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História Se Eu Ficar - Capítulo 12


Escrita por: Claroescurodark

Capítulo 12 - 21h06


— Tenho exatamente vinte minutos antes do nosso agente ter um chilique — ressoou a voz rouca de Sylla no saguão agora silencioso do hospital.

Então é este o plano de Josh: Diarra Sylla, a deusa do indie rock e vocalista da Bikini, vestida com roupas punk e de marca — esta noite é uma minissaia balonê, meia-calça arrastão, botas de couro pretas e de cano alto e uma camiseta cheia de rasgos da Chump Change. Além disso, ela usa um bolero felpudo vintage e óculos pretos estilo Jackie Onassis. Sylla está parada no saguão do hospital feito um avestruz num galinheiro, e cercada de gente: Yoon e Sina, Lamar e Bailey, o guitarrista rítmico e o baixista da Chump Change, respectivamente, e um pessoal de Portland, do qual me lembro vagamente. Com seu cabelo magenta, ela é como o sol, em torno do qual os seus planetas admiradores giram, admirando-o. Josh é como a lua, que fica de pé ao lado dela, roçando o próprio queixo. Enquanto isso, Sav parece meio aturdida, como se um bando de marcianos tivesse acabado de entrar no hospital. Ou talvez porque Sav venere Diarra Sylla. Na verdade, Josh também a venera. Além de mim, isso era uma das poucas coisas que eles tinham em comum.

— Dentro de quinze minutos você já vai estar fora daqui — promete Josh, entrando na galáxia dela.

Ela se aproxima dele.

— Josh, querido. Com é que você está segurando a barra, hein?

Diarra o envolve num abraço como se os dois fossem velhos amigos, embora eu saiba que hoje é a primeira vez que os dois se encontram pessoalmente; ontem mesmo Josh me contou o quão nervoso estava com isso. Mas agora ela age como se fosse a melhor amiga dele. Acho que é pela encenação. Enquanto ela abraça Josh, vejo cada uma das pessoas no saguão observá-los atentamente, desejando, imagino, que cada um dos seus familiares internados ali estivesse no andar de cima, em estado grave como eu, para que assim pudesse receber o abraço reconfortante de Diarra.

Não consigo deixar de me perguntar se eu estivesse aqui, observando esta cena como a Any de verdade, será que eu sentiria ciúmes? Por outro lado, se eu fosse a Any de verdade, Diarra Sylla não estaria aqui no saguão deste hospital como parte de alguma artimanha de Josh para conseguir me ver.

— Vamos lá, crianças. Hora de botar pra quebrar. Josh, qual é o plano? — pergunta Diarra.

Você é o plano. Não pensei nada além de você ir lá até a UTI e causar um tumulto.

Diarra lambe seus lábios carnudos.

— Causar tumulto é uma das minhas brincadeiras favoritas. O que acha que podemos fazer? Dar um berro? Fazer um striptease? Quebrar uma guitarra? Pera aí, eu não trouxe a minha guitarra. Merda!

— Você poderia cantar alguma coisa — sugere alguém.

— Que tal aquela música antiga dos Smiths, Girlfriend in a coma? — lança outra pessoa.

Josh fica com o rosto pálido diante daquele choque de realidade e Diarra ergue as sobrancelhas num gesto de extrema censura. Todos ficam com a expressão séria.

Sav pigarreia.

— Er, não vai nos ajudar nada se Diarra ficar aqui servindo de distração no saguão. Precisamos subir até a UTI e alguém poderia gritar, anunciando que Diarra está aqui no hospital. Pode ser que funcione. Se não funcionar, então, ela pode cantar. Tudo o que precisamos é distrair algumas enfermeiras e trazê-las para fora, fazendo aquela enfermeira-chefe rabugenta vir atrás delas. Depois que ela sair da UTI e vir a gente no corredor, vai ficar ocupada demais para perceber que o Josh fugiu lá para dentro.

Diarra avalia Sav, que está com uma calça preta e um suéter meio desproporcional. Depois, ela sorri e segura o braço da minha melhor amiga.

— Gostei do plano. Mãos à obra, crianças.

Fico para trás, observando aquela multidão caminhar pelo corredor, em procissão. O som em uníssono das botas pesadas e das vozes altas intensificado pelo senso de urgência, invadiu o silêncio mortal do hospital e trouxe um pouco de vida ao local. Lembro que uma vez assisti a um programa de TV que falava sobre casas de repouso que levavam gatos e cachorros para animarem os pacientes idosos e em estado terminal. Talvez todos os hospitais devessem trazer um grupo de roqueiros punk para alegrar o coração entristecido dos pacientes.

