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História Safe And Sound - Capítulo 1


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Notas do Autor


Olá, gente! Tudo bom com vocês?
Olha, é o seguinte, essa é minha quarta fic neste site e não sou uma pessoa desocupada como vocês devem pensar kkkkk, só uma criatura que consegue dosar o trabalho + os estudos + o exercício da criatividade + a vida social dentro das 24 horas do dia e que encontra aqui um jeito legalzinho de desopilar das dificuldades do dia e da vida. E olha que por dificuldades a gente vem passando muita.
PS. Escrever fic me ajuda a não deixar minha escrita engessada. Meu trabalho exige um padrão textual minuciosamente traçado e isso torna, por vezes, o ato de escrita cansativo e repetitivo. É aqui que eu exerço meu poder de mexer com as palavras e com o texto como bem quero. É bem libertador das regra do trabalho e regras acadêmicas.

Bom, o arranque pra essa fic veio de uma série que assisti e que me fez total imaginar a Lica como a protagonista. Não foi difícil desenrolar um plot Limantha dela não, mas vejam bem: não é adaptação, foi só inspirada no que vi em Stumptown. O que tem aqui saiu da minha cabeça mesmo rs.

Bom, espero que vocês gostem.

Capítulo 1 - Ossos do ofício


- Ih... que cara é essa? –Lica ia abrir a boca para responder, mas foi interrompida – Se for mais treta, nem me fala – Ela ficou muda – Ah, meu Deus... o que foi agora? – Keyla se preocupou.

- Não foi nada de mais – respondeu à meia voz – Lembra daquele caso que te falei?

- Daquela mulher que te pagou pra saber se o marido traía ela? Lembro sim. Qual o BO?

- O cara estava traindo sim... Mas com um homem – Keyla quase derrubou o copo com a batida de um cliente – E agora a mulher não sai do meu pé.

- Ué, mas você já deu o que ela queria, já disse que o marido traía ela... O que mais ela pode querer?

Lica bufou.

- Eu.

- Oi?

- Eu. Ela veio aqui mais cedo e procurou por mim. Eu falei que não estava interessada e que ela estava confundindo as coisas porque queria dar um troco no marido. E eu não sei como – Lica encostou a testa no galpão e suspirou profundamente – Ela conseguiu meu número e agora, está me enchendo de mensagem.

Virou o celular para Keyla ver.

- Wow! – exclamou e arregalou os olhos – Gatona ela, hein?

- E maluca. Sério, Keyla, maior cara de stalker e eu já falei que não quero nada.

- Vai na polícia e denuncia – a amiga sugeriu.

- Deixa a polícia fora disso, que eles são meros burocratas.

- Ah, claro. Eu esqueci esse seu lado “eu resolvo tudo sozinha, não precisa chamar ninguém porque a super Heloísa Gutierrez dá conta”. Vai dar merda – a amiga atestou e virou-se para pegar uma dose de uísque.

- Eu resolvo a merda – disse ainda com a testa sobre o balcão.

- Toma – entregou a dose de uísque para Lica.

- Ai, valeu, Key. Eu estava mesmo precisando.

- Não é pra você. É pro carinha da mesa três – a mulher rebateu e virou-se para cuidar de seus afazeres.

Suspirando, Lica girou nos calcanhares e levou a dose até o cara.

- Tim-tim – disse com um sorriso amarelo e já ia se retirando, quando a voz do homem lhe parou.

- Queria ter alguém pra poder brindar de verdade, mas ninguém mais faz sentido pra mim a não ser ela.

Franzindo o cenho, Lica virou-se para ele.

Estatura mediana, cabelos pretos cortados de lado, uma barba apontando no rosto e uma expressão um tanto triste e abatida. Enfiado em um terno impecável, o homem parecia um tanto quanto depressivo, na verdade.

- Pardon moi? – Lica exibiu seu melhor francês.

