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História Roots - Capítulo 9


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Notas do Autor


Eu sei que demorei para atualizar de novo, mas dessa vez eu não levei um mês, então tecnicamente eu não quebrei promessa alguma! Que vitória, galera!
(Foi só eu dizer que as minhas provas tinham acabado que os meus professores decidiram fazer avaliações orais, tá aí minha desculpa. Rezem para eu não surtar e trancar a faculdade, pfvr).

Algumas considerações antes de ler o capítulo:
• “Mão do Rei” é um conceito criado em Game of Thrones, mas acredito que seja bem autoexplicativo e se encaixa perfeitamente no personagem em que eu o impus.
• Em relação a timeline oficial do mangá/anime, talvez eu modifique um pouco o tempo (exemplo: o que levou uma semana para acontecer na história canônica, talvez aqui leve um mês). Eu sei que é um detalhe mínimo e que poucos se importam ou sequer notam essas coisas, mas só gostaria de deixar isso registrado caso alguém futuramente ache estranho as coisas estarem em “slow motion”.
• Todos os nomes mencionados são de personagens existentes.
• Como a aparência da personagem está a cargo de cada leitor, eu vou evitar descrições muito específicas em relação a roupas (acredito que cor e estilo sejam bem pessoais). Mesma coisa com penteados de cabelo. Até agora eu evitei fazer menções de “coques” ou “rabos-de-cavalo” porque alguém aí pode estar imaginando que a personagem tenha cabelo curtinho, e essa pessoa tem todo o direito de continuar lendo sem que isso seja comprometido. Se você notar que a descrição da aparência da personagem ficou “vaga” em alguma cena, saiba que é proposital, e não desleixo ou preguiça de minha parte! Em resumo, você vai saber que tipo de roupa ela está vestindo e vai saber quando o cabelo dela estiver arrumado, mas os detalhes vão ficar por sua conta, combinado? Logo você vai entender o porquê de eu estar frisando isso agora.
(Como sempre, estou aberta a opiniões e sugestões! Se vocês preferem que eu seja mais específica nessas descrições, posso fazer isso sem problemas).
(Sim, eu sei que isso não interfere em NADA na história).

Gente, seguinte: preparem um lanche, tomem um suquinho e fiquem confortáveis, porque o negócio tá imenso. Eu ia separar em dois capítulos, mas daí pensei... nah... 🙃

Boa leitura e espero te ver lá embaixo!

♪ Softcore — The Neighbourhood

Capítulo 9 - Softcore


Fanfic / Fanfiction Roots - Capítulo 9 - Softcore

 

And every time I kiss you, baby

I can hear the sound of breaking down

 

 

 

???

 

— Tem certeza que quer fazer essa jogada?

Antes que eu pudesse abaixar a rainha na posição que eu havia em mente, a voz do meu pai me impediu. Levantei os olhos para ele e vislumbrei o seu sorriso esperto em minha direção.

Com um suspiro derrotado, eu trouxe a peça de volta para a sua localização prévia no tabuleiro e tentei julgar qual outro movimento eu poderia realizar.

— Entenda... — ele iniciou em um timbre grave. — O que importa não é a jogada em si, e sim as consequências que ela pode vir a desencadear.

Eu o respondi com um murmúrio distraído. Os estalos emitidos pelo fogo na lareira já estavam começando a desviar o meu foco da partida.

Xadrez não era a minha atividade favorita. Era considerado como um jogo, mas eu entendia que jogos possuíam o objetivo de entretenimento e envolviam risadas, improvisos e correria. Não havia nada de divertido em esperar, raciocinar e ficar em silêncio. A infame paciência.

Mas o xadrez era a única coisa que me proporcionava momentos ao lado de um pai.

Uma filha deveria possuir um relacionamento próximo com a sua mãe, enquanto que a figura paterna só se mostraria presente no momento de aprovar o pedido de casamento feito por um pretendente adequado.

Meu pai seguia estritamente essas regras sociais impostas pela sociedade de Mitras. Era um homem de poucas palavras, poucos gestos, poucas aberturas, envolto por suas próprias muralhas.

Porém, quando estávamos sentados um na frente do outro e com o tabuleiro de madeira nos separando, era o momento em que realmente nos encontrávamos.

E se paciência era o que eu precisava para passar algumas poucas horas ao lado do meu pai, eu estava disposta a tentar dominá-la, por mais difícil que fosse.

Em meio a uma decisão precipitada, arrastei a minha torre branca para frente.

Sem precisar pensar muito, meu pai mexeu o seu bispo e eliminou a minha peça, não dando qualquer oportunidade para eu conseguir retribuir com um contra-ataque imediato.

— A repercussão da sua outra jogada teria sido melhor — ele afirmou apaticamente, tomando um gole considerável do seu copo de uísque.

Eu não gostava quando ele bebia.

Aquela era uma prática exclusiva de adultos e não havia como eu acompanhá-lo. Parecia ser só mais uma das inúmeras barreiras entre nós dois.

— O senhor me enganou... — eu o acusei, juntando os lábios em um beiço aborrecido.

— Eu implantei a dúvida, mas não segurei a sua mão e a arrastei para lugar algum... — ele respondeu firmemente, não gostando da minha entonação. — Seja responsável pelos seus atos e escolhas, criança. Sempre.

Eu assenti com a cabeça antes de abaixá-la, sentindo o constrangimento subindo em meu pescoço como um formigamento.

— Perdão...

Não pude ver a sua reação, mas ouvi o seu suspiro comedido, denunciando que ele havia suavizado a sua postura.

— A sua mãe comentou que o seu professor está impressionado com o seu desempenho... — ele pausou, esperando que eu o encarasse de volta. — Apesar de ter manifestado preocupação com a sua distração nas últimas sessões... Me pergunto qual seria o motivo dessa sua alienação...

O meu professor particular era um homem presunçoso que passava mais tempo se gabando sobre os filhos soldados da Polícia Militar do que realmente me ensinando qualquer lição. Ainda assim, era considerado um dos melhores no seu ramo, tendo uma agenda concorrida entre as famílias nobres que queriam propiciar uma educação diferenciada para os seus filhos.

E era melhor do que ficar aprendendo costura, piano e pintura o dia inteiro.

— Eu prometo que vou melhorar! — eu assegurei, quase desesperadamente, fazendo o meu pai me lançar um olhar surpreso. — Eu... Eu quero muito que...

Eu quero muito que você me ame.

— Eu quero que o senhor tenha orgulho de mim...! — a luz das chamas parecia cintilar em sua íris, e eu me forcei a não desviar dos seus olhos, por mais intimidante que aquilo fosse. — Eu prometo que vou me esforçar mais nas lições e... e não vou mais brincar com os filhos plebeus do alfaiate, não vou mais sujar a barra dos meus vestidos na lama e magoar a mamãe... Eu...

Em meio a minha explosão descontrolada, nem sequer percebi que meu pai havia levantado do lugar e se posicionado ao lado da minha cadeira. Ele apoiou um dos joelhos no chão, fazendo o seu rosto ficar na mesma altura que o meu.

Estando tão próximo de mim, pude perceber que havia algo diferente nos seus traços. Algo que eu não sabia explicar o que era.

Mas era denso, melancólico e vulnerável.

Nenhuma criança deveria ter de ver o seu pai vulnerável.

— Qualquer pai teria muito orgulho de você... — com a voz baixa e carregada, ele envolveu o meu rosto em suas mãos, arrastando o polegar de maneira afetuosa sobre a minha bochecha. — Você é a filha perfeita...

O meu coração pareceu transbordar, como se algo houvesse acendido dentro de mim. A sua aprovação era geralmente demonstrada através de afagos breves em meu cabelo ou acenos com a cabeça.

Aquela era a primeira vez que ele havia demonstrado tanto sentimento de uma maneira tão aberta e exposta. Era diferente, mas familiar. Era bom. Era tudo o que eu mais queria. Fazia tudo valer a pena.

Minha respiração acelerou em felicidade à medida que meus lábios foram se curvando em um sorriso radiante.

— Você é perfeita... — ele enfatizou.

As suas mãos abandonaram o meu rosto.

— Mas você não é ela...

No mesmo segundo, o meu sorriso se desmanchou, como tinta dissolvendo em água, e a minha expressão se contorceu em confusão.

— Você não é ela... — ele falou novamente, mais seguro de si, como se ele estivesse se libertando de algum feitiço. — Não é... Não é...

O meu pulso acelerado, que até então estava expressando alegria e entusiasmo, agora denunciava apreensão e pavor. A náusea partiu do fundo do meu estômago e subiu em direção de minha garganta.

— Papai...?

Aquilo pareceu despertar algo impetuoso nele. Em um movimento rápido demais para eu conseguir acompanhar, ele empurrou o tabuleiro de xadrez para longe, lançando todas as peças para o chão.

— Você não é a minha filha! — ele berrou, instintivamente agarrando os meus braços com força, fazendo a cadeira cair para trás e eu me encolher em puro horror.

A sua voz ecoou ao nosso redor, e suas palavras eram como lanças sendo disparadas em minha direção. Os olhos dele estavam brilhantes, o seu cenho estava franzido, mas não havia fúria no seu rosto.

Apenas a tristeza mais bestial que eu já havia visto. Uma melancolia violenta.

— Eu tentei... Eu não consigo mais viver essa mentira... — ele falou em sussurros trêmulos, como se as paredes pudessem nos ouvir, soando tão angustiado quanto aparentava estar. — A minha garotinha nunca sequer conseguiu se levantar da cama... Incurável, o médico peregrino disse... Deixou esse mundo da mesma forma que ela veio...

Ele ficou olhando para mim como se estivesse esperando algum tipo de resposta, mas não consegui segurar o soluço em minha garganta, sentindo as lágrimas transbordando em meus olhos logo em seguida.

Minha mente gritava em frustração.

Eu sou a sua filha!

Eu sou! Eu sou...!

Eu sou...

As suas mãos me largaram, mas eu ainda sentia o formigamento em meus braços nos lugares em que ele havia apertado. Espelhando a minha expressão, ele permitiu que as suas próprias lágrimas escorressem livremente, logo me trazendo para próximo de si em um abraço que não me trouxe qualquer conforto.

— Sinto muito... — ele lamentou com um choro agoniado, trazendo o meu rosto para cima do seu ombro. — Sinto muito...

Fiquei paralisada, sentindo ele desabar, frágil e quebradiço, não mais um homem com tudo sob controle. Eu nunca havia visto um homem chorar antes. Era como se eu estivesse presenciando algo que eu não deveria.

As peças de xadrez esparramadas pelo chão pareciam pequenos seres.

Dentre elas, a rainha havia se afastado de todas as outras. A peça mais poderosa de todo o tabuleiro. O símbolo supremo da nobreza.

Ela parecia me encarar em deboche.

E minha vontade era de jogá-la no fogo.

 

 

850.

 

Mitras havia parado no tempo.

Mesmo após tantos anos sem pisar na capital, os prédios continuavam lustrosos, os habitantes continuavam vestindo roupas extravagantes, e as calçadas continuavam inusitadamente limpas, como se nem sequer houvessem pedestres vagueando diariamente.

Nada havia mudado e, ao mesmo tempo, nada parecia o mesmo.

