História Rock Bottom - Capítulo 29


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Personagens Personagens Originais
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Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Famí­lia, Festa, Ficção Adolescente, Romance e Novela, Shoujo (Romântico)
Avisos: Álcool, Heterossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Sexo
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Olááá, povo! Capítulo tenso e acho que bem inesperado huhauahuah boa leitura!

Capítulo 29 - Behind bars


Dezembro, 31.

Eu esperava que o Natal desse ano fosse tomado apenas por coisas boas. O dia inteiro naquele hospital, apenas com sorrisos e conversas, mas não foi bem assim que a noite terminou. Markus não parava de tentar entrar em contato comigo com ligações, mensagens e até aparições que começaram a me deixar aflita de verdade. Chase avisou na portaria que se um homem como ele aparecesse na frente do prédio, pedindo para falar comigo ou querendo subir, era para chamar a polícia imediatamente. Ele apareceu. O porteiro ameaçou realmente chamar a polícia e Markus foi embora antes que as coisas ficassem piores para o seu lado. No entanto, as mensagens e ligações continuavam. E não era só comigo. Tessa, Mackenzie e eu estamos em uma cafeteria, buscando nos desviarmos do frio intenso lá fora e Tess me disse que ele também não para de mandar mensagens a ela. Não apenas isso, mas também ameaças. Ameaças caso ela não aceite conversar com ele, pessoalmente. Não sei o que esse cara espera, além de ser preso se continuar agindo dessa maneira obsessiva.

Eu apenas estou tentando focar que hoje terá a festa de virada do ano, com todas as pessoas que recebi de presente esse ano. A festa acontecerá no clube que estávamos reformando algumas semanas antes e que os meninos acabaram terminando sozinhos, por mais que algumas das vezes nós ainda íamos para ajudar. Ficou tudo muito estranho depois. Eu fui expulsa da equipe das animadoras e eu estava fazendo aquilo justamente para elas, então por que eu continuaria insistindo naquilo? Elas que encontrem outro lugar para fazerem suas falsas festas beneficentes.

— Mudando de assunto, por favor. Conta pra gente, Alicia. — Tessa abre um sorriso malicioso. — Vai sair com o bonitão do Evan hoje antes de ir para a festa, não vai?

— Chase deve estar morrendo de ciúmes. — Mackenzie diz, rindo.

— Ciúmes? Ele vai sair com uma garota da nossa escola hoje também. Super gente boa ela. — respondo, sorrindo.

— Se faz de boba. — Mack revira os olhos.

— Cara, vocês precisam parar com isso. Sério. Amigos. A-m-i-g-o-s. — digo, falando sério. — Se sentíssemos alguma coisa, por que negaríamos? Nem faz sentido. Eu não faço parte desse tipo. Eu falo. Como já disse o quanto ele é importante para mim.

— Tudo bem, Louise, você é desse tipo que conta. Mas e o Chase? Você vive falando para o cara que quer curtir sua fase de solteira, que espaço você dá para ele te contar? — Mackenzie diz.

— Mack, Chase me diria. E eu perceberia. O cuidado que ele tem comigo, é o mesmo cuidado que ele teve com a Tess...

— Espera aí! — Tessa me interrompe. — Não. Não é o mesmo cuidado. Quero dizer, ele cuidou de mim, mas é diferente.

— Por que vocês sempre voltam nesse assunto? Está ficando meio repetitivo. E chato. — cruzo os braços, encostando na cadeira. — Se acham que ele sente algo, perguntem para ele e não fiquem enchendo o meu saco sobre.

— Sincerona. Muito bom. — Mackenzie ri, batendo uma palma. — Estamos fazendo para te provocar. Agora chega.

— Ótimo!

— Bom, eu preciso ir. — Tessa levanta de sua cadeira. — Marquei de fazer as unhas e estou em  atrasada. Vejo vocês a noite. — ela manda dois beijos.

— Tchau! — Mack e eu acenamos.

Tessa deixa o dinheiro da sua parte em cima da mesa e vai em direção a saída da cafeteria. Por mais que os pais dela ainda não tenham retornado nenhuma de suas ligações em uma atitude completamente imatura, Tessa parece bem. Ela ainda está ficando na casa da Mack, mas sabemos exatamente quais são os momentos em que ela não se sente bem e saudade de casa. E dos pais.

— Vamos também? — pergunto, após terminar de tomar o chocolate quente. — Quero passar a tarde inteira deitada embaixo do cobertor, assistindo Netflix.

— Mesma programação que terei. — Mack ri, levantando também.

Após passarmos pelo caixa, saímos da cafeteria. Mackenzie e eu estamos rindo por algum motivo, mas estranho quando ela para de rir, de repente. Olho para onde ela está olhando e recuo três passos ao ver que Markus está parado a alguns metros de mim. Olheiras profundas, pálido, cabelo recém molhado, provavelmente pela chuva. Ele parece... sujo.

— Markus... o que aconteceu com você? — pergunto, com o cenho franzido. — Há quantos dias você não dorme? E o que está fazendo aqui?

— Eu segui você. O tempo todo. Quem você conhece em Hollywood?

— Se você não parar com isso, eu vou ter que fazer algo. — aviso-o, tentando esconder que estou assustada. — Pare de mandar mensagens para Tessa, com ameaças. E pare de me perseguir. Vou te denunciar, Markus.

— Eu só quero que você me dê uma chance, Alicia... — ele se aproxima e eu o empurro quando ele tenta me agarrar.

— Você deveria procurar um psiquiatra! — Mackenzie diz, tão nervosa quanto eu. — Fique longe delas! É o último aviso, Markus. Se eu te ver rodeando alguma delas ou mandando mensagens mais uma vez, você vai para a cadeia.

E ela me puxa para longe, até onde os nossos carros estão estacionados.

— Estou começando a ficar assustada de verdade, Mack. — digo. — Ele... ele está me seguindo! Me seguindo até quando vou ver minha irmã! Eu fui ontem até o apartamento dos meus pais...

— Ele não vai ter coragem de fazer nada. Sabe que o pai dele o mataria.

— Será mesmo?

***

Termino de me arrumar para o encontro com Evan um pouco antes das oito. Chase ainda está deitado no sofá, sem camisa, jogando vídeo game e comendo um pacote de doritos. Nem parece que está prestes a sair com a Zara ou sair, no geral. Termino de arrumar meu cabelo e, após calçar um sapato, vou até a sala para ver o que ele achou da minha roupa. Está frio demais para ir de vestido, então escolhi uma calça preta de couro. Bem mais confortável e quente.