O grupo parou em frente ao elevador, esperando ansiosamente por um elevador vazio que comportasse o grupo inteiro. Decido que quero estar próxima ao meu corpo quando Josh entrar na UTI. Pergunto-me se vou conseguir senti-lo quando ele me tocar. Enquanto eles esperam no hall do elevador, subo pelas escadas.

Fiquei fora da UTI por pouco mais de duas horas, e muita coisa mudou. Há um novo paciente em uma das camas que estavam vazias, um homem de meia-idade cujo rosto se parece com uma daquelas pinturas surrealistas: metade está normal, e é até mesmo bonita, mas a outra metade é uma mistura de sangue, gaze e pontos, como se alguém o tivesse explodido. Talvez seja o ferimento de uma bala. Aqui, há muitas pessoas com ferimentos causados pela caça. Um dos pacientes, que de tão envolvido em gazes e esparadrapos eu mal conseguia definir se era um homem ou uma mulher, tinha falecido. No lugar, há uma mulher com o pescoço imobilizado com um daqueles colares cervicais.

Quanto a mim, estou respirando sem a ajuda dos aparelhos agora. Lembro-me de ter escutado a assistente social dizer aos meus avós e à tia Kate que esse seria um sinal muito positivo. Paro por um momento para averiguar se sinto algo diferente, mas não sinto nada, pelo menos não fisicamente. Não sinto nada desde hoje de manhã, quando estava no carro ouvindo a Sonata no 3 para violoncelo de Beethoven. Agora que respiro sozinha, meus aparelhos emitem menos sons e recebo menos visitas das enfermeiras. A enfermeira Ramirez, aquela com as unhas benfeitas, vem me ver de vez em quando, mas agora ela está ocupada com o cara que chegou com a metade do rosto estourado.

Do lado de fora das portas automáticas da UTI, ouço alguém perguntar com uma voz demasiadamente dramática e falsa:

— O quê?! Aquela não é a Diarra Sylla?

Nunca tinha ouvido nenhum dos amigos de Josh falar com aquela vozinha de adolescente melindroso. Acho que aquilo foi uma versão polida para “C*ralho! Aquela não é a Diarra Sylla?”

— Ãh?! A Diarra Sylla da Bikini? Aquela que saiu na capa da Spin mês passado? Aqui? No hospital?

Desta vez sei que é a voz da Sav. Ela fala como se fosse uma criança de seis anos recitando sobre os grupos de alimentos numa peça da escola: Quer dizer que devemos comer cinco porções de frutas e legumes por dia?

— Sim, é isso aí — responde Diarra com a voz rouca. — Vim pra trazer um pouco de rock and roll para a galera aqui de Portland.

Algumas enfermeiras mais jovens, que provavelmente devem ouvir as rádios que tocam música pop ou assistem à MTV e já ouviram falar da Bikini, erguem os olhos, com o rosto aparentemente entusiasmado e ao mesmo tempo como se tivesse com um ponto de interrogação. Ouço-as sussurrando, ansiosas para saber se realmente se trata de Diarra, ou talvez estejam apenas felizes por quebrarem um pouco a rotina.

— É, pode crer. Então, acho que posso cantar um pouquinho. Vou mandar uma das minhas favoritas. Se chama Eraser — anuncia Diarra. — Alguém aí de vocês quer me acompanhar?

— Só preciso de alguma coisa pra batucar — responde Yoon. — Alguém tem uma caneta ou alguma coisa assim?

Agora, a enfermeira e os atendentes de plantão na recepção da UTI estão extremamente curiosos e saem em direção à porta. Observo tudo como se estivesse de fora, assistindo a um filme. Fico ao lado da minha cama, com os olhos concentrados nas portas automáticas, esperando elas se abrirem. O suspense me corrói. Penso em Josh, no quanto me acalmo quando ele me toca, no quanto me derreto ao senti-lo acariciar a minha nuca ou quando ele sopra ar quente nas minhas mãos geladas por causa do frio.

