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História Sallonvice - Capítulo 5


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Notas do Autor


Tô super feliz com os comentários que recebi, e super agradeço por eles.
Espero que aproveitem esse capítulo tanto quanto eu aproveitei em escrevê-lo. Qualquer dúvida é só me perguntar que eu respondo.
Não irei me prolongar mais.
Tenham uma excelente leitura e mtos beijos. :3

Capítulo 5 - Capítulo 5: O Fenômeno Mágico.


Fanfic / Fanfiction Sallonvice - Capítulo 5 - Capítulo 5: O Fenômeno Mágico.

 

OLIVER GRIFFIN

 

 

 

 

 

Eu cresci escutando dizerem que eu sou especial. Eu, Oliver, filho mais novo de Lord Kenneth da família Griffin. Desde sempre fui super protegido cercado de zelo e amparo. Dona Seraphina cuida de mim desde meu nascimento. Fora ela quem fez o parto de minha mãe cujo veio a falecer ao me dar a luz. As duas foram bem próximas quando mamãe era viva, ao menos foi o que Seraphina me contou. Mas todo esse zelo não era atoa, tinha um motivo oculto para me super protegerem.

Eu tinha apenas 8 anos, e a princesa de Riverfawkes — cujo era um ano mais velha — sabia correr muito bem. A cachoeira nas colinas era o nosso lugar favorito. Costumávamos brincar por aqui quase sempre. A forte ventania fresca da manhã bagunçava meus cabelos e minhas roupas enquanto corria atrás de Marian que havia pegado o pique. Nossos passos acelerados e risadas altas deixava-me eufórico. Toda vez que brincávamos de pique pegá eu perdia, ou quase sempre.

– Oli, Oli... — cantarolava zombando de mim por não conseguir alcançá-la. – Você não me pega...

Ofeguei correndo, já irritado por suas provocações e por não conseguir pegá-la. Cansado de correr me forcei a acelerar os passos ofegando a cada pisar. Marian dava altas gargalhadas e tudo o que eu conseguia fazer era correr e correr, até que puxei o tecido roxo do vestido de setim fazendo a ruiva cair na grama. O seu grito me assustou. Foi inevitável eu cair junto dela, mas diferente da garota que tinha levado um tombo feio eu não me machuquei.

– Aaahn... — ela gemeu de dor. Escorei na grama me achegando em Marian, estava com uma cara péssima.

– Se machucou? — ela fez uma careta feia ao ouvir minha pergunta como se a resposta fosse óbvia. Com cuidado a garota que estava de costas virou de bruços revelando o joelho ensanguentado. – Desculpe, foi sem querer.

– Dói muito. — reclamou ignorando meu pedido de desculpas. A ruiva parecia estar sofrendo muito, e aquilo me fez mal.

– Calma. — falei. Me sentei na grama em frente ao joelho machucado, o analisando. A pele branca da garota tinha rasgado feio, o local danificado tava em carne viva.

– Aí que dor. — gemeu. – É tudo culpa sua. — me acusou lacrimejando os olhos.

Respirei fundo me concentrando na ferida aberta da garota. Minha família sempre avisou para ter cuidado, para não me expor, mas nesse caso eu tinha que abrir uma exceção. Se tratava da filha do rei. Abri a mão canhota repousando-a por cima do joelho ferido, me concentrando na respiração e no ato seguinte. Um fusco de luz branca começou a emanar de minha mão e se alastrar por toda a ferida de Marian estocando o sangue, fazendo-o desaparecer junto da ferida aberta que voltou a se fechar. Meus olhos de azuis claros passou para um dourado intenso, e a princesa que antes chorava de dor agora se encontrava em silêncio estupefata pelo que acabara de acontecer. O fusco de luz branca se reduziu revelando um joelho novinho em folha como se nunca tivesse sido ralado, e os meus olhos voltaram a sua coloração normal.

A ruiva me encarou com aquela famosa expressão de interrogação de quem não entendeu nada do que se passou. Engoli saliva à dentro a olhando. Nosso silêncio se quebrou quando decidi falar.

– Por favor, não podes contar isso a ninguém. — avisei de antemão. Se ela contasse a alguém eu estaria perdido.

– C-como fez isto? — Marian tava estática. Ainda tentava assimilar o que acabou de acontecer.

– Eu não sei... Eu apenas fiz... — respondi com sinceridade.

