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História Roses for you - Capítulo 23


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Capítulo 23 - Desesperança - Jeonghan POV


Jeonghan POV

 É frio aqui. E escuro.

 Choveu ontem então tudo só ficou pior, o teto não é completo e muita água acaba entrando.

 Hoje dá pra ver as estrelas no céu por alguns dos buracos, pelo menos a sorte nos permitiu que não chovesse outra vez.

 Eu não sei quantos dias já se passaram, acho que me perdi nas contas depois do terceiro. Talvez uma semana? Foram dias suficientes pra que eu desistisse de tentar sair ou mesmo de sonhar que alguém apareceria. Eu não tenho mais nenhuma esperança, na verdade eu acho que não tenho mais nada. Não sei mais que tipo de sentimento posso ter.

 Quando eu era uma criada no castelo, sabia que as coisas eram ruins e que recebíamos pouco, nada muito além de um quarto e o básico pra nos alimentarmos. Mas, mesmo assim, não parecia muito ruim. Eu estava perto da minha mãe e trabalhava bem, era fácil sobreviver por lá fazendo tudo certo e eu sabia lidar com todos os serviços. O rei, por mais que tivesse sua fama de exigente e irritadiço, era piedoso com os empregados e nunca nos castigava por motivos fúteis.

 Por mais que não ganhássemos nenhum dinheiro, eu ainda me considerava um empregado.

 

 Agora sou um escravo. De verdade.

 Eu não sei como vim parar aqui, tudo que me lembro é de ter apagado antes de chegar ao meu quarto naquele dia e acordar nesse barracão, preso junto de outras pessoas que não conhecia. Eu tentei fugir pelas primeiras horas, até que uma mulher me convenceu de que era inútil tentar. Eu não a conhecia, mas ela me contou sobre estar nesse mesmo lugar há mais de alguns anos e de como todas suas tentativas de fuga tinham falhado.

 Quando eu saí do barracão pela primeira vez, foi fácil entender por que. Não dá pra ver nada por perto além da casa principal e muitas terras. É como uma fazenda enorme no meio do nada. Não há nenhum sinal de qualquer vila próxima e eu nem sei se isso ainda é dentro do reino ou não. Além disso, todo o espaço está sempre cercado e sempre somos observados.

 Eu não sabia que podia existir um lugar como esse. Dentro do palácio tudo era aterrorizante pra algum novato, mas eu já estava acostumado. Aqui parece que ninguém pode se acostumar, nunca. Eu estou com medo, todo dia, de uma forma que eu não tinha no castelo, mesmo tendo um segredo por lá.  Parece que corro mais riscos por aqui e isso me dá pânico.

 Agora já é noite, estão todos de volta ao barracão, todas as outras pessoas que estão como eu. Também não sei como elas vieram parar aqui, mas seus olhares são parecidos, ninguém tem qualquer esperança e todo mundo tem medo. Nosso reino não tem escravos, me lembro que isso era uma certeza, então eu não sei como isso aqui funciona. Se é algo feito às escondidas, se estamos em outras terras, se a regra não chega até esses lados.

 Tudo que eu sei é o que me disseram por esses dias. Que esse lugar funciona há anos, que as pessoas morrem aqui sem serem notadas, que nunca muda, que é impossível fugir e que eu deveria cumprir suas regras se não quisesse ser castigado. Os castigos são piores que os do castelo. Lá eu nunca levei nenhuma punição, além daquela única noite na prisão, o que já tinha parecido tão horrível. Mas aqui, mesmo tentando de tudo, eu já fui castigado duas vezes e já vi outras pessoas sofrerem mais inúmeras vezes.

 Normalmente são castigos físicos ou restrições de alimento e os motivos são infinitos, mas quase sempre tem ligação com o trabalho. Eu provavelmente teria acabado nesses castigos muito mais vezes se não tivesse conseguido alguns aliados que me ajudaram desde o primeiro dia – isso porque eu obviamente não sei fazer nada do que precisava fazer aqui, nem tenho a força necessária.

 Nos primeiros dias foi tudo pior. Eu não sabia onde estava, nem o que deveria fazer ou mesmo como havia saído do palácio. Nem mesmo minhas roupas e meu cabelo estavam como antes, alguém quis destruir meu antigo ‘disfarce’ e eliminou tudo que poderia ser feminino. Nem tive tempo pra pensar sobre isso, sobre como aconteceu ou como me acostumar a uma visão nova de mim mesmo. Ainda que a parte externa tenha mudado, tudo que eu guardei está igual e isso gera piadas e advertências porque pareço uma garota as vezes. Pra mim é como se eu ainda fosse uma garota. É difícil entender e mudar isso. Eu tenho medo de que eles acabem agindo como aquele guarda, então me esforço pra ser outra pessoa. Talvez se eu parecer menos feminino, eles não se aproximem de mim.