— O que é que está acontecendo aqui? — exclama a enfermeira mais velha. De repente, todas as enfermeiras no corredor olham para ela, e não mais para a Diarra. Ninguém vai tentar explicar que uma estrela do pop está lá, do lado de fora. Acabou. Sinto a tensão da frustração. As portas não vão se abrir.

Lá fora, ouço Diarra começar a cantar. Mesmo sem a banda, e do outro lado das portas automáticas, ela canta muito bem.

— Alguém chame os seguranças agora — exige a enfermeira.

— Josh, chegou a hora — grita Yoon. — É agora ou nunca. Tudo ou nada.

— Vai! — grita Sav, que de repente se transformou numa general do exército. — Vamos te dar cobertura.

As portas se abrem. Despencam mais de meia dúzia de punks, Josh, Yoon, Lamar, algumas pessoas que não conheço e Sav. Lá fora, Diarra continua cantando, como se aquele fosse o show que ela viera fazer em Portland.

Ao atravessarem a porta, tanto Josh quanto Sav parecem determinados, até mesmo felizes. Fico surpresa com a capacidade que eles demonstram ao ter de se adaptar a diferentes situações, e com a força que mantêm escondida, em algum lugar. Sinto vontade de pular para comemorar e torcer por ele do jeito que costumava fazer quando assistia as apresentações de ginástica rítmica da Belinha e ela passava por baixo da barra pra terminar a apresentação. Mal posso acreditar que eles estão aqui, mas ao ver Sav e Josh em ação, posso dizer que quase me sinto feliz também.

— Onde está ela? — grita Josh. — Onde está a Any?

— No canto, perto do armário! — grita alguém de volta.

Só depois de um minuto é que percebo que foi a enfermeira Ramirez quem disse isso.

— Segurança! Peguem ele! Agarrem-no! — berra a enfermeira rabugenta.

Ela avista Josh entre todos os outros invasores e seu rosto fica vermelho, cheio de fúria. Os seguranças do hospital e outros dois atendentes entram correndo na UTI.

— Mano, aquela não é a Diarra Sylla? — pergunta um deles enquanto agarra Lamar e o empurra para a saída.

— Acho que sim — responde o outro, agarrando Sina e levando-a para fora.

Sav me encontra.

— Josh, ela está ali! — ela grita, depois se vira para mim, enquanto o grito morre em sua garganta. — Ela está aqui — diz ela de novo, mas desta vez com um gemido.

Josh ouve a voz de Sav e se esquiva das enfermeiras, tentando caminhar em minha direção. E aqui está ele, ao pé da minha cama, esticando a mão para me tocar. Está quase conseguindo. De repente, me lembro do nosso primeiro beijo depois do concerto do Yo-Yo Ma, e de que eu não tinha me dado conta do quanto desejava os seus lábios nos meus, coisa que só aconteceu quando estávamos bem pertinho, quase nos beijando. Não tinha me dado conta do quanto desejava o seu toque, até este exato momento em que quase posso senti-lo me tocar.

Quase. Mas, de repente, ele começa a se afastar de mim. Dois seguranças o seguram pelos ombros e o arrancam dali. Um dos homens agarra também o cotovelo de Sav e a leva para fora. Sav cede, e não oferece nenhuma resistência.

Diarra continua cantando do lado de fora. Quando vê Josh, ela para.

— Sinto muito, querido — diz. — Agora tenho que ir antes que eu perca o show ou que seja presa.

Então ela se vai pelo corredor, seguida por alguns atendentes de plantão que imploram por um autógrafo.

— Chame a polícia — exige a enfermeira rabugenta. — Mandem prendê-lo.

— Vamos levá-lo até o departamento de segurança. É o protocolo — diz um dos seguranças.

— Não somos nós quem prendemos — acrescenta o outro.

— Tirem-no da minha ala. — Ela pigarreia e se vira. — Srta. Ramirez, é melhor que não tenha servido de cúmplice para esses arruaceiros.

— Claro que não. Eu estava no armário de suprimentos e perdi toda a confusão — retruca ela.

A srta. Ramirez mente bem e sua expressão em nenhum momento a entrega.

A enfermeira-chefe bate palmas.

— Ok. O show acabou. De volta ao trabalho.

Saio em disparada para as portas da UTI, correndo atrás de Josh e Sav, que estão sendo levados na direção do elevador. Entro com eles. Sav parece confusa, como se alguém tivesse pressionado o botão reset e ela ainda estivesse reiniciando o sistema. Josh aparenta tristeza, está com os lábios arqueados para baixo. Não sei ao certo se ele está prestes a chorar ou a dar um soco no segurança. Para o seu próprio bem, espero que seja a primeira opção. Se for pela minha vontade, torço pela segunda.