— E aí? Como eu estou? — pergunto, dando uma leve rodada, fazendo Chase olhar para mim.

— Calça. Que ótimo. Mais difícil de ele tirar. — diz, com um sorrisinho. Solto uma risada, virando-me para ele com os olhos estreitados. — Brincadeira. Tá linda.

— Obrigada. E você ainda está todo cagado. Vai lá tomar banho! Que horas você vai sair?

— Oito. Fico pronto em vinte minutos, princesa. Relaxa.

Meu celular vibra no bolso e vejo uma mensagem de Evan, dizendo que está me esperando na portaria. Respondo um "estou indo" e vou pegar minha bolsa no quarto. 

— Estou indo. A gente se encontra na festa. — mando um beijo de longe e ele responde um "beleza", ainda olhando para a televisão.

Assim que o elevador se abre no térreo, encontro Evan sentado em um dos sofás. Está em uma conversa com o porteiro e é ele quem avisa que eu desci. Cumprimento os dois, sorrindo, então Evan nos conduz até o estacionamento para irmos em seu carro. Para ser honesta, eu nunca tive um encontro assim. Quero dizer, já sai com um garoto que conheci no Tinder, mas eu não estava nem um pouco interessada em criar alguma coisa com ele — principalmente depois de descobrir que ele, na verdade, estava mentindo sobre várias coisas. E não quero nada sério com Evan também, mas eu também não estava nada tensa se o assunto faltasse, por exemplo. Estava tranquila demais. Ou talvez não ligando tanto quanto deveria.

— Onde a gente vai? — pergunto, após um tempo no carro.

— Em um restaurante em Downtown. — diz, olhando-me por alguns segundos. Franzo a testa. Por que tão longe? — Demorei um pouco para conseguir a reserva, mas...

— Se é difícil de fazer reserva, ainda mais no centro, é porque o preço é alto. — digo, entendendo o motivo de ele ter escolhido o restaurante que escolheu. — Você acha que eu ligo para essas coisas?

— Não, eu só... sei lá, você deve estar acostumada com isso.

— Eu não me importo com essas coisas, Evan. — digo, um pouco ofendida. Isso quer dizer que ele pensa apenas isso de mim? — Se você tivesse me conhecido antes e achasse isso, tudo bem para mim. Eu realmente era assim. Mas agora?

— Desculpa, eu não queria te ofender. Só que sua família toda é rica e...

— Cancele a reserva. — o interrompo, ofendida sim.

— Alicia... eu quero sair com você.

— Nós vamos sair. Só não vamos para o outro lado de Los Angeles à toa. — respondo. — Você gosta de comida japonesa?

— Gosto.

— Então pronto. Tem um restaurante japonês muito bom aqui perto. — digo. De soslaio, vejo que ele está me olhando com um tipo de sorriso. — Para de ficar sorrindo pra mim. Não é como se você não esperasse isso.

— Não esperava. Tem como esperar algo de você e não se surpreender? Você é surpreendente, por natureza. O que eu posso fazer?

— Não esperar nada de mim?

— Se eu conseguisse parar com os meus pré-julgamentos.

— Consegui parar com isso. Eu acho. — dou de ombros. — A sua família é daqui, Evan?

— Não. Nasci em Oakland. Foi difícil convencê-los a me deixar vir para cá.

— Pelo menos é no mesmo estado. — digo e ele assente. — E você não tem irmãos mais novos, não é? Você não sabe lidar muito bem com as perguntas da minha irmã cada vez que ela vem até o apartamento e você está. Tipo antes de ontem.

— É, não tenho. — ele dá uma risada. — Uma irmã mais velha só.

— Entendi.

Conversamos sobre outras coisas que envolviam a vida dele e fico aliviada por ele não fazer perguntas demais sobre mim. No restaurante, no entanto, ele pareceu bem interessado em saber o motivo de eu estar ficando no apartamento do Chase e apenas a minha irmã mais nova vir me visitar. Contei a ele que tive uma briga com os meus pais, mas não dei detalhe algum. Não quero falar sobre a minha vida de alguns meses atrás, onde continha Dylan, Callie, Paige e pessoas que escondiam coisas de mim. Quando eu estou com Chase ou nossos amigos — agora sei que posso chama-los assim —, eu consigo ficar horas e até dias sem pensar em como tudo está diferente. Ou sobre como as pessoas não conseguem esquecer o maldito vídeo.

E Evan citou o maldito vídeo.

— Por favor, não quero falar sobre isso. — digo, antes que ele volte a falar sobre.

— Eu só queria saber se ainda estão...

— Sim, ainda estão. — respondo, curta e grossa. — E não vão parar. Sempre alguém vai lembrar e vai voltar com comentários e ofensas. Pessoalmente ou em redes sociais.

Checo o horário. 22h46.

Quero ir para a festa.

— Podemos ir?

— Desculpa, eu não queria...

— Você está se desculpando demais hoje. Tem medo de mim, Evan? — levanto uma das sobrancelhas. — Sou inofensiva.

— Inofensiva? Suas cortadas são nocivas, Alicia. — diz, com uma expressão divertida.

— Eu nem fiz isso! E se fiz, foi sem querer. — digo, imitando sua expressão cômica. — Mas me diz. Aonde você vai passar a virada? — pergunto.

— Com alguns amigos.

Se ele dissesse que ia passar sozinho, eu o convidaria para vir comigo. Como ele não vai ficar sozinho...

Evan insistiu em pagar tudo e, por mais que eu tenha passado um tempo dizendo para a gente dividir, parei de tentar. Deixei-o pagar então. Não sei muito bem o que achei. Acho que realmente não estou disposta a conhecer alguém e ter alguma coisa, pois a minha vontade de fugir disso era enorme. Até o momento em que ele me beijou, é claro. Quero dizer, o encontro não foi ruim e nós conversamos sobre tudo, mas sabe quando simplesmente parece que não é para ser? Os amassos, no entanto, se prolongaram até o momento em que ele parou o carro na frente do prédio do Chase. O deixo tirar a minha jaqueta, mas no instante em que levanto sua camiseta, meu celular começa a tocar.

— Oi, Mack. — atendo, sentando direito no banco de trás.

— Alicia! Graças a Deus! O Markus está aqui! Tessa está tentando falar com ele, mas eu não encontrei nenhum dos meninos! E ele estava perguntando onde você estava. Acho que ele está drogado...

