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História Saudade e taverna. - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Ir até uma taverna e procurar. (único)


Geralt caminhava tentando arrumar um pretexto para entrar em uma taverna, e qualquer desculpa parecia válida.

Aquilo vinha acontecendo com uma frequência maior do que o bruxo gostaria. Estava acostumado ao trabalho vir até ele e não a procurar pessoas desesperadas e atormentadas por monstros para acabar com a praga e ganhar dinheiro. Ou pelo menos era a meia verdade que ele gostava de contar para Ciri e para qualquer um que questionasse as frequentes idas a tavernas e a busca incansável em praças públicas.

De fato, Geralt de Rivia estava mesmo procurando trabalho, algo que o entretesse e o fizesse se esquecer da partezinha obscura da dura verdade, ele estava procurando um certo tagarela em todos os lugares possíveis, embora odiasse admitir isso para si, e principalmente para os outros.

Portanto, após driblar todas as perguntas de Ciri que variavam de uma inocente sugestão como “você precisa descansar, antes de conseguir dinheiro deve priorizar sua saúde” até uma arregalada de sobrancelha seguida por “tem total certeza que só está indo nessa taverna por causa de trabalho?”, foi até a taverna mais próxima do vilarejo local.

Geralt respondera tudo com seus costumeiros “hm”, sabia que a princesa não tinha conhecimento da real finalidade das buscas e que em última e maior hipótese ela poderia pens ar que aquele de Rivia alugava hospedagens para se engraçar com mulheres.

O bruxo acharia irônico, se não fosse trágico. Daria de tudo para na verdade estar indo em tavernas para conseguir um sexo comprável, sem envolvimento e sem sentimento. No começo, Geralt de Rivia gostava de pensar que um bom saco de moedas e uma cara de poucos amigos eram capazes de conseguir tudo, mas se viu perdido ao perceber que nenhum monstro morto e nenhum prazer na cama tinham a cura para a saudade.

Entrando no pequeno lugar pode perceber um enorme silêncio, que incomodaria o bruxo se ele não fosse um homem de poucas, ou nenhuma palavra, se sentou em uma mesa no canto do local, com a intenção de passar despercebido.

Com uma pequena fagulha de esperança aguçou os ouvidos torcendo imensamente para ouvir aquela cantoria de quinta categoria que sempre o incomodou, e que o bruxo se viu por sentir uma imensa falta, mas nada pôde ser ouvido. Percorreu os olhos pela taverna e não conseguiu notar a presença do bardo, de nenhum bardo.

Aquilo estava estranho, tudo parecia tão quieto de uma maneira perturbadora, o que fez Geralt de Rivia ficar desconfiado. Na opinião dos de cabelos brancos tavernas deveriam ter bardos, já que eram a atração e o entretenimento de pessoas bêbadas, pessoas famintas, pessoas cansadas e pessoas no geral, já que o bruxo, um mutante, nunca gostou de bardos.

Respirou fundo, pois infelizmente tinha achado uma exceção.

O homem mais falante, mais irritante e mais importante que conhecera, aquele que entre cantorias e conversas podia considerar um bruxo detestável como um amigo. Um bardo que conseguiu enxergar um coração que poucos conseguiam naquele que era taxado de sem sentimentos. Aquele que foi o responsável por estragar a vida do riviano, mas ao mesmo tempo trazer cor, música e textos para ela.

O silêncio permanecera e isso começava a incomodar o grande bruxo, que decidiu sair do seu cantinho isolado da mesa e ir até o pequeno palco no lado oposto da taverna. Acharia alguém em meio à multidão que soubesse explicar o motivo de um lugar briguento e animado parecer tão vazio e oco.

Geralt revirou os olhos de leve, admitindo a contragosto em seu pensamento que os bardos eram as almas das tavernas.

Subindo no palco e dando mais uma conferida no ambiente teve a confirmação de que nenhum músico tinha passado por lá. As mesas estavam limpas, ninguém estava cantarolando algum verso irritante e tudo parecia na mais perfeita ordem. O coração do bruxo doeu, preferia encontrar uma taverna aos pedaços, mas com a confirmação que Jaskier estava bem.