Lá embaixo, os seguranças arrastam Josh e Sav por um corredor cheio de salas escuras. Estão prestes a entrar em uma das poucas salas que têm iluminação quando ouço alguém gritar o nome de Josh.

— Josh! Esperem. É você?

— Wendy? — grita Josh de volta.

— Wendy? — murmura Sav.

— Com licença, para onde vocês estão levando eles? — grita Wendy para os homens enquanto corre na direção deles.

— Lamento, mas esses dois foram pegos tentando invadir a UTI — explica um dos seguranças.

— Só porque eles não deixaram a gente entrar — rebate Sav com a voz fraca.

Wendy se aproxima deles. Ela ainda está com o uniforme de enfermeira, o que é estranho; porque geralmente, assim que pode, ela troca logo de roupa e tira a “alta costura hospitalar”, conforme ela costuma chamá-lo. Seu cabelo castanho-avermelhado, longo e encaracolado parece ensebado e escorrido, como se há semanas ela não o lavasse. E suas bochechas, que normalmente são rosadas como uma maçã, estavam como se tivessem sido pintadas de bege.

— Com licença. Sou uma enfermeira registrada na Cedar Creek. Não fiz o meu estágio aqui, então, se vocês quiserem, podemos resolver esse problema com Richard Caruthers.

— Quem é ele? — pergunta um dos seguranças.

— Diretor de assuntos comunitários — responde o outro homem que, em seguida, se vira para Wendy. — Ele não está aqui agora, não estamos em horário comercial.

— Sim, mas tenho o telefone da casa dele — acrescenta Wendy, empunhando seu celular como uma arma. — Duvido que ele vá gostar de receber uma ligação minha contando como o seu hospital está tratando alguém que está apenas tentando visitar a namorada gravemente ferida. Vocês sabem que o diretor preza pelos valores da compaixão tanto quanto da eficiência e essa não é a maneira correta de se tratar um ente querido de alguém que está internado aqui.

— Estamos apenas fazendo o nosso trabalho, senhora. Seguindo ordens.

— E se eu tirar vocês dois dessa encrenca e assumir o problema? A família da paciente está toda reunida lá em cima, esperando por esses dois. E, se vocês tiverem qualquer problema, falem com o sr. Caruthers e peçam a ele que entre em contato comigo.

Wendy enfia a mão na bolsa, tira um cartão seu e o entrega aos seguranças. Um dos homens pega o cartão e o entrega para o parceiro, que apenas olha e dá de ombros.

— Pelo menos vai livrar a gente daquela papelada — diz ele.

O homem solta o Josh, cujo corpo despenca como se fosse um espantalho arrancado de um poste.

— Desculpe aí, garoto — ele diz, batendo no ombro dele.

— Espero que a sua namorada fique bem — murmura o outro.

E então os dois desaparecem na direção da máquina automática que vende doces.

Sav, que tinha cruzado com a Wendy apenas duas vezes, jogou-se nos braços dela.

— Obrigada! — murmurou no pescoço de Wendy.

A enfermeira retribuiu ao abraço e deu um tapinha no ombro de Kim antes de soltá-la. Depois, esfrega os olhos e esboça um sorriso discreto.

— O que diabos vocês dois estavam pensando? — pergunta ela.

— Eu só queria ver a Any — responde Josh.

Wendy vira-se para olhar para o Josh e é como se alguém tivesse acabado de abrir uma válvula, deixando escapar todo o ar que havia dentro dela. A enfermeira desmorona e estica o braço para tocar o rosto de Josh.

— Não tenho dúvidas. — Ela enxuga os olhos com o dorso da mão.

— Você está bem? — pergunta Sav.

Wendy ignora a pergunta.

— Vamos ver o que podemos fazer pra você conseguir visitar a Any.

Josh se anima ao ouvir isso.

— Acha que vamos conseguir? Aquela enfermeira velha não foi com a minha cara.

— Se essa enfermeira é quem estou pensando, não faz a menor diferença ela ter ido com a sua cara ou não. Nada depende dela. Vamos falar com os avós de Any, depois vou descobrir quem é o responsável aqui por quebrar as regras e permitir que você veja a sua namorada. Ela precisa de você agora. Mais do que nunca.