— Ah, merda! Estou indo! — digo, finalizando a ligação. — Evan, pode me deixar em um clube? Já te mostro o endereço.

— Claro que sim. O que aconteceu?

— Só... só dirige, por favor. Rápido. Depois eu te explico.

Vejo as inúmeras mensagens que Mackenzie e Tessa me mandaram, me sentindo culpada por não ter visto antes. Que merda! E se ele estiver mesmo drogado? O cara é um perseguidor obsessivo! Deve estar transtornado de uma maneira que nós nunca vimos. Por mais que eu não pudesse fazer nada quando chegar lá, eu preciso ver o que está acontecendo e estar no controle da situação para não me surpreender.

O estacionamento do clube está lotado e nós entramos pela porta dos fundos. Digo a Evan que pode ir embora depois de agradecer, mas ele começa a vir atrás de mim no instante em que começo a correr.

— Brian! Cadê a Mack e a Tessa? — pergunto assim que esbarro com Brian.

— Faz tempo que não vejo elas. A última vez foi ali perto da entrada. 

Corro até a entrada, encontrando Tessa tentando conversar com ele. Acalmá-lo. Ele está com aparência ainda pior do que mais cedo e seus olhos vermelhos se arregalaram quando ele me vê.

— Você apareceu! Vem até aqui, Alicia.

— Alicia... — Mack tenta me impedir, mas solto meu braço.

— Só chame a polícia se ele tentar fazer algo, tá legal?

Ninguém na festa parecia estar ciente do que está acontecendo, nem mesmo pessoas que conhecemos. O segurança estava preocupado em lidar com um penetra que tentava entrar e esse penetra não era o Markus. Estavam vendo-o como um inofensivo, por mais que eu estivesse nervosa apenas por vê-lo ali.

— Você quer conversar, Markus? — pergunto.

— Não quero conversar. Quero vocês duas comigo. Agora. — ele aponta para o seu carro.

— Não vai acontecer. — Tessa diz, aumentando a voz.

Arregalo os olhos ao avistar um revólver em cima do banco passageiro. Tessa percebe que estou assustada e franze a testa, sem entender. Não faço sinal nenhum, com medo de que ele perceba, mas ela encontra a arma por si mesma.

— Tudo bem, vamos conversar. — Tessa se vira, para que Markus fique de costas para mim. Preciso usar o meu celular e, por mais que eu não consiga dizer o endereço, eles saberão rastrear. — Eu perdi o meu bebê por sua casa, Markus. O que te...

911, discando...

Abaixo o celular ao notar que Markus ia se virar. — Deixa a gente em paz, Markus. Sério. O que você espera vindo até o Diamond's Choir?— espero que o homem do outro lado da linha tenha compreendido. 

— Vocês virão comigo, caralho! Entrem no carro!

— Você está armado...

Ele se vira para o carro e eu respondo o nome do clube, ouvindo um "uma viatura está a caminho". Antes que eu pensasse em até jogar o celular no chão, Markus se vira com a arma em suas mãos.

— Você estava com o celular?! Você estava com a porra do celular?!

— Não!

— Entrem no carro. Entrem no carro agora, caralho!

— Você não teria coragem de fazer nada.

— Será?

Vejo que Brian, Landon e Isaac tentam vir em nossa direção com a Mackenzie, mas eu balanço a cabeça. Eu não duvido que ele tenha coragem! Se eles tentarem dar uma de espertos, Tessa ou estaremos mortas! De repente, sou jogada no chão e Markus empurra Tessa para dentro do carro.

— Não! Markus! — tento levantar o mais rápido, mas ele se vai.

Com Tessa.

O desespero me invade no instante em que o carro arranca. Não demorou para que pessoas saíssem do local para verem o que estava acontecendo e um alívio percorreu pelo meu corpo quando vi Chase, mas ao mesmo tempo tive vontade de desabar. Ele está com os olhos levemente arregalados, provavelmente sem entender nada por ter acabado de chegar. Ao mesmo tempo que ele vem em minha direção, corro na sua. Seu olhar de preocupação me deixou ainda mais aflita; desabo a chorar quando ele segura meus braços, querendo entender o que estava acontecendo.

— Eu... eu tentei conversar. — digo, chorando. Minhas mãos tremem, assim como meus lábios. — Eu tentei levantar, eu juro que tentei! Eu... — cubro o rosto com as mãos.

— O que ele estava dizendo? — ele se afasta, segurando meu rosto com ambas as mãos. — Ele é doente, Alicia.

— E se ele... ele está armado! Ele vai... — gaguejo, sem conseguir terminar uma frase.

— Armado? — ele me interrompe. — A polícia foi acionada. Você viu quem chamou?

— Fui eu quem chamei. Ou talvez Mack tenha feito antes. — digo. — Não... por que ele não tentou me levar também? Ele me jogou no chão e... — respiro fundo, tentando controlar o choro. Minha cabeça latejava.

Os policiais chegaram e vi Mackenzie abraçada ao Brian, chorando também. Desespero. O que ele faria com ela?

— Eu ouvi o policial chamando mais viaturas pelo rádio. — Brian diz, aproximando-se. Mackenzie e eu nos apoiamos uma na outra, em um abraço. — Ele está indo para fora de cidade. Pegando a estrada para San Diego.

— Chase, vamos. — digo, me virando para ele. — Vamos até lá!

— Não podemos atrapalhar uma operação policial, Alicia.

— Ou podemos ajudar. Vamos, por favor. Eu conheço um atalho para San Diego, que a rua não é asfaltada.

— Tudo bem.

— Eu também vou.

Mackenzie fica com os meninos e Brian, Chase e eu entramos no carro do Brian. Minhas mãos não paravam de tremer, mas eu precisava ficar calma. Se eu começar a entrar em pânico ao encontrarmos, provavelmente vou estragar tudo. Não posso estragar tudo. A estrada que passávamos ao ir para San Diego estava vazia quando chegamos, exceto por uma viatura parada perto da placa.

— O que vocês estão fazendo parados aqui?! — pergunto, indignada.

— Duas viaturas seguiram.

— Tem uma estrada de barro ali. Um dos caminhos que não dá para lugar nenhum, mas é longo. — digo. Como eles não sabem disso?!

— Fiquem aqui.

Nós não ficamos. Seguimos a viatura com os dois policiais e ambos os faróis estavam desligados, exceto pela luz que vinha da pista principal. Vi o policial pedindo reforços, antes mesmo de vermos o carro de Markus parado no caminho sem saída. Todas as portas estão abertas e os policiais saem do carro, preparados para atirar ou tentar conversar. Markus, ao notar que tem companhia, tira Tessa do carro e aponta a arma para os policiais, enquanto a segura firme.

