História Se Eles Chamarem - Capítulo 1


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Categorias Histórias Originais
Tags Assombração, Drama, Horror, Medo, Morte, Terror, Tragedia, Traição
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Palavras 1.727
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia)

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Boa leitura.

Capítulo 1 - Capítulo Único


Após pegar o meu noivo no flaga com uma desconhecida no meio da nossa cozinha eu estava arrasada. Havia perdido quase três anos da minha vida tentando construir uma vida estável ao lado dele e me sentia uma grande idiota por não ter notado toda aquela merda suja antes. E, para piorar o meu estado deplorável, a notícia tinha se espalhado por todo o canto como a boa fofoca que era. Impulsionada pela vergonha e humilhação que aquela situação havia me proporcionado, decidi juntar minhas coisas e ir embora daquela maldita casa, mesmo que ele tivesse saído antes, e tirar umas merecidas férias.

Infelizmente, eu não estava com muito dinheiro para viajar para as montanhas geladas ou para alguma fantástica ilha no meio do oceano. O primeiro lugar que pensei em ir foi de volta à casa dos meus pais, mas eu não queria ter que lidar com todo o cuidado que eles teriam comigo por ter um grande par de chifres enfeitando minha cabeça.

Foi quando minha querida prima, Beatriz, me ligou e perguntou como eu estava. Não nos falávamos há algum tempo, mas sempre tínhamos sido grandes amigas e como ela nunca sequer tinha visto o cafajeste, concluí que desabafar com ela não era uma ideia tão ruim assim. Ela me ouviu em silêncio pela maior parte do tempo e no final de longos 40 minutos ela ofereceu a casa que ela e o irmão tinham herdado da mãe para eu ficar até que conseguisse me organizar. Eu aceitei prontamente, feliz por ter um novo ponto de partida.

— Então, eu vou ligar para o Ben, aí ele te ajuda com suas coisas. Ele tá planejando ir ‘pra lá, ‘pra pegar umas coisas e levar para a nova casa dele. Eu nem te disse, né? O Benício arrumou um emprego na capital e se mandou logo que a mamãe morreu.

— É compreensível. Ele sempre foi muito ligado à mãe de vocês. — Respondi sem jeito. Eu só havia trocado umas poucas palavras com meus primos depois da morte da tia Patrícia e nem havia comparecido ao velório dela, porque estava em uma viagem e ali estava eu, quase três meses depois, pegando a casa dela emprestada.

— Uhum. Ele ‘tava lá, quando ela... — Beatriz calou-se, mas não precisava falar mais nada. Minha mãe havia me falado sobre aquilo e eu nem conseguia imaginar como tinha sido, ver a própria mãe morrer sem poder fazer nada.

Não falamos muito mais depois disso, somente acertamos tudo para que eu pudesse sair no fim de semana e ir dirigindo até lá. Ela me passou o número de Benício também, mas eu só tive coragem de enviar uma mensagem no WhatsApp. A situação toda me envergonhava muito e eu não me sentia bem incomodando ele em um momento que era tão difícil assim, muito pior do que o que eu estava passando, além disso, eu havia me declarado para ele quando tínhamos 15 anos, com direito a cartinha perfumada, um beijo roubado e uma corridinha desesperada para longe dele, e desde então nossa relação não era a mesma.

Na manhã seguinte acordei com uma ligação dele.

— Beatriz disse que você vai passar uns tempos na casa da mamãe. — Foi a primeira coisa que ele falou. — Você não tem outro lugar ‘pra ficar, não? — Eu levantei da cama irritada. A reação estava sendo muito pior do que eu esperava, mas ainda assim... A voz dele estava estranha.

— Quer saber? Esquece isso, Benício. Eu arranjo outro lugar. — Ele ficou calado por tanto tempo que se eu não estivesse ouvindo a respiração dele teria pensado que a ligação caiu. Isso só serviu para me irritar mais.

— Desculpe. — Pediu quando eu já estava me preparando para desligar na cara dele. — Estou estressado, só isso... Sinto muito pelo que aconteceu contigo, Fê. — Confesso que ouvi-lo me chamar daquele jeito carinhoso e arrependido amoleceu um pouco o meu coração, como se pudessemos resgatar nosso antigo laço, mas eu não cederia tão fácil. Permaneci com a boca fechada. — Bea disse que é urgente, e que você vai lá no fim de semana. Eu vou tentar chegar antes de você e aí ficamos lá por um tempo, depois pode ir para minha casa na capital. — Fiquei estupefata e caí na cama. Nem conseguia acreditar naquela proposta.

— Por quê? Eu posso ficar lá.

— Só me ouve, ‘tá bom? Eu tenho que buscar umas coisas lá, é só o tempo de pegar tudo, descançar e aí de manhã a gente vai. É até melhor, que eu pego uma carona na volta com você. — Ele riu com naturalidade, como se estivessemos tendo a conversa mais normal do mundo. Mas talvez estivessemos mesmo e minha cabeça é que estivesse infectada de caraminholas.

Pedi para ele tempo para pensar, garantindo que no máximo, durante a viagem, daria a resposta. Ele aceitou com relutância e marcamos de nos encontrar na casa da tia Patrícia.

Quando, dois dias depois, estacionei em frente à casa da tia Patrícia me decidi sobre o que fazer. A dúvida havia permanecido na minha cabeça somente porque aquele era, supostamente, um tempo só para mim e dividir um lugar com Benício não estava nos meus planos, mas não importava o quão determinada eu estivesse, nada no mundo me conveceria a passar muito tempo sozinha naquele lugar.

