História Rise of Jedi - Capítulo 20


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Categorias Star Wars
Personagens Capitã Phasma, Finn, Kylo Ren, Leia Organa, Luke Skywalker, Obi-Wan Kenobi, Personagens Originais, Rey
Tags Ben Solo, Han Solo, Kylo Ren, Leia Organa, Rey, Reylo, Skywalker, Star Wars
Visualizações 263
Palavras 7.702
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Ficção, Ficção Científica, Luta, Misticismo, Romance e Novela, Sci-Fi, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Mutilação, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Olááááá!!! Cá estou de volta e, com um capítulo todo dedicado à Rey na postagem anterior, trouxe agora um dedicado ao Ben, e à nossa até agora pouco conhecida Brenwen.
Quero agradecer de coração a todos que continuam acompanhando, lendo, comentando, especialmente aos anjos que me escutam nas conversas privadas e dão suas sugestões incríveis! Então, sem mais delongas, aqui vai o capítulo novo!

AVISO: o capítulo descreve uma crise de ansiedade com pensamentos suicidas. Pode ser gatilho para quem sofre deste mal!

Capítulo 20 - Mentes obscuras


Assistir à partida de Rey incomodou Kylo Ren profundamente; sua intuição o alertava para o perigo, mas não sabia dizer de onde este viria, ou mesmo se seus sentimentos não lhe estariam pregando uma peça, gerados por mera preocupação; amar a Jedi era sua fraqueza, e agora que admitira isso para si mesmo e para ela, começava a tomar consciência de como aquelas emoções o afetavam, para o bem e para o mal. Surpreendentemente, não sentia raiva das limitações que isso trazia – não tanta quanto antes de admitir, ao menos – e tentava não ocupar sua mente com pensamentos a respeito. Se quisesse manter aquele segredo guardado, o melhor era não pensar nele.

Os dois objetos dados a ele pela esposa estavam guardados em seus aposentos, seguros, bem como os segredos que pudessem guardar; a curiosidade o instigava e intrigava, porém sabia que pegá-los o desconcentraria. Assim, suportou a expectativa durante todo o dia enquanto lidava com questões políticas e bélicas: guerrilhas e focos de resistência em planetas nos quais parte da população recusava-se a dobrar o joelho ao Império, e outra parte reconhecera a derrota. Guerras civis preexistentes. Agitadores e radicais do Império causando problemas com os Sistemas Independentes, e os provenientes da República promovendo a desordem nos limites de seus territórios. Embora a ambição do Imperador o fizesse estender seus olhos a toda a galáxia, consolidar seu governo e as fronteiras era a questão primordial; a expansão poderia vir com o tempo, quando fosse o senhor incontestado da Primeira Ordem. E o que mais havia, no momento, eram pessoas dispostas a usar qualquer falha, por mínima que fosse, para contestá-lo e derrubá-lo. Por duas ou três vezes pensou consigo mesmo se fizera uma boa opção ao tomar o controle da Primeira Ordem; em alguns momentos a ideia de viver como fugitivo parecia uma vida menos esmagadora do que a de senhor de um vasto império, e quando o dia findou, agradeceu mentalmente por poder ir para seus aposentos, banhar-se e enfim dar atenção ao assunto que martelara em seu subconsciente durante todo o dia.

Sentou-se na cama de pernas cruzadas, abriu o criado mudo e fitou os objetos na gaveta... Sentia a Força emanando do sabre de luz, e foi o que pegou primeiro. Tantas impressões... Tanta história. Sempre pensara que ao ter aquele objeto nas mãos iria imediatamente explorar cada memória, mergulhar fundo na energia do cristal, descobrir todos os segredos e histórias de Anakin Skywalker. Agora, porém, sentia todas aquelas energias com as quais o cristal se conectara – seu avô, seu tio, Rey.. – e toda a ansiedade se mesclava a reverência, e mesmo algum temor. Chegava a ser irônico: uma vida desejando algo e, quando o tinha, protelava o momento! Receava as coisas que veria por uma razão acima de todas: a possibilidade de que toda a sua concepção da história, da Força e até de si mesmo pudesse ser completamente destruída pela experiência. Já estivera errado sobre coisas suficientes, nos últimos meses, para saber o quanto certas experiências poderiam ruir os pilares de suas crenças como ondas do mar em um castelo de areia.

Talvez não fosse uma boa ideia começar pelo sabre. Décadas de informações e impressões acumuladas. Melhor fazer isso quando estivesse mais calmo, e por ora contentar-se em ler o caderno que Rey lhe deixara, mesmo porque tocar aquelas páginas o acalmava. Sentia as impressões deixadas pela esposa ao escrever, e a curiosidade aumentava enquanto abria a capa; ela fora enfática ao pedir que lesse... Assim, ele abriu na primeira página.

As primeiras folhas tinham datas de meses atrás, dos dias subsequentes ao casamento: listas de prioridades, desabafos, pensamentos, anotações de nomes e patentes de pessoas importantes. Ali ele conseguia ver pelos olhos de Rey como haviam sido aqueles primeiros dias, para ela; algumas vezes sorriu brevemente ao ler menções de seu nome, a maioria acompanhada de algum xingamento, outras manifestando a confusão que sua relação causara na mente e na vida da moça. Não eram informações vitais, mas lhe mostravam todo um universo dentro da mulher que passara a chamar de esposa; e mesmo que soubesse o quanto ela se empenhara desde o início para não se desvirtuar do próprio caminho, e usar sua posição para garantir algum tipo de melhora na situação da galáxia e de pessoas próximas, nunca pensara o quão profundamente a garota fora capaz de compreender tudo aquilo. Suas análises sobre a política, a história e o leve ceticismo acerca das instituições governamentais desde a Antiga República o intrigaram profundamente. Geralmente eram assuntos sobre os quais não conversavam... Ele sequer sabia o porquê, mas jamais haviam tocado nessas questões. E mesmo sabendo não ser sua mulher uma fanática ortodoxa, sentia-se surpreso com o quão flexível ela poderia ser, analisando tantos lados de uma mesma questão.