Abro a porta do carro discretamente e me agacho para sair, sem fechá-la para não causar nenhum barulho. Tessa me vê no instante em que outra viatura chega, com o farol ligado. Maldito farol aceso! Tento voltar para o carro, mas sinto um braço enganchando-se em meu pescoço.

— Ei, ei! — um dos policiais diz, calmamente. — Você sabe que terão consequências se você fizer isso, Markus. O que você quer para soltá-las?

— Eu não quero nada além delas. Tessa foi minha namorada por muito tempo e nunca ousou retrucar, até conhecer essa aqui. — ele me aperta com seu braço livre. Troco olhares com Tessa, que parece apavorada. — Eu sabia que você não conseguiria se segurar, Alicia. — ele sussurra no meu ouvido. Afasto a cabeça, sentindo nojo. — Eu sabia que você viria atrás. Vou deixar Tessa ir, mas você vem comigo. E eu não vou fazer negociação nenhuma.

— Deixe a arma no chão, rapaz. Para o seu próprio bem.

— Ah, meu amigo, se ela não for comigo, ela também não vai com vocês. — ele toca o cano da arma em minha têmpora e eu fecho os olhos com força. — Isso é perda de tempo. Ou ela vai comigo ou ambas estão mortas. Vocês escolhem.

— Eu vou, Markus. Só deixa mesmo a Tessa aqui. — consigo dizer algo. Todos me olham assustados e quando Chase tenta se aproximar, Markus aponta a arma em sua direção. — Não! Chase, fica parado, merda! Ele não vai sair da onde está, Markus. Aponta para mim, tá legal?

O silêncio, por alguns segundos, foi ensurdecedor. Os policiais tentam convencê-lo a nos deixar ir, mas ele não quer dinheiro. Ele não quer nada. Meu olhar se encontra com o do Chase e ele faz um sinal para que eu continue falando. Assinto discretamente e levanto olhar para o Markus.

— Você quer fugir comigo. E aí? Não vamos poder fugir para sempre, Markus. Você deveria saber disso.

— Eu não me importo de ficar fugindo com você até que consigam me pegar.

Seu braço ficou solto o suficiente para que eu pudesse escapar. Alguém tinha o acertado. Um dos policiais usaram a arma para dar uma coronhada. A arma de Markus cai no chão e eu não hesito em tentar pegá-la ao notar que ele está consciente, mas ele foi muito mais ágil do que eu poderia prever. Markus empurra Tessa contra o carro e me segura mais forte, com a arma ainda tocando a minha têmpora.

— Se qualquer um de vocês se aproximarem eu atiro. — ele avisa ao ver que os policiais tentaram se aproximar. — Soltei a Tessa. Vem comigo.

— Larga a arma, então. Eu não vou entrar com você até ter certeza que não vai atirar em ninguém.

Markus me segura mais forte e nos leva em direção ao seu carro. Me joga no banco de trás e após bater a porta, sai correndo até o lado do motorista, ainda com a arma apontada para Tessa. Ele joga a arma no gramado e dá partida no carro, sem notar que a minha porta estava aberta e que eu estou preparada para pular. E pulei. Ele continua acelerando para dar a volta, mas ao olhar por cima do ombro, vê que eu não estou mais onde ele deixou. Ele dá ré rápido o suficiente para uma das rodas passar por cima da minha perna e me preparo para a dor da segunda roda, mas ele para antes que isso aconteça. Os dois policiais o rendem antes que ele fizesse qualquer outra coisa e Chase vem correndo até mim, levando as mãos em meu rosto. 

— Porra, Alicia. — diz em meio a suspiro aliviado. Noto que suas mãos estão tremendo também.

— Eu estou bem. Só está doendo um pouco. — digo, baixinho. Me separo do abraço e ele olha para o meu rosto, parecendo querer se certificar de que nada aconteceu.

Nada aconteceu.

— Um dos policiais chamou uma ambulância. O braço da Tessa está sangrando. Parece que ele a machucou antes da gente chegar. 

Olho em direção à Tessa, que conversava com um dos policiais. Agressão física já estava acontecendo há muito tempo e não tinha como ser comprovado. Ouvimos a sirene da ambulância e não demorou muito para que alguns paramédicos viessem verificar Tessa, que está muito mais abalada do que eu ou do que qualquer outra pessoa.

— Ei! Ela também se machucou. — Chase aponta para mim, tentando me ajudar a levantar.

— Eu estou bem. — reclamo quando ele tenta me pegar no colo.

— Vai que você quebrou algum osso e nem está sentindo por causa da adrenalina.

— Tudo bem. Me leve. — abro os braços e ele coloca um dos braços sob meus joelhos e o outro sob minha cintura.

A parte traseira da ambulância está aberta e me sento ali para esperar os paramédicos analisarem a Tessa. Como meu corpo tremia de frio e talvez de nervosismo, Chase colocou sua jaqueta de couro sobre os meus ombros antes de tirar meu cabelo do rosto. Encosto a cabeça na lataria da ambulância e sorrio sem descolar os lábios ao notar que ele ainda está muito preocupado.

— Eu estou bem, Chase. Prometo. — seguro sua mão. — Minha perna está doendo muito mais agora, mas já passou.

— Não passou, Alicia. — ele balança a cabeça. — Você... ele estava apontando a porra de uma arma para sua cabeça! Se ele fizesse um movimento... um movimento, eu nunca mais...

— Para... — o interrompo, espalmando ambas as mãos em seu rosto.

Penso em dizer alguma coisa, mas vejo seus olhos perdidos nos meus. Um lampejo de dúvida passa pela minha mente. 

— Você nunca mais o que, Chase?

Ele se encaixa entre as minhas pernas, aproximando-se e sinto sua bochecha roçando a minha. Sua barba toca a minha pele e a sensação de existir aparece novamente, como sempre acontece quando estou perto dele. Ao abrir os olhos, vejo os dele atentos em mim. Como um ímã, sinto nossos lábios se atraindo sem que eu me desse conta do que estamos fazendo. O que estamos fazendo? Sinto meu coração descompassado, assim como os meus pensamentos ao me dar conta da sensação que tenho no estômago. Então, ele me beija. Não me lembro a última vez que nos beijamos sem o intuito de acabar em sua cama depois, mas essa é uma das vezes. Pior. É a primeira vez que faltaram palavras para algum momento que passamos e que o nosso único impulso foi esse. Nos tocarmos.

