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História Saint Seiya - The Last Union - Capítulo 29


Escrita por: DenegryAngel

Notas do Autor


Olá a todos. Primeiro, queria pedir desculpas a todos por demorar tanto tempo para postar um novo capitulo. Eu continuei a escrever durante todo este tempo mas a minha vida profissional deu cambalhotas tão grandes que eu simplesmente me afogava cada vez mais em trabalho/trabalho/trabalho e nem vi o tempo passar....

Eu acompanhei os comentários de vocês aqui e, do fundo do meu coração, agradeço a todos vocês! Vou responder todos (se é que não respondi). Eu agradeço o apoio, agradeço a consideração e agradeço por não desistirem de mim.

Em especial, este capitulo foi 25 páginas. Eu escrevi 37 páginas mas vi que estava me alongando demais então cortei logo para publicar. Então, já sabem, tem muita coisa escrita para vir rss...

Como estou desempregada (pandemia né gente...) eu vou usar para estudar para a pós-graduação e descansar. E eu descanso escrevendo a fic. Pretendo e espero escrever o mais rápido possível. Como sempre, não prometo, mas farei o possível.

Abraços! Se possível, deixem sua opinião sobre o que acharam do capítulo :)

PS: idades alteradas devido às políticas do spirit. Por favor, quem tiver dúvidas, pode me perguntar que eu respondo,ok?

Capítulo 29 - CAPÍTULO XXIX Revelações


O sorriso das Fiandeiras se alargava ainda mais. Os quinhões que Láquesis havia distribuído estavam surtindo efeito e produzindo frutos. Estavam belíssimos!

A Roda da Fortuna estava girando... girando... e girando... conforme elas queriam que girasse. Os destinos traçados caminhavam para os eixos que as Fianceiras teceram. O equilíbrio cósmico estava cada vez mais próximo.

 

 

 

Hera não deixava de observar o Templo de Athena no Olimpo. Dele, emanava uma energia poderosa e estranha do lugar. Todos sabiam que não era o corpo de Athena que ali se encontrava, já que Zeus o escondeu em algum lugar desconhecido na Terra. Mas então... o que era?

Deméter, que estava passando pelo local, percebeu o olhar de Hera e lhe indagou:

- O que tanto olha para o Templo de Athena?

Hera piscou lentamente para o Templo. Sem mudar a expressão, voltou-se lentamente para a irmã, acariciou sua coruja e resolveu dizer o que lhe intrigava:

- Sinto um grande poder vindo dali. Mas não sei o que é. Sabemos que não é o corpo de Athena mas.... tem algo ali dentro que me intriga.

Deméter cruza os braços.

- Também sinto. Desde que Athena começou estas encarnações sazonais, um poder se acumula ali dentro. E ela possui ninfas e dríades fiéis a ela que guardam seu Templo e não deixam que ninguém entre ali enquanto ela está na Terra. – Deméter bate alguns dos dedos em deu braço, pensando, por um tempo – Eu sugiro perguntarmos a ela quando formos nos encontrar, assim que você nos der o seu aval.

- Eu discordo. Athena pode entender que queremos usar o que quer que seja que está ali dentro em nosso benefício como barganha na negociação e recusar a aliança. Podemos ter mais problemas do que soluções ao indagá-la sobre isso.

- Acha que seus cavaleiros sabem sobre isso? Ou aqueles que lhe são mais próximos?

Hera pensa por um momento antes de responder.

- Talvez.

- Posso usar aquela garota loira, que foi receptáculo de Éris, para tentar descobrir mais sobre o Templo.

- Podemos fazer isso. – Hera levanta-se – Mas corremos risco de ter mais problemas com Athena. E nossa aliança pode não ser frutífera.

Deméter sorri.

- Eu posso usar um oráculo sem o humano saber que está sendo usado.

Hera concorda.

- Mas não vamos usar esta tática agora. Vamos esperar mais um pouco. Talvez o segredo se revele por is só, sem precisarmos nos apressar.

- Tudo bem. – Deméter espera um pouco antes de perguntar – Você já conseguiu conversar com Afrodite e Hefestos?

Hera exala, em frustração.

- Ainda não. Já marquei 3 reuniões com eles e eles sempre se escusam a comparecer. Sem Zeus, eles não se compelem a vir à minha presença.

- Então, vamos até à presença deles.

Hera levanta uma sombrancelha ante a sagacidade do pensamento e gosta da ideia. Não tinha lhe passado pela cabeça simplesmente ir até eles.

- Sim, vamos.

- Afrodite deve estar na sala em que Hefestos forja os raios de Zeus. Ele ainda os tem feito. Vamos lá?

Hera sorri.

- Vamos.

Hera levanta-se e acompanha Deméter.

 

 

 

Persérfone tinha tido mais uma rodada de treinos com Hypnos e ambos concordaram que os treinos tinham chegado ao seu limite: Persérfone não tinha mais nada para aprender com ele.

Mas a Rainha do Inferno não se sentia preparada para a Guerra que viria. Foi quando lembrou-se de Thanatos: apesar de ainda não sentir tanta confiança neste gêmeo, seria interessante treinar com ele. E também seria uma estratégia interessante treinar com um escudo defensivo invisível e insensível a deuses de categorias inferiores levantado, pois assim ela ficaria mais forte.

Antes deste tipo de treino, contudo, ela teria que treinar a sua capacidade de suportar este tipo de coisa, pois grande parte do seu poder era consumido pela dinâmica do Inferno, o mesmo ocorria com Athena, com a Terra, mas fazia menos de 2 décadas que isto lhe era cobrado e foi um tremendo aprendizado ela conseguir lidar com esta realidade. E ela precisou dos gêmeos para isto, mesmo que, pouco a pouco, ela tem tirado o peso deles. Assim, Persérfone decidiu que, após seus afazeres no Inferno, ela meditaria e se concentraria para, sozinha, fazer treinos solitários para levantar este escudo e, quando se sentisse preparada, procuraria Thanatos.

Claro que ela não contou para ninguém e nem escreveu isto: deixar provas ou rastros de provas ou indícios de provas eram para amadores. Tudo isto estava em sua mente, na parte em que ela listava seus afazeres. E ela ainda tinha tempo para satisfazer suas necessidades carnais com Radamanthys que, depois de tanto tempo, estava começando a lhe enjoar, algo que ela nunca teve com Hades e achou que nunca seria possível. Mas ainda precisava de orgasmos fortes que ele sabia prover a ela e, por isso, ela não queria pensar nisto agora. Só deu tempos mais espaçados entre seus encontros e meditou e treinou mais sozinha.

Logo, todo este treino lhe seria útil.

 

 

 

 

 

Após Jamiel, assim que todos retornaram ao Santuário, Kiki deu uma ordem muito específica a Raki, sua discípula: ela deveria procurar por pessoas, nos arredores do Templo de Athena que ainda acreditavam no culto à Deusa, para reabitar Rodório, que fora reconstruída mas estava desabitada. Não era uma missão fácil, entretanto. Ela daria o máximo de si pois, naquela confusão do retorno de todos ao Santuário, nada adiantaria para ela ficar ali. Assim, Raki engoliu em seco e saiu do Santuário, indo cumprir a ordem de seu mestre.

Num primeiro momento, Raki achou que seria fácil pois no berço da civilização da Deusa ela acreditava que todos ainda a adoravam. Mas foi um engano frívolo: quase ninguém acreditava que a Deusa ainda reencarnava e protegia a Terra. Isto entristeceu a garota, pois significava que o sangue que era derramado nas batalhas de nada adiantava. Ou melhor, não existia na concepção daquelas pessoas, que eram protegidas do mal, o tempo todo, e nem sabiam.

Raki tinha que investigar isto lendo as mentes de cada uma das pessoas pelas quais passava, uma vez que a abordagem direta, segundo seu mestre, poderia causar estranheza e até fazer com que Raki fosse enviada à orfanatos ou hospitais psiquiátricos infantis, trazendo transtornos no momento em que o Santuário se encontrava: em reconstrução. Sendo assim, cada pessoa que Raki encontrava, ela percustrava sua mente, tentando encontrar traços de crença à Deusa, e o resultado era frustrante: sempre negativo.

Foi apenas no terceiro dia de buscas incessantes, sem dormir ou comer, tudo isso devido aos rigorosos treinamentos que tivera, que ela encontrou um casal de idosos, que morava nos arredores da Atenas moderna, que acreditava na Deusa. Ao perscrutar a mente deles, viu que eles acreditavam em Athena e, com esperança, resolveu comunicar-se telepaticamente com eles. Ao receber a comunicação em suas mentes, os idosos ficaram imensamente felizes em conhecer alguém de Jamiel, já que não viam alguém desde Mu de Áries. Raki correu até eles e os idosos a abraçaram.

Ela foi convidada a entrar na casinha simples do casal. Tomando chá e comendo biscoitos, contendo a imensa fome que sentia, ela perscrutou a mente dos dois e viu que eles sabiam que o Santuário estava destruído, assim como Rodório, não sabendo da recente reconstrução. Viu, também, que já haviam morado na cidade reconstruída, mas haviam saído há alguns anos antes da destruição, indo para a cidade moderna, para tratar de sua saúde.

Raki, instruída por seu mestre, parou de tomar seu chá e pediu que eles voltassem a Rodório, pois ela não mais seria uma cidadezinha abandonada e rural: ela teria um hospital descente, cuidaria dos seus aldeões com as mais altas tecnologias médicas e necessárias para o seu povo e, também precisava que seus moradores ajudassem a não deixar humanos descrentes em Athena chegarem perto do Santuário. A humana que recebeu o corpo de Athena possuía uma empresa familiar que abriria uma filial na cidade, administrada totalmente por fiéis à Athena, intermediada por pessoas de Rodório, mas sempre por pessoas que acreditassem na Deusa, pois a crença na Deusa, tanto em Rodório quanto na empresa, era fundamental para se manter a paz na Terra. Raki garantiu, ainda, que nos últimos 20 anos, a humana, desde que se descobriu Athena, têm colocado pessoas que acreditam em sua divindade na empresa, para ajudá-la a manter a administração da empresa e ajudá-la onde mais precisasse: abaster seus cavaleiros com mantimentos e cuidados médicos constantes. E isto se aplicaria a Rodório, que intermediaria este trâmite entre o Santuário e o mundo humano e, por ajudar neste trâmite, Rodório receberia estas benécias.

Os idosos ficam desconfiados. Não viam com bons olhos aquela interferência do mundo moderno no mundo antigo. Com isto, Raki mostra o que Kiki havia ordenado que mostrasse: a parte da Fundação Graad, pertencente à Saori Kido, que era controlada por pessoas que acreditavam na reencanação da Deusa Athena e endeusavam a Deusa. Eles ajudavam a Deusa, junto com alguns cavaleiros, a trazer mantimentos para os demais cavaleiros, assim como medicamentos e vacinas, pois Athena tinha que manter seu front de batalha em excelentes condições para aguentar as constantes batalhas para proteger a Terra. A Fundação era parte deste manejo. Mas, agora que o Santuário retornou, e com o início do Século XXI, Athena precisava dos seus fiéis seguidores de Rodório, para que a intermediação entre a Fundação e o Santuário ocorresse por Rodório, sem que os humanos que não acreditassem na Deusa interferissem.

Os idosos, relutantemente, concordam, achando que não iria dar certo este plano, uma vez que eles nada podiam garantir que mais pessoas se mudassem para a cidade. Raki garantiu que a cidade tinha sido reconstruída como há 13 anos atrás, e que tudo estava em perfeita ordem. Só precisava de habitantes que acreditassem em Athena e ajudassem esta intermediação.

Os idosos suspiram e resolvem ajudar Raki, ainda achando que não daria certo, mas esperando que desse certo. Nos dois dias seguintes, os idosos, junto com Raki, vão a casas específicas, pedindo que estas pessoas voltem à Rodório. Todas elas têm a mesma desconfiança e Raki mostra o que mostrou aos idosos, mas em poucos segundos. As pessoas ficam espantadas em ver uma pessoa de Jamiel viva e, ainda mais, com tantos detalhes na mente. Alguns até indagam se não é mentira ou manipulação de Hades, mas Raki responde que são instruções de Athena, uma vez que ela é discípula de Kiki de Áries, cavaleiro que herdou a armadura de Mu de Áries e, como uma moradora de Jamiel, não tinha porque duvidar de suas palavras.

Repetindo isto para cada casa, ela vai conseguindo que as pessoas acreditem nela e, dali 2 dias, combinam que todos voltem a Rodório, juntos. Por fim, Raki consegue mais de mil pessoas para retornar à Rodório, desde crianças com pais até famílias de 3 a 4 gerações inteiras!

Todos eles se reúnem nos fundos da casa dos primeiros idosos que ela conversou e, aos poucos, Raki vai teleportando as pessoas para o centro de Rodório. Foram várias viagens até que todos estivessem na cidade. Após a última viagem, Raki sente uma tontura e tudo lhe fica preto. O casal de idosos, que esperava a última viagem dela, vê que a garota desmaiou e suspeitam ser de exaustão.

Ela acorda, amparada pelos mesmos idosos que tinha conversado inicialmente. Eles disseram que ela estava apenas cansada e dormiu por algumas horas. Já era noite. Raki diz que deve voltar para o Santuário, comunicar ao seu mestre que Rodório já estava habitada e que sua missão foi concluída, para que os próximos passos possam ser dados para que a Fundação Graad já possa fazer seus preparativos. Mas, ao levantar, ela fica tonta. Os idosos pedem que ela fique mais um pouco e um cheiro delicioso invade suas narinas. Seu estômago ronca e ela resolve ficar para comer.