Estava prestes a perguntar para um dos presentes se nenhum bardo passaria pela taverna, mas algo o fez mudar o teor e o tipo de pergunta. No banco roxo reservado para a estrela do dia estava uma boina roxa com uma pena em cima de um papel cuidadosamente dobrado.

Geralt sabia que os únicos capazes de usar aquelas roupas extravagantes, ridículas e dignas de receber atenção eram os bardos, o que fez a fagulha de esperança aumentar, talvez fosse o tagarela o cantor.

“O bardo dono dessa boina já cantou hoje?” Perguntou sem rodeios para um homem sóbrio que estava próximo ao palco.

“Ah, ele morreu essa manhã.” Respondeu dando de ombros, com um fio quase inexistente de tristeza na voz.

Aquele de Rivia compreendia que pessoas morriam todos os dias e que era um acontecimento mais natural do que macabro. O trabalho do bruxo era lidar com a morte, escapar dela e ir atrás daqueles que a causavam, porém foi incapaz de receber essa informação com indiferença, embora fizesse de tudo para não aparentar.

“Como?” Perguntou sentindo o estômago embrulhar. O riviano sabia que existiam inúmeros bardos em inúmeras tavernas, portanto as chances do infortunado ser Jaskier era praticamente impossível, porém sentia medo em seu íntimo.

“Uma briga de taverna, com um valentão.” Disse o homem.

“Dizem que o bardo se deitou com uma mulher casada e recebeu o castigo.” Completou uma mulher.

“Foi uma porradaria! Sangue para todo o lado, pobre bardo ficou sem ação.” Disse um jovem na outra mesa.

“Eles cortaram até o-“ Começava a falar um bêbado, mas foi interrompido pelo bruxo.

“Já entendi.”

Novamente o silêncio perdurava, mesmo que a mente do riviano fizesse inúmeros barulhos com medo da pergunta que vinha a seguir.

“Qual era o nome do bardo?” Praticamente sussurrou, mantendo a cabeça levemente baixa.

Geralt de Rivia não estava preparado para saber a resposta, não quando ela podia ser o nome de seu amigo.

O bruxo se culpava, não devia ter jogado nas costas do tagarela a culpa de todos os problemas existentes. Por mais que o bardo pudesse ser irritante e chato não merecia isso. Os de cabelos brancos estava nervoso no momento da briga e acabou descontando sua raiva na pessoa errada.

Não era fácil aturar o bardo, isso ele tinha que admitir. Mas, também precisava confessar que Jaskier era seu único amigo, e alguém que ele passou a considerar de uma forma especial e inconveniente.

Alguns anos se passaram desde que o riviano mandou o jovem ir ouvir o resto da história com outras pessoas e desejou que ele sumisse. Porém, Geralt de Rivia não esperava duas coisas, a primeira era que Jaskier realmente sumisse do mapa e a segunda era que sentiria falta da fala desenfreada do bardo.

“Julian.” Respondeu prontamente a mulher. “Julian Alfred e alguma coisa que eu não sei pronunciar.”

Geralt estremeceu, sabendo exatamente de quem se tratava.

Julian Alfred Pankratz, mais conhecido como Jaskier tinha morrido em uma briga de taverna, e a pior parte era que tinha sido no mesmo dia que o riviano decidira procurá-lo lá. Ele estava uma mistura de raiva, arrependimento e tristeza. Pensava que se caso tivesse chegado mais cedo pudesse impedir a briga e consequentemente a morte de seu amigo.

De todos os supostos lugares e de todas as supostas noticias que ele podia esperar de Jaskier, essa era de longe a última. O bruxo sabia que o bardo se metia em confusão, mas não conseguia imaginar aquele falante morto. Geralt entendia também que o de cabelos marrons era mais frágil, mais fraco e não conseguia se dar bem em lutas.

O riviano não era pago para ser o guarda costas pessoal do bardo, e por mais que doesse admitir, gostava de protegê-lo, apreciava sua companhia e sentia a morte dele. Jaskier foi um dos poucos a notar sentimentos por baixo da carapuça de durão do bruxo, portanto era uma das mortes mais penosas para Geralt.

Alguns segundos de desorientação foram logo substituídos por um movimento brusco e repentino do bruxo, agarrando aquela boina com força. Ele queria gritar, urrar, falar palavrões e ao mesmo tempo queria abraçar aquele adereço sentindo o cheiro do bardo e se perguntando como ele conseguiu se envolver em uma briga de taverna e ser espancado até a morte sem que ninguém interferisse.

