História Rotina - Capítulo 32


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Capítulo 32 - Certas coisas não somem da nossa vida com facilidade


Fanfic / Fanfiction Rotina - Capítulo 32 - Certas coisas não somem da nossa vida com facilidade

Residencial K/DA – Tia Ella POV’S ON

Ahri estava deitada no novo sofá da sala (cortesia do Karthus), tentando recuperar sua pressão. Akali estava sentada no chão, ao lado dela.

Já na cozinha, Evelynn estava de frente para Sona, que também não parecia estar no melhor estado mental.

— O que aconteceu? Vocês brigaram de novo? -perguntando baixo, a ruiva segurava uma das mãos trêmulas da DJ.

— Não...

— O que foi, querida? Sabe que não gosto quando vocês agem estranho e fingem que não é nada.

— Ahri recebeu um email do Departamento de Justiça. -suspirou- O ex-namorado dela vai ter um novo julgamento.

— O quê?! -os olhos ambarinos quase se esticaram como borracha- Sona, o que voc-

— Ele pode sair da cadeia em breve...

. . .

Aquilo foi como um vaso velho finalmente quebrando em milhares de partes. Evelynn sentiu o desespero por Ahri, aquilo era mais que ruim.

Encarando a direção do corredor, prestando atenção no batente da sala de convivência, respirou fundo, desejando que fosse apenas uma piada de mal gosto; afinal, Ahri já sofreu muito na mão dele, seria péssimo para ela vê-lo depois de 10 anos tentando se curar de seu trauma.

— O que mais você sabe, Sona?

— Na época, os pais de Ahri pediram uma Ordem de Afastamento pra ele, não queriam que ele voltasse a ter contato com ela, mas... O pedido foi negado.

— Por quê?!

— Porque quando o prenderam, descobriram que o ex dela têm sérios problemas mentais, isso faz dele, uma pessoa “incapaz de violar outro ser vivo” estando sob efeito de medicamentos. Eles consideraram que o caso da Ahri, foi o resultado da negligência dos pais dele, que sabiam da sua deficiência e não buscaram tratamento.

— O quê?!

— Ele estava recebendo tratamento médico dentro do hospital da prisão, então não era como se realmente estivesse preso, de fato. -Sona arfou tensa- Agora que ele corre o risco de ser solto,  o pesadelo dela pode voltar a acontecer.

— Tsc... -bufou a ruiva, socando o balcão da ilha central-

— No fim, se ele quiser ir atrás da Ahri de novo, nada o impede.

. . .

Era inacreditável que a Justiça fosse de fato, tão cega. Ao socar novamente o balcão, Sona escutou um barulho esquisito, como se algo tivesse quebrado no tampo. Evelynn estava muito brava.

Extremamente brava.

— Vou conversar com o Taric sobre isso.

— Eve, você não pode! -Sona se colocou na frente dela em agonia, mas logo parando ao notar o ferimento no pulso dela. — Você...

— Por cinco anos, eu negligenciei meu papel de amiga com a Ahri, nesse meio tempo, ela foi abusada, espancada e vai ter que carregar um trauma pro resto da vida. E gostando ou não, parte disso também é minha responsabilidade.

— ...

— A partir de hoje até a data do julgamento, eu quero que a Ahri fique o mais calma possível. Eu vou conversar com o Taric e nós resolveremos o problema.

— ...

 

*

*

*

*

 

4 semanas mais tarde

Tribunal Regional de Gwanju – Cidade de Gwanju

Ainda não era o dia do julgamento, mas com certeza, Ahri estava recebendo muito apoio emocional de muita gente, isso a deixou tranquila no decorrer das semanas.

Faltavam mais dez dias pro julgamento de seu ex, e naquele momento, a última coisa que ela precisava, era passar mal dentro da tribuna.

. . .

Respirando fundo, a loira caminhou lentamente até o escritório do Juiz responsável pelo caso, a mão esquerda segurava a de Evelynn, a mão direita segurava a de Sona. Seus passos cada vez mais trêmulos, porém, não menos corajosos.