Após comer, ela agradece a refeição e diz que, realmente, precisa voltar para o Santuário e comunicar seu mestre. Ela abraça os idosos, despedindo-se e teleporta-se para as portas do Santuário.

Ao chegar ao local, ela manda uma mensagem telepática à Kiki, dizendo que sua missão estava concluída e aguardava permissão para entrar ao Santuário.

Imediatamente, Kiki, trajando as vestes que usava em Jamiel, aparece na porta do Santuário, sorrindo.

- Bom trabalho, minha garota. – afaga a cabeça dela – Conte-me, como foi?

- Posso passar um relatório mental? Eu estou exausta! Eu mal dormi esses dias!

- Claro! Abra sua mente para mim. – Raki assim o fez e Kiki perscrutou a mente de Raki na parte de sua missão. Realmente, foi um trabalho muito intenso para uma garotinha de 10 anos. Ele pegou pesado com ela. Ele ajoelha-se e abre os braços e Raki corre para abraçá-lo, que a recebe em um abraço reconfortante – Desculpe-me. Achei que seria um trabalho mais fácil. Não achei que seria tão trabalhoso e difícil. Até achei que se divertiria. – Ele a pega no colo e a coloca em seu ombro direito – Vamos. Vamos até Shina, passar seu relatório e, depois, te preparo aquela sopa de carneiro que você tanto gosta.

- EEEEEBAAAAAA!! – comemora a garota, levantando os braços para cima e balançando as pernas. Kiki sorri – Adoro sopa de carneiro!

- E depois, você vai tomar um belo banho, porquê está fedendo! – ela cruza os braços, emburrando.

- Eu não gosto de tomar banho!

- Não fazemos tudo o que gostamos. Mas pensa pelo lado bom: ao contrário de todo mundo, eu pedi à Shina para somente nós dois dividirmos um casebre! Vamos ficar só eu e você, como em Jamiel!

- EEEEBAAAAA!! – a garotinha comemora novamente, como antes.

Kiki fica feliz. Tinha pedido isto a Shina pois, ao contrário dos demais, que eram adolescentes e adultos, Raki era uma criança ainda, e ainda não sabia lidar com algumas coisas que aconteciam no Santuário, e ele queria preservar sua pureza o quanto pudesse... mas sabia que não duraria muito já que o mundo dos cavaleiros a traria para a dura realidade, em breve.

Começaram a conversar na língua de Jamiel e Raki, sem perceber, já estava na sala da Grã-Mestra.

- AH! VOCÊ ME ENGANOU! Eu nem vi o Santuário! Mesmo sendo de noite! – reclama Raki

- Mas não era para você ver mesmo. Você ainda é uma criança e tem coisas que crianças não devem ver.

Ela cruza os braços, em claro aborrecimento.

Gentilmente, Kiki a tira do seu ombro e Shina aparece das cortinas que ficavam ao lado direito do trono. Vendo Raki, ela sorri e diz:

- Olá, pequena exploradora! Como foi sua missão?

Ela aperta ainda mais os braços.

- Teria sido melhor se meu mestre tivesse me deixado ver o Santuário! Até agora eu não o vi! Só ouço falar mas não vi nada!

- Fique tranquila. Amanhã ele te mostra – ela volta a olhar Kiki – certo, cavaleiro?

Ele engole em seco antes de falar.

- Sim, sim. Amanhã.

- Então, Raki. Como foi a sua missão?

- Grã-Mestra, eu tenho permissão para dar meu relato mentalmente? É que eu estou esgotada e mal dormi esses dias.

- Claro, claro. Abra sua mente que eu pego o seu relato. – e, assim como fez com seu mestre, Raki abriu sua mente e Shina viu todas as dificuldades que Raki passou. Após ver tudo o que precisava, olhou com um ar de reprovação para Kiki e voltou a olhar para Raki – Parabéns, Raki! Sua primeira missão oficial para Athena foi concluída com sucesso! Foi tão espetacular que estou cogitando você para participar da segunda parte.

- O quê?! – Kiki e Raki se espantam.

- Claro! Porquê não Raki participar da segunda fase, a implantação da Fundação Graad em Rodório? E isto não ocorrerá amanhã, óbvio. Mas seria interessante ela ficar com os aldeões, para ajudá-los a confiar nos funcionários da Fundação. E ela pode ler a mente deles e ver o que eles estão tramando.

- EEEEBBAAAA!! – Raki dá pulinhos de alegria, levantando sua mão.

- Mas você não ficará sozinha. Colocarei mais alguns cavaleiros com você. Mas será interessante vocês trabalharem juntos.

- Tudo bem. Eu vou gostar de ser útil. Vou trabalhar muito em Rodório e tudo vai ficar lindo e perfeito! – ela levanta as mãos – e Athena vai ficar muito orgulhosa de mim.

- Claro que vai. E ela já está! – Shina olha para Kiki e diz, mentalmente “Com as confusões do Santuário, esta garota ficará mais protegida com os aldeões do que aqui. Você pegou pesado com ela, mas acabou fazendo-a criar laços com eles e isto será bom.”; Kiki apenas acena, em concordância – Vá descansar e depois passo suas tarefas, ok?

- Ok, Grã-Mestra!

Kiki pega a mão de Raki e diz:

- Vamos para o Refeitório e fazer a sopa que prometi. – ambos reverenciam Shina e saem.

Shina pensa: “foram 7 dias insanos... essa menina precisa ficar longe do Santuário, pois não temos como explicar o que está acontecendo aqui. Melhor ela ficar em Rodório, que irão proteger um descendente de Jamiel, do que ficar no caos que o Santuário se tornou”. E suspira.

Ela volta para o lugar em que estava, que eram os aposentos de Grã-Mestra. Mas a última coisa que ela queria era dormir.

Kiki fecha a sala da Grã-Mestra, coloca Raki em seu ombro e, na velocidade da luz, corre com Raki até o refeitório. Ele não queria que ela visse ou sentisse o que aconteceu na Casa de Sagitário.

No refeitório, Tatsumi tinha deixado uma cestinha com alguns pães. A menina já foi devorando enquanto Kiki pegava uma jarra de suco para ela. Ela comeu 4 pães de uma vez e, no quinto, o sono já estava batendo. É... o ensopado ficaria para depois.

Ela terminou o 5 pão e bocejou, piscando.

- Vamos para a cama? – chama Kiki

- Mas e o ensopado?

- Você vai dormir na mesa. Eu faço depois, prometo.

Ela boceja.

- Eu... – ela boceja - ... vou cobrar, tá?

- Tá bom.

Ele a pega no colo, como um bebê e, na velocidade da luz, corre até o casebre que era só dos dois. Ela estava esgotada. Nem ia dar banho nela, deixaria para depois. Colocou-a na cama, cobriu-a, deu um beijo em sua testa, fechou a janela e deixou a porta entreaberta. Raki já estava apagada, com a boca meia aberta, dando pequenos roncos. Se Kiki a bem conhecia, ela iria dormir por umas 12 horas. E que dormisse. Ele cuidaria da pequena.

Como ele já tinha tomado banho, trocou de roupa e foi dormir no outro quarto. Bloqueou o casebre com seu cosmo, para que ninguém entrasse no lugar e dormiu. Sentiu-se culpado pelo peso que colocou nela, mas não tinha como: a vida de cavaleiro cobrava o peso cedo. Por mais que tentasse preservá-la, o mundo em que viviam não deixaria.

Ele tentou ter o sono revigorador o máximo possível para que, em breve, tudo estivesse nos eixos. O Santuário estava um caos e ele precisava ajeitá-lo, junto com Shina.

 

 

 

 

Após a saída de Kiki e Raki, Shina voltou para seus aposentos, despiu-se, ficando nua e foi até o lugar que apenas os Grandes Mestres tinham acesso: um lugar que dava para tomar banho em uma grande banheira, quase uma piscina e ver as estrelas. Ela esquentou a água e, vendo o céu estrelado, tentou lê-las. Shina via muitas batalhas em uma guerra próxima. Via uma terrível sanguinolência. Via segredos sendo revelados. Via todo o equilíbrio cósmico que existiu até aqui sendo quebrado... e não via nada depois dali.

Shina tinha medo... Medo do que viria depois...

A Terra cairia nas mãos de outros Deuses? E a humanidade? Como reagiria? E os cavaleiros fiéis à Athena? O que aconteceriam a eles? Seriam mortos? Virariam pó estrelar?

Nada lhe dava respostas... apenas muitas perguntas...

Shina fechou os olhos e mergulhou na piscina. Sabia que o “Mestre Ares”, que era Saga, usava muito esta piscina para orgias sexuais, mas Athena tinha purificado tudo. Desde então, ela usava para refúgio próprio quando estava confusa e não sabia o que fazer.

Shina só queria que toda esta confusão que aconteceu, todos estes casais e estas brigas de casais parassem. E que os deuses se entendessem de uma vez por todas. Tudo refletia na segurança da Terra e dos humanos.

Ela deixou do nariz para cima, fora da água e ficou na piscina, olhando o horizonte... até o sol nascer.

 

 

 

Sete dias antes, após saírem do casebre em que Seiya estava, Ryuho levou Kouga para o riacho mencionado. Ao chegarem no local, Kouga, imediatamente, disse:

- Yuna esteve aqui.

Ryuho olhou para ele, intrigado.

- Como sabe?

- Sinto o cheiro e a presença dela aqui... melhor, o que ficou remanescente. – ele fecha a cara – E ela não esteve sozinha, esteve com outro homem.

Ryuho observa essas palavras de Kouga: possessivas, regulatórias... se referindo à Yuna como sua.

- Vem cá – Ryuho vira-se para ele – porquê fala da Yuna assim? Você mal a conhece.

Kouga fecha os olhos e respira fundo. Abre os olhos e olha para cima, colocando as mãos na cintura.

- Sinceramente... eu não sei.

Ryuho cruza os braços.

- Não está me convencendo.

Kouga olha para ele.

- Cara, eu só sei que eu a vi em Palaestra e algo me puxava para ela. O conhecimento dela, eu acho. Mas agora... aqui... – aponta para o solo do Santuário - tudo é mais forte. Eu fico incomodado quando Souma... – ele arregala os olhos e depois fecha o semblante mais ainda – ela esteve aqui, com ele.

- E qual o problema se os dois estiveram aqui? Se beijaram ou transaram? – Kouga vira-se emfurecido para Ryuho – Corre um rumor de que, quando Souma ia para Palaestra, eles dormiam juntos nos surtos dela e eles sempre foram bem íntimos. – Kouga estreita ainda mais os olhos, em puro ódio – Pra mim, se eles resolveram assumir o relacionamento, estava mais do que na hora.

Em um roupante, Kouga pega Ryuho pelo colarinho e grita, rosnando:

- ELA NÃO PODE FAZER ISTO COMIGO!

Ryuho fica em choque. Após alguns segundos, lentamente, coloca suas mãos nos punhos de Kouga, levando um pouco d’água neles, para acalmá-lo, enquanto diz:

- Ela não está fazendo nada com ninguém ainda, até porquê estamos especulando. Não sabemos se é verdade ou mentira. São tudo rumores.

Kouga rosna e o solta, com força, dando as costas para ele. Passa-se alguns segundos e ele começa a esfregar a sua careca. Vira-se para o primo e diz:

- Tá vendo? Me explica esta reação? Ela não faz sentido algum. Não tem lógica eu agir assim. Eu ajo como se ela me pertencesse e, por óbvio, ela não me pertence. Eu nunca nem vi o rosto dela! Mal troquei palavras com ela! – ele faz cara icônica – E ela me acha um burro pois eu mal consigo usar a minha armadura, mal sei usar o cosmo e não sei nada sobre ser cavaleiro e constelações porquê me recusava a aprender as lições da Shina.

Ryuho começa um debate interno sobre falar diretamente que o primo se apaixonou pela menina ou se apenas dá dicas sobre isso. Mas como acontecimentos recentes demandam uma atenção maior, ele prefere trocar de assunto.

- Vamos debater sobre isto depois. Antes, me conta o que rolou no casebre da Tia Eiri.

Kouga sorri docemente.

Ryuho olha estranho para ele e pergunta:

- Que foi?

- É que... eu acho bonito você falar assim, tão naturalmente dos Cavaleiros lendários e suas esposas... chamando-os de tios e tias...

- Ué, mas eles são nossos tios e tias. São irmãos entre si. O parentesco existe. Não é mera alegação.

Kouga abaixa a cabeça.

- Eu sei, é que... eu não me vejo chamando a Eiri de “tia”... ou o Hyoga ou Shun de “tios”... muito menos o Ikki. Para você, é natural mas para mim... é mais complicado.

Ryuho percebe que, para ele, o relacionamento parental não é tão simples. Afinal, Ryuho nasceu no seio dos cavaleiros e foi criado entre eles até todos se separarem, mas sempre foi educado para chamar todos de tios e tias, como uma família normal, dentro do mais próximo que uma normalidade exista dentro dos cavaleiros. Ele sempre foi visto como Filho do Cavaleiro Lendário e todos sabem que os 10 cavaleiros antigos são irmãos entre si. Nunca acharam ruim, quando criança, de ele chamar Geki ou Nachi ou Icchi ou Ban de tios na frente dos outros... o mesmo valendo para Shun, Hyoga e Ikki, quando iam para Palaestra. Mesmo sendo primos, a relação familiar dos dois é totalmente diferente.