Aos poucos, o diário começou a apresentar reflexões filosóficas, e relatos de encontros com os Mestres da Força, suas lições... Mas nada intrigou o Cavaleiro mais do que o momento em que pela primeira vez a mulher escrevera sobre o próprio passado. Era apenas uma passagem, lembrança de infância, mas o prendeu completamente:

Eu gostava de colecionar flores, quando criança. Entre uma carcaça de nave e outra, acabava encontrando plantas que conseguiam viver e florescer em meio ao deserto. A maior parte das vezes eu as deixava em paz, imaginando que sobreviver, para elas, provavelmente era tão difícil quanto para mim. Mas quando estava muito triste, colhia uma ou duas e as secava para preservá-las, como uma lembrança de que a beleza e a vida podem ser encontradas em qualquer lugar, se souber como procurar...

 

*

 

Brenwen despertou suando frio e tremendo de sua meditação, apenas depois de Eilenia precisar sacudi-la para trazê-la de volta. Os olhos da moça estavam vidrados, aterrorizados, cheios de lágrimas retidas, enquanto seu corpo gelado tremia convulsivamente. Ao ver sua tutora e perceber-se a salvo, abraçou a outra e caiu num pranto incontrolável. Ficaram abraçadas por um longo tempo, a Twi'lex acariciando levemente o cabelo da Padawan e murmurando palavras de conforto, até que a adolescente conseguisse se controlar, secando as lágrimas e encolhendo-se no sofá, o tremor aos poucos vencido.

- o que houve, Bren? - perguntou a mais velha, preocupada com sua protegida - você entrou em pânico, eu não conseguia despertá-la.

- eu expandi minha mente... Abri-me à Força, mas... Era tão escura! Um vazio negro e gelado que me puxava! Eu tentei enxergar além, ver a luz de cada ser vivo, mas no meio disso eu via as flamas dos Cavaleiros Sombrios... E não são apenas os Cavaleiros de Ren, mas tantos... Tantos! Entrei em pânico, presa entre essas chamas vermelhas e o vazio gelado que tentava me puxar... E então um voz sussurrou meu nome, vinda dessa escuridão, fazendo promessas... - a humana enterrou os dedos nos próprios cabelos, retendo as lágrimas por detrás das pálpebras fechadas - eu desejei ir. Queria abraçar aquelas promessas, aceitar o poder que me oferecia, mas o medo ao sentir o vazio, o frio e a escuridão me paralisaram. Então aquilo começou a me puxar e tragar, como se fosse algo vivo a.me engolir e... Eu nunca senti nada assim.

- shhhh, está tudo bem, minha menina. - a diplomata deitou a cabeça de Brenwen em seu colo - tudo bem. Você é extremamente sensível às energias e à Força... O que sentiu foi o coração negro de Rakata Prime. Este planeta é um lugar amaldiçoado.

- mas Rey e Asala conseguem enxergar a luz, mesmo aqui. Por que não consigo?!

- porque tem medo - respondeu a mais velha, fazendo-a se sentar - quando vê a escuridão, apavora-se, e foca sua atenção no que lhe dá medo, em vez de se manter aberta e buscar mais longe. Se não se afastar do escuro, se não olhar na outra direção, não enxergará nada além deste terror. Precisa se libertar disso, Bren...

- acha que não quero?! - a jovem explodiu, levantando-se - mas toda vez que medito, esse vazio surge, a mesma escuridão completa que senti quando Snoke violou minha mente, no dia em que fui entregue a ele! A mesma escuridão que me aterrorizou por anos, o bastante para que eu me fechasse à Força! - ela socou uma almofada - NÃO É JUSTO! Eu não pedi nada disso! Nunca pedi NADA disso!

Eilenia entendia o medo e a revolta da garota, e sentia pena dela, mas autocomiseração não traria à jovem nada de positivo. Assim, a Twi'lek segurou o braço da Padawan, fazendo-a olhar para si, e disse firme, mas com doçura:

- ninguém pede pelos fardos que carrega, Brenwen Lisin, mas os recebemos ainda assim. Pode tentar fugir deles, mas não conseguirá nada além de uma vazia sensação de fracasso. E muitas vezes é impossível fugir. Eu não pude fugir dos meus, e tenho certeza de que Rey não pediu por todas as responasabilidades que caíram sobre seus ombros. E ainda assim, as enfrenta com coragem. Você só terá sucesso se passar por cima do medo, Brenwen. Se superar o que teme, e seguir adiante.

- Pare de me comparar a Rey! Eu não sou ela! – protestou a humana, afastando as mãos da Twi’lek de si num gesto zangado.

- E isso a perturba muito, não é? – a diplomata era direta, quando se tratava de lidar com suas tuteladas – Brenwen, eu entendo sua ansiedade por crescer, sua necessidade em se provar, mas isso está passando dos limites! Você não suporta a ideia de saber menos do que sua mestra! Não percebe que sua obsessão está saindo ao controle?

- O que eu percebo é como você defende Rey em absolutamente TUDO o que ela faz! E o quanto tudo o que EU faço, não importa o quão difícil seja, jamais tem valor.

- Eu nunca deixei de reconhecer seu valor, Brenwen. Não seja injusta. E o assunto sequer é Rey, aqui: o assunto é você; sua capacidade de controlar o medo, as emoções, coisa que decididamente não está fazendo.

- Que direito tem de me julgar, Lady Shan? O que sabe sobre a Força, além do que leu nos livros? Você não é sensitiva, não tem poder algum, não faz idéia do que é sentir tudo isso, todas essas energias, todas essas emoções e pensamentos ao mesmo tempo... Não faz ideia do que é a escuridão! – a moça sentia todas as suas emoções em ebulição, já sequer saberia dizer o que sentia, mistura de raiva, medo, angústia...

- Não. – A embaixadora concordou – não faço ideia. Não tenho sensibilidade à Força, mas dizer que não conheço a dor, o medo e as trevas? – ela deu um supiro cansado – você está fora de si. Vou imaginar que a meditação a perturbou, e desconsiderar essas palavras; agora, volte para seus aposentos, tome um banho frio e coloque sua cabeça no lugar. Rakata Prime não é lugar para agir como uma garotinha descontrolada: você é uma Jedi, ou não, afinal?

