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História Roses for You - Original - Capítulo 8


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Capítulo 8 - Promessa


 Alexander estava largado na cama desde que voltara de seu último compromisso. Já era noite, as estrelas brilhavam do lado de fora e seria muito interessante observá-las pela janela se sua cabeça estivesse no lugar. Não tinha se atentado a mais nada desde o momento em que sua mãe ordenara a punição à sua criada. Tentou convencê-la a voltar atrás o dia todo, mas nada foi suficiente. Ele também tentou ir até onde Jackie estava, mas foi veementemente proibido ou o castigo aumentaria.

 As palavras de sua mãe martelavam em sua cabeça, eram verdadeiras. Se suas atitudes atingiam pessoas inocentes, era ele quem deveria mudar. Alex sabia que odiava aquela vida da realeza e que só tentava dar um mínimo brilho a seus dias monótonos, mas não podia deixar que seus desejos rebeldes tivessem consequências em outros. Sabia que o castigo de Jackie era culpa sua e estava envergonhado, não conseguia imaginar como a encararia no dia seguinte.

 Também odiava o fato de sua palavra não ter nenhum significado, mesmo que fosse o príncipe herdeiro. Por que seu título só era importante para barrar com quem podia andar a cavalo, mas não servia quando queria proteger alguém e dar ordens? Pela primeira vez, desejou a coroa, com o único intuito de fazer as palavras valerem e acabar com as injustiças que sua família estava acostumada a realizar. Sorriu sozinho pensando em quem o teria ensinado a ser tão contrário ao restante da realeza, provavelmente a criada anterior, Dona Sara. Pensar nela o deixava ainda mais envergonhado, como explicaria a ela que sua filha estava sofrendo por culpa de sua irresponsabilidade?

“Alteza” – uma voz grave e calma atraiu sua atenção para a direção da porta. Poucos teriam o poder de entrar sem pedir permissão e Alexander se preparou para gritar alguma bronca, mas sorriu assim que notou que sua visita era John Wilson, seu guarda de confiança. Era alguém que tinha por perto desde muito novo, confiava nele de olhos fechados, e estava feliz por sua visita, porque finalmente poderia perguntar a ele sobre sua criada – “Precisa de algo?”

“Preciso perguntar algo” – se levantou animado, correndo até a porta onde o soldado estava. O mais velho assentiu devagar, apenas esperando para saciar sua curiosidade – “E Jackie? Sabe se ela está bem?”

 Seu coração ficou inquieto pelo dia todo por causa da incerteza. A criada era apenas uma vítima de sua insistência e de seu temperamento rebelde, precisava se certificar de que estava bem, não tinha sofrido nada muito grave por sua culpa. Alexander parecia tão ansioso pela resposta que John sorriu sem mostrar os dentes (e principalmente sem exibir nenhum de seus verdadeiros sentimentos ou descobertas) e assentiu.

“Os guardas não irão machuca-la, senhor” – o sorriso cínico parecia sincero aos olhos do ingênuo príncipe, que comemorou ao ouvir a resposta. Além de gostar da sensação de terror que havia implantado em Jack, aquele soldado também adorava descobrir os pontos fracos do príncipe herdeiro, vê-lo vulnerável, enganado e feliz por nada era gratificante. E a informação que havia colhido na prisão talvez pudesse ser usada contra o herdeiro no futuro – “São apenas algumas horas de reclusão até amanhã de manhã”

“Eu não sei por que minha mãe insistiu em fazer isso” – Alex bufava, enquanto deixava os sentimentos e pensamentos claros ao guarda. Além de Sara, John era alguém em quem o príncipe confiava o bastante a ponto de expressar suas insatisfações e dúvidas. E o Tigre Branco adorava ter a vantagem da confiança, enquanto internamente ria da ingenuidade daquele garoto que achava totalmente incapaz de governar. Era inocente demais – “Não acha que ela exagerou? Eu chamei a criada pra ir comigo!”

“A Rainha sempre prezará por sua segurança, alteza” – queria rir, mas mantinha a pose de elegância e lealdade. Em seus olhos, se projetavam as imagens do rosto da tal criada coberto de pânico, os ouvidos repetiam as súplicas chorosas e os gemidos de dor. Voltaria pra repetir tudo se tivesse mais tempo naquela noite. Imaginava como seria se aquele adolescente em sua frente descobrisse tudo que havia feito à sua querida companheira, ou companheiro.