Por isso, Ryuho resolve tentar ajudar o primo:

- Então, porquê não começa a tentar chamá-los, aos poucos?

Kouga assusta-se.

- Não estou falando na frente de todos, pois ainda não sabem que você é filho de Seiya...

- Não, já sabem.

Ryuho fica surpreso.

- Desde quando?

- Desde agora há pouco. Esta é uma das coisas que tenho que te contar. – suspira – Mas acho que vou fazer igual minha mãe. – Kouga vai até Ryuho e começa a esticar o indicador para a testa do primo, mas ele começa a protestar.

- Espera! Como assim fazer igual à Athena? Você tem os poderes dela?

- Sim. – responde Kouga, casualmente.

- E você responde assim, tranquilamente!

- Ué, esperava que eu mentisse?

- Claro que não! Mas explica isto direito e não sair fazendo as coisas assim, do nada.

- Tipo... como tenho ¾ de sangue divino, eu tenho os mesmos poderes celestiais que minha mãe tem. Alguns poderes, inerentes aos deuses, eu também possuo, outros eu mesmo desenvolvi, pela minha capacidade.

- Tipo...?

- Tipo respirar debaixo d’água.

Ryuho fica incrédulo.

- Você... cria guélrras, igual a um peixe?

Kouga começa a rir.

- Claro que não! Eu não sei bem explicar, mas é como se meu nariz e meu pulmão se adaptassem para respirar dentro d’água. Quando eu ia nadar no mar em frente de casa, isto demora um pouco para isto acontecer no início. Mas, com o tempo, foi ficando cada vez mais rápido e mais fácil.

Ryuho demora alguns segundos para assimilar que seu primo é meio peixe... ou um sereio, talvez. Bizarro. Mas... ele não ia discutir a lógica desta revelação de um semi-deus, apenas aceitar a realidade e bola pra frente.

- Sua mãe sabe? Shina sabe?

- Não. Nunca contei para ninguém.

- Pretende contar?

Kouga abaixa a cabeça.

- Cara, você... – Ryuho respira fundo – Acho que é interessante você contar. Não só para o bem do relacionamento de vocês, mas para futuras batalhas. Seria de grande valia seus pais saberem que você tem tanto poder assim para traçar estratégias mais precisas. E Shina também, como Grã-Mestra.

Ainda cabisbaixo, Kouga sussurra um talvez. Isto teria que ser abordado em outro momento. Então, Ryuho faz outra pergunta:

- Você tem outros poderes?

Ele levanta a cabeça e olha para o lado. Respira fundo e diz:

- Sim. – faz uma leve pausa antes de continuar – Tenho todos os poderes da minha mãe e do meu pai, mas não da magnitude deles, porque... eu não quis treinar com a minha mestra. – respira fundo outra vez – Sei que consigo ler mentes também, repassaar meus pensamentos para os outros, teleporte, cura etc. Mas nunca testei ressureição. Mas eu sei que consigo ir no mais profundo do Oceano e que a pressão do alto mar não me afeta. – olha para cima, cruzando os braços – Cheiros, presenças... também sinto, mas não é com relação ao cosmo ou ao odor, é... mais profundo do que isso... diferente. Como eu soube da Yuna, agora a pouco. – ele faz uma pausa – E, falando nela... Eu... sinto essas coisas com a Yuna que nem sei explicar muito bem. – ele olha para Ryuho – Eu também sei que tem algumas coisas dentro de mim que... me coçam para... sair mas eu não sei bem o que são. – ele coça a nuca. – É tudo muito confuso. – exala, por fim.

Ryuho coloca a mão na testa. Ele teria que conversar com seus pais e se aconselhar. Era muita coisa para ele carregar sozinho, coisa demais para lidar. Pediria conselhos a eles para, assim, poder lidar melhor com as revelações de Kouga. E, claro, falar que Kouga ainda não iria revelar tudo isso para os pais deles era pior ainda. Por Zeus, que encrenca era esta!

Ele respira fundo e pergunta:

- Bem... e tem mais?

Kouga abaixa a cabeça, meio de lado. Demora um pouco para responder:

- Tem esse... mas ele é muito específico e eu não sei bem explicar, ao certo, se é isto mesmo, pois eu só vi mesmo uma vez.

- Me explica. Talvez eu te ajudo a identificar.

Kouga fica um pouco vermelho.

- Então... Eu suspeito que consiga enxergar, através de uma aura em volta da pessoa, os sentimentos dos outros e... – ele fica mais vermelho ainda – os hormônios, principalmente os sexuais.

Ryuho olha intrigado para ele e diz, bem indignado:

- Que porra de poderes são esses?

Kouga olha para ele, mais indignado ainda.

- E eu vou lá saber? Não fui eu quem escolheu tê-los!

Ryuho para por um momento, pensando nestes “poderes” peculiares: os deuses gregos tinham vários poderes próprios e únicos. Não seria diferente Kouga ter algum que o deixasse único, ainda mais por ter sido gerado de uma forma tão especial, para proteger a Terra. Mas não deixava de ser bizarro.

- Mas agora fiquei curioso: como você vê estes hormônios sexuais?

Kouga sorri, maroto.

- Eu meio que percebi isso quando Paradox corre até você.

Ryuho arregala os olhos, lembrando-se de todas as vezes que ela corria até ele, o agarrava, abraçava, se esfregava nele... desde quando ele era pequeno. E solta, em tom de acusação:

- Aquela pedófila!

- Credo, cara! – censura Kouga – Como você fala assim dela?

- É por que não é você quem é assediado desde os 10 anos de idade!

Kouga cruza os braços e censura o primo com o olhar:

- Então você é gay por não gostar que uma mulher mais velha corra atrás de você e te agarre?

Ryuho fica vermelho.

- Não é nada disso.

- Então me explica qual é a coisa ruim de uma mulher super gostosa como a Paradox correr atrás de você e você não aceitá-la. Se fosse eu, já estava com ela há muito tempo.

- Falou o caipira que nunca saiu de um casebre durante toda a vida.

Eles se fuzilam pelo olhar, sustentando o ódio mútuo por um tempo. Mas Ryuho, conciliador, resolve quebrar este ódio e fala.

- Eu vou ser justo. Você me falou várias coisas suas e eu vou te falar a verdade. Mas peço que isto morra entre nós ok? – Kouga concorda com a cabeça – Beleza. Olha, eu até gosto da Paradox, mas o problema é que eu não sei se ela me vê ou vê meu pai em mim. Você sabe da história delas, né? – Kouga nega.

Rapidamente, Ryuho conta a história das gêmeas. Kouga fica chocado com o que elas passaram e pensa consigo que o sangue divino na veia delas as salvaram de muita coisa. Mas entende o motivo de Ryuho pensar assim.

- Mas tá – diz Kouga – você já chegou e falou com ela? A sós?

Ryuho abaixou a cabeça.

- Não acredito que serei a pessoa a dizer isto, mas uma coisa que minha mestra me ensinou e tento aplicar ao máximo é: tá com problema? Vai lá e fala. Ponto. Ficar de enrolação ou adiando só piora. Eu tenho dificuldade de relacionar e tudo mais mas tento chegar na pessoa e falar o que penso para evitar problemas. Tenho certeza que vocês já teriam se resolvido se você chegasse nela e falasse isso que falou pra mim.

- E se eu descobrir que ela vê meu pai em mim? E que todos vêem eu como meu pai e não me enxergam? – a dor nos olhos de Ryuho era palpável.

Kouga cruzou os braços e pensou por um momento.

- Olha, eu não sou bom em palavras, mas acho que saber é o primeiro passo. Após saber, dá para traçar o que fazer depois. Sem saber, ficar só na hipótese, não dá para fazer nada.

Ryuho respira fundo. Aquilo estava mudando para uma análise dos problemas dele e não vinha ao caso. Ele tinha que ir para o que interessava. E fala:

- Depois a gente discute o lance meu com a Paradox. Me fala o que rolou na casa da Tia Eiri.

- Beleza. – Kouga coloca o indicador no meio da testa de Ryuho e repassa tudo o que tinha acontecido desde a sua queda: a descoberta de ser um oráculo de Hera, o que ela tinha dito, a briga que teve com o pai, a discussão que seus pais tiveram e o motivo de ele estar trancafiado na Casa de Sagitário. Mas nada disso assustou mais Ryuho do que saber que Paradox e Íntegra eram primas de Seiya, por parte de mãe, e, desta maneira, pertenciam à Lógica. Ele estava afim de uma pessoa diretamente ligada à Lógica. Existia a possibilidade de ele dar continuidade a prole de Athena se tudo isso fosse pra frente e resultasse em algo... ele podia gerar uma remificação paralela à de Kouga!

Ryuho fecha a cara.

Ele não queria isto. Ele não queria mais um fardo. Ser um cavaleiro já era complicado. Carregar aquele segredo, desde cedo, era mais complicado ainda. Agora, pertencer ao segredo era uma questão totalmente diferente. Ele não queria pertencer. Ele não queria pertencer a nada disso, não queria ser a nada dos deuses.

- Que cara é essa?

- Como assim “que cara é essa?” ! Acabei de falar que sou afim da Paradox para descobrir que ela é sua prima em segundo grau! Porra! – ele vira-se para o riacho e o faz subir em espiral. Olha enfurecido para o primo – Você sabia e ainda me deu conselho de ir perguntar para ela!

- Calma, cara! Quê que tá rolando para ficar assim?

Ryuho faz o riacho rodar em volta deles em um vórtice tão violento e barulhento no qual Ryuho poderia gritar tudo o que queria sem ninguém os ouvir. Assim que os envolve, ele começa a berrar, mesmo estando a uma certa distância do primo, com toda a força dos seus pulmões:

- O QUE TÁ ROLANDO? PORRA! EU TO AFIM DE UMA GAROTA QUE TEM O SANGUE DA DEUSA A QUAL EU JUREI PROTEGER! QUE TEM O SANGUE O QUAL EU JUREI PROTEGER A SUA CONTINUIDADE NA TERRA! MAS EU NÃO JUREI PARTICIPAR DA CONTINUIDADE DESTE SANGUE! E VOCÊ ME INDUZIU A PARTICIPAR DESTA LOUCURA! DE SER MAIS UM A PROCRIAR COM DEUSES E CARREGAR SANGUE O DIVINO E SUAS CONSEQUÊNCIAS! ACHA QUE TÔ BEM COM ISSO? QUE TÔ LEGAL? QUE TÁ TUDO LEGAL EM SABER DISSO? – ele alarga o vórtice, esticando os braços – NÃO TÁ NÃO!!! – aperta as mãos, fazendo o vórtice d’água ficar violentíssimo, refletindo a ira de Ryuho – EU SOU UM CAVALEIRO DE ATHENA, NÃO MAIS UM HOMEM QUE GERARÁ A PRÓXIMA GERAÇÃO DO SANGUE DE ATHENA NA TERRA! ESTE NÃO SOU EU! ESTE NÃO SOU EU!! – e ele gritou forte, olhando diretamente para Kouga, que o encarava de volta, sério.

Após alguns segundos, Ryuho foi parando de gritar. Foi soltando a mão, fazendo com que o vórtice ficasse menos violento. Abaixando as mãos, para que as águas voltassem a correr para o riacho.

Ele começou a regular a sua respiração, voltando ao normal. Depois de um tempo, Kouga perguntou:

- Acalmou?

- Sim.

Kouga deu um soco no primo, fazendo ele cambalear para o lado.

- Obrigado por deixar bem claro que tem vergonha da minha família. Da parte divina.

Ryuho apenas o fuzilou com o olhar.

- Você não entendeu o que eu disse.

Kouga levantou a sombrancelha.

- Você deixou tão claro quanto a água que você levantou!

Ryuho percebeu que deixou se levar pela emoção. Foi passional. E isto não era do seu feitio. Devia ser o excesso de informação que recebeu em um curto espaço de tempo.

- Olha, eu vou explicar...

- Eu não quero saber. – corta Kouga – Eu não quero explicação. Eu não quero ouvir. Já ouvi o suficiente. Já sei que você tem vergonha da minha família. O que mais tem a dizer?

Ele respira fundo.

- Eu não disse que tenho vergonha. Eu disse que eu não quero misturar o pessoal com profissional, é isso.

Kouga olha-o intrigado. Ryuho viu a oportunidade de se explicar.