Os olhos cinzentos de Brenwen se avermelharam com a raiva, e ela ergueu o rosto, encarando Eilenia fixamente. A Twi’lek tentou suportar o olhar da menina, mas isso lhe causou uma dor aguda atrás dos olhos, o que a fez segurar a cabeça nas mãos; primeiro uma pontada, mas quando tentou olhar para a humana novamente, sentiu como se uma faca rasgasse seu cérebro e desmaiou.

Ver sua tutora desmaiar assustou Brenwen: o que acontecera?! Por que desmaiara? Abaixou-se depressa junto a ela, já esquecida da zanga, tentando de todos os modos despertar a mais velha.

- Lena! Lena, o que foi? – a mulher abriu os olhos, para alívio da mais moça, que a ajudou a se sentar – o que aconteceu?

- Eu... Não sei. – Era mentira, a princesa sabia: de alguma forma, sua amiga demonstrava medo, afastando-se involuntariamente de seu toque como... Como se ela houvesse causado aquilo. Mas não causara! Não fora ela! Ou fora? Mas não fizera coisa alguma! Apenas desejara que Eilenia pudesse entender o que significava uma dor mental como a que experimentara, e aquilo acontecera... Ah, não... Não! Não podia ter machucado a pessoa que a protegera e ensinara durante os últimos sete anos de sua vida! Nunca machucaria Eilenia! E ainda assim...

O estômago da moça se revirou com a ideia de que pudesse ter sido a causadora do dano, e ela se ergueu subitamente, muito pálida, fitando as próprias mãos e o rosto da outra, que ainda estava descorada pela dor, alternadamente.

- Lena... Eilenia eu... Me desculpe... Eu não queria... – foi impossível suportar a mágoa naqueles olhos escuros que a fitavam, e assim a humana fugiu. Correu a esmo, sem prestar atenção aonde ia... Queria fugir de tudo aquilo, de todas aquelas coisas terríveis e estranhas que a assustavam tanto... Mas não podia fugir de si mesma. Era uma prisioneira da própria mente. Prisioneira da Força.

 

*

 

Naquela noite, Kylo não teve pesadelos, mesmo dormindo sozinho. Pelo menos não os que costumava ter... Sonhou com uma menina pequena, abandonada num mundo desértico e batalhando para sobreviver. Em algum momento viu-se em pé, no meio do deserto, e percebeu que a garota de dez ou onze anos o encarava fixamente... Rey. Sua esposa, como fora no passado. Ela o fitava fixamente, e abandonou a carcaça do AT-AT para vir até ele de modo hesitante, os olhos cheios de curiosidade, como se o conhecesse, mas não se lembrasse de onde. Ele sentiu o coração se apertar um pouco ao ver os mesmos olhos verdes, as sardas pelo rosto pequeno, a mesma maneira de apertar os lábios... Mas era tão pequena e frágil!

- Quem é você? – perguntou a criança, direta. Ben não entendia o que estava acontecendo, mas havia ali uma nítida sensação de realidade... Assim, dobrou um joelho até tocá-lo no chão, para ficar da altura da garota:

- Sou Ben Solo; a maioria me chama Kylo Ren. Você é Rey?

Ela estreitou os olhos, do mesmo jeito que ainda fazia hoje, parecendo pensar a respeito antes de assentir, confirmando. Agarrava-se a uma boneca de pano vestida com roupas de um piloto da Resistência.

- já nos cohecemos, Ben?

- Eu conheço você – disse ele – e, um dia, você irá me conhecer, também.

- Você é um fantasma? – mas que droga, o que estava acontecendo? Onde ele estava? Aquilo não podia ser real... Ou podia?

- Eu sou sua memória de algo que ainda não aconteceu. – um barulho ensurdecedor se fez ouvir, e os olhos da menina se arregalaram ao se fixar no horizonte; sem hesitar, ela segurou a mão do Cavaleiro e o puxou consigo:

- Venha! Tempestade de areia! Temos de nos esconder!

Ele tentou segui-la, ainda confuso, mas seus pés se fundavam na areia, tragando-o mais e mais para baixo; a tempestade o alcançou, ou ao menos foi o que pareceu quando um rugido ensurdecedor preencheu seus ouvidos, sua cabeça girou com a força do impacto contra suas costas e o Jedi Negro se sentiu cair.

Despertou em sua cama, transpirando e ofegante. Fora apenas um sonho. Apenas isso! Um sonho, talvez uma memória de Rey que captara por sua conexão, após ler um pouco do diário. Ainda assim, sabia que não conseguiria voltar a dormir: fora intenso e real demais, como se realmente houvesse tocado uma parte do passado de sua esposa. Pertubado, sentou-se na cama, acendeu as luzes e pegou o caderno, voltando a ler. Estava completamente fascinado por todas as reflexões de Rey, sua capacidade de retornar às situações e dificuldades vividas, procurando compreender de que modo aquilo fora um ensinamento, ou a preparara de alguma forma. Buscava o aprendizado onde outros só veriam dor, e embora houvesse ressentimentos intensos, não guardava verdadeiro ódio de seu passado.

“E você dizendo a ela para matar o passado, Kylo Ren.” Censurou a si mesmo “Deveria tentar aprender a fazer a mesma coisa.”

Continuou passando as páginas, até chegar a um título marcado com letras espessas: A história de Mestre Anakin Skywalker. Logo abaixo começava um relato escrito em primeira pessoa, e houve uma longa pausa antes de o Cavaleiro finalmente iniciar sua leitura. Já era tempo de conhecer as verdades de Vader, o homem a quem tanto admirara e no qual se espelhara, ou pelo menos quisera espelhar. Entretanto, tinha o forte pressentimento de que aquelas páginas revelariam coisas talvez desagradáveis, ou inconvenientes, mas não poderia mais parar. Precisava ler aquilo. Simplesmente não havia outra escolha. Fechou os olhos e respirou fundo antes de iniciar as primeiras linhas, a atenção completamente focada em cada palavra.

 

Eu nasci de Shmi Skywalker, em 42 Antes da Batalha de Yavin. Minha mãe era uma escrava, e não tive pai, ou ao menos assim me foi dito. Pelas condições de meu nascimento, também era um escravo, mas não era desse modo que enxergava as coisas; Shmi era uma mulher extraordinária, e me ensinou que, se não éramos livres no corpo, nossas mentes e almas não possuíam qualquer restrição além das que n´so mesmos impuséssemos. Ela me ensinou tudo o que sabia, mas seus mais valiosos ensinamentos foram a compaixão, a coragem e a capacidade de sonhar.

