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História Rosè - Capítulo 5


Escrita por: e Ashsempokemons


Notas do Autor


Salve, seres vivos que habitam este site!

Um Trailer desta história está disponível no Twitter em @Justajuliet, @Ashsempokemons e também no Youtube.

Para este capítulo, sugerimos No One's Gonna Love You - Band of Horses.

Pedir perdão pela demora não é o bastante. Imagino que muitos tenham até mesmo desistido da história. Mas nós não. Como já dito anteriormente, este universo tem um valor emocional grande para nós e pretendemos seguir com ele, independente das dificuldades que tenhamos para chegar a essa conclusão.

Esperamos que essa volta possa ser um marco e um recomeço. E que vocês se sintam acalentados por cada palavra aqui escrita.

Obrigada por estarem conosco.

Boa leitura.

Capítulo 5 - Refúgio


O calor jamais havia sido minha prioridade, o tom alvo de minha pele poderia facilmente sustentar este pensamento, mas naquele momento, quando os prismas que pendiam sobre o piano estilhaçavam as últimas luzes do dia em pequenos arco-íris, subitamente tornei-me consciente de que a energia que emanava de momentos como aquele, adornava meus dias de felicidade. Sentia-me quase completa.

A urgência, porém, em sanar o aperto crescente em meu peito mantinha-me inquieta, tamborilando os dedos sobre a superfície de madeira branca que cobria toda a extensão do instrumento musical, ainda que a cama baixa fosse extremamente sedutora ao meu corpo exaurido pela longa viagem. Vê-la rompera as barragens de uma saudade dolorida, contida a duras penas. Era como tentar conter a força de um enorme rio fluente. Quando a represa parecia sólida o suficiente, uma enxurrada de lágrimas transbordava sobre minha segurança, e mais uma noite solitária me fazia perceber que todo o processo deveria ser reiniciado. Agora, nada disso se faria necessário.

Londres havia mudado muito em mim. Por vezes imaginei que o caminho fosse irreversível. Todas as atitudes que assumi como provocações diretas a minha mãe e sua postura altiva e rígida, de uma disciplinada bailarina, imprimiram marcas permanentes na inocência que eu pensava possuir. Um longo voo acrescido de ansiedade e insônia havia me dado tempo para refletir a respeito de todas as transgressões em terras inglesas e sobre o grupo descartável de pessoas com as quais me cerquei, sempre buscando meios de externar toda indignação em ter minha vida roubada por uma cidade chuvosa e fria. Não sentiria falta de nenhum deles, sabia o tipo de indivíduos que eram. Mas não cometeria o erro de, novamente, ter meu coração partido pela distância ao concretizar os elaborados planos de fugir rumo a Miami.

Uma vez mais apertei o botão para que a tela do celular se iluminasse, imaginando encontrar qualquer nova informação a respeito de sua ausência. A imagem que surgiu acalentou meu coração, como sempre faria. A pequena Camila, nos ombros do meu mais amado tio. Aquele momento, congelado em uma fotografia, me arrancaria eternos sorrisos. Lembrava-me com clareza de correr pelo enorme quintal da casa de tio Chester, fugindo dos balões cheios d'água com os quais ele e Camz tentavam me acertar. Já sabia que aquele seria nosso último dia em Miami, e foi com um enorme aperto no coração que gargalhei ao ver a insegurança de uma Camila ensopada em estar nos ombros do homem calvo, que a provocava com pequenos sustos como se fosse lança-la ao chão a qualquer instante. Durante todo aquele tempo, não havia encontrado coragem, ou vontade, para alterar aquele papel de parede.

Assim que meus olhos alcançaram o relógio, suspirei novamente, frustrada. Era incompreensível a pressa com a qual a morena simplesmente saltara do carro. Cada pequeno gesto da latina me era conhecido, suas pequenas nuances e expressões, e diria com absoluta certeza que havia desespero em sua atitude. Ou a distância havia, de fato, borrado as texturas que eu poderia reler com tanta facilidade, o anseio pela proximidade nublando as conclusões de um simples atraso ou compromisso.

Recordando-me de cada linha trocada naquele breve diálogo, atirei meu corpo no colchão macio com certa violência, agravada pela altura da cama bem próxima ao chão. Permiti que meu rosto afundasse entre os travesseiros macios. Havia falhado em diversas tentativas de distração, as teclas de marfim do piano haviam sofrido sob meus dedos trêmulos, cada canal da TV havia sido cuidadosamente esquadrinhado, até mesmo a jardinagem, ato que constantemente me alienava da realidade, falhara em retirar a inquietude alojada na boca do meu estômago que se contorcia em uma angústia infundada. Eu poderia afirmar que algo não ia bem, ainda que o mantra de que seria apenas um delírio causado pela ansiedade fosse repetido exaustivamente, de maneira silenciosa, em meu interior.

