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História Romeu - Capítulo 8


Escrita por:


Notas do Autor


Oi, tudo bom?
Eu voltei com Romeu, e agora é pra ficar :)
Boa leitura

Capítulo 8 - E-mails e zen


Hoje

Nova York

Final do quarto dia de ensaio


Quando entro no meu apartamento encontro ruídos de florestas tropicais. Uma desgraça de som de água correndo e cantos de pássaro com alguma merda

irritante melódica/eletrônica que me faz querer arrancar os cabelos.

— Porra.

— Ouvi isso — diz uma voz muito relaxada da sala. — Por favor, não polua nosso santuário com linguagem agressiva. Está cortando meu barato.

Minha exaustão emocional cai sobre mim como um cobertor de chumbo. Jogo a bolsa no corredor antes de andar como um zumbi até a sala e despencar no sofá.

— Por favor, desliga essa merda — suspiro quando viro minha cabeça e olho para o teto. — Não é relaxante. Me faz querer torturar cachorrinhos. E você.

Meu colega de quarto, Matt, está sentado num tapete grande na minha frente, pernas cruzadas, mãos nos joelhos. Seus olhos estão fechados e sua respiração é regular e controlada. Está usando um minúsculo short. Nada mais. Levo um século para refletir sobre quantos anos de ioga esculpiram seu um metro e noventa. O longo cabelo loiro está puxado para trás num rabo de cavalo, e o rosto está liso e livre de tensões. Ter uma mãe japonesa e um pai malásio deu a ele um tipo de beleza exótica que deveria ser imortalizada por um grande artista. Ele daria um a bela estátua.

Buda gostosão.

Diferentemente de mim, ele é um desgraçado de um zen. — Dia ruim? — ele pergunta.

Passei a maior parte do dia me esfregando com meu ex-namorado bem atraente de quem eu ainda não deixei de gostar nem remotamente. Ruim não é nem apelido.

— Você não faz ideia.

Matt abre os olhos e me avalia com um olhar.

— Ai, Deus, Bonnie. Seus chacras estão uma bagunça. Que diabos aconteceu?

— Enzo e eu nos beijamos.

Minha voz está cansada e grasnada. Meu cérebro está derretendo. Estou tão transtornada que mal consigo falar.

Matt suspira e balança a cabeça.

— Bonnie, depois de tudo o que conversamos. Depois que você jurou que não ia se enfiar em nada com ele de novo. Depois que você escreveu o Juramento da Autopreservação...

— Não foi espontâneo, Matt. Foi parte da cena. Ele desliga o som. Graças a Deus.

— Ah. E?

— E...

Ele está esperando, mas não consigo falar. Se abrir a boca, um furacão de amargura vai passar por mim e arrancar minha carne.

— Bonnie?

Balanço a cabeça. Ele sabe. Ele se senta ao meu lado e me envolve com seus braços gigantes.

— Minha querida. — Ele suspira quando eu o abraço como se ele fosse a única coisa me ancorando à realidade.

— Matt, estou tão fodida.

— Você sabia que isso ia ser difícil.

— Não tão difícil.

— E quanto a ele? Como ele está lidando com as coisas?

— Ele está sendo um babaca.

— Sério?

— Não, não exatamente. De modo geral ele está sendo semidecente e preocupado, mas é quase pior. Não sei como lidar com ele assim.

— Talvez ele tenha mudado.

— Duvido.

— Ele se desculpou?

— Claro que não.

— E se se desculpasse?

Pensei nisso. Eu aceitaria? Ele poderia se desculpar o suficiente para eu perdoá-lo?

— Bonnie?

— Digamos que se ele se desculpasse, o que é tão provável quanto animaizinhos peludos saírem da sua bunda, nada mudaria. Ele ainda é ele, e eu ainda sou eu. Somos esses ímãs gigantes que continuam se revirando, atraindo um ao outro e então repelindo. E eu só... eu...

Solto o ar e paro.

Não consigo falar. Não consigo admitir que a primeira vez que me senti inteira em anos foi quando ele me beijou hoje. Perceber que ele é o único que pode me deixar assim me enlouquece.

Esfrego o rosto.

— Não sei o que fazer.

— Você precisa conversar com ele.