 

Na borda da página, Ben viu anotações rápidas de comentários da própria Rey, e sorriu ante o primeiro deles: “Darth Vader já foi uma criança. Isso é muito óbvio, mas vou levar alguns dias para conseguir aceitar.” Mais abaixo, porém havia uma anotação séria: “a mente e a alma são aquilo que realmente nos forma. Não somos este corpo restrito e denso, que pode ser ferido, quebrado e aprisionado, mas sim seres de luz e energia, chamas emanadas da Força, e isso não pode ser tomado ou destruído sem nossa permissão. Por isso os sonhos são imortais: feitos da mesma matéria da alma.”

As palavras escritas na agora quase elegante caligrafia de Rey trouxe um gosto amargo à sua boca... Ela passara por coisas terríveis, por uma criação brutal e impiedosa, pelo massacre do corpo através da fome, da sede, do trabalho duro e punições físicas... Ainda assim, mantivera sua alma inteira. Fora violada na mente por Snoke e forçada pelo próprio Kylo a uma relação que a aprisionava de muitas formas, e ainda assim falava de liberdade. Uma liberdade que ele permitira ser tomada de si mesmo, e somente naquele momento tomou plena consciência dessa admiração nutrida pela esposa, que também era uma fonte de vergonha a respeito das próprias capacidades. Similares em muitas coisas, separados provavelmente por um único fato: a alma e os pensamentos da sucateira de Jakku jamais se haviam dobrado diante de quem fosse, e jamais o fariam.

 Ótimo... Já começara a receber censuras da própria consciência, e nem havia passado da primeira página! Talvez fosse melhor ignorar as anotações de Rey e focar apenas na leitura do relato em si, ou seria o mesmo que ouvir sua mulher discutindo consigo.

 

Assim, eu cresci com algo muito raro nos cativos: esperança e inconformismo. Sentia que o mundo e a vida podiam ser diferentes do que eram, e não me deixava reduir à condição única de servo; era uma pessoa, com vontades e interesses que satisfazia tanto quanto possível, dentro de nossas condições de vida. Foi muito conveniente que a paixão pela mecânica tenha se manifestado, pois com isso trabalhei desde que tive idade para reconhecer o nome de cada peça, e por meio deste trabalho aprimorei ao máximo minhas habilidades, até ser capaz não apenas de consertar, mas de criar naves e droides. A segunda paixão que me nutria, e que satisfazia muito ao meu patrão, era ser um piloto. Enquanto criança eu corria nos circuitos de Tatooine, mas à noite, deitado em minha cama, olhava pela janela aberta e fitava as estrelas, sonhando com o dia em que pilotaria uma nave para bem longe daquele lugar, livre, com minha mãe ao meu lado. Minha mãe... Até os nove anos, meu único amor e preocupação.

 

Kylo fechou o livro, a boca seca... Por que Anakin tivera de falar sobre a mãe? E por que isso o afetava tanto? Esses sentimentos haviam ficado para trás, enterrados no passado... Não deveriam corroê-lo como o faziam! Ele não era mais um menininho assustado chorando a ausência da mãe, mas o senhor de seu próprio império, um Lorde Sombrio cujo poder vinha crescendo acentuadamente nos últimos meses! Não, não iria permitir que o rosto de Leia o assombrasse: não importavam os tolos sentimentos atávicos que toda cria tem pela fêmea que a pariu, a General há muito deixara de ser sua mãe, de fato, se é que o fora um dia. Mordendo com raiva o interior da boca, ele abriu novamente e continuou a leitura:

 

A oportunidade de mudança com a qual tanto sonhei na infância surgiu quando contava nove anos de idade, na figura do Jedi Qui-Gonn Jinn...

 

A partir daí, Anakin contava sobre o modo como ajudara Qui-Gonn, e sobre o deslumbramento que o acometeu desde o primeiro momento em que conheceu Padmé. Lendo devagar, para não deixar escapar nada, Ben acabou por adormecer com o diário em mãos.

 

*

 

Brenwen se escondera no alto do zigurate que era o Palácio Vermelho, sentada num dos peitoris de pedra do jardim, o rosto oculto nos braços, e estes cruzados sobre os joelhos dobrados. Tentava acalmar seus sentimentos, entender o que estava sentindo, na verdade, mas eram coisas demais: horror por si mesma, antes a possibilidade de ter sido ela quem feriu Eilenia... Terror em relação às sombras que pareciam tão vivas e pulsantes naquele planeta, rodeando-a, prestes a engoli-la... Vergonha de si mesma, por se sentir tão fraca, e tão assustada... Raiva daqueles que viam essa fraqueza em sua alma e, acima de tudo, das pessoas que haviam causado essa fraqueza.

Lágrimas escorriam profusamente de seus olhos, e ela só queria que alguém tirasse aquilo de si. Suas piores memórias, todas despertando e piorando seu estado, arrancando ainda mais qualquer controle que pudesse ter da Força. Não conseguia se fechar, sentia TUDO o que ocorria, assim como as sombras que se adensavam e ameaçavam esmagar seu coração! O pânico parecia sufoca-la, e a princesa tinha certeza de que acabaria desmaiando... Em verdade, queria a bênção da inconsciência. Queria adormecer e nunca mais despertar, ou sonhar. Segurou o cabo de seu instável sabre de luz e, por alguns momentos imaginou o quão fácil seria acioná-lo e acabar com tudo. A morte provavelmente seria preferível à loucura, não?

Apertando o botão para acionar seu sabre, ela fitou a luz verde-dourada por entre as lágrimas que embaçavam sua visão, tentando tomar a difícil decisão... Queria fazer aquilo, pôr um fim à angústia que crescia exponencialmente em seu peito, destruir-se pela própria mão antes que a escuridão o fizesse por ela... Mas era como se houvesse uma mão invisível impedindo-a de cometer o ato final. Seu choro aumentou, uma súplica para que a deixassem terminar aquilo, totalmente inútil. Sem forças, Brenwen, desativou a arma e deixou-se cair na grama, de joelhos, chorando curvada sobre si mesmo.