Desde sempre fui assim, nasci assim curando qualquer coisa distorcida. Papai diz que mamãe morreu no parto porque não aguentou o poder que vinha de mim. Isso me fez sentir um pouco culpado. Essa magia que nasceu comigo fez meu pai e irmã acreditarem que eu era especial, e que precisava ser protegido, afinal a magia era proibida em Sallonvice. O mais curioso é que ninguém da minha família tem magia, apenas eu. Não aprendi a fazer isso, apenas faço sem saber como e sem precisar de auxílio externo, ou instrução de um mentor, livro, ou algo do tipo. Sou natural e autossuficiente.

– Não vou contar a ninguém. — Marian por fim disse me dando um grande alívio. Sorri pra ela agradecido. No fim das contas a ruiva não era tão ruim.

De repente um guinchar de ave interrompeu nossa troca de olhares, chamando nossa atenção. Meu pescoço se virou na direção do barulho me fazendo ter a visão mais incrível de toda minha vida. A beira do rio um ser alado de asas robustas e calda de leão se encontrava. Suas penas eram acizentadas com um azul-celeste muito bonito. A criatura metade leão e metade águia me encarou e neste microsegundo prendi o fôlego. Era a coisa mais extraordinária que já vi na vida. Me levantei da grama esquecendo-me completamente de Marian. Andei em passos lentos na direção do rio, me aproximando com cuidado da criatura que coçava suas penas com o bico. Era quatro vezes maior do que Marian e eu. Meus olhos vidrados no ser alado não piscaram minuto sequer, estava fascinado.

– O que é... Isso? — escutei a voz da garota ruiva pouco atrás de mim, mas não dei importância.

Ergui o braço direcionando a mão esquerda a plumagem cinza azulada do bicho, e com muito cuidado fui me aproximando. Sabia que eram criaturas orgulhosas, papai sempre dizia nos contos que lia para mim antes de dormir. Então não querendo ofender seu ego me acheguei conseguindo por fim alcançar os dedos nas suas penas. Sorri extasiado pelo momento, meu coração disparou.

– Isso é um grifo. — falei respondendo a pergunta antes feita por Marian.

A penugem do animal era extremamente macia e rica em detalhes, ele pareceu se simpatizar comigo. Só havia visto grifos nos desenhos dos livros de minha casa. Eram criaturas extintas segundo meu pai. Lord Griffin sempre narrava a mim e a minha irmã contos fantásticos nos quais criaturas aladas como essa participavam. Não era atoa que o símbolo de minha família era um grifo.

– Parece surreal. — a princesa disse igualmente maravilhada. O animal guinchou me fazendo rir espontâneo, era tão lindo. Seus órbes vermelhos me faziam viajar.

– Sempre soube que existiam de verdade. — falei admirado enquanto alisava as penas do animal que parecia gostar do meu afago.

– OLIVER! — a distância escutei os gritos de Seraphina que possivelmente estava preocupada comigo. Nesse mesmíssimo segundo o grifo grunhiu me dando um leve susto, logo abrindo as incríveis asas de penas macias e alçando vôo para longe, deixando-me com o ar suspenso por alguns instantes pela extraordinária visão que obtive em assistí-lo desaparecer nos céus através das nuvens.

– Oliver... — a mulher apareceu vindo na nossa direção. Parecia aborrecida. Pela sua expressão já sabia que viria uma bronca. – Fiquei te procurando por todos os cantos. O que disse sobre não ir muito longe?

– Estávamos brincando de pique pegá, foi sem querer. — Marian se pronunciou fazendo Seraphina notar sua presença.

– Ah vossa alteza, perdão. — minha babá adiantou sem jeito. – Sou encarregada de vigiar e proteger o menino Griffin. — explicou-se.

– Me desculpe, não vai acontecer de novo. — falei de cabeça baixa me sentindo um pouco culpado.

– Então acho melhor retrocedermos. Os dois... — ela disse olhando de Marian para mim.

A princesa e eu nos entreolhamos em silêncio, logo começando a caminhar de volta com Seraphina pela campina. Sabíamos que o que testemunhamos na cachoeira do rio Feelswalter ficaria entre nós e somente entre nós para sempre. Ninguém acreditaria se contássemos o que vimos, ninguém exceto minha irmã Margot. Ainda podia sentir a sensação de tocar na plumagem do grifo e de vislumbrá-lo tão exuberante e onipotente. Estava fresco em minha memória e não se apagaria tão cedo.