— E dizer o quê? “Ó Lorenzo, mesmo que você tenha acabado comigo quando foi em bora, ainda quero você, porque sou a maior masoquista do mundo?” Não posso dar a ele esse tipo de munição.

— Vocês dois não estão em guerra.

— Estamos sim.

— Ele sabe disso?

— Deveria. Ele começou.

Matt me olha feio. Sei que ele está prestes a dizer algo profundo, iluminado e completamente irritante. O que quer que ele diga será certo. Ele está sempre certo. Odeio isso nele.

Também amo isso nele.

Desde que ele esperou por mim nos bastidores para me dizer quão incrível eu fui na versão off-Broadway de Portrait, senti uma ligação com ele. Parece destino ele estar na minha vida, e não tenho isso desde que Caroline mudou para outro país no nosso último ano.

Ele precisava de um lugar para ficar, assim, quando descobri que minha colega de apartamento era uma ladra de sapatos compulsiva que fugiu no meio da noite com toda a minha coleção de calçados, não pensei duas vezes em pedir para que ele se mudasse.

Somos melhores amigos desde então, e nos últimos três anos ele presenciou cada estágio da minha evolução em Odeio o St. John. Ele me ajudou a superar muitas das minhas tendências destrutivas, mas hoje foi um divisor de águas.

— Bonnie, o que você quer?

Parece uma pergunta enganosamente fácil, mas sei que não é. Matt não faz perguntas fáceis.

— Não quero mais que ele me faça sentir essas coisas.

— Não perguntei o que você não quer, perguntei o que quer. Se você pudesse ter tudo, independentemente do presente, passado e futuro, o que seria?

Penso profundamente. A resposta é simples. E impossível.

— Quero ser feliz de novo.

— E o que vai te fazer feliz?

Enzo.

Não.

Sim. Enzo me abraçando e me beijando.

Não. Você não consegue. Ele não vai te fazer feliz.

Enzo. Correndo as mãos pelo meu corpo conforme tira a roupa.

Deus, não.

Enzo grunhindo meu nome e dizendo que me ama.

Ai, Jesus.

Eu me levanto e sigo para a cozinha. Minhas mãos tremem quando sirvo uma enorme taça de vinho. Matt me segue e se encosta no batente da porta. Sinto sua desaprovação enquanto bebo demais, rápido demais.

— Bonnie...

— Não quero ouvir.

— Vou te levar para sair.

— Não.

— Sim. Você precisa espairecer e parar com essa obsessão pelo lindo sr. St. John.

— Por favor, não se refira a ele como “lindo” ou “sr. St. John”. Na verdade, não se refira a ele de jeito nenhum. Seria ótimo.

— Deixa eu te levar para a Zoo. É noite hétero. Você pode paquerar o quanto quiser.

Eu viro o resto da taça.

— Matt, o que preciso hoje é beber até ter um estupor semiconsciente em casa, sozinha. Se eu sair, você sabe que vou terminar trepando com um estranho que vai me fazer esquecer por algumas horinhas o merda-que-não-deve-ser-chamado-pelonome. Daí, você vai me dar um sermão de manhã sobre quão inúteis são casos de uma noite só e como eu os uso para me dessensibilizar da dor de rejeições passadas por Sua Canalhice Real, e como, por fim, eu vou ter de tratar da causa do buraco no meu coração, e não dos sintomas.

Ele suspira e pisca.

— Bem, você acabou de transmitir mais autoconhecimento nesse breve discurso do que no tempo todo em que te conheço. Estava começando a pensar que você não escutava quando eu falava.

— Eu escuto. E talvez esteja aprendendo. — Encho a taça de novo.

— Obrigado, sempre amado Deus do Sol. — Ele caminha para me abraçar. — Agora, quando vai conversar com ele?

Suspiro e balanço a cabeça.

— Não sei. Quando pude fazer isso sem desabar?

— Então a resposta é nunca.

— Matt...

— Bon, pare de adiar. Quanto antes fizer isso, mais cedo pode começar a planejar como expurgar toda a energia negativa entre vocês dois.

— Nem sei se é isso o que ele quer.

Ele revira os olhos.

— Até eu sei que é o que ele quer. E nunca encontrei o homem. Eu li os e-mails dele, lembra? Quando vai parar de se esconder e deixá-lo falar? Se você puder perdoá-lo, então talvez, apenas talvez, você possa descobrir como ser feliz de novo. Com ou sem ele em sua vida.

