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História São Francisco - Capítulo 16


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Notas do Autor


E vamos de quarentena, né

Aqui em São Paulo ta o maior caos. To trancada em casa há mais de uma semana!
Se puderem, também evitem sair e lavem bem as mãos!!!

Boa leitura, meu povo lindo.

Capítulo 16 - Capítulo 16 - O Fundo do Poço


Fanfic / Fanfiction São Francisco - Capítulo 16 - Capítulo 16 - O Fundo do Poço

 

Jung Hoseok

Entra em pânico facilmente 

 

 

—Hoseok, você precisa abrir mais a boca, senão não consigo colocar tudo. 

  O que veio em seguida foi uma risada abafada — porém não muito discreta — de Jungkook, cobrindo a boca com a mão. Eu o xingaria, se não estivesse apavorado com o motorzinho de dentista se aproximando dos meus lábios. Como uma pessoa que desmaia vendo qualquer gotinha de sangue é de se imaginar que também não sou um grande fã de dentistas. 

  Com o lado do meu rosto que não tinha caído, lanço um olhar de ódio para Jungkook que se contorce de rir na cadeira do acompanhante. Não adiantou em absolutamente nada, o imbecil continua deixando aquela mente poluída tomar conta de tudo. Dou um pequeno pulo quando noto que o motorzinho já toca no meu dente quebrado. 

   Tomar a anestesia já tinha sido uma luta... 

 

# Mini flashback #       

 

—HOSEOK, SE ACALMA! — Jungkook me perseguia pela clinica. 

—NÃO! NÃO! — quase levo a mesinha de centro junto comigo na fuga, todas as revistas femininas de meses atrás rolaram pelo chão e a recepcionista não pareceu nada feliz, mas continuei correndo. — NUNCA VÃO ME PEGAR COM VIDA!

  Não era uma clinica grande, mas já estavam há uns quinze minutos tentando me pegar sem sucesso. Quando vi o tamanho daquela agulha, viver para sempre com o dente da frente quebrado não pareceu tão péssimo, então ninguém conseguiu me segurar na cadeira. 

  E nunca me pegariam com vida. 

—PEGA ELE, ROSIE! — grita o dentista. 

  Eu debocharia não estivesse nessa coisa frenética. Rosie, a recepcionista. Uma garota magrinha com bracinhos fininhos. Certo, ela me pegaria. Quase ri, porém lembrei que esse ato agora me deixava bem feio.  

  Ela saiu de trás do seu balcão  estralando os dedos e deu uma guinada louca atrás da minha pessoa, me acossando pela clinica. Quando menos espero a garota pula encima de mim, me derrubando no chão de barriga para baixo, me imobilizando puxando meu braço pro alto das costas. 

—Você bagunçou minhas revistas. — ela sussurrou no meu ouvido.  

 

# Fim do mini flashback #    

 

—É importante você ficar quietinho para o processo acabar mais rápido. — o dentista tenta me acalmar novamente com toda a paciência do mundo.  

  Grunhi a frase "To tentando" para ele. Ninguém entende então seguimos quietos, com o barulho do motorzinho cortando nossa quietude. 

  Após eu vergonhosamente desabar na pia que nem uma jaca madura e em seguida desmaiar, tive o trabalho de evitar Taehyung até Kook vir me buscar. Coisa que terei que fazer todo dia agora. Quando penso nele sinto meus órgãos internos revirarem e não é do jeito "borboletas no estômago", mas sim do jeito "síncope nervosa master ataque de ansiedade duplo twist carpado". 

  Mal posso acreditar em como estraguei tudo tão rápido. Nem um encontro tivemos, nem a fase da paquera, nada! Ficamos na estaca zero, quebrei um dente e tudo acabou. Talvez eu morra sozinho, porque se depender das minhas habilidades de conquista não vejo as coisas irem por outro rumo.  

  Eu até me demitiria se o dinheiro não fosse fazer tanta falta, para pagar esse dentista por exemplo. Não foi muito barato. Quando ele terminou, me recomendou não comer coisas sólidas e nem bebidas escuras, o que seria um pequeno problema considerando o meu vicio incurável em café 

—Vamos, Hobi, foi um grande dia. — Jungkook passa o braço pelo meu ombro enquanto saímos da clinica após deixar metade de um salário lá. — Consertaram seu dente e você foi derrubado por uma garota de dezessete anos. 