 

 

***

 

 

A lareira iluminava e aquecia a sala de estar onde Margot aproveitava a leitura de um livro enquanto eu estava a mergulhar em meus pensamentos mais profundos. Minha mente estava dispersa em devaneios. O sofá confortável acomodava nós dois, e quando eu retornei por terra percebi que Margot estava bem concentrada na leitura. Pensei então em compartilhar com ela a experiência de hoje cedo, eu precisava fazer isso.

– Marge... — chamei fazendo-a olhar na minha direção. Estávamos pouco distantes. – Eu vi um grifo. — contei sem me dar ao trabalho de fazer suspense ou de prepará-la para a notícia.

– Achas que viu um grifo? — replicou me olhando com estranheza.

– Não, eu vi um grifo. — voltei a afirmar. Margot franziu a testa um tanto descrente. Um silêncio se perenizou entre nós dois onde somente o crepitar do fogo na lareira era escutado, tornando a atmosfera tensa.

– Isso é hipoteticamente impossível. — voltou a dizer rompendo com o silêncio. Suspirei fundo antes de falar.

– Eu vi um grifo. — insisti. – E ele era lindo, não consigo mais tirá-lo da cabeça. — falei brevemente passando os olhos pelo livro qual Marge lia, sua brochura era bem grossa.

– Irmão, sei que não és louco, mas grifos estão extintos há três séculos. — ela parecia impressionada com minha convicção. Suspirei mais uma vez voltando a falar.

– É o que diz nesse livro, eu sei. Papai sempre o lê para mim. — respondi. – Mas eu o vi próximo ao rio, e ele era grande e azul. Queria poder ter montado nele, seria incrível. — me expressei com os olhos brilhando ao imaginar a cena.

– Aqui diz claramente que quando os três guerreiros chegaram no novo mundo se depararam com pessoas e criaturas que viviam de forma depravada, pecadora e desogarnizada. Todos os indivíduos não humanos foram mortos como punição, apenas alguns escaparam ao escolher se render ou a fugir.

– Não acredito que os seres mágicos eram ruins. — falei me sentindo ofendido. Sei que na história relatada sobre a conquista do território que mais tarde veio a se tornar Sallonvice os seres mágicos são vistos como algo horrendo, isso me deixa triste.

– Também tenho minhas dúvidas. — Margot disse concordando comigo. – Mas esse livro é sensacional. Se não fosse por ele não iríamos conhecer nossas raízes. — ela disse em seguida passando os dedos finos pela brochura da capa.

Também gostava do livro. Papai sempre o lia para mim antes de dormir. Gosto das partes que fala sobre os grifos e das criaturas não humanas que aqui viviam antes do Agnar, Tarsius, e Dante — o trio de guerreiros — chegarem.

– Queria ter vivido nessa época para domar um grifo. — falei empolgado com a idéia. Margot deu gargalhada de mim.

– Queria ser uma viajante exploradora, descobridora de terras fantásticas como os três guerreiros foram. — ela disse igualmente empolgada.

Neste instante escutei passos vindo na nossa direção. Imediatamente uma garota de cabelos castanhos escuros se tornou aparente. Era a princesa Amidala que estava hospedada em nossa casa há um mês.

– Estão falando sobre o quê? — ela questionou curiosa. – Ouvi mencionarem os três guerreiros, adoro essa história. — sentou-se entre mim e Margot preenchendo o espaço vazio que antes havia no sofá.

– Estávamos falando deles sim. — minha irmã respondeu sorridente. Revirei os olhos pela forma como ela ficava sempre que Amidala estava por perto me deixando pra escanteio e esquecendo que eu existo.

– Agnar Penttacus, Dante Woodshell, e Tarsius Dankvillin o meu tatatataravô. — Amidala dizia com entusiasmo. – Você tens o livro! Posso pegá-lo?

– Claro. — Margot respondeu deixando que a princesa o pegasse. Ela abriu o livro folheando algumas páginas e logo começando a ler em voz alta.