Matt está certo. Como de costume.

— Você sabe que te odeio, né?

— Não, não odeia.

— Deixa só eu passar pelos próximos dias, daí... eu converso com ele. — Ele me abraça novamente.

— Certo. Eu te amo.

— Também te amo. Divirta-se na boate.

— Você sabe que eu vou. Te vejo amanhã.

Dou-lhe um beijo na bochecha antes de levar o vinho para o quarto e fechar a porta. Depois de colocar um pouco de música, abro meu laptop e passo alguns minutos verificando e-mails. Tem um da Caroline que me faz rir e vários me dizendo como aumentar o tamanho do meu pênis e dormir com mulheres fáceis. Eu deleto o lixo e coloco a tela na área de trabalho.

Lá está.

O pequeno ícone que me atiça eternamente. O nome é E-mails do babaca.

Eu beberico meu vinho e olho para ele com meu dedo pairando sobre o botão do mouse.

Já li todos. Dúzias de vezes. Sempre com olhos anuviados pela amargura e dor.

Eu me pergunto o que veria se pudesse deixar tudo aquilo para trás. Eles mostrariam um Enzo diferente daquele que passei tantas horas xingando?

— Puta porra de merda.

Abro o arquivo.

As palavras familiares tomam a tela e eu respiro fundo.

A primeira está datada de três meses depois que ele me deixou.


De:LorenzoSt.John<[email protected]>

Para: BonnieSheilaBennett<[email protected]>

Data: Sexta-feira, 16 de julho de 2010 às 21:16


Bonnie,

Estou sentado aqui olhado para minha tela há duas horas, tentando encontrar coragem para te mandar um e-mail e, agora que estou digitando, não tenho ideia do que dizer.

Devo pedir desculpas? Claro.

Devo implorar por perdão? Muito.

Você vai me perdoar? Duvido.

Mas, mesmo que te machuque, eu ainda acho que fiz a coisa certa ao partir. Eu precisava ir enquanto um de nós ainda tinha a chance de ficar inteiro.

Agora estou sorrindo, porque posso imaginá-la revirando os olhos e me xingando de tudo que puder. Você está certa. Eu te avisei no primeiro dia em que nos encontramos, lembra? Eu estava terrivelmente assustado por você, eu disse que não deveríamos ser amigos, mas você fez com que ficássemos amigos mesmo assim.

Você acabou se tornando a melhor amiga que já tive. Sinto falta da nossa amizade.

Sinto sua falta.

Acho que isso é tudo o que quero dizer.

Lorenzo.


O próximo é de um mês depois.



De: LorenzoStJohn<[email protected]>

Para: BonnieSheilaBennett<[email protected]>

Data: Sexta-feira, 13 de agosto de 2010 às 19:46


Bonnie,

Decidi continuar escrevendo, mesmo que você nunca responda,

porque vou fingir que você lê isso e pensa em mim. Você sabe como sou bom em fingir.

A peça está indo bem. O elenco é bom, e estou feliz de voltar a interpretar Mercúcio em vez de Romeu. O protagonista romântico nunca foi meu forte, como você sabe.

Sempre tenho dores no peito quando penso em você. Não é divertido. Sou jovem demais para ter problemas de coração, mas tenho medo de procurar um médico para ele me dizer o que já sei: que meu coração é defeituoso e não tem cura.

Às vezes me pergunto o que você está fazendo e torço para que esteja seguindo em frente. É o que você merece. Mas há uma parte de mim que espera que você esteja péssima sem mim.

Saudade.

Lorenzo.


E o próximo. Aquele que reli mais do que qualquer outro. Aquele que leio

quando sinto tanta saudade dele que quase posso sentir suas mãos no meu corpo.


De:LorenzoStJohn<[email protected]

Para: BonnieSheilaBennett<[email protected]>

Assunto:

Data: Quarta-feira, 1 de setembro de 2010 às 2:09


Bonnie,

Sao duas da manhã, e to bêbado. Muuuuito bêbado. Quero tanto voce. Quero voce nua e ofegante. Quero ver seu rosto ao gozar e...

nossa, quero voce.