—A gente pode fingir que tudo isso não aconteceu?

—Não.             

  Bufo em negação quando ele volta a dar risada. Pelo jeito vai ser assim por um tempinho, Kook olha para o meu rosto, ri e diz "aiai" secando os olhos. Deve estar sendo o melhor dia de sua vida.  

  É a vez dele de dirigir e Jungkook é uma lesma no transito. É de se imaginar que eu, como pessoa responsável e pensante da dupla, seria o mais prudente no volante, mas não. Jungkook dirige a trinta por hora em lugares em que o limite é sessenta. Ele simplesmente não acelera, tem a mania irritante de parar no farol amarelo e deixa qualquer um passar na frente.

—Bom, desculpa por ser um motorista consciente — expressa quando nota minha cara de poucos amigos. — E ter amor à nossa vida. 

—A gente ta atrasado! — minha voz sai sussurrada pela dificuldade de colocar o tênis de dança no espaço escasso da kombi. — Você é o anti-Abbigail. — digo lembrando vividamente da forma insana que ela dirigia, virando para brigar com a gente com o carro em movimento, passando nos faróis vermelhos e quase atropelando uma pomba.  

—Vou tomar isso como um elogio. — rebate fazendo uma expressão deveras enigmática. — A gente não estaria atrasado se alguém não tivesse dado um show pra tomar anestesia.

  Pior que é verdade. Assumo minha culpa ficando quietinho, parando de reclamar de sua forma de dirigir — como um idoso — focando em arrumar meu cabelo que parecia um bicho morto entrando em estado de decomposição.             

  Estar com o dente recém concertado dava uma emoção toda diferente ao meu dia. Um suspense. A dança ficava mais arriscada, posso errar um passo e ir de cara pro chão. Ou tropeçar em alguém e ir de cara pro chão. Ou minha pressão baixar e... vocês devem imaginar. Fico mais cuidadoso com cada movimento que faço e o professor parece ter percebido. 

—Por que está dançando estranho? — Oliver questiona parando ao meu lado diante da parede espelhada. — Está parecendo um robô. 

—Ele ta com medo de estragar o dente. — um Jungkook que surge das sombras, como um ninja, responde por mim, casualmente jogando seu cabelo para trás. — Ele bateu a cara na pia, sabe como é. 

—É... — provavelmente Oliver não sabia não. — Bom, então pare com isso. Não quero o meu preferido prejudicado por besteiras. — então pisca para mim antes de ir ajudar uma garota que o chama. 

  Eu podia morrer ali. Podia mesmo, que iria feliz. Eu sou o preferido! Finalmente em alguma coisa tenho destaque, o favorito! É como se aqui eu pudesse respirar e me sentir conectado com algo. Não que fugir da cidadezinha onde judas perdeu as botas com Jungkook já não fosse bom o suficiente, ainda dei a sorte de ser um daqueles poucos sortudos que acham a verdadeira paixão. E é bom nisso.           

  É mais raro do que parece. 

—Kook, você ouviu?! Eu... 

  Talvez eu tenha demorado demais saboreando o sabor da aclamação, pois Jungkook saiu de perto sem falar nada. Como um ninja outra vez. Kook está cada vez melhor em ser silencioso e esquisito aqui. O avisto do outro lado da sala, conversando com um garoto de moletom vermelho que se alongava. Ele ainda tem mais facilidade do que eu em conversar com as pessoas, sempre teve. 

  No entanto aposto que ele está orgulhoso e feliz por mim desse jeito dele, só não é muito bom em demonstrar o que sente. 

  A aula passou voando. Como alunos do primeiro semestre ainda não temos que nos preocupar com apresentações, mas já é algo que não sai da minha cabeça. Todo o processo de audição para papeis principais e coreografias, treinamento, plateia... Eu já sentia um calafrio passando por todo o sistema nervoso, me retesando da cabeça aos pés. 

—Anda, palhaço, está parado ai há meia hora. — Jungkook me tasca um pescotapa, tirando dos devaneios de sofrimento por antecedência tão típicos de mim.  

