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História Scorpions - Capítulo 4


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Capítulo 4 - A irmã mais nova


Por Ana

Família é algo complicado. Quando conferimos a definição da palavra no dicionário até podemos ter um breve momento de ilusão, e pensar que é algo fácil, mas na prática é bem diferente. É aquele velho ditado do amor e ódio. Agora, se uma relação familiar às vezes é complicada de se manter, imagine uma que se desenrola no centro de uma agência secreta.

Bia: Podia pelo menos ter me ligado, Ana! – ela cruzou os braços, fazendo a mesma cara de emburrada de quando era pequena.

Uma das melhores coisas que poderia ter acontecido foi a notícia da sua chegada. Lembro-me de ficar tão feliz com a notícia, era alguém que compartilharia comigo toda aquela loucura, e dividiríamos o peso de tudo aquilo. Mas na primeira vez que olhei aquele pacotinho pequeno com olhos tão expressivos, decidi que não precisaríamos dividir o peso do mundo, por ela eu carregaria todos os problemas.

Ana: Também estava com saudade maninha – sorri, apesar dela me encarar ainda brava.

Ela ainda me olhou com aquela cara por alguns segundos, até que soltou os braços, revirou os olhos e veio com passadas rápidas até mim me abraçando. Por um momento quis recuar, mas a sensação do abraço dela era algo tão bom e que eu sentia tanta falta. Retribui o seu abraço lembrando a minha mente que ali era a minha maninha, aquela que me pedia ajuda nas atividades acadêmicas, a mesma que mais velha me pedia ajuda no treinamento de tiro e que quando está distraída, com um lápis na mão, sempre acaba rabiscando desenhos incríveis no que está ao seu alcance. Era minha família, minha família de verdade.

Bia: Você tem muita coisa para me contar – disse ainda no abraço.

Eu tinha tantas coisas para esconder, driblei a sensação ruim de ter que fazer isso, mas era preciso.

Ana: O que acha de um chá antes de conversarmos? – nos desfizemos do abraço.

Bia: É um bom começo.

Me afastei dela e atravessei a sala abrindo a porta de vidro da varanda deixando a brisa da madrugada entrar. O apartamento ainda não estava completamente arrumado, mas a sala estava meio caminho andado. O sofá ainda estava ocupado com algumas caixas que passei pro chão dando espaço. Tudo ainda estava tão branco, bem como uma tela, sem quadros, sem decoração... Olhei para a parede que o sofá estava virado, é eu também precisava de uma televisão.

Ana: Como me encontrou aqui? – perguntei tirando meu casaco.

Bia: Papai – ela se jogou no lugar vago no sofá.

Ana: É claro – sussurrei – Deve ter enchido a paciência dele.

Bia: Não é pra tanto – ela deu de ombros – Quando os rumores de que você estava de volta começaram a circular eu fui atrás dele para saber o que tinha acontecido.

Continuei prestando atenção ao que ela dizia e enquanto isso me dirigi para a cozinha à esquerda da sala, onde uma bancada separava os cômodos. Fui até a caixa em cima da bancada pegando a chaleira começando a preparar o chá, e buscando uma forma de lidar com o que viria com a conversa da Bia.

Bia: Eu fui até La Plata, acredita? – seu tom de voz não parecia muito legal, e eu estava receosa com o que encontraria ao olhar nos seus olhos – E adivinha só? Descobri que minha irmã tinha pedido transferência para Buenos Aires e nem se quer tinha me dado um telefonema para dizer se estava bem – pelo canto do olho vi ela levantar do sofá – A mesma irmã que sumiu meses atrás e deixou todos morrendo de preocupação, principalmente eu!

Ela parou do outro lado da bancada me encarando em busca de respostas que eu não poderia lhe dar. Liguei o fogo colocando a água para esquentar enquanto respirava fundo e virava para fitar a minha irmã. Olhei para ela e não consegui evitar um sorriso de canto vendo a garota que ela é hoje, tão madura para a sua idade, tão determinada. Alguém que sabe conseguir as respostas que quer, mas que no momento faz perguntas para alguém que apenas dá as respostar que quer.

Ana: Eu precisava resolver algumas coisas Bia – me aproximei da bancada de forma que ficássemos uma de cada lado.

Bia: Não venha me dizer que era algo para a agência, pois o papai estava tão desesperado quanto eu – me olhou magoada.

Ana: Nem tudo é a agência Beatriz – mantive a voz firme.

Bia: Eu só estou tentando te entender Ana! – voltou a cruzar os braços já sem paciência.

Ana: E eu digo que não precisa. Sou sua irmã, não sou? – ela olhou pros meus olhos por breves segundos.

Bia: Sim, e por isso me preocupo – puxei um sorriso.

Ana: Estamos invertendo os papéis agora? Eu que sou a mais velha.

Bia: E a mais teimosa.