- Você sabe quem era ela? Quer dizer, eu te vi aqui ontem... te vi todos os dias em que vim aqui e... Bom, você é amiga da dona, deve saber quem frequenta.

- Olha, eu não estou entendendo onde você quer chegar e nem quem é “ela”. Se o senhor me permite... – virou-se para sair, mas foi parada novamente.

- Alta, cabelos loiros, olhos claros e um sorriso lindo. Pediu um bloody-mary ontem à noite quando conversamos e... ela tem a voz mais doce do mundo.

- Bom, pelo menos 40% das mulheres que frequentam esse bar possuem essa descrição, então se o senhor me der licença.

- Eu sei quem você é – Lica estacou – Heloísa Gutierrez. Um amigo me indicou seu nome.

- Que amigo?

- Michel.

Ah, MB....

- O que você quer, afinal?

- Encontrar a mulher da minha vida – o homem foi claro, mas seu olhar ficou vago e meio fora de órbita – A mulher mais linda e doce que eu já conheci.

- Desculpa, mas eu não faço mais esse tipo de trabalho.

Lica apressou-se em sair, mas não conseguiu dar nem um passo.

- Eu pago.

Virou-se para ele.

- De quanto estamos falando?

- Dois mil – foi decidido.

- Eu acho que vou precisar de mais detalhes – Lica riu sem humor e sentou-se frente a frente com ele.

Não a julguem. Ela precisava de dinheiro. Tinha aluguel, contas atrasadas e um apartamento para manter. Já fazia um tempo que não tinha uma oferta tão generosa assim na lata, era pegar ou largar. Bom, ela pegaria.

Heloísa Gutierrez era... era.... Bom, o que ela era mesmo? Melhor começar pelo que ela não era mais. Lica, como era conhecida no seu círculo mais íntimo, era ex-piloto de caça da Aeronáutica, integrara as Forças Armadas quando era mais jovem. Desde criança tinha verdadeiro fascínio por voar e por tudo que envolvia aeronaves em geral. Talvez se alistar fora a única coisa que fizera de certo na sua vida.

Passara cinco anos cortando os céus do país, levando e trazendo equipamentos, gente, mantimentos a quem precisava, garantindo a segurança nacional pelos ares. Certa vez se embrenhara no meio da Amazônia em uma missão de resgate a animais ameaçados por uma queimada que se espalhava com velocidade estratosférica pela vegetação. Manter um helicóptero pairando exatamente no mesmo local por horas, enquanto uma equipe do Exército em terra resgatava os animais, não era exatamente fácil. Mas ela o fez e o fez com maestria.

É que tudo o que ela se propunha a fazer, ela fazia bem feito.

Ou quase tudo.

Teve uma coisa que não conseguiu. Uma coisa que ainda hoje lhe atormentava. Pesadelos que se transformam em traumas e parecem te limitar para o resto da vida.

O momento era de alegria e celebração. Estavam em uma apresentação da tropa da Esquadrilha da Fumaça, da qual era fazia parte, e tudo, simplesmente tudo, parecia nos conformes para que a formação fosse a mais linda que o céu brasileiro já havia visto. Mas vai entender os desígnios de Deus ou seja lá que ser superior você acredite (se é que você acredita em um ser superior).

Uma manobra mal executada e um avião acabou saindo da formação. Na tentativa de tomar novamente o controle da aeronave, o piloto forçou demais o manche e ele acabou emperrando. A saída era óbvia: abandonar o avião e saltar com o paraquedas de emergência. O problema: só havia um equipamento na aeronave. E o responsável por verificar todos os itens de segurança não prestara atenção naquilo. Uma falha inaceitável e, infelizmente, fatal.

- Vai, Lica! Salta logo! – Adalberto, ou Deco, para os mais íntimos, gritou pelo que parecia ser a milésima vez.

