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História Roses for you - Capítulo 6


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Capítulo 6 - Hierarquia


 Jeonghan sorria bobo se lembrando de seu intenso primeiro dia de trabalho enquanto encarava a flor cor-de-rosa que segurava. Era preferível esquecer os momentos traumáticos e focar em como o príncipe podia ser o exato oposto do que esperava. No final, Seungcheol era só um garoto da sua idade, que gostava de se divertir, queria liberdade e era cuidadoso e atencioso.

 A pouca luz que vinha da vela única que ficava sobre a mesinha transformada em penteadeira parecia deixar a flor ainda mais bela. E também iluminava o pequeno papel em que repetidos ‘Hani’ haviam sido escritos. Jeonghan estava orgulhoso de si mesmo, pelo trabalho do dia todo e pelos rabiscos um tanto desengonçados que copiou naquele papel. Mas, antes de observar suas versões tortas e tremidas do nome ali escrito, gostava mais de encarar a caligrafia perfeita de Seungcheol no centro da folha.

 Colocou de forma estratégica a flor ao lado de seu nome escrito pelo príncipe, a pouca luz deixava a cena agradável e bonita e seu sorriso só aumentava. Pra um único dia, podia dizer que estava bem encantado por seu novo conhecido. Em um só dia, o príncipe que ele esperava ser teimoso e mimado tinha se mostrado atencioso e preocupado, sendo capaz até de distraí-lo depois da situação terrível com seu soldado. Aquela pequena flor parecia simples, mas tinha muito mais significado.

 Seungcheol não tinha só lhe dado mais segurança como empregada, mas também valor como pessoa. Jeonghan não sabia como agradecer pelo tratamento humano que havia recebido, ele só conseguia sorrir e sentir o peito aquecido. Ninguém antes naquele castelo tinha o tratado com tamanho cuidado e atenção, oferecendo presentes preocupados e ensinamentos importantes. Cheol também se arriscava por fazer aquilo, por não tratar uma criada segundo as normas hierárquicas que ambos aprendiam, mas, ainda assim, ele preferia não ser arrogante e soberbo como as pessoas esperariam.

“Parece que seu dia foi melhor do que esperávamos” – a voz de Sra. Yoon invadiu o quarto e Hani abriu um sorriso ainda maior ao vê-la. Depois de toda a tensão que sentiu antes de começar, estava realmente aliviado por terminar a noite ao lado da mãe, na paz do pequeno quarto dos dois. O garoto, agora livre de todas as roupas regradas e até mesmo dos gomos da trança de mais cedo, logo correu ao seu encontro, recebendo-a com um abraço apertado – “Já não é tarde pra que ainda esteja de pé?”

“É, mas eu não consegui dormir” – Jeonghan retrucou, enquanto caminhava na direção da cama e arrastava a mãe pela mão. Ela chegaria mais tarde todos os dias, afinal, cuidar do rei exigia ainda mais que cuidar do príncipe – “Como foi seu primeiro dia?” – com o sorriso brilhante, ele encarou a mais velha, assim que ambos se sentaram na cama de casal em que dormiam juntos.

“Foi tenso, o Rei está mais irritado por esses dias” – ela suspirou, na tentativa de se livrar da tensão restante em seu corpo. Poucos sabiam exatamente como o Rei estava naquele momento, como sua doença avançava e quais eram seus planos, e agora ela era uma dessas poucas pessoas – “Cheol vai ter que se casar em breve” – o tom da mulher não era dos mais animados. Como antiga amiga e conselheira, ela sabia bem que o herdeiro não estava pronto ou disposto a se casar daquela forma, mas também sabia que seria inevitável. Suspirou, disfarçando a própria preocupação com o jovem príncipe e encarou o filho num sorriso terno – “E você? Como enfrentar aquele garotinho?”

