1. Spirit Fanfics >
  2. Rowlets em Hoenn >
  3. Capítulo 6: O Deserto

História Rowlets em Hoenn - Capítulo 6


Escrita por:


Capítulo 6 - Capítulo 6: O Deserto


Fanfic / Fanfiction Rowlets em Hoenn - Capítulo 6 - Capítulo 6: O Deserto

A marcha da bicicleta estava pesada e sua mão incomodava muito, mas Matt seguia pela rota de ciclismo que conectava Slateport à Mauville em alta velocidade, o caminho dos ciclistas era reto e pavimentado, em total contraste com o serpenteado selvagem que compunha a maior parte da rota 110 tradicional, só por esse caminho ele seria capaz de chegar na cidade vizinha em menos da metade do tempo tradicional e agora que estava trajado como um ciclista comum e não como um treinador pokemon, não teria de se incomodar com desafios alheios, reduzindo ainda mais o tempo do percurso.

Pedalava vigorosamente enquanto se lembrava da primeira vez que foi atacado pelo próprio pokemon, havia acontecido numa luta de ginásio em Sinnoh quando seu Monferno, excessivamente avido à batalha recusava-se à dar lugar para um pokemon mais próprio para a situação, Matt seguiu até seu parceiro indisciplinado e disse com um tom que não aceitaria ser questionado “Você vai obedecer”, o pokemon virou-se contra o treinador, mas antes que pudesse fazer qualquer coisa foi acertado pelo feixe da pokebola e retornou forçadamente ao descanso.

Trapinch havia sido mais sorrateiro, após convocado e ver seu dono à tanto tempo desaparecido o pokemon não apresentou nenhuma reação muito explosiva, foi quando Matt aproximou sua mão da cabeça da criatura para tentar acaricia-la que veio a tenebrosa mordida que tantos de seus inimigos já haviam experimentado, no último momento o treinador conseguiu fechar o punho e reduzir o estrago, mas ainda assim tinha recebido um ferimento grotesco.

Felizmente Yasmin não pode contemplar em primeira mão os frutos da falta de afetividade entre treinador e pokemon, embora os resultados de tal desavença tenham se mostrado impossíveis de serem recobertos. As dores daquele ferimento não o lembravam de Monferno apenas por ser também um caso de rebeldia, mas também por outras coincidências.

Quando era um Chimchar, Monferno nunca apresentara problemas de comportamento, era sempre obediente e dedicado, mesmo que vez ou outra fosse essas duas coisas em medida exagerada, nunca havia contrariado um comando, trapinch também, quando os dois se aventuraram por Hoenn em sua juventude, era um pokemon doce e prestativo, mas agora, após o reencontro, isso parecia ter mudado.

Conseguia compreender o motivo da revolta de seu primeiro pokemon, e aos olhos desse motivo, o que Matt pretendia fazer poderia não ser nem um pouco justo, mas desde a experiência que teve com Monferno, aprendeu que haviam maneiras muito mais elegantes, respeitosas e eficientes de lidar com indisciplina, maneiras que eram, no fim das contas, mais dignas para ambas as partes...

Foi à pouco mais de três anos atrás em Sinnoh que os impulsos agressivos que Monferno exibira no ginásio explodiram em uma situação bem mais drástica, quando estava à caminho da cidade de Solaceon Matt foi desafiado por um treinador naquilo que parecia ser apenas mais uma batalha habitual, enviou seu Monferno para o campo e juntos conseguiram vencer seu adversário treinador do tipo inseto, quando a batalha terminou, porém, Monferno não parecia nem um pouco satisfeito e batia em seu próprio peito demandando mais desafios.

O pobre garoto fugiu amedrontado enquanto Matt apontou a pokebola para seu pokemon e chamou-o de volta prometendo que encontrariam um outro treinador, dessa vez Monferno desviou do laser e começou à correr de um lado para o outro, hora balançando-se em árvores, hora correndo atrás do desafiante anterior e hora tentando forçar um confronto contra um pokemon selvagem que não tinha nenhuma chance de vitória.

Matt insistiu em tentar recolhe-lo com sua pokebola mas o macaco desviou-se com facilidade por três vezes consecutivas e depois, com um golpe de seu rabo, jogou para longe a pokebola de seu treinador, terminou a correria encarando-o de frente, batendo no próprio peito e gritando enquanto suas chamas explodiam pela vegetação, de todas as decisões que Matt poderia ter tomado, ele se envergonhava de ter escolhido aquela que provavelmente era a pior.