Claro que nunca descobri como trepar com voce, ne? Não da para desencanar e ttratar como sexo, prque nunca foi. Nunca. Era muito mais.

Vim com uma garotahoje pracá. Bonita. Linda ate. Não que nem você, mas ninguem é.

Ela queria trepar comigo, mas nõ consegui. Mal consegui beija porque os lábios dela não tinham o gosto doseus e ela não tinha o cheiro certo porque nõ era você.

Agora to com o pau duro pra caralho sentado aqui escrevendo pra voce e sei que nunca vou estar dentro de voce denovo e so consigo pensar nisso. Entao quando terminar de escrever isso provavelmente vou trepar com a minha mão enquanto penso em voce e me odeio

um pouco mais.

Sou pa´tetico.

Vou num analista na sexta. Não quero mais ficar obcecado por voce. Dói demais.

Sinto muita saudade...

Enzo


E daí há este.


De: LorenzoStJohn<[email protected]>

Para: BonnieSheilaBennett<[email protected]>

Data: Quarta-feira, 1 de setembro de 2010 às 10:16


Bonnie,

Estou tão envergonhado do e-mail que te mandei noite passada. Não tenho desculpas. Bebi demais, e, bem, você sabe o resto.

Por favor, delete e esqueça o que eu fiz.

É o que vou tentar fazer.

Lorenzo.


Depois disso, não soube dele por meses. Então, este chegou.


De: LorenzoStJohn<[email protected]>

Para: BonnieSheilaBennett

Data: Quinta-feira, 13 de janeiro de 2011 às 12:52

Bonnie,

Feliz Ano-Novo.

Já faz um tempinho.

Como você está?

Claro que não espero que você responda este. Você nunca me responde. É compreensível.

Procurei ajuda. Tenho conversado com alguém sobre por que eu sempre ferro com as coisas. Estou tentando melhorar. Sei que eu deveria ter feito isso há muito tempo, mas antes tarde do que nunca, não é?

Na terapia, ouço que eu preciso me libertar do meu medo para poder deixar as pessoas entrarem. Não sei mais de porra nenhuma.

Acho que talvez eu não tenha nascido para ser feliz. Se não pude ser feliz com você, sou um caso perdido.

Quero melhorar as coisas entre nós. Talvez possamos voltar a ser amigos. Mas não tenho ideia de como fazer isso. E mesmo que tivesse, duvido que você ia querer. Você quer?

Eu queria ser seu amigo de novo, Bonnie.

Sinto saudade.

Enzo.


Há mais, mas não consigo ler. O vinho acabou e meus olhos estão ardendo.

Escrevo um e-mail.


De: BonnieSheilaBennett<[email protected]>

Para: LorenzoStJohn<[email protected]>

Assunto: Fim da semana

Data: Sexta-feira, 6 de setembro de 2015 às 21:46


Lorenzo,

Pelo bem da peça, acho que deveríamos arrumar um tempo para conversar. Que tal amanhã à noite, depois do ensaio?

Bonnie. 


Clico em “enviar” antes de amarelar.

O sonho me toma, me leva de volta a um tempo quando tudo que eu estava tentando fazer era esquecer. Ou me lembrar. Nunca pude descobrir qual dos dois.

O homem beija meu pescoço enquanto aumenta o ritmo. Longas estocadas profundas. Faço todos os sons certos, mas não estou nem perto.

— Bonnie, olha para mim.

Não posso. Não é assim que funciona. Olhar para ele destrói a ilusão, e, por mais frágil que seja, a ilusão é tudo o que tenho.

— Bonnie, por favor.

Eu o empurro e o deito de costas. Assumo o controle. Eu o cavalgo com desespero. Tento fazer ser mais do que é.

Ele grunhe e agarra meu quadril, e sei que está quase no fim. Passa suas mãos sobre mim, reverente e amável. Não mereço isso. Como ele não sabe disso ainda?

— Bonnie, por favor, olha para mim.

Sua voz é toda errada. Eu me mexo mais rápido, para ele não conseguir falar.

Quando ele grunhe e para, não sinto satisfação. Apenas alívio.

Finjo gozar e caio sobre seu peito. Mesmo que ele me envolva com seus braços, a distância entre nós aumenta.

Escuto seu coração. Tão forte. Rápido e inconstante. Sem medo de amar. O som é estranho para mim.