“Não foi tão difícil quanto eu esperava” – Jeonghan sorriu envergonhado, brincando com os dedos e encarando a cama. Seu sorriso dedurava que estava mais feliz do que achava que deveria. Criar laços ou amizades fortes com alguém da realeza podia ser perigoso

“Foi ele quem te deu aquela flor?” – Somin apontou ao presente deixado na penteadeira e viu o assentir tímido de seu filho em seguida. Sorriu orgulhosa e aliviada, nada era melhor que uma boa relação entre os dois meninos que mais amava naquele lugar. Tantos anos cuidando de Seungcheol criaram um sentimento muito forte entre os dois, algo quase maternal – “Espero que ele não esteja tentando te seduzir” – a mulher brincou, arqueando as sobrancelhas

“Não, não é isso” – Hani respondeu, rápido, ainda mais envergonhado. No entanto, pensar no verdadeiro motivo fez seu sorriso desmanchar por um instante. Não sabia se era o certo, mas optou por não dizer a verdade à mãe, assustá-la não adiantaria, nenhum dos dois conseguiria fazer algo com aquele soldado assustador – “Mamãe, acho que vou dormir agora” – forçou outro sorriso, fugindo do assunto e decidindo que se deitar era o melhor que poderia fazer. Somin retribuiu seu sorriso e deu-lhe um beijo demorado na testa, antes de sair da cama e deixa-lo se deitar.

 O dia seguinte com certeza seria longo.

 

 

(...)

 Jeonghan era cuidadoso em colocar o chá quente na xícara super delicada e detalhada que o príncipe esperava. O ar quente subia dela, deixando o aroma gostoso pelo quarto. Do lado de fora, o clima também parecia bom, dava pra ver pela janela que o sol brilharia pelo restante do dia, nenhuma nuvem o atrapalhava. Podiam ouvir os pássaros cantando, quase como se propositalmente fizesse uma serenata do lado de fora, declarando que o dia longo seria ainda melhor que o anterior.

 Hani estava esperançoso. Pra começar, Kwon Tae Yang não estava guardando a porta naquela manhã e isso já era de grande alívio. Não ter que encarar o homem que seria claramente um problema recorrente em sua vida já deixava a manhã mais leve. Depois, o dia parecia ter começado bem, Seungcheol acordou na hora certa, não fez grandes exigências e tomou o café com calma, enquanto trocavam sorrisos simpáticos e olhares leves. Era bom se sentir mais livre perto dele, um pouco distante das amarras das regras do palácio.

 O príncipe tinha saído a pouco para o banho e seu próximo compromisso era a equitação. Os criados não eram obrigados a participar da aula, nem a acompanhar seus mestres, já que o ambiente já era seguro e tinha acompanhantes específicos. No tempo que tivesse livre, Jeonghan se preocuparia em arrumar o quarto, separar o necessário para os próximos compromissos e esperar o príncipe com tudo pronto para o almoço. A rotina daquele dia incluía também reuniões importantes que deixavam o coração do garoto acelerado, por mais que, como criada, só fosse fazer o acompanhamento básico do herdeiro. Encarar outros chefes e o Rei ainda parecia assustador.

“Trouxe chá?” – a voz de Cheol ecoou pelo quarto silencioso, pegando o mais novo de surpresa. Surpresa ainda maior quando o olhar de Hani subiu e encontrou o jovem príncipe apenas parcialmente vestido, exibindo o peito descoberto enquanto algumas teimosas gotas de água escorriam por de seu cabelo pelo pescoço. Os olhos de Jeonghan, arregalados, logo buscaram qualquer outro ponto do quarto para se fixar. Seu coração tinha acelerado e seu rosto ficado vermelho pela vergonha. Agradeceu aos deuses por Seungcheol não ser o tipo de príncipe que pede pra que suas criadas façam coisas como secar seu corpo ou colocar suas roupas.

“Sim” – respondeu, ainda completamente envergonhado pelo que presenciava. Se já era inimaginável ter o príncipe tão próximo, tê-lo daquela forma era algo que não passou nem por seus maiores devaneios criativos. Seungcheol riu, notando seu nervosismo e como qualquer coisa pequena conseguia tirar aquela garotinha do sério. E Hani estava tão perdido depois de ter presenciado o que não esperava, que mal conseguiu demonstrar que o chá era uma surpresa que ele mesmo preparara e trouxera como agradecimento pelo dia anterior.