Sentindo-se pessoalmente ofendido pela rebeldia do pokemon e desafiado pelo seu último ato, Matt avançou para cima de seu Monferno numa investida que deixou seu alvo completamente confuso, tão inesperada era a atitude. Os dois rolaram por alguns minutos por entre a grama, trocando socos e agarrões, colocando fogo pela mata até Monferno morder o braço de seu treinador e finalmente libertar-se da sequência de agarrões.

Monferno o encarava agora de frente, verdadeiramente como um inimigo, ainda mais irritado e desafiador, Matt deixara para trás a pose de tentar agarrar e conter seu antigo parceiro e colocava-se na frente dele como um agressor, disposto à disparar socos e chutes contra aquele que alguns minutos atrás ele tinha convocado como um de seus melhores amigos. Monferno era rápido, rápido demais para que Matt reagisse e contra atacasse com eficiência, mas para a sorte do treinador, também não era um infernape, pesava no máximo vinte quilos e não era capaz de causar grandes danos se Matt mantivesse sua defesa alta.

Estavam ambos em um círculo de fogo, um círculo pelo qual Monferno tinha acesso livre para entrar e para sair, mas que debilitava a visão e a respiração de Matt, ele precisava colocar um fim aquilo, e pensando nisso abriu sua guarda de boxeador elevando um dos braços, deixando a costela exposta para que o pokemon viesse com tudo. E ele veio. Monferno disparou numa velocidade absurda, desferindo um Soco Mach que tinha aprendido ao evoluir, atingindo o próprio treinador como um jato, sem tempo para praticamente nenhuma reação... Exceto a de virar levemente o seu corpo e transferir o golpe para uma parte de suas costas que absorveram muito melhor o impacto.

O mesmo braço que antes foi levantado para abrir a guarda agora desceu como um cotovelo potente contra o pescoço de Monferno, sendo acompanhado por uma joelhada e dois socos. A punição já tinha sido severa o suficiente, mas Matt não queria correr riscos e lançou uma terceira mão, agarrando o pokemon pelo rabo e jogando-o de barriga ao chão. Montou nas costas do pokemon e começou a disparar socos contra o corpo indefeso de seu inicial enquanto gritava “Você perdeu a cabeça?” – “Você faz ideia do que ta fazendo?” enquanto o pokemon apenas esperneava sob seu peso.

A criatura havia saído de controle, perseguido um treinador iniciante, começado um incêndio e recusava-se à por fim àquele circo. Matt tinha iniciado a briga como um esforço extremo de controlar o próprio pokemon, mas as coisas claramente escalaram de uma maneira onde ele próprio estava fora de controle, até que as palavras que ele mesmo disse começaram à ecoar em sua própria consciência... “Você perdeu a cabeça?” – “Você tem a menor ideia do que você está fazendo?”

Aquela luta nunca chegou perto de ser justa, mesmo que por um curto momento tivesse sido desafiadora, mas após estabelecida a montada, transformou-se num massacre unilateral, a cada soco recebido, monferno gritava mais alto e mais chamas ele expelia de seu rabo, até por fim conseguir girar sobre si mesmo em um vendaval de chamas azuis queimou boa parte da roupa de seu treinador, finalmente libertando-se.

Os dois encararam-se novamente, dessa vez os dois muito mais feridos, monferno estava com as pernas trêmulas do esforço de ficar em pé e Matt olhava para ele agora com um tipo diferente de raiva, caminhou com dificuldade até onde estava a pokebola e declarou:

- Se você não precisa disso, saiba que eu também não preciso! Você não é meu escravo! Se quiser sair por aí como um maluco, saia, mas eu não sou parte disso! – Ele disse sabendo que o pokemon o compreendia – Some! Saia por aí e faça o que bem entender! Eu só vou tentar usar essa droga mais uma única vez! Se quiser continuar sendo um idiota arruaceiro, vá embora... Mas se quiser um desafio de verdade, eu serei o seu mestre... – Ele concluiu apontando a pokebola e lançando o laser de retorno contra Monferno, o raio conectou.

Olhava agora pela pista de ciclismo o sol poente, aproximando-se do mar distante, lembrou-se que nunca teve certeza se Monferno entrou de volta na pokebola por vontade própria ou se estava ferido demais para fugir. Até que ponto aquilo havia sido uma reconciliação ou a captura de um pokemon que já era dele? Por dias Monferno agia estranho, acuado, eles nunca conversaram diretamente sobre o que aconteceu aquele dia, mas Monferno passou à obedece-lo, no início acreditava que era um misto de respeito e medo, hoje duvidava que um ser pudesse sentir ao mesmo tempo respeito e medo por qualquer outro...