- Acho que, para você, não é fácil entender, mas, para mim, sempre vi como é perigoso se relacionar com deuses e semi-deuses para nós, humanos. Eu estudei muito as mitologias e vi que, na esmagadora maioria das vezes, os humanos se ferram quando se envolvem romanticamente com deuses. Eu, apesar de ser filho de um Cavaleiro Lendário e ter nascido e crescido neste ambiente de defesa de uma Deusa que rege a Terra e protege os humanos, não quer dizer que eu queira me envolver com deuses. Profissional longe do emocional. Eu protejo Athena e protejo você por que, na verdade, estou nos protegendo, os humanos. Temos uma Deusa que se intercede por nós e que dá muito trabalho para si e para os outros. Mas eu não quero isto para minha vida pessoal. Eu não quero – ele vê uma certa mágoa nos olhos de Kouga e tenta medir as palavras – bem... – ele coloca a mão no rosto e fala o que pensa, assim como Kouga tinha aconselhado – Utilizando-se do seu conselho de outrora, eu não quero que minha esposa tenha um filho que carregue um fardo ainda mais pesado que o meu, por ser um semi-deus. Ser cavaleiro de Athena já é pesado o suficiente. Veja como foi sofrido para você e seus pais: você, realmente, pensa ser saudável para todos os demais passar por isto, sempre? Fora o medo de ser assassinado? Fora todos os problemas por, simplesmente, carregar o sangue da Lógica? – Ryuho aponta para trás de Kouga – É provável que tudo o que Paradox e a irmã passaram foi por conta do seu sangue, mesmo elas não tendo ciência. – ele faz uma pausa. Coloca a mão na cintura e olha para cima. – Cara. Pensa. Vai que, sei lá, sou igual meu pai e me envolvo com Paradox e caso com ela. Como vou lidar sabendo que, além de Athena, tenho que proteger ela? E que ela tem que gerar um filho? Um não, vários né? E que eu tenho que proteger eles também. E meus netos. E ensinar tudo para eles se protegerem e passar adiante todos os segredos. Ou, pior: me envolvo com ela e descubro que sou estéril? Aí significa que tô falhando com Athena, na missão mais importante que é salvaguardar que o sangue dela continue na Terra para ela voltar daqui 200 anos? Com a minha obrigação? E aí Paradox é obrigada a procurar outra pessoa apenasvpara copular? Cara, como homem, como eu vou me sentir sabendo que minha mulher tem que se deitar com outros apenas para ter filhos? Que ela é obrigada a isso? Como eu vou lidar com isso? E ela? Eu vou ficar junto dela depois disso tudo? – Ele suspira – É muita coisa para se pensar antes de entrar em um relacionamento com alguém da Lógica. E, na boa, eu não quero misturar o meu trabalho de cavaleiro com a minha vida pessoal. Se eu for, algum dia, constituir família igual meu pai fez, eu vou querer alguém que não detenha o sangue de Athena, para não ter mais responsabilidades das quais já carregamos. Isso se eu, realmente, for querer ter família mesmo pois, no momento, eu só penso em defender Athena e a Terra.

Kouga já olhava para o chão. Ele não tinha pensado nem na metade das coisas que Ryuho pensara. Por isso ele explodiu. Ele sentiu, de uma vez, um peso enorme do qual Kouga, inconscientemente, já carrega mas nem tinha a dimensão do tamanho. Realmente, não é qualquer um que consegue pertencer a Lógica.

Ryuho expira ruidosamente e diz:

- Desculpa, primo. Eu não devia ter explodido assim. Mas... esse tanto de informação... tudo isso – ele gesticula em um círculo em volta deles – Foi... demais para mim. Desculpa. Eu não tenho vergonha de você e da sua família. Só acho que, para mim, é um fardo pesado demais e eu prefiro não carregar. Não agora. E acho que não nunca.

- Tudo bem. – Kouga dá as costas para o primo – Vamos voltar para o refeitório, ok? Estou com fome.

- Beleza. – Ryuho envia as mãos no bolso. Fica ao lado dele – Eu não vou contar nada para elas, fica tranquilo. E não vou deixar de cumprir meu papel. Sou leal ao meu juramento, seja à Athena ou à você, sempre.

Kouga suspira. Ele, realmente, era profissional. Dedicava ao seu trabalho de sobremaneira que não importava o que acontecia à sua vida pessoal. Ele não percebeu isso. Com isto em mente, ele olha para o primo e, com certa tristeza, diz:

- Desculpa por estragar sua vida.

Ryuho se sobressalta por um momento, até entender que ele se referia ao lance entre Paradox e ele. Ryuho coloca a mão no ombro do primo e responde:

- Não precisa se desculpar. Eu nem tinha taaanto sentimento assim para se falar em estrago. E, convenhamos, ela é muita areia para o meu caminhãozinho.

Ambos riem.

- Mas como vai fazer?

- Com Paradox? Vou tentar ser indiferente com ela.

- Mas você já fazia isto.

- Mas, desta vez, será com desprezo. Se ela ver que não consegue me abraçar, me tocar e nem me dirigir a palavra, vai se afastar.

- AAHHHHH então quer dizer que você se deixava agarrar, né?

Ryuho ri, maroto. Aquilo respondia tudo.

Eles caminharam em um silêncio confortável. Quando estavam perto do Refeitório, Kouga lembrou do soco e pediu para Ryuho parar um momento para curá-lo do ferimento. Ryuho para, Kouga paira a mão direita sobre a bochecha do primo por alguns segundos e um cosmo dourado, quente e reconfortante inundou Ryuho. Kouga olhava fixamente para a bochecha. Assim que terminou, deu dois tapas no ombro do primo e voltaram a andar. Ao entrarem, vêem Sônia amarrada e Kiki de guarda na porta. Será que ele tinha visto ou sentido o que Kouga tinha feito com o primo? Mas não era hora para se preocupar com isto.

Pouco tempo depois, Shina, Shun e Ikki chegam ao local. Tatsumi pede para levar comida à Athena mas Shina nega. Provavelmente aconteceu algo ruim pois, lendo a aura ao redor dos três, tudo estava tenso, arredio, com sentimentos de medo, insegurança e conflitos arraigados. Mas Tatsumi interrompeu esta leitura mandando Kouga ir guardar a comida.

Passando pela cozinha, ele viu Paradox finalizando algumas coisas no fogão industrial. Cumprimentou-a e perguntou onde poderia guardar a comida de Athena e ela disse que poderia colocar na grande geladeira. Ela virou-se de costas e ele a olhou: ela não se parecia com ele ou com o seu pai. Voltou para a geladeira e correu para a mesa em que sua mestra estava. Ryuho sentou-se ao seu lado e fechou a mesa com Shun, Ikki e Geki.

Ryuho sentiu o olhar fuzilante de Souma sobre si. Ele sabia que o garoto sentia inveja dele por Ryuho ser mais bem tratado do que ele, mesmo ambos serem filhos de cavaleiros. A mãe dele era Amazona de Prata mas foi por um curto período de tempo e foi expulsa do Santuário, antes de Saori assumir em definitivo. Mas ele não podia fazer muita coisa: apesar de Souma ser filho de dois guerreiros de Athena, Ryuho era filho de um Cavaleiro Lendário, e isto contava mais para as pessoas, mesmo não fazendo a menor diferença para ele. Talvez, seria até melhor não ser filho de nenhum cavaleiro, pensava Ryuho. Souma teria que aprender a lidar com isto. Se quisessem, poderiam conversar sobre. Mas notou que Yuna se aproximou de Souma e o tanto que sua expressão mudou. Será que, finalmente, os dois tinham se assumido? Enfim, uma notícia boa!

Íntegra estava na mesma mesa dos dois, de frente a mesa de Ryuho, e notou a aproximação do casal. Ryuho viu que mais ninguém percebeu e, talvez, fosse bom. Se Yuna surtasse ali seria um problema.

Paradox grita:

- Todo mundo vindo se servir que a comida não vai sair da panela pro seu prato sozinha!

O olhar dela encontra o de Ryuho. Ela se enche daquele amor ao vê-lo; ele engole em seco, pisca e a olha com o maior desprezo possível, desviando o olhar para Shina na sequência. Paradox toma um baque com isso, arregalando os olhos, mas não perde a compostura, já virando-se e indo se servir. Ela tenta colocar comida aos poucos, mas estava tremendo. Não entendeu... que olhar foi aquele do Ryuho? Ele... nunca tinha feito aquilo com ela.

Ela enrolou para se servir, deixando os outros passarem por ela no grande fogão industrial, pegando o prato, se servindo, pegar o talher e ir se sentar, e não notarem que ela não conseguia colocar comida para si. Mas quando a irmã chegou, a última, ela sussurrou:

- Eu não consigo. Me tira daqui.

Íntegra assustou-se com o tom da irmã. Colocou a mão em sua lombar, olhou para trás rapidamente, para ver se alguém as notavam, virou-se para a irmã e disse:

- Parece que Shina falará algo importante. Não posso te tirar daqui agora, vai dar muito na cara. Consegue aguentar mais um pouco?

- Então... me deixa longe do Ryuho.

Íntegra assustou-se com o pedido, mas cumpriu-o. Colocou pouca comida no prato dela e mais um pouco no seu. Como não era permitido desperdício, ela planejou comer a comida das duas, caso a irmã não conseguisse.

Voltando para as mesas, que eram paralelas, ela viu que Ryuho estava ao lado de Kouga, que estava do lado de Shina, na extrema ponta da mesa. Ela pegou um lugar da outra mesa, no outro extremo, colocando a irmã atrás de si para que Ryuho não cruzasse olhares com Paradox, assim como ela tinha pedido.

Mais à frente, Yuna e Souma ficaram de costas para Kouga. Ryuho viu que Kouga ficou muito incomodado, mudando de posição, falando com os outros de modo incomodado e Ryuho viu que Kouga olhava para Yuna, se perdia nela e voltava o foco para Shina.

Shina disse que Athena estava reclusa na sala da Grã-Mestra até segunda ordem. Os Cavaleiros Lendários estavam retornando e Shiryu voltaria dali 05 dias. Ikki – que estava se servindo do terceiro prato – e Shun iria treinar com os cavaleiros e aspirantes, respeitando os seus cronogramas. Se precisassem de alguma coisa, podiam falar com Kiki que ele a chamaria.

Shina também pediu cuidado com Sônia. Rapidamente, falou da história dela e disse que Athena queria que ela voltasse a ser uma humana normal. Ela não seria uma Amazona mas nada impediria de ser uma soldada raso ou viver em Rodório, como proteção adicional à cidade, que estava em situação de repovoação. Sônia dividiria o casebre com as gêmeas, mas todos deveriam cooperar para que ela entendesse que não haveria retaliações e apontou especificamente para Souma, que ele não tinha autorização para se vingar dela. Souma estava se fervilhando de raiva e todos olharam para ele. Ele, a contragosto, concordou que não faria nada.

Icchi perguntou:

- E quando você vai nos explicar onde está Seiya e essa história de ele ter um pirralho? Como ele foi ter tempo pra isso?

- E quem foi a louca que o aceitou, né? – ironiza Ban

- Duvido que foi alguém normal – fala Nacchi

- Certeza que ele drogou alguma mulher – diz Icchi

- Isto é algo que você faria – diz Geki

- JÁ CHEGA! – esbraveja Shina – Este assunto será tratado depois, não agora. Agora, eu quero ver esta cambada treinando neste lugar e não fazendo passeio turístico – olha para Icchi – Nunca se sabe quando um inimigo virá e temos muitas armaduras disponíveis. Precisamos que vocês fiquem fortes, saudáveis e disponíveis e – apontou para as gêmeas – vamos marcar a batalha para vocês se sagrarem Amazonas de Ouro em breve. – ela olha para Ikki – Consegue treinar as duas?

Ikki olha para elas, cizudo, e diz:

- Começamos daqui 40 minutos.

- Ótimo. Lavem seus utensílios e vão treinar – ela senta-se e diz mais para si mesmo, baixinho – Eu espero nunca mais mandar cavaleiro ir treinar.

- Relaxa, Shina – diz Geki – O pessoal só estava com saudade do lugar. Nostalgia, talvez. E os novatos nunca estiveram aqui. É bom para eles se ambientarem.

Ela coloca ambas as mãos no rosto. Também tinha isso. Gente... era tanta coisa!

Ela se sobressalta e diz para Geki:

- E os Cavaleiros de Aço?

- Estão em Osaka, sob os cuidados da Fundação Graad. Assim que quiser, posso trazê-los para cá.

Ela procura por Kiki. Ao vê-lo, telepaticamente, conversam sobre a capacidade para os 150 cavaleiros e ele concorda que é possível, mas daqui 10 dias, após a rota dos suprimentos estar definida em Rodório.

Ela vira-se para Geki.

- Em 10 dias, creio que poderão vir para cá. Eu te aviso. – ela coloca a mão em seu ombro – Obrigada, meu caro. – Levanta-se e vai lavar seu prato.

Íntegra ficou feliz que tinha 40 minutos para conversar com a irmã. Tinha comido rapidamente sua comida e troucou seu prato com sua irmã, comendo a comida dela. Ela carregou Paradox para a pia, lavaram os utensílios rapidamente e a puxou para o Coliseum, Sentaram-se na redoma do meio e Íntegra perguntou o que aconteceu. Paradox disse o que ocorreu na cozinha. Íntegra ponderou um pouco antes de falar:

- Tem plena certeza que foi desprezo? Não foi nada como antes não?

- Não, não foi.

- Olha... – Íntegra respira fundo – acho que você vai ter que chamar ele para conversar.

Paradox gela.

- Isto já está passando da hora, também. Você sempre me disse que o amava. Ele está com o quê? Nem sei a idade dele mas já está maduro o suficiente. E você é adulta, lembra? Já dá para vocês terem uma conversa sadia e colocarem os pingos nos ís.

Paradox abaixa a cabeça, se abraçando.

- Mas... e se ele me rejeitar?

A irmã a abraça.

- Você vai seguir em frente. Vai doer, vai demorar um tempo mas você vai seguir em frente. Tudo ao seu tempo. Melhor ser agora do que esperar e ficar nesse chove e não molha.

Paradox concorda com a cabeça.

- Verdade. Tem razão. Vou procurar.

- Procurar quem? – a voz de Ikki ecoa perto delas que, assustadas, olham para os lados, procurando de onde vinha.

Ikki estava acima delas, voando com as asas de fênix. Ele repousa no meio do Coliseum, espalhando chamas pelo local, fazendo as gêmeas pularem para as bordas do Coliseum, acima das escadarias, afastando-se uma da outra. Ikki sorri.

- Não é hora para procurar ninguém. É hora de treinar. – ele alarga o sorriso – Se sobreviverem, podem procurar quem quiserem depois.