- MALDITO! VOCÊ ME DESTRUIU! – gritou para uma memória distante, de quando tinha apenas doze anos. Era longínqua, mas tão viva quanto se ocorresse agora! Snoke violando sua mente, como gostava de fazer com todos os sensitivos... Mas ela não era como os outros, e o que ele fizera quebrara totalmente alicerces muito frágeis em suas emoções. Ela se lembrava de como a dor a fizera se retrair, fechando-se numa concha emocional que bloqueara completamente qualquer sensibilidade latente, que bloqueadas haviam permanecido até a morte do asqueroso ser. E agora, aflorando com toda a intensidade que deviam ter desenvolvido com o passar dos anos, as percepções eram como um mar revolto que tirava completamente o controle da menina; tentava nadar naquelas vagas emocionais, mas só o que conseguia era uma breve respiração, antes de submergir novamente. Pela Força, aquilo iria enlouquece-la! Atormentava-a o tempo inteiro, fazendo-a sentir quando tentava se fechar, e escapando ao controle, silenciando totalmente quando tentava alcançar voluntariamente seu próprio poder! Chorando, ela silenciou completamente e implorou baixinho – por favor, chega... Eu não quero isso. Não aguento mais... – sabia que devia falar a Eilenia o que sentia, o que acontecia consigo, mas todas as vezes em que tentara minimamente conversar, as palavras travavam em sua boca, amordaçadas pela vergonha, culpa e sentimentos de inadequação, de ser fraca e incapaz.

Aos poucos o choro se abrandou, e ela sentiu... Nada. Um vazio aconchegante e sedutor e... Mais nada. Era a primeira vez desde a chegada em Rakata Prime! Mas como podia ser...? Quase desmaiando de alívio, ela ergueu o rosto e viu ali a última pessoa que desejava, ou esperava ver: Arnut. Ele lhe lançou um sorriso compassivo e preocupado, e foi até a ex-namorada, ajoelhando-se ao seu lado; com carinho, segurou seu rosto e enxugou as lágrimas que escorriam:

- Ser uma sensitiva despertando nesse planeta é difícil, eu sei. Passei por onde você está, Brenwen, e isso sem que minhas habilidades fossem algo tão novo.

- É você quem está me bloqueando? – perguntou a jovem, exausta, deixando-se abraçar por ele, a cabeça pousada em seu peito. De repente, não queria estar em nenhum outro lugar.

- Uma das coisas que aprendemos no Lado Sombrio é a usar as sombras para ocultar a nós mesmos ou a outras pessoas de energias e sencientes. Foi só o que me ocorreu quando senti todo o turbilhão em sua energia... Se quiser, posso...

- NÃO! – interrompeu a moça – por favor, não me deixe sozinha! – ela se agarrou ao homem como se sua vida dependesse disso. – não deixe aquilo voltar!

Ele se levantou com a mulher entre os braços, acalmando-a por uma longa hora até que o tremor e a angústia se aliviassem; finalmente sentiu que era seguro remover o bloqueio, pois a própria Brenwen conseguira se fechar.

- Esta melhor?

- Sim. – ela assentiu – obrigada, Arnut. Obrigada.

- Não abra sua percepção à Força sem outro sensitivo por perto. Um capaz de controlar as energias deste mundo, de preferência. – ela não perguntou como o ex-namorado sabia o que fizera a Força fugir ao controle, pois sabia bem. Hesitando em sair, ele continuou – Brenwen... Se entrar em pânico, nunca vai conseguir dobrar a Força. Esconder-se não adianta para sempre... Não das sombras.

- E o que posso fazer? Quando abro minha mente, sinto tudo, e o escuro... É como se estivesse passando por “aquilo” outra vez. Você estava lá, sabe que ele quase me matou...

- Snoke era um poderoso senhor do Lado Smobrio, mas não era o próprio Lado Sombrio. – o homem loiro a puxou para si, aconchegando-a em seus braços, percorrendo o rosto dela com os lábios em beijos suaves – é o Lado Sombrio que a cerca em meu abraço, agora. Eu a assusto?

- Não. Não mais. – ela não tentou se fastar ou argumentar; apenas sentiu cada carícia enquanto ele rumava para seus lábios, tomando-os delicadamente num beijo cálido, sem se forçar a ela, apenas aguardando por uma resposta, ou ausência de uma. A corelliana entreabriu os lábios e correspondeu devagar, usando as sensações físicas para fugir às percepções extra-sensoriais. Arnut era quente e forte, seu abraço tão confortável quanto cobertas macias em uma noite de inverno... Por que haviam se separado, mesmo? Não se lembrava, e não era importante. Sabia apenas que estava protegida com ele.

- Você teme o que não compreende, Bren – sussurrou ele, acariciando suas costas – se não quiser temer o Lado Sombrio, precisa compreendê-lo. – os olhos da menina se fixaram nos seus num protesto mudo, mas ele prosseguiu – Lado Sombrio, Lado da Luz... É apenas um nome.

- Não, Arnut. Não é só um nome...

- Então por que meu uso da Força ajuda você, e o de sua mentora apenas a lança na dor e na confusão? – os dedos longos se entrelaçaram aos cabelos dourados – somos iguais, Brenwen. Eu já estive exatamente onde está: sozinho, perdido, com medo e dor. E não era nem de longe um sensitivo tão poderoso quanto você.

- Não sou poderosa. Sou fraca. Canalizar a Força quase me enlouquece.

- Apenas porque tem medo. Deixe-me ensiná-la, Brenwen. Deixe-me lhe mostrar o quão doce pode ser o Lado Sombrio, repousando sobre você como uma noite serena, dando-lhe abrigo e proteção. O Lado Sombrio é apenas o fluir das emoções, ser fiel ao que realmente move seu coração. Eu posso ajuda-la, querida. Aceite. Por favor.

Aquelas palavras assustaram a moça, que se lembrou exatamente por que havia rompido o relacionamento com o Cavaleiro: por ele ser tão sedutor e manipulador, capaz de induzi-la a coisas que não queria realmente fazer.