O que mais feria-o naquelas memórias não era lembrar-se do quanto havia sido mau e covarde ao atacar seu próprio pokemon, ainda mais com tamanha brutalidade. Não era olhar as cicatrizes no espelho e pensar nas semanas que passou no hospital depois daquele confronto por causa das queimaduras. Feria-o lembrar-se de quanta felicidade chimchar tinha quando o abraçou pela primeira vez, feria-o lembrar em como ele tinha transformado aquele olhar de amor e devoção em um olhar de ódio e fúria.

Mas feria-o acima de tudo lembrar de quando falhou pela terceira vez em concluir a liga de Sinnoh, aquele mesmo Monferno, agora um Infernape, havia destruído o time de Candice com um desempenho exemplar, mas o tempo havia expirado e eles estavam fora da liga. Agora ele iria tentar a sorte em Kanto e... Quando fez o mesmo movimento que tinha feito algumas horas atrás, de libertar seus seis pokemons e despedir-se deles, nos olhos daquele poderoso infernape não havia qualquer mágoa, não havia ira, ódio ou medo. Havia apenas dedicação e amor. Ambos os quais ele não merecia, ambos os quais ele não tinha como pagar por eles. Infernape merecia ser o campeão de Sinnoh, mas Matt não pôde dar isso a ele.

Estava com um semblante triste e os olhos úmidos quando chegou à Mauville, não teve animo para admirar a cidade que diferente das outras, estava tão diferente de quando ele a visitou da primeira vez. Antigamente Mauville era o coração de Hoenn, a cidade mais populosa, ainda assim carregava um charme peculiar em sua série de casas pequenas e habitantes idosos, isso era, anos e anos atrás. Agora o local tinha se transformado em um condomínio de proporções absurdas, tendo lojas, ruas, parques, prédios, um ginásio pokemon e milhares de outras moradias em seu interior. O local havia mudado drasticamente e fez Matt se sentir realmente velho por alguns momentos. Teve até mesmo de pedir informações certas vezes para encontrar o destino que almejava, uma vez que a grande, porém pacata cidade que se lembrava, não estava mais ali.

Lembrou-se que Wattson havia comentado vez ou outra que tinha planos para uma reforma completa de toda a cidade, falava constantemente sobre energia renovável e sobre como Mauville poderia se beneficiar de sua localização privilegiada. Na época parecia apenas o plano megalomaníaco de um velho que já não batia bem da cabeça. Mas agora ele havia conseguido. Matt seguiu para fora da cidade, subindo a Rota 111 até sua curva final, onde ela se virava para dar entrada ao Mt. Ember. Agora ele estava de frente à uma estreita entrada para um território árido de ventos fortes, certamente não seria uma boa ideia atravessa-lo sem o equipamento próprio, ainda menos sobre duas rodas.

Foi quando desceu de sua bicicleta e levou a mão em seu bolso. Havia ali uma única pokebola, a qual ele pegou, expandiu e convocou para sua frente. Trapinch apareceu verificando o terreno ao seu redor, mas não encontrando nada, voltou à olhar para seu treinador. Matt mostrou para ele sua mão com bandagens ensopadas de sangue e começou à desata-las, no final jogou-as no chão, na frente do pokemon, mostrando para ele as feridas ainda meio abertas da mordida:

- Você acha que eu te abandonei? Acha que eu voltei agora para te usar ou algo assim? – O pokemon respondeu com grunhidos e murmúrios que Matt não foi capaz de decifrar. – Eu escolhi você para ser meu parceiro, e diferente da primeira vez, não fui por que cheguei atrasado pra pegar outro pokemon... Estranho como naquela época você não parecia ser tão sensível sobre isso... Seja como for, esse é o tipo de coisa que não pode se repetir. – Matt disse mostrando a mão ferida para seu pokemon.

Trapinch parecia estar confuso, de alguma maneira intimidado, evitava olhar Matt nos olhos, mas ainda assim não podia deixar de ouvir o que ele falava. Estaria envergonhado? O treinador tinha dificuldade de entender o que tinha levado seu pokemon à morder-lhe em primeiro lugar, mas da mesma maneira que o motivo pelo qual ele atacou monferno não era tão importante quanto a gravidade do excesso cometido, nenhum dos motivos de trapinch era suficiente para justificar aquele comportamento.