 

 

 

 

 

Souma e Yuna já tinha saído do Refeitório e estavam no casebre que o garoto dividia com seu mestre e Kouga. Ele tinha chamado Yuna para entrar no quarto e, assim que entram, Souma vai direto para o seu armário. Um pouco receosa, Yuna o segue. A janela do quarto estava aberta e dava total visão e claridade ao pequeno ambiente. Tinha uma cama de solteiro, debaixo da janela, uma escrivaninha ao seu lado e um armário, que era o seu guarda roupa. Tudo muito próximo, já que o quarto era pequeno e o casebre também, assim como outros cômodos da casa.

Yuna entrou e viu Souma entrando, bem fundo, no armário, como se estivesse cavucando dentro dele algo profundo e precioso. Ao sair, estava com uma sacola preta que era do tamanho do seu tórax. Souma se curvava perante esta sacola, como se fosse um tesouro da maior magnitude. Virou o pescoço e olhou para a janela escancarada. Olhou para o seu tesouro. Olhou para a janela. Olhou para Yuna com dó nos olhos, e pediu:

- Seria abusar demais da sua boa vontade de víssemos o diário do meu pai com as janelas fechadas?

Yuna não entendeu tanta preocupação.

- Por quê?

Souma voltou a olhar seu tesouro.

- Aqui tem... – ele aperta e fecha os olhos – coisas que ninguém viu, somente eu. Meu mestre me disse que nunca abriu este diário. Ele me deu assim que aprendi a ler, pois foi a promessa que ele fez ao meu pai. Eu... não quero que outras pessoas, além de você, leiam o que está aqui.

Yuna cruza os braços.

- Você realmente acha que alguém vai nos espiar e ler o que está aí?

- Não só acho como tenho CERTEZA!! – Yuna assustou-se com o repentino grito de Souma – E SE ME ROUBAREM? E SE PEGAREM O DIÁRIO E ARRANCAREM AS PRECIOSAS PÁGINAS QUE MEU PAI ESCREVEU? – ele começou a tremer levemente, apertando o diário.

Yuna viu que passou dos limites. O diário era muito mais precioso para Souma do que ela imaginava. Ela respira fundo e descruza os braços. Vai até as janelas e ela mesmo as fecha, para surpresa do garoto. Senta-se na cama.

- Me desculpa. Eu passei dos limites. Não queria que você ficasse assim. – ela aponta para a janela – Pronto. Estão fechadas. – Dá dois tapinhas na cama, ao seu lado – Vem. Senta do meu lado.

Souma começa a se controlar. Empertiga-se. Respira fundo. Mais uma vez. E outra vez. E mais uma vez. E diz:

- Desculpa também. Não devia ter gritado.

Ele deixa seu tesouro na escrivaninha, pega o travesseiro da cama e encosta na cabeceira da cama, encontrando com a parede. Vai até o armário, pega outro travesseio e coloca perpendicularmente ao lado do outro travesseiro. Aponta para os dois e diz:

- Vamos ver confortavelmente?

- Só se você ligar a luz. A luz do sol não está dando uma boa claridade com as janelas fechadas.

Ele olha para cima.

- Aqui não tem luz.

- O QUÊ!?

- É sério. Olha. Na boquilha de lâmpada, não há lâmpada. Creio que eu deveria ter pegado com Tatsumi, mas eu não sabia que tinha que pegar. Ou meu mestre. – Souma pensa um pouco e conclui – Acho que devemos usar luz de velas.

- E onde tem? Se nem tem lâmpada aqui?

- Eu sempre carrego velas comigo, mas minha mochila foi destruída em Palaestra. – e isto causa um start nele. Ele vai até o armário de roupas e vê sua mochila de viagem dentro do lugar, intacta. Traz ela para fora do armário.

- Mas é a sua mochila de viagem! O que ela está fazendo aí?

- Eu... realmente... não sei! Mas isto explica o motivo de eu não ter perdido o diário do meu pai. Eu tinha esquecido que minha mochila estava em Palaestra, que foi destruída na batalha contra Ares e que, de Palaestra, fomos para Jamiel que, destruída por Kouga, viemos para cá. Simplesmente, foi muita coisa que aconteceu ao mesmo tempo e eu tinha me esquecido. Mas Athena não esqueceu e reescreveu tudo... – Souma engoliu em seco.

- O que mais Athena lembrou-se de reescrever?

- Acho que... tudo... Mas... aqui não são mais as palavras do meu pai – ele olha para o diário – pois a verdadeira escrita foi perdida.

Yuna coloca a mão em seu ombro e diz:

- Não pense nisso. Athena trouxe o diário de volta! Como era antes! Então é ele!

Souma considera as palavras de Yuna. Bem, ele não podia fazer nada: ou era isso ou era não ter nada mais dos seus pais. Melhor ter isso. Mas era triste saber que tinha perdido a escrita verdadeira, aquela na qual seu pai se debruçava para escrever.

Souma acende as luzes das velas com seu cosmo, assim como fez com Kouga, no primeiro acampamento que fez com o amigo, quando o conheceu mas, desta vez, não fez nenhum encanto com a vela para parecer mágico, como naquela vez. Engraçado, isto parecia ter acontecido há tanto tempo... Souma simplesmente estalou os dedos, as velas acenderam, ele colocou em um apoiador de vela e a pousou na escrivaninha que estava ao lado da cama. Simples. Direto. Normal. Cotidiano. Mas Yuna achou instigante. Gostou muito, na verdade.

Souma estava cabisbaixo e triste. Ele tinha se dado conta que perdeu as preciosas páginas escritas pelo seu pai. A caligrafia única. As emoções transportadas em palavras naquele diário. Tudo isso sumiu. E Souma tinha perdido o gosto por tudo.

Por isso, ele pega a mão de Yuna e puxa-a para levantar-se, para seu susto. Mas, ao contrário do que ela esperava, ele senta-se no travesseiro da parede, debaixo da janela, pega seu tesouro rapidamente e a olha, com olhos vazios.

- Eu a prometi. Vou te mostrar. Não vai ter a mesma emoção de ver o original, mas vou te mostrar o diário do meu pai. Pode se sentar do meu lado, mais perto da saída da cama. Quando se cansar, pode ir embora. – Souma disse tudo isso com a voz mais monótona e triste possível.

O problema é que, mesmo melancólico assim, Souma estava belo. Metade do rosto iluminado pela vela e a outra metade semi iluminada pelos raios de sol que viam do lado de fora da janela e semi escurecida. Ele era todo fogo mesmo. Um calafrio percorreu o corpo de Yuna, dando uma fincada por dentro de sua vagina, fazendo-a juntar as pernas, apertando-a.

Ela engoliu em seco. Foi até ele, sentar-se ao seu lado. Será que o que ela estava sentindo era... excitação? Bem, ela tinha que se controlar, pois não era o momento.

Ao sentar-se, ela pergunta:

- Você quer falar de outra coisa? Que não te incomode tanto?

Ele considera um pouco suas palavras:

- Não. Acho que não. Talvez eu me anime com tudo isso... eu acho. – Yuna concorda.

Souma abre a primeira folha do diário, que era um caderno espiralado, grosso, com várias anotações. Nesta primeira folha, tinha um desenho, até que bonito, de uma mulher. Era um desenho rústico, meio de lado, de uma mulher de cabelos ondulados, com o comprimento até abaixo das omoplatas. Como o desenho era preto e branco, não dava para saber qual era a cor do cabelo, ou dos olhos, ou a tez da pele, mas dava para ver que a pessoa tentou desenhar uma bela mulher.

- Meu pai desenhou a minha mãe neste papel, do jeito que ele conseguia desenhar e do jeito que se lembrava – disse Souma – Minha mãe tinha o cabelo castanho claro e olhos castanhos. Meu pai era ruivo e pele clara, com olhos verdes. Eu o puxei. Mas eu não tenho fotos deles.

Eles adentram no assunto dos pais de Souma, de um modo que não tinham adentrado até então. Souma começa a contar como foi o treinamento dos dois no Santuário, já que Kazuma era filho de americanos que serviam militarmente no Japão e, ao perder os pais, foi enviado ao Santuário de Athena para treinar. Já sua mãe, Aleena, era sueca e foi enviada para o Santuário, pois sua família cultuava Athena em sua terra natal e as crianças, até os 10 anos, treinavam em casa até escolherem ir para o Santuário sagrarem-se cavaleiros ou seguirem a sua vida no culto à Athena no próprio país. Aleena quis ir para o Santuário. Kazuma e Aleena se conhecem logo de cara e competiam entre si para serem cavaleiros de prata. Os primeiros anos eles foram tão competitivos que beiravam o ódio mútuo, mas, segundo os relatos de Kazuma, ele sempre se sentia atraído por ela, de uma maneira que ele não sabia explicar.

E tudo isso foi explicado uns 3 anos depois, quando os dois foram treinar na floresta do Santuário. Mesmo que as mulheres ficassem segregadas e de máscara, a competição dos dois pela armadura de prata de Cruzeiro do Sul era alta e Kazuma queria vencer Aleena. Na floresta, após intensa batalha, mais uma vez, Aleena venceu-o e disse que ficaria com a Armadura de Prata de Cruzeiro do Sul. Ele disse que não se importaria de perder a armadura para ela, pois ele a amava e ele preferiria que a armadura ficasse nela do que em outra pessoa. E ele buscaria outra armadura de prata para ele.

Yuna interrompeu:

- Seu pai disse isso mesmo pra sua mãe, depois de perder para ela?

- Eu não sei – responde Souma – mas é o que ele diz no diário. Segundo meu mestre Jabu, parece que foi isto mesmo que aconteceu: a Armadura de Prata de Cruzeiro do Sul antes pertencia a Aleena, que foi expulsa do Santuário junto com meu pai que ainda era aspirante e, depois, foi para o meu pai, após os treinos de Jabu. Meu mestre disse que só soube que esta armadura pertenceu à minha mãe depois que meu pai a recebeu. Até então, ele não sabia. Parece que meu pai buscou a armadura de Cruzeiro do Sul para ter uma lembrança da minha mãe. Nunca vamos saber se tudo isto aconteceu, mas tem coisas mais pra frente que ele escreveu que eu lembro de ter acontecido. Então, eu acredito que, se não foi isto mesmo que aconteceu, foi bem perto da verdade.

- Seu pai era bem pra frente.

Souma sente um certo orgulho disto.

- E eu acho que o puxei nisto. – E olha para Yuna, que fica um pouco vermelha.

- Então continua.

Souma continuou o relato. Aleena ficou surpresa com a declaração de Kazuma, que estava estirado no chão, com vários machucados e alguns deles sangrando. Foi até ele e perguntou:

- Você... gosta de mim?

- Não.... – ele respirou fundo – amo você.

Aleena ficou surpresa. Sentou ao seu lado e ficou olhando para a floresta, sem conseguir emitir um único som.

- Não precisa responder igual. Eu só queria que soubesse. Foi nosso último treino juntos e a nossa última competição pela Armadura. Eu vou procurar outra para a qual eu possa me candidatar. Você pode sagrar-se Amazona de Prata de Cruzeiro de Sul, de verdade.

- Não... acho que não. – disse Aleena, para espanto de Kazuma – Acho que dá pra gente ficar junto.

Kazuma virou pra ela, arregalando os olhos.

- Você sabe que isto é proibido, né? – disse ele.

- É proibido se alguém souber. Se ficar entre a gente, ninguém fica sabendo e não há nada de proibido.

Kazuma sorri ante a ardilosidade.

- Eu gostei disso. – mas aí ele pensa – Isto quer dizer que você...

Ela levanta a máscara apenas na altura dos lábios e dá um selinho rápido nele.

- Eu gosto de você, sim. – responde Aleena. – Você é o único que não me trata como um babaca, foi o único que me viu como uma adversária à altura e, sempre que me vê, quer logo partir para a briga como um igual e, confesso, isso dá um tesão gostoso. – Kazuma fica vermelho ante a última frase – Eu vi isso? Você ficou vermelho ao eu menciosar “tesão”?

Kazuma abaixou a cabeça. Aleena era muito direta e sincera e deixava-o desconcertado. E falar sobre isso...fazia-o querer beijá-la ali mesmo mas... ele podia?

- SIM, fiquei! Como você espera que eu fique normal quando a mulher que você gosta fala que fica com tesão quando você a chama para lutar?

Aleena sorri.

- Simples: chama ela para transar.

Kazuma fica em choque.

- Que foi? – Aleena ainda sorrindo – Acha que o tesão é só para sentir e não para extravasar?

- V-v-v-você disse isso mesmo? – Kazuma até gagueja.

Aleena sobe em cima de Kazuma, que fica estático e vermelho. Tira toda a sua máscara, balançando os cabelos, fazendo Kazuma ficar embasbacado com a garota. Coloca uma perna de cada lado dele e dá um selinho no cara. Olhando nos seus olhos, diz:

- Obrigada por me dar a Armadura. E nós vamos ficar juntos sim, escondidos. Hoje à noite, depois da refeição, me encontre aqui, com roupas fáceis de tirar. Eu quero te beijar todo e sentir você. Se o que você falou é verdade, eu quero sentir, em ações. – E se levantou, colocando a máscara novamente, indo embora.

Souma retomou a fala.

- Meu pai não escreveu muito sobre esta noite, apenas que foi a primeira de muitas noites de amor que teve com Aleena. Eles se encontraram, conforme o combinado, e se uniram pela primeira vez, que aconteceu durante longos anos. E ele diz que minha mãe, mesmo sendo para frente em todos os sentidos, era tão inexperiente na arte sexual quanto meu pai, já que era a primeira vez de ambos, e que forrar o chão com as roupas deles para se amarem vendo a luz das estrelas era o paraíso para ele, mesmo depois de dias exaustivos de treinos.

