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História Romance é uma flor de bônus - Capítulo 5


Escrita por:


Notas do Autor


Mudei o título desse capítulo porque tava escutando Avril Lavigne hoje e a música se encaixou nas cenas♥

Boa leitura♥

Capítulo 5 - Eu estou com você!


Fanfic / Fanfiction Romance é uma flor de bônus - Capítulo 5 - Eu estou com você!

Meus dias sem Jungkook têm sido vazios.

Às vezes procuro uma palavra melhor para definir com exatidão o que tenho sentido durante todos os dias em que passamos sem nos falar. Já busquei ao dicionário um verbete mais completo, que pudesse expressar com facilidade tudo o que eu realmente sinto no peito; local onde há um espaço gigantesco ocupado por nada, o qual é preenchido por coisa alguma. No entanto, não tenho qualquer êxito nisso. Não encontro palavras nem mesmo pensamentos abstratos que possam explicar meus sentimentos no momento. Penso, também, que talvez este seja meu castigo. Afinal, as coisas que disse a Jungkook magoaram tanto a mim quanto a ele, e o fato de Jeon não retornar minhas ligações, não responder minhas mensagens e tampouco ir à floricultura para me visitar, acabou sendo apenas um reflexo de nossa discussão, causada por minha própria culpa.

Esse espaço vazio existente em meu peito não se preenche com a memória de nossos melhores momentos juntos, nem com a lembrança de seu sorriso gentil e inocente. Nenhuma memória de nós dois consegue me fazer esquecer o quão estúpida fui. A saudade que sinto de Jungkook me quebra em mil pedaços. Me transforma em uma bolha de tristeza e amargura irreparável.

Eu atirei a merda no ventilador, e agora ela se espalhou para todos os lados. Como consequência, perdi o amor de minha vida. Afinal, a última coisa que Jeon disse a mim foi "se não confia em mim, não há motivos para continuar me chamando de namorado", e depois disso ele saiu de minha casa. Desde então, semanas passam-se lentamente, e com elas o meu coração segue partido. A dor que me asssola não se curará com uma simples ligação ou mensagens de texto, pois preciso vê-lo. Preciso contemplar Jungkook ao vivo e a cores novamente, mesmo que de longe.

Pensar que talvez não haverá um amanhã no qual poderemos nos entender me deixa enjoada por um momento, e me perco em mil sensações distintas, todas elas horríveis de sentir. Só agora consigo entender o que minha mãe queria dizer com "palavras machucam mais do que um tapa na cara".

Eu não precisei atingir Jungkook com a palma de minha mão para machucá-lo, e se tivesse feito isso, honestamente, com certeza teria doído menos do que tudo o que meus lábios expressaram.

— Você tá parecendo um gato de rua molhado depois da chuva — Jimin sibila, e meus pensamentos transformam-se em fragmentos pelo ar. — Está dormindo direito à noite?

Pisco minhas pálpebras com um pouco de insistência enquanto observo o arranjo que deveria estar terminando acima do balcão. Meus olhos encontram-se fixos nas rosas amarelas presas com fita cetim vermelha. Mas talvez não estejam vendo-a realmente em minha frente. Park ainda mantém sua visão em mim, os olhos curiosos me fitando na espera de uma resposta.

Ela é clara e concisa. Afinal, só de olhar para mim, ele pode perceber que não dormi nada durante à noite passada. Assim como na anterior, e na anterior, na anterior...

— Eu não ficava à noite inteira acordada desse jeito nem quando ainda era uma estudante de ensino médio — respondo mecanicamente, minha voz ecoando na floricultura como a voz de um android. — Minha cabeça vai explodir.

— Tá pensando no Jungkook? — Park pergunta, porém sua entonação é retórica.

Ele sabe que eu estava pensando em Jungkook, assim como também estou agora, e como estarei até que nos vejamos outra vez.

— Como é que você sabe? — questiono-o de forma imprudente, porque é óbvio que sei a resposta.

Está tão clara em minha face quanto a luz do sol reflefindo em toda a minha pele.