“Obrigado” – Seungcheol retrucou, decidido a seguir com a provocação não intencional que havia criado. Não queria brincar com as sensações de sua criada, mas achava engraçado quando ela acabava cercada entre suas provocações e as regras do castelo. Ele se aproximou da mesa, alcançando a xícara ainda quente, como se não se preocupasse com o restante. Sorriu travesso antes de tomar o primeiro gole – “Seu rosto está vermelho”

“Está?” – Jeonghan retrucou, em voz trêmula, tocando as bochechas com o dorso da mão na tentativa de entender a própria temperatura. Realmente, parecia mais quente que o normal, e saber disso só o deixou ainda mais envergonhado. Seus olhos já não saiam mais do chão, mesmo que Cheol se aproximasse de forma tentadora para tentar testá-lo.

“Ah, estou te constrangendo dessa forma, não estou?” – deu um gole único em todo o conteúdo do chá e devolveu a xícara ao pírex sobre a mesa. Seu sorriso era quase infantil, como uma criança que apronta escondido dos pais. Jeonghan não respondeu, apenas mordeu os lábios, nervoso, sem levantar a cabeça – “Me desculpe, eu as vezes me esqueço que não vivo sozinho”

“Não, você pode...” – o príncipe estava pronto para dar as costas e seguir até onde suas roupas estavam, quando Jeonghan o interrompeu. Sua frase parou na metade, não queria fazer parecer que desejava isso ou aquilo, apenas queria que Seungcheol agisse da forma que gostaria de agir, sem se importar com sua presença. Era assim que um príncipe deveria agir. Perguntar sobre como um empregado se sentia? Isso não fazia sentido – “Não faça ou deixe de fazer algo por mim” – suspirou, mais constrangido pela fala humilhante em que ele mesmo se colocava que pela situação anterior – “Eu, como criada, não devo ter nenhuma opinião ou interferência. O príncipe não deveria me perguntar nada, nem me levar em consideração”

“Você trabalha pra mim, não é um vaso da minha decoração” – Seungcheol respondeu, totalmente seguro em cada uma das palavras. Seu olhar pairou sobre o mais novo que permanecia cabisbaixo e suspirou. Jeonghan estava surpreso, outra vez, aquele não era o comportamento esperado de um sucessor ao trono. Quanto mais alto o cargo, mais se espera de ausência de bons sentimentos e atitudes – “Eu não posso fazer o que quero contigo”

 As últimas palavras não saíram com tanta segurança quanto às primeiras, justamente porque Seungcheol sabia que, querendo ou não, estava mentindo. Ele podia fazer o que quisesse, porque era o herdeiro do reino e isso lhe dava passe livre. Estava acima da lei, acima das pessoas e do bom senso. No entanto, o poder não o brigava a fazer nada e ele jurava a si mesmo que jamais trairia o próprio pensamento. Não trataria pessoas como objetos, nunca.

“Eu não irei fazer...” – completou a sentença, em voz mais baixa e branda. Jeonghan, embora sentisse o coração palpitando pela resposta inesperada, não se movimentou ou pronunciou. Seungcheol apenas saiu na direção contrária e voltou apenas quando já estava pronto, com todas as belas e caríssimas roupas que deveria vestir.

 Enquanto estava sozinho no enorme cômodo, Jeonghan sentiu as pernas amolecerem, a surpresa era maior do que parecia. Aquele não era um discurso apenas inesperado pra alguém no papel de Seungcheol, era um discurso que lhe dava humanidade, quase como se agora pudesse se sentir um ser humano de verdade, diferente dos vasos de decoração. Antes, era como se fossem a mesma coisa. Estava encantado com a forma como aquele jovem príncipe via o mundo e as pessoas, como ele ia contra ao esperado de forma tão segura e pura. Se alegrava em pensar que o reino teria um Rei tão bom, justo.

 E belo.

 Jeonghan não conseguiria negar o quanto começava a notar a beleza do príncipe a quem servia. Ainda mais depois da visão surpreendente de mais cedo. Ele mesmo não imaginava que o corpo do jovem fosse tão desenhado e perfeito, não era tão magro, mas também não tinha músculos em excesso. Além do corpo que acabara de receber, também tinha visto seu rosto mais algumas vezes e achava seus olhos fortes e seu sorriso encantador. Mas, claro, eram apenas constatações sem importância ou sentimentalismo.