  Eu o segui sala a fora, mesmo que andasse apressado, quase correndo para o carro. Quando passamos pelo estacionamento Stephanie acena para nós esperando com seu carro do lado do nosso de forma humilhante — ela possui um tipo de carro esporte muito caro que eu não sei o nome pois não podia me interessar menos por esse assunto — eu pude ouvir Jungkook bufar na minha frente, virando para me encarar com as duas mãos no pescoço, simulando estar se enforcando. 

  Ele ficou com um mal humor daqueles por algum motivo que não fui rápido o suficiente para perceber. 

—Vou fingir que estou passando mal e ir para o carro. — avisa tirando a chave do bolso da calça jeans. — Por favor não demore, senhor preferido.     

  Eu abri a boca e fechei, várias vezes, sem saber o que falar. Não estava entendendo aquele tom repleto de... rancor? Tinha toques de rancor, sim. Kook nunca tinha falado assim comigo. Me arrasto até a inglesa que foi gradativamente diminuindo seu sorriso ao ver que eu e Jungkook parecemos ter saído de um enterro. 

—Vocês estão bem? — pergunta preocupada. 

—Hum... não, na verdade. — Jungkook faz uma careta muito falsa de dor. — Vou ficar quietinho ali antes que desmaie.  

—Espero que melhore para nosso encontro. — pisca para ele, que subitamente gira novamente para Stephanie. 

—Óbvio. — pisca de volta, sorrindo sem mostrar os dentes. 

  Então entra e se tranca em seguida. Através do vidro o vejo fazer uma careta para mim, com a língua para fora, eu daria risada se não estivesse meio magoado. Ele não ficou feliz e aquelas oscilações de humor começam a me deixar louco. 

—Está tudo bem? — Steph pergunta sentando no capô, puxando seus óculos de sol Gucci para o alto da cabeça, levando algumas mechas de cabelo junto. 

—Mais ou menos. — resolvo ser sincero. — Ontem não foi um dia muito legal. E hoje também não está sendo.  

—Entendo. — ela maneia a cabeça para o lado, parecendo compreensiva. — Se precisar conversar, estou aqui. — sorri. 

—Pode deixar. — retribuo seu gesto. 

  Será que ela gosta mesmo de mim como Jungkook diz? Observo seus olhos brilhantes e sonhadores na minha direção, dedos enrolando os cabelos compridos e brilhantes em cachos, com a outra mão aperta a barra de sua blusa branca, soando sem jeito. Meu deus, será que é com essa cara de jeca que fiquei na frente do Taehyung? 

—A gente se vê por ai, Steph. 

—Claro! — ela responde rápido, até desesperada eu diria. — Me liga!

  Eu apenas aceno para ela antes de ir para meu lugar no assento do motorista. Jungkook tinha colocado óculos escuros e um boné. Encostou na janela e parecia cochilar. Acho ótimo, não estou afim de conversar com ele agora. Esse... não sei nem como xinga-lo. Sei que tem algo estranho acontecendo e não quer me contar, conheço essa praga há mais tempo do que qualquer um. 

  Vou descobrir de qualquer forma. 

 

 

—Eu... vou trabalhar. — murmuro pela terceira vez. 

—Você já faltou uma semana. — Kook responde. Seus cabelos estão molhados e ele mastiga uma bala de alcaçuz que acabou de roubar de mim. — Tem mesmo que ir? — questiona com a testa franzida, numa expressão amedrontada. 

  Tenho dado uma de Sherlock Hobi há um tempinho, mas para ser sincero não deu em nada ainda. Tento estabelecer um limite aceitável na investigação, uma linha entre a preocupação saudável de melhor amigo até um stalker maluco. Não quero sair fuçando nas coisas de Jungkook, ou bisbilhotando em seu celular e notebook.     

  Por outro lado ele vive enfurnado em casa e pelo que sei não tem nenhum outro amigo na cidade, ninguém com quem eu possa perguntar se sabe de algo. É uma investigação complicada. 

  No mesmo dia em que se escondeu de Stephanie no estacionamento, voltou a conversar comigo como se estivesse tudo bem. E agora se preocupa comigo e com meu emprego.  Não tanto com meu emprego, eu sei. Ele está apavorado em ficar sozinho em casa com todos os... acontecimentos. 