- Ninguém pode ser meramente induzido ao Lado Sombrio, Brenwen; emoções projetadas ou manipuladas não geram poder. Ele tem de vir da rendição voluntária e completa aos sentimentos, desejos, anseios. – cada palavra a fazia estremecer ante as promessas – eu posso salvá-la de seu tormento, querida. Posso lhe mostrar o caminho das sombras, apenas para que possa vencer o terror; uma vez que seja a mestra de si mesma, serão suas escolhas que determinarão qual lado seguirá, ou mesmo se escolherá um lado, definitivamente. – suas mãos se entrelaçaram, e os olhos azuis eram puro aconchego e ternura quando completou – eu sei que você tem sido doutrinada contra o que lhe proponho, mas está no antro do Lado Obscuro da Força. E ao contrário de Rey, possui um enorme potencial para manipular essas energias. Basta que as compreenda.

- Arnut eu... Eu não posso...

- Shhhh – ele a beijou mais uma vez – não precisa responder agora. Pense. Reflita. E peça desculpas a Eilenia, pois sei que deve estar se sentindo péssima pela briga.

- Sabe que odeio quando lê meus pensamentos, Cavaleiro – repreendeu a princesa, sem muita convicção. Estava tão aliviada, tão relaxada, que não conseguiria ficar realmente zangada com aquele que praticamente a salvara.

- É difícil não ouvir quando sua mente gritava para todos os que estivessem no sistema planetário. – depositou mais um beijo em sua fronte, e colocou um colar no pescoço da garota: apenas uma peça de metal, parecida com uma engrenagem.

- O que é isso?

- tecnologia Yuuzhan Vong. É de outra galáxia, de outro tempo. Uma raça que se especializou em bloquear sensitivos à Força com tecnologia adequada; pode usar isso para se proteger, quando estiver muito cansada. Eu usei. Foi meu mestre, Lorde Ren, quem me deu, e agora o dou a você. – reparou na hesitação dela – sem promessas. Pense, e faça o que achar melhor: se em algum momento decidir aprender mais sobre aquilo que tanto a assusta, eu serei o guia do qual precisa. – um último beijo trocado, e o Cavaleiro a deixou a sós, pela primeira vez com a mente e o coração silenciosos e em paz, em muitos dias. Ou quase. Em sua mente martelava um pensamento insistente: o que fazer sobre a tentadora proposta do insinuante e perigoso Arnut, a quem provavelmente devia a própria vida?

 

*

 

Era a terceira noite seguida que Kylo se debruçava sobre o caderno de Rey: aquelas míseras folhas de papel o estavam levando à beira da loucura, e todos já o haviam percebido! Não sabiam o motivo, é claro, mas percebiam os breves momentos em que o Líder Supremo se perdia em seus próprios pensamentos; a suspeita geral era que meditava acerca das decisões a tomar sobre os inúmeros problemas de seu novo império – mesmo porque, mostrava-se um líder cada vez mais competente – mas algumas vozes ousavam sussurrar muito baixo que, talvez, fosse a ausência da esposa que o deixava tão taciturno e rabugento quanto costumava ser antes da morte de Snoke. O que o separava do homem de quase um ano atrás era, sobretudo, o autocontrole que desenvolvera, sua raiva agora não manifesta em explosões violentas, mas em ações frias que podiam destruir uma mente ou cem mil com a mesma facilidade, uma vontade férrea que afastava os opositores de seu caminho, quando o viam. A Força nunca fora tão poderosa nele, nem tão obscura, o que chegava a ser irônico ante o fato de que também uma réstia de luz parecia incandescer seus olhos com uma vontade de viver até então inédita no homem.

Kylo sabia de todas a hipóteses aventadas a seu respeito, e poderia tê-las abafado, mas não se sentiu afetado. Tentar abafar um rumor geralmente servia apenas para fazer a opinião geral se tornar certa quanto à veracidade deste, e sua paciência não estava nos melhores dias; agradecia profundamente que Rey não estivesse ali, pois sequer sabia como encará-la após as coisas lidas até ali! Um caderno ínfimo, que usualmente teria lido em menos de uma hora, tomava horas e mais horas de suas noites e despejava um peso terrível em seus ombros: o peso não apenas de conhecer verdadeiramente quem fora Anakin Skywalker, mas enxergar como ele, Ben Solo, caíra da mesma forma que o avô. Entretanto, guardava uma vergonha em si: Vader fora criado a partir da aniquilação de tudo o que Anakin amava; fora o resultado de um homem que perdera a própria razão ao longo dos anos ao encarar incontáveis injustiças e perdas terríveis, um homem bom, leal e justo que, confrontado com a possível perda da última coisa que lhe importava, finalmente sucumbiu ao poder obscuro que há tanto tentava toma-lo. A história do imperador não fora em si tão diferente, massacrado desde a infância por Snoke, moldado pelo Lorde Sombrio assim como Vader o fora por Darth Sidious... mas Anakin lutara. Lutara com todas as suas forças para não cair! Lutara até o momento em que, tentando ajudar Mace Windu e simultaneamente impedir a morte do único que – em sua mente – poderia salvar sua esposa, causara a morte do Mestre Jedi. Fora o ponto sem retorno: sua mente se estilhaçara ante o fato de, mesmo involuntariamente, ter agido em favor do Sith, permitido sua vitória, traído tudo o que todos os seus longos anos como Jedi haviam significado. Naquele momento ele não causara a morte apenas de Windu, mas de si mesmo, de tudo o que fora. Semienlouquecido pelo choque, acossado pela dor ininterrupta de sentir os assassinatos de quase 10.000 Jedi por toda a galáxia, Skywalker caíra diante do Lado Sombrio, entregando tudo o que pudesse restar em troca da única coisa que ainda pensava poder preservar: a esposa e o filho.