Ana: Tenho certeza que o papai discorda disso – ela deixou um sorriso escapar e voltou a olhar para mim, eu via as diversas perguntas que ela ainda queria fazer – Só acredite em mim quando digo que precisava resolver algumas coisas.

Bia: Posso acreditar mesmo?

Ana: Sim.

Me senti mal por mentir para ela, mas era necessário. O barulho da chaleira avisou que a água já estava quente e eu fui até o fogão o desligando, em outra caixa peguei duas xícaras e a caixinha de chá.

Bia: Por que a transferência? – perguntou enquanto eu retornava com as duas xícaras com chá – Tem algum motivo especial?

Ana: Só estava querendo recomeçar – mais uma para a lista – E o pessoal até que é legal.

Dei a volta do balcão indicando que fossemos sentar no sofá e a Bia me acompanhou ainda com a cabeça cheia de perguntas.

Bia: É estranho – sentou ao meu lado – Você sempre trabalhou com a melhor equipe, ao lado da direção e do nada pediu transferência para uma equipe menor.

Ana: Não tem nada de estranho, só queria recomeçar – levei o chá a boca.

Bia: Por acaso se apaixonou e agora quer ficar perto dessa pessoa? – perguntou direta me fazendo engasgar com o chá.

Ana: Beatriz! – ela começou a rir – Não tem graça!

Bia: O que tem mais graça é o fato de você ter tido essa reação. E você sabe, se tem reação...

Ana: Tem motivo – completei a contragosto – Droga de aulas de leitura corporal – ela voltou a rir – Mas não tem motivo nenhum. Quando é que você vai voltar para Bahía Blanca?

Bia: Não tenta mudar de assunto.

Ana: Você que está seguindo por um caminho que não tem assunto.

Escutei a notificação do meu celular avisando que tinha chegado mensagem. Franzi a testa lembrando que aquele era um número novo e eu não lembro de tê-lo passado para alguém.

Bia: Eu pego.

Ela virou pegando o celular no bolso do casaco que estava pendurado no braço do sofá ao seu lado. O problema é que muitas vezes irmãs mais novas podem ter um problema com o espaço pessoal do restante da família, ou em outras palavras, ser curiosa mais do que o necessário. Ela acendeu a tela do celular e um sorriso surgiu no seu rosto.

Bia ‘Realmente a Pixie consegue rastrear números facilmente, obrigada pela dica Urquiza. Talvez nos encontremos para correr outro dia, prometo não me atrasar. – T.K.’ – ela olhou para mim e eu já sabia o que viria a seguir – Quem é T.K.?

Ana: Me devolve esse celular Beatriz!

Bia: Você vai responde-lo? – tentei pegar o celular da sua mão e ela desviou – É claro que vai, não vai deixa-lo no vácuo – tentei puxar o celular de novo e ela levantou do sofá.

Ana: Nem pense nisso Beatriz Urquiza! - vi ela passar a digitar algo – O que você está fazendo?

Ela passou a andar pela sala se esquivando das minhas tentativas de pegar o celular. Ela começou a correr pelo apartamento enquanto digitava e eu estava logo atrás, ela não deixou eu chegar perto suficiente nem mesmo para ter chance. Por um minuto me vi tentada a derrubar minha irmã no chão.

Bia: Vocês são mais formais um com o outro? Ou melhor, como se conheceram? Assim posso mandar uma resposta mais fidedigna.

Quer saber?... Dane-se. Ela estava de um lado do sofá e eu de outro, ela parou por um momento e olhou para mim com um sorrisinho de quem estava prestes a complicar minha vida mais ainda.

Ana: Você não facilita nada Bia.

Pulei em cima do sofá, e em seguida estava pendurada nas costas da Bia tentando alcançar aquele celular. Ela ria da bagunça que viraria minha vida e por um momento nos desequilibramos e nós duas acabamos no chão. Aproveitei o momento para puxar o celular da sua mão, mas para meu azar o botão de enviar já tinha sido acionado.

Ana: ‘Fico feliz que tenha encontrado o meu número, e é claro que iremos correr juntos algum dia. Mas algo me diz que talvez um convite para um jantar fosse mais apropriado, e eu adoro comida chinesa. – A.U.’

Larguei o celular e encarei o teto do meu apartamento sentindo minhas bochechas esquentarem, talvez não fosse uma má ideia ficar ali pelo resto da vida.

Ana: Beatriz eu vou te matar!

Bia: Eu também te amo!

E então o celular apitou novamente. Ele tinha respondido...

Por Thiago

Tudo bem, eu estava confuso. Mais confuso do que o normal no dia de hoje. Encarei aquela mensagem por alguns minutos, até perceber que tinha algo errado, não a ideia de sair com ela, mas tinha algo que não se encaixava. Digitei uma resposta, esperava que não estar errado, porque se eu estivesse me auto chamaria de idiota para o resto da vida.