– Os três guerreiros vieram de muito distante em três grandes navios alcançando as terras inexploradas do novo mundo qual mais tarde veio a se chamar Sallonvice, se tornando o continente mais falado entre os outros. Agnar Penttacus foi um nobre guerreiro que fundou a província de Kingstone educando os nativos que aqui viviam e expurgando os que iam contra suas crenças. Dante e Tarsius se uniram a causa de Agnar formando uma parceria que sucederia por séculos, iniciando assim uma aliança com duas outras famílias que aqui já viviam sendo essas os Pussett ruivos de Riverfawkes, e Kiten Beaufort o nobre kaiser de Heatherbell, a província do deserto.

– Não me canso de escutar essa história. — Margot falou assim que Amidala terminou com a leitura do parágrafo.

– Acho fascinante como Agnar e seus amigos fundaram Sallonvice. — a princesa disse.

– Eu acho um pouco amedrontador. — falei com receio. De certa forma me assustava um pouco. Eu era uma criança diferente e o jeito que eles trataram os não humanos me assustava.

– Você ainda é muito novo pra entender certas coisas Oliver. — Amidala disse como se fosse muito mais velha do que eu, o que não era o caso.

– Falou a velha. — respondi fazendo um bico mal humorado.

– Oliver olha os modos. — Margot me censurou no mesmo instante. Bufei irritado cruzando os braços e virando a cara.

– Só porque é a Amidala, tudo é a Amidala. — resmunguei inciumado não sabendo se deu para elas escutarem.

– Crianças, hora de dormir. — logo a voz grossa do meu pai se tornou presente chamando nossa atenção. Ele estava parado rente à entrada da sala.

– A Amidala não é criança, ela tem 180 anos. — falei mal humorado de cara feia me levantando do sofá.

– Oliver! — Margot voltou a me censurar, mas não dei atenção. Fui subindo direto ao meu quarto sem olhar pra trás, afinal já era tarde mesmo. Lá me despi ficando apenas com as vestes de baixo e sem demora me enfiando por debaixo do cobertor quentinho.

 

 

***

 

 

 

As asas de plumagem azuladas sobrevoavam os céus me fazendo sentir cócegas. Espera, eu estava voando? A forte brisa batia em meu rosto me fazendo suspirar leve. As águas cristalinas do rio Feelswalter cercavam toda a campina e o castelo, e além do horizonte podia avistar as colinas. A visão de Riverfawkes daqui de cima era incrível. Se continuasse a voar podia enxergar também Kingstone e Towerstrong. Um simples bater de asas me fez perceber que não se tratava de uma ave, mas sim de mim. Era eu quem sobrevoava o reino pântanoso com minhas asas fortes e gigantes.

– Estou à voar... — falei admirado com as incríveis asas que tinha.

Girei nos céus dando piruetas, mergulhando em diversas nuvens como se tivesse afundando num rio. Era tão divertido ter asas e voar. Havia pessoas andando harmonicamente lá em baixo, pareciam contentes. Fiquei a observá-las durante o vôo e pouco antes de perceber um homem coberto de armadura dos pés a cabeça disparou na minha direção com sua espada. Senti o aço tocar a pele alva do meu pescoço em seguida produzindo um som de cabeça decepada.

 

 

 

 

Acordei de supetão com falta de ar e as mãos segurando o pescoço. Meus olhos estavam arregalados em pavor. Minha garganta fechada inibia a passagem de ar causando-me dificuldade respiratória. Jurei que minha cabeça tinha sido cortada fora, mas era apenas um sonho, um pesadelo horrível. Suava pelo rosto e pescoço. A respiração desregulada fazia meu coração dentro da caixa torácica pulsar fortemente. Devagar fui recuperando o fôlego e o sentimento ruim de medo foi se esvaindo. Respirava fundo pelo nariz soltando o ar pela boca, afim de me acalmar. Aos poucos minha consciência foi retornando me dando conta da realidade qual vivia. Eu não tinha um par de asas e não existia nenhum homem de armadura querendo me matar.

Com a respiração equilibrada pensei em passar no quarto de Marge, ela sempre me acolhia quando tinha pesadelos. Era muito difícil voltar a dormir depois de um sonho ruim. Pensando nisso me levantei da cama andando pelo quarto escuro. Peguei um lampião já aceso e caminhei para fora andando pelo corredor na direção do quarto de minha irmã que era bem próximo do meu. Ao chegar encontrei a porta somente encostada, devagar fui a empurrando dando de cara com uma Margot em sono profundo ao lado da princesa Amidala igualmente ferrada no sono. Elas estavam abraçadas e aquilo me deixou inciumado. Triste dei meia volta fingindo nada ter visto, logo voltando aos meus aposentos. Seria difícil dormir. Provavelmente passaria a noite inteira acordado, mas haveria de tentar.