Eu não sentia senso de familiaridade com as ruas, não sentia nostalgia ao olhar para as estátuas das praças, não reconhecia o meu próprio lar. Era como se eu estivesse pisando lá pela primeira vez em toda a minha vida.

Mike cautelosamente perguntou qual era a minha sensação de estar de volta e eu apenas soltei um riso desconfortável, afirmando não saber como responder aquilo.

Hange notou a minha nítida inquietação, mas não comentou sobre, especialmente considerando o fato de que a carruagem parou em frente ao Tribunal poucos minutos depois.

A construção destacava-se por sua altura majestosa e o revestimento de mármore das figuras segurando balanças que decoravam a entrada. Do lado de fora, Erwin nos aguardava, parecendo o anfitrião de um espetáculo que estava fadado a ser desastroso.

Nenhuma consequência aguardava os soldados da Guarnição que haviam se acovardado enquanto a responsabilidade de matar Titãs ficou a cargo de recrutas novatos e inexperientes durante o protocolo de emergência.

Eren Yeager, no entanto, o qual havia salvado o distrito de Trost e, consequentemente, a Muralha Rose de qualquer ameaça, seria julgado na corte do Exército Real por traição.

O nome de Yeager era sussurrado por todos os cantos, mas para uma população que nunca sequer havia visto um Titã antes, ele era referenciado como uma espécie de atração ou até mesmo uma fábula. Seu nome estava sendo declamado em praças públicas e todo o sofrimento que ainda assombrava Trost parecia ser algo extremamente distante, como se fosse só um conto de ficção com o intuito de entreter os nobres.

— Vamos entrar — Erwin falou, sem tempo para cumprimentos. — Precisamos discutir algumas coisas antes.

Ele nos guiou para dentro do prédio até uma sala privada, ignorando todos os olhares agressivos e esnobes vindos dos soldados da Polícia Militar, como se nós não passássemos de intrusos no seu território.

Levi já nos aguardava, e tanto a postura dele quanto a de Erwin demonstravam tranquilidade demais para quem estaria defendendo o lado com os piores prognósticos possíveis.

— Acredito que não seja novidade alguma para vocês, mas estamos lutando uma batalha em que o time adversário já declarou a vitória — Erwin começou.

— Não sei, chamar a Igreja me cheira a um pouco de desespero... — Mike comentou singelamente, fazendo eu olhar para ele em confusão.

— Como assim “chamar a Igreja”? — eu questionei.

Erwin suspirou, como se houvesse esquecido desse detalhe por um momento.

— A Polícia Militar receberá o apoio da Igreja das Muralhas durante o julgamento — ele respondeu, o que fez Hange resmungar em aborrecimento como ênfase.

— Então... — eu tive de pausar para poder rir, tanto em descrença quanto em cansaço acumulado dos últimos dias. — Estaremos batendo de frente com a Polícia Militar e com líderes religiosos de amplo apoio popular? Como, exatamente, pretendemos ganhar isso?

— Com diálogo civilizado e embasamento científico.

Todos olharam para Erwin em evidente incredulidade, esperando pelo momento em que ele começaria a rir de sua própria piada, mas ele manteve o semblante calmo e coletado.

Fala sério! — Hange gargalhou com a cabeça para trás.

— Erwin, o mais próximo que temos de uma pessoa civilizada nessa sala é você — Levi argumentou.

— E digamos que o civilizado e científico não deem certo? — eu teorizei, nem um pouco convencida que o caminho mais ético fosse o mais ideal naquela situação, mas claramente Erwin também estava ciente disso.

— Honestamente, acho que devemos usar medidas drásticas... — Hange propôs seriamente e se voltou para mim. — Comece a chorar desesperadamente no meio do seu depoimento... Homens são fracos e ficam desconfortáveis com mulheres chorando.

— Até concordo com essa afirmação, mas Darius faz mais o tipo que alegaria histeria e a mandaria para a prisão — Mike contestou.

— Bem, já que entramos nesse assunto... Que tipo de homem é o Darius? — eu perguntei, sendo a única que não havia tido contato prévio com o General do Exército.

Os quatro se entreolharam, como se a minha pergunta fosse algo de extrema complexidade, até que Levi respondeu em nome do grupo.

— Darius Zackly é o tipo de cara que arrancaria as costelas para poder chupar o próprio pau.

Olhei para ele boquiaberta enquanto Mike apenas deu de ombros em concordância e Hange falhou em tentar segurar a sua risada vulgar.

Apesar da sua expressão de reprovação, Erwin não conseguiu argumentar contra a afirmação brutalmente honesta de Levi.

De qualquer forma, parecia ser uma descrição justa para um homem com tanto poder em suas mãos.

Ótimo... — eu assenti com a cabeça. — Estamos ferrados.

— Se for necessário, Levi executará o nosso plano B — Erwin declarou, soando como se este fosse um método infalível.

— ...E qual seria esse plano B? — eu me virei para Levi em aflição.

Ele apenas sorriu sutilmente, da mesma forma que alguém faz ao lembrar de uma piada interna.

— Você verá.

 

 

Teto constituído por um extenso afresco. Balcões nas laterais, como se fossem camarotes de um teatro. Colunas monumentais. Ao menos os fundos de investimento do Exército Real estavam sendo bem aproveitados em algum lugar.

Do alto da mesa principal, o altar do Tribunal, Darius, cercado por um assistente em cada lado, dispensou a toga, optando por permanecer com a sua veste de civil.

Talvez fosse um ato intencional e com o intuito de conquistar a confiança do réu, talvez ele não se importava com normas tradicionais devido ao simples fato de comandar tudo e todos ali presentes.

A placa de identificação revestida por cobre esbanjava uma série de títulos estonteantes.

Vossa Excelência Senhor Juiz Darius Zackly

General das Forças Armadas

Salvador das Muralhas Sagradas e Mão do Rei

Aquele era o supremo líder das três divisões do exército, perdendo apenas para o homem que reinava sobre as três Muralhas, o próprio Rei Fritz. Difícil não se sentir intimidada.

No centro, em uma posição inferior a de todos, estava Eren de joelhos e com os braços acorrentados em um poste. Seus olhos frenéticos e ansiosos percorriam pelo local.

Com uma breve e calculada introdução, sem qualquer solenidade de abertura que cumprimentasse os superiores que estavam presentes, Darius foi claro ao afirmar que o destino de Eren estava somente em suas mãos, e o garoto foi esperto o suficiente ao aceitar aquilo sem qualquer objeção.

Após a apresentação da proposta da Polícia Militar que consistia basicamente em aniquilação, Erwin seguiu com o plano inicial de explicar o projeto de retomada da Muralha Maria com a assistência dos poderes de Eren. A conquista de Trost, por mais casualidades que houvesse causado, foi um argumento difícil de ser refutado.

Nile, que parecia não ter mudado nem um pouco desde a última vez que eu havia o visto há 4 anos, fez um interrogatório incansável com Mikasa e Armin, questionando-os acerca das condutas do réu durante o período de treinamento, detalhes específicos de sua rotina, se ele havia mostrado algum sinal de comportamento antissocial, impulsos homicidas ou até mesmo canibalismo, o que fez Eren arregalar os olhos em espanto.

Pelo fato de termos entregue relatórios, eu e Rico fomos poupadas de ter de responder à pergunta. Estava claro que Nile preferia importunar os recrutas em admitirem que Eren sempre havia sido um traidor da humanidade, mas quando os dois permaneceram fiéis à Yeager, os olhos do Comandante da Polícia Militar pousaram em mim, não demorando para cintilarem em reconhecimento.

— Soldado... — Nile me chamou, não poupando a perversidade impregnada em sua voz quando ele falou o meu nome. Não restavam dúvidas de que ele sabia exatamente quem eu era.

Com um suspiro inaudível, eu me preparei para o pior.

— Sim, senhor?

— No relatório consta que o motivo de você não ter participado da expedição com o restante da Tropa de Exploração é em razão de estar cumprindo uma penalidade por mau comportamento, correto? — ele afirmou, soando como se estivesse fazendo referência à uma criança ou um cachorro indisciplinado com a sua escolha de palavras, e antes que eu pudesse confirmar qualquer coisa, ele apenas continuou. — Essa não é a primeira vez que você demonstra uma conduta imoral...

— Protesto, Meritíssimo — Erwin contestou firmemente e se voltou para Darius. — Eu falho em entender a relevância dessas declarações. O Sr. Dok está antagonizando a testemunha.

Com a sua voz cortês e a sua postura majestosa, Erwin era capaz de colocar uma auréola sobre a cabeça do próprio diabo.

— Concedido — Darius aceitou. — Comandante Dok, aonde você quer chegar com isso?

— No relatório da Srta. Brzenska está descrito que a soldado em questão desafiou ordens diretas do Sr. Weilman do Corpo Estacionário em prol de defender a vida do réu, mesmo quando este demonstrou ser perigoso e uma ameaça para a tropa e os demais cidadãos do distrito de Trost... — Nile abaixou o papel em sua mão, me encarando diretamente. — Eu me questiono quais seriam as motivações que a levaram a defender um monstro com tanto... vigor. É de se supor que um soldado da Exploração seria o primeiro a mostrar-se a favor de eliminar um Titã. Tudo isso me soa como a atitude de uma cúmplice.

Enquanto Nile falava, eu encarei Rico pelo canto do olho, e ela apenas me encarou de volta, não parecendo estar nem um pouco arrependida. Omitir informações em um relatório oficial era considerado algo extremamente sério, então eu nem sequer podia julgar a sua postura ridiculamente ética e correta.

A atenção de todos se voltou para mim, e dessa vez não havia como o Erwin me resgatar.

Em um rápido vislumbre na direção do balcão dos superiores que estavam assistindo a audiência, percebi Hange fazendo gestos para eu começar a chorar, enquanto Mike apenas balançou a cabeça em oposição para aquela ideia.

— Eu nunca tive qualquer ligação com o réu antes daquele fatídico dia — eu assegurei. — Ademais, além do fato do Sr. Weilman ter se mostrado emocionalmente instável para tomar decisões naquela ocasião, acredito que o que me levou a defender a vida do recruta Yeager foi o meu entendimento de que ele representa um objeto de interesse para a humanidade, então a única entidade capaz de julgar o valor de sua vida de maneira imparcial é a Corte do Exército Real, e não um homem que acabou de perder os seus soldados.

Quando Nile falhou em conseguir responder após um mísero segundo, eu decidi selar toda aquela palestra absurda com chave de ouro.

— Afinal de contas, nem mesmo um Titã está acima da lei... — eu sorri inocentemente antes de me voltar para o Ministro Nick. — Só o Deus criador das Muralhas, claro. Aleluia, amém.

Senti o peso dos olhares vindos dos soldados da Exploração e da Guarnição me encarando como se eu tivesse crescido uma segunda cabeça. Do alto, Hange cobria a sua boca.

Não em choque, mas em uma tentativa de segurar a sua risada.

A expressão de Darius permaneceu impassível, mas no instante em que ele e o público se voltaram na direção de Nile para aguardar por sua réplica, percebi que o meu discurso extremamente bajulador havia surtido o efeito desejado.

— Sem mais perguntas... — Nile declarou, já tendo perdido a sua agressividade.

