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História Rurouni Kenshin - Neve - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo único


Kodomo...

Tomoe acariciou suavemente, com a ponta dos dedos, a cicatriz na bochecha dele.

Mesmo uma criança pode matar...

Ela o cobriu cuidadosamente com o cobertor azul marinho, apertando-o junto ao seu corpo. Observou calada o suave ressonar, o peito nu entrevisto no quimono azul escuro aberto, a franja lisa e ruiva que cobria os olhos fechados. Ele dormia um sono tranqüilo.

Então era assim que deveria ter sido sua vida, não é, meu querido? Vivendo tranqüilamente, plantando e colhendo o que precisa para viver, junto daqueles que ama...

Ele dormia sob o olhar dela, o perfume pungente de ameixas brancas envolvendo-o. Tão diferente...o sono dele antes era agitado, e ele acordava sobressaltado, pronto para lutar, a qualquer movimento. Agora não. A respiração era tranqüila e compassada, os olhos não eram, de forma alguma, os de um assassino.

Eu.... acabei amando .....

Quando ela recebeu a notícia da morte do noivo, seu coração se encheu de culpa. Kiyosato, seu amor de infância...Ele nunca saberia o quanto ela o amava!! E a culpa....ah, ela tinha resolvido fazer alguma coisa para se livrar daquele terrível fardo. Ela largou seu bom e humilde pai, seu irmãozinho, que a amava como mãe, e foi diretamente ao encontro do matador. Seria a arma para fragilizá-lo, destruí-lo, custasse o que custasse.

Mas....

Seus olhos se encheram de lágrimas.

Você .... era gentil demais para um assassino...!

Ela se levantou, antes que as lágrimas escorressem pelo rosto. Estava decidida. Vestiu o kimono lilás, ligeira, apertando com cuidado o obi azul e vermelho. Abriu a gaveta da cômoda de madeira escura silenciosamente, cuidando para não fazer barulho algum, e retirou de lá seu pequeno punhal. Colocou-o com firmeza junto ao peito, debaixo do obi.

Pegou o frasco de perfume - cheiro de ameixas brancas, mais forte sob a chuva do que sob o sol - e espalhou mais algumas gotas nos pulsos e nuca. Depois, soltou os longos cabelos pretos, espalhando o cheiro delas pelo quarto,  para escová-los e prendê-los novamente, em seguida. Olhou-se no espelho que ele tinha lhe dado, desenhando com o dedo, em sua própria face, a cicatriz.

Seria esta a ultima coisa que suas vítimas enxergavam?

Fechou o estojo do espelho, deixando-o no fundo da gaveta, junto com o diário. Queria que ele soubesse...

Calçou as sandálias e andou até a porta corrediça. Um naco de luz do sol, a despeito do frio, penetrou no cômodo escuro quando ela a abriu. Olhou para ele uma última vez antes de sair.

Adeus, meu querido...A segunda pessoa que se dignou a me amar...

 

Ele abriu os olhos, sobressaltado. O perfume dela enchia a casa. Hakubai-kou. Em seu peito um aperto, o pequeno pássaro do pânico se debatendo, louco para sair. Se desvencilhou das cobertas e correu até o cômodo principal com um sentimento ruim, sem saber o por que. Onde ela estava?

- Tomoe!

Sentiu algo úmido e viscoso lhe escorrer pelo rosto. A cicatriz....

*- Existe uma superstição...Se o ferimento for feito pela espada de alguém, com  grande ódio,não se curará até que a vingança tenha sido feita...

- Uma espada... com ódio?*

Ele abriu a gaveta de madeira escura. O espelho e o diário. Ela escrevia todas as noites. Ele nunca sequer tinha pensado em abrir . Estaria ali para ele?

O sangue que escorria da cicatriz manchou de vermelho seu quimono, pingou nas folhas brancas do diário, no nanquim preto, enquanto ele lia. Não, não....

"Ele morreu e minha felicidade desapareceu com ele. Foi minha culpa. Eu não disse a ele o quanto o amava, não fui esperta o bastante para mantê-lo perto de mim para a nossa felicidade. E quando ele morreu, fiquei quase insana com o ódio e a culpa que me fustigavam...  Eu não pude ficar parada, e vim até Kioto. Eu tive que encontrar alguém para odiar. E foi assim que eu.... entrei neste plano para assassiná-lo. "

O vento gelado entrou em uma lufada pela porta semi aberta, quase arrancando as folhas do diário. Ele leu outro trecho.

" Este é o tipo de mulher que sou. E você, ainda, diz que me protegerá...!"

 

*  *  *

 

Kenshin andava pela neve gelada seguindo as pegadas dela, ainda frescas na brancura macia do chão. O sangue escorria da cicatriz, vermelho e viscoso, pingando em seu kimono. Seus olhos estavam arregalados com uma fixidez anormal.

Eu sou o assassino que faz chover uma chuva de sangue. Vergonhoso seria se suas coisas adquirissem este odor, misturando-se comigo.

O manto azul que carregava escorregou suavemente de suas mãos. Ele virou-se, sem pensar, para recolhê-lo.

Nani!?!

O corpo de Kyosato estava bem ali, estendido na neve, a flor rosa em suas costas ensanguentadas. Ele piscou os olhos incrédulos, e, no momento seguinte, lá estava somente o manto azul claro, manchado com o seu sangue, caído na neve gelada. Pegou-o, os olhos vítreos. Olhou em volta e  não viu mais a neve- estava rodeado de corpos. Havia matado todos eles....