“Quer vir comigo?” – Cheol reapareceu perto da mesa, já pronto, aparentando ainda mais perfeição aos olhos atentos do mais novo. Tomou mais uma xícara de chá que havia acabado de ser posta e encarou a criada de perto. Mais que encantado, Jeonghan estava admirado, pela inteligência, pela beleza, pelo coração daquele futuro rei – “Você não é obrigada a me acompanhar se não quiser, mas sua mãe vivia dizendo que você adorava visitar os cavalos no estábulo”

 Jeonghan não pode esconder o sorriso no canto dos lábios e os olhos brilhantes. Era verdade que, além das flores, adorava os animais que viviam por ali e os visitava sempre que podia. Além de tudo, estava sem graça pela quantidade de informações que sua mãe aparentemente espalhou sobre sua vida sem que ele nem imaginasse. Era curioso pensar que o príncipe, sendo quem era, sabia tanto sobre seus gostos pessoais.

“Dona Yoon dizia que tinha medo, ela nem queria me ver cavalgando, como se eu pudesse me matar sem querer a qualquer momento” – Seungcheol riu, cruzando os braços e se escorando na mesa pra encarar a janela, enquanto lembranças das conversas com sua antiga criada surgiam em sua mente – “Se quiser, posso te levar comigo, posso pedir um cavalo pra você também”

“Eu posso?” – por mais que seu lado racional ditasse o óbvio, que jamais uma criada deveria ter aquele tipo de aproximação ou aceitar aquele tipo de convite saindo de seu verdadeiro posto, seu coração ansioso não podia deixar a oportunidade passar. Na verdade ele nem sabia montar num cavalo, nunca tinha tentado, e era o momento perfeito pra que sua curiosidade fosse sanada, finalmente.

 Cheol assentiu num sorriso discreto. Ele também não sabia porque estava fazendo tantos convites tentadores e proibidos. Era verdade que tinha convidado a criada anterior da mesma forma, mas depois de anos sendo cuidado por ela. Não sabia explicar bem, mas gostava da companhia daquela garota quieta e misteriosa que vivia encarando os próprios pés. Descobriu que adorava seu sorriso e fazer convites fazia com que ele aparecesse.

 

 Não demorou muito e estavam, ambos, no enorme gramado aos fundos do castelo preparado especialmente para os treinos dos dois príncipes e outros membros da família real. Naquele momento, Chan, o príncipe mais novo, brincava com outro garotinho do lado de fora do gramado, talvez esperando sua vez ou alguém que viesse busca-lo.

“Quer que eu mande buscar outro pra você?” – Seungcheol chamou a atenção de Jeonghan, que tinha os olhos presos no cavalo preto que recebia o carinho de seu dono. O animal era tão bem cuidado que seus pelos pareciam brilhar quando o sol batia, além de ser dócil e calmo. Não era um cavalo de corridas, mas sim um dos preferidos da família para passeios, mais especificamente o preferido de Seungcheol.

“Não, eu não... Não sei montar” – Hani respondeu, sem graça, enquanto dava alguns passos tímidos na direção do príncipe e seu bichinho preferido.

“Você pode fazer carinho nele, ele adora receber um mimo” – Cheol brincou, sem deixar de acariciar o animal e sendo seguido logo pela criada que o acompanhava. Jeonghan estava acostumado a tratar bem dos animais, adorava estar na companhia deles e fazer-lhes carinho, então aquele era um momento feliz. E um momento em que se esquecia seu cargo e sua posição na hierarquia do castelo – “Parece que ele gostou de você” – o príncipe sorria observando a ligação quase momentânea que o cavalo parecia ter criado com Hani, especialmente observando o sorriso sincero e animado que aparecia nos lábios da empregada, talvez o mais bonito que tinha visto até então – “Quer montar uma vez?”