Instintivamente virei para o lado e vi o indício de um sorriso nos lábios de Erwin quando nossos olhares se cruzaram por um breve segundo.

Sua falsa do caralho... — Levi falou debaixo de sua respiração, e por mais que só fosse um sussurro, havia divertimento em seu tom, fazendo com que eu não conseguisse impedir o meu próprio sorriso.

Durante toda a sessão, Eren apenas falou quando Darius dirigia-se a ele, mas o seu rosto permaneceu um livro aberto. Ele piscava freneticamente os olhos a todo momento, franzia a testa, olhava em volta, abria e fechava a boca sem emitir qualquer som.

Tudo sobre ele era exagerado.

As suas reações, o seu passado duvidoso, até mesmo o brilho dos seus olhos.

Eren aguentou todas as acusações sobre ele ser um monstro, traidor e herege, e nem sequer protestou contra as ameaças de dissecação e experimentos no seu corpo, mas no momento que isso foi direcionado a Mikasa devido à ligação familiar que os dois possuíam, ele perdeu a compostura.

Em meio a xingamentos e berros que ecoaram, Eren declarou o seu repúdio a todos aqueles que estavam no poder e nunca haviam enfrentado um Titãs antes, e era difícil de julgar se aquela sua explosão era bravura ou apenas estupidez.

A força que ele exerceu sobre os pulsos algemados fez com que um rastro de vapor surgisse, uma sutil lembrança do que ele realmente era.

Ao mesmo tempo que Nile desesperadamente ordenou um dos seus soldados a apontar a sua arma de fogo na direção de Eren, Erwin apenas precisou emitir um único nome.

Levi.

Rápido demais para que pudesse ser acompanhado, Levi ultrapassou o cercado em nossa frente e foi na direção de Eren, dando um chute certeiro no rosto do garoto.

Antes que Eren pudesse reagir, a sola da bota de Levi havia colidido novamente nele, e outra, e outra, e outra vez, até que o único som em todo o tribunal era o dos gemidos dolorosos do recruta.

A Polícia Militar, que antes estava confiante com as suas promessas de tortura e dissecação, haviam acovardado diante da possibilidade de Eren enfurecer e de se transformar em Titã ali mesmo.

Levi continuou usando o seu método mais eficaz, e através da violência, conseguiu auxiliar Erwin em convencer Darius de que apenas o Capitão da Tropa de Exploração havia os meios para conseguir manter Eren sob controle e, eventualmente, conseguir controlá-lo em sua forma bestial.

Talvez nenhum humano estivesse acima do sistema disfuncional e injusto das Muralhas.

Mas nenhum Titã estava acima de Levi.

 

 

— Eu sei que as nossas vidas são conturbadas e não há tempo para coisas fúteis como sentimentos... Mas eu quero que você saiba que você é o homem da minha vida. Eu nunca tive uma ligação tão forte com alguém antes. Você não me contradiz, não enche a minha paciência, você nem sequer fala. Talvez a falta de genitália possa vir a ser um problema, mas o amor supera tudo.

— Céus... — Rico murmurou ao meu lado enquanto Nifa apenas riu graciosamente. — Eu nunca estive tão perturbada em toda a minha vida.

— Não escute essa recalcada, Sonny — eu falei. — Quando tudo isso acabar, vamos nos casar.

A única resposta que o Titã capturado deu foi um rugido incoerente.

— Eu prefiro orquídeas brancas, mas você que sabe...

— São esses os tais dos experimentos visionários que vão trazer novas descobertas acerca dessas bestas? — Rico questionou em desdém.

— Na ciência e no amor, tudo é válido.

— Na guerra e no amor — Rico me corrigiu. — Experimento ou não, o seu amado ali não vai hesitar em te comer inteira, e não no bom sentido.

Me virei para ela com os olhos arregalados e boquiaberta.

— Rico, você tem um senso de humor?! — eu proclamei em um espanto completamente exagerado. — Rápido, Nifa, anota isso!

— Cala a boca.

Sonny e Bean, como Hange havia carinhosamente os batizado, eram os dois únicos Titãs que haviam restado dentro do distrito após a retomada de Trost. Mesmo com as estacas de ferro, fios e pregos os imobilizando, havia sido erguida uma barreira provisória ao redor dos dois no pátio do quartel-general com a ajuda dos soldados da Guarnição. Era também uma forma de deixar a existência deles longe do conhecimento dos cidadãos.

— Ei! — Moblit apareceu de repente, fazendo com que eu me virasse para trás. — O Comandante está te chamando na sala dele.

— Eu não fiz nada... — respondi involuntariamente e com um suspiro desolado. — Você sabe o que ele quer?

Alguém sabe? — Moblit replicou em deboche.

— Realmente...

Antes que eu pudesse sair do pátio e ir até o prédio em que as salas dos superiores da Exploração estavam localizadas, percebi Rico vindo atrás de mim, o que fez eu me virar para ela em questionamento.

Em uma maneira extremamente fora do seu padrão, ela limpou a garganta, demonstrando estar um tanto... nervosa.

— Acredito que eu lhe devo um pedido de desculpas — ela disse, e apesar do seu tom ser firme e frio, era possível notar que o sentimento era genuíno.

— Não é necessário... — eu afirmei, mas Rico me desconsiderou ao balançar a sua cabeça em negação.

— Você lutou bravamente ao lado de Ivan e Mitabi... — ela continuou, fraquejando levemente ao mencionar o nome deles. — Serei eternamente grata.

Algo em meu peito pareceu afundar em um peso insuportável. Eu queria dizer a ela que eu poderia ter feito mais, e que ambos haviam sido soldados melhores do que eu jamais seria, mas as palavras ficaram presas, então apenas assenti fracamente com a cabeça.

— Eu estava errada... — Rico admitiu com a expressão estoica. — Você não é uma vadia energúmena.

Não consegui evitar o meu sorriso ao ouvir ela dizer aquilo na sua voz metódica.

— Obrigada, Rico... Você não é tão vaca quanto dizem.

Se ela estava surpresa com o fato de que chamavam ela daquilo por trás de suas costas, ela não demonstrou, e cada uma seguiu o seu rumo.

Assim que eu subi as escadas até o andar da sala do Comandante, já consegui ouvir vozes inquietantes e abafadas ecoando pelo corredor.

Dei duas batidas na porta, fazendo o barulho amenizar. A sala foi aberta abruptamente, mas ao invés de eu me deparar com cabelos dourados e olhos azuis, fui cumprimentada por Hange, a qual rapidamente me arrastou para dentro.

— Novidades?! — ela perguntou euforicamente.

— Não, o Sonny me rejeitou de novo... — eu dei de ombros.

Hange estalou a língua em desapontamento, como se ela genuinamente ainda possuísse esperanças de que os Titãs fossem responder a nossa tentativa de comunicação verbal.

— Ele é um cara meio difícil, mas uma hora ele vai ceder aos seus encantos...

— Sobre o que as duas perturbadas estão falando?

Dando um passo para o lado, encontrei Levi de braços cruzados e encostado perto da estante de Erwin, a qual exibia livros, certificados, láureas e presentes de admiradores.     Era como se ele também fosse um prêmio que merecesse ser exposto.

— O que você está fazendo aqui? — eu o questionei antes de conseguir me controlar.

— Sempre um prazer ver você também — Levi revidou calmamente.

— E quanto ao Eren?!

— Desmembrei o corpo e dei as partes para os lobos.

Estreitei os olhos para ele e forcei uma risada sarcástica.

Após a decisão feita na audiência, o Esquadrão de Operações Especiais havia recebido a autorização de ficar encarregado de supervisionar Eren até a próxima expedição. A única coisa que eu sabia era de que eles haviam ocupado a antiga base da Exploração no dia anterior, então eu não havia esperado ver Levi tão cedo.

— O recruta Yeager está em boas mãos — Erwin assegurou, trazendo a minha atenção até ele. — Já que agora estão todos presentes, acredito que podemos dar início.

Hange e Levi não questionaram a ausência de Mike, o que denotava que eles já sabiam o motivo.

Observei Erwin retirar um envelope da primeira gaveta de sua mesa e o levantar, mostrando os três símbolo das divisões do Exército Real no selo. Levi exalou uma maldição enquanto Hange, de maneira muito menos sutil, grunhiu em aborrecimento.

Eu apenas olhei para os dois em confusão, claramente sendo a única que não sabia o que aquele envelope significava.

— Certo... — eu falei quando ninguém se propôs a me explicar o que estava acontecendo. — Alguém quer me dizer o motivo de tanto descontentamento com um pedaço de papel?

Erwin fez as honras e estendeu o braço para poder me alcançar o envelope.

A Sua Excelência o Senhor Digníssimo Erwin Smith, Comandante do Corpo de Investigação, em letras douradas, estampavam a parte exterior, o que fez eu erguer as sobrancelhas.

— Que chique... — murmurei, apesar de poder ter soado como gozação.

Gentilmente desprendi o selo já corrompido e retirei o convite de dentro antes de começar a lê-lo em voz alta.

— Vossa Excelência... Blá blá blá... Antecipo-lhe que o Excelentíssimo Senhor anteriormente dispunha de meu interesse, mas neste instante detém o meu devotamento... Mi mi mi... — fui percorrendo pelas palavras com rapidez, querendo chegar direto ao ponto. — ...Convido Vossa Excelência e demais autoridades a participarem do baile do Exército Real... Atenciosamente... Darius Zackly...

Eu pausei por um momento, tendo de reler a última frase. De repente, as reações de Levi e Hange fizeram sentido. Aquele era um convite para um evento social com chefes do exército e a elite de Mitras. Disputa de status. Champanhe borbulhando. Falsas cortesias. Massagem de egos.

Tentei respirar fundo para poder conter o meu riso, mas não provou ser efetivo. Devolvi o convite para Erwin em meio a gargalhadas maléficas que ecoaram por todo o seu escritório.

— Boa festa amanhã, galera! — dei um aceno debochado antes de me voltar em direção da porta.

— Parada aí! — ouvi Hange berrar logo atrás, o que fez eu apertar o passo para poder escapar.

Antes que eu pudesse agarrar a maçaneta, Hange atravessou-se em minha frente e protegeu a porta com os dois braços, impedindo que eu passasse.

— Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, meu amor! — ela recitou para mim agressivamente.

Tentei contornar o corpo dela com um empurrão, mas ela permaneceu firme em frente da porta.

— Ah, desculpa, eu não lembro de ter usado um véu quando virei a sua subordinada? — eu rebati.

— Esquadrão, casamento, tudo a mesma coisa... — Hange deu de ombros, como se aquela afirmação fosse óbvia.

Tentei pegá-la desprevenida com mais um empurrão de lado, mas ela retribui com um próprio, o que fez ficarmos em uma vai e vem até Erwin suspirar.

Senhoras... — ele pronunciou, dando ênfase no pronome para poder evidenciar ainda mais o nosso comportamento infantil. — Eu sei que não é uma conjuntura agradável, mas precisamos nos manter nas boas graças de Darius até a poeira baixar.

— Eu tenho que cuidar da porra de um garoto mutante — Levi defendeu-se.