Josh vira e abraça Wendy com tanta força que os pés dela saem do chão.

Wendy no comando do resgate. Do mesmo jeito que ela resgatou Marco, o melhor amigo de papai e que tocava com ele na banda, e que, no passado, fora um playboy bêbado. Quando Wendy e ele namoraram por algumas semanas, ela o advertiu para que se endireitasse e parasse de beber ou então, eles teriam de dizer adeus. Papai contou que muitas garotas tinham dado um ultimato para Marco, tentando dar um jeito na vida dele, mas todas elas acabaram deixadas na calçada, aos prantos. Mas quando Wendy pegou sua escova de dentes e avisou que Marco tinha de crescer, foi ele quem chorou. Em seguida, Marco enxugou as lágrimas, cresceu, parou de beber e se tornou monogâmico. Oito anos depois, aqui estão eles, com um bebê. Wendy tem um jeito especial. Talvez seja por isso que ela tenha se tornado a melhor amiga da mamãe depois que se uniu a Marco. Wendy é outra mulher dura na queda, graciosa como uma gatinha e uma feminista ferrenha. Ela se tornou uma das pessoas de quem papai mais gosta; mesmo odiando os Ramones e achando o beisebol chato, enquanto papai vivia pelos Ramones e considerava o beisebol como uma religião.

Agora, Wendy está aqui. Wendy é enfermeira. Wendy que não aceitaria um não como resposta está aqui. Ela vai conseguir fazer com que Josh entre na UTI para me ver. Ela vai cuidar de tudo. Uhuuu! Quero gritar. Willow está aqui!

Estou tão ocupada comemorando a chegada de Wendy que demoro para perceber o motivo de sua presença, mas, quando percebo, sinto como um golpe.

Wendy está aqui. E, se está aqui, no meu hospital, isso significa que não há nenhum motivo para ela estar no hospital dela. Eu a conheço o bastante para saber que ela jamais o deixaria lá, sozinho. Mesmo que eu esteja aqui, ela teria ficado com ele. Ele estava todo quebrado e foi levado para que ela o concertasse. Ele era o paciente dela. Sua prioridade.

Penso no fato de que vovô e vovó estão aqui, em Portland, comigo. E que todos na sala de espera só falam sobre mim, e que estão evitando falar sobre mamãe, papai ou sobre a Belinha.

Penso na expressão de Wendy. Parecia que toda a sua alegria lhe fora sugada. E penso no que ela disse a Josh: que eu preciso dele agora. Mais do que nunca.

E é por isso que eu sei. Belinha. Ela também se foi.

*

Mamãe entrou em trabalho de parto três dias antes do Natal, e insistiu que fôssemos fazer compras juntas.

— Você não deveria estar deitada, indo para o hospital ou algo do tipo? — questionei.

Mamãe fez uma careta em meio a uma contração.

— Não. As contrações ainda não estão muito fortes, e só vêm a cada vinte minutos. Quando estava grávida de você e entrei em trabalho de parto, limpei a casa inteira, de cima a baixo.

— Nossa, você dá trabalho até no trabalho de parto — brinquei.

— Você é uma espertinha, sabia? — disse mamãe e depois respirou fundo algumas vezes. — É o meu jeito de fazer as coisas. Agora anda. Vamos pegar o ônibus para o shopping. Não vou poder dirigir.

— Não é melhor ligarmos para o papai? — questionei.

Mamãe deu risada.

— Ah, por favor! Já me basta ter de dar à luz este bebê. Não preciso ter de lidar com o seu pai agora também. Vamos ligar pra ele só quando a bebê já estiver a ponto de nascer. Prefiro muito mais que você fique comigo.

Então, mamãe e eu ficamos passeando no shopping e parando de quando em quando para ela se sentar, respirar fundo e apertar o meu pulso de um jeito tão forte que deixou marcas vermelhas na pele. Mesmo assim, tivemos uma manhã produtiva e divertida. Compramos presentes para a vovó e o vovô (um suéter com um anjo estampado e um livro sobre Abraham Lincoln, que era lançamento), brinquedos para o bebê e galochas novas para mim. Normalmente, esperávamos pelas liquidações de Natal para comprar essas coisas, mas a mamãe disse que naquele ano ficaríamos muito ocupadas trocando fraldas.

— Agora não é hora de economizar. Ah, merda! Desculpe, Any. Vamos. Quero comer um pedaço de torta.