Porém, o bruxo precisava continuar sendo durão, foi isso que o permitiu sobreviver por toda sua vida.

“E onde ele está enterrado?” Tentou perguntar com a maior indiferença possível, mas cerrou os punhos visando controlar a raiva.

O homem deu de ombros.

“Enterraram em uma vala qualquer, era só um bardo mesmo.”

Geralt estremeceu com o comentário. “Era só um bardo”. Jaskier para o de Rivia era muito mais do que só um bardo, era um companheiro, um infortúnio, seu maior azar e sua maior sorte. Porém, aquele de cabelos pretos, o cantor desafinado, estava morto e nem sequer teve um enterro digno, foi jogado em um lugar qualquer por ser apenas um bardo.

O riviano estava prestes a colocar a espada próxima ao pescoço do homem e obrigá-lo a retirar o comentário e a mostrar onde Julian Alfred estava enterrado, mas percebeu duas coisas. A primeira era que não valia a pena descontar a raiva em inocentes, já tinha perdido a amizade e também a vida de Jaskier e se caso se descontrolasse e matasse aquele homem cometeria o mesmo erro duas vezes.

A segunda era que o papel cuidadosamente dobrado tinha caído aos pés do bruxo e, embora nunca se interessou por bisbilhotar, sentia que precisava ler. Conhecendo o bardo presumia que aquilo era uma canção, sua última canção.

Abrindo o papel cuidadosamente e sentindo suas mãos e corpo tremerem pôde identificar a caligrafia caprichada de Jaskier com uma música escrita.

 

Acho que todos temos culpa de algo

Mas, alguns podem ter muito mais

Um dia que você faz um estrago

E percebe que era tarde demais

 

Por tempos eu vinha sendo um problema

Para alguém que eu retribuía

Sua quietude me irritava, falando eu ficava

E ele odiava minha cantoria

 

Despeça logo o bardo

Oh, bruxo irritado

Oh bruxo irritado

“Seu canto é um fiasco”

Oh, bruxo irritado

Oh, bruxo irritado

 

Eu estava em um dilema

Então, a culpa é sua, ele disse

Não era justo, era dele também

O sentimento era mutuo

 

Por tempos eu vinha me julgando

Não me achava suficiente para ninguém

Em músicas vinha me refugiando

E no final a culpa era só minha

 

Despeça logo o bardo

Oh, bruxo irritado

Oh bruxo irritado

“Seu canto é um fiasco”

Oh, bruxo irritado

Oh, bruxo irritado

 

E no final ela me destruiu com o beijo

Que ela retribuiu e o culpado fui eu

E no final ele me disse que não precisava de mim

Oh, grande bruxo, grande demais para mim

E no final eu era o fardo dele

Que ele também era o meu

E no final ele me disse que não precisava de mim

Oh, grande bruxo, grande demais para mim

 

Despeça logo o bardo

Oh, bruxo irritado

Oh bruxo irritado

“Seu canto é um fiasco”

Oh, bruxo irritado

Despeça logo o bardo

Oh, bruxo irritado

Oh bruxo irritado

“Seu canto é um fiasco”

Oh, bruxo irritado

Oh, culpe o bardo

 

Geralt não resistiu ao impulso de abraçar o papel enquanto relia a versão da música que por anos atormentara o riviano. “Dê um trocado ‘pro’ seu bruxo” tinha se tornado em uma paródia “Despeça logo o bardo”, com referencias para “Seu doce beijo” e estrofes a mais.

O bruxo se sentia desolado em saber que sua quietude incomodava o bardo tanto quanto a falação do amigo o incomodava.

Jaskier tinha que aturar Geralt na mesma proporção que Geralt tinha que aturar Jaskier.

Após ter lido a música pela terceira vez viu seus pensamentos serem interrompidos pelo dono da taverna.

“Se não for cantar, por favor saia do palco.”

O de cabelos brancos assentiu ainda atordoado com o acontecido, fez menção de pegar a boina e o papel. Como não foi impedido pelo taverneiro se dirigiu com os pertences de Jaskier para fora da taverna.