- Eu estou saindo numa nova jornada, vou competir de novo e entrar em outras batalhas. Eu queria que você viesse comigo, mas não posso te obrigar à nada. Ali... – Matt apontou com sua mão ferida para o deserto além da estreita passagem – Ali está a sua terra natal, o local onde você foi capturado pelo meu padrinho, quanto tempo? Dez, onze anos atrás? Você nunca questionou meus comandos quando era mais novo então nunca perguntei se você queria vir nessa jornada. Bom, agora eu pergunto... Você é livre trapinch, não é meu escravo, volte para casa se quiser, por todo o tempo que passamos juntos eu faço questão de te deixar para fazer essa escolha na porta dela.

Matt encarou seu pokemon por alguns segundos e virou-se de costas, tomou a bicicleta pelo guidão, segurando com a mão que não havia sido castigada e começou à empurra-la em direção à Mauville, deixaria o ferimento respirar por alguns momentos e faria um novo curativo quando chegasse em Mauville. Não olharia para trás pois não queria que seu pokemon fosse com ele motivado por pena ao notar a tristeza em seu olhar, quando chegasse à cidade para fazer o curativo então sim olharia para os lados e se trapinch não estivesse lá, teria a consciência tranquila de ter tomado a atitude mais respeitosa e responsável.

Já havia feito isso algumas vezes, certos pokemon não compartilham do instinto de batalha necessário para seguir um treinador, outros são subitamente tomados por um espírito de rebeldia e tornam-se indomesticáveis. Pokemon capturados na zona do safari e aqueles obtidos por trocas de outros treinadores eram especialmente suscetíveis à esse tipo de coisa. Claro, trapinch não era nenhum desses casos. Foi o primeiro pokemon que recebeu, em seu aniversário de nove anos, em uma grande caixa de madeira cheia de furos que não parava de se mexer.

Trapinch já tinha roído a maior parte do que havia dentro daquilo quando Matt finalmente conseguiu libertar o bichinho, sua família achou trapinch estranho e sinceramente, ele também. Seu padrinho então o disse que se Matt treinasse aquele pokemon com muita dedicação ele se transformaria em um poderoso dragão voador do deserto. Matt então brincava com o pokemon, jogava-o para cima e pegava-o nos braços, dizendo que os dois voariam juntos um dia, porém, esse dia veio apenas para um deles, trapinch continuava, como sempre preso ao chão.

Aquela era apenas a primeira de muitas promessas que ele tinha falhado em cumprir, disse para trapinch que ambos seriam campeões de Hoenn, mas não recebeu uma insígnia sequer e constantemente perdia batalhas contra outros treinadores. Estranhamente naquela época, apesar de tantos fracassos, ainda conseguia se divertir. Aprontou uma série tão grande de confusões no caminho entre Petalburg e Rustboro que teria sido preso se tivesse a idade para isso (ou se tivesse sido pego), e em todas essas ocasiões, trapinch estava com ele. Talvez esse fosse o momento de tão aguardada justiça para aquele pokemon. Ele tinha a escolha de deixar para trás um mal amigo, que quebrou tantas promessas e que o deixou para trás depois de tantas histórias.

Deixar trapinch para trás seria como deixar para trás uma parte de si mesmo, mas por mais doloroso que fosse, era certo dar essa escolha à ele. Parou a caminhada algumas dezenas de metros antes de entrar novamente em Mauville, já era noite e ele teria que apressar-se novamente pela pista de ciclismo para encontrar Yasmin em Slateport, mas nesse momento não se importava tanto com um eventual atraso. Lentamente virou o rosto para sua direita e não viu nada além das árvores, placas e uma parte mais estreita da pista, virou então o rosto para o lado da bicicleta buscando no chão ver que uma parte de si ainda caminhava ao seu lado ou não encontrar nada desse lado também, restando-o apenas consolar-se com os dizeres “era o certo à se fazer”.

Olhou.

- É bom ter você comigo – Disse o treinador abaixando-se e arriscando receber mais uma mordida na sua mão sã, mas dessa vez trapinch apenas aceitou o afago.


Notas Finais


Fala meus quarentenados, to com um bloqueio criativo foda, mas vai passar...
Espero que tenham gostado do capítulo
Tenham cuidado com o corona e alertem seus familiares sobre os cuidados pertinentes


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...