  É, o apartamento é assombrado.  

  Devia ter imaginado isso logo quando entramos e nos deparamos com aquele cenário de filme de terror. Talvez a pessoa que morava aqui fosse muito apegada com seus santos de gesso, agora vendo que jogamos tudo no lixo esteja furiosa. É uma teoria, a minha pelo menos. Nunca aconteceu exatamente na nossa frente, mas quem mais poderia entrar aqui? Só eu e Kook temos chave da casa. 

—Abbigail... — Jungkook sussurrou quando nos deparamos pela primeira vez com mensagens horríveis no espelho do banheiro. — Sua naja cuspideira... 

—Segura sua obsessão só por um minutinho, ok? — me aproximo para analisar melhor. Parece sangue. 

—Não é uma obsessão — murmura desconcertado. — É mais uma rivalidade...     

—Sei. — tento esconder o sorriso que abre no meu rosto. — Isso é muito maluco, ninguém mais tem acesso a esse apartamento além da gente. 

—Você realmente acredita em fantasmas? 

—Não. — escuto seu suspiro de alívio. — Talvez...  

  Um calafrio de medo passa pelo meu corpo.  Não quero um colega de quarto da dimensão dos mortos, não mesmo. Eu e Jungkook já ocupamos todo o espaço disponível do local. Não gosto dessas coisas, não. Nem filme de terror assisto! Nem Supernatural! Levo a mão até a boca, suprimindo um grunhido de horror. Após um delay, finalmente fico apavorado. 

—O que a gente vai fazer, hein? — indago umas oitavas acima do necessário. A voz afinando vergonhosamente.   

—Conviver com ele? — ergueu as sobrancelhas. — Fazer uma oferenda?  

—Perdeu o juizo? — cruzo os braços, irredutível. — Não vou conviver com nenhum fantasma!

  Acabei convivendo com o fantasma, por uns quatro dias pelo menos. 

  Foi ficando gradativamente pior. Nossas coisas foram remexidas, algumas até sumiram, ruídos inexplicáveis; mais mensagens nos mandando dar o fora do apartamento e um cheiro horroroso que parece ser enxofre. Agora não consigo dormir porque me sinto observado e me vejo obrigado a dividir quarto com o Jungkook que ronca mais que um motor de caminhão.  

   Acho que nunca terei paz.

—Sim, tenho que ir — respondo Kook, que ainda mastiga as balas que EU comprei para MIM. — Alias, muito obrigado por dizer que estou faltando por estar com hemorroida. 

—Me desculpe por isso, foi a primeira coisa que pensei. — encolhe os ombros e morde os lábios reprimindo uma risada. — Foi uma mulher que ligou, não o seu Taehyung. 

—Não é meu Taehyung. — reviro os olhos. — Ainda mais agora. — decidido, caminho até a porta, dando os ajustes finais na minha blusa social. Pego a mochila largada no chão próxima a entrada. — Eu vou mesmo. Estou indo... é agora!

  Realmente saio. 

  Inspiro e expiro um monte de vezes antes de apertar o botão do elevador, torcendo para meu impeto de coragem durar o suficiente para chegar no restaurante. Ou pelo menos até o ônibus. Caminho de um lado para o outro, mexendo sem parar nas abotoaduras da camiseta.  

  É claro como a luz do sol que só estou protelando o reencontro com Taehyung já que posso ter um infarto fulminante ao ver aquele rosto que beira a perfeição. Ele é tão bonito! Devia ser proibido ter alguém tão lindo assim convivendo com nós, meros mortais apenas ajeitados. 

  Também adio o reencontro porque bati a cara na pia, claro. Essa parte é difícil de esquecer.    

  Só quando o elevador finalmente chega noto Kook parado na porta. Ele me deseja boa sorte, abrindo um sorriso grande e sincero, parecido com os de antigamente. Retribuo brevemente antes de entrar no cubículo. 

  Droga, estou suado. Mal sai de casa e a blusa já gruda nas minhas costas. Chego no térreo mais rápido do que consigo pensar. Vou até o hall antes que a porta feche de novo. A coragem evaporou pelos meus poros antes mesmo que eu saísse do condomínio.    