— Porque está escrito na sua cara, piranha — diz Jimin, os olhos fixos aos meus enquanto os cantos de seus lábios encontram-se levemente curvados.

Solto um suspiro alto, e esmurro o balcão da floricultura sem me importar com o fato de a senhora Jeon estar em algum lugar na sala anexa. Agradeço por não estarmos tendo muitos clientes ultimamente.

— Desculpa, Jimin, eu sei que você quer me ajudar — respondo friamente. — Mas nem seu bom humor e suas piadas vão me fazer esquecer o que tá acontecendo.

— Eu sei que sua vida amorosa tá uma merda — Park sibila, trazendo à realidade o fato de que eu sequer tenha uma vida amorosa para chamar de merda. Abaixo a cabeça e só então torno a fitá-lo. Meu humor ácido lutando contra o lado amável. — Mas você e o Jungkook precisam se entender. Vocês dois parecem crianças, caralho.

— Por acaso acha que é fácil fazer isso? — explodo automaticamente. — Eu disse coisas horríveis a ele e agora Jungkook acha que eu não confio nele. 

Jimin respira fundo. Depois, sopra o ar por entre os lábios com rapidez. Ele parece tão estagnado quanto eu mesma estou.

— Se Jungkook diz que não fez nada, então ele não fez — Park aperta os olhos, seus lábios comprimidos e o semblante taciturno fixo em mim. — Mas não fica se culpando, tá bom? Fazer isso só vai te deixar pior. O que vai resolver é vocês dois pararem de atirar a culpa em si mesmos.

— Eu quero fazer isso. Quero muito — confesso. — Mas eu agi como uma imbecil e parece não haver palavras suficientes para fazer eu me desculpar, sabe? Acha que eu posso simplesmente chegar no Jungkook e dizer "eu fui babaca, me desculpa. Agora vamos voltar ao normal? Não dá, Jimin!

— Mas o que foi que você disse, aliás? Porque pela forma como você fala, deve ter sido uma merda das grandes.

Jimin apoia-se ao balcão com a ajuda de seus cotovelos. Os dedos de ambas as mãos brincam em seu rosto enquanto as palmas sustentam o próprio queixo. Ele me olha como se dissesse, silenciosamente e por telepatia, que não importa o que eu diga agora, Park não irá me julgar. Mesmo se eu disser — hipoteticamente falando, claro— a ele que cometi um assassinato, sinto que ainda assim ele não iria me julgar.

Sei que mereço ouvir algumas verdades. Mas saber que estou segura para dizer qualquer coisa é algo que tira um peso exorbitante de cima de minhas costas.

Respiro fundo, e esvaio o ar quente por entre meus lábios com lentidão, contando mentalmente até três na tentativa de que isso me traga alguma calmaria. Repito o mesmo ato algumas vezes, antes de finalmente começar a dizer tudo o que tenho em mente.

— Ah, Jimin, o Jungkook acha que eu não confio nele o suficiente — digo, relembrando outra vez as palavras tanto ditas por mim, quanto por ele, no dia de nossa discussão. Foi a primeira que tivemos durante todo esse tempo em que namoramos. Um tempo que eu já não sei se nos pertence. — Naquele dia eu falei com ele. Sabe, no sábado posterior à sexta em que você veio aqui? Pois é. Eu perguntei a ele porquê não tinha me contado que aquela Susy iria participar da reunião na casa dele. Jungkook me falou que não estava sozinho, e que se eu não confio nele, é  melhor não chamá-lo de namorado.

— Eu não acredito que vocês estão sem falar por causa da Susy — Jimin diz, após alguns minutos nos quais passara em silêncio, depois de me ouvir. — Sério, Eleanor, eu pensei que você não deixaria isso se meter no relacionamento de vocês, e olha só como estão!

Estamos como duas crianças mimadas que não querem dar o braço a torcer depois de um desentendimento ridículo e estúpido. Acho que eu é quem estou sendo a mais estúpida dessa história, porque poderia ter ido atrás de Jungkook, mesmo sabendo que me ver talvez pudesse ser sua última vontade. Mas não fui.