— Bem, se é assim, eu tenho duas crianças para cuidar, você não é especial... — Hange cruzou os braços teimosamente.

— Eu... sou uma excelente babá de aberrações — tentei argumentar pateticamente. — De qualquer forma, o convite diz “autoridades”, tecnicamente eu não tenho nada que ver com isso, nem sei o que estou fazendo aqui. Chamem o Mike!

— O Mike ficará como meu substituto durante a minha ausência — Erwin explicou antes de permitir que um sorriso esperto agraciasse os seus lábios. — E você é a mulher da vez... Qual seria a graça da Exploração comparecer sem a única soldado que estava presente na Batalha de Trost?

Tentei conjecturar uma resposta rápida, mas o olhar desafiador de Erwin foi capaz de fazer com que as palavras em minha mente não formassem qualquer frase boa o suficiente para me tirar daquela situação.

— Eu não posso ser a única aqui que está achando tudo isso bem estranho... — assim que eu falei isso, os olhos de Erwin cintilaram em curiosidade na minha direção. — Quer dizer, perdão pela minha paranoia, mas no dia que a Exploração estava ausente, o Titã Colossal decide aparecer. Agora querem que os superiores da Exploração fiquem ausentes novamente... Eu temo pela segurança do garoto...

— Você acredita na possibilidade de existir envolvimento da Polícia Militar? ...Talvez da Igreja das Muralhas? — Erwin foi preciso nas suas colocações, o que indicava que ele já estava ciente do quão suspeita a situação era e já havia supostos culpados em mente.

Durante todo aquele tempo, ele só havia esperado o momento certo de eu mencionar algo para poder revelar isso.

E possivelmente já havia formulado um plano que ainda não estava me falando.

Sempre um passo à frente.

— Essas são acusações bem sérias, Comandante... — eu afirmei, não deixando evidente se eu estava concordando com ele ou não.

— Você não está errada em suspeitar das coincidências que envolvem o ataque em Trost... — Erwin alegou. A voz aveludada e o sorriso harmonioso haviam desaparecido completamente, dando espaço para uma expressão sombria. — Temos motivos para acreditar que isso está sendo um trabalho interno. Apenas a Guarnição e a Polícia Militar sabem o nosso cronograma. Porém, uma vez que as perdas foram em grande número, é improvável que a Guarnição esteja por trás disso...

Permaneci em silêncio, permitindo que ele continuasse.

— Baseado em sua aliança e no comportamento que demonstraram durante o julgamento do Eren, há a possibilidade de que a Polícia Militar e a Igreja das Muralhas estejam conspirando para nos sabotar... Para que fim específico, ainda não temos certeza...

Duas das organizações mais poderosas conspirando para sabotar a humanidade. As palavras dele faziam sentido em termos técnicos, e por mais que ele não soubesse dizer o motivo de tudo isso, Erwin havia sido minucioso na hora de ligar os pontos.

Era difícil de julgar a razão específica de ele estar expondo tudo aquilo para mim, mas nada do que Erwin fazia ou falava era sem propósito.

— Volta um pouco... — Levi fez um gesto com o dedo, o arrastando para o lado. — Por que você temeria a segurança do Yeager? Os idiotas da capital, até mesmo os da Polícia, se cagam de medo dele, isso ficou bem claro na audiência... Há algo que você queira compartilhar?

Levi podia não ser bom em se expressar, mas o que poucos se davam conta era de que ele era um bom ouvinte, sendo capaz de absorver os mais pequenos detalhes nas entrelinhas.

A maneira como os olhos dele me encurralaram foi como se ele pudesse ter acesso à cada parte de minha mente.

— Eu sei tanto quanto vocês — eu o encarei de volta, decidida a não ficar intimidada diante dele. — Só não acho que seja uma boa ideia deixá-lo indefeso nesse momento, ele... é só uma criança.

— Você fala como se fosse a mãezinha dele... O que foi, o garoto Titã despertou os seus instintos maternos? — Levi ironizou, fazendo eu revirar os olhos. — Ele vai ficar bem, matou um homem antes de bater a primeira punheta. E meu esquadrão está lá, ninguém vai chegar perto dele.

— Espera, então você realmente está cogitando participar disso? — eu o questionei, não escondendo o meu choque. — Você?!

Ouvi Hange começar a gargalhar, o que fez Levi lançar a ela um olhar nem um pouco agradável.

— É claro que ele vai, os nobres idolatram o nanico e a sua carranca! — ela afirmou entre risinhos histéricos. — Toda vez que o Levi vai nessas coisas, eles ficam fazendo propostas do tipo... “Seja meu guarda-costas particular, durma com a minha esposa, mije na minha cara, desvirgine a minha filha.

Fiquei boquiaberta por um momento e quando Levi não desmentiu as afirmações de Hange, minha expressão de espanto transformou-se em desgosto.

— ...Mijar aonde?!

— Ninguém... vai mijar em ninguém... — Erwin massageou as suas pálpebras, como se houvesse se arrependido de ter dito aquilo em voz alta.

— Você tem um plano... — eu me voltei para o Comandante. — Se você realmente suspeita que tudo isso é um trabalho interno, você não vai simplesmente abandonar Trost sem um bom motivo.

Ele me olhou sem aparentar qualquer indício de surpresa para a minha acusação.

— Não se preocupe com os detalhes... — ele disse de forma despreocupada, demonstrando a mesma confiança que ele teve no dia do julgamento. — Foque em socializar e aproveite a noite.

Tentei não transparecer que eu havia entendido que ele não confiava em mim.

Não o suficiente para revelar as suas verdadeiras intenções, pelo menos.

Erwin poderia enganar os outros com a sua fala mansa e com o seu semblante honesto, mas eu conseguia ver através dele, e muito provável que ele conseguia ver atrás de mim também.

— Tudo o que você precisa fazer é ir lá, usar o seu linguajar rebuscado de garota rica e sorrir para os imbecis que vão torcer o pescoço pelo seu rostinho bonitinho — Levi explanou em um tom muito menos gentil que o do Erwin. Era como se ele fosse o tradutor do Comandante, não me poupando dos detalhes sórdidos.

— “Rostinho bonitinho”...? Bonitinho?! — eu repeti em extrema ofensa. — Levi, “bonitinho” é como alguém chama um cordeiro recém-nascido!

Com um suspiro, Hange apoiou-se na ponta da mesa de Erwin e voltou-se para ele com os braços cruzados.

— Erwin, de acordo com os meus cálculos, a chance de isso dar merda é bem grande.

— ...Eu sei.

 

 

Todos sabiam que a Polícia Militar não precisava fazer trabalho sujo.

Não do tipo literal.

Em virtude disso, a imagem que os nobres possuíam do exército se baseava em uniformes polidos e uma apresentação impecável. Além disso, os únicos permitidos a andarem a cavalo na capital eram soldados específicos, por isso fomos obrigados a partir de Hermiha em uma carruagem enviada cordialmente pelos assessores de Darius.

Com Erwin e Levi em um lado, e Hange e eu do outro, éramos o protótipo de família nobre mais disfuncional que já havia agraciado aqueles bancos de veludo.

— Que saudades do Bean... Que saudades do Sonny... — Hange choramingou dramaticamente enquanto olhava para a paisagem do lado de fora da janela da cabine. — Eu já estou arrependida... Será que se nós quatro nos jogarmos para um lado, esse negócio capota, sofremos um acidente e conseguimos uma desculpa para voltar?

— A essa hora amanhã, já estaremos de volta — Erwin assegurou, recebendo um olhar entediado vindo de Hange.

— Então capotar a carruagem está fora de cogitações?

Hange — ele advertiu gentilmente.

Erwin.

Dei um chute leve na perna de Levi em minha frente, o que fez ele olhar para mim em descontentamento.

— Me mata logo... — eu implorei em uma voz arrastada e com uma mão apoiando a cabeça após ter de ouvir as lamentações de Hange na última hora. — Anda, é a sua chance.

 

 

Em menos de uma semana, eu havia pisado em Mitras duas vezes.

Na primeira vez, envolta pela incerteza do futuro de Eren, foi difícil de conseguir prestar atenção aos meus arredores com tanta cautela.

Na segunda vez, no entanto, não fui capaz de escapar do ouro e da superficialidade. Uma vez na capital, era preciso seguir as regras social exorbitantes, e um evento do Exército Real representava tudo o que era de mais sagrado para os nobres.

Aparências.

Os hotéis da capital eram comumente habitados por nobres dos distritos de Sina, comerciantes influentes, familiares de integrantes da Polícia Militar ou quaisquer outros indivíduos com algum motivo ostensivo para estar em Mitras, então os aposentos seguiam um padrão pomposo.

Cortinas até o chão, assoalhos reluzentes, tapetes felpudos, roupas de cama do algodão mais puro, serviçais à disposição, essência de vanilla no ar. Eu nem lembrava que meu olfato conseguia sentir cheiros que não fossem metal enferrujado, gás dos cilindros dos dispositivos ou cadáveres queimando.

— Nunca achei que eu fosse ser confundida como sendo esposa de alguém... — Hange falou, simulando um calafrio horripilante ao fazer menção do estilista da boutique achando que nós éramos esposas de soldados, por mais que estivéssemos vestindo o uniforme formal do Corpo de Investigação.

— Olhe pelo lado bom, isso deve significar que ainda há esperança para nós duas... — murmurei enquanto delicadamente pintei os olhos dela com a maquiagem que Nifa havia providenciado de última hora.

— Que pena, eu achei que aquele plano de irmos juntas para um asilo ainda estava de pé...

— Hange, eu amo você, mas não vai ser eu quem vai te dar sopa no fim da vida... Mesmo se tudo der errado, o Moblit ainda casaria com você na primeira oportunidade. Sabia que ele fala de você para a mãe dele? — coloquei o pincel na penteadeira antes de me voltar para ela, mesmo sabendo que, sem os óculos, a sua visão estava embaçada e ela não conseguia ver direito. — Voilà.

— Ah, esses caras mais novos... — ela suspirou exageradamente enquanto eu a ajudei a colocar os seus óculos de volta entre risos.

Era terapêutico falar do futuro e de coisas fúteis como se as chances de nós envelhecermos fossem realmente altas. No fundo, nós sabíamos que a probabilidade de sobrevivermos além da média de um soldado da Exploração era rasa, mas fazer falsas promessas deixava o desconhecido menos sombrio.

Para alguém que dedicava a sua vida para a ciência, Hange sabia lidar com as expectativas do amanhã de uma maneira bem menos metódica e fria.

Assim que ela terminou de arrumar os óculos e piscou algumas vezes, ela liberou um som surpreso ao me olhar, o que me fez ficar em alerta.

— Você está tão linda... — ela contemplou, posicionando as mãos sobre o peito como ênfase de sua admiração, o que fez eu começar a rir timidamente. — Você é o cordeiro recém-nascido mais bonito de todas as Muralhas... Majestosa como um Titã Aberrante...

— Quer saber? Vindo de você, esse deve ser o melhor elogio que eu já recebi... — arrumei uma mecha solta do cabelo dela, voltando a prendê-la no seu penteado preso. — Você também está deslumbrante como um Aberrante.