  Fico remoendo minhas próprias decisões, andando em círculos outra vez. E no fim decido ir para casa. Preciso voltar, estou um caco! Terei de recorrer as hemorroidas de novo para me livrar da demissão. 

  De costas para o elevador, mal percebo uma senhora chiquérrima o esperando. Paro ao seu lado, suado, descabelado e pálido, num contraste gritante. Ela é loira, nem um fio branco a mostra, usa um penteado todo elaborado com laquê; suas roupas parecem ser caras, terninho rosa bebê, com uma blusa branca de seda com botões, saia lápis e saltos pretos que reconheci como Louboutin pela sola vermelha. Pareço um sem teto perto dela.     

  Pelo canto de olho, percebo que me observa provavelmente desconfortável. Pesca um celular na bolsa sofisticada que leva apoiada na dobra do cotovelo. Pelo telefone dela vejo que já são quase oito horas. Fiquei mais de meia hora no hall do térreo matutando se devia ir ou não trabalhar.  

 Quando as portas se abrem, tento demonstrar ser um garoto educado fazendo um gesto a deixando entrar primeiro. Ela não agradece, apenas inclina a cabeça, muito séria e altiva. O clima não é pesado, mas seu queixo erguido e olhar superior me deixam desconcertado, fazendo desejar que eu chegue no décimo segundo andar cada vez mais rápido.  

  Obviamente nada sai como eu quero. 

 Um baque estrondoso sacode o cubículo nos jogando como bonecos de pano de um lado para o outro. As luzes piscam incessantemente até apagarem de vez. Quando reacendem a mulher elegante está ajoelhada num canto, o cabelo se soltou, batendo na altura dos ombros. A bolsa escorregou até parar perto de mim. Ele massageia o braço esquerdo e os olhos estão arregalados. 

  E eu? Também não estou lá essas coisas. Cai de costas no outro lado, com as pernas pro alto, a mochila ainda presa nas minhas costas. 

—A senhora está... 

  Não consigo terminar minha pergunta, a porta do elevador abre, mostrando que estamos entre dois andares. Nada bom. Minha respiração começa a ficar mais funda e tensa. É pedir demais para alguma coisa boa acontecer comigo? Atualmente existe o fundo do poço, meio metro de lama e embaixo disso estou eu. 

—Cara! — olho para cima me deparando com o rosto e um pouco dos ombros e dorso de Jungkook, que deitou no chão de barriga para baixo para falar comigo. — Fez o maior barulhão! 

—Kook... — respiro com dificuldade. — Não estou bem! 

—Ei! calma! Inspira e expira, junto comigo. — ele respira fundo, lentamente, esperando que eu o imite — Vamos, Hobi. Se concentra em mim!

—Eu também não estou bem! — a senhora elegante diz levando os dedos as têmporas. 

—Respira junto, tia. — Kook comanda a situação, tentando nos acalmar. 

  Ela espreme os lábios em desgosto ao ser chamada de tia, mas não retruca, inspirando profundamente, após acionar o botão pânico do elevador. Me ajeitei em pernas de índio da melhor forma que pude mais perto da porta, ainda sentindo uma pressão esmagadora no peito. Além de tudo ainda preciso ser claustrofóbico.

—VÓ! — uma voz esganiçada infelizmente muito conhecida surge no ambiente. — VÓ JANE! VOCÊ ESTÁ BEM?

   Avó? Ela está inteirona para uma avó. O rosto é bem lisinho, com poucas rugas. Ser rico deve ser tudo de bom. 

—Abbigail! — ela responde se aproximando da porta também, semblante furioso. — Isso é culpa sua! 

  Abbigail imita Jungkook, deitando no chão. Tinha prendido o cabelo em um coque alto, com muitos fios se soltando, suas bochechas estão coradas e a testa suada. Nossa vizinha ajeita a regata branca para não mostrar demais quando nota o olhar Kook sobre ela. 

—Como minha culpa, o que eu fiz agora? — seu olhar pousa em mim, todo esbaforido respirando alto como um maluco. — Está tendo um ataque de ansiedade? Posso trazer uma água gelada para vocês.