“Segurança? O que uma garota como ela poderia me fazer?” – Alexander ainda estava irritado e isso era visível. O guarda não respondeu e ele apenas voltou a se jogar na cama – “Não posso mesmo invadir a prisão, não é?”

“Sinto muito, senhor” – Wilson retrucou, como se realmente sentisse. Usou da carta de confiança que tinha pra questionar, tirar ainda mais informações – “Por que o interesse, alteza? Não me lembro de tê-lo visto tão preocupado com algum empregado antes” – riria ainda mais se descobrisse que o garoto estava apaixonado por uma menina falsa, adoraria ver a enorme decepção dele quando descobrisse a verdade.

“Porque foi culpa minha” – Alex respondeu, sem muita vontade, ainda mantendo a cabeça enfiada entre os travesseiros – “Porque ela tem quase a mesma idade que eu e eu prometi que iria...” – bufou, antes de terminar. A frase lhe parecia um tanto mais particular pra ser comentada com outra pessoa. A promessa que havia feito com a criada anterior, sobre proteger sua filha e trata-la bem, pra ele era como um retorno por todo cuidado e carinho que havia recebido de Sara durante todos aquele anos – “Enfim, esqueça” – desistiu, se enfiando ainda mais na cama

“Alteza, devo avisar que saio para uma missão na fronteira amanhã” – John não estava animado com aquela notícia, mas ainda parecia uma aventura interessante ficar longe de seu novo brinquedo sexual e reaparecer dias depois, esmagando sua esperança de salvação e acabando com dias de desejo insaciável – “Leon vem fazer sua segurança em meu lugar”

“Tudo bem, obrigado” – Alexander sorriu de leve, voltando a encará-lo e desejando-lhe boa sorte antes que fechasse a porta de vez.

 Por mais que as notícias trazidas pelo soldado tivessem acalmado um pouco seu coração, Alexander ainda estava inquieto – e claramente não conseguiria dormir tão cedo. Era engraçado, ele também não sabia explicar porque de todo interesse na criada nova. Era verdade que parte vinha do sentimento de culpa e parte pela promessa feita à mulher que sempre esteve ao seu lado, mas não parecia ser só isso. Ele sorria bobo quando se lembrava do jeito tímido e contido de Jackie e se pegava pensando na beleza de seu rosto as vezes.

 Garotas não faziam falta ao seu redor, na verdade ele conseguiria qualquer uma que gostasse apenas pelo fato de ser príncipe. Mas isso não era muito interessante, pelo menos não além de alguma noite de diversão. Além disso, a maioria das garotas montaria belos e falsos personagens pra se aproximar dele, tentando criar alguma vantagem dizendo o que ele queria ouvir ou forçando imagens que acreditavam ser de agrado. Ou seja, a maioria era irritante e entediante.

 E por isso pensar em se casar tão cedo, e com alguma pretendente arrumada por seus pais, parecia tão desinteressante. Graças às histórias românticas que Sra. Sara lhe contava quando era criança, Alex sentia que ainda acreditava em encontrar um amor de verdade, alguém que apreciasse sua companhia e que fosse o motivo das palpitações em seu coração. Não que estivesse pensando tão longe quanto a Jackie, claro. Ou talvez quase.

 Não podia dizer que estava gostando de sua criada a esse ponto, mas admitia que aquela garota simples era uma das mais bonitas e agradáveis que já tinha conhecido. Ao contrário das outras, ela era sincera e o tratava com respeito, não interesses. Era uma boa companhia. Alexander sorriu, agora encarando o teto do quarto em silêncio. Pensar na garota fazia lembrar que tinha que dar um jeito de pedir desculpas pelo castigo injusto.

 Se levantou apressado ao ter a primeira ideia. Não só Jackie merecia seu pedido de desculpas, sua mãe também. Pensou que talvez sua antiga criada nem tivesse sido avisada sobre o paradeiro de sua filha ou talvez não soubesse o motivo correto pra terem prendido uma menina doce e calma como Jackie era. Precisava falar com ela.

 Já era tarde o suficiente pra que poucos empregados ainda estivessem pelos cômodos e corredores do castelo. Com a saída de John e a ausência do soldado que o cobriria, foi fácil escapar do quarto sem dar explicações. Além dele, nenhum outro empregado ousaria questionar o que o príncipe fazia andando sozinho pelos corredores do castelo como se estivesse fugindo de alguém. E, ainda que ousassem, Alex usaria de voz de comando pra se safar de qualquer coisa.