- Eu não vou saltar sozinha! Você vem comigo! – e tentou puxá-lo, mas o rapaz permaneceu onde estava, tentando manter a aeronave na horizontal, mesmo com o manche emperrado.

- Não vai aguentar nós dois! Eu não tenho nenhuma trava aqui. Vai logo, eu vou subir esse avião, prometo!

- Não! Deco, isso não vai dar certo!

- Salta logo, Heloísa! Vai!

- Deco, não!

- Vai!

Ele mesmo foi que a empurrou para fora da aeronave. Meio sem jeito, ela saiu rodopiando no meio do azul do céu até conseguir assumir o equilíbrio do próprio corpo e controlar a velocidade da queda. Virou-se para trás. Um erro.

O avião onde Deco estava se chocou em um rochedo. A aeronave virou uma bola de fogo. Um dos seus melhores companheiros de voo se fora diante de seus olhos e ela não pode fazer nada, simplesmente nada. A dor que sentiu ao aterrissar com um tranco no campo de voo da base não se comparava em nada com o sofrimento excruciante que era dentro.

Lembrava de luzes, sirenes, um aglomerado de gente ao seu redor... apagara por dias. Acordara em uma cama de hospital sem entender muito bem o que havia acontecido. Tecnicamente ela não tinha sofrido nenhum dano físico, mas os médicos lhe foram precisos: às vezes quando a mente sofre um baque emocional muito grande, o cérebro se desliga para que o corpo não sinta fisicamente. Foi isso. Lica entrou em stand by.

E pareceu continuar em stand by por um bom tempo. As idas ao psicólogos, as longas sessões de terapia a ajudaram a recobrar um pouco do ânimo que sempre teve e que sempre fora sua marca registrada. Mas havia sempre algo faltando. Convivia com a ausência de Deco e com o sentimento de incapacidade e insuficiência sobre si mesma por não ter conseguido salvar a vida de um de seus melhores amigos.

Quanto ao rapaz que deveria ter verificado os equipamentos de segurança, Felipe Lacerda o nome dele, acabou sofrendo um processo administrativo e foi expulso das Forças Armadas. Sem o foro militar, respondeu na justiça comum por homicídio. Poderia ter recorrido em liberdade, se não tivessem provado por A mais B que ele havia feito a vistoria dos aviões sob efeito de álcool. O resultado de uma noitada no dia anterior. Acabou preso.

Sete anos depois e Heloísa, vez por outra ainda, se via atormentada pelas cenas daquele fatídico dia. Não era raro o suor noturno e as madrugadas em claro, mas ela vinha lidando bem com isso nos últimos anos. Entretanto na vida dela, aquele ditado que diz que desgraça pouca é bobagem fazia todo o sentido. Sem conseguir nem entrar em um avião direito, Lica acabou pedindo dispensa da Aeronáutica. Resolveu cuidar de si e tentar dar um rumo diferente à sua vida. Um rumo que não fosse permeado por lembranças e pesadelos e traumas.

Mas quando pensou que poderia finalmente cuidar de si, seu pai aconteceu. Edgar Gutierrez nunca fora lá o melhor pai do mundo. Na verdade, ele passava longe disso. Traíra sua mãe com a melhor amiga dela por anos, engravidara a mulher e teve com ela uma filha que, pasmem, nasceu no mesmo dia que Lica. Ironia do destino, que chama.

Clara Becker Gutierrez era o oposto de Lica: primeiro de tudo é que ela tinha um rumo na vida, ao contrário da irmã que começou e largou três faculdades. Namorava firme com um rapaz bem apessoado (na verdade, ela estava noiva dele), era empresária, dona de uma escola e respeitada em seu meio profissional. Herdara o tino para o ensino de seu avô, Maurício Gutierrez, homem cujo nome Edgar quase jogou na lata de lixo.