Um pigarreio nos interrompe e Chase se afasta, dando espaço para um dos paramédicos pegar algo dentro da ambulância. Ambos olhamos para Markus sendo colocado dentro da viatura algemado e o suspiro de alívio que escapou entre meus lábios foi inevitável. Aquele homem estava sendo um furacão na vida da Tessa há tanto tempo e todos que a cercavam, acabavam sendo afetados pelo furacão também. O mesmo paramédico se aproxima de mim e após fazer algumas perguntas sobre o aconteceu, fez um comentário ao outro paramédico sobre uma possível luxação na minha perna. Ele a esticou e a cada toque ou aperto perguntou se estava machucando; todas as minhas respostas foram sim. Ele pede para que eu entre na ambulância e deite em uma das macas com a ajuda do "rapaz ao meu lado", então Chase me ajuda a deitar na maca. Tessa entra por conta própria alguns segundos depois, dizendo que não está sentindo dor e que ir ao hospital seria uma perda de tempo.

— Você precisa ir no hospital para ser examinada direito, Tess. Deita aqui do meu lado.

Ela deita na maca ao lado e se aproxima de mim, deitando a cabeça em meu peito. Ela volta a chorar quando a abraço de volta e fica alto o suficiente para chamar a atenção de quem está esperando. Seu corpo não para de tremer, mesmo com minhas mãos em seu braço para tentar acalma-la... nada adianta. Após essa noite, ela precisa ir para casa, pegar no sono e esvaziar sua mente de tudo que havia acontecido. Markus não apontou a arma apenas para mim e, por mais que eu esteja tentando manter a calma e deixar o medo de lado por ela, ainda estou aterrorizada.

— Obrigada, Alicia. — ela diz após respirar fundo e levantar o olhar. Limpo suas lágrimas e sorrio sem descolar os lábios. — O que você fez foi... você iria mesmo com ele?

— Ele estava mesmo disposto a fazer algo, Tess. Comigo ou com você.

— Mas eu sou a culpada. Fui eu quem deixei ele entrar na minha vida e simplesmente não conseguia tirá-lo.

— A culpa nunca será sua. Como você iria adivinhar isso? Além de que... ele ficou obcecado por mim também.

Os paramédicos entram na ambulância e Chase entra logo depois, fazendo um sinal para Brian. Um dos policiais também nos acompanha para pedir nossas identidades e fazer algumas perguntas, mas a única identidade que eu tinha ali no momento era a que meu nome era Alison Cheats e minha idade era vinte e dois. Depois que fossemos examinadas corretamente no hospital, precisaríamos ir à delegacia para prestar depoimento contra Markus. A minha passada na emergência foi um pouco mais demorada do que a da Tessa. O Dr. Knust analisou a minha perna machucada, fez um raio x e teríamos que esperar alguns minutos até que ficasse pronto. Me deram um analgésico para dor e uma água com açúcar para Tessa, que não parava de tremer. Fizeram dois curativos onde ela havia se machucado em algum momento que ele a empurrou, mas ela não precisou fazer nenhum raio x.

— Você não precisa fingir que está bem para mantê-la calma, princesa. — Chase diz perto do meu ouvido, enquanto está com um dos braços em volta dos meus ombros.

— Eu não... se eu me desesperar e pensar no que aconteceu, não vou conseguir voltar ao normal tão cedo.

— Já passou, patricinha. Você está bem. — ele segura minhas mãos ao notar que elas estão tremendo.

— Seus pais estão vindo para cá, Tessa, mas não encontrei o nome dos seus pais... Alison? — o policial franze as sobrancelhas em minha direção. — Tem algo para contar?

— Preciso mesmo dizer? — dou de ombros. — E eu sei que só posso prestar depoimento com a presença do meu responsável legal, mas... precisa ser os meus pais?

— Você está encrencada, garota?

— Não. Eu só não quero preocupa-los. Os pais da minha amiga podem...

— Tudo bem, mas eu vou confiscar isso. — ele mostra minha identidade falsa e eu assinto, esperando por aquilo.

— Ainda não está falando com os seus pais? — Tessa questiona.

— Os seus te aceitaram de volta? — Chase pergunta, olhando para Tessa.

— Não. Até duvido que eles venham até aqui.

Me sinto mal por ela. As nossas situações são completamente diferentes, pois enquanto meus pais queriam se certificar de que eu estivesse bem, os dela tiveram coragem de deixá-la sem teto durante dias. E por mais que eles tivessem feito isso, Tessa se sentia culpada por tudo o que aconteceu e queria fazer as pazes acima de tudo. Ela perdeu o bebê, se separou de Markus e, ainda assim, os pais dela são orgulhosos o suficiente para não pedirem perdão. E sinto meu coração parar no estômago quando seus pais entram na recepção, aflitos, e vão correndo abraçá-la. Tudo foi deixado de lado naquele instante, levando em consideração o perrengue que ela havia acabado de passar. Tessa e sua mãe estão chorando, enquanto seu pai não para de passar a mão por seus cabelos, certamente para se certificar de ela estava mesmo ali. A vontade de chorar me atinge em cheio. Ainda não perdoei os meus pais ou qualquer pessoa da minha família que me deixou ser enganada durante meses, mas naquele momento eu senti falta de afeto familiar.

— O que foi? Porra, tá doendo alguma coisa? — Chase senta mais perto ao me ver prestes a chorar.

— Eu sinto falta dos meus pais. Sinto falta da minha família.

— Aposto que eles se sentem da mesma forma. Por que não conta onde você está?

— Quero chegar em casa. Ligo quando estiver saindo da delegacia.

— Tudo bem.

O resultado do raio x mostrou que eu não quebrei nada, obviamente. Sentiria dores insuportáveis se tivesse quebrado algum dos ossos; lembro exatamente da dor que senti quando quebrei o braço no dia da competição. No entanto, ocorreu uma luxação e terei que usar uma tala na coxa, total imobilização. Sem fazer esforço, sem andar de carro, passar as pomadas indicadas e tomar os anti-flamatórios receitados. 

Após algumas conversas a mais com o doutor, fomos liberadas para a delegacia. Os pais de Tessa me abraçaram e agradeceram depois que ela contou o que aconteceu e, mesmo que aquilo fosse o mais próximo de qualquer afeto familiar que tive nas últimas semanas, ainda não eram os meus pais. Não conseguia parar de pensar nisso durante o caminho para a delegacia.