 

 

 

 

10 ANOS DEPOIS

 

 

 

 

Depois que Margot se casou com o rei Leonard Woodshell meu pai e eu passamos a morar sozinhos nessa casa grande, no entanto isso durou por pouco tempo. Quando fiz 10 anos Lord Griffin adoeceu contraindo uma praga terminal que se alastrou por todo seu corpo. O médico dissera que essa doença vinha dos pântanos de Riverfawkes e que o rei Alastor Penttacus também a tinha contraído, mas eu possuía lá as minhas dúvidas. Podia tê-lo curado, mas ele me pediu para não o fazer. Lembro-me desse dia como se fosse ontem.

Meu pai estava jogado na cama completamente enfermo. Seus olhos de peixe-morto me entristecia profundamente. Umideci os lábios em aflição, queria poder ajudá-lo. O que mais me corroía por dentro é ter que respeitar e aceitar sua decisão de querer falecer. Ele não precisava disso, eu podia curá-lo. Me sentei ao seu lado afundando o colchão com meu peso, o fitando nos olhos.

– Dói muito? — questionei sentindo um pesar no peito somente em falar.

– Morrerei em paz meu filho. — apertei o rosto inibindo a vontade de chorar. Minha palidez se tornou vermelha de tamanha vontade que sentia em me derramar em lágrimas. Foi inevitável que uma lágrima acabasse escapando.

– Me deixe te curar pai, por favor... — pedi quase implorando. Outra lágrima escapou me fazendo engolir seco.

– Já estou velho Oliver. Já vivi tudo o que tinha de viver. — tossiu enquanto falava, sua voz era fraca. Segurei sua mão esquerda a apertando de leve, não quis soltá-la.

– Não precisas morrer assim. — choraminguei apertando o rosto.

– Você será um grande homem. — ele dizia com dificuldade de virar o rosto para me encarar, mas com certo esforço conseguiu. – És especial... Nunca esqueça disso...

– Pai... — choraminguei com a garganta seca limpando o rosto com a palma da mão vaga ao fungar. – Por favor não vá, não me deixe...

– Eu te amo filho... — apertei os olhos me derramando em lágrimas, não conseguindo mais evitar. Não demorou muito para as íris dos olhos de meu pai perderem a luz da vida.

– Pai! — comecei a sacudir o cadáver do homem que há poucos segundos ainda respirava. Uma dor lancinante tomou conta do meu ser, e este é um tipo de dor que não era capaz de curar com minha magia. – Pai! Volta pai!

O chamava puxando o corpo do homem morto no colchão. Eu chorava descontroladamente. Não conseguia aceitar o fato, não sabia aceitar que o meu pai havia escolhido morrer por livre e espontânea vontade. Mas nada poderia fazer, ele tinha ído embora e eu precisei de tempo para assimilar o ocorrido.

 

 

***

 

 

Passei a morar no castelo do Vale de Castlebroke com Margot e rei Leonard. Minha irmã intercedeu por mim fazendo o marido aceitar minha estadia, não foi fácil convencê-lo, mas no final acabei me tornando o médico curandeiro da corte para suprir minha morada no castelo. Fato que Margot achava um absurdo, pois eu era o seu irmão, o irmão da rainha. Mas não era nenhum pouco fácil fingir ser médico para esconder meus talentos pessoais aos pacientes que vinham a minha procura. Ter magia era quase um karma, ter de viver escondido era horrível. A sensação é de que estou infringindo um crime grave e de fato estava. A magia era proibida em Sallonvice e desde que nasci me senti assim, culpado.

Futuramente minha irmã veio a dar a luz à três lindas crianças que nasceram saudáveis graças a minha orientação. Erick, Violet e a então recém nascida Sophie. Margot e eu estávamos a caçar nas florestas invernais de Oldmountain, próximo as montanhas. A temperatura aqui era ainda mais baixa fazendo nossos ossos doerem de tanto frio. Na realidade quem caçava mesmo era ela, eu apenas a acompanhava. De vez em quando era divertido visto que passar o tempo sozinho naquele enorme castelo é entediante. Margot tinha a mim para fazê-la companhia, e vice versa. A mulher era ótima no arco e flecha, sempre fora. Dificilmente uma criatura escapava da sua mira.