Bom, Edgar sumiu no mundo depois que descobriram suas falcatruas nas empresas da família. Clara teve que começar tudo do zero, até tentou conseguir a ajuda de Lica, mas ela mesma só queria distância de qualquer coisa que a relacionasse ao pai. E, bom, se dizem que toda família tem uma parte rica e uma parte pobre, Lica era a parte... menos abastada, digamos assim.

Sua mãe, Marta, praticamente entregou os pontos e decidiu deixa-la por sua própria conta e risco depois de vê-la chegar aos vinte e sete anos sem um rumo traçado na vida.

“Eu ainda estou tentando me encontrar, mãe. A única coisa que eu sabia fazer era voar e isso virou um trauma. Deixa eu ver o que a vida me reserva” – dizia a Gutierrez filha.

“A vida te reserva boletos acumulados e mil e uma oportunidades indo embora sem você se decidir, Heloísa” – insistia a mãe.

Deixou para lá. Se ela mesma não conseguia se encontrar, Marta que não conseguiria fazer isso pela filha. Mas também, não deixou que Heloísa visse nem o azul de seu dinheiro. Já dizia aquele personagem de filme de super-herói: com grandes poderes, vem grandes responsabilidades. Bom, no caso de Lica, não tinha superpoder nenhum, muito mesmo as grandes responsabilidades. Por isso Marta adaptou a frase para “com muitos boletos vêm a necessidade de crescer. Se vire”. E se mudou para Paris com ninguém menos que o pai de criação de Clara, Luís, a quem Lica tinha resistências fortíssimas, principalmente porque via nele a graça de um picolé de chuchu. Sua mãe merecia mais... mas se ela estava feliz, quem era Lica para dizer o contrário?

Bom, o fato era que para se manter, Lica usava de tudo aquilo que o tempo servindo às Forças Armadas lhe ensinou. Mais que uma exímia piloto, ela era rápida, esperta, inteligente, pegava as coisas na velocidade da luz, no ar (às vezes literalmente), sabia ligar os pontos, traçar estratégias e, como integrante da Divisão de Inteligência da Aeronáutica, sabia investigar como ninguém.

E era isso que Heloísa fazia. Resolvia os problemas das outras pessoas. Problemas nos quais a polícia não podia nem iria se envolver. As traições, os elos perdidos, a busca pela alma gêmea a quem só se viu uma vez.... Costumava dizer que dava felicidade às pessoas.

- Você esfregou na cara da mulher as fotos do marido transando com a irmã dela. Como que isso é felicidade, sua tonta? – Keyla ralhava.

- Eu devolvi a ela a capacidade de ver as coisas. Era como se a percepção dela estivesse encoberta por uma névoa e eu fui lá e tirei – justificou-se.

- Lica, você disse que a mulher estava sendo traída há meses, entregou fotos do marido dela sem roupas com a amante em um motel e em seguida cobrou cinco mil reais que ela estava lhe devendo. Eu entendo isso como desumanidade – Benedita pontuou.

- Problema seu, Benê – Lica deu de ombros – Eu entendo como abrir os olhos das pessoas. E cobrei barato pra ela. Devia ter pedido no mínimo uns oito mil. Aquele caso deu trabalho.

Mas o problema era que Lica era impulsiva e humana demais. Não eram raras as vezes em que ela se envolvia demais com as pessoas dos “casos” que pegava e acaba metendo os pés pelas mãos. Certa vez, o dono de uma empresa de publicidade pediu que ela descobrisse umas informações privilegiadas sobre seu concorrente para tentar saber se estava ou não sendo boicotado. Bom, ele estava. E pela pessoa que considerava como seu braço direito dentro da agência.

Lica não se controlou. Voou no pescoço do dito cujo quando o viu se reunindo à escondidas com a concorrência. Movida pelo sentimento de justiça e compadecia pelo cara que lhe contratou, lhe disse umas poucas e boas e ainda lhe deixou umas marcas bem dadas no rosto.