Por mais absurdo que aquele elogio soasse, o sentimento era genuíno. Não que Hange se importasse com aquilo, mas a sua personalidade intensa e o seu entusiasmo com Titãs muitas vezes intimidavam os outros, fazendo eles não perceberam o quão bonita ela era.

— São os seus olhos... — ela deu uma piscadela para mim. — Mas o que você me diz? Há chances de eu conseguir seduzir o Erwin e nos tirar dessa?

— Acho que é um pouco tarde para isso... — eu afirmei, olhando na direção da janela e encontrando indícios do sol se pondo entre as construções. — Mas se você quiser seduzir o Erwin, eu não vou te impedir... Na verdade, seria bem engraçado de assistir.

Hange bufou em derrota e levantou-se da cadeira, permitindo que eu sentasse no seu lugar. Ela retirou o seu roupão para poder se vestir, completamente desconsiderando o biombo presente no quarto.

— Às vezes eu esqueço que você nasceu no meio de tudo isso... — ela comentou de maneira quase apreensiva, parecendo estar receosa de me ofender acidentalmente.

— Eu também... — respondi em voz baixa, distraída com um porta-joias decorativo enquanto ouvia o farfalhar de roupas.

— Se você quisesse, o Erwin te concederia um dia a mais aqui para... — ela pausou por um breve instante. — Você sabe...

Visitar túmulos na minha antiga casa e lamentar aquilo que não podia ser mudado.

— Isso não será necessário — eu garanti, sutilmente dando um fim naquela discussão. — Mas agradeço a sua preocupação.

Hange possuía a tendência de insistir nos assuntos, mas naquele em particular, ela evitava fazer questionamentos, mesmo quando era quase possível ouvir as engrenagens na sua cabeça.

Senti os braços dela envolverem os meus ombros em um abraço por trás, o que fez eu sorrir para o reflexo dela através do espelho da penteadeira em minha frente.

— Você sabe que pode me contar qualquer coisa... — ela disse em um tom sério.

Desviei os olhos para baixo antes de conseguir perceber o meu equívoco.

— Hange...

Ouvimos batidas na porta do quarto, o que fez nós duas olharmos para trás simultaneamente.

— Três toques... Um segundo e meio entre os dois últimos... — ela confirmou lentamente, pronunciando o seu pensamento em voz alta. — Qual é a senha?!

Estaremos aguardando lá embaixo — foi possível ouvir Erwin respondendo do outro lado da porta e, sem surpresa alguma, ele ignorou o berro de Hange.

— Sem graça... — ela resmungou antes de apertar os meus ombros uma última vez e se afastar.

Observei ela posicionar a sua bagagem sobre uma das camas e retirar uma faca do meio de suas roupas sem qualquer cerimônia. Levantando a barra do seu vestido, ela amarrou um suporte em sua coxa e a colocou ali antes de abaixar o tecido novamente.

— Deixa eu adivinhar... — eu falei de maneira indiferente, mas sem conseguir evitar a minha expressão aborrecida. — Vocês três estão indo armados e eu vou ter de desempenhar o papel de donzela em apuros...

— Não seja dramática, isso é só em caso de emergência — ela dispensou a minha queixa com um balanço despreocupado de sua mão.

— Que tipo de emergência vocês esperam se deparar em um evento social? — eu a questionei em desconfiança.

— Nunca se sabe... — ela deu de ombros despretensiosamente, o que não ajudou nem um pouco em suavizar o meu olhar cético. — Vamos, vista-se! Daqui a pouco estamos de saída.

Quando ela notou que a minha cara permaneceu emburrada, ela se aproximou de mim e ergue o canto dos meus lábios com os dedos em uma tentativa de fazer eu voltar a sorrir.

— Quer relaxar um pouco? Talvez essa noite seja até divertida, no fim das contas!

— Não era você que estava cogitando seduzir o Erwin para poder ir embora há poucos minutos? — eu a acusei.

— Sim, mas eu acabei de lembrar do quanto os seus conterrâneos gostam de um buffet.

Balancei a cabeça para a sua mudança de atitude repentina enquanto olhei ela colocando os seus calçados e indo até a porta. Com um último aviso para eu não demorar, ela foi ao encontro de Erwin e Levi, me deixando sozinha no quarto.

Após alguns segundos em silêncio, foi como se a minha consciência finalmente houvesse assimilado o fato de que eu estava em Mitras, e o papel de parede floral ao meu redor pareceu se aproximar, como se eu estivesse sendo encurralada.

As conversas suaves que vinham de fora se transformaram em sussurros ameaçadores, e antes que o sentimento amedrontador de estar sendo vigiada pudesse atingir as minhas entranhas, eu fechei as janelas do quarto com um estrondo.

Minhas mãos não paravam de tremer.

 

 

Os habitantes da capital estavam acostumados com mulheres no exército, principalmente com as da Polícia Militar, mas era inegável que um homem fardado chamava muito mais atenção. Em contrapartida, quando uma mulher colocava um vestido, independente do seu cargo, era o momento em que ela realmente aparecia.

Quando eu e Hange havíamos chegado com os nossos uniformes, fomos encaradas de maneira indiferente ou até mesmo com aflição por parte daqueles que notavam o símbolo da Exploração.

No instante em que eu pisei para fora do quarto em um vestido longo, com o cabelo arrumado e o rosto sadio e minimamente enfeitado, o restante dos hóspedes começaram a me ver como se eu fosse a filha de um aristocrata ou a esposa troféu de algum nobre influente.

Os homens levantavam os chapéus em cumprimento e as mulheres sorriam para mim como se fossemos conhecidas de longa data. Foi como se eu houvesse voltado a incorporar o papel que eu havia interpretado há anos atrás.

Ao chegar nas escadas que levavam até o saguão do hotel, percebi uma figura familiar aguardando no andar de baixo.

Fazendo jus aos seus sentidos aguçados, Levi se virou para trás e fixou os olhos em mim, conseguindo fazer com que eu involuntariamente segurasse a respiração.

Com o cabelo penteado para trás, dando ainda mais evidência ao seu undercut, e com o terno impecável, Levi conseguia se infiltrar naquele ambiente de forma natural, e ninguém ali poderia imaginar que aquele homem havia surgido do local que era considerado o berço da escória da sociedade.

À medida que desci os degraus até ele, foi como se o mundo ao meu redor fosse dissipando, até que a única pessoa que havia sobrado fosse apenas Levi e mais ninguém.

Novamente, eu me peguei imaginando como seria se nós dois estivéssemos em um outro contexto. Eu, uma filha de nobre, ele, um pretendente prestes a me levar em uma peça de teatro monótona.

Mas, por mais que a nossa realidade estivesse longe de ser a ideal, eu percebi que não a mudaria por nada.

Contanto que ele continuasse me encarando daquele jeito.

— Você... — ele me olhou de cima a baixo sem qualquer sutileza, como se quisesse absorver cada detalhe — ...até que sabe fingir que é civilizada quando lhe convém.

Permiti que um sorriso divertido agraciasse os meus lábios.

— Você também está aparentando ser bem civilizado e, ouso até dizer, nobre.

A expressão dele contorceu-se em aversão e ele enrijeceu a mandíbula, como se ele estivesse fisicamente impedindo que uma resposta inapropriada saísse de sua boca.

— Para ser justa, um verdadeiro cavalheiro teria me trazido flores... — eu debochei.

Com a curva do canto do seu lábio voltada para cima, representando algo próximo de um sorriso malicioso, ele me ofereceu o seu braço.

— Eu não sou um cavalheiro.

Aceitei o seu gesto e envolvi a minha mão ao redor do braço dele.

— Não estou reclamando.

Hange e Erwin já aguardavam na carruagem do lado de fora, e assim que nos juntamos a eles, o Comandante me lançou um sorriso impiedosamente galanteador.

— Você está linda — ele elogiou antes de olhar para a cientista sentada ao seu lado. — Aliás, as duas estão realmente estonteantes.

— Erwin, bajulação não vai te levar a lugar algum... — Hange levantou a mão para ele em impedimento. — Ninguém aqui é trouxa de cair na tentação desses seus olhinhos azuis.

— Obrigada, Comandante, é muita gentileza sua — respondi afetuosamente, fazendo a morena cruzar os braços em descrença. — O senhor está muito elegante.

— Sua puxa-saco traidora.

Levi sentou-se ao meu lado e fechou a porta da cabine, logo dando duas batidas firmes no teto, o que foi aviso o suficiente para o cocheiro fazer o veículo seguir o seu curso até o prédio de celebrações do Exército Real.

Erwin retirou um relógio de bolso de dentro do seu sobretudo, rapidamente checando o horário.

— Gostaria de repassar algumas coisas... — ele começou. — Caso perguntem sobre o Eren, sejam breves, mas otimistas. Evitem entrar em discussões ideológicas com seguidores da Igreja das Muralhas... — ao dizer isso, ele virou a sua atenção para Hange, a qual olhou para as próprias unhas e fingiu que não era com ela. — E, acima de tudo, sejam cordiais... Por favor.

— Defina “cordial” — Levi indagou.

— E se alguém não for cordial comigo primeiro? — Hange rebateu logo em seguida.

Erwin olhou para eles dois em contemplação, não parecendo estar surpreso com o fato de sua simples ordem estar sendo contestada.

— O que for feito no sigilo e não venha a comprometer o Corpo de Investigação, não é do meu interesse.

Levi pareceu satisfeito com aquela resposta, e assim que eu consegui entender as implicações, foi difícil evitar olhar com espanto para o rosto imóvel e para as palavras sem misericórdia de Erwin.

— Se o corpo do maldito do Nick ou de algum daqueles fanáticos aparecer no jardim sob circunstâncias misteriosas... — Hange acrescentou. — ...Não fui eu.

— E qual seria o plano B dessa vez? — inclinei a cabeça. — O Levi vai sair chutando todo mundo?

— Não fale idiotice... — Levi me advertiu antes de se voltar para Erwin. — Permissão para sair chutando todo mundo?

— Negado.

 

 

Uma orquestra de violinos e violoncelos em um dos cantos do salão, travessas de comida e intermináveis fileiras de garrafas de vinho espumante sobre as mesas, lustres sustentando gotículas de cristais e apoiando inúmeras velas.

Antes de sumir no meio da multidão, Levi comentou algo sobre o quartel-general ser menos selvagem que aquele lugar, e talvez ele não estivesse tão errado.

Havia algo extremamente perverso sobre tanta fartura concentrada em um único lugar, e reconhecer aquele fato só era possível após escapar da realidade alternativa que Sina protegia.

Não demorou para que Erwin e Hange fossem rodeados por autoridades que cobiçavam saber mais sobre Eren e toda a situação atípica que o cercava. Breve, mas otimista, Erwin sorria e os assegurava que o progresso dos planos estava ocorrendo lentamente, mas que havia muito potencial para que a Muralha Maria fosse conquistada novamente.

O que eram ótimas notícias para os nobres, pois mais território significava menos superpovoamento e menos perigo de eles terem de compartilhar as suas trufas e as suas carnes frescas com o restante da população.

Podiam criticar a sua ambição, mas ninguém podia negar que o Comandante era extremamente carismático e sabia jogar de acordo com as regras.

As pessoas que o viam ofereciam sorrisos calorosos. Algumas se aproximavam, segurando a mão de Erwin para lhe cumprimentar, e ele parecia conhecer cada uma pelo nome.