Isso tudo começou porque eu disse coisas que não deveria ter dito — coisas bobas, mas que machucaram fervorosamente — e não quis dar o braço a torcer. Afinal, até uns dias eu realmente considerei a possibilidade de receber uma ligação de Jungkook, ou quem sabe me surpreender ao vê-lo entrar pela porta da floricultura. Pensei em ter seus olhos castanhos nos meus outra vez, e vê-lo sorrindo para mim novamente. No entanto, isso não aconteceu.

E talvez não aconteça, se nenhum de nós dois colocar as diferenças de lado.

— O que eu faço agora? — questiono, sentindo-me verbalizar cada palavra como uma súplica gritante dentro de mim. — Eu não posso perder Jungkook, Jimin. Eu não posso...

— E não vai, gatinha. Mas isso só depende de você, e se parar de fazer cu doce e ir resolver o assunto com o Jungkook de uma vez!

Jimin tem toda a razão. Afinal de contas, eu sei que não conseguirei nada se ficar aqui parada, e que cada minuto perdido no qual permaneço apenas pensando no que pode ou não ser, talvez seja o último segundo que tenho para deixar o orgulho de lado e ir ao encontro de Jungkook.

•••

Quando Jimin vai embora, algum tempo depois de me ajudar a organizar cartões especiais nas prateleiras da floricultura que estavam fora do lugar, caminho até a sala anexa do estabelecimento, meus passos ecoando silenciosos no local vazio. Bato na porta da pequena sala onde a senhora Jeon está desde que chegou, e quando ela permite minha entrada, entro no cômodo com meu coração batendo a mil por segundo.

— Precisa de alguma coisa, Eleanor? — A mulher mais velha pergunta.

Pisco veementemente por várias vezes, tendo a leve impressão de que passei muito tempo observando-a sentada em uma cadeira aparentemente desconfortável do outro lado de uma mesa de madeira retangular. A sala está gelada, e bem iluminada. Observando através do  vidro da janela aberta atrás de si, percebo que talvez seja pouco mais de seis horas. O céu lá fora ganha tons fortes de azul escuro, e o brilho prateado da lua na área externa incide etéreo sobre toda a cidade.


— Eu quero saber que horas a senhora vai para casa — indago, e a senhora Jeon transmite a mim um semblante preocupado.


Há uma ruga quase imperceptível em seu cenho, e ela franze um pouco ao repousar os olhos em seu próprio relógio de pulso na cor verde-limão. Quando fixa as orbes singelas sobre minha figura inquieta a sua frente, a mulher sorri, curvando os cantos dos lábios minimamente.

— Eu vou terminar algumas coisas e vou indo, mas você já pode ir embora. — Outra olhada no relógio de pulso. — Não quero que chegue tarde em casa.

— É que eu gostaria de acompanhá-la até a sua casa — brado. — Há algo que preciso conversar com Jungkook, e não posso esperar até amanhã.

Há silêncio. A senhora Jeon permanece calada pelos segundos que se arrastam lentamente e de maneira agonizante. Percebo

Penso em completar minha frase anterior com um "também preciso acompanhá-la porque não tenho coragem suficiente para ir até sozinha". Sabe, apesar de Jungkook já ter me passado seu endereço tantas vezes quanto consigo decorar, eu nunca fui a sua casa. Pelo menos, não sozinha, e não para passar tanto tempo quanto o que tenho em mente. Afinal, uma das condições que minha mãe expôs sobre nosso namoro, meses atrás, foi que, se Jungkook quisesse me ver em casa, teria que ser na minha porque, segundo ela, eu acabaria "com um feto no útero" antes do tempo, e somos novos demais para isso.

Eu não consigo não rir quando penso nessas suas palavras sibiladas no dia em que Jeon foi a minha casa, tanto por isso ter soado engraçado, quanto por lembrar de um Jungkook totalmente desconcertado e de bochechas coradas em um tom de vermelho fortíssimo, o qual eu nunca vi antes. Entendo a posição de minha mãe sobre esse assunto, uma vez que somos jovens e às vezes os hormônios à flor da pele costumam falar um pouco alto demais. No entanto, sei que ela nunca perguntou nada a respeito disso, porém sequer precisaria se incomodar com a possibilidade amarga de eu acabar grávida, se soubesse que Jungkook nunca fez questão de ultrapassar seus limites comigo. Nossos beijos e carícias foram castos até então, e nós dois nunca chegamos a fazer... bom, aquilo.