Foi parar na delegacia: sua sorte é que o cara que a denunciou (a quem ela agrediu com um soco nas fuças) não formalizou a queixa porque acabou sendo pego em um processo de plágio e não queria se complicar mais. E bom, Lica conhecia o delegado da área: Francisco Pereira, a quem já apelidara carinhosamente de Fio, já lhe livrara de poucas e boas.

Mas era por essas e outras que nem sempre ela honrava com os compromissos que assumia. E nem sempre recebia pelo que se propunha a fazer. Isso significava não ter uma fonte de renda fixa. Pedir para sua mãe é que ela não pediria mesmo. Podiam juntar cem multas de estacionamento (e essas, ela acumulava aos montes) e dez meses de aluguel atrasado, mas não abriria mão de seu orgulho.

- Que é isso, Benê? Vai viajar? – estranhou quando viu a amiga guardando alguns pertences numa mochila, assim que entrou em casa.

- Não. Eu vou me mudar para o apartamento da Keyla. Você está devendo cinco meses de aluguel e o dono ameaçou te despejar. Não quero ser despejada junto.

Ai, a sinceridade e a precisão cirúrgica de Benedita....

- Eu vou pagar esse aluguel, beleza? – rebateu, ofendida – Peguei um caso bacana aí e o que eu conseguir vai dar pra quitar a dívida do apê.

Jogou a carteira na mesinha de centro e rumou para a geladeira, de onde tirou uma garrafa de cerveja.

- Eu espero que dessa vez você não seja presa, nem agredida, nem ameaçada. E não quero ninguém batendo na porta à meia-noite mandando você devolver o dinheiro porque não fez o que combinou.

- Relaxa, Benê – Lica pediu e segurou a amiga pelos ombros – Dessa vez é sussa. É um caso de amor. O cara quer encontrar a alma gêmea dele e eu vou ser o cupido. De nada – tomou um gole generoso da cerveja direto no gargalo.

- Isso não está me cheirando bem – Benê alertou – E por falar em não cheirar bem, isso me lembra que você precisa consertar a máquina de lavar. Daqui a pouco não terá mais o que vestir. Todas as suas roupas estão ficando sujas e a pilha só está aumentando.

- ‘Cê tá me chamando de fedida? – Lica cheirou as próprias axilas.

- Não. Ainda não – Benê soltou tranquilamente.

- Ó, eu vou consertar a máquina, ok? Assim que tiver a grana.

- Pensei que você usaria o dinheiro para pagar o aluguel.

- É mesmo... – Lica coçou a cabeça – O que é pior? Ser despejada com as roupas limpas ou ter onde morar com as roupas sujas?

- Você pode lavar suas próprias roupas – Benê deu uma luz – E pagar o aluguel atrasado. Ninguém é despejado e você veste roupas limpas.

- Benê, da última vez que eu fui lavar roupa na mão, minhas calcinhas terminaram azuis. Todas elas. E não era um azul bonitinho não. Era um azul horroroso e desbotado.

- Isso que dá colocar roupas brancas com calça jeans. Você devia voltar a morar com sua mãe Lica. Claramente você não é uma pessoa que sabe viver sozinha. Precisa de alguém que te ensine a como não morrer.

- Ow, eu sei me virar sozinha, tá? E eu não quero ajuda da dona Marta.

- É por isso que eu estou me mudando. Volto quando você pagar o aluguel – Benê virou-se para a porta – Com licença. Passar bem, Lica.

E saiu. Dois passos depois, do outro lado do corredor, Benê parou à porta da casa de Keyla. Bateu duas vezes até a mulher abri-la.

- Oi, e aí, Benê? Eu estava te esperando. Pegou o que precisa? Eu fiz uma lasanha daquelas pra gente jantar. Entra – deu espaço para a amiga.

- Lasanha? – Lica se materializou na porta – Tem lugar pra mais uma aí na mesa?

