de repente, de habitar as estrelas. Eu me recordava do modo como ele agia aos quinze anos e me perguntava a que ponto ele havia me transformado e eu feito o mesmo com ele.

No segundo ano começaram as turnês, as noites fora, as festas nas quais eu não poderia aparecer simplesmente segurando a mão de Junhong, nós dois de terno, usando anéis combinando e tudo. Alguns jornais me questionavam a respeito da minha idade criavam teorias mirabolantes a respeito de algum tênis meu ser igual ao de alguma modelo em ascensão. Foi engraçado até o dia em que não voltei para casa por ter me enfiado em uma festa dos caras da empresa, alguma coisa a respeito de Daehyun e uma novela, coisa assim.

Zelo e eu havíamos combinado de ver um filme. Nós iríamos de bicicleta até o cinema de Nobu, o velho cinema sem lançamentos que ele me levara no que parecia ter sido outra época, outro milênio. Eu tinha prometido a ele. Costumava fazer promessas a Junhong porque elas eram fáceis de cumprir, nada com ele era um sacrifício, algo que eu não gostasse (quisesse) fazer. Mas naquela noite deixei de atender suas ligações, perdi a noção do tempo, e quando voltei tropeçando pela porta Junhong já não achava os rumores tão engraçados assim.

Ele estava sentado no sofá, os tornozelos cruzados, comendo uma maçã à meia luz de uma luminária. Eram quatro ou cinco da manhã. Zelo ainda usava uma roupa legal, mas os sapatos estavam ao pé do sofá, as meias dentro deles, bagunçadas como se ele as tivesse chutado dos próprios pés. Eu percebi que havia algo errado assim que entrei. Ele odiava o silêncio, sempre que estava sozinho colocava alguma música para ouvir, mas a sala era um invólucro de silêncio e escurão, uma bolha que estourei abrindo a porta para entrar, bêbado e incauto.

- Onde você estava? – dava para sentir a rouquidão em sua voz, como se ele estivesse forçando as palavras para fora por não gostar do que estava dizendo. Junhong tinha os ombros tensos, esforçando-se para interpretar um personagem como um ator iniciante e com problemas de tremedeira – Eu estive esperando...

- Eu acabei indo a uma festa da empresa, Daehyun vai atuar em uma novela, eles estavam comemorando.

- Até as quatro e vinte da manhã? – de novo, como se estivesse se esforçando.

- Até as quatro e vinte da manhã.

Acho agora que, naquela noite, eu me dediquei ao máximo a concordar e repetir. Estava tudo bem, eu estava no controle, nada de errado se passava comigo e eu estava convicto de formas universalmente incontestáveis daquilo. Só depois foi que descobri o quanto havia sido rude, cruel e incompreensivo.

- Marcamos de ir ao cinema, poderia ter atendido as ligações e não me feito esperar.

- Meu celular estava sem bateria, Zelo.

Ele escorregou os olhos amendoados para baixo e apoiou a maçã já quase totalmente mordida no criado mudo ao lado do sofá. Descruzando as pernas e fazendo um movimento que elevava seu queixo e enchia seu rosto das sombras da penumbra, ele suspirou.

- Estava chamando. Celulares sem bateria nem chegam a tocar.

- Junhong, o que você está pensando que fiz? Você está desconfiado? – disse eu, ou seja lá que parte de mim – Tá bem, talvez eu tenha ignorado suas chamadas. Eu estava com o pessoal, estou sendo sincero. Eles trabalham dias e dias comigo, é justo que eu queira passar um tempo com eles.

- E é perfeitamente justo, também, que você não me avise absolutamente nada, nem mande uma mensagem tipo, sei lá, “Vai dormir, Zelo, vou ter que ficar por aqui” ou “Não volto cedo, me desculpe, vamos deixar o cinema para amanhã”. É justo que eu fique esperando e eles não?

Zelo quase nunca falava muito. Ele absolutamente não falava, às vezes. Em certas manhãs em que eu estava de folga e podia dormir muito, quando acordava e caminhava de meias para a sala, o encontrava na varanda com as pernas esticadas, equilibrado como um Adônis, com nada para cobrir o seu peito alvo e nu. Contra a luz, eu podia ver os pelos aloirados se arrepiarem contra o vento frio.