Por que mexerem com isso depois de dez anos? Era tão frustrante!

— Ahri, tem certeza? -Eve perguntou preocupada, não perdendo sua postura.

— Hn... -sem olhar de volta, ela assentiu, dando mais alguns passos até a porta. — Vou ficar bem...

— ...

— Tudo bem... -arfou ao pegar a maçaneta. Ela olhou as duas e sorriu de canto, recebendo beijos na testa.

— Vai se sair bem, fique calma o máximo que conseguir. -Sona abriu o sorriso e beijara a ponta de seu nariz- Vamos esperar aqui fora.

— Ok...

Ahri encarou a porta grande e pesada mais uma vez, suspirando e tremendo, ela empurrou-a e se perdeu numa imensidão vermelha no piso e madeira nas paredes.

. . .

Lá estava sua advogada, sorrindo-lhe gentilmente, na outra ponta da mesa, sua psicóloga, à frente, o Juiz, ao lado dele, em pé, sua assistente e por fim, uma cadeira vazia no meio da sala.

— Boa Tarde, Senhorita Sai-Young. -o homem imponente dissera calmo, mas o estado de espírito da jovem cantora não era o mesmo.

— B-Boa tarde, Excelência... -fez mesura rápida.

— Ahri, precisa se acalmar, não estamos no julgamento ainda e não faremos nada para prejudicar você. -sua psicóloga era muito paciente (ainda bem) e continuava mantendo um sorriso doce e compreensivo.

A loira se aproximou devagar, sentando-se à mesa e ficando de frente para o mais velho.

— Quero tratar do seu caso com o máximo de cuidado porque sei da sua dificuldade em tolerar homens no mesmo espaço por muito tempo.

— Sinto muito... -arfou nervosa-

— Não deve se desculpar por isso, é um trauma e eu suponho que não seja nada fácil de lidar com ele.

— Não é...

— Vamos começar?

— Por favor...

 

*

*

*

*

 

Residencial Sai-Young

Ahri estava deitada na cama (agora trocada) de seu antigo quarto. Parecia muito centrada em refletir sobre as coisas que conversou com o Juiz e a advogada.

Não era como se estivesse impaciente com o julgamento, mas também queria ir embora o quanto antes pra sua casa, para ficar longe de seu ex e longe de problemas.

Ouviu batidas na porta e Sona colocara o rosto  para dentro, um sorriso cauteloso sobressaiu.

A modelo sorriu de volta e bateu na colcha pink de algodão, estirada perfeitamente na cama.

Sona entrou e fechou a porta quando caminhou para sentar-se ao lado da namorada. Ambas se recostaram gentilmente contra a cabeceira grande e almofadada em linho branco.

— Você está bem? -a azulada perguntou ansiosa, vendo Ahri assentir de leve- Quer conversar sobre isso?

— Por enquanto, não... mas obrigada... -delicada, a loira entrelaçou sua mão esquerda na mão direita de Sona, beijando as costas pequenas e macias entre os dedos.

— Tudo bem. -ela respondeu com a mão livre- Sua mãe gostou da Emma.

— Imaginei que sim, ela adora bebês. -riram- Quero dizer, se dependesse dela, eu teria uns cinco irmãos!

— Cinco Ahris? Isso seria incrível!

— Ahn, não! -meneou rápida- Seria uma coisa terrivelmente competitiva. E eu não quero te imaginar sendo paparicada por cinco Ahris. Não acha que uma já basta?

— Sim, uma só já é o suficiente... -Sona beijara sua bochecha e sorriu mais- Sinceramente, eu também estou com medo do que vai acontecer nesse julgamento...

— ...

— Tenho medo do que vou escutar de você quando formos conversar sobre a audiência de hoje. Mas principalmente, tenho medo de que você não possa mais voltar a ser a mesma Ahri, caso seu ex seja solto, de fato...

. . .

Com o sorriso desaparecido, a DJ suspirou profundamente, não deixando de manter o contato carinhoso entre as mãos. Preferiu não encarar os olhos cor de mel da mulher ao lado, também estava com medo de descobrir a resposta apenas observando eles.