- Nossa, que palavras lindas do seu pai.

- Meu mestre diz que meu pai era um romântico. Se não estivesse no Santuário, estaria com alguém, sendo bem relacionado e evitando estas guerras que temos. Meu mestre também diz que, durante toda a vida que tiveram, sempre que meu pai falava da minha mãe, os olhos do meu pai mareavam e sua mente ia para uma época longe daqui, matando a saudade de quando era apenas os dois.

Souma suspira. Parecia a coisa mais doce que poderia existir na vida e ele queria ter algo assim também. Mas agora não era o momento para pensar nisso. Ele volta a contar sobre o diário do pai, na parte em que Kazuma dizia, no Santuário, que queria outra Armadura de Prata, já que Aleena tinha sagrado-se Amazona de Cruzeiro do Sul. Devido às guerras, Kazuma não tinha um mestre direto e, sim, vários mestres.

Aleena, como Amazona, usava sua máscara no Santuário, com um raio que ia do olho esquerdo até a ponta do nariz. Ela tinha os deveres de Amazona e Kazuma os deveres de um aspirante. Por bilhetes, eles trocavam os horários que podiam se ver e ficar um tempo juntos. Kazuma amava tirar a máscara de Aleena e ver aquele lindo rosto da amada, poder beijá-la e fazer amor com ela... E isto durou poucos anos.

Infelizmente, alguém viu um destes momentos íntimos e denunciou ao responsável pelo Santuário que, seguindo as regras extritas, retirou a Armadura de Aleena e expulsou o casal, com grande desonra.

Aleena ficou muito triste, pois perdeu seu sonho e orgulho, que era ser Amazona, e a vontade de viver. Já Kazuma, perdeu aquilo que o tinha levado ao Santuário. Contudo, ambos tinham acordado que era melhor estarem juntos do que separados e tentaram se levantar da imensa tristeza que os abatera. Decidiram ir para os EUA, já que Kazuma era americano e Aleena tinha passaporte para ir para os EUA por ser sueca. Pretendiam conseguir emprego lá, mesmo sendo menores de idade, conseguir um lugar para morar até que as coisas se ajeitassem. Infelizmente, a sorte não estava ao lado deles e, com pouco tempo de emprego, Aleena engravidou, seu chefe percebeu os constantes enjoos e vômitos e a demitiu.

Todo o dinheiro que tinham eles juntaram para o parto de Aleena, já que a saúde nos EUA era paga. Kazuma trabalhou em 2 empregos e fazia bicos sempre que possível. Infelizmente, por Aleena ser nova e não ter tido acompanhamento durante a gravidez, a gestação foi de risco e ela morreu no parto. Kazuma gastou tudo para que Souma também não morresse e, quando saíram do hospital, ele tinha pouco dinheiro. À noite, eles dormiam em dormitórios comunitários e, durante o dia, começou a pedir esmolas na rua, já que perdeu emprego assim que Souma nasceu pois tinha que cuidar de um bebê recém-nascido agora.

Souma resume o encontro de Jabu e Kazuma e a contratação de Kazuma na fazenda. Souma conta que Kazuma ficou desconfiado por várias semanas de Jabu, pois achava que ele poderia roubar seu bebê Souma de si. Mas ajudava Jabu no que ele pedia, sem deixar Souma de lado, carregando-o em um canguru de pano improvisado, nunca deixando-o sozinho. Para conquistar a confiança de Kazuma, Jabu ofecereu para ajudar a cuidar de Souma, como trocar fraldas e dar mamadeira, mas Kazuma sempre fazia Jabu tomar a mamadeira antes, com medo de estar envenenada e, com muito custo, Kazuma foi criando confiança.

Com o tempo, Kazuma vê que a ajuda de Jabu é muito bem-vinda e duas pessoas cuidando de um bebê é melhor do que uma.

Kazuma também conta que, no primeiro aniversário de Souma, Jabu fez questão de fazer um bolo que tinha aprendido e isto conquistou Kazuma. Cantaram um parabéns e até tiraram uma foto, que Souma mostra para Yuna. Ela vê que Kazuma estava radiante e o quanto se parecia com Souma mas o quanto o sorriso de Jabu era triste: parecia que ele carregava uma tristeza imensa e tentava ficar feliz naquele momento. Kazuma, aos poucos, foi criando um laço com Jabu e os dois foram tornando-se amigos.

Kazuma ainda escreve sobre o início da amizade dos dois: Kazuma não era muito claro, mas escrevia que via um lado obscuro de Jabu que ele não deixava transparecer mas que existia lá, bem no fundo, uma certa culpa, um fardo que ele carregava e que era injusto com ele. Kazuma relatava que Jabu se negava tanto mas tanto que até os mais ínfimos prazeres ele se negava. Apenas após perceber o tanto que Kazuma estava sofrendo com a perda da mulher que amava e estava se perdendo na criação do filho é que Jabu resolveu começar a procurar “tratamento”. Este tratamento era mais para Kazuma do que para si, mas acabou surtindo efeito para ambos também, na visão de Kazuma.

Souma leu que Kazuma escreveu que Jabu estava melhorando com o tempo, assim como Kazuma estava melhorando. E, com a melhora dos dois, Souma estava tendo uma criação melhor.

Souma passou por páginas em que Kazuma falava sobre Jabu: a tristeza que ele sentia não podia ser verdade, que a culpa das coisas que aconteceram não era culpa dele, que o que ele sentia não era culpa dele e que ele não precisava se culpar tanto.

Souma passou por outras tantas páginas nas quais Kazuma falava o quanto amava sua mulher e sentia sua falta e em como “o nosso menino estava crescendo forte e bonito”, dizendo que Aleena se sentiria orgulhosa do bebê que teve. Em algumas páginas, ele se referia a Aleena como esposa, mesmo não tendo tido nenhum tipo de cerimônia ou formalização entre eles mas, segundo Souma, era como seu pai se sentia para com ela.

E, de repente, o diário para. Souma explica que foi quando Kazuma morreu pelas mãos de Sônia. Souma descreve como foi difícil superar a morte do pai, aceitar a morte e decidir que queria ser cavaleiro para se vingar do pai e seguir os caminhos dos pais, assim como o sangue da mãe. Ele tem vontade de ir até à família da mãe, conhecer seus avós e tios, mostrando que ele seguiu os passos da família, sagrou-se cavaleiro e queria ser reconhecido pela família, que nunca conheceu mas que queria conhecer.

Também disse que queria a Armadura dos pais: a Armadura de Prata de Cruzeiro do Sul. Mas, infelizmente, ele não se mostrou tão forte para ser um Cavaleiro de Prata e sagrou-se um Cavaleiro de Bronze. Mas Jabu não o desanimou, dando o exemplo dos Cavaleiros Lendários, que começaram com Armaduras de Bronze, conseguiram Armaduras de Ouro e Kamuis. Nada impediria de Souma, mais para frente, conseguir a armadura dos pais.

Yuna colocou a mão em seu ombro e ficou feliz por Souma ter compartilhado tanta coisa com ela. Era lindo isto. E íntimo.

E Yuna percebeu que o sol já estava baixo. A vela já tinha se queimado. E Souma estava perdido em emoções. Yuna deu um beijo na bochecha dele e pegou na mão do namorado, apertando-a.

- Eu estou aqui, com você. – disse ela.

Ele virou-se para ela, e deu um sorisso leve:

- Obrigado. – ele deu uma leve pausa – Ler tudo isso... me deixou... meio nostálgico. Me fez pensar em tanta coisa que eu não pensava já faz um tempo que... parece que eu tinha esquecido ou tinha deixado de lado.

- Você não deixou de lado. Você focou em outras coisas. E, agora, estamos voltando o foco nas coisas antigas.

Souma respira fundo.

- Eu tenho medo. – confessa Souma.

- Eu também tenho. O tempo todo.

- Mas você não entende. Ler tudo isso, durante toda a minha infância, por várias e várias vezes... – ele aponta para o meio do peitoral, olhando para Yuna – me moldou, sabe? Eu... fui cravado por estas memórias. – ele respira fundo. – Eu sempre tive um relacionamento muito franco com meu mestre e sempre fui falando com ele sobre este diário. Com o tempo e minha maturidade, ele foi me explicando melhor estes sentimentos que meu pai colocava no papel e ele percebeu que muita coisa era muito avançada para uma criança ler mas... já estava feita. E isto me fez querer ter a mesma experiência que meus pais tiveram: meu primeiro beijo e minha primeira vez com uma amazona, e que ela fosse a mesma pessoa que também não tivesse nenhuma experiência e que ambos pudéssemos descobrir, juntos, como tudo isso é. Eu não quero ter que passar pelo o que meu mestre e meu pai tiveram que passar que, quando seus hormônios gritavam e eles não aguentavam mais em si, precisavam recorrer às mulheres profissionais do sexo para se extravasar, sem nenhum sentimento, sem nenhum envolvimento, sem nenhuma emoção, apenas para fazer o que o corpo mandava. E eu lembro disso, como eles voltavam maus, se sentindo sujos. Eles tomavam banhos demorados e custavam para me pegar novamente. Eu não quero recorrer às prostitutas, eu quero ter relacionamentos! Verdadeiros! Conexões com quem eu gosto! E, depois de ir tantas vezes à Palaestra, ver como os outros homens agem e até aqui mesmo... eu me vejo como errado ... ou um pensamento diferente.

Souma pausou um pouco, como se tivesse falado demais. Olha para Yuna, que ainda olhava para ele, como se ele ainda tivesse coisas para falar (e ele tinha) e ele resolve falar:

- Meu pai era apaixonado pela minha mãe. Você viu. Ele escreve sobre a minha mãe com uma riqueza de detalhes que não existe na Terra...

- Exceto quando fala de você. – interrompe Yuna. – Ele também dá muita riqueza de datalhes quando o assunto é você.

Souma dá um sorriso amarelo.

- Sim, você tem razão. Nós dois temos muitas riquezas de detalhes em suas escritas. Mas tem mais coisas sobre minha mãe do que sobre mim. E uma coisa que me deixa claro e, depois, foi confirmado pelo meu mestre, é que meu pai não se relacionava com nenhuma mulher por não conseguir esquecer minha mãe. Escreveu muito sobre ela nestes diários, que são a relíquia que tenho deles. Sei como minha mãe é por conta disso. – Souma bate no diário. Respira fundo. – Eu queria ter uma experiência igual a dos meus pais.

Um breve silênciou permeou os dois, quebrado por Yuna:

- Eu tenho medo de me relacionar com alguém pois, além de ser virgem e ser uma experiência difícil me entregar para alguém que não se conhece muito bem, eu tenho meus surtos e não sei se a pessoa me entenderia. – Yuna aperta ainda mais a mão de Souma – Mas... eu não sinto esta insegurança com você. Pelo contrário... eu me sinto mais... segura... com você.

Souma olha para ela, intrigado.

- Você... se entregaria... para mim?

Ela abaixa a cabeça, aperta ainda mais a mão e fica vermelha.

- Sim...

Ele pega o queixo dela, puxa para cima e, olhando nos olhos dela, diz:

- Eu seria o homem mais honrado em tê-la comigo, e faria o impossível para te fazer bem e feliz na sua primeira vez. – dá um selinho nela e volta a olhar para ela – Se me der a honra, eu me esforçaria ao máximo para te dar segurança, tranquilidade e prazer.

Yuna fica mais vermelha ainda e olha para o chão. Souma beija a mão dela.

- Que seja no seu tempo. Quando você quiser e se sentir à vontade.

- Este é o problema.

Souma emite um som de não entendimento.

Yuna engole em seco duas vezes seguidas e, de repente, a mão que os unia se separa e Yuna coloca a mão de Souma em cima de sua vagina, por cima da calça que vestia, fazendo Souma ficar totalmente sem graça e engasgando de surpresa.

- Meu corpo já acha que está passando da hora, mas minha mente não acha isso. – diz Yuna, quase implorando por uma solução em sua expressão para Souma – Eu não entendo o que estou passando e eu não entendo nada do que estou sentindo. Eu estou muito confusa e não sei o que pensar! Eu estou muito perdida! O que eu faço?

Assim que Yuna colocou a sua mão em sua vagina, a ereção de Souma surgiu e pulsou. Ele estava em um momento tão íntimo que nem pensou que iria rolar algo assim mas... rolou. Ele só pensava em sexo agora e parece que o corpo de Yuna também. Mas ele não queria abusar dela pois, se eles transassem agora, ela poderia se sentir usada depois e ele perderia a garota pela qual é louco e que quer ficar junto. Para sempre. Igual seus pais quiseram.

Cara, ele queria ter filhos com ela! Mas não ia falar isso com ela agora ou ela sairia correndo.

Mas era verdade. Ele achava que, com ela, teria a mesma experiência que seus pais tiveram mas, desta vez, com um final mais feliz.

Melhor seria conversar agora. Não queria espantar Yuna e perder esta oportunidade.

Ele começou a tirar a mão da vagina dela, por cima, e ela gemeu. E ele teve que se controlar para não gemer também. Sua ereção já pulava.

- Yuna... – sua voz ficou grossa sem perceber e Yuna estava com os olhos mareados, a boca semiaberta e lábios rosados... Souma queria possuí-la ali mesmo – melhor a gente se afastar pois você está excitada e acabou me excitando... Se a gente fizer, sem ter planejado nem nada, você pode se arrepender e eu não vou me perdoar por isso. Jamais.