 Por algum motivo que não saberia bem explicar, Seungcheol queria agradar aquela garota, queria manter seu sorriso e impressioná-la. Estava deixando a própria aula de lado e ignorando seu instrutor que esperava seus comandos para se oferecer a ajudar a criada a realizar um desejo. Teria a mesma vontade com qualquer outra criada? As vezes ficava curioso em saber a resposta. Mas, antes que pudesse pensar, apenas estendeu a mão na direção da garota e, depois de segundos recebendo um olhar assustado e incerto, recebeu um assentir tímido e a mão se unindo à sua.

“Tome cuidado, mas não fique com medo. Eu não te deixarei cair, ok?” – Cheol estava atrás de Jeonghan, com um sorriso bobo sem explicação no rosto. O mais novo, ao contrário, demonstrava um pouco de medo, principalmente depois de notar que o animal era maior do que esperava se encarado de lado.

 Naquele momento, era como se fossem apenas dois conhecidos. Jeonghan se esqueceu das regras pela primeira vez e se apoiou na pessoa a quem deveria só servir para conseguir se colocar sobre o cavalo, enquanto os dois riam juntos das tentativas falhas de alcançar a altura necessária. Trocavam muitos mais toques e olhares do que o permitido e até mesmo as formas de tratamento formais ficavam esquecidas. Estavam apenas imersos no momento, sem se preocupar com outras pessoas, normativas ou hierarquias. Era dois adolescentes, afinal.

 Seungcheol parecia ter o melhor dia de sua vida. Até mesmo seu treinador sorria de canto, pensando sozinho em como não o via tão empolgado ou risonho fazia muito tempo. As gargalhadas da garota sob sua proteção eram como nova energia, algo que ele desejava ter novamente a todo momento. E seus olhos não saiam dela, de seu sorriso adorável. O olhar brilhou ainda mais ao encarar a expressão de satisfação e surpresa da menina quando, depois de tantas tentativas falhas, conseguiu finalmente se ver sobre aquele animal. Estava tão extasiado que a primeira coisa que pensou em fazer foi segui-la.

 E foi o que fez. Tão rápido que Jeonghan mal se deu conta enquanto estava hipnotizado pela nova vista de cima do cavalo, Seungcheol apareceu nas costas da criada, passando os braços por ela para alcançar as rédeas de seu companheiro de passeios. Hani ainda estava tão animado por estar onde estava, que o fato de ter o príncipe quase colado em suas costas não parecia merecer assim tanta atenção, mesmo que seu coração batesse tão rápido que podia senti-lo facilmente de fora. Cheol, por outro lado, só tinha olhos para a beleza destacada pelos raios de sol que estava entre seus braços.

 Era a primeira vez que ficavam tão próximos e, pela primeira vez, ele sentia o perfume leve de rosas que exalava do mais novo. Seungcheol achava incrível o fato de não conseguir explicar o porquê fazia tudo aquilo ou o motivo de parecer tão hipnotizado pela garota que o servia. Tinha sensações estranhas, algumas conhecidas, outras totalmente novas. Não sabia como reagir.

“Seungcheol!” – uma voz feminina invadiu sua mente e o tirou dos devaneios. Ao mesmo tempo, príncipe e criada se viraram ao lado oposto, encontrando a figura totalmente desgostosa da rainha. Kwon Tae Yang estava ao seu lado, com um sorriso disfarçado de um predador que se prepara para atacar uma presa.

 O sorriso de Jeonghan sumiu no mesmo instante, seus pelos arrepiaram, os olhos arregalaram e seu coração disparou em desespero. Como se voltasse ao mundo real, despertasse daquele sonho bonito em que podia viver da forma que queria ou em igualdade com outras pessoas. Com certeza seria castigado por aquilo, talvez até tirado do posto em que estava. Estar tão próximo do príncipe herdeiro era um ultraje, mais ainda considerando que ele era expressamente proibido de aproveitar dos privilégios reais, como aquele cavalo que provavelmente valia uma fortuna.

 Seungcheol também retornou ao mundo que odiava. O olhar da mãe deixava claro que a situação não passaria em branco e lhe lembrava que ele não tinha a liberdade pra fazer o que queria. Não podia escolher com quem falar, caminhar, passear ou andar a cavalo. Bufou derrotado, notando o desespero estampado na face da menina em sua frente. Odiava o fato de poderem colocar as pessoas em pânico daquela forma por causa do poder. Desceu primeiro, forçando a tranquilidade que não tinha, ajudando Hani a descer em seguida.