- Você come lasanha, Lica? Pensei que você só bebesse – Benê disparou, arrancando um barulho estranho da garganta de Keyla que tentou segurar o riso.

- Eu estou parando, Benedita – e tinha uma garrafa de cerveja nas mãos.

- Tem mais cerveja que água na geladeira da sua casa.

- Vamos parar com esse assunto? – Lica cortou – Vamos jantar, vai – e passou por Keyla e Benê, entrando logo no apartamento da amiga.

- Ei, ninguém te convidou não! – Keyla ralhou, vendo Lica desfilar sem os sapatos, usando uma meia preta, no meio da casa.

Mas Lica não deu ouvidos.

- Onde ficam os talheres? Esse cheiro está maravilhoso, hein, Key. Depois me passa a receita – disse de lá de dentro.

- A Lica vai colocar fogo no prédio se tentar cozinhar. Ela só come congelados e bebe cerveja. Para nossa segurança, não passe a receita, Keyla – Benê praticamente implorou, o que fez Keyla revirar os olhos.

- Meu Deus, bem que minha mãe, que Deus a tenha, dizia pra eu escolher melhor minhas companhias – e vendo a cara de Benê – Estou falando da Lica, Benê. Da Lica – e fechou a porta atrás de si.

(...)

Às coisas práticas: Lica acordou cedo no dia seguinte para trabalhar nas informações que conseguira sobre a tal moça do bar que o carinha lhe pagara para achar. Acabou descobrindo o endereço dela após dar em cima de uma das funcionárias do bar de Keyla (pedindo a Deus que ela não contasse isso à amiga) e seduzir descaradamente um motorista de táxi que fazia ponto ali perto do estabelecimento.

De posse da informação, rumou para o local que tinha anotado. Um edifício de classe média na Mooca.

- Segura pra mim – pediu para a mulher que saía, apressando o passo para pegar a porta aberta, mas a mulher não lhe deu ouvidos e fechou a passagem sem nem lhe dar confiança – Eu moro aqui, ok? Só esqueci a chave!

Bufando (e mentindo) ela apertou o primeiro número de interfone que viu. Nada. Então sem nem hesitar, e dando uma conferidinha ao redor, arrastou os dedos por todos os botões do interfone. Alguém teria que permitir sua entrada. Um do número 808 respondeu.

“Sim?”

“Entrega” – tentou. Isso sempre funcionava.

“Entrega de quê?”

Pensa, Lica, pensa... o que diabos as pessoas costumam pedir com frequência?

“Japonês”

E em um clique a porta destravou. Entrou sem nem perder tempo e rumou para o alarme de incêndio, quebrando-o com uma cotovelada e se escondendo na área da saída de emergência. Com a sirene soando, um a um os moradores foram saindo de seus apartamento visivelmente alvoroçado.

Um homem barbudo, um senhor de meia idade, uma mulher de cabelos pretos em corte Joãozinho, uma morena de cabelos vermelhos que uau! Lica se perdeu nela por alguns instantes e teve a impressão de ter recebido até uma piscadela de olho... Um casal de adolescentes saiu ajeitando as próprias roupas (tomara que tenham usado camisinha), uma loira dos olhos claros e lábios proeminentes...

- Catarina? – pulou na frente da mulher.

- Sim? – o alarme ainda soava ao fundo.

- É hoje que eu pago a porra daquele aluguel – Lica disse animada e puxou a mulher pelo braço prédio acima.

- Que é isso, ficou maluca? Me solta, isso aqui pode explodir! – a mulher começou a dar um showzinho.

- Relaxa, é só uma simulação e eu sou dos Bombeiros – ela tentou qualquer coisa para parar o ataque histérico da mulher.

- Você não está de uniforme – a mulher observou.

- Olha, o lance aqui é rápido, tá? Eu preciso que você venha comigo. Se não for por bem, vai ser por mal.

- Que brincadeira ridícula é essa? Você vai me sequestrar ou o quê?