E ele ficava calado, olhando o nada. Mesmo sabendo que eu estava ali, que havia acordado, ele era capaz de ficar minutos, horas, absolutamente calado. Na maioria das vezes eram seus momentos sozinho, momentos em que pensava na mãe, em si mesmo, até mesmo em mim. Zelo era um especialista em paradoxos emocionais, picos de descontrole acentuados por meses de equilíbrio e silêncio.

- É só um filme de 2006! Era só isso que faríamos: ver um filme velho. Você está fazendo todo esse caso por uma bosta de cinema.

- Fazendo caso – ele sussurrou, baixinho. Nunca Junhong havia me parecido tanto com um pequeno rouxinol indefeso, as asas quebradas e a garganta seca – É, talvez eu esteja.

Ele se levantou, deixou os sapatos onde estavam, a maçã mordida, e caminhou para o quarto em silêncio. Sequer bateu a porta quando passou por ela, inclusive a deixou aberta para que eu entrasse, me deitasse ao seu lado, como se nada houvesse acontecido.

Eu não sei se levou um mês ou dois para aquilo começar a me matar. Sua indiferença, sua desistência. O fato de que eu agia como um completo imbecil e ele não protestava, não quebrava as coisas, não fazia nada que me lançasse para fora daquele delírio. Nós dormíamos, acordávamos, e ele exigia cada vez menos.

Há aquela coisa que dizem sobre segurar areia ser como segurar seu grande amor. Ele escapa, esteja você apertando muito ou soltando demais. Eu não sabia o que estava fazendo de errado a respeito de Junhong, e quando não estava apertando-o como se minha vida dependesse disso, estava com as mãos espalmadas vendo-o desaparecer no vento.

Quando saí do palco tudo ficou escuro por cinco segundos antes da realidade caótica dos camarins. Fui acometido por um desespero imenso, me esgueirando entre os staffs e maquiadores e seguranças, esbarrei em Daehyun, e achei meu celular escorregando no bolso de uma mochila.

Não havia nenhuma chamada e nenhuma mensagem. Eu apertei o botão de chamada rápida – que nunca havia deixado de ser o número de Zelo. Chamou três vezes. Quando ele atendeu, estava ofegando, o vento era forte onde quer que ele estivesse, o ruído que eu ouvia era de ferro, como se ele estivesse descendo uma escada especialmente velha.

- Amor? Junhong, onde você está? Ainda está em casa? Vamos juntos até a fundição.¹

- Já estou descendo do tonel – ele disse, impassível – Estou voltando para casa.

- Achei que iríamos cantar juntos para a sua mãe – disse eu, enquanto um nó impedia minha garganta de funcionar como deveria – Achei que faríamos isso juntos hoje.

- Você estava ocupado, não se preocupe comigo.

- Junhong...

- Yongguk, está tudo certo. Eu já cantei para a minha mãe, trouxe o ukulele e tudo. Os pássaros estavam bonitos hoje.

- Eu lembro quando eles migraram ano passado, e no ano retrasado, e no ano antes daquele. Ei, Zelo, eu te amo. Te amo muito. Eu sinto muito por ter perdido a hora.

- Eu também.

Quando desligamos, eu não sabia se ele também me amava, ou se também sentia muito.

Ei, Zelo, você é como um anjo que me deixou e foi para algum lugar. ²


Notas Finais


¹ Vocês lembram quando, no terceiro capítulo, as notas do Bang no final do capítulo foram "Ei, Zelo, eu nunca mais vi os pássaros migrarem. Há quanto tempo, hm? Talvez só tenha o mesmo sentido se nós estivermos sentados naquele tonel velho da fundição, mas da última vez... Eu te deixei sozinho.". Pois é, se referia a essa vez.
² É um trecho de 1004 (Angel), do BAP, que dá título ao capítulo e provavelmente vai fazer parte de uma soundtrack oficial que vou criar pra essa fanfic em breve.

Resolvi, também, que vou responder TODOS os comentários, desde aqueles deixados lá no início. Essa fanfic ter sido deletada até hoje me tira de tempo, eu costumava responder tudo e agora deixou vocês sem sequer um obrigado. Me desculpem por isso, mesmo, de verdade. Eu valorizo tanto isso aqui, é o que sei fazer, eu deveria agradecer por todos que leem e me apoiam, mesmo que eu seja displicente e horrível.
Adiantando o rolê, MUITO OBRIGADA. É minha força, isso aqui, minha inspiração. Eu meio que vivo disso, me mantém sã.
Obrigada por ler, obrigada, obrigada e obrigada.
@nowdotheannie no twitter, para quem quiser bater um papo.


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