– Achas que vai encontrar algum animal por essas bandas? — questionei em dúvida. Esse lado da floresta me pareceu muito deserto.

– Cervos e javalis com certeza. — respondeu convicta enquanto me guiava pelas urzes de galhos congelados.

– Seria bom caçar uma raposa, ou um lobo talvez. — sugeri a seguindo pela trilha de neve. – Suas peles são ótimas para proteger do frio.

– Se dermos sorte, quem sabe. — respondeu.

Em seguida viramos a direita fazendo uma curva, passando por várias árvores de galhos secos e folhas congeladas. Margot tava tão acostumada com essas florestas, eu não fazia idéia de onde estávamos. A mulher me guiava pela trilha e tudo o que eu sabia fazer era segui-lá. Durante a caminhada um farfalhar entre as árvores por detrás de mim roubou-me a atenção por míseros segundos. Devia ser algum animal que estava por perto.

– Escutou isso? — questionei intrigado. Marge pausou a caminhada para me encarar.

– Onde? — devolveu a procura do som que eu escutei.

– Ainda agora, por aqui, bem... Ali. — apontei o dedo meio incerto na direção de um fundo de árvores congeladas. Margot se esgueirou para olhar e depois voltou a me fitar respondendo.

– Não tem nada. — ela disse. Franzi o cenho confuso.

– Juro que escutei algo. — aleguei com firmeza. Não tava maluco.

– Então continuemos a andar, devemos estar próximos. — ela disse voltando a caminhar pela trilha.

Eu por outro lado fiquei estático ao escutar novamente o mesmo som rápido e indistinto entre as árvores. Meus olhos seguiram ligeiros como um guepardo os vultos que avançaram. Comecei a andar na direção de onde vinham os ruídos certo de que estava próximo de um bicho grande, e eu não tava errado. Tinha algo bem ali.

– Marge! Acho que o encontrei! — falei alto para que ela pudesse me escutar, mas só obtive o silêncio como resposta. – Margot? — chamei procurando-a, mas só avistei as urzes congeladas e o chão sujo de neve. Outros ruídos ecoaram na direção qual olhava. Onde foi que Margot se meteu? Pensei.

– Marge é você? — falei me aproximando dos ruídos deixando pegadas pela neve.

Em passos lentos fui me achegando, mas sem obter respostas. Certamente que Margot não estava por ali, tínhamos nos desencontrado. Sobretudo continuei a andar na esperança de algo avistar. Pude escutar sons de guinchos leves a medida que me achegava, e não demorou muito para eu descobrir do que se tratava. A beira de um lago congelado havia um par de asas robustas azul acizentadas que chamaria a atenção de qualquer um. Intrigado fui me aproximando para obter uma melhor visão, e nisso testemunhei um belíssimo ser alado de tamanho considerável ao meu. Meu queixo caiu e o meu maxilar trincou.

– Isso é impossível. — murmurei desacreditado. Perplexo fui me aproximando do grifo, possuindo quase certeza de que se tratava do mesmo grifo que avistei há dez anos atrás.

O animal me encarou grunhindo pra mim. De cenhos franzidos pela tamanha perplexidade que me envolvia cheguei próximo ao grifo de olhos vermelhos, tão penetrantes. Fiquei estático por alguns segundos, observando-o com incredulidade. Ele estava um pouco envelhecido, mas era o mesmo, nunca haveria de esquecê-lo. Ergui a mão à altura das asas tocando nas plumas azuladas tão macias. Fechei os olhos para melhor aproveitar o momento sorrindo de felicidade. Me recordava perfeitamente da textura dessas penas, nunca as esqueci. Uma lágrima escapou pela minha vista esquerda, eram lágrimas de emoção.

– Vejo que gostou do Donyluskshi. — um susto me fez arregalar os olhos fazendo-me voltar a realidade.

A minha frente havia uma criatura extremamente pálida de orelhas avantajadas e pontudas. Seus cabelos louros reluziam brilhando quase tanto como o sol, e seus olhos incrivelmente azuis pareciam dois diamantes. Sua aparência era de mulher e o par de asas brancas me deixaram vidrado por alguns instantes.

– Doni o que? — me perdi ao falar. Estava boquiaberto. A criatura sorriu gentilmente pra mim, não parecia perigosa.

– Ele te trouxe até aqui. — ela disse acariciando as penas do grifo.