- Eu estou com o amor da sua vida. Desculpa por isso – sem muito esforço, Lica pegou a mulher pela cintura, a colocou sobre os próprios ombros e a levou prédio a fora, pouco ligando para os gritos desesperados dela e os murros que ela lhe dava nas costas.

- Me solta, sua louca! Eu não tenho dinheiro, não tenha nada! Eu vou chamar a polícia!

- Não, sem polícia! – Lica a colocou no chão, mantendo-a segura a si para evitar que ela corresse – Ó, eu encontrei um cara ontem num bar aqui da Augusta. O nome dele é Alex. Soa familiar? Por favor, diz que sim.

- Alex... – a mulher processou e Lica viu um sorriso preguiçoso se abrir no rosto dela – Alex. Sim, lá do Romano’s. Eu encontrei com ele lá ontem sim... Por que?

- Bom, ele ficou caidinho por você e parece que não é o único apaixonadinho aqui – se viu sorrindo ao falar com a tal Catarina – Ele pediu pra eu te encontrar e bom, eu te encontrei e preciso te levar até ele.

- Ele quer me ver de novo? – ela se animou.

- Sim. Disse que te ligou, mas que o número só dava na caixa postal, então me contratou pra eu te localizar e... bom, cá estou eu.

- Eu... eu fui roubada ontem depois que saí do bar. Ainda não recuperei o número – ela riu abobalhada – Ele me ligou.

- Umhum, mas ó, a gente pode ir logo? Tem um cheque bem gordo me esperando e eu estou morrendo de vontade de vê-lo.

- Espera, mas como eu vou saber que você não é uma maluca, psicopata que só quer me sequestrar e vender meus órgãos?

Lica a olhava incrédula.

- Entra nesse carro antes que os Bombeiros cheguem e vejam que não tem fogo nenhum.

Abriu a porta para ela, deu a volta no carro e se acomodou no banco do motorista,

- Eu pensei que você fosse dos bombeiros – a mulher riu-se.

- Eu não sou. O único fogo que eu apago é... – mas se refreou e pigarreou – É outro fogo e de outro jeito. Partiu encontrar o amor da sua vida.

Bom, Lica levou a tal Catarina até Alex, os dois de fato pareciam dois pombinhos apaixonados... e bom, ela sugeriu que no próximo encontro os dois trocassem redes sociais e não telefones. Menos burocrático.

E saiu de lá com um cheque de dois mil reais em mãos. Mas ao chegar ao banco, o documento estava sem fundo porque a conta a que ele estava associado, de uma tal de Ana C. Campos Fernandes, se encontrava simplesmente zerada. Só não xingou o gerente porque poderia ser presa por aquilo. Ou expulsa da agência. E não sairia de lá sem seu dinheiro.

Ligou para o tal Alex uma vez, duas... Bom, usando de seus meios, não foi difícil descobrir onde ele trabalhava nem seu endereço. Bateu na empresa dele, mas lá ele não estava. Foi até sua residência e lá encontrou uma mulher com duas crianças.

- Licença, desculpa incomodar, mas aqui é que mora o Alex? Alexandre Fernandes?

- Sim? – a mulher respondeu pelo interfone – Quem gostaria?

- Meu nome é Heloísa, tenho negócios pendentes com ele. Ele se encontra?

- Não, no momento ele está no trabalho.

- Não está não, senhora, eu acabei de vir de lá. Por favor, é realmente importante.

- Como não está? Ele saiu daqui hoje de manhã dizendo que estaria na empresa?

- Quem está falando? – Lica quis saber.

- Clarisse, a mulher dele.

Lica entrou em um acesso de tosse. Preocupada, a mulher abriu os portões para acudi-la. Na sala de sua casa, deu-lhe um copo d’água para ver se ela se acalmava.

- A se-se-senhora é... mulher dele? Tipo... casada? – Não, não, não.... Pelo amor de Deus, não!