 Era óbvio que a família real não seria uma visita recorrente na ala dos empregados e o próprio Alexander não aparecia por lá fazia muito tempo. Tanto que precisou parar na frente do quarto de Sara naquele dia pra se lembrar que as condições por ali eram péssimas. Suspirou derrotado, percebendo que nunca adiantaria tentar defender qualquer empregado sendo que a vida deles realmente parecia não valer muito para os que estavam no topo da cadeia hierárquica. Só o seu quarto tinha um espaço que equivaleria a quase todos os quartinhos juntos, era injusto e ele mesmo sabia disso.

 Alexander estava envergonhado, mas não fugiria da responsabilidade de dar explicações a quem merecia, não era irresponsável a esse ponto. Bateu à porta de madeira envelhecida devagar, esperando que a mais velha o antedesse logo, antes que algum outro empregado o visse transitando por ali àquela hora da noite. Quando Sara apareceu em sua frente, ele pode ter certeza que a notícia ainda não tinha chegado a ela, a mulher parecia desesperada esperando pela filha que não aparecia.

“Alex!” – a intimidade existente entre ex-criada e príncipe era inimaginável pra qualquer outra pessoa que morasse por ali, mas no fundo eles eram quase como mãe e filho. Sara o abraçou antes mesmo que entrassem, como se precisasse se certificar de que ele estava bem e, ao mesmo tempo, se aliviasse por sua visita – “Sabe onde Jackie está? Ela ainda não apareceu, já está tarde”

“Eu sei” – respondeu, sem graça, adentrando no pequeno cômodo com o olhar baixo pela vergonha. O sorriso nervoso deixou a mulher em alerta, era um claro sinal de algo de errado acontecia. Sara fechou a porta atrás dos dois e Alexander observou o quarto em silêncio por um instante. Era tão pequeno pra duas pessoas, só tinha uma única cama de casal velha e uma penteadeira, onde estava a flor que ele tinha colhido no dia anterior. Sorriu fraco, se lembrando daquele presente e de como Jackie tinha sorrido quando o recebera.

“E então? O que aconteceu?” – a mulher tirou-o dos pensamentos, parando em sua frente com um olhar assustado. Jack nunca se atrasava, menos ainda sumia sem explicações, e ela sabia que tinha muitos motivos pra se preocupar.

“Bom, foi algo...” – Alex sequer sabia como explicar, então acabava com as palavras entaladas na garganta, mas quanto mais encarava o rosto apavorado da mais velha em sua frente, mais sabia que precisava de coragem pra revelar tudo de uma vez, independente da vergonha que sentia – “Foi minha culpa. Eu levei Jackie pra equitação comigo e minha mãe descobriu...”

“O que?” – Sara o encarou com os olhos arregalados, sabia o que aquilo significava. O olhar de Alexander pairou sobre o chão, sem poder encará-la de volta – “Sua mãe? E o que houve? O que fizeram?”

“Eu insisti pra que ela fosse comigo, mas minha mãe não me ouviu e quis castiga-la do mesmo jeito. Eu soube que ela está presa junto dos outros até a manhã” – as palavras começaram duras pela raiva e foram perdendo forças graças a culpa – “John me garantiu que os guardas não vão machuca-la”

“Wilson? Foi ele quem cuidou de tudo?” – a voz da mulher saiu tremula e assustada, seus olhos pareciam ainda mais cheios de pânico. Alexander assentiu e a encarou, sem entender seu estado mesmo depois de ter dado a certeza de que tudo ficaria bem. Por que ela parecia mais preocupada ao invés de aliviada? A pele da empregada empalideceu e, no mesmo instante, ela quis sair correndo até onde encontraria Jack – “Eu preciso ver minha filha” – como se não existisse mais nada ao seu redor, seus olhos estavam fixos no horizonte, paralisados, e sua fala saia tremida, sem forças

“Não pode ir até lá” – Alexander entrou em sua frente antes que saísse do quarto, preocupado com sua reação de medo. Não a entendia, por que todo aquele pânico quando o nome de seu guarda foi citado? Eles também se conheciam há anos – “Só seria pior” – suspirou, triste com mais uma das injustiças que sua família adorava alimentar. Se aquela criada desrespeitasse as regras e tentasse visitar alguém na prisão, o castigo só aumentaria e talvez ela fosse punida também – “Jackie vai ficar bem, eu tenho certeza disso”