Jimin me disse, em um dia não tão longínquo, enquanto conversávamos sobre suas aventuras sexuais com o namorado, e assim que Park perguntou sobre as minhas — as que ainda não tive, pelo menos —, que ele talvez Jungkook estivesse somente esperando um momento certo para que pudéssemos dar aquele passo. Aquele ao invés de esse, porque na situação em que ambos estamos atualmente, eu nem tenho mais certeza de precisarei ponderar sobre isso como fazia antigamente.

Para falar a verdade, nem sei se a gente ainda é a gente.

— Ah! — exclama a mãe de meu "namorado", expressando surpresa em sua fala. — Entendi. Tudo bem, podemos ir juntas.

Ela não pergunta absolutamente nada depois de dizer isso. E essa é uma das coisas que mais gosto sobre a senhora Jeon; o fato de que não invade meu espaço com perguntas íntimas e coisas do tipo, mesmo eu sendo sua funcionária há algum tempo, e namorada — ainda não consigo me desfazer desse nome — de seu filho. Minha mãe já teria feito mil e umas perguntas sobre o assunto, e eu não me incomodaria em respondê-las. No entanto, é reconfortante a sensação de não ter de explicar nada a ninguém, se essa não for minha vontade.

— Obrigada. Vou esperar lá fora — digo, curvando-me minimamente para ela e, no segundo seguinte, estou fora da sala anexa aos fundos da floricultura.

Caminho lentamente até estar no salão principal outra vez, e assim que paro próximo ao balcão, recosto minhas costas no local e respiro fundo, temendo que uma vertigem momentânea me faça fechar os olhos e perder a força em minhas próprias pernas repentinamente. Temo que possa cair ao chão de tão estupidamente perdida e desorientada que estou. Meu coração bate lento por poucos segundos, e ondas de calor me invadem como uma bolha assim que o órgão abaixo de minhas costelas acelera seus batimentos rapidamente, tragando o ar em meus pulmões.

Todo o futuro do relacionamento que ainda acredito ter com Jungkook, depende da minha capacidade de lidar com o assunto em sua frente sem parecer uma covarde que não sabe o que falar. Não ligo de chorar, de suplicar a ele que me perdoe, porque tudo o que mais quero é vê-lo, e deixá-lo saber que o amo mais que qualquer outra coisa. E que minha atitude naquele dia foi típica de uma idiota.

A questão não é sobre quem é o mais culpado ou não, como Jimin mesmo disse. Mas sim deixar o orgulho de lado e fazer nossa parte sem deixar que coisas banais venham a interferir em nosso relacionamento. Afinal, em um relacionamento entre duas pessoas deve haver confiança, mais do que qualquer outra coisa, e diálogo. Minha mãe sempre diz que não há problema que não possa se resolver com uma boa troca de palavras. E eu espero, do fundo do coração, que essas palavras bastem para me fazer recuperar Jungkook de volta.

— Esses dias Jungkook não tem falado comigo como anteriormente — diz a senhora Jeon, e só então eu retorno à vida novamente. Pisco por algumas vezes de forma repetitiva, a fim de me situar ao local ao qual estou. — Mas acho que vê-la vai lhe fazer bem. Sabe, Eleanor, Jungkook gosta muito de você. Eu não pergunto muito sobre o namoro de vocês, mas espero que resolvam o que quer que tenha acontecido entre ambos. Ele não fala nada, mas eu sei que sente sua falta.

Meu coração é levemente golpeado por um punhal extremamente afiado.

— Eu também sinto. — E isso é tudo o que consigo dizer.

— Entre — diz ela, assim que gira a maçaneta da porta de entrada principal e abre espaço para que eu possa passar. — Ele deve estar no quarto. Pode ir tranquila, e não se preocupe, depois eu mesma a levo para casa.

— Obrigada.