 Eram coisas demais para processar: a mente de Ben estava a mil, e ele sequer conseguia organizar os próprios pensamentos e sentimentos. Idolatrara Vader durante boa parte de sua vida, e perceber que a verdade não era como havia pensado... Como lhe havia sido dita... Uma parte sua sempre suspeitara, mas ele a repudiara com todas as forças, crendo ser o chamado da luz a distorcer sua percepção, quando era o chamado das trevas quem realmente o fazia. A verdade que não podia mais esconder de si mesmo era: ele sempre soubera a verdade. Sabia que estava errado. Sabia estar sendo enganado, usado... Mas sua arrogância, sua impulsividade, raiva e autopiedade o haviam lançado rumo às escolhas mais sombrias. Sim, Snoke destruíra suas emoções desde o ventre materno, incutindo-lhe raiva, medo, a persistente sensação de impotência e rejeição... Mas ele, Kylo, tivera a liberdade de escolha. Fora ele quem, ao crer não possuir mais lugar para onde ir, ao se ver atacado pelo tio, optara por ir para o lado daquele que o incentivara ao ódio e à raiva por toda a vida, abraçando promessas de poder e vingança. Assim como Anakin, deixara-se cegar e submeter, dobrara os joelhos... E agora a escuridão era algo intrínseco a sua alma. Ou talvez serpe houvesse sido, e por isso o Lorde Sombrio houvesse sentido sua presença e o desejado antes mesmo de seu nascimento.

Lágrimas de dor não-física escorriam pelo rosto do Líder Supremo quando saiu para a varanda de seu quarto, mais do que nunca atormentado pela culpa. A horrível culpa que, em vez de abrandar, tornava-se mais e mais intensa enquanto imergia no Lado Sombrio. Ao mesmo tempo, sabia que não pertencia à luz... Seus impulsos mais primitivos de ódio e autodestruição o deixavam bem claro! Mas então... O que ele era?

Pela primeira vez em muito tempo, Ben Solo sentiu o peso profundo da solidão: agora não havia nem mesmo a voz escura do antigo Líder Supremo a lhe dizer o que fazer. Apenas ele. Sua consciência, as lembranças de tudo o que fizera e aprendera... Lembranças de dor, raiva, mas também de amor, felicidade... Lebranças que não tinha há muito tempo, evocadas por todo o amor com que Anakin falava da própria família, estendendo o termo a Obi-Wan, Ahsoka Tano e amigos do Templo Jedi. Mais uma lágrima escorreu, e ele se lembrou com extrema clareza da última vez em que vira a mãe, quando ainda era Padawan de Luke... Se fechasse os olhos e se concentrasse, podia mesmo sentir ainda o beijo dela em sua fronte, e ouvir o riso que dera quando ele a tirara do chão, deixando evidente a enorme disparidade de altura entre ambos. Sem que percebesse, seus lábios se contraíram num breve sorriso.

Mas pensamentos são cruéis, e outras pessoas do passado vieram a sua mente: Lando, Chewbacca – involuntariamente, ele tocou a cicatriz do tiro desferido contra ele por quem fora seu melhor amigo, na infância – e o pior de tudo... Han. Seu pai, que enxergara a morte em seus olhos e ainda assim ali permanecera, não em resignação, mas oferecendo-se para a morte, colocando-se à inteira disposição do filho como um pedido de perdão... Estivera ali para Ben no mais difícil momento, tentando compensar todos aqueles em que não o fizera, ainda que o preço fosse sua vida. E isso fora o que mais ferira o Cavaleiro: ele não matara Han Solo. Seu pai se oferecera por conta própria, e esse sacrifício não apenas fizera o homem confrontar seu passado, mas abrira uma terrível rachadura na armadura negra de ódio com a qual cercara seu coração. A rachadura que começara tudo isso...

Limpando as lágrimas com um gesto irritado, ele agarrou o próprio sabre e o arremessou furiosamente na parede, com um grito. Ia acabar dilacerado, se continuasse pensando naquilo! Mas dormir não era uma opção, de modo que vestiu a capa e deixou a Fortaleza Vermelha, seguindo para a noite profunda de Rakata Prime; havia um lugar onde poderia dar vazão a todo e qualquer sentimento, a toda a energia que lutava para se liberar ante as profundas tormentas em seu coração. Caminhou até uma das antigas ruínas de templos Sith, no centro de uma Zona Morta: nada crescia naqueles lugares, grandes anéis de cinzas, pó e carvão sobre as rochas enegrecidas pelo tempo. A Força era obscura e bruta, selvagem, e nenhuma pessoa em sã consciência iria até ali, sensitivo à Força ou não, sem um forte motivo. Ninguém, exceto ele.

Cercado por energias que tirariam o controle a qualquer um, ele se permitiu sentar e, pela primeira vez, meditar sem interrupções, deixando todos os sentimentos fluírem com intensidade, lançando-os sem repressão, independente de sua natureza. Emoções infinitamente mais caóticas e destrutivas do que a Força que fluía na terra devastada! Deixou-se apenas sentir, como um turbilhão furioso e irrefreável, enquanto a Força extravasava de si num espetáculo belo e terrível: as cinzas no chão da Zona Morta subiam em um verdadeiro tornado, as rochas rachavam no chão sob o Cavaleiro, esmagadas até se tornarem pó, e descargas elétricas enchiam o ar de estática. No centro de toda aquela tempestade, libertando-se completamente por uma vez em sua vida, Kylo Ren e Ben Solo podiam ser a mesma pessoa, unidos pelo libertador isolamento e pelas vagas das emoções que, naquela noite, não tinham de ser contidas. Ninguém se preocuparia com o que ocorria em uma Zona Morta, afinal.

Em sua tormenta, aliviado por finalmente ceder aos impulsos e sentimentos agitados em seu interior, sem nada a reprimir ou esconder, nem pessoa alguma à qual se justificar, Kylo deslizou sem perceber para uma visão; flashes de memórias que não eram suas... Viu-se usando as roupas de Jedi, e sabia não ser ele mesmo; à sua frente, uma jovem togruta de pele alaranjada, montrais brancos e azuis e tatuagens brancas pelo corpo, à qual entregava dois sabres de luz. Ahsoka Tano. O nome ecoava em sua mente, ainda que a menina diante de si quase nada lembrasse a severa Cavaleira que Ben Solo conhecera na infância. Havia em si um amor intenso por aquela moça, um feroz sentimento protetor quando ela lançou os braços ao seu redor e ele correspondeu, ouvindo-a murmurar:

- Obrigada, Anakin. – Mesmo sabendo ser uma visão, parecia muito real: o calor do abraço, as saudades que sentia ante o prolongado período de ausência, o carinho, cuidado, o olhar azul da moça... Naquele instante compreendeu: tratava-se de uma memória de seu avô. Todo aquele amor, aquela devoção fraterna recíproca entre o homem e aquela que um dia fora sua Padawan, a preocupação em relação à jovem guerreira das Guerras Clônicas... Tudo era parte do homem ao qual admirara unicamente por seu lado obscuro. Aquele que fora tão terrível no ódio, Ben podia sentir através daquela visão, fora ainda mais intenso no amor. Compartilhar aquele fragmento de vida, tão breve e rico em emoções, afetou o Lorde Sombrio ainda mais do que ler sobre tais memórias. Confortou-o, acalmou a tempestade, serenou sua mente. Mesmo depois de retornar do breve transe, as sensações o mantiveram calmo, tranquilo como não se lembrava de ter estado alguma vez. Como se a explosão tempestuosa houvesse drenado todos os seus sentimentos, até restar apenas uma profunda exaustão.