As batidas firmes na porta me arrancaram dos devaneios, fazendo com que meu coração imediatamente passasse a martelar a caixa torácica. Aquele espaço era um refúgio, um jardim de inverno providencialmente afastado, posicionado nos limites do terreno arborizado e exageradamente grande que jamais seria totalmente aproveitado, por mais megalomaníacos que fossem meus familiares. Encoberto por uma linha de árvores grandes e bem cuidadas que demarcavam a parte explorada do gramado, em um relevo mais baixo, era completamente ignorado por todos. Apenas uma pessoa costumava saber exatamente a trilha discreta pela lateral da casa que nos levaria até aquele oásis. Em um único impulso, lancei-me de encontro ao visitante, ávida por receber um abraço digno de toda a saudade sufocante que ainda persistia.

Toda a expectativa desceu de forma rascante por minha garganta assim que me deparei com a figura altiva invadindo o ambiente. Sua expressão fechada e a tonalidade avermelhada em seu rosto eram um aviso claro de sua fúria, uma ameaça. Clara jamais abandonava sua compostura, a mulher e a bailarina fundidas pelos anos de espetáculo. Seu olhar era inquisidor, penetrante, e parecia querer me fulminar enquanto o scarpin batia contra o chão em intervalos ritmados, impaciente. Seu silêncio era um convite para que eu tomasse a inciativa de diálogo. Os anos de convívio, porém, me tornaram muito mais resistente à influência de sua presença. Apenas recostei no batente da porta, agora aberta, e apreciei a brisa com cheiro de maresia que soprava mansamente, fixando meus olhos nos de minha mãe e observando enquanto ela inalava profundamente o ar.

— Eu deveria saber que sua chegada me traria problemas, Lauren. — sua voz saiu dura, corroborando as linhas que se formavam em sua testa — Havíamos combinado que você não iria até a companhia. Pode me dizer o que foi que aconteceu?

— Eu apenas sentia falta dos meus amigos. — dei de ombros, desinteressada no que viria a seguir.

— De Camila, você quer dizer, não é? — Clara levou os dedos às têmporas, massageando o local e fechando os olhos. O nome mencionado e a lembrança da garota desacordada incidiram uma pontada desconfortável acima do meu abdômen. — Temos um espetáculo novo prestes a estrear e sua irresponsabilidade e inconsequência quase me custaram meus melhores bailarinos. Mas a única com direito a dar um espetáculo aqui é você, não é mesmo?

— Não sei aonde você quer chegar com isso, mãe. Foi apenas um acidente. E se aquele é o seu melhor bailarino, você tem problemas muito maiores que os meus.

— Já lhe disse que meu nome é Clara, Lauren. Prefiro ser chamada pelo meu nome e gostaria que respeitasse isso. E não ouse falar de Shawn desta maneira, o garoto é um prodígio. Quisera eu, com a sua idade, ter um parceiro como ele.

— Isso não me interessa em nada, Clara. — rebati de forma irônica, cruzando os braços em frente ao peito — Você poderia dizer de uma vez o que veio fazer aqui?

— Sua falta de interesse é justamente o que te faz essa constante decepção. Vim apenas lembrá-la de que não será bem-vinda na Companhia durante o tempo de ensaio. — a culpa por causar problemas a Camila me afligia, um incômodo constante ao latente instinto de proteção à pequena e frágil latina. Algo pior poderia ter acontecido e, de fato, ser uma distração já não constava em meus planos — Você poderá, no entanto, aguardar Camila e suas amigas na recepção caso comunique com antecedência. Já informei Julie a respeito desta decisão e não hesitarei em fazê-la cumprir.

Meneei a cabeça, caminhando de volta à cama e assumindo uma posição confortável sobre o colchão macio, buscando encerrar aquela desagradável conversa.

Fechei os olhos e suspirei, infelizmente estava habituada a momentos como aquele com Clara.

— Aproveito para lhe avisar que o jantar estará servido às oito. Estou recebendo amigos e, portanto, não esperaremos sua boa vontade em aparecer. Seja pontual e vista algo apresentável.

Não me dei ao trabalho de responder e ouvi os passos se distanciando, misturando-se ao som do oceano, audível somente do mais absoluto silêncio. Poucos minutos se passaram enquanto eu chafurdava em minha agonia, refém da ansiedade. Ao menos assim parecia ser. Encontrava-me alheia a qualquer outra coisa que não a sensação massacrante em meu peito. Passei a caminhar pelo cômodo, buscando respirar de maneira pausada e falhando miseravelmente. Àquela altura, a preocupação angustiante roubava todos os meus sentidos.