Saio de cima dele e pego minhas roupas. Ele segue cada passo meu com os olhos.

— Você não pode ficar?

— Não.

Ele bufa. Está cansado dessa resposta. Eu também.

— Só me diga uma coisa. — Ele se senta.

— O quê?

— Alguma vez você vai pensar apenas em mim quando fizermos amor?

Eu paro, depois coloco a camiseta. Odeio ser tão óbvia.

— Bonnie, ele te deixou.

— Eu sei.

— Supera isso.

— Estou tentando.

— Ele está do outro lado do mundo e eu estou aqui. Eu te amo. Há muito tempo. Mas nunca vai fazer diferença, né? Não importa quanto eu queira.

Ele se levanta, coloca a cueca. Movimentos bruscos e frustrados.

Não o culpo. Ele merece mais.

Eu me sento na cama. Derrotada. Isso começou com rancor, mas agora quero que funcione. Não quero ser a perturbada.

Mas não está funcionando. E o alívio que sinto por magoar outra pessoa em vez de ser magoada faz com que eu me odeie.

Ele está parado na minha frente, e, quando eu o abraço, ele me aperta forte.

— Não consigo acreditar que Lorenzo St. John está me ferrando mesmo quando ele não está aqui.

A simples menção de seu nome me dá um aperto no peito.

Eu me afasto e passo os dedos sobre suas linhas franzidas, tentando soltá-las.

— Sinto muito. Sei que é um clichê completo, mas não é mesmo você. Sou eu.

Ele ri.

— Ah, eu sei disso. — A expressão dele suaviza. — Ainda assim, espero que você acabe com isso algum dia, Bon. Espero mesmo.

Faço que sim e olho para seu peito.

— Eu também.

Então ele me beija gentil e lentamente, e eu quase choro porque quero me sentir diferente.

Ele apoia a testa contra a minha.

— E espero que o canalha perceba que largar você foi a coisa mais idiota que ele já fez.

Ele me leva até a porta e me beija mais uma vez. — Te vejo de noite, no teatro?

Faço que sim e me despeço. E, simples assim, voltamos a ser namorados no palco apenas.

É melhor desse jeito.

Quando parto, juro não me meter mais com inocentes. Entre, trepe, saia.

Sem compromisso.

O amor é uma fraqueza.

Não é a única coisa que Enzo me ensinou, mas é a coisa de que mais me lembro.

Quase caio da cadeira quando desperto.

Meu coração bate furiosamente, pulsando a minha culpa.

Jesus, que horas são? Olho para o relógio. Dez e quarenta e cinco. Dormi na minha mesa por uma hora.

Minha boca está seca e, quando o quarto gira, eu me lembro de que bebi uma garrafa inteira de vinho. Eu grunho e me afasto da mesa, meu corpo todo protestando enquanto me levanto e vou ao banheiro.

Tomo uma ducha rápida e escovo os dentes quando uma pontada de medo aparece no meu estômago.

Mandei um e-mail para ele.

Mandei um e-m ail e disse que deveríamos conversar.

Não estou nada pronta para que isso aconteça. Se ele disser qualquer coisa que tente desculpar seu comportamento eu vou acabar socando ele na cara. Sei disso.

Enxugo meu cabelo com a toalha e nem me importo em escovar antes de colocar meu pijama favorito e rastejar para a cama. Abro um livro e tento ler, mas meus olhos estão turvos. Eu os esfrego e suspiro.

Estou tensa, excitada e bêbada. Porra, preciso transar.

Não me lembro do último cara que me deu prazer. Literalmente. Não tenho ideia de qual era seu nome. Will? Nick? Blake? Sei que é uma sílaba só.

O sei-lá-que-nome era um amante adequado, mas não me fez gozar. Poucos deles fazem . Eles alimentam meu ego e me fazem esquecer por um tempo, mas nunca me fazem sentir como Enzo fazia. Eles também nunca arrancaram meu coração do peito e o rasgaram em milhares de pedacinhos. Então, tudo bem.

Meu telefone toca. Sei que é Matt querendo me contar sobre o mais recente pedaço de mau caminho que ele descobriu no clube.

Pego o telefone e aperto o botão de atender.