Faço uma breve reverência em agradecimento. Em seguida, a senhora Jeon desaparece de meu campo visual assim que passa por um corredor que leva aos fundos da residência. Eu solto um suspiro lento, e pesado, observando a sala junto a cozinha silenciosa na qual fui deixada. Há um novo corredor além daquele em que a senhora Jeon caminhou, e eu sigo pelo mesmo em direção ao quarto de Jungkook. Durante o percurso, contemplo os diversos quadros localizados acima de pequenas prateleiras que se estendem até a porta de madeira que tenho como ponto de chegada. Acho que não preciso dizer que meu peito está apertado, e que minhas costelas parecem massacrar meu coração abaixo delas. Conforme meus passos instintivamente lentos me levam ao encontro de Jeon, pondero sobre o que poderei encontar ali.

Vislumbres de quando eu só o tinha como um amor platônico que jamais seria correspondido, me atingem de forma automática ao passo em que me aproximo de seu quarto mais e mais. Penso naquele dia na floricultura, onde nos falamos pela primeira vez, e de tudo o que aconteceu depois daquilo; as lembranças que construímos juntos, e sofro antecipadamente ao pensar no que não podemos ser durante as semanas nas quais passamos afastados um do outro.

Durante toda a minha adolescência, eu sempre ouvi dizer que sentir ciúmes do parceiro é um sinal de amor. Mas não acho que isso seja verdade. Afinal, o "ciúme" doentio ao qual me fiz presa fácil acabou tirando de mim a única coisa que me completava mais do que queijo com goiabada: Jeon Jungkook.

Um soco no rosto pode ficar marcado, porém um dia irá cicatrizar. No entanto, uma palavra dita em um forte momento de raiva jamais pode ser apagada, e nem sempre você consegue consertar a burrada que fez.

Assim que finalmente chego em frente ao quarto de Jungkook, respiro fundo, e peço a qualquer força divina que esteja olhando sobre mim nesse momento para que, mesmo se essa for minha única chance de consertar as coisas, que eu possa fazer do jeito certo, saber fazer dar certo.

É tudo o que peço.

Meu punho direito bate sobre a madeira na porta do quarto silencioso, e controlo minha respiração ofegante antes que comece a ter problemas. Bato uma, duas, três, seis vezes, até finalmente ouvir sua voz ecoar do outro lado. A voz que faz meu batimento cardíaco acelerar por completo.

— Tá aberta, mãe — responde ele, a melodia simplista de sua palavras ressoando abafada por estar dentro do quarto, e eu, ao lado de fora.

Não o julgo por isso. Afinal, se fosse ao contrário, eu não sei se cogitaria a possibilidade de ele estar ali naquele horário.

Fecho minhas mãos sobre a maçaneta e um suor gelado escorre pelas minhas costas. Giro-a com rapidez e empurro a porta, finalmente visualizando Jungkook sozinho no quarto taciturno e iluminado por uma lâmpada redonda no teto ao centro do cômodo.

A visão que tenho dele, agora, não é nem um pouco parecida com a que criei em minha mente. Pensei que Jungkook estaria no computador, realizando suas atividades da universidade ou talvez tocando violão. Mas não.

Ele está deitado em sua cama de casal ao centro do local. Seus olhos estão fechados, os cabelos esparramados deixando seu rosto totalmente à mostra, os braços abertos acima do colchão.

Permaneço em silêncio por alguns segundos, escolhendo o que devo verbalizar de início. Entretanto, antes que eu o faça, como se soubesse o tamanho do nervosismo que revira meu estômago de cabeça para baixo, Jungkook abre os olhos, e mira-os em minha direção, parada como uma verdadeira estátua viva segurando a maçaneta de sua porta. Ele, então, ergue o tronco na cama em um solavanco, e é nesse momento que percebo que apenas uma calça de moletom cinza cobre seu corpo da cintura para baixo, uma vez que não usa nada na parte de cima, possibilitando a mim uma perfeita visão dos músculos presentes em seu peito.

Engulo a respiração. Mas não é isso que prende minha atenção, e sim o fato de seus olhos quase infantis estarem levemente marejados conforme mede minha figura paralisada da cabeça aos pés. Solto a maçaneta da porta e fecho-a em um baque ruidoso.