— Chegou cedo, hein? — Falei sorrindo quando avistei o meu primo. Ele estava sentado sob uma árvore, encarando a casa. Quando me viu pareceu pertubado.

— É. Como você ‘tá?

— Bem, na medida do possível. E tu?

— Também. — Ficamos em um silêncio desconfortável, que me fez pensar seriamente que era melhor ficar por lá mesmo. — Vamos deixar suas coisas aqui e ir jantar fora. — Sentenciou.

— Eu ‘tô cansada. — Benício levantou e abanou a sujeira da calça.

— Vamos comer fora, vai ser melhor. Que tal uma pizza, uh? Eu lembro que você amava pizza.

— Ainda amo... Acho que vou ter que aceitar a proposta, mas eu quero banhar primeiro. — O sorriso enorme que ele vinha ostentando caiu, mas voltou tão rápido que eu duvidei dos meus próprios olhos. Ele murmurou algo baixinho e depois concordou com minha condição.

No final, não deixamos minhas coisas na casa. Só tomei um banho rápido e, como ele havia sugerido, fomos a uma pizzaria. Apesar de ter sido difícil manter uma conversa fluída e sem muitas pausas no início, após algum tempo conseguimos engatar um diálogo leve e divertido. Relembramos brincadeiras da infância, aventuras da adolescência e até falamos um pouco sobre nossos planos para o futuro. Não citamos nem o meu ex, nem a mãe dele.

Já passavam das 23:00 quando retornamos, cansados, alegres e empanturrados. Não demorou para que eu caísse no sono, com camas improvisadas na sala mesmo. Quando perguntei ao meu primo o porque de não podermos ficar em um dos quartos, explicou que estavam com as camas desmontadas e lotados de caixas. Eu não questionei mais a respeito disso tudo.

— Fernada. — Benício colocou ambas as mãos nos meus ombros. Eu respondi grogue e sonolenta. — Não importa o que aconteça, eu não vou te chamar. Então, não responde, ok? — Eu teria perguntado o que aquelas palavras queriam dizer, mas eu não conseguia raciocinar direito e por isso só concordei. Ele me soltou depois de perguntar mais uma vez, mas ainda parecia apreensivo, sentando no chão, de costas para o sofá e abraçando as próprias pernas. Foi essa a última coisa que vi antes de dormir.

Acordei algumas horas depois com vontade de urinar. Eu sentei bocejando e levantei com pressa para chegar ao banheiro, sem dar muita atenção ao que estava ao redor. Eu já estava no corredor quando senti, sem qualquer explicação lógica, medo. Mesmo sentindo minha bexiga apertar, parei.

Lentamente, virei minha cabeça para o lado e captei, com horror, uma sombra se mover rápido em direção à cozinha. Eu não era o tipo de pessoa que acreditava nessas coisas, em assombrações, então decidi verificar, temendo uma invasão.

— Fernada! — Suspirei aliviada ao ouvir a voz de Benício me chamando, vindo da cozinha. Eu abri a minha boca para responder, mas antes que tivesse a oportunidade de pronunciar uma única sentença, senti algo me agarrar por trás e uma mão tapar a minha boca. Tentei gritar, mas o aperto era forte suficiente para fazer o som soar abafado.

— Calma. — Ben sussurrou baixinho, passando o outro braço ao redor do meu tronco e me forçando a recuar. Acompanhei-o sem resistência, completamente estarrecida. — Eu te disse: não responda. — Lentamente, ele me soltou e agarrou minha mão. Eu olhei para o chão e só então notei que havia um círculo branco de... Algum pó desenhado ao redor do local onde dormíamos.

— Que porra, Benício? Eu ouvi tu me chamando de lá! — Sussurrei irritada, agarrado ao braço dele e apontando para a cozinha. Ele colocou um dedo sobre os lábios, me pedindo silêncio.

— Depois. — Eu estava pronta para perguntar novamente quando meu nome foi chamado mais uma vez. Ainda era a voz dele, mas dessa vez, eu já sabia que, o que quer que fosse, não deveria ser respondido.

De repente, a sala ficou mais fria e o meu medo cresceu ainda mais, chegando ao limite quando eu tive o vislumbre de um rosto pálido no escuro. Gritei e caí para trás, foi o que bastou para que molhasse minhas próprias calças. Meu primo se ajoelhou ao lado e tapou minha boca, assistindo, fascinado, o líquido quente e fedido se espalhar pelo chão. Alcançou os limites do círculo.

Aconteceu em um átimo. Ben se jogou para frente e tirou do bolso um saquinho, para corrigir o meu erro, mas a coisa, a coisa que havia me chamado, se materializou no meio do círculo. Eu não consegui erguer o rosto, tamanho o medo que senti, tudo que eu pude fazer foi gritar o nome dele, como uma louca.

Vi quando Benício me encarou, o rosto completamente tomado pelo terror e respondeu, me chamando, esticando a mão. Penso que ele sabia o que fazer, que tinha um plano e iria nos salvar, mas antes que eu pudesse fazer qualquer coisa assistimos a pele dele escorrer pelo braço, exibindo veias, artérias e músculos, enquanto o sangue se espalhava pelo chão. Ele se debateu durante vários minutos, seus olhos saltaram do rosto e os seus gritos ecoaram na minha mente. Então, ele parou.

Não havia mais ninguém na casa, só eu e o corpo de Benício. 


Notas Finais


Obrigada por ler.


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