— Nós não vamos precisar vê-lo. Certo? — Tessa pergunta para o policial.

— Não. Ele será interrogado novamente depois de seus depoimentos. Passará a semana na cadeira, provavelmente.

— Provavelmente? Vocês ainda estão pensando em deixá-lo solto. Sério? Ver o que viram, ainda precisam arriscar deixá-lo sem algemas na delegacia? Liberá-lo após o pagamento de uma fiança? — não consigo ficar quieta.

— Direitos humanos, garota. São as leis.

— Bom, as leis são um lixo. E o sistema policial também. — não tive tempo de calar a própria boca. Tarde demais. — Sabe quanto tempo uma viatura demorou para chegar depois da minha ligação? Não conseguiram nem segui-lo! E se eu não soubesse daquele caminho, vocês provavelmente nem teriam encontrado!

— Alicia, cala a boca. — Chase sussurra entre dentes.

— Toma cuidado. Você deve saber que pode ser presa por desacato.

— Ah. E vocês teriam coragem de me colocar dentro de uma cela depois do que eu passei hoje?

— Alicia, cala a boca. Puta merda, você quer passar a noite na cadeia?

— Você tem sorte por eu ser paciente e ter presenciado o que aconteceu mais cedo. Sei que está com a cabeça quente e revoltada, uma arma foi apontada na sua cabeça, mas tudo tem que acontecer em seu tempo e de acordo com as leis. — o policial disse, por fim. — E, se quer ficar brava com alguém, fique brava com o homem que foi preso.

— Eu estou! E vocês ainda pensam em soltá-lo daqui alguns dias por causa do papai rico e influente dele!

— Alicia... — Chase balança a cabeça para mim e eu suspiro, sabendo que devo ficar quieta.

Ao chegarmos na delegacia, fico surpresa ao ver que tem jornalistas e paparazzis. Que merda é essa? Tudo bem, eu sabia que alguns me seguiam por pensarem que eu geraria boas notícias, mas isso não é brincadeira! Os dois policiais que vieram com a gente dizem que não é para respondermos nenhuma pergunta, então nós passamos. As perguntas eram direcionadas a mim e a cada momento que eu piscava, um flash me deixava tonta.

"Desde quando a filha prodígio está em um relacionamento com um viciado?"

"Eu pensei que não poderia piorar depois daquele vídeo, mas você está surpreendendo!"

"Onde está a mamãe para te tirar dessa, princesinha?"

"O que acabou de acontecer? Estava procurando uma saída pelos problemas e encontrou no lugar errado?"

— Não responde nada, Alicia. — Tessa sussurra, sabendo como eu sou. — Eles não sabem o que aconteceu.

Não quero responder.

Fecho os olhos, me deixando ser guiada pelos policiais que diziam para todos se afastarem e ao entrarmos na delegacia, o barulho cessa. Solto um suspiro, passando as mãos pelo cabelo e me perguntando como as notícias correm tão rápido. Eles devem ter visto quando Markus chegou, fazendo perguntas e não duvido que ele tenha dito algo que não deveria.

Tessa deu seu depoimento primeiro e demorou mais do que eu esperava. Deve ter seguido meu conselho de contar tudo o que ele já havia feito a ela, claramente um relacionamento abusivo onde as agressões não eram apenas físicas, mas também psicológicas. Tessa se livrará de um fardo com a prisão de Markus, isso era um fato. Quando terminei o meu depoimento, me fizeram perguntas sobre o relacionamento dos dois. E elas eram respeitáveis, até o momento que pareciam dar a entender de que a culpada poderia ser a Tessa.

— Você está querendo tirar com a minha cara. Certo? Ela se enfiou em um relacionamento onde não tinha saída. Tessa não é a culpada, ela é a vítima de um machista doente e com sérios problemas psicológicos. Não importa se ela já levantou a voz para ele, se ele já teve coragem de levantar a mão.

— Isso faz parte do meu trabalho, Alicia. Sei que a culpa nunca é da vítima, mas eu preciso fazer todas as perguntas. — pelo menos era o policial que dirigia a viatura antes. Ele deve entender a minha indignação.

— Não, policial, Tessa nunca "traiu" Markus. Ela não queria mais namorar com ele há muito tempo, mas ele a ameaçava e mesmo se ela quisesse sair com outro, sabia que não podia para seu próprio bem e para o bem do garoto. Ele acabaria com ela e com o garoto se visse algo assim. Ela dizia que queria terminar e ele a manipulava, dizendo que a amava e que aquele era o jeito dele, mas que ele prometeria melhorar. Ele fazia um agrado e ela achava a melhor coisa do mundo. Nós dizíamos para ela terminar e ela dizia que foi um deslize, que ele nunca mais levantaria a mão para ela.

— Respondeu a maioria das minhas perguntas.

— Quais faltam?

— Qual era a sua relação com Markus?

— Como assim qual era a minha relação? Não tinha relação nenhuma.

— Ele parecia bem obcecado por você.

— Como eu já disse, Markus é um cara doente. Como Tessa estava apaixonada inicialmente, até o momento em que não sabia como sair daquilo, ela aceitava tudo o que ela dizia. Todos os amigos dela não faziam ideia, acreditavam em sua desculpa de "ah, escorreguei no banheiro". Eu nunca acreditei. Tessa estava grávida e eu fui com ela quando ela quis contar a ele. Sempre deixei claro que sabia o que ele fazia com ela. Ele a empurrou nesse dia e ela acabou desmaiando, perdendo o bebê. Eu fiquei mais tempo no apartamento, só querendo entender e tentando fazer com que ele não fizesse mais. Faz parte da minha personalidade, não consegui me segurar. E a partir daí ele começou a me mandar mensagens, me ligar, aparecer onde eu estou morando e me seguir. 

— Te seguir?

— Sim. Ele me seguia. 

— E você já deixou ele se aproximar de você de outra maneira?

— Ah, com certeza. Pensei "ah, qual o problema de ele ser o namorado maluco, descontrolado e machista da minha amiga?" — ironizo e encaro o policial com incredulidade. — Claro que eu não deixei! Que tipo de pergunta foi essa?!

— Você consegue responder as perguntas sem sarcasmo? Aquelas foram as duas respostas mais completas que você conseguiu dar.

— Você faz perguntas tão óbvias.

— Eu só quero entender o que aconteceu. Você contou a Tessa?

— Sim. E ela queria se livrar dele, mas tinha medo. Continuava com ele para sua própria segurança e das pessoas ao seu redor. Ele passou a querer nós duas com ele.