Fomos à Marie Callender’s. Mamãe pediu uma fatia de torta de abóbora com creme de banana. Eu pedi um pedaço de torta de mirtilo. Quando terminou, mamãe afastou o prato e disse que estava pronta para procurarmos a parteira.

Nunca conversamos se eu deveria ficar com ela ou não quando chegasse a hora. Àquela altura, eu ia para todos os lugares com mamãe e papai, então foi meio que automático. Encontramos papai com os nervos à flor da pele no centro de parto, que não se parecia nem um pouco com um consultório médico. Era o andar térreo de uma casa, onde havia camas e banheiras Jacuzzi, e os aparatos médicos ficavam discretamente armazenados num canto. A parteira hippie levou mamãe para dentro e o papai me perguntou se eu queria ir junto. Naquele momento, já dava para ouvir mamãe disparando palavrões para todos os lados.

— Posso ligar pra sua avó e ela vem buscar você — disse papai, fazendo caretas ao ouvir os berros da mamãe. — Pode ser que isto aqui demore um pouquinho.

Balancei a cabeça, negando. Mamãe precisava de mim. Foi isso que ela disse. Sentei em um dos sofás estampados com flores, peguei uma revista que tinha um bebê careca na capa. Papai desapareceu em um dos quartos.

— Música! Droga! Preciso de música! — gritou mamãe.

— Temos uma trilha muito agradável da Enya. É muito relaxante — disse a parteira.

— Foda-se a Enya! — exclamou mamãe. — Melvins. Earth. Agora!

— Calma, está tudo sob controle — disse papai. Em seguida, ele colocou um CD e o som mais pesado e mais alto de guitarra que eu já tinha ouvido começou a tocar. As músicas punk que papai costumava ouvir se pareciam com cantigas de ninar perto daquilo. Era uma música primitiva e, aparentemente, fazia com que minha mãe se sentisse melhor. Ela começou a emitir uns sons guturais baixos. Só fiquei lá sentada, quieta. De vez em quando ela gritava, me chamando, e eu entrava. Mamãe erguia os olhos para mim, com o rosto todo coberto de suor.

— Não tenha medo — sussurrava ela. — As mulheres podem suportar o pior tipo de dor. Você vai descobrir isso um dia. — Em seguida, ela voltava a gritar p*ta que o p*riu!

Assisti a alguns partos pela TV a cabo e percebi que as mulheres ficavam berrando por um tempo; algumas vezes elas gritavam palavrões que tinham de ser cortados, mas tudo não levava mais que meia hora. Depois de três horas, mamãe e Melvins continuavam gritando. O centro de parto inteiro parecia quente e úmido, embora estivesse fazendo apenas quatro graus lá fora.

Marco apareceu. Quando entrou e ouviu o barulho, parou onde estava, ficando imóvel. Eu sabia que toda essa coisa de ter filhos o assustava, já tinha ouvido mamãe e papai conversando sobre isso e sobre a insistência de Henry em não crescer. Ele ficou chocado quando mamãe e papai me tiveram, e agora ele parecia totalmente perplexo ao ver que meus pais escolheram ter um segundo filho. Os dois se sentiram aliviados ao verem que Wendy e Marco tinham reatado. — Finalmente, alguém adulto na vida de Marco — dissera mamãe.

Marco olhou para mim, com o rosto pálido e suado.

— Caraca, Any. Você não deveria estar ouvindo isso, deveria? Será que eu deveria estar ouvindo isso?

Dei de ombros. Marco sentou-se perto de mim.

— Peguei um resfriado ou gripe, sei lá, mas o seu pai acabou de me ligar pedindo pra trazer comida. Então, aqui estou — explicou ele, mostrando-me uma sacola cheia de Taco Bell, fedendo à cebola. Mamãe deixou escapar outro grito. — É melhor eu ir embora. Não quero espalhar as bactérias por aqui ou algo assim. — A mamãe berrou ainda mais alto e Marco praticamente pulou do sofá. — Tem certeza de que quer ficar aqui? Pode vir comigo, pra minha casa se quiser. Wendy está lá cuidando de mim. — Ele sorriu ao mencionar o nome dela. — Ela também pode tomar contar de você.

E então, Marco levantou-se para ir embora.

— Estou bem. A mamãe precisa de mim. E o papai está uma pilha de nervos.