Eu não precisei me esforçar para conseguir acompanhar o ritmo dos círculos sociais. Eu nem sequer precisei falar muito. Aliás, quanto menos eu falava, melhor era. Era preciso rir nos momentos certos, balançar a cabeça em concordância de vez em quando, engolir a repulsa quando desconhecidos seguravam a minha mão por tempo além do necessário para um simples cumprimento, e sorrir como uma boneca de porcelana.

As propostas indecentes que Levi recebia começaram a fazer sentido.

Alguns nobres eram discretos, enquanto outros demandavam que os seus pedidos fossem considerados como verdadeiras honras.

— Eu nunca vi você por aqui antes...

Me virei para trás na direção do dono da voz, encontrando um homem moreno e de olhos ardilosos. A sua postura excessivamente pretensiosa, como alguém que está se esforçando para aparentar que pertence àquele lugar, já me dizia tudo o que eu precisava saber sobre ele.

Polícia Militar.

— Eu não... sou daqui... — eu afirmei, trêmula e hesitante, e ele deve ter interpretado a minha insegurança como sendo constrangimento, o que elevou ainda mais o seu ego.

— E de onde você é? — ele questionou, estampando um sorriso malicioso no seu rosto.

— É uma longa história...

Ele emitiu um riso rouco de sua garganta.

— Eu tenho tempo... — mesmo sem eu ter oferecido, ele alcançou pela minha mão e a beijou em uma cortesia ensaiada. — Sou o Duran. É um prazer conhecê-la...

Assim que eu me apresentei de volta, pude perceber o reconhecimento que encobriu os seus traços.

— Então você é da Exploração, correto? — o deslumbramento em seu tom era exagerado, o que indicava que ele já sabia quem eu era muito antes de se aproximar. — Ouvi falar muito sobre você...

— Isso não é muito confortante... — soltei uma risada curta e um pouco ácida demais.

— Prometo que só foram coisas boas — ele piscou um olho para mim.

— Você é um belo mentiroso, Duran.

Com a minha voz arrastada e a entonação sedutora, Duran apenas riu de volta, sem sequer notar que eu não estava sendo nem um pouco irônica com aquela minha afirmação.

Avistei Hange se aproximando de onde estávamos, e assim que nossos olhos se encontraram, balancei a cabeça em falsa afirmação, fingindo que ela havia acabado de me chamar até ela.

— Perdão... — eu lamentei, fazendo o máximo para aquilo soar convincente. — A minha superior está me chamando.

Duran se voltou na direção de Hange, a qual estava nos encarando em evidente confusão.

— Eu entendo.

Antes que eu pudesse me afastar, Duran segurou o meu braço para conseguir me impedir, e seu toque foi como o de um ferrete aquecido.

— Nos vemos por aí... — ele falou com a voz terrivelmente baixa.

— Estou contando com isso — garanti.

No momento que Duran me soltou e eu me virei de costas para ele, o meu sorriso, o qual já estava fazendo as minhas bochechas doerem, se desmanchou instantaneamente.

Fui até Hange em um passo apressado, mas não o suficiente para atrair suspeitas.

Mais quanto tempo disso...? — eu perguntei entre dentes trincados. — E cadê o Levi?

Ela abriu a boca, prestes a falar algo, mas a sua visão foi atraída até algo atrás de mim.

— Eu não acredito... É você mesma!

Uma voz doce e feminina cantarolou o meu nome, mas aos meus ouvidos, soou como uma maldição cruel.

Lentamente, como se eu ainda estivesse aguardando o momento da minha mente admitir que estava pregando peças, eu me virei para trás, encontrando uma figura loira e alta vindo até mim.

Traute, com o seu vestido esvoaçante e os seus lábios vermelho-sangue, era uma mulher que chamava atenção.

Antes que eu pudesse reagir, ela me envolveu em um abraço que fez com que meu cérebro não conseguisse compreender se aquilo era inofensivo ou se ela estava prestes a me sufocar ali mesmo.

Ainda paralisada no mesmo lugar, nem sequer percebi quando ela me largou. A sua mão permaneceu firme em meu ombro, como se ela estivesse me mantendo sob o seu controle.

— E você deve ser a famosa Hange Zoe! — Traute anunciou entusiasmadamente, uma animação completamente dramática. — É um prazer conhecê-la!

— Igualmente... — Hange disse educadamente, mas soando um tanto quanto desconfiada. — Desculpe, eu acredito que ainda não fomos apresentadas...

— Ah, perdoe a minha má educação... — a loira suspirou teatralmente. — Traute Caven.

Traute estendeu a sua mão até Hange, como se as duas estivessem no mesmo nível de hierarquia e a morena não fosse uma autoridade, e mesmo que Hange não fosse do tipo que se ofendesse com aquilo, ela ainda era uma superior do exército e merecia uma reverência.

— É um prazer, Traute — Hange apertou a mão dela. — Vocês duas já se conhecem então?

— Desde a época do Esquadrão de Recrutas — Traute respondeu por mim. — Éramos amigas... Lembra?

Nos encaramos por um fragmento de segundo antes de eu liberar um riso anasalado.

— Como eu poderia esquecer?

Hange assentiu, mas os seus olhos fixaram nos meus por um breve instante, e depois de passar anos trabalhando juntas, ela já era capaz de detectar que algo estava muito errado apenas olhando para a minha cara.

— Interessante... — ela falou.

— Temos tanto o que conversar! — a loira se voltou para mim, não parecendo nem um pouco incomodada com o meu silêncio.

— Há algumas pessoas querendo conhecê-la antes... — Hange intrometeu-se, e minha vontade era de pular em cima dela e beijá-la. — Caso não seja um problema, claro...

— Ah, não há problema algum — Traute negou docemente, ainda mantendo a atenção em mim. — Requisitada como sempre... O centro das atenções... Acho que certas coisas nunca mudam mesmo...

O seu sorriso escorria veneno, dissolvendo toda a sua meiguice exacerbada.

— Acho que não... — concordei com ela.

Com uma ligeira despedida, envolvi o meu braço no de Hange para podermos seguir na direção oposta.

Após alguns segundos em silêncio ao meu lado, ela finalmente expressou o que estava pensando durante aquela interação toda.

— É ela, não é?

Não era preciso questionar sobre o que Hange estava falando.

— Como você adivinhou? — eu perguntei, genuinamente curiosa em saber se a máscara que Traute usava não era tão convincente quanto ela acreditava que fosse.

Hange apenas liberou um riso contido.

Me permiti olhar sobre o ombro na direção de Traute novamente, encontrando os olhos dela ainda cravados em mim do outro lado do salão.

Ela levantou uma mão e acenou para mim no mais puro escárnio.

Ao redor do seu pescoço, um belíssimo colar de pérolas.

Na última vez que eu havia a visto, era o fio de aço do meu dispositivo.

Discretamente atravessei o meu próprio pescoço com um dedo sugestivo.

O aceno parou.

 

 

Toda vez que eu mencionava o meu sobrenome, eu analisava cuidadosamente as reações.

Alguns me encaravam descaradamente, alguns limpavam a garganta em constrangimento, outros nem sequer faziam a associação, mas a maioria dos nobres ficavam com a pergunta queimando em suas línguas, impedidos de trazerem à tona aquela história de terror, aquela lenda da capital.

O que havia acontecido com a minha família não passava de uma mancha na história gloriosa e impecável de Sina.

Os únicos homicídios que ocorriam no seu território sagrado estavam abaixo do solo, e não era como se o que acontecesse no Subterrâneo fosse oficialmente registrado, pois ninguém da elite queria reconhecer que aquela cidade existia.

Então, assim como faziam com a cidade subterrânea, os nobres decidiram fingir que o meu passado não houvesse existido.

Mesmo eu sendo a prova viva de que era impossível apagar o que havia ocorrido de verdade.

De qualquer forma, os nobres eram inofensivos em sua maioria. Suas conversas e o seu senso de humor eram completamente alienados e eles falavam dos Titãs como se estes fossem gatos selvagens.

Hange forçava-se a rir, mas às vezes o som mais parecia um choro agoniado.

Erwin, fielmente ao lado de Darius, continuava cercado, atraindo mais atenção que o próprio Comandante da Polícia Militar, o qual o perseguia com o olhar rancoroso por todos os cantos. Pixis e o restante dos superiores do Corpo Estacionário haviam recusado o convite, sendo que ainda estavam em luto pelos seus soldados.

Houveram poucas menções de Trost. Eu me questionava se alguns sequer saberiam apontar onde o distrito estava localizado em um mapa das Muralhas.

E eu não via Levi desde que havia chegado.

Alguém apareceu atrás de mim de repente, fazendo eu sutilmente pular com o sussurro em meu ouvido.

— Você ainda me deve um dança — Duran afirmou, fazendo eu me voltar para ele com o rosto confuso.

Devo...? — eu rebati antes de conseguir me controlar.

Presumindo que eu não fosse rejeitá-lo na frente de tantas autoridades e nobres, ou talvez simplesmente ignorando o meu protesto, Duran segurou a minha mão e me levou até o espaço central onde outros casais estavam dançando.

Mais próximo do que era necessário, permiti que ele me segurasse perto de si e guiasse os meus passos. Chegou em um momento que eu impedi a minha mão de mover do seu ombro, temendo que eu fosse levá-la até a sua garganta para estrangulá-lo.

— Como que alguém como você foi parar na Exploração?

— Como assim alguém como eu? — eu o questionei, soando mais ofendida do que deveria.

— Pelo o que eu ouvi falar, imagino que você tenha se graduado como uma das melhores da sua turma... — Duran supôs, nem fazendo questão de esconder a sua abominação pela minha divisão. — Por que a Exploração?

Talvez Traute não houvesse contado para os seus colegas sobre o nosso pequeno incidente.

— Eu gosto de explorar — declarei inocentemente, conseguindo manter a minha expressão neutra e interpretando o papel de boba com maestria.

Ele me apertava e eu senti repulsa em cada parte que nossos corpos se encostavam.

— Bem, acho que temos algo em comum... — senti a sua mão descendo por minhas costas em um ritmo perigoso. — Eu também gosto muito de... explorar...

Pisei no seu pé, concentrando toda a minha força no salto do meu sapato, o que fez nós dois pararmos a nossa dança abruptamente.

Duran grunhiu em uma voz baixa e eu fingi estar arrependida.

— Me perdoe, eu sou tão desastrada.

Para a minha infelicidade, o desagrado em seu rosto lentamente dissipou.

— Tudo bem... — ele suspirou antes de voltar a sorrir para mim. — Acho que agora você está me devendo uma...

— Acho que não — tentei largar a minha mão da dele para poder recuar, mas ele continuou me segurando.

— Permita-me interromper...

Meu coração deu um sobressalto e Duran enrijeceu o corpo quando ele percebeu que Levi havia pousado a mão sobre o seu punho.

— Com todo o respeito, Capitão Levi, ainda não acabamos aqui... — Duran tentou argumentar e aparentar superioridade, mas o seu tom de voz inseguro o traiu.

— Não falei com você — Levi respondeu, inexpressivo, como se a existência de Duran não importasse, mas os seus olhos brilharam com desprezo.