– O que é você? — perguntei pausadamente. Ela era dona de uma beleza inacreditável. Não era possível que existisse indivíduos não humanos tão exuberantes assim.

– Pode me chamar de Ivy. — respondeu com naturalidade continuando a acariciar o grifo que grunhiu com o bico enorme de águia. – Sei que estás se perguntando um monte de coisas.

– Esse grifo é seu? — questionei de primeira. Ivy tinha razão, minha mente tava uma confusão.

– Não meu, a lealdade de Donyluskshi nunca mudou. Ele gosta de você. — retrucou me fazendo encarar brevemente o grifo. Não era coincidência eu vê-lo novamente após dez anos.

– Vou começar pelo início. — disse me fazendo fitá-la. A mulher alada começou a andar pela beira do lago congelado e tudo o que fiz foi prestar atenção nos seguintes detalhes.

– Os homens orgulhosos e pretenciosos quase exterminaram nossa espécie, o mal de Dante Woodshell impregnou essas terras. Poucos sobreviveram, mas essa parte eu acredito que já saiba.

– Isso foi há séculos atrás. — me pronunciei entretido com a fala de Ivy.

– Sim, e você é produto desse mal. — respondeu me fazendo sentir um calafrio na boca do estômago. – Mas também pode ser a nossa salvação.

– Do que está falando?

– Você sabe do que estou dizendo. — devolveu no mesmo passe ao encarar-me nos olhos. – Eu não conheci o Regis, mas conheço sua história, ficou famosa entre nós druifos.

Franzi o cenho. Então é isso que Ivy era? Uma druifa? Já ouvi falar dessa espécie nas histórias que meu falecido pai me narrava. Segundo as lendas druifos eram criaturas humanóides que viviam onde o inverno é frequente. São exímios em magia de cura e profissionais na arte da manipulação do gelo.

– Isso tudo tem ligação comigo num é? O fato de eu ter nascido assim não é coincidência. — eu mesmo afirmei. No fundo sempre soube que algum dia a verdade sobre mim viria à tona.

– Regis Griffin foi um druifo que se refugiou nas terras de Riverfawkes. Ele se misturou com uma humana por sobrevivência e teve seus descendentes. — explicou. Senti meu peito apertar.

– Eu... — completei a frase alheia com os olhos vermelhos prestes a chorar.

– Quando Donyluskshi te encontrou eu quase não acreditei. — voltou a andar pela beira do lago congelado se reaproximando de mim. – Ele é mesmo leal ao Regis.

– Ele foi o grifo do meu tatatataravó. — afirmei encarando Donyluskshi que enterrava as patas na neve. Agora tudo faz sentido.

– Tem mais uma coisa que precisas saber. — Ivy falou me chamando a atenção. Seu tom ficara ainda mais sério do que antes. Os olhos azuis claros feito água me fitaram com seriedade. – Não és um mago ou um druifo, és muito mais especial do que isso.

A princípio não compreendi o que Ivy dizia, mas após digerir bem suas palavras eu senti no meu interior o que a druifa quis dizer. Umideci os lábios encarando as profundezas daqueles olhos mágicos, cujo exalavam mistério e suspense.

– Sua natureza é rara, tens que tomar cuidado com os outros e agir em prol dos seres mágicos que ainda vivem exilados. — suas palavras eram enfáticas e muito bem colocadas, mas Ivy ainda não havia dito o que eu queria escutar.

– Se sabes o que sou, então diga. — a desafiei. Ela podia ser bela e ter uma história triste, mas não era ingênuo a ponto de confiar cegamente numa estranha com asas e orelhas pontudas.

– Estás no meio entre os seres mágicos e os não mágicos. Você veio para trazer o equilíbrio de volta, é um fenômeno raro de acontecer. — suspirei profundamente diante a declaração da druifa. Eu já sabia que era diferente, mas dar a mim uma responsabilidade que não cabia era absurdo.

– Isso é de mais para digerir. — falei com sinceridade num longo suspiro. A druifa segurou em meus ombros com delicadeza me encarando e alegando em seguida.

– És mais poderoso do que imagina. — sua voz ressoou serena.

– OLIVER! — os gritos de Margot ecoaram pelo lago congelado alarmando Ivy e a mim. Sem demora a druifa montou no grifo chamado Donyluskshi, declarando em seguida.