‘Teve o celular sequestrado?’

Talvez eu tivesse acabo com tudo no momento que cliquei enviar, mas já era tarde demais. Olhei para a sala vazia, todos já tinham ido embora e a maior parte das luzes estavam apagadas, a não ser pelas luzes auxiliares e as dos computadores que continuavam piscando. No canto, uma das telas mostravam as imagens da câmera de segurança na cela onde o Guillermo estava, até mesmo ele já dormia. Meu celular vibrou ao chegar notificação e eu logo abri a mensagem.

‘Irmã mais nova’

Deixei um sorriso escapar um sorriso, e voltei a digitar.

‘Pelo menos comida chinesa é a sua favorita?’

Não demorou para a resposta chegar.

‘Sim. Desculpa por isso’

Digitei rapidamente.

‘Não tem problema, sempre que precisar.’

Ela então mandou um emoji sorrindo envergonhada.

‘Boa noite, Kusnt’

Respondi.

‘Boa noite, Urquiza’

Não tiveram mais mensagens, apesar da tentação de apertar o ‘enviar’ novamente. Peguei minha jaqueta e desliguei o restante das luzes do lugar, ativei o sistema de segurança e segui para casa ainda com os rastros do sorriso no rosto.

...

Na noite seguinte subi as escadas da base até o primeiro andar procurando por ela. Tínhamos trocado poucas palavras desde que ela chegou, e não a encontrei mais cedo no horário da corrida pelo lago. Não que eu tenha ido correr só para encontra-la, só achei estranho ela não ter ido... O que é mais estranho ainda porque eu não sei se o fato dela ir correr ou não é uma atividade que ela faz com frequência, então porque fiquei preocupado por não vê-la?

Entrei na sala de treinamento e ela estava na segunda sala, um espaço separado por uma parede de vidro onde treinamos a mira ao atirar. Ela estava com os fones e os óculos de proteção, me aproximei da parede transparente vendo a precisão com que ela atirava. Concentrada e sem errar o alvo uma vez se quer. Seus olhos mantinham o foco, e poucas vezes piscavam enquanto a bala perfurava o totem de madeira já marcado com tantos tiros. Meu celular notificou a chegada de mais uma mensagem, e eu o puxei do bolso sem desviar os olhos dela. Achei que seria uma mensagem do pessoal da equipe, mas era de um número desconhecido.

‘Cuida bem dela, por favor’

Franzi a testa olhando aquelas palavras no visor do celular. Perguntei quem era e logo mais uma mensagem chegou.

‘A irmã mais nova =D’

Ana: Está tudo bem?

A Urquiza estava na porta de vidro a segurando aberta, os fones agora pendurados no pescoço e o cartucho da arma vazio.

Thiago: Claro – guardei o celular no bolso – Vim te chamar. Pedimos comida e todos estão reunidos lá em baixo. Você vem?

Ana: Ah, claro.

Ela puxou os fones e em seguida foi guarda-los, assim como a arma. A esperei e então fomos juntos para a sala. Ela parecia querer dizer algo, até que tomou coragem.

Ana: Olha, me desculpa por ontem, minha irmã ela... – ela deixou a frase morrer aos poucos.

Thiago: Tudo bem – garanti – Nunca tive irmãos, mas imagino como deve ser.

Ana: São muito intrometidos quando querem.

Thiago: Mas ainda são irmãos – ela me olhou – E família. Se preocupam de todo jeito.

Ana: E agem como irmã mais velha – ela falou baixo.

Descemos as escadas e na sala principal o pessoal já separava as embalagens de comida, assim como as bebidas. O Pietro estava jogado em uma das poltronas, ao seu lado a Daisy, e o Luan estava sentado em um dos braços da poltrona. A Pixie tinha trazido sua cadeira para mais perto, de forma que todos pudessem compartilhar bem aquele momento mais relaxante antes que a noite na agência começasse de verdade.

Pietro: Urquiza, bem-vinda ao momento sagrado de toda sexta-feira – falou assim que entramos na sala – A hora da janta! – a Urquiza franziu a testa, mas deixou o seu sorriso moldar o rosto.

Daisy: O que ele quer dizer é que geralmente toda sexta-feira nós jantamos todos juntos – ela falou revirando os olhos para o Pietro que deu de ombros – Toda sexta uma comida diferente, dessa vez o Thiago que pediu. Espero que goste de comida chinesa.

O pessoal continuou conversando, discutindo qual o melhor prato da culinária chinesa, um episódio que acontecia toda semana que pedíamos comida de algum lugar. No meio disso a Urquiza desviou o olhar das embalagens da comida para mim. Ela parecia surpresa, e pouco depois me direcionou um sorriso tímido que não consegui decifrar de imediato, mas algo dizia que o meu rosto refletia o mesmo... 



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