“Alex" – com os mesmo olhos assustados, a mais velha se agarrou aos braços do príncipe, como se suplicasse por sua ajuda. Alexander ainda não a compreendia, mas sabia bem que sua expressão demonstrava todo seu medo – “Lembra da promessa que me fez?” – Sara não queria pressioná-lo, mas a vida de Jack ainda era a coisa mais preciosa no mundo. Alex assentiu assustado, lembrava-se bem de prometer cuidar daquela garota frágil e, ainda que não tivesse prometido, o faria pela gratidão que sentia por sua mãe – “Por favor, proteja minha menina” – uma lágrima solitária escorreu pelo rosto da empregada. O príncipe engoliu seco, percebendo que sua promessa era muito mais valiosa, deveria leva-la mais a sério.

“Eu vou” – respondeu, enquanto as mãos tremulas da mulher soltavam seus braços devagar. Alexander respirava pesado, preocupado. Sentia que lhe faltava saber algo, que estava perdendo o verdadeiro motivo para o pânico daquela mãe – “Me desculpe por isso, a culpa é minha”

 

 

(...)

 Àquela hora da noite, o jardim era um dos lugares mais silenciosos do palácio. E, por mais que fosse muito bem guardado pelos soldados nas fronteiras, era um lugar pacífico, dava pra sentir a brisa leve e observar a beleza das flores, sem sentir a pressão ou os olhares de outras pessoas. Talvez por isso fosse o lugar preferido de Jackie. Alexander pensava nisso, enquanto caminhava por entre os corredores coloridos e perfumados de flores diferentes.

 A jardinagem também era uma paixão de seu avô paterno, por isso aquele enorme jardim tinha cuidado e espaço especial no meio de toda a escuridão e monotonia do castelo. Alex sentia-se mais atraído pelo espaço nos últimos dias, começava a ir até lá quando precisava pensar ou ficar sozinho, era bom se deitar no meio da grama e observar as estrelas.

 Mas agora o jardim também lembrava de Jackie. Lembrava a flor colhida no dia anterior e o pedido de desculpas pendente. Dessa vez Alexander não se deitou pra ver as estrelas, mas passeou por entre as plantações até encontrar qual seria a escolha perfeita. Sozinho e em silêncio, apenas sob o brilho forte da lua cheia que ocupava o céu naquele dia, colheu uma a uma as rosas vermelhas que achava mais bonitas. Escolheu uma dúzia delas e depois se livrou de todos os espinhos, um a um, sem pressa.

 Enquanto se livrava daqueles espinhos, as lágrimas começaram a escorrer em seu rosto. Alexander demorou a se lembrar qual havia sido a última vez em que tinha se permitido ao choro, fora tanto tempo atrás que provavelmente aquelas lágrimas de agora tinham motivos infinitos acumulados para descerem de seus olhos. Um príncipe não podia chorar em público, se deixar levar pelas emoções, ser sensível demais. Então ele tinha aprendido a chorar às escondidas, sozinho.

 Não sabia ao certo porque estava chorando, não tinha um único motivo. Sua cabeça pesava, seu peito estava cheio. Estava farto de tudo, do fardo das responsabilidades da coroa, da incerteza sobre o futuro, do destino pré-definido que precisava aceitar. Ter um reino em suas mãos custava muito. E as vezes precisava até lembrar a si mesmo que só tinha 18 anos.

“Eu sei o que está pensando” – uma voz feminina calma e segura o assustou. Alexander secou o rosto com pressa, reconhecendo logo que a dona daquela voz era sua mãe. Não esperava que ela aparecesse por ali, menos ainda no meio da noite. A mulher sentou-se ao seu lado, basicamente quebrando a própria postura inabalável de sempre – “Não se abale pelo que acontece com seus empregados dessa forma, meu filho”

“Meus empregados?” – Alexander deixou um riso nervoso escapar de seus lábios. Achava incrível a facilidade que sua família tinha para falar sobre outras pessoas como se elas valessem menos – “Eu não posso, mãe. Eu não consigo pensar dessa forma, sinto muito em te decepcionar”

“Você vai aprender” – a mulher encarava o céu, despreocupada, com um sorriso no canto dos lábios – “De alguma forma”



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