Não digo nada, e também não preciso que Jungkook diga algo. Afinal, não é necessário, porque ele quebra todo o meu nervosismo ridículo assim que finalmente levanta-se da cama, e caminha a passos rápidos em minha direção. O ar não mais prende-se em meus pulmões, e meu coração deixa de bater acelerado quando Jungkook, já em frente a mim, envolve seus braços nus ao redor de minha cintura e abraça-me forte, repousando sua cabeça em meu ombro, o rosto contra a lateral de meu pescoço. Por puro instinto, elevo ambos os braços às suas costas e aperto-o contra mim, retribuindo ao abraço sem me importar de estar tocando sua pele quente, desnuda, pela primeira vez em um quarto fechado.

Se minha mãe — sendo extremamente conservadora como é — soubesse de algo desse tipo, certamente teria um infarto.

— Eu senti tanto a sua falta — sussurra rente a minha tez, apertando ainda mais meu corpo contra o seu, a pele quente de seu peito colidindo contra a minha através de minhas roupas. Ouço-o fungar um pouco. Em seguida, pergunta, após se afastar de mim: — O que faz aqui? Como chegou até aqui?

— Sua mãe me trouxe — respondo, retirando meus braços de suas costas e fitando o par de olhos castanhos que me causa a sensação de ter borboletas no estômago. — Desculpa, Jungkook. Eu sei que agi como uma imbecil na última vez que nos vimos, e não devia ter dito nada daquilo para você. Meu Deus! Você sempre foi tão compreensivo comigo e tudo o que eu fiz foi te magoar.

— Ei! — Jeon exclama. — Para de se culpar. Quem disse que você agiu como uma imbecil?

— Eu... — Engulo em seco, e não consigo terminar de falar.

— Eleanor, você não está errada. E não precisa se desculpar. Nós dois fizemos coisas que magoaram um ao outro, mas eu não quero falar sobre isso. A vida é curta demais para a gente ficar se culpando por coisas irrelevantes.

Franzo o cenho. Em seguida, quando Jungkook me solta, e caminha até um ponto aleatório no próprio quarto, eu pondero mentalmente sobre o sentido por trás de suas palavras. No dia em que ele esteve em minha casa, assim que tivemos aquela discussão quando me vi cega de ciúmes por Susy estar em sua casa, à noite, Jungkook me disse coisas que ecoaram em meus pensamentos durantes todos os dias passados até aqui. Foi inevitável questionar sobre, e mesmo agora, quando diz que "A vida é curta demais", eu não consigo não me preocupar, e não achar que existe algo a mais por trás de tudo o que ele disse.

— O que você quer dizer com isso? — pergunto, disposta a sanar minha curiosidade acima de qualquer coisa. — Tem alguma coisa acontecendo com você? Olha, eu sei que minha atitude não foi a mais correta, e depois do que você me disse sobre não confiar em você, eu entendo se quiser terminar comigo, Jungkook. Emtendo de verdade, porém você ainda pode contar comigo para o que precisar, porque eu sempre vou estar aqui, enquanto ainda me quiser por perto.

Sei que estou com o semblante semelhante ao de um cachorrinho que caiu da mudança e não sabe para onde ir. Mas não me importo nem um pouco com isso. Afinal, qual o problema em demonstrar sentimentos de fraqueza diante de quem amamos?

Eu não estou aqui para pedir que Jungkook volte comigo se essa não for a sua vontade. Eu estou aqui para que juntos possamos conversar, e compreender as coisas que Jungkook não me contou com todas as letras. A verdade por trás das palavras não ditas. Já que ele não faz questão de falar sobre Susy — e eu, honestamente, também não quero —, quero saber de uma vez por todas o que Jungkook esconde, como entendi naquele dia em minha casa.


Ambos temos assuntos que precisam ser resolvidos o mais rápido possível, porém eu não tenho qualquer pressa para sair daqui hoje.