*O céu púrpura e escarlate se erguia sobre os três túmulos feitos por uma criança de oito anos, indiferente às desgraças do mundo.

Naquele dia, Shinta morreu... e eu renasci do que havia sobrado dele. Kenshin- não mais o espíto gentil, e sim o espírito da espada. O hitokiri.*

Caminhou penosamente, abrindo caminho pelas pilhas de gente morta, apoiado em sua espada.

*- Nós estamos quase lá - disse com um sorriso, estendendo a mão para encorajá-la, enquanto caminhavam pelo frio cortante, ela seguindo logo atrás dele - Não poderemos voltar à aldeia até que este mau tempo passe, mas acho que teremos o suficiente em casa até a primavera....*

* -Você realmente acredita que poderá ser feliz matando pessoas? Não se arrepende?

  Olhou para baixo, fitando o seu sake. O gosto nunca tinha sido tão bom, em anos.

 - Se eu conhecesse aqueles que mato, dúvidas surgiriam em minha mente.*

*- Não vou morrer! Não posso morrer!*

Insistente. Um derradeiro golpe antes da morte, a cicatriz amaldiçoada em seu rosto. E qual foi o último nome que ele murmurou, enquanto as lágrimas trasbordavam de seus olhos, no momento derradeiro?

Tomoe....

Fui eu o responsável por destruir a sua felicidade...?

 

Tomoe abriu os olhos, sem saber onde estava. As paredes e o chão de madeira, o cômodo escuro e abafado.... No fundo, um altar religioso.O gosto salgado e amargo de sangue em sua boca lhe lembrou, de supetão, onde estava. Ela levantou vagarosamente, o corpo dolorido. Então, seus olhos se arregalaram de surpresa.

Kiyosato...

Ele estava exatamente como no dia de sua morte, embora ela não soubesse. Os cortes em seu peito e em sua garganta eram profundos e suas roupas estavam encharcadas de sangue, mas ele lhe sorria com a mesma expressão gentil que ela conhecia e havia amado um dia, estendendo-lhe uma flor com a mão direita. A flor que Kenshin tinha pisado para chegar até ele e assassiná-lo.

O perdão dele foi como uma onda de alívio que inundou sua alma.

*           *       *

Quando o o homem enorme o viu se aproximando, andando penosamente pela neve, um sorriso de presunção  se estampou em seu rosto. Então este era o Hitokiri Battousai?

Enishi, escondido, apertou com força o guarda sol em seus braços, exultante. Oneechan voltaria com ele naquela tarde, com certeza.

Talvez...

Um último golpe...

Kenshin sabia, simplesmente sabia, que não iria ganhar aquela luta. Mas se ele não sobrevivesse, pelo menos ela estaria livre. Livre daquela teia de sangue e vinganças.

Tomoe... eu... vou protegê-la....

Barulho de entranhas sendo perfuradas.O sangue quente encharcando seu quimono gelado.O perfume de ameixas brancas. Hakubai-kou.

Iie...!!!!

O grito de desespero escoou na imensidão gelada.

- Tomoe!!!!!!!

* * *

Quando ela sentiu o frio do aço atravessá-la, suas mãos seguraram-no, em um esforço inútil e desesperado para libertar-se. Súbito, soube que aquele era o fim, em sua tristeza curiosamente pacífica, que sempre parecia ter conhecido.

Então era isto, o que sempre soubera, dentro do seu coração, no fundo da sua alma e do seus ossos. Já estivera ali -  aquele lugar nas montanhas cobertas de neve estava gravado em alguma parte da sua mente desde o dia da sua concepção.

Então era por isto que nunca sonhara, nunca esperara, nunca fizera planos, deixando-se estar na sua tristeza pacífica, apenas observando e bebendo a vida com os olhos!!

Ela sorriu. Eu consegui protegê-lo...

- Não chore, meu querido....

Kenshin a apertou em seus braços, querendo desesperadamente acreditar que o ferimento não era tão sério, uma centelha de esperança de que ela pudesse sobreviver. Lágrimas frias escorriam pelo seu rosto, misturando-se com o sangue quente da cicatriz que ela completara com o punhal.

Eu matei a única pessoa que prometi proteger...

De longe, um guarda sol derrubado no chão. Enishi queria gritar e bracejar, mas permaneceu parado como alguém que tivesse se tornado pedra.

-Neechan....

*      *      *

 

Chuva de inverno. Brilho prateado nas folhas das árvores, escorrendo pelos seus cabelos ruivos e lisos. Suspirou, sozinho.

As vezes, em momentos de grande quietude como aquele, sentia os braços translúcidos envolvendo-o, o perfume pungente de ameixas brancas acalentando seu coração. Tomoe. Cálida e doce lembrança. Em um daqueles dias passados em Otsu, dias em que achou que pudesse ser feliz, tinha prometido a ela...

* Sentiu os braços frios dela envolvendo-o e cobriu-a, aproximando-se do calor do fogo. Estavam abraçados, e a lenha da fogueira crepitava na quieta escuridão, aquecendo-os.

- Eu buscarei um meio de reparar todas as coisas terríveis que fiz. Se você estiver ao meu lado, eu serei capaz de me livrar da minha espada. Buscarei um novo jeito de proteger as pessoas, sem causar novas mortes, sem causar mais  sofrimentos.

Se você estiver ao meu lado...*

 

Quando a guerra terminasse...Ele jamais esqueceria, jamais deixaria de sentir aquele cheiro de ameixas brancas, de fogo e de sangue, principalmente em dias chuvosos como aquele.

E nunca, nunca mais, voltaria a matar.

Nunca mais...



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