— Ele já bateu em você também?

— Não. Tessa costumava abaixar a cabeça e aquilo o deixava... o deixava se sentir mais do que ele era. Pensava que podia bater nela. — respondo. — Em todas as vezes que o enfrentei por causa da Tessa, ele tentava alguma coisa.

— E ele nunca mesmo ameaçou bater em você também?

— Isso importa? O foco é ele e a Tessa. Eu nunca abaixaria a cabeça para um homem e se ele me batesse, eu estaria preparada para revidar e fugir. Tessa não tinha coragem. E ele não parava de levantar a mão para ela, mesmo que ela tivesse começado a enfrentá-lo. Tudo só piorou e...

— Tudo bem. Está bom para hoje. — ele me interrompe. — Você está nervosa e já temos o suficiente. Você e a sua amiga precisam ir para a casa descansar e digerir o que aconteceu.

— Posso ir mesmo?

Ele assente, levantando-se.

— Ei. — me viro para o policial novamente. — Só promete que ele não vai mais chegar perto da minha amiga. Ou de mim. Não estudei as leis, mas se a sua pena não for longa, talvez ele saia querendo ter o que não teve.

— Farei o possível. — ele garante, sorrindo sem descolar os lábios.

— Obrigada. E eu não queria insultar o seu trabalho. Mesmo que você só siga regras.

— Sem problemas. 

— Tchau!

Encontro Chase e Tessa me esperando. Ela e seus pais se despedem de mim com um abraço e saem da delegacia. Chase e eu saímos também, nos certificando de que não teria mais ninguém para tentar arrancar informações ou fotos. O policial disse que se livrou deles, pelo menos por hoje. 

— Você pode ligar para os meus pais, por favor? Acho que não vou conseguir dizer nada. — peço para Chase e entrego meu celular a ele.

— Tem certeza?

— Sim. Conte por cima o que aconteceu e diga que estamos indo.

Enquanto Chase ligava para a minha mãe do meu celular, eu fui pedir um táxi com o celular dele. Não queria ficar por perto, mesmo curiosa para saber exatamente o que ele dizia aos meus pais enquanto gesticulava. Passava a mão na nuca. Respirava fundo. Me olhava. Me olhava a cada segundo, como se estivesse com medo de que eu saísse de sua vista.

— Não. Ela está bem. — Chase diz, enquanto estou me aproximando. — Está indo para casa agora. — silêncio. — Sim, ela já foi no hospital e já fez o que tinha que fazer aqui na delegacia. Ela vai explicar melhor o que aconteceu quando chegar aí.

Mais silêncio. E ele me olha novamente. — Não foi nada. Tchau. — e ele finaliza a ligação, entregando-me o celular.

O taxista não demora mais que quinze minutos para chegar e sinto meus olhos arderem no instante em que entramos no táxi. A ficha está caindo, eu acho. A mão gélida de Chase encosta em minha cabeça e me afasto, pensando ser outra coisa. Não é.

— Eu tô aqui, princesa. Sempre. — Chase beija minha têmpora, aquecendo todo meu corpo.

Fico abraçada a ele durante o caminho inteiro e, ao mesmo tempo que eu queria chegar, não queria sair do conforto que estava ali.

— Você não vai entrar? — franzo o cenho ao ver que Chase ia entrar no táxi novamente após me ajudar a sair.

— Não acho que seja uma boa ideia. Vai ser um momento família e eu...

— Por favor. Dorme aqui comigo.

Ele tomba levemente a cabeça para o lado e suspira, assentindo. Ele se vira para pagar o taxista e eu vou até a portaria, encontrando Peter.

— Você tá bem? Caralho, Alicia, que merda foi aquela?! — ele me abraça, de surpresa.

— Eu estou bem. Não acredito que a notícia correu tão rápido... — balanço a cabeça.

— Tem uma foto sua entrando na delegacia. É verdade? Quem é esse cara?

Respiro fundo, sem querer responder ou falar sobre o assunto.

— Cara, deixa quieto. — Chase diz. — Pelo menos por hoje.

— Tudo bem, foi mal. Seus pais devem estar preocupados.

— É... boa noite, Peter.

Chamo o elevador e, por algum motivo, não consigo ficar muito tempo longe de Chase. Não sei se vou conseguir dormir, mas tentar dormir sozinha seria ainda pior. Assim que abro a porta do nosso apartamento, vejo os meus pais perto da cozinha, ambos vendo algo no celular da minha mãe. Matt é o primeiro que me vê e me surpreendo quando ele praticamente corre para me abraçar. Tudo bem, ele é meu irmão, mas estávamos tão... distantes. Tento controlar o choro quando ele diz coisas que nunca me disse antes, como que me ama e que eu nunca vou ficar sozinha. Nunca.

Meus pais vieram ao mesmo tempo me abraçar também. Meu pai, no entanto, reparou que uma parte da minha coxa está enfaixada. Minha mãe está chorando de maneira silenciosa e percebo que suas mãos estão tremendo. — Filha... por que você não disse que esse homem estava te perseguindo? Você deveria ter dito algo. — meu pai diz, fazendo carinho no meu cabelo.

— Eu não sabia até que parte era verdade. Ele era o namorado de uma amiga minha e ele batia nela, mas ela disse que ele nunca tinha pego em uma arma antes perto dela. — respondo, sentindo falta do abraço do meu pai. E do colo da minha mãe.

— O que aconteceu com a sua perna? — Matt pergunta, limpando algum rastro de maquiagem em meu rosto.

— Eu pulei do carro e ele não viu. A roda do carro passou na minha perna, mas não foi nada demais. Eles me emprestam um shorts que tinha por lá. — digo, dando de ombros.

— Você deve descansar. Não precisa contar nada pra gente hoje. — minha mãe diz. — Só estou aliviada por você estar bem, filha.

— Também estou, mãe.

— E obrigada por vir com ela, Chase. — minha mãe vai até ele, abraçando-o de uma maneira que ele provavelmente não está acostumado. Fica todo sem jeito.

Solto uma risada. Ainda mais quando Matt e meu pai também vão cumprimenta-lo, notando que ele está aqui. Nunca tinha visto Chase tão sem graça!

— Ele vai dormir aqui. Tudo bem? — digo.

— Claro! Vou pegar alguns travesseiros para o quarto de hóspedes. — minha mãe diz.

— Comigo, na verdade. — três pares de olhos se estreitam em minha direção. — No meu quarto, quero dizer. Nossa!