Inconscientemente, caminhei pelo jardim através da trilha lateral. Não era um trecho curto, mas meus músculos tensos me impulsionavam rapidamente adiante. Pude ver através das paredes de vidro, a alguma distância, que o jantar decorria animado enquanto pessoas desconhecidas gesticulavam e sorriam efusivas. Minha mãe estava, certamente, satisfeita com minha ausência. Com o pedido de vestir-me de forma adequada estava, na verdade, explicitando sua vontade de que eu sequer aparecesse. Era sua forma de fazê-lo sem que precisasse retirar a máscara de complacência. Ocasiões sociais me eram detestáveis em toda a sua superficialidade e polidez falsa.

O enorme muro branco logo surgiu à minha frente, medida protetiva que mais parecia uma contenção. As chaves de nossos carros haviam sido cuidadosamente ocultadas, punição por meu mau comportamento e, a julgar pelas horas, Allyson já deveria ter mandado alguém buscar o seu. Abri o portão menor rapidamente, evitando que o segurança na guarita o fizesse por mim e sorrindo de maneira educada em agradecimento.

As ruas sempre muito movimentadas de Miami eram um alento. Havia vida naquela cidade pulsante, sempre frenética e energizada. Meu péssimo humor, porém, impedia que o primeiro vislumbre da agitação noturna da qual eu tanto sentia falta pudesse ser prazerosa. O ápice da fúria crescente se deu em frente a um conhecido clube da cidade, frequentado apenas por motociclistas paramentados que já se encontravam em estados alcoólicos deploráveis.

— Por uma morena dessas eu trocaria até minha moto. — um sujeito loiro, alto e esguio, coberto por tatuagens, disse utilizando o típico tom de voz nojento.

— Que moto? — outro respondeu, gargalhando alto e recebendo um brusco empurrão em resposta.

Cerrei os punhos, contendo a vontade de revidar a abordagem. Segui caminhando sem sequer olhar para trás, decidida a chegar mais rápido à casa de Camila e entender a razão de seu súbito desaparecimento. Já podia avistar a pequena construção de paredes azuladas, manchadas pela umidade, na qual passara boa parte de minha infância a poucos metros de distância quando senti a vibração do celular em meu bolso. Alcancei o aparelho rapidamente.

— Camila? — disparei atendendo sem sequer olhar a tela.

— Oi, é a Lauren? — uma voz masculina enterrou novamente minhas expectativas. Apressei meus passos em direção à porta da frente.

— Sim, sou eu. — bati na porta, observando a luz acesa através da janela.

— Hum. — o ouvi hesitar — Peguei o celular de Camila e encontrei o seu número.

Alejandro abriu a porta, sorrindo surpreso diante de minha presença. Meu sangue gelou imediatamente e não consegui reagir à frente do homem que considerava um pai.

— Como assim o celular dela? Poderia passar para ela?

— Desculpe, mas não posso. Mila... — hesitação novamente — Não pode atender agora. Decidi te ligar, porque ela não para de chamar pelo seu nome.

— O que quer dizer com isso? — repentinamente meu coração disparou no peito, imaginando contextos desesperadores para a inesperada ligação. Alejandro preferiu não interromper. — Com quem estou falando?

— É o Nick. Lauren me escute com atenção. — o desespero certamente transparecia em minha voz.

— O que você está fazendo com o celular dela?

— Preciso que venha até o Jackson Memorial. Na verdade, Camila precisa.

— Como você está com o celular dela? O que fazem no hospital?

— Droga, Lauren! — agora o nervosismo vinha do outro lado da linha. — Apenas venha.

— Como posso confiar em você? Não o conheço.

— Mas que porra! Camila é minha namorada e precisa de você aqui agora. Se não pode vir, tudo bem. Eu me viro sozinho. Obrigado por nada.

A ligação foi encerrada e, aos poucos, meu cérebro parecia sair do estado catatônico que havia assumido. Alejandro me observava com rugas se formando na testa, atenta à minha provável palidez atípica. Emoções conflitantes ganhavam ligeiramente cada pequeno espaço em meu corpo, difundindo o caos por minhas terminações nervosas. Mecanicamente, corri em direção à saída da rua, sem explicações, buscando a avenida movimentada. O veículo amarelo sobressaiu em minha visão turva e não vi alternativa além de invadir o asfalto para que o taxista pudesse notar minha presença.

— Para o Jackson Memorial, por favor. 


Notas Finais


Para que nossa falta de tempo não seja um empecilho, agora contamos com a ajuda do cheshireVanclair. Ele será o nosso Beta, para quem daremos bastante trabalho, assim esperamos.

Sigam-no também no Twitter, princefoxrose, pois poderão encontrar alguns relances do que está por vir lá.

Obrigada, Rafa, por cada cobrança, puxão de orelha e ameaça de morte. Nós te amamos muito e sabemos que você está fazendo cara de nojo enquanto lê todo esse "doce". Lindo!

Aos viajantes do tempo, um até breve.

Pash


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