 Geralt daria uma desculpa para Ciri, diria que foi um presente, uma recompensa ou apenas contaria a fria verdade, que uma pessoa especial tinha morrido por culpa do descaso do bruxo.

Os de cabelos brancos saiu com enorme pesar. Nunca mais veria ou ouviria o bardo, o seu bardo, aquele cantor tagarela e especial. Por sua culpa Jaskier estava morto.

Quando percebeu que o riviano havia andado uma distância segura e confiável, o bardo saiu sorrateiramente de baixo de uma das muitas mesas cobertas com grandes toalhas. Limpou cuidadosamente as vestes e se permitiu soltar um pequeno suspiro.

Tinha sido por pouco, mas para sua grande sorte, Geralt não tinha percebido a presença dele.

“Foi muito difícil ficar calado.” Disse mais para si mesmo do que para os presentes enquanto entregava para o dono da taverna uma boa quantia em dinheiro e oferecia para todos uma rodada de bebidas por conta própria. O pagamento por ninguém ter aberto o bico e revelado que Jaskier não apenas estava vivo, mas vinha se escondendo de Geralt.

O bardo considerava o bruxo o suficiente para cumprir o último desejo após a briga: entregar para Geralt de Rivia sua maior benção e sumir. Jaskier também possuía um grande apreço por sua saúde mental para continuar correndo atrás de alguém que só sabia o desprezar, reclamar de suas músicas e do seu modo animado, galanteador e feliz de ser.

Jaskier acreditava que de certas coisas era melhor se afastar, porém isso ainda doía. Na maior parte do tempo nem sequer se lembrava da existência do riviano, mas ainda guardava consigo a paródia da música criada no dia em que Geralt tinha estraçalhado seu coração colocando nele a culpa por todo o azar acontecendo em sua vida, culpa que o bruxo tinha igual parte, já que correr de monstros e ficar doente não era lá a vida sortuda e perfeita que o bardo sempre sonhou.

Ver Geralt anos depois da discussão na missão do dragão não era algo que o cantor esperava e isso o desestabilizou, o que o fez correr rapidamente para baixo da primeira mesa que encontrou esquecendo a boina rosa e a música, que foram levadas pelo bruxo.

Os de cabelos brancos não tinha mudado muito, diferente do bardo que tinha conseguido ficar famoso, deixado os cabelos compridos, um bigode atraente e substituído suas roupas chamativas para roupas ainda mais chamativas.

O taverneiro voltou logo com bebidas variadas para as pessoas e entregou uma para Jaskier junto com uma pergunta.

“Julian... Jaskier. Você poderia me dizer qual o motivo para tudo isso?”

Jaskier que estava com o copo de bebidas na mão, mexendo-o para a esquerda e direita perdido em devaneios olhou para o taverneiro de forma confusa.

“Como assim?”

“Bom... é que você se tornou famoso, tem pessoas aos seus pés e admiradores. Com todo respeito, Jaskier, por qual motivo um mero bruxo te pararia? Digo, o que poderia parar um bardo famoso?”

Jaskier respirou fundo, pois Geralt de Rivia sabia desestabiliza-lo. Ele tinha inúmeras pessoas em sua cama, muitos admiradores e a fama tão sonhada, mas não se sentia confortável como já esteve um dia com o bruxo. Em determinados dias pensava em abrir mão de tudo e voltar para sua vida azarada ao lado de quem ele nunca conseguiu esquecer.

“Amor.” Sussurrou enquanto deixava o copo de lado e se preparava para cantar outra música.


Notas Finais


Confesso que a frase "era só um bardo mesmo.” me quebrou, me senti alfinetado E FUI EU QUE ESCREVI A HISTÓRIA socorro.
Sobre a paródia da música, eu pensei em fazer uma letra linda e elaborada, mas ao pensar que essa música foi escrita em um momento de raiva, logo após a briga, eu pensei que paródia seria algo perfeito. Se me permitem falar, de um bardo para outro (hahaha) quando estou com raiva e vou escrever eu gosto de fazer coisas mais simples apenas para extravasar o sentimento, então achei que seria legal usar isso para o Jaskier.

eu declaro o Jaskier o amor da minha vida e espero um dia me apresentar de boina estilosa em uma taverna!!!


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