Os olhos de Yuna iam da boca para os olhos dele e, quando ele parou de falar, ela percorreu todo o corpo do cavaleiro. Souma estava em estado de autocontrole incrível que nunca imaginou ter. Era impressionante ... aquele corpo... ela queria lamber, morder, se esfregar... mas aí, eles iram fazer e ela não sabia se estava pronta... mas... ela o queria... ali mesmo... o seu corpo queria...

- Souma. – Yuna o olhou nos olhos, falando com a voz arrastada – Eu o quero. Agora.

Souma arregalou os olhos.

- Eu tenho certeza. Você compartilhou a coisa mais sagrada da sua vida comigo agora mesmo. Eu vou compartilhar o que tenho de mais sagrado com você. Meu corpo está rugindo por você desde que você sentou-se nesta cama: de um lado, o fogo do sol te banhando e, do outro, o fogo da vela. Estou me segurando a tarde toda. Eu te quero. Eu preciso de você.

- Yuna... tem certeza mesmo?

Com firmeza, a garota responde:

- Eu, Ekaterina Valia Kuznetsov Mikhailov, tenho plena certeza. E você, Souma Virtanen-Graham, tem certeza?

- Voo-vo-você se lembrou... dos sobrenomes dos meus pais?

- Claro! Eles são preciosos para você! E você me disse que Jabu te registrou assim, não foi?

Souma fica emocionado. Ela lembrou-se do seu nome completo, quando ninguém mais sabia.

E, por esta emoção estar inundando-o, ele a beijou, profundamente, pegando os dois lados do rosto dela para tanto. E, assim que parou o beijo, ele disse:

- Sim, eu tenho certeza. – e ambos sorriram.

Souma pega Yuna pela nuca, coloca-a debaixo de si, entre suas pernas, e beija-a insanamente, com todo o fogo que consome dentro de si. Yuna retribui, colocando as mãos nos cabelos de Souma e fazendo carinho em sua cabeça enquanto beija-o enlouquecidamente.

Depois de um tempo se beijando, eles param, ofegantes, e olham um para o outro. Ambos olham para a camisa um do outro e entendem que estava na hora de começar a se despir. Souma começou primeiro e arrancou sua camisa. Yuna ficou embasbacada com a perfeição do corpo dele: haviam várias cicatrizes, marcas, nuances de tons de pele diferentes mas, acima de tudo, a forte musculatura por debaixo, fruto dos anos de treino. Yuna passou a mão por todo o tórax dele, encantada. E depois passou a unha. Souma estava com um leve sorriso, pois gostava da admiração que recebia da namorada. Era uma sensação gostosa, reconfortante.

Yuna levantou-se e começou a beijar o tórax dele. Começou pelos peitorais e foi descendo, até o cós da calça. Souma segurou um gemido. Yuna olhou para cima e, de uma vez, tirou a camiseta e o sutiã, fazendo seus seios balançarem. Souma ficou embasbacado. Yuna deitou e sorriu, convidativamente, para ele, que aceitou o convite e foi beijá-la. Sugando os seios, Yuna sentia um gelo nas costas único, que não sabia identificar, mas era maravilhoso. E ela gemeu, fazendo Souma, automaticamente, esfregar seu pênis na vagina dela, sentindo todo aquele calor.

Pegando pela cintura, Souma começa a beijá-la por inteiro e Yuna fica fazendo carinho na cabeça dele, soltando leves gemidos quando eles vinham. A sensação era maravilhosa. Sua vagina estava cada vez mais molhada e ela só queria Souma, mais nada.

Souma parou de beijá-la e admirou todo o corpo da amada, detalhadamente, fazendo com que Yuna fizesse o mesmo. Ambos estavam ofegantes.

- Eu... posso te provar... lá embaixo? – pergunta Souma.

Yuna leva alguns segundos para entender que Souma queria chupá-la e ela fica envergonhada. Souma percebe e vai até ela, beijando-a na boca, no pescoço, descendo até os seios, circundando-o enquanto massageia o outro, fazendo Yuna gemer e agarrar os lençóis, se pulsionando pra cima.

Souma volta para o pescoço de Yuna e dá uma leve mordida no pescoço dela, e implora, sussurrando em seu ouvido:

- Eu ... posso te provar?

Ela cede, com a voz mais sexy e ousada que Souma nunca teria ouvido na vida:

- Pode... por favor...

Com a língua, ele desce do pescoço até a cós da calça, que desamarra. Yuna impulsiona para cima, para que a calça saísse da sua bunda. Com um puxão, ele desce a calça até os pés dela e os tira dele. Volta beijando a perna direita dela, olhando para ela, que olhava-o arregalado enquanto, vagarosamente, ele ia subindo a sua panturrilha, seu joelho, sua coxa, sua virilha... ele lambeu sua virilha, fazendo Yuna jogar a cabeça para trás e gemer e isto fez Souma entender que era a deixa de Yuna para ele: ele foi direto para aquele buraco entre as pernas dela e fez Yuna gritar.

Imediatamente, ele parou, assustado, e perguntou:

- Eu te machuquei?

Ofegante, ela custou para responder:

- N-n-não... é que... foi muito bom.... e eu não consegui.... controlar o gemido....

Souma fica aliviado por não tê-la machucado. E, vendo Yuna tão sedenta de tesão, ele queria penetrá-la ali mesmo, naquele momento. Mas resolve aproveitar mais do sexo dela. Vai até sua vagina, que tinha pelos pubianos loiros claros, iguais aos seus cabelos, mas bem curtos, rentes ao sexo, e começa a lamber dos lados. Os cabelos eram macios e nada pinicantes como tinha ouvido falar de outros aspirantes: achou-os lindos e até beijou a parte de cima da vagina. É, parecia que ele estava completamente apaixonado... ou só extremamente feliz... nem saberia dizer.

Utilizou o que conhecia das aulas de educação sexual para dar o máximo de prazer à Yuna, já que, mais tarde e se continuassem assim, seria dolorido para ela.

Ele abriu a vagina dela e viu o que chama-se de clitóris: estava grande e inchado... e delicioso. Ele colocou a boca e ouviu Yuna gemer, agarrando os lençóis. Então, estava indo bem. Começou a dar leves batitinhas com a língua no clitóris, chupar, massagear e percebeu que um caldo escorria pelo pequeno buraco embaixo. Com uma rápida olhada para a amada, viu que ela estava amando, com os olhos fechados, se contorcendo de tesão. Resolveu ir ali e lamber tudo aquilo. E viu que Yuna ficou louca.

Ficou lambendo as bordas, fazendo movimento de vai e vem e Yuna se controlava para não gritar de tanto tesão que sentia. Ele resolveu massagear o clitóris dela enquanto fazia o movimento com a língua e viu que ela começou a tremer. Ela abriu ainda mais as pernas, colocou a mão na boca e gritou com a vida, apertando o lençol. Yuna estava tendo um orgasmo na boca de Souma, o que o deixou exstasiado: então era isso que era ter um gozo na boca, e era muito bom.

O caldo saía, em pequenas quantidades, na boca de Souma e ele estava adorando. Ela ficou assim, por vários segundos, travada. Souma ficou bebendo dela, em êxstase. Aos poucos, ela foi relaxando, se entregando, se exaurindo.

Tirou a mão da boca e respirou ruidosamente, buscando ar, como se nada no mundo lhe desse ar o suficiente.

Ficou assim por um tempo. Souma ficou limpando-a com sua língua, lambendo-a, bebericando daquele mel delicioso e maravilhoso.

Quando Yuna conseguiu ficar um pouco mais normal, respirando menos ruidosamente, ela deu-se conta que Souma continuava chupando-a. Até então, ela estava em uma bolha de felicidade. Ao ver Souma lambendo-a, sorridente, ela sorriu ainda mais.  Ela pergunta-o porquê estava tão sorridente, e ele diz que não sabe, apenas está feliz. Yuna pergunta se ela pode prová-lo também e ele diz que não, que hoje ele só quer dar prazer a ela, depois eles vêem isso. Sobe mais para cima e dá um selinho nela, meio melado, e logo pede desculpas pois tinha esquecido que estava se deliciando nela.

Ela responde que não tem por que pedir desculpas e se beijam mais, um passando a mão no corpo do outro. Yuna passa a mão no pênis dele, por cima da calça, que está duro como rocha e preparado para a penetração. Ele ainda não tinha gozado e estava se segurando mas ela já tinha e achava injusta a situação.

Depois de um tempo de se beijarem, Souma para e pergunta para Yuna:

- Vamos... fazer?

Ela engole em seco. E acena, positivamente.

- Você sabe que vai doer, né? – ela também acena, positivamente – Mas que eu estou aqui, com você. – e ele a beija.

Yuna diz:

- Eu sei que vai doer mas que você está comigo. Estou preparada. – ela respira fundo – Vamos fazer.

Souma pega-a pelo pescoço e começa a beijá-la intensamente, para relaxá-la e deixá-la calma. Depois de um certo tempo, Souma tira sua calça junto com a cueca e deixa tudo no chão. Yuna observa o membro de Souma: era grande, grosso, um pouco mais escuro que o corpo e os pelos pubianos eram da mesma cor do cabelo de Souma, apesar de serem curtos.

Souma fica com vergonha ao ver Yuna observando, avidamente, para seu pênis. Mas também era satisfatório: significava que ele a estava agradando.

Souma usou tudo o que conhecia e todo o desejo que tinha e foi beijando-a da barriga, indo pelos seios, se deliciando neles, passando pelo pescoço, chupando-o, mordendo a orelha e indo até a boca. Yuna gemia, levemente, durante todo o tracejar do caminho e, quando as bocas se encontraram, Souma entrou, um pouco, dentro dela.

Yuna respirou fundo. Ela não sentiu dor. Nem prazer. Foi um susto. Souma olhou para ela e perguntou:

- Machuquei? Foi demais? Quer parar?

Ela piscou.

- Não. Eu assustei. Não esperava, apenas isso. Acho que ainda não chegou... lá. Para ter a dor.

- Entendi. – ele parou um pouco – Quer que continua ou eu paro?

Ela o beija.

- Me beija e vai de uma vez, quando achar que deve. Acho que ficar prolongando isto é pior.

Souma retribui o beijo e concorda.

Eles ficam se beijando por um tempo, enquanto fazia movimentos de vai e vem na borda da vagina. Souma sentia um prazer enorme mas Yuna não sentia nada.

Percebendo que Yuna não estava sentindo nada e com o intuito de não perder o tesão, Souma beija o pescoço de Yuna, a orelha, vai para a boca e, depois, vai fundo. Yuna grita e morde o lábio inferior de Souma, quase sangrando, da dor que sentiu. Na hora, Souma cola o seu corpo no de Yuna, abraçando-a contra si, pois a queria bem e confortável. Esperando Yuna ficar mais confortável, Souma tenta iniciar um ritmo que ela pudesse se acostumar com seu pênis. Yuna sente dor, mas também geme, e isso dá um tesão em Souma, mesmo ele sentindo que também se machucou.

E mesmo com tudo isso ele goza rapidamente, dentro dela, pois Souma estava em um turbilhão de sentimentos pela menina e já não conseguia mais se segurar. Ofegante, na boca dela, ele sussurra, sem nem perceber, que a ama, e ela sorri, o beijando. Souma, realmente, não estava pensando e o turbilhão o havia engalfiado de tal maneira que nem ele tinha consciência do que fazia. Ele vira de lado, puxa Yuna para o seu peito, ainda respirado forte, e pergunta:

- Como ... se sente?

Ela se aninha à ele e responde:

- Me sinto dolorida por dentro. Mas melhor do que esperava, pois o orgasmo anterior foi atenuante para a dor.

- Que bom... que te fiz... ficar bem – e a abraça mais perto, enconstando a cabeça na dela, e, em poucos segundos, apaga.

Souma teve toda uma trajetória de sentimentos e, com o orgasmo, que o relaxou, ele se deixou levar e apagou com a namorada em seus braços, se sentindo bem e tranquilo. Mas Yuna ainda fica acordada, absorvendo, sob a luz do luar, o quão belo era Souma: ruivo, com a pele um pouco queimada do sol, musculoso, mas na medida, sem estar muito extravagante. E como a pélvis era bela.... ele também era ruivo ali. Ela se sentia muito segura com Souma, muito mesmo, se sentia muito bem com ele, de uma forma que não sabia explicar, de um modo que foi importante para ela ter esta segurança ao transar com ele, sendo esta a sua primeira vez. Se fosse com outro, com toda a certeza ela não teria esta tranquilidade e esta segurança.

Yuna tracejava o peitoral de Souma, bem de leve, para não acordá-lo. Ela concluiu que foi bom para eles: ambos tiveram orgasmos deliciosos e foi a primeira vez de ambos. Ela concluiu que podia ser a melhor experiência que ela podia querer. E ela gostava tanto dele... perder a virgindade com alguém assim é algo único. Ela se aninha ainda mais em Souma. Seria a primeira noite dela como mulher: uma mulher completa. Que bom que teria o peito de Souma para ressoar com sua respiração, já que ele também tinha acabado de se tornar um homem, um homem completo, junto com ela.

 

 

 

 

 

Seiya acordou de sua meditação. O sol estava a pino. Deveria ter passado umas 2 horas, no máximo. Ele tinha conversado muito com Pégaso Mitológico. Tinha entendido tudo o que errou e o que pecou. Ele sabia o caminho a seguir e, agora, ele precisava se desculpar com uma pessoa muito importante.