  Ela está sendo... gentil? 

—Não, não precisa. — murmuro com a voz entrecortada. 

—Se imagine em um lugar calmo, em que você goste de estar. — Abbigail continua falando, com um sorriso bonito no rosto.  

—Lembra daquela vez em que fizemos uma trilha no parque estadual da Dakota do Sul e nos perdemos no meio do mato. — Kook ri alto. — Eu quis subir numa árvore para visualizar melhor o horizonte e acabei despencando lá de cima. 

—Eu achei que você tivesse morrido. — acabo rindo um pouco ao lembrar dele todo torto no chão e eu chorando desesperado. 

—Só quebrei o braço. — ele da de ombros, com um sorriso de canto. — É que você me ama demais. 

—Amo. — reviro os olhos, ainda sentindo uma pressão forte no peito e falta de ar, mas de forma bem mais leve. 

—Me desculpe se tenho agido estranho, eu... — passa a mão pelo rosto, o sorriso se desfazendo. — Prometo conversar, ok? — aceno com a cabeça, concordando. — Você é meu irmão, sabe disso. Estou orgulhoso de você. E também te amo. 

  Conhecendo Jungkook como conheço, sei que não é fácil para ele se abrir assim. Ainda mais com Abbigail, sua arqui inimiga e paixão secreta ao seu lado e a avó dela presa no elevador comigo. 

  Nossa vizinha, alias, encara a cena toda com os olhos cintilantes. A mão cobre a boca e ela funga audivelmente, tirando a atenção de nosso momento emocionante para si. Rapidamente passa os polegares na bochecha. Se está fingindo é uma ótima atriz. Até sua avó a fita com cenho franzido. 

—Desculpa, estou emotiva. — funga de novo. — Isso foi muito bonito.  

  Jungkook volta seu olhar para mim, testa franzida. Talvez seja o fim do mundo, eu não sei. Abbigail tinha se emocionado. Tinha demonstrado algum sentimento além de raiva e sarcasmo. Olhando para seu rostinho pequeno e íris azuladas acreditei que realmente tivesse achado nossa amizade bonita mesmo. 

  Meu melhor amigo esticou o braço, para tentar segurar minha mão, quando quase conseguia, Abbigail ligeira como um gato se estica e o puxa pelo pulso nos separando. 

—Se o elevador voltar a andar vai decepar seu braço! — diz  antes que ele reclame e a chame de alguns nomes feios. 

  Kook vira o rosto, a encarando de volta, já que Abbigail fitava seu perfil. Quase ao mesmo tempo os dois engolem seco sem sequer piscar. Eles se isolam numa bolha e a atmosfera do ambiente muda completamente. Careless Whisper deveria estar tocando. Se eu não estivesse no meio de uma sincope nervosa com certeza estragaria tudo com uma risada. Eles dão tão na cara! 

—Que gracinha vocês dois. — é Roosevelt que se junta a eles, deitando também. 

  É como se Abbigail tomasse um choque. Ela larga o pulso de Jungkook que ainda segurava, o jogando longe de si e vira o rosto, olhando para cima. Kook também se afasta, voltando seu olhar para baixo, corado da testa até o pescoço. 

—Alguém pode pelo amor da nossa senhora nos tirar daqui?! — me lembro que a avó de Abbigail também está aqui quando ela volta a reclamar. 

—A manutenção já está trabalhando nisso. — Roosevelt apoia o cotovelo no chão e o rosto na mão com um sorrisinho zombeteiro. 

  O silêncio voltou. Abbigail e Jungkook recusam a se encarar. Dona Jane, resmunga baixinho desaprovando tudo e Roosevelt nos analisa com o mesmo sorrisinho preso nos lábios. Eu fecho os olhos pensando em coisas felizes.

  Quando menos esperamos as portas voltam a se fechar e o elevador a subir. Quando consigo sair, Jungkook corre e quase me tira do chão ao me abraçar. Avó Jane arruma seu terninho e cabelo, por fim sai puxando Abbigail pela orelha até a porta entreaberta da casa dela. 

             E Roosevelt suspira assistindo tudo.  

 

 


Notas Finais


Não aceitamos masculinidade frágil nessa história.


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