- Sim. Somos casados há oito anos. Temos dois filhos: um casal de gêmeos – riu-se a mulher – a Ana e o Arthur... – e analisando Lica mais apuradamente – Você é alguma parceira da empresa? Representante de alguma marca?

“Não, minha senhora, eu não sei nem com o que seu marido trabalha e acho que ele está lhe traindo”, ela pensou. Filho duma mãe! Canalha! Safado! Sem vergonha! Patife! A raiva foi começando a subir à cabeça de Lica.

- Na verdade, eu presto consultoria a ele. Acho que nos desencontramos – riu, sem graça. Depositou o copo de água sobre a mesinha de centro e pegou o próprio celular. Bendita hora em que instalou aquele aplicativo de rastreio de segurança em seu dispositivo. Fizera isso a pedido de Keyla depois que Tonico, filho de sua amiga, insistira em ganhar seu primeiro celular. Pelo app, ela, a própria Keyla e Benê podiam monitorar a localização do aparelho do menino. Questão de segurança.

Lica digitou o telefone que Alex lhe dera e ele apontara o endereço em um... Ah, safado filho da puta!

- Dona Clarisse, eu preciso que a senhora venha comigo – foi categórica.

- O quê? – a mulher se alarmou.

- Eu sinto lhe dizer isso, mas seu marido está lhe traindo e acho que lhe roubou – jogou sem medir as palavras.

Clarisse gargalhou.

- Me.. me traindo? Que é isso, do que você está falando? Eu não...

Lica simplesmente virou o celular para que a mulher conferisse os dados na tela. O IMEI do aparelho de Alex piscando em um motel perto da Paulista.

- Eu estou de carro – Lica se pôs de pé – Por favor – indicou a passagem para a mulher.

Atônita, Clarisse pegou a bolsa e marchou porta a fora com a Gutierrez. A mulher não sabia nem o que estava fazendo. Estava ficando louca, afinal? De entrar no carro de uma desconhecida, com uma desconhecida, que lhe dissera que seu marido com quem era casada há oito anos estava lhe traindo? Lhe roubando?

Bom, provou por A mais B que a loucura era mais sã do que ela podia pensar. Sem nem terem autorização, invadiram o motel e encontraram na suíte presidencial Alex e Catarina em uma posição que Lica desconhecia, aproveitando o máximo os prazeres carnais. O que se viu depois foram gritos, vasos quebrados, bolsadas, um homem completamente nu sendo humilhado e agredido pela mulher (ex-mulher, Lica acreditava) e uma amante numa situação igualmente vexatória.

Bom, ao menos Heloísa conseguiu seu dinheiro de volta depois de expor Alex daquele jeito ante sua esposa. Ele havia passado todo o patrimônio da conta dela para a dele próprio e tinha a intenção de sair do país com Catarina. E Lica seria o quê? Cúmplice de um crime? Nem a pau.

Depois de muita dor de cabeça recebeu seu pagamento. Mais até do que esperava. Bom, tinha aberto os olhos daquela mulher, lhe mostrara a verdade. Estava feliz e satisfeita.

E pagaria seu aluguel, acima de tudo. No fim das contas, nem era um trabalho tão escuso assim.


Notas Finais


Eis aí Heloísa Gutierrez. Eu diria que minha filha aqui não é nem doida, só tem um parafuso a menos mesmo.

Essa fic, eu já venho pensando nela há um tempo, já tinha uma coisa ou outra escrita e tive a coragem de colocar agora (bora aproveitar a quarentena e FIQUEM EM CASA PELO AMOR DE DEUS).
O que vimos aqui foi só uma breve apresentação da nossa lead woman. A outra protagonista vem no próximo capitulo rs.

Espero que tenham gostado, porque pra mim foi divertido escrever rs. No mais, obrigada pela leitura e nos vemos no próximo capítulo.


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