— Pode ser no quarto de hóspedes, não quero atrapalhar... — Chase diz, provavelmente com vergonha do que eu acabei de falar.

— Para de charme, Chase. Ele vai dormir no meu quarto.

— Tudo bem! Só estou feliz por você ainda chamar de seu quarto. — minha mãe beija minha bochecha, abraçando-me mais uma vez.

— O que a gente perdeu? — meu pai levanta uma das sobrancelhas para mim.

— Não, pai. Ele não é seu genro, pode ficar tranquilo. — digo, apenas para meu pai ouvir. Ele estreita os olhos para mim.

— Mas você quer que ele seja? — ele pergunta no mesmo tom que eu.

— Não. Nós só... — olho para Chase, que está conversando com Matt e minha mãe. — Acho que ele virou tipo o meu porto-seguro.

— Você sabe o que isso quer dizer, não sabe?

— Não sei. O que quer dizer?

— Quer dizer apego. E um tipo de abstinência quando está longe. Você conhece esse garoto o suficiente para isso?

— Conheço, pai. — digo, olhando para o "garoto", que mais parece um homem que está perdido em um mundo que não conhece. Nossos olhares se encontram e nenhum de nós esboça um sorriso. — Eu sei que isso é perigoso, mas é com qualquer um. Se todos se impedissem de amar para evitar corações partidos, nem existiria amor. Certo?

— Não estou entendendo nada. Você está com ele ou não? 

— Não estou falando só de amor romântico. É que você não sabe... mas ele é incrível. Você gostaria dele.

— Então é amor de que, Alicia? De irmão? — ele é sarcástico, lembrando do vídeo que viralizou. Ele sabe que é Chase comigo.

— Para. Não estamos juntos, pai. Somos só amigos. 

— Tem certeza?

— Por que eu não teria?

— Tirando pelo fato de que ele está te olhando a cada três segundos? — meu pai levanta as sobrancelhas e eu comprimo os lábios, balançando a cabeça.

— A gente só se preocupa demais um com o outro. 

— Tudo bem. Acredito em você. 

Minha mãe diz que vai pegar um cobertor a mais para Chase e todos subimos para o segundo andar. Sophie está dormindo em seu quarto e, como seu sono pesado, duvidei mesmo que ela acordaria. Dou um beijo em sua testa e vou até o meu quarto, encontrando Matt e Chase em uma conversa sobre futebol americano. Matt está tentando entrar no time desde o primeiro ano do ensino médio e, mesmo que seu ex-cunhado sempre tenha sido o que tomava grandes decisões lá dentro, ele nunca conseguiu. E Matt é bom. Dylan sabe que ele é bom, por isso nunca deve ter votado para que ele entrasse. 

— Boa noite, Matt. Boa noite, mãe e pai! — digo do quarto. 

— Boa noite! — respondem em uníssono e eu fecho a porta do meu quarto. 

Minha mãe pegou até um shorts do Matt para emprestar ao Chase e, ao me virar, vejo-o apenas de cueca. De costas para mim. Como minha perna ainda está doendo ao ponto de eu não conseguir firmá-la completamente no chão, sento na minha cama para poder me despir para tomar um banho. Tiro a tala que o doutor havia colocado no hospital e arregalo os olhos ao ver a situação em que minha coxa se encontra. Além do inchaço, os hematomas estão muito evidentes.

— Quer ajuda com isso? 

— Quero. 

Chase tira meu shorts, com cuidado, e eu mesma tiro a minha blusa. Ele me ajuda a ir até o banheiro e eu amarro o cabelo, pensando em apenas tomar uma chuveirada rápida. 

Quando termino, visto apenas uma camisola — que é uma camiseta do meu irmão — por ser mais simples do que colocar um shorts e saio do banheiro. Pego uma das pomadas ao sentar na beira da cama e aplico na região, sentindo uma dor horrível. 

— Quer que eu faça pra você? — Chase chama minha atenção. Olho para ele. 

— Sim, mas não aperta. Sério. Está doendo muito e parece que estou só sentindo agora que parei de andar. 

Ele me puxa pela cama em sua direção e eu encosto as costas na cabeceira. Ele senta do outro lado, pegando a pomada das minhas mãos. 

— Ai, ai, ai! Cuidado!

— Eu ainda nem encostei. — diz, com os braços na altura dos ombros. — Fecha os olhos, vai. Vou ser gentil, prometo. 

— Você não é gentil! Pelo menos nunca foi na cama. 

— Cacete, até com uma luxação fodida na perna você pensa em sexo, patricinha? Tá ficando viciada, hein? 

Chuto seu braço com a perna boa. — Otário. Agora vou fechar os olhos. 

Fecho os olhos e a pomada gelada em minha coxa. Ai, merda! Surpreendentemente, Chase sabe mesmo usar as mãos de maneira gentil quando quer. 

— Obrigada. Agora só estou doida para dormir. 

— Tem uma escova de dentes que eu possa usar ali? 

— Na primeira gaveta. Só pegar uma nova. — respondo. 

Me aconchego embaixo das cobertas, tomando todo cuidado do mundo para não fazer nenhum movimento brusco. Chase sai do banheiro logo e após apagar a luz, se deita ao meu lado. 

— Tudo certo aí? — pergunta, passando a mão em meu cabelo. 

— Sim.

— Deita aqui. 

— Não dá. A perna machucada é a direita e ela precisaria ficar por cima. — digo. —Só se você, por acaso, trocar de lado né...

Ele solta uma risada baixa e levanta, fazendo-me ir mais para o outro lado.

— Pronto. Vem cá. 

Encosto a cabeça em seu peito, encontrando uma posição que minha perna ficasse confortável e sinto-o beijando o topo da minha cabeça. 

— Ah, é! Eu quase esqueci! — digo, de repente. 

— O que foi? 

— Feliz Ano Novo! 

Outra risada baixa vem dele. — Feliz Ano Novo, princesa. 


Notas Finais


Gostaria de dizer aqui que não aguento Chase e Alicia, quero guardá-los em um potinho para ninguém machucar e tocar neles <3

Massss esse não foi o foco do capítulo O foco foi o M-A-L-U-C-O do Markus!!!! Quem diria que ele estaria preparado para fazer algo desse tipo, não é mesmo? Enfim, pelo menos ele está preso e com certeza vai passar por um psiquiatra porque o cara não é normal.

Não se esqueçam de me contar o que acharam do capítulo e desses climas cada vez mais inevitáveis entre Alicia e Chase e de deixar uma estrelinha! Até o próximo capítulo!! <3


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