— Não posso ficar com medo para sempre... -Ahri engoliu seco- É óbvio que estou morrendo de medo de entrar naquele salão e olhar o rosto dele, mas... Eu sei que isso é pro meu bem. Eu sei que isso vai ajudar outras mulheres a tomarem cuidado com ele.

— Tenho orgulho de você, Ahri. -a Buvelle sorriu doce- Diferente de mim, você está se esforçando para lutar contra o que te assusta. Mas eu... -sua garganta estava com um nó invisível dentro dela, suas narinas arderam de repente e seus olhos molharam a pele do rosto sem permissão- Estou fugindo do hospital para não ter que encarar meu pai deitado naquela maca com vários aparelhos envolta. Estou fugindo das minhas responsabilidades como herdeira dele e deixando o trabalho da empresa se acumular apenas pro Vice-Presidente. Eu finjo que não entendo a situação da Emma sendo abandonada pela família da mãe dela... Eu também finjo que está tudo bem, como se eu estivesse no controle de tudo e não precisasse de ajuda ou de consolo...

— Sona...

Não era como se nunca a tivesse visto chorar, mas Ahri sentia um buraco se abrindo no peito quando isso acontecia. E instintivamente, seus braços estavam dando a volta no corpo de Sona, seus lábios distribuíam beijos no topo da cabeça azulada, sozinhos.

Suas pernas acolheram as pernas da namorada e um leve sorriso a atingiu enquanto pacientemente, esperava-a se acalmar.

Por um momento lembrou de sua conversa com Evelynn, quando ela lhe avisou sobre Sona estar tão sobrecarregada.

Não era que a DJ não confiasse nas garotas, ela apenas não queria dar trabalho pra ninguém... Mas não dizer nada foi o que fez Eve se preocupar tanto com ela.

E até mesmo alguém tão imponente como Evelynn, sentia dor pelos outros.

Claro que era doloroso lembrar de tudo o que a ruiva lhe contou, no mais, doía porque era como se Ahri nunca tivesse se esforçado para ajuda-la em algo, mesmo quando ela própria estava com problemas.

Isso a fez sentir um pouco de raiva de si mesma, porém, deixou de lado porque Sona era sua prioridade agora e ela estava desamparada, emocionalmente.

— Eu sei que é errado da minha parte, mas eu por algum tempo, eu senti ódio da Emma. -quando a loira a viu dizer aquilo, seu mundo entrou em choque rápido- Eu senti ódio dela porque me fazia lembrar e entender que minha mãe nunca foi a única na vida do meu pai, e isso me deixou tão magoada, que eu fiquei com raiva dele também. Por isso não quero vê-lo...

— Meu bem, escute -apertara o abraço- Sentir ódio, raiva ou repulsa de alguém, é extremamente natural, sendo da família ou não. E eu entendo o seu lado, é um direito seu ficar com raiva do seu pai, e até um direito seu, sentir ódio da Emma. Mas você também entende que ela não pediu por nada disso, e olhando pelo lado do seu pai, não é que ele fingiu amar sua mãe, mas... Talvez ele estivesse se sentindo muito sozinho.

— ... -a surpresa no rosto da mais velha foi o auge da fofura, na visão de Ahri.

— Com a esposa doente no hospital e os dois filhos morando longe, ele não tinha mais ninguém para fazer companhia. Ele não tinha mais ninguém para doar suas risadas, ou mesmo compartilhar sua tristeza. A mãe da Emma foi a pessoa que ele escolheu para servir de consolo, para ter colo quando estivesse realmente solitário e lógico, isso resultou na existência da própria Emma... -suspirou afagando os cabelos azulados- Talvez, seu pai nunca tivesse tido a intenção de trair, mas ele deve ter enlouquecido quando percebeu que estava só, ser humano algum no mundo consegue viver assim.

— ...

— Não estou dizendo que adultério pode ser justificado de forma tão simples, só digo que o seu pai... estava sentindo falta de ter alguém com ele. E sua mãe sabia que ela não aguentaria muito. Quase como se ela soubesse que ele havia se relacionado com outra pessoa... E ainda assim, ela não sentiu raiva dele.