— Ele já vomitou? — perguntou Marco, voltando a se sentar no sofá. Dei risada, mas depois, pela cara dele, vi que estava falando sério. — Ele vomitou quando você estava pra nascer. Quase desmaiou. Não que eu o esteja criticando... Mas o cara deu trabalho... Os médicos quiseram colocá-lo para fora, disseram que fariam isso caso você não nascesse dentro de meia hora. A sua mãe ficou tão nervosa que você nasceu cinco minutos depois. — Marco sorriu, recostando-se sobre o sofá. — E foi essa a história. Mas te digo uma coisa: ele chorou feito um bebê desmamado quando você nasceu.

— Essa parte já me contaram.

— Contaram o quê? — perguntou papai, sem fôlego. Ele agarrou a sacola das mãos de Marco. — Taco Bell, Marco?

— É o jantar dos campeões — disse Marco.

— Serve. Estou morrendo de fome. As coisas estão complicadas por aqui. Preciso me manter forte.

Marco piscou para mim. O papai pegou um burrito e me ofereceu. Neguei com a cabeça. Ele estava começando a desembrulhar o burrito quando a mamãe soltou um gemido e começou a berrar, dizendo que estava pronta para fazer mais força.

A parteira enfiou a cabeça para fora da porta.

— Acho que estamos perto, então é melhor você jantar depois. Volte pra cá — disse ela.

Marco praticamente saiu voando pela porta da frente. Segui papai até o quarto, onde a mamãe estava sentada agora, ofegante como um cachorro velho.

— Você quer assistir? — perguntou a enfermeira para o papai, mas ele apenas sacudiu a cabeça e de repente, ficou com o rosto verde.

— É melhor eu ficar por aqui — respondeu, segurando a mão da mamãe, mas ela soltou a mão dele com força.

Ninguém me perguntou se eu queria assistir. Meio que automaticamente, fui para o lado da parteira. Foi muito nojento, admito. Muito sangue. E certamente eu nunca tinha visto a minha mãe naquela posição. Mas parecia estranhamente normal para eu ficar ali. A parteira pedia à minha mãe que fizesse força, parasse, e que voltasse a fazer força de novo, e assim sucessivamente.

— Vamos lá bebê, vamos — entoava ela. — Está quase lá! — A parteira animava a minha mãe, que àquela altura parecia estar com vontade de esbofetear a mulher.

Quando Belinha escorregou para fora, ficou com o rosto voltado para cima, então a primeira pessoa que ela viu fui eu. Ela não chegou berrando como vemos na TV. Ficou em silêncio, com os olhos esbugalhados, me encarando. E Belinha continuou me olhando, enquanto a parteira fazia sucção pelo nariz dela.

— É uma menina — gritou ela.

Ela colocou o Belinha sobre a barriga da minha mãe.

— Você quer cortar o cordão umbilical? — perguntou ela ao meu pai. Papai ergueu as mãos, respondendo que não. Estava emocionado demais ou enjoado demais para poder falar.

— Eu posso fazer isso — falei.

A parteira segurou o cordão, esticando-o e me mostrou onde eu tinha de cortar. Teddy ficou

quietinho, com seus olhos cinzentos arregalados, ainda me encarando.

Mamãe sempre dizia que bem lá no fundo, Belinha achava que eu fosse a mãe dele porque fui eu quem ela viu pela primeira vez e porque fui eu quem cortou o cordão umbilical.

— É como acontece com os gansos que nascem — brincou mamãe. — Eles guardam a imagem do veterinário, não da mamãe gansa, porque é o veterinário que eles veem logo quando os ovos se quebram e eles saem.

Ela exagerou. Na verdade, Belinha não achava que eu fosse a mãe dela, mas havia certas coisas que só eu poderia fazer por ela. Quando era bebê e passou por aquela fase complicada do choro noturno, ela só se acalmava depois que eu tocava uma canção de ninar no violoncelo. Quando começou a gostar de Harry Potter, só queria que eu lesse um capítulo por dia para ela, todas as noites. E quando ralava o joelho ou batia a cabeça, ela não parava de chorar enquanto eu não desse um beijo mágico no machucado e depois disso, Belinha se recuperava como que por um milagre.

Sei que nem mesmo todos os beijos mágicos do mundo poderiam tê-lo ajudado hoje. Mas eu faria tudo que pudesse para poder dar um um beijo na Belinha.



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