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História Se fechar os olhos - Capítulo 18


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Capítulo 18 - Capítulo XVIII


Quando fui embora com Mathieu (era para ir com Marianne mas perdi a vontade) não pude evitar perguntar-lhe o motivo para ter dito a Marianne que eu precisava da sua ajuda. Ele tentou ficar sério mas acabou por mostrar o mesmo sorriso manhoso de há pouco e justificou-se dizendo eu parecia triste e que pensou que ela seria uma boa ajuda. Não podia ficar chateada com ele porque acredito que fez mesmo com boa vontade, embora, sinceramente, não me sentisse triste. Sentia-me, antes, chateada ou angustiada, não sei bem. Não me apetecia falar mais sobre o assunto. Pela primeira vez não me apeteceu falar sobre ou com Marianne. Tudo isto doía cá dentro e eu só queria entender tudo isto. Reconheço, contudo, que não paro de me preocupar com ela, o que acaba, por vezes, por me magoar ainda mais. Quero sempre contar-lhe as novidades, saber como ela está, perguntar-lhe o que está a fazer, saber tudo aquilo que lhe agrada. Passam-se alguns dias desde o aniversário de Claire e não tenho visto Marianne no comboio porque, segundo a mensagem que me enviou, tem ido mais cedo para o trabalho. Não lhe respondi porque, estupidamente, me sinto triste com ela. O pior é que não sei a razão pela qual estou assim. Não posso sentir-me amargurada sem motivo. Não quero nem devo, acima de tudo, deslizar outra vez e acabar por perder Marianne de vez por causa de todas as minhas dúvidas. É por isso que hoje, Sábado, lhe mando uma mensagem ainda que um pouco a custo:

“Hey, Mari´. Como tens andado? Tenho saudades tuas. Preciso de falar contigo, sei de uma coisa que provavelmente ias gostar.”

Ela não tarda a responder, o que me deixa contente.

“Também sinto a tua falta. Desculpa andar desaparecida, mas tenho andado cheia de trabalho e cansada. Posso passar por aí de tarde, que te parece?”

Dá-me um aperto no peito por vê-la a desculpar-se quando, na realidade, sou eu que me desliguei um pouco dela.

O céu está cheio de nuvens cinzentas e sei que não tarda nada para começar a chover. É daqueles raros dias de Verão em que chove e o dia está abafado; Daqueles em que a tarde passa lentamente e só nos apetece dormir de tão aborrecido que estamos. Porém, não há tempo para me sentir com sono quando sei que Marianne vem cá. A fase de me sentir com vergonha de lhe falar ou de me sentir desgostosa só de me lembrar dela passa logo que ouço o som da campainha, avisando-me, assim, que ela chegara. Abro-lhe a porta com um sorriso no rosto, que muda para uma gargalhada (um pouco tímida, admito) por a ver encharcada. Não trouxe guarda-chuva por pensar que não ia chover, mesmo com os avisos que o céu carregado lhe dava.

— Não te rias! — Ela diz com um grande sorriso na cara, mostrando os seus dentes ligeiramente arredondados. — Arranja-me mas é algo para me secar. — Diz, ainda um pouco ofegante por ter vindo a correr.

— Entra, entra. — digo com um ar risonho. — Anda, vem. — E levo-a pelo braço até o meu quarto.

Dirijo-me, depois, até à casa de banho de onde pego uma toalha. Atiro-a para a cara de Marianne.

— Ei, idiota! — Ela finge ficar ofendida mas ri-se.

Pega na toalha e passa pelo seu cabelo curto e, de seguida, limpa o rosto. Estendo-lhe uma camisola e umas calças porque não quero que ela se constipe. Digo que tenho que ir à cozinha buscar o telemóvel, uma desculpa para não ter que a ver despir. Vou ter com ela uns minutos depois e felizmente já se tinha vestido. Pego num papel que estava guardado numa gaveta e estendo-lhe.

— Toma, acho que é de teu interesse.

Ela coça o pescoço, como faz sempre que fica curiosa e à medida que vai lendo, um sorriso começa a formar-se no seu rosto. Deito-me na cama e fico a olhar para ela. Está encostada ao parapeito da janela aberta, ainda a olhar para o papel à sua frente.