Antes que nós três atraíssemos ainda mais atenção, Levi afastou o pulso de Duran para trás, fazendo ele finalmente largar da minha mão.

Levi passou a mão pela minha cintura e me puxou até ele, e a felicidade estampada em cada traço do meu rosto era o suficiente para esclarecer o quanto eu queria que ele me levasse.

Deixando Duran para trás, Levi aproximou os nossos corpos, ainda com o braço envolto em minha cintura. Apoiei a minha mão em seu ombro, dessa vez sem qualquer intenção de manter distância, e posicionei a outra mão sobre a dele. Os calos de Levi arranharam os meus, o único lembrete do soldado que havia por baixo das roupas de gala.

— Meu herói... — eu zombei, piscando os olhos em falsa admiração para ele. — Aonde você estava?

— Por aí... — ele explicou limitadamente, como se aquela resposta inútil esclarecesse as minhas dúvidas.

Eu lancei a ele um olhar invocado, sabendo que aquilo não intimaria Levi nem um pouco.

— Entendi... Talvez seja por isso que tenha algo me cutucando...

Levi afastou o meu corpo do dele sutilmente, apenas o necessário para eu parar de sentir a base do cabo da arma que provavelmente estava fixada em um coldre no seu torso por baixo do terno.

— É que eu estou feliz em te ver — ele falou com a sombra de um sorriso malicioso, fazendo o nosso diálogo soar um tanto quanto obsceno para quem pudesse estar ouvindo.

Canalha.

Por sobre o ombro dele, avistei Traute nos observando, e assim que ela me viu encarando ela de volta, ela inclinou a cabeça na direção das portas duplas que levavam até outro ambiente antes de sumir de vista.

Cedo demais para o meu contentamento, a música suavizou até oficialmente declarar o fim da dança. A mão de Levi abaixou, mas permaneceu segurando a minha, enquanto eu continuei segurando o seu ombro e o seu braço continuou em volta do meu corpo.

Hesitantemente, me desprendi dele, do conforto do seu calor, da segurança que ele fornecia.

Era possível ouvir um coro de aplausos ecoando pelo salão, mas eu estava estática no mesmo lugar. Nossos dedos se entrelaçaram em uma sincronia calada, e eu quis que ele me levasse para longe de tudo e todos.

— Cuidado... — ele avisou, aproveitando quando os outros ao nosso redor acharam seus parceiros mais interessantes do que nos observar.

Um Capitão alertando o seu soldado de perigo iminente.

Meus lábios se curvaram em um leve sorriso.

— Sempre.

Nossos dedos deslizaram um do outro.

Levi me observou com um olhar longo e indecifrável antes de se voltar para trás.

E eu segui na direção oposta.

 

 

A varanda pequena e reservada se projetava do nível superior do prédio. Nos pátios abaixo, a música ainda tocava e algumas pessoas conversavam perto do jardim, o qual possuía um labirinto de arbustos perfeitamente mantidos. Era possível vislumbrar o restante de Mitras no horizonte, e o revestimento dourado das construções brilhavam até mesmo sob o breu do céu.

— Aquele com você era o Capitão Levi, por acaso? — Traute riu baixinho assim que eu apareci. — Eu preciso me apresentar... Sou uma grande admiradora do trabalho dele...

— Por que você não procura um homem do seu tamanho? — eu rebati prontamente, estando longe de estar fazendo referência à estaturas.

— Não sei, algo me diz que ele seria o meu tamanho ideal — Traute comentou vulgarmente.

— O que você quer? — eu questionei em impaciência.

Ao invés de dizer algo, ela me ofereceu uma taça de champanhe, a qual eu aceitei. Me virando na direção do vaso decorativo de folhagens logo atrás de mim, eu joguei a bebida sobre elas, encharcando todas folhas, e posicionei a taça vazia sobre o amplo parapeito.

Traute revirou os olhos, tomando um gole do champanhe de sua própria taça.

— Eu só quero conversar... — ela ofereceu em falsa inocência.

— Eu não tenho nada a dizer a você — eu esclareci, acabando com qualquer possível expectativa de um pedido de perdão, mas no fundo eu sabia que Traute não buscava por aquilo.

Os lábios vermelhos dela formaram uma linha cruel e impiedosa.

— Eu sei o seu segredinho sujo...

Uma brisa noturna flutuou entre nós duas.

Tentei fazer com que meus pulmões traidores inspirassem para que eu conseguisse dizer algo, qualquer coisa, mas permaneci mergulhada em meu próprio silêncio, o que fez com que Traute continuasse.

— Eu li os relatórios... — ela declarou orgulhosamente, não dando qualquer explicação de como ela havia conseguido acesso a documentos confidenciais. — Parece que você nunca foi completamente honesta com o que realmente aconteceu com os seus pais...

— Não sei o que você quer dizer com isso.

— Papai matou a mamãe, tirando a própria vida logo depois em um ato descrito como insano demais para ser considerado passional... — ela recitou, como se estivesse lendo trechos do relatório. — Coincidentemente, os criados da residência haviam sido todos dispensados dias antes do ocorrido...

Ela deu um passo em minha direção, me encurralando com o seu olhar felino.

— A única sobrevivente foi a filha... Completamente abandonada... Por isso você nunca falou nada sobre vingança ou qualquer coisa do tipo... O assassino estava dentro de casa esse tempo todo... — ela começou a rir, como se houvesse hilaridade naquela situação. — E foi por isso que você se ofendeu tanto com aquilo que eu disse naquela época, uh?

— Aqui entre nós... — trinquei os dentes, não suportando mais ouvir as palavras que saíam de sua boca. — Desde quando um relatório feito pela Polícia Militar é considerado uma fonte segura?

— E em quem eu deveria acreditar? — ela me desafiou. — Na criança perturbada que assistiu os pais se matarem em sua frente?

Fim da discussão. Sem espaço para debate.

Nós nos encaramos por um momento, e meu estômago se revirou mais.

— Sabe, eu tenho pena de você... — Traute admitiu serenamente, mas não conseguiu evitar o sorrisinho cínico. — Que vida de merda... Você tinha tudo, e de uma hora para outra...

Ela largou a sua taça, fazendo ela colidir com o chão e quebrar-se em vários estilhaços brilhantes que emitiram um som cortante.

— Mas a minha empatia não dura por muito tempo... — ela ameaçou silenciosamente.

Olhei para os cacos de vidro no chão, notando como eles pareciam pequenas estrelas.

Com um riso engasgado em minha garganta, fui em direção da porta, mas não antes de dar o meu adeus.

— Estarei aguardando, Traute.

Já era hora de eu aprender a ser responsável pelos meus atos.

 

 

Ao invés de voltar para o salão principal, me encontrei em meio a corredores escuros que pareciam imitar o labirinto do jardim.

Minha mente estava divagando, como se eu estivesse presa em um estado sonâmbulo e não houvesse recuperado a minha consciência para conseguir voltar a encarar a realidade que me aguardava.

Imagens desconexas se formaram em minha cabeça, vozes familiares demais para eu poder afirmar que eram desconhecidas zumbiram em meus ouvidos.

Quando a minha visão começou a desfocar, eu me apoiei na parede, mas o barulho de uma porta se abrindo a poucos metros de onde eu estava fez eu ficar em estado de alerta.

Agarrei a primeira maçaneta que encontrei pela frente e entrei em um cômodo que parecia ser mais uma das várias salas sociais espalhadas pelo local, mas logo depois que eu fechei a porta atrás de mim, ela foi aberta novamente.

E a última pessoa que eu queria ver naquele momento surgiu.

— Noite longa? — Levi questionou.

Ainda de costas para ele, respondi com um murmuro de afirmação, o que fez eu praticamente sentir a desconfiança emanando dele.

— Qual o problema? — se fosse em uma situação completamente diferente, talvez eu houvesse me comovido com a preocupação em sua voz.

— Não sei... — fiz um gesto indiferente com os ombros quando me voltei para ele. — Eu, você, tudo!

— Você precisa se acalmar... — ele sugeriu cautelosamente.

Levantei um dedo ameaçador na direção dele.

— Não me diga o que fazer!

Levi levantou as mãos em um sinal de rendição, mas eu sabia que ele só estava fazendo aquilo para conquistar a minha confiança, como um predador tentando chegar perto de uma presa ferida e agressiva.

À medida que ele se aproximava, eu recuava.

— Eu estou exausta, Levi... — admiti firmemente. — Sei que às vezes é divertido, mas eu não estou com cabeça para os seus joguinhos agora.

Joguinhos... — ele repetiu a palavra com um riso debochado.

— Tanto faz! — eu repliquei em irritação.

— O que você quer que eu diga? — Levi perguntou, exibindo uma expressão apática, ou talvez de leve irritação. — Você prefere que eu minta e fale coisas que vão fazer você se sentir melhor, é isso?

— Mentir...? — meu rosto contorceu-se em incredulidade e eu continuei dando passos para trás. — Por acaso algum dia você foi honesto comigo? Você sequer é honesto consigo mesmo?

Meu calcanhar entrou em contato com algo, e quando eu percebi, estava de costas para a parede.

E Levi continuou se aproximando.

— Por que você insiste em ser tão difícil? — ele rosnou, apoiando uma das mãos na parede e efetivamente me encurralando. — Eu não posso te dar o que você quer.

Meu coração bateu, mais e mais rápido, e uma estranha agitação percorreu pelas minhas veias.

— Você não sabe o que eu quero.

Ele liberou uma risada sombria e melancólica, inclinando a cabeça levemente em desafio. Levi parecia tão miserável quanto eu. Nossa sincronia doentia e infeliz.

— Então me fale... O que você quer?

A resposta estava me encarando, mas eu não passava de uma covarde, temendo as consequências que aquilo acarretaria. Temendo as consequências daquela jogada.

Eu sabia que ele estava me analisando, pronto para repreender a minha fraqueza e para repetir o lema que havia o protegido por tantos anos. Era muito mais fácil encarar o nosso estilo de vida de maneira isolada, sem envolver outras pessoas.

Eu olhava para Levi e sentia como se uma parte de mim estivesse morrendo. Como se eu não conseguisse respirar.

A covardia arrastou as palavras de volta para o meu subconsciente.

Eu não era capaz de explicar...

Mas talvez eu pudesse mostrar.

As minhas mãos foram até o seu rosto e meus lábios encontraram os dele, e Levi reagiu no mesmo segundo, afastando a sua mão da parede e a levando até a minha nuca.

Lento e atencioso, aquele era o beijo que talvez Levi me daria se tivéssemos tempo. Tempo para nos conhecermos. Tempo para cortejar um ao outro da maneira correta.

Passei os braços em volta de seus ombros e ele me pressionou com força contra a parede, e assim que eu abri a boca para Levi, ele não perdeu tempo em deslizar a sua língua para dentro.

A sua mão escorregou facilmente pelo meu corpo devido a seda do vestido, até chegar em minha bunda e agarrá-la, fazendo eu gemer em sua boca.

O som libertou qualquer que fosse o controle que Levi tinha sobre si, e ele me pegou com um movimento fluido e me ergueu levemente do chão, posicionando o seu corpo entre as minhas pernas e me segurando firme.