Em gestos mecânicos, automáticos mesmo, ele voltou lentamente para seus aposentos, a mente muito distante do aqui e do agora. Mal percebeu quando se acomodou em seu leito, mergulhando num sono profundo, sem sonhos ou pesadelos, ainda pensando na memória vivenciada... Tinha muitas perguntas, mas todas elas foram silenciadas pela paz absoluta e, até então, quase desconhecida ao Mestre dos Cavaleiros de Ren.

 

*

 

Brenwen mordeu os lábios até arrancar sangue... Não acreditava no que ia fazer! Odiava a si mesma pelo que decidira, mas já não conseguia mais... Que Rey, Asala e Eilenia a perdoassem, mas não podia passar o resto de sua vida com medo! Assim, esgueirou-se pelos corredores até a ala onde se situavam os aposentos dos Cavaleiros de Ren; sem chamar atenção, foi até a porta que sabia ser a do quarto de Arnut, e ergueu a mão para bater. O conflito em si quase a fez desistir: era uma traição contra suas amigas, mas... Precisava aprender.

Em silêncio, jurou a si mesma que faria aquilo apenas até conseguir superar o medo, que não se deixaria consumir... Que se tratava apenas de um aprendizado, da busca por forças que não conseguia despertar sozinha... Finalmente, agarrou o colar dado a ela pelo ex-namorado e bateu, sentindo grras geladas de medo e culpa em seu coração. Mentalmente murmurava freneticamente pedidos de perdão, como se isso pudesse de alguma forma aliviar o remorso que sentia pelo que decidira fazer.

Arnut atendeu, e provavelmente sabia que era ela, pois antes mesmo que a porta se abrisse de todo ostentava um sorriso satisfeito. Os cabelos úmidos e despentados e a camisa aberta denunciavam que acabara de sair do banho, assim como o perfume cítrico que lembrava um pouco o oceano. Não foi a primeira vez que a beleza do homem tirou as palavras da moça, especialmente quando se afastou para lhe permitir a entrada, dizendo:

- Vejo que tomou uma decisão.

Um longo silêncio se fez presente, até a jovem declarar:

- Sim. Preciso que me ensine, Arnut. Você é a única pessoa que entende.

Ele se aproximou e abraçou Brenwen pelas costas, fazendo a menina se arrepiar ao sentir o peito nu e musculoso contra suas costas, o perfume dele acelerando sua respiração e pulsação.

- Eu vou ensiná-la, Bren – sussurrou o Cavaleiro ao ouvido da Padawan – confia em mim?

- Eu devo? – a corelliana se voltou para o ex-namorado, reconhecendo a expressão de desejo em seu rosto – imagino que queira algo em troca.

- Sim, eu quero – a mão elegante deslizou pelos cachos dourados e pela pele parda do rosto bonito – mas quero que se entregue a mim por vontade própria, Brenwen, e não como parte de um acordo. Quero você, e sabe disso há anos, princesa, mas não desejo ter em meus braços uma mulher que não me deseja, de volta.

- Arnut, eu... – que droga! Mal conseguia raciocinar, as palaras se enrolavam em sua boca! O toque dele fazia suas pernas tremerem, e a proximidade a dividia entre o desejo de fugir e o de se render. Ela sabia muito bem aonde chegariam, se não saísse dali agora! Mas como? Não fora por isso que viera até ali... Não estava certo...

- Está tudo bem, não vou pressioná-la a nada – seu sorriso era tranquilizador – só o que desejo, em troca, é uma chance, Brenwen. Uma chance de conquista-la por quem sou, não por minha posição, e fazer as coisas do jeito certo, dessa vez. Uma chance de ser seu novamente, e de tê-la para mim. Aceite-me uma vez mais.

A humana fechou os olhos, sentindo as perturbadoras carícias do ex-namorado em seu rosto, pescoço e ombros... Se não estivesse usando o colar que ele lhe dera, diria estar sendo influenciada por ele, tamanha a satisfação que tais toques lhe provocavam! Tudo nela gritava para sair dali enquanto ainda tinha uma chance, para desistir daquela loucura... Mas já era tarde demais. Não havia como voltar, daquele ponto.

O toque quente desapareceu, e um gemido de frustração escapou aos lábios da adolescente; a voz do Cavaleiro soou em sua nuca, arrepiando todo o seu corpo ao toque do hálito quente:

- diga sim, Bren. Por favor.

Com um suspiro profundo, ela se voltou novamente para o homem e tocou o rosto, seus dedos longos e delicados afagando a barba curta, sentindo as feições. Foi numa lentidão exasperante que aproximou os lábios dos dele, selando-os enfim num beijo que começou lento e suave, apenas um toque das bocas, evoluindo para uma dança lasciva das línguas enquanto estreitavam um ao outro num abraço. Interrompendo o beijo por alguns segundos, ofegante, ela disse enfim as palavras que selariam seu destino, impedindo-a de se arrepender ou voltar atrás:

- Sim. Eu aceito. 


Notas Finais


E aí? Gostaram? Odiaram?
O que acharam das coisas que essa leitura incomum está causando a Kylo? E o que acharam de Brenwen, das coisas que a jovem sente? Mais alguém acha que a culpa do desmaio da Lena foi da nossa problemática Padawan? E finalmente, o que pensam do Arnut? O que acham que ele quer? Está sendo sincero? E esse final?

Obrigada de novo por todo o amor e atenção, rosas do meu jardim!
Vejo vocês dia 9, com a postagem de um capítulo bônus de Reylo (presente de níver para uma amiga)

May the Force be with you!


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