. . .

Se alguma vez existiu um lado tão complacente em Ahri quanto este, Sona desconhece; mas estava feliz com a explicação. Poderia ser verdade que a loira estivesse certa, e mesmo que não estivesse, já foi um ótimo consolo.

Seu choro persistia, e por mais que tivesse se desculpado, alegando que deveria ser o apoio de Ahri, hoje, ela estava deixando os papéis se inverterem.

Não foi um problema pra modelo, e claramente não incomodava Sona.

 

*

*

*

 

As duas acabaram dormindo depois da conversa. Akali sorriu e fechou a porta do quarto, depois de verifica-las.

Descendo a escada devagar, com uma Emma nos braços, ela olhou a linda mulher de cabelos pretos e olhos cor de mel, sentada à mesa da sala de jantar, junto de Evelynn.

— Estão dormindo. -foi tudo o que respondeu.

— Obrigada, querida.

— Sem problemas!

— Tudo bem, Zyelana-mama? -Kai’sa encarou a mãe de Ahri com um pouco de aflição.

— Sim. Ahri está parecendo muito melhor que quando saiu dessa casa... -olhou envolta do cômodo- Minha filha sempre foi muito bondosa com as pessoas, então sempre tive medo de que abusassem da bondade dela. No final, abusaram, literalmente.

. . .

As meninas não responderam. — Eu sempre me achei uma péssima mãe porque Ahri era uma criança muito bagunceira e agitada. Mas ao mesmo tempo, era tão inocente e tranquila... Depois do que houve, minha autoestima como mãe, só piorou. 

— A senhora vai achar difícil de acreditar, mas ela pensa de forma completamente diferente. -Evelynn retrucou num estalo de realidade- Ahri não te vê apenas como uma excelente mãe, mas também, como a salvadora dela. E isso não deixa de ser um fato. Se você não tivesse impedido aquele louco de continuar, Deus sabe aonde ela estaria agora ou o que estaria fazendo da vida.

— ...

— E segundo a Ahri, não existe ninguém no mundo que faça biscoitos amanteigados melhores que os seus. -Kai riu de canto, ouvindo a risada da mulher sentada à frente.

— Ahri respeita muito você. -Akali sorriu com gentileza, deixando Emma sentada em cima da mesa- Ela acha que ficar aqui, atrapalharia a vida dos pais. Eles já fizeram mais que o suficiente por ela, não deseja mais outro sofrimento daqueles.

. . .

Zyelana respirou fundo, sorrindo amargamente feliz por escuta-las. Não imaginava que sua filha a visse desse jeito.

— Minhas filhas são o meu mundo, e o que houve com a Ahri foi uma falha minha como mãe. Eu não acompanhei direito aquele namoro, eu não vi os maltratos, eu vi os machucados. Na minha casa, ele se mostrava ser uma pessoa decente. -suspirou- Pelas minhas costas, ele quase tentou matar a minha filha... O que nós passamos durante aqueles três anos, eu não desejo pra pessoa alguma no mundo. Quem já passou por isso, sabe bem a dor que é... ver o seu filho agonizando enquanto faz tratamento psicológico... A raiva, o medo e a vergonha deixam marcas muito mais profundas que os ferimentos físicos e as sequelas.

— ...

— Depois de coloca-la numa escola feminina, quisemos evitar que o mesmo acontecesse com a Xayah. E seguimos cinco longos anos mudando radicalmente as regras de convivência da casa.

— A Ahri é tão incrível... -as meninas responderam sorrindo de forma estranha, na qual Zyelana não entendeu. – Ela faz tanto pela gente sem reclamar, e nós nunca a deixamos ter o tempo dela.

— ...

— ...

— Estou feliz que estejam aqui. -a morena sorriu amorosa- Vocês são o motivo dela não ter desistido de nada. -Zyelana fez mesura- Obrigada por cuidarem da minha Ahri...

 

 

 



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