— Escuta, rainha da pista, estou bêbada, excitada e sem clima de ouvir sobre os bonitões que não vão transar comigo. Então, pelo amor da minha vagina abandonada, pede outro Cosmo e, por favor, vai se foder.

Há uma pausa e uma tosse incerta.

— Eu ficaria satisfeito em foder, mas, se faz diferença, eu não ia falar sobre paus. Estou muito mais interessado em ouvir sobre sua pobre vagina abandonada. Como ela anda? Não ficamos cara a cara há um tempinho.

O calor toma minha bochecha. Eu não devia ter mais nenhuma vergonha perto dele, ainda assim, parece que sempre consigo encontrar um pouco mais.

— O que você quer, Enzo?

— Bem, considerando que você está bêbada e excitada, eu bem que gostaria de estar à distância de um toque. Se isso não for possível, só queria conversar.

Recebi seu e-mail.

Esfrego os olhos. Não tenho paciência para o charmezinho dele esta noite.

— Sei. O.k.

— Sábado à noite seria ótimo. Obrigado.

— Não me agradeça ainda. Há uma grande chance de não conseguirmos passar a noite sem eu jogar algo em você, mas acho que as coisas não podem ficar muito piores entre nós, né?

Ele ri.

— Não sei. Houve vezes em que fomos menos civilizados do que somos agora. Ainda assim, aprecio a chance de melhorar o clima.

Ele fica em silêncio. E eu também. Costumávamos ser capazes de conversar ao telefone por horas. Agora, mal conseguimos passar um minuto sem o desconforto se estabelecer.

— Então, você só ligou para falar isso? Porque podia ter falado amanhã.

Há silêncio por um momento. Então ele diz:

— Eu liguei para te dizer uma coisa que não podia esperar até amanhã. Um arrepio corre pela minha espinha.

— E o que é?

— Eu só precisava te dizer... Sinto muito, Bonnie.

Paro de respirar e aperto meus olhos quando uma tempestade bizarra de emoções se forma dentro de mim.

Essas palavras. Essas palavras simples e poderosas.

— Bonnie? Está me ouvindo?

— Acho que não. Soou como um pedido de desculpas, mas na sua voz.

Ele suspira.

— Sei que você não me ouviu pedir desculpas o suficiente durante nosso relacionamento e sinto muito por isso também. Mas, antes de passarmos mais um dia juntos, eu tinha de dizer isso. Estava me matando não falar.

No meu choque, eu quase não percebi o quão enrolada está a fala dele.

— Enzo, você estava bebendo, não estava?

— Um pouquinho.

— Um pouquinho?

— Bem, bastante, mas isso não tem nada a ver com o fato de eu estar me desculpando. Eu deveria ter feito isso no momento em que vi você no primeiro dia do ensaio, mas... você não queria escutar. E, bem, você estava assustadora.

— Você não viu meu cabelo depois que saí do chuveiro. Ainda estou assustadora.

— Bobagem. Aposto que está linda.

Ele está bem bêbado. Ele só me elogia quando está perdendo a sensibilidade nos dedos.

— O que está bebendo?

— Uísque.

— Por quê?

— Porque... por causa de você. Bem, de você e de mim. E do beijo. Definitivamente por causa do beijo.

Não digo a ele que bebi uma garrafa inteira de vinho pelo mesmo motivo.

Ele suspira.

— Jesus, Bonnie. Beijar você? — ele grunhe. — Tenho fantasias com isso há três anos, nenhuma delas se compara ao que aconteceu hoje.

Sua voz fica tão baixa que nem sei se ele ainda está falando comigo.

— Senti saudade do seu beijo. Muita.

Saco. Não posso ouvir isso.

— Enzo, por favor...

— Eu sei que não deveria dizer nada disso, mas estou bêbado e sinto saudade e... já falei que estou bêbado?

Eu rio, porque do nada ele é meu amigo novamente. Mas sei que não é real e não vai durar.

— Vai dormir, Enzo.

— Tá, bela Bonnie. Boa noite. E não se esqueça de que eu sinto muito. Por favor.

Sorrio, apesar de tudo.

— Você sabe que vai ter uma ressaca gigante de manhã, né?

Ele ri.

— Alguma coisa que eu disse esta noite fez você me odiar um pouquinho menos?

— Talvez.

— Um pouquinho ou muito?

— Um pouquinho.

— Então valeu a pena.



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