Foi até o quarto e percebeu que Jabu estava acordado, mas com cara que tinha se levantado há pouco.

- Bom dia, Bela Adormecida! – ironiza Seiya.

Jabu, até sorri, mas não estava com humor para brincadeiras. Seiya percebeu e resolveu ir direto ao assunto.

- Jabu, eu queria te pedir perdão.

Ele olha para Seiya de relance, levantando a sombrancelha.

- Pelo...? Não entendi a piada agora.

- Não, não é piada. Eu meditei e entendi o meu problema, quando ele começou e o que tenho que fazer. Você me ajudou muito. Mas uma coisa que percebi é que você esteve ao meu lado desde a primeira desencarnação de Athena e estivemos juntos em todas as batalhas que travamos contra os inimigos de Athena. Você ter o sangue da Deusa e ser meu irmão não são meras coincidências. Ainda não sabemos o que significa mas, com toda a certeza, farão diferença no futuro, e eu quero te pedir perdão pelo modo que te tratei durante todos estes anos. Não foi justo, não foi certo e, muito menos, não foi humano. Meu ciúme e minha possessão por Athena me descontrolou e não acho certo eu ter agido assim. Peço perdão pois, durante todo este tempo, você foi meu aliado e não quero perdê-lo, seja para o meu complexo ou para o meu ciúme exacerbado.

Jabu olha para o chão. Respira fundo. Respira fundo outra vez. Cara, ele ficou emocionado. Ele coloca uma das mãos nos olhos e os fecha, segurando as lágrimas, mas elas teimam em cair. Um aperto no peito o acomete e Seiya o abraça por cima do braço dele. E Jabu nem percebe que começa a chorar e que queria chorar. Ele sentiu... um nó no peito sendo desfeito... um de vários.

Seiya sussurrou no ouvido de Jabu:

- Chegou a hora de eu me colocar à sua disposição, Jabu. – e Jabu sentiu algo morno e acolhedor envolvendo-o... como um cobertor vivo, envolvente e reconfortante.

E lágrimas caíram de uma forma que ele nem sabia que estava segurando, e seu choro foi tão forte que ele começou a tremer. Fungou. Arreganhou os dentes. A dor estava vindo com força e ele nem percebeu que estava tão forte assim. E ela só fluía para fora, com força. Dolorosa. Intensa. E aquele calor o acolhia e o fazia sentir cada vez mais reconfortado para se soltar.

E foi assim que ele soltou um grito no choro, apertou o braço de Seiya e chorou com gritos. Seiya apertou mais o abraço e fez seu cosmo envolver ainda mais Jabu, dando ainda mais conforto ao irmão, que estava reencarnando com ele por gerações, ajudando-o a proteger sua esposa e filhos. Ele devia a Jabu mais do que qualquer um e, em nenhum momento, Seiya pensou em olhar para ele, em dar uma palavra amiga ou mesmo incentivar uma palavra de amizade.

Jabu esteve sozinho no Texas por anos... como será que foi isso? Como foi a vida dele? Como foi criar Souma após o garoto perder o pai para Sônia? E como ele estava com tudo isso?

Entre os soluços, Jabu começou a falar:

- Sabe... eu me sinto ... muito culpado... pela morte de Seika ... – Jabu chorou mais um pouco e Seiya queria dizer que ele não tinha culpa nenhuma, mas não era o momento de interrompê-lo – e... como eu não podia trazer o corpo dela até você... eu fiz... um túmulo.... para ela... e plantei... várias flores... ao longo dos anos... Hoje, existe um imenso jardim de flores em torno do túmulo dela... belíssimo... eu não consegui saber... quais flores ela gostava e... por isso, eu plantei todas as flores que o solo podia suportar... Muitas morreram mas... aquelas que sobreviveram... estão lá... emoldurando... o túmulo... da sua amada irmã... Eu queria... que você pudesse... visitar... – Jabu fungou mais algumas vezes – Quando eu preciso sair, tem um casal de senhores que cuidam da fazenda e eles têm o mesmo zelo que eu pelo lugar... Se... se voltarmos da guerra... eu queria... que você pudesse.... velar o corpo... da sua irmã – E Jabu volta a chorar, se forçando a falar – e... me perdoar ... por não conseguir... protegê-la! – ele cospe a última palavra e volta a chorar forte.

Os olhos de Seiya se enchem d’água. Jabu passou 15 anos... cuidando do local de descanso da sua irmã... E ele nunca cogitou isto. Ele, simplesmente, tinha pensado que ele tinha cremado ela e deixado para lá... Mas não... Ele fez o gesto mais bonito que alguém poderia fazer.

Seiya o abraçou forte, envolvendo o seu cosmo em ambos e prometeu:

- Assim que eu sair da minha clausura, pedirei Athena para irmos à sua fazenda e visitar minha irmã. Tenho certeza que é a coisa mais bela que você já fez.

Um peso saiu do peito dele.

Jabu sentiu-se... mais leve.

Ainda tinha peso. Mas... algo deixou-o... mais leve.

Jabu chorou. Apertou os braços de Seiya e pediu perdão por ter demorado a contar. Por não ter cuidado tão bem de Seika. Por não poder contribuir tão bem com a Lógica. Por ter sido um fardo nestes anos do que um auxílio. Por ser fraco e, nem sempre, ir às lutas com os outros irmãos. Perdão... por ser ele, tão diferente dos demais. Ele era um arrogante quando mais novo, mas para esconder tantas fraquezas e medos. Hoje, ele só quer concertar as coisas e tentar apagar tudo isso.

Seiya circundou-o com um cosmo curativo, não tão poderoso como o de Athena, bem inferior, mas que dava a sensação de ajudar o irmão a curar aquelas feridas emocionais. Ele não ia deixar o irmão para trás. Ele não se sentiria só nem com tanta culpa. Sim, eles eram jovens lutando para não morrer e proteger o mundo mas agora, todos na casa dos 30 anos, não precisavam mais dos equívocos dos jovens.

Jabu chorou por um certo tempo, mas não muito, e foi encurtando-o, até cessar.

Ele olhou para Seiya e viu que ele brilhava dourado, com os olhos mareados, olhando para ele, com certa tristeza. Pergunta ao irmão:

- Por que está triste?

- Porque você sofreu... e sofreu sozinho. Eu nunca fui um irmão ou um amigo para você e você... por eras, só me ajudou. Eu te devo tanto...

Jabu ficou confuso e disse:

- Do que está falando?

Seiya respira fundo, sem deixar de olhar para Jabu e sem soltá-lo, disse:

- Eu meditei... como há muitas décadas eu não fazia... e conversei com Pégaso Mitológico. Ele me contou como contou à você sobre a Lógica e o porquê... E descobri que você está encarnando comigo há tantas eras... sofrendo junto comigo e Saori por tanto tempo... E, nesta era, você sofreu demais e eu te abandonei totalmente!

Jabu olhava para ele como se ele falasse em uma língua desconhecida.

- Percebo que não está entendendo nada. Eu gostaria... se você permitisse, claro... – ele estende uma mão para Jabu – de te mostrar as coisas que vi e o que eu posso te mostrar, explicar melhor.

Jabu percebeu que Seiya estava bem semelhante a um Deus piedoso. Um Deus que queria mostrar a um humano algo que só ele podia mostrar. Era uma situação bem diferente esta.

Jabu começou a levantar a mão e hesitou. Olhou para sua mão. Olhou para Seiya. Seiya estava do mesmo jeito. Jabu olha para sua mão e, em um roupante, aperta a mão de Seiya, dizendo:

- Aceito. Eu não tenho nada a perder. Ninguém para cuidar ou para voltar. Pode me mostrar. Mas só peço uma coisa em troca, posso? – Seiya acena positivamente para Jabu – Se eu voltar, de algum modo, fora da minha normalidade, por favor, me mate. – Seiya se assusta – Sim, me mate. Eu não vou suportar viver com mais angústia do que já vivo. – Seiya pondera, por alguns segundos, se deveria continuar, até que concorda.

- Sim, eu te matarei, se for preciso. Mas fique tranquilo: não precisarei ceifar sua vida.

E, em um brilho dourado, Seiya envolve ambos, que são imediatamente transferidos para o costumeiro campo verdejante que Seiya conhecia tão bem. Lá, Pégaso Mitológico os aguardava, em sua imponência costumeira, no topo da colina. Jabu e Seiya caminham colina acima e ficam um pouco abaixo do Pégaso Mitológico, esperando um comando deste. Pégaso olha de um para outro, lentamente, como se os avaliassem. Após, dá um leve sorriso e diz:

- Finalmente, vocês dois vieram. Finalmente, vou contar a história de vocês dois.

Jabu e Seiya se entreolham. Seiya estava sorrindo; Jabu estava assustado.

- Olhem! – Pégaso Mitológico estica sua mão para trás dos dois, aparecendo um telão com uma imagem dos dois, desta era. Jabu e Seiya viram-se para a tela – Estão vendo? Estes são vocês, com 13 anos cada. Agora, vou mostrar ambos, com a mesma idade, no século XVIII. – E a fisionomia de ambos dá uma leve alterada, mudando muito as roupas – E, agora, vocês no século XVI – e o mesmo acontece. Pégaso Mitológico faz o mesmo até a Era Mitológica e, para o susto de Jabu, era o Pégaso Mitológico ao lado de uma versão de Jabu mais... grego! E ele não era mais parecido com o Pégaso Mitológico. Jabu tinha o cabelo loiro, cacheado até os ombros, pele clara, olhos verdes, rosto quadrado e era bem musculoso, lembrando e muito as estátuas gregas. Mas vestia-se igual ao Pégaso Mitológico.

E, para espanto de Jabu, Pégaso Mitológico mostra para Jabu um vídeo para ambos: Seiya vê, sorrindo, e Jabu vê embasbacado:

- Jabu – diz, em tom imperativo, Pégaso Mitológico – Sabe que vídeo é esse?

- N-n-não, senhor!

- É a sua Sua encarnação anterior, Jabu, do século XVIII. Vocês dois foram colegas e amigos de treinos, antes mesmo de se sagrarem cavaleiros naquela época. Tiveram grandes batalhas na Grande Guerra contra Hades mas, acima de tudo, foi a amizade entre os dois que os mantiveram unidos. – Pégaso Mitológico olha para Jabu – Vire-se para mim, Jabu – ele cumpre o seu comando – Você, Jabu, foi um dos cavaleiros que foram mortos pelos Cavaleiros de Ouro quando souberam que Athena tinha se relacionado com um humano, quando Athena estava na Terra. Você, Jabu, assim como vários cavaleiros de bronze, tinham tentado impedir os deploráveis Cavaleiros de Ouro e foram massacrados. E você mal tinha abandonado seu corpo, jurou vincular sua alma à Athena, revoltado com o que tinha acontecido com a Deusa cujo juramento de proteção ainda era recente, jurando que a protegeria em todas as suas encarnações posteriores de todo o mal que porventura surgisse contra a Deusa. E você sempre encarnou junto com ele – apontou para Seiya – e com Athena. Mas ao contrário dele – apontou para Seiya novamente –, o poder que você acumulou foi mínimo durante estas eras. Contudo, seu juramento sempre perdurou e você sempre reencarnou. Nesta Era, eu apenas invoquei este juramento pois você não o invocou por natureza: proteger o sangue de Athena, ainda mais que, nesta Era, você veio com o sangue da Deusa em suas veias, conforme solicitado em sua última encarnação. – Seiya e Jabu ficam chocados com a revelação e, depois, se entreolham. Pégaso Mitológico continua – Sim, foi Jabu quem pediu para ter um pouco do sangue de Athena nas veias pois, nesta Era, ele queria fazer a diferença que não conseguiu fazer nas anteriores, principalmente na última. Jabu quis contribuir mais nesta guerra e pediu que pudesse vir com um pouco mais de poder mas que não rivalizasse com você, Seiya, nem com sua prole. Queria apenas ser mais forte. – Jabu, ainda com os olhos arregalados, cai de joelhos, olhando para Pégaso Mitológico, incrédulo que ele tenha pedido algo tão chocante assim.

Pégaso Mitológico vai até Jabu e coloca a mão em seu ombro, debruçando-se levemente sobre ele. Seiya apenas acompanha pelo olhar. Pégaso Mitológico sussurra:

- Eu sei que você acha que não tem poder e que se acha um fraco, mas não é verdade. Você se puniu demais nestes anos todos e, assim que se perdoar, poderá deixar fluir o pouco do divino que há em você. E será crucial para a batalha que virá mais à frente.

- E-e-e-e-eu... – gagueja Jabu – Eu... não sou forte... não tem como ... eu não posso...

- Não se negue. Se permita. Você terá sinais sobre isso. E você tem poder para ajudar. Um poder que desconhece.

Pégaso Mitológico estende a mão para Jabu. Demora um pouco para ele aceitar a mão. Assim que aceita, ele diz:

- Voltem. Continuem. Uma nova batalha se aproxima. Preparem-se para as novas provações pois elas decidirão tudo o que vocês vêm protegendo até então.

E, com um clarão, ambos são mandados de volta para o quarto da Casa de Sagitário. Estavam na mesma posição de antes de irem para o campo verdejante do Pégaso Mitológico. Mas Jabu estava chocado.

Seiya levanta-se e diz:

- Acho que agora é você que quer conversar. Eu tenho todo o tempo do mundo para você. Só me falar por onde quer começar.

Jabu vira-se e diz:

- Do começo, por favor.


Notas Finais


Se puderem, diga o que acharam e o que posso melhorar :)


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