– Use sua magia com sabedoria. Estou confiando em você. — dito isso a druifa sobrevoou os céus montada no animal alado, desaparecendo do meu campo de visão e me deixando com um sentimento confuso no peito.

– OLIVER! — os gritos de Margot continuavam, ela parecia desesperada. Andei para o fundo da floresta na direção da sua voz logo alcançando a mais velha e aparecendo de supetão na sua frente.

– Estou aqui.

– Aah! — berrou de susto com a mão no peito. – Cassete, onde se meteu? — xingou brava.

– Também estava a sua procura. — simplesmente disse. – Parece que nos separamos.

– É, parece. — Margot tava irritada comigo. Ela nunca perdia sua postura de irmã mais velha. – Vamos voltar a caçar antes que fique tarde. — falou de cara amarrada me fazendo sinal para segui-lá.

Leonard não gostava que Marge saísse pra caçar, então não podíamos demorar. Usava a desculpa de que Margot tinha que cumprir com suas obrigações de mãe, sendo que a mesma nunca faltou com elas. Ainda assim minha irmã não o deixava de fazer, não daria jamais esse gostinho ao marido.

 

 

 

 

5 ANOS DEPOIS

 

 

 

 

Jamais esqueci o encontro com a druifa nas florestas invernais. As palavras de Ivy se perpetuaram em minha cabeça por anos. Foram muitas noites mal dormidas que me fizeram revirar dezenas de livros na biblioteca do castelo. Procurei por escritas que falassem sobre magia, druifos, a época da conquista dos três guerreiros, criaturas mágicas e fenômenos mágicos. Foi exaustivo e estressante, pois era muito difícil pesquisar sobre tais coisas. Era como se eu tivesse procurando por algo no lugar errado, e talvez estivesse mesmo.

Sobretudo, numa noite qualquer já exausto de tanto investigar eu encontrei um parágrafo bem interessante num livro chamado, O Conhecimento Dos Antigos. Sua escrita era mística, e muitas das coisas citadas neste livro eram incompreensíveis aos olhos leigos. No parágrafo em questão dizia o seguinte:

 

 

Fenômenos naturais não tem sua origem exata, são vistos com frequência em tempos hediondos onde o caos predomina. Frequentemente são interpretados de forma distorcida, as interpretações podem variar de indivíduo para indivíduo. No geral estão relacionados ao misticismo.

 

 

Um monte de asneira... Suspirei cansado fechando a pálpebra dos olhos. Talvez não fosse tão importante eu me preocupar com isso, afinal eu sei quem sou. Meu caráter foi construído pelo meu pai e pelas minhas vivências. Não seria o fato de eu possuir magia, ou ser descendente de druifos que ditaria quem sou ou quem devo ser. E foi pensando nisso que terminei pegando no sono na cadeira da mesa da biblioteca.

 

 

***

 

 

Hoje aconteceria o baile celestial na capital de Kingstone. Toda a nobreza estaria reunida numa celebração amistosa cheia de fartura. Estava a me arrumar imaginando que Leonard devesse estar inspirado pela ocasião, afinal ele era um grande bajulador do rei Arthur. Terminado de me vestir desço ao térreo indo direto a carruagem real cujo o símbolo nas bandeiras eram ilustrados por uma tulipa branca com gotas de sangue, eis o símbolo dos Woodshell, tão mórbido quanto o próprio rei.

Adentro na carruagem a espera de Margot e meus sobrinhos. Em meia hora a rainha e o rei aparecem lotando o espaço que havia junto de Erick, Violet e Sophie. Logo o cocheiro deu início ao trajeto à Kingstone, e em longas horas havíamos chego. Todos os reis e rainhas dos cinco reinos estavam aqui, inclusive todos os Lords e ladys também. Vejo várias famílias nobres passarem pelo tapete real ao serem anunciadas pelo Gran Duque, entre essas estava a família real Dankvillin e a família Pussett que em muitos anos não via.

Em breve o sobrenome Woodshell foi anunciado e sem demora entrei de primeira com as crianças segurando na mão de Sophie, minha pequena sobrinha de 5 aninhos com Margot e Leornad vindo atrás de nós. Passamos pelo tapete fazendo a reverência cordial ao rei Arthur e a rainha Amidala em respeito a união de três séculos à coroa de Sallonvice.


Notas Finais


A aparência dos druifos:
https://prntscr.com/ts1s51


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