 Mesmo com todas as coisas, eu tinha que trabalhar como queriam se não quisesse sofrer com os castigos físicos, fazendo algo que eu não sabia nem conseguia fazer. A maioria dos trabalhos dados aos homens nesse lugar é sobre força e resistência; coisas como cuidar das plantações, cortar madeira ou carregar pesos. Ao contrário dos outros, eu não consigo fazer nada disso, não tenho força o suficiente. E foi daí que meus dois castigos vieram. Na verdade eu acabo sendo sempre repreendido o dia todo e parece que meus músculos estão rasgando no final do dia. Eu também já quis chorar várias vezes, mas só podemos fazer isso às escondidas, os ‘chefes’ não gostam do barulho lá fora, nem no meio do trabalho.

 Hoje eu desmaiei pela segunda vez nesses dias. Talvez minha mãe estivesse certa quando achava que eu não aguentaria trabalhar fora do castelo. Me sinto pior a cada dia e aguento cada vez menos. Isso irrita os homens daqui, claro, minha produtividade é péssima perto de qualquer outro. Eu tive medo que me matassem por essa razão, me disseram que não é incomum que se livrem daqueles que tem um péssimo rendimento como eu. Mas, por algum motivo, eles parecem pegar mais leve comigo, como se precisassem poupar minha vida. Nas duas vezes que não aguentei o dia e desmaiei, acordei dentro do barracão e fiquei por lá, esquecido, mas sem nenhum castigo adicional.  

 Eu não consigo escolher qual parte do dia é pior. Todos nós que dividimos esse barracão pra sobreviver, com uma comida pior que a que davam as animais do castelo, somos acordados quando o sol nasce e só voltamos no final da noite. A rotina é trabalhar o dia todo e dormir algumas poucas horas. Apenas isso. Sem direito a mais nada, nem a qualquer reclamação. Quando o sol queima ou quando a chuva é forte demais, não importa, todos tem suas metas a cumprir e os castigos acontecem da mesma forma. As horas do dia parecem demorar uma eternidade a passar e tem algumas pessoas aqui tão acostumadas que é como se nem esperassem mais nada de sua vida, apenas essa mesma realidade.

 A noite é o momento em que podemos perceber todo o esforço do dia. Eu sinto como se meu corpo não tenha mais energia alguma e, mesmo assim, são poucas horas pra me recuperar e não importa o quão exausto estejamos, a rotina será a mesma no dia seguinte. Durante a noite parece que temos um pouco mais de paz e é bom poder olhar pras estrelas em silêncio pelos buracos no teto, mas ainda não é suficiente. Também é a hora de pensar em tudo e perceber o que está acontecendo.

 Durante o dia tudo que posso fazer é seguir instruções e dar duro pra me livrar de piores finais, é durante a noite que consigo pensar sobre o que acontece. É nessa hora que sinto saudade da minha mãe e me pergunto onde ela está, se algo aconteceu com ela também; que torço pra que Seungcheol apareça de alguma forma pra me salvar; que eu acorde no dia seguinte e veja que tudo era só um pesadelo. É a hora que todos nós percebemos o quão deplorável é nosso estado, no meio de correntes e sujeira, e como nossas vidas não valem mais que aquele trabalho sub-humano. Somos todos substituíveis.

 Eu já me peguei perguntando se as pessoas perceberam minha falta, se Seungcheol se importou. Eu queria saber se ele está procurando por mim ou se ignorou minha ausência. Se já se casou, se as coisas estão como estavam. Mais que tudo, eu queria voltar, mas isso parece tão impossível. Quanto mais o tempo passa, mais sinto que vou morrer aqui, de verdade, e que não vai demorar. Eu sinto que meu corpo não vai aguentar tudo isso por muito tempo.

 E eu só queria ver minha mãe antes de...

 Queria saber como ela está. Se eu soubesse que isso aconteceria, não teria saído com Cheol aquela noite, teria ficado com mamãe. Apesar de que aquela noite ter sido maravilhosa. É estranho como o melhor momento da minha vida se transformou no pior em um piscar de olhos.

 

 Observar as estrelas até me lembra de Cheol agora. Naquele dia o céu também estava estrelado e brilhante como está hoje. Mas havia tantas diferenças. Eu queria ter a companhia dele de novo, ver seu sorriso de novo. Claro, talvez tenha sido erro meu esperar que minha vida pudesse ter tantas coisas boas como naquele dia, talvez isso seja um sinal pra que pare de vez de me iludir. Será que nasci pra isso? Pra viver dessa forma e morrer aqui?

 

Por que vim parar aqui? Por que fizeram isso comigo? Por que essas pessoas estão presas?

 Eu realmente vou morrer aqui, sentindo meu coração mais fraco a cada dia?

 Não dá pra esperar algo melhor, não é?



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