— Eu não terminei com você, Eleanor — Jungkook volta a sibilar. Por mais que o ar condicionado de seu quarto esteja ligado, ele não faz qualquer questão de procurar uma camis a qual possa se vestir. — O que eu disse naquele dia pode tê-la feito entender assim, mas eu nunca quis terminar tudo. Seria tão mais fácil apenas terminar de uma vez sem ter que me explicar...

Uno as sobrancelhas novamente. Ainda me vejo presa em meio a diversos puzzles aparentemente difíceis de se resolver.

— Explicar o que? — questiono, seguindo seus passos e me aproximando de si, parado próximo a janela do cômodo. Sinto um calafrio em minha espinha quando toco suas costas com a palma de minha mão direita. Sua pele é tomada por músculos rígidos, e parece vibrar entre meus dedos. — Jungkook... O que você quer dizer com tudo isso? O que precisa me explicar?

Quando ele se vira para ficar de frente a mim, minha mão desliza por suas costas, seguindo pelo braço até parar na lateral de meu corpo, e nossos olhares se encontram finalmente. Retribuo ao contato visual com facilidade, porém sem evitar sentir pontadas fortes golpeando meu peito de dentro para fora.

Jungkook continua a me fitar como se tivesse desaprendido a fazer isso durante o tempo em que ficamos sem nos falar, e sem esperar mais um segundo, eu seguro seu rosto com ambas as mãos e deixo a ponta de meus dedos acariciar a pele macia das maçãs de sua face. Com esse ato, quero fazê-lo entender que estou agindo como a amiga que sempre fui desde o princípio.

— Eu 'tô doente, Eleanor — responde finalmente, e eu pisco uma única vez, confusa. — DPOC, Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica... Preciso de um transplante de pulmão, ou você vai se tornar viúva de um namorado antes do tempo.

Sabe quando dizem que a verdade pode te machucar mais do que um tapa no rosto? A pessoa que disse isso realmente não se equivocou nem um pouco ao verbalizá-la. Afinal, assim que ouço as palavras de Jungkook ecoando no quarto pequeno e levemente gelado pelo ar condicionado, sei que ele não está brincando comigo ou fazendo piadinha, como é de costume. Sei, também, que essa é a verdade.

De repente, minha mente é tomada por vislumbres de quando Jungkook se recusou a ir comigo na maioria dos brinquedos do parque de diversões onde fomos juntos há meses atrás. Relembro de quando ele teve pneumonia grave, e precisou faltar à faculdade por isso, assim como todas às vezes em que tinha dificuldades respiratórias de forma excessiva em momentos aleatórios.

Tudo se encaixa em minha mente como as peças de um quebra-cabeças mortal. Só agora entendo tudo o que ele realmente quis dizer em nossa última conversa pessoalmente.

Jungkook está doente.

Gravemente doente...

— DPOC? — indago, minha voz trêmula, um bolo massivo se formando em minha garganta conforme suas palavras anteriores se repetem em minha cabeça como uma espécie de looping. — Como você... Como pegou isso?

— DPOC é causada por um grupo de outras doenças, Eleanor. Há alguns anos eu fui diagnosticado com bronquite crônica, quando na verdade estava com DPOC. Eu só percebi isso quando a dificuldade para respirar, os cansaços e as fadigas excessivas se tornaram mais presentes. Os tratamentos médicos que eu fazia mesmo em casa não estão dando resultado, por isso estou na lista para o transplante. É só isso que pode me salvar.

Doença pulmonar obstrutiva crônica... Eu já ouvi falar, e sei exatamente dos perigos que a mesma traz para quem a tem. Doenças pulmonares são preocupantes, mas essa em especial é extremamente perigosa. E isso me assusta, porque sei que DPOC é uma doença causada principalmente — mas não totalmente — pelo tabagismo, e não saber como diabos isso foi parar em Jungkook sem uma explicação aparente me deixa assustada. Afinal, ele mencionou que está na lista de espera para um transplante de pulmão, e tendo uma mãe que trabalha em um hospital, eu sei que pulmões novos nem sempre garantem uma vida boa, pois sua média de vida é de a aproximadamente cinco anos.