Interrompi o beijo quando eu lembrei que oxigênio era necessário, aproveitando para enterrar as minhas mãos por dentro do seu paletó e remover a peça dos seus braços, fazendo-a cair atrás dele. Levi retirou o coldre, jogando o suporte de couro e a arma no chão, desarmando-se por completo em minha frente.

A qualquer instante, alguém poderia entrar e nos flagrar naquela cena imoral e absurdamente indecente, e ter consciência daquele fato fez o meu pulso acelerar ainda mais.

Era surreal, e insano, e errado, e mesmo assim eu não queria parar.

Inconscientemente, Levi passou a mão pelo seu cabelo, desajeitando o penteado e causando com que alguns fios caíssem sobre sua testa. A boca dele se chocou contra a minha novamente, e entrelacei os meus dedos pelos seus cabelos na parte de trás de sua cabeça, os bagunçando ainda mais.

Levi abandonou a minha boca, foi até meu pescoço e roçou os dentes e a língua pela pele sensível, ao mesmo tempo que as suas mãos subiram até os meus ombros e os seus dedos começaram a brincar com as alças finas do meu vestido.

Conforme os seus lábios percorreram pela minha clavícula e começaram a abaixar, os dedos enroscados nas alças acompanharam o movimento, e quando elas foram libertas dos meus braços, a parte de cima do meu vestido caiu até a minha cintura.

Ele recuou um pouco para poder me olhar com os seus olhos incandescentes, e algo nele pareceu fraquejar quando eu segurei o seu rosto, fazendo ele se aproximar de mim até as nossas respirações parecerem ser uma só.

— Eu vou te arruinar...

Não era uma ameaça ou uma promessa. Era um aviso sombrio, uma permissão para que eu o puxasse para longe antes das coisas saírem do nosso controle.

— Eu já nasci arruinada.

Quando nos beijamos, foi um choque de línguas e dentes, com menos hesitação, menos ternura, um pouco menos de enigmas nos separando.

Ele recuou mais uma vez e eu soltei um ruído de protesto, o qual foi rapidamente abafado em um arquejo quando as mãos de Levi encontraram os meus seios e a sua boca desceu até um deles e o sugou, a língua quente acariciando o meu mamilo.

Devo ter agarrado o seu cabelo com força além do necessário, mas ele não reclamou.

Ele retribuiu o mesmo tratamento no meu outro seio, e eu me entreguei ao seu toque, silenciosamente implorando em meio a uma respiração pesada.

Levi pressionou o quadril contra o meu, me provocando terrivelmente, e tudo o que eu queria era tocá-lo, senti-lo mais, mas quando a minha mão foi na direção da sua camisa social com o intuito de removê-la, ele estalou a língua em aborrecimento e posicionou a minha mão teimosa de volta em sua nuca.

Como protesto, me rocei na sua ereção, insistente e dominante, e ele teve de segurar o meu quadril com força para conseguir impedir os meus movimentos.

— Você não aprende nunca, não é? — ele grunhiu em meu ouvido.

Eu queria respondê-lo que eu, de fato, nunca iria aprender a seguir as suas ordens, mas as palavras derreteram em minha língua quando ele segurou a minha coxa e ergueu a minha perna para segurá-la firmemente ao lado de sua cintura.

Para manter o equilíbrio, envolvi os meus braços ao redor do pescoço dele, o enjaulando para perto de mim, o mantendo longe do restante do mundo.

Com a mão livre, Levi segurou o meu queixo, coagindo os meus lábios a se abrirem para ele, e eu permiti que ele introduzisse dois dedos em minha boca. Deslizei a minha língua sobre os dígitos, lubrificando-os com a minha saliva, enquanto ele me observou com o semblante coletado.

Ele liberou os seus dedos de minha boca e a sua mão, por fim, desceu para o meio das minhas pernas, debaixo da seda do vestido em minha cintura, e assim que ele ultrapassou o tecido fino da roupa íntima, o seu primeiro toque contra mim arrancou um gemido do fundo da minha garganta.

Levi grunhiu em satisfação com a umidade que encontrou e começou a fazer movimentos lentos e provocativos, propositalmente evitando os pontos mais sensíveis.

Agarrei a parte de trás de sua camisa, arqueando meu corpo ainda mais contra o dele, tendo de afundar o meu rosto em seu pescoço. Seus dedos deslizaram mais para baixo até meu centro, e cada centímetro do meu corpo se contraiu desesperadamente diante da sensação do seu toque.

Levi... — seu nome era um apelo em meus lábios.

Senti o peito dele levemente vibrando contra o meu, o que denunciava o seu divertimento com a situação.

— Um pouco de humildade lhe faria bem... — ele sugeriu maliciosamente, pressionando os lábios em minha têmpora em um gesto gentil demais para aquele contexto.

Eu o xinguei por baixo de uma exalação longa.

Vai se...

Antes que eu pudesse terminar, ele deslizou um dedo para dentro de mim, entrando e saindo vagarosamente, causando com que eu liberasse um suspiro arrastado e instável.

Eu virei o rosto na direção do Levi, capturando a boca dele de volta na minha, mordendo o seu lábio inferior conforme ele guiou o segundo dedo para dentro, me preenchendo de tal forma que ficou difícil de controlar os ruídos que escapavam de mim.

O seu polegar finalmente circulou o ápice do meu centro, gerando uma sensação que se alastrou por meu corpo inteiro.

Agarrei o cabelo dele novamente, e Levi emitiu um gemido à medida que os dedos dele mergulhavam e saíam com força, aumentando cada vez mais o ritmo, e minha própria existência pareceu se resumir àquela sensação e à tensão que subia a cada segundo.

Como se fosse uma maldição, Levi sussurrou o meu nome contra os meus lábios, e foi aquilo que me desfez.

O alívio desceu abruptamente por minha espinha, fazendo eu liberar um grito que foi abafado pelos lábios de Levi cobrindo os meus, como se ele quisesse devorar o som.

A sua língua acariciou a minha enquanto eu estremeci em volta dele, sentindo os seus dedos me guiarem durante os últimos tremores, até que eu estivesse imóvel e ofegante em seus braços.

Ele escorregou a minha perna de volta para o chão, voltando a envolver o braço ao meu redor para que eu não caísse, não escapasse. Eu não consegui tomar fôlego rápido o suficiente, então apenas continuei segurando nele como se minha vida dependesse disso.

Ele recuou levemente, e os seus olhos encararam diretamente os meus quando ele levou aqueles dedos à boca e chupou, sentindo o meu gosto em sua língua e fazendo algo extremamente obsceno parecer ser quase afetuoso.

Minha mão trêmula afastou um fio de cabelo de sua testa antes de trazê-lo até mim, permitindo que seus lábios me consumissem por completo.

Talvez fosse a reação do meu corpo.

Talvez fosse o efeito que ele tinha sobre mim.

Mas Levi ameaçava me destruir, me devorar e me arruinar ainda mais.

Autodestruição não deveria ser tão viciante.


Notas Finais


Gente, que absurdo...

Nunca nem vi...

Falando sério agora, eu pessoalmente acho que um cara como o Levi teria uma relação extremamente complicada com sexo, e por mais que eu queria evitar me aprofundar tanto nisso (porque eu acho que já tem treta demais nessa fic kkkkk), acho que seria um aspecto importante do personagem dele, por isso fiz esse primeiro momento hot ser ele focando exclusivamente na personagem e esquivando das tentativas dela de tocar nele também. É algo que pretendo abordar um pouco mais nos capítulos futuros.

Enfim, fim do mistério! A vítima da personagem é a Traute! Ninguém acertou, mas, para ser bem justa, eu nunca dei qualquer pista sobre a sua identidade (e teve gente que seguiu um raciocínio muito certo ao apostar em alguém que tivesse a personalidade oposta da personagem + não estivesse na Exploração).
Eu gosto muito da Traute, nem vou mentir. Ela conseguiu conquistar o Kenny a ponto de ser a segunda em comando do Esquadrão de Controle Anti-Pessoal... Como que alguém, além do Uri, consegue conquista o Kenny... Chora mais, Levi.
Caso alguém ainda não lembre quem é o Duran (Duran) e teve preguiça de pesquisar, ele é o cara que o Levi usou como escudo humano kkkkkkkk

Eu escrevendo a parte das escadas: nossa mas isso aqui tá meio familiar, daonde que eu tirei essa breguice [música do Titanic agressivamente tocando no fundo]
Na real foi do filme da Anastasia, vocês lembram desse hino? Melhor animação.

Eu parei para refletir esses dias e lembrei que todo esse meu interesse por casais que se odeiam no início da história começou com o Chuck e a Blair de Gossip Girl (eu sou velha, gente, quem é Riverdale perto desse ícone teen). Daí eu parei para refletir por mais uns minutos e percebi que eu acidentalmente deixei a personagem com traços de personalidade muito semelhantes com o da Blair. Alô, Petra van der Woodsen (aliás, saudades dela, né? eu sei que sim rs).

Como eu disse no começo, o vestido dela fica por conta de cada um, mas caso alguém esteja com curiosidade, o que eu tinha em mente era algo como o da Keira Knightley em Atonement, porque né. Perfeição visual.
(Quem já assistiu esse filme vai perceber que a cena final aqui foi totalmente inspirada na cena da biblioteca kkkkk).

E agora? Papai era surtado? Ou ela é mesmo filha ilegítima? Papai matou a mamãe? Na Polícia Militar só tem falcatrua?
Acredito que vocês devem estar frustrados com todo essa confusão envolvendo o passado dela, por isso decidi revelar que na verdade a identidade dela tem ligação com para com isso novinha vem vem zug zug.

A minha dica de hoje para os amores que estão lendo as notas finais é: o diabo mora nos detalhes. Não ajudou? Desculpa, é que é uma longa história...

Eu sei que a Tropa de Exploração sempre foi retratada como sendo os certinhos e éticos, mas sempre é bom lembrar que a Hange e o Levi torturaram pessoas na maior tranquilidade. Vocês querem que eu acredite que o Erwin não tinha os seus contatinhos de confiança na capital e não usava métodos sujos vez ou outra? Tudo no sigilo, tudo no esquema.

Tá aí a minha explicação para o sumiço do Levi durante a festa. Um encontro no maior estilo The Godfather. A minha ideia inicial era mudar os pontos de vista e vermos o que o Levi estava aprontado, porém, o capítulo já ficou imenso do jeito que tá e acho que teria ficado muito aleatório eu incluir o ponto de vista do Levi justo agora.
(Sim, isso significa que eu pretendo fazer capítulos com o ponto de vista dele, mas estes estão um pouco longe de acontecer. Acho que é melhor resolvermos a situação da personagem antes, e se vocês acharem essa ideia interessante, futuramente podemos fazer essa troca e entrar na cabeça do Cap).

Vamos nos divertir um pouco com o garoto mutante no capítulo que vem e ser uma babá irresponsável? Vamos.

Para as pessoas que estão criando teorias, suposições, chutes... Vocês tem o meu coração todinho. 💖💕
(O momento de vocês vai chegar huahaha!)

Como sempre, adoraria saber o que você achou! Qualquer coisa que você disser vai significar muito! Seu comentário vale ouro! 💌

Beijosss, até!


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