— Vais participar, certo?

— Obrigada, Helene. Obrigada, a sério.

Fico um pouco envergonhada. Faço um sorriso apalermado.

— Não foi nada de mais, afinal, tenho a certeza que ias acabar por saber do concurso, já que estás mais atenta a isso do que eu.

— Sim, é verdade, mas estou feliz porque te lembraste de mim, porque sentiste a necessidade me mostrares isto.

— Sabes que me importo contigo, idiota.

— Eu também me preocupo contigo.

Sinto um calor crescente dentro de mim.

— Então…— digo, estranhamente nervosa.— Deve ser do teu interesse que, por vezes, me sinto a enlouquecer.— E, embora não quisesse, acabei por sussurrar, porque, afinal de contas, aquilo deixa-me realmente preocupada.

— Deves estar mesmo louca se não queres enlouquecer. — e ri-se.

— O quê?

— Se te sentes a enlouquecer então vive essa loucura.

Viver todo este desconforto, calor, contradição, felicidade e amargura ao mesmo tempo… não, muito obrigada.

— “É preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante”. Nietzsche. — Conclui.

— Dizes cada coisa, Mari'. 

Olho para os dedos das minhas mãos e um pouco receosa decido falar-lhe da nossa conversa de outro dia.

— Olha, Mari'… sobre quereres ser a esperança de alguém...

Ela fica a olhar para mim com um sorriso. Não sei decifrar se está feliz, se esconde alguma pontada de tristeza, se está a fingir.

Guarda o papel onde anuncia que, em breve, vai haver um concurso de dança, no bolso das calças e, após olhar para o céu plúmbeo por um tempo, em silêncio, vira-se para mim, boceja e comenta que aquele tempo a deixa com sono. Está a mudar de assunto, como sempre. Depois, aproxima-se de mim com um pequeno sorriso e deixa-se cair com cuidado para não me magoar e fica estendida sobre mim. Sinto o meu coração a falhar por um segundo e fico perplexa.

— Deixa-me dormir. — Ela sussurra.

O problema é que, só com alguma dificuldade é que cabemos as duas na cama. Sinto calafrios a percorrerem o meu corpo.

— Marianne, não cabemos. — Digo baixinho, ainda a tentar perceber porque se esticou por cima de mim.

— Vá lá, por favor. — E começa a ter a voz ainda mais sonolenta.

Não resisto, contudo, e abraço-a, levemente. E ficamos sem dizer uma única palavra, ficando só com o ruído da chuva lá fora e o da televisão que alerta que o tempo deve piorar mais para o fim da tarde. O peso do seu corpo, com o tempo, começa a magoar-me. Tento mexer-me para ver se ela se move também. Sou bem sucedida. Quando ela se desvia um bocado, aproveito e encosto-me à parede. Assim, ela consegue deitar-se a meu lado. Estamos muito próximas mas não me incomoda. Neste momento,  se fechar os olhos, não terei medo de os abrir, pois sei que tu continuarás a meu lado.

Não tenho bem noção de quanto tempo passou até sentir Marianne a mexer-se um pouco na cama, fazendo-me acordar. Tem a mão a tapar os olhos e, pelo programa que está a dar na televisão, vejo que deve ter passado cerca de uma hora e meia. Chove imenso e eu, apressando-me o mais que posso e de forma a não incomodar Marianne, saio da cama para fechar a janela. Tem o parapeito molhado que trato de limpar com a toalha que Mari' tinha usado.

Marianne vira-se para o lado da parede e, talvez por não se sentir observada, já que está virada de costas para mim, diz:

— Sobre querer ser a esperança de alguém...— Para um pouco e continua.— Só o facto de te ver feliz e de ser feliz quando estou contigo já me é mais que suficiente.

Não sei o que lhe responder.

Helene...— faz uma pausa, vira o seu corpo para mim e sorri antes de continuar.— vamos enlouquecer juntas.


Notas Finais


Uhh, primeira aparição do título da história... Ainda fará outra aparição, uhmm, não digo nada kk

Obrigada pela leitura :))


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