O que acontecerá depois? Eu não faço a menor idéia, e esse gigantesco ponto de interrogação que paira sobre mim é suficiente para me deixar desnorteada e, então, minhas lágrimas caem desenfreadas.

— Por que você nunca me contou isso? — Fungo, e sem pensar duas vezes, abraço-o novamente. — Por que você não dividiu isso comigo? Você passou por isso sozinho...

Choro tanto quanto na vez em que soube que estava crescendo, e que minha infância jamais voltaria como eu, inocentemente, pensei quando era criança. Jungkook retribui ao meu abraço, e tenho seus braços desnudos ao redor de meu corpo outra vez. Ele apoia o queixo em minha cabeça, e respira fundo. Em seguida, eleva a mão direita até o meu cabelo, onde afaga gentilmente a região.

Minhas lágrimas torrenciais caem como cachoeira, e molham os braços fortes de Jungkook. Ele não se incomoda com isso, e sequer faz menção de me afastar.

Estou tão desnorteada, que tudo o que consigo fazer é soluçar. Meu peito está dolorido, e eu não sei se conseguirei sustentar-me em pé por muito tempo.

— Eu não queria ficar perto de você sabendo que cada segundo nosso poderia ser o último. Afinal, eu não sabia quando eu poderia ter insuficiência respiratória e acabar caindo no chão sem vida — diz ele, sua voz abafada ressoando entre meus cabelos. — Eu realmente fiz de tudo para não me apaixonar tanto por você, Eleanor. Mas de uma forma ou de outra, tudo sempre voltava a você. Se eu estava jogando, lendo, estudando, ou fazendo qualquer coisa desimportante, era o seu rosto que surgia na minha cabeça. Era só em você que eu conseguia pensar.

— Mas você devia ter contado — sussurro com a voz embargada, e Jungkook torna a apertar-me entre seus braços. — Não pense que estou brava, porque não estou. Eu só queria ter passado por isso com você. Eu me preocupei em bancar a namorada ciumenta sem saber que vivia um inferno pelas minhas costas.

Soluço outra vez.

Outro afagado é deixado em meus cabelos através dos dedos de Jeon. Ele sabe exatamente como deve me acariciar, e torna o momento todo repleto de ternura.

— Eu nunca soube como contar, nunca tive oportunidade — confessa.  — E quando tive, não o fiz porque eu te amo o bastante para não querer compartilhar esse fardo junto com você. Eu não quero que pense nisso como eu penso, nem que sinta pena de mim. A única coisa que quero é que esteja lá quando eu fizer a cirurgia. Que segure as minhas mãos antes de eu ir. E se alguma coisa acontecer...

— Não vai acontecer nada... — Ergo a cabeça para fitá-lo. Jungkook não quer demonstrar, mas está tão preocupado quanto eu estou.

Agora penso em sua antiga quietude e na senhora Jeon... De repente, tudo faz sentido.

— Mas se acontecer, saiba que eu te amei em cada momento nosso. — Nossos olhos se encontram e eu faço uma espécie de súplica silenciosa para que ele pare de agir como se isso fosse a droga de uma despedida. — Continuo amando agora, e vou amar para sempre.

Jungkook inclina a cabeça sobre mim, e prepara os lábios para me beijar. Seu toque é casto, e suas mãos se posicionam em cada uma de minhas bochechas como se eu fosse feita de vidro, prestes a quebrar com um brusco movimento.

Eu retribuo-o o quanto consigo. E assim que nosso ósculo cessa, Jeon envolver-me novamente, e o abraço é tão reconfortante quanto o calor do mês de setembro. Vivo, suave.

Minhas ações me fizeram crer, instantaneamente, que amar alguém às vezes não é suficiente para fazer essa pessoa ficar ao seu lado pelo tempo que deseja. Afinal, ninguém tem controle sobre o destino. Eu sei que amor incondicional não é garantia de ter quem amamos perto de nós, e que o para sempre sempre se vai, de uma forma ou de outra.

Mas tenho certeza de uma coisa: farei Jungkook e eu dermos certo pelo tempo que der. 

Eu nunca o abandonarei, onde quer que ele vá.



Notas Finais


O próximo é o último ♥♥


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