 Jeonghan ainda tremia de medo e ver o olhar de decepção e desgosto da rainha sobre si fazia seus olhos marearem. Assim que se viu no chão, correu na direção da senhora e se ajoelhou em sua frente, desesperado por perdão. Não queria desonrar sua mãe, encrencar o príncipe, ou parecer interesseiro. As mãos já suavam frio e, mesmo com o olhar preso no gramado, conseguia sentir os olhos da rainha caindo sobre si ainda cheios de desprezo e raiva.

“Me perdoe, Majestade” – as palavras trêmulas saiam junto das primeiras lágrimas cheias de pânico. Eram tantas péssimas possibilidades pro final daquela história e Hani sabia que era culpado, estava irritado consigo mesmo por ter se deixado levar por desejos que sabia que não deveriam existir – “Eu sei que eu...”

“Mãe, fui eu quem a trouxe pra cá e insistiu pra que montasse” – Seungcheol interrompeu sua fala, como se não tivesse medo de qualquer repreensão. Passava segurança em cada palavra, mas na verdade estava preocupado com as consequências – “Não precisa fazer nenhuma cena por isso”

“Sempre conheceu tão bem todas as regras, Hani” – a mulher ignorou as explicações do filho e deu mais alguns passos em direção à criada, que seguia ajoelhada – “Eu estou confiando meu filho a você, não é como um trabalho comum. Me enganei ao confiar em você?”

“Me perdoe, Majestade, eu errei” – a respiração pesada e as lágrimas escondidas pela cabeça baixa deixavam o nervosismo aparente. Em todos aqueles anos, era a primeira vez que era confrontado por alguém da família real daquela forma. Uma única palavra da rainha poderia custar sua vida – “Isso nunca mais vai se repetir”

“Eu confio em você, querida” – a voz branda da mais velha não condizia muito bem com a situação, era contrastante ao pânico da adolescente que tinha aos seus pés. O olhar da rainha desviou para o príncipe por um momento e um sorriso debochado surgiu em seus lábios, como se ela compreendesse bem que aquela cena era consequência da rebeldia de seu filho – “Mas não posso deixa-la descumprir as regras sem receber um castigo, como qualquer outro subalterno” – Jeonghan fechou os olhos com força, com medo do que poderia ouvir a seguir e envergonhado pela mãe – “Vou lhe dar um voto por ser de minha confiança” – um único comando com a cabeça foi suficiente pra que o soldado a seu lado alcançasse o braço da criada e a obrigasse a ficar de pé. Sentir o toque daquele mesmo homem outra vez causava ainda mais pânico – “Eu quero que ela volte a trabalhar amanhã de manhã”

 Os olhos cheios de medo e lágrimas brilhantes de Jeonghan se levantaram pela primeira vez, enquanto a força do homem a seu lado parecia esmagar seu braço. Ele esperava pela compaixão da rainha que sempre se disse amiga de sua mãe, mas não recebeu nem mais um olhar ou palavra, apenas a viu dar mais um comando rápido com as mãos e logo estava sendo arrastado pelo gramado como se fosse um mero objeto. Outra vez, perdia seu status de pessoa, voltasse a ser como era antes.

“Mãe...” – Seungcheol só conseguiu abrir a boca outra vez quando viu a criada ser arrastada com brutalidade por seu soldado pessoal. Ele sabia bem o que aconteceria, algumas horas de prisão e alguns hematomas que dependeriam do bom humor dos guardas. Não imaginava que poderia acontecer, mas o olhar desolado de Hani em sua direção foi capaz de rasgar seu coração em pedaços – “Não ouviu nada que eu disse? A culpa é minha, por que está castigando outra pessoa?”

“Você é o futuro rei, meu filho” – retrucou, retomando o ar de superioridade e segurança – “Ela é só mais uma criada que precisa entender o que faz nesse lugar” - deu as costas e voltou a caminhar na direção do filho mais novo, parando depois de poucos passos - "Aliás, se acha que suas atitudes afetam pessoas que quer proteger, deveria repensar suas atitudes"



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