História SÉCULOS - jikook - Capítulo 41


Escrita por: e Xalana

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Park Jimin (Jimin)
Tags Abo, Alfa!jm, Bangtan Boys (BTS), Jeon Jungkook, Jeongguk, Jikook, Jimin Tops, Jk Bottom, Jk Bruxinho, Jk!bottom, Jm!tops, Jung Hoseok, Jungkookbottom!, Kim Namjoon, Kim Seokjin, Kim Taehyung, Min Yoongi, Omega!jk, Park Jimin
Visualizações 221
Palavras 8.535
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Comédia, Drama (Tragédia), Ficção Adolescente, Lemon, LGBT, Luta, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Adultério, Álcool, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Oioioioi, feliz aniversário pro nosso bebê Seokjin, uh?

Boa leitura.

Não se esqueçam, #jkbruxinho no twitter se quiserem interagir comigo

Capítulo 41 - Beijos e Ceroulas



Se Kimura era um lugar tranquilo, também era atarefado. Todos pareciam voltar imediatamente à vida com os primeiros raios de sol e, então, a fazenda girava e zumbia como um complexo mecanismo de relógio até depois do fim do dia. Quando este chegava, um a um, as rodas e engrenagens que faziam a propriedade funcionar começavam a se dispensar na escuridão da noite, em busca de jantar e cama, apenas para reapareceram como mágica, cada qual em seu lugar, pela próxima manhã.

Tão essencial cada homem, mulher e criança parecia ser para o funcionamento do lugar que Jungkook não podia imaginar como Kimura se sustentara nos últimos anos sem seu legítimo Senhor (Jihyun, pelo visto, não estava brincando quando afirmara saber cuidar perfeitamente bem daquelas terras).

Jimin lhe apresentara toda a propriedade como dissera que faria. Caminharam pelos campos e conheceram as vilas adjacentes, assim como também visitaram o cemitério e Jungkook finalmente foi apresentado ao resto da família de seu marido em um final de tarde nublado e um tanto frio.

Havia momentos de paz em Kimura, é claro. Aquelas pequenas brechas de tempo em que tudo parece ficar imóvel e a existência se equilibra num ponto perfeito, como o momento de passagem entre escuridão e luz, quando ambas e nenhuma se emaranham entre si.

Jungkook desfrutava de um desses momentos na tarde do terceiro ou quarto dia desde sua chegada à fazenda.

Estava encostado contra a cerca de madeira atrás da casa, os braços cruzados sobre o peito e a feição inexpressiva. Podia ver campos marrom-dourados até a beira do penhasco depois da torre, com a malha de árvores no extremo oposto do desfiladeiro, turvando-se até ficar negra diante do brilho perolado do céu. Objetos próximos e distantes pareciam estar à mesma distância, uma vez que suas longas sombras confundiam-se com a penumbra.

O ar estava frio, um prenúncio de uma geada. Pensou que deveria entrar logo, mas admitia que estava relutante em parar de observar aquela encantadora paisagem rural.

Em meio aos próprios pensamentos, não percebeu Jimin se aproximar pelas suas costas. E somente veio a notá-lo quando este colocou as dobras pesadas de um manto de lã sobre seus ombros, logo pulando a cerca e se pondo ao seu lado.

Não percebera o quanto estava frio até sentir o calor contrastante do tecido contra sua pele gelada. Os braços de Jimin também o envolveram junto ao manto em um abraço confortável, e Jungkook estremeceu ligeiramente diante da mudança drástica de temperatura. Aninhou-se ao corpo do marido, encostando suas cabeças.

A aparência deles, que nos primeiros dias semelhava-se a de vikings ou de bárbaros selvagens, agora se encontrava muito melhor e mais comportada. Jimin cortara o cabelo em um corte curto, fizera a barba e tomara diversos banhos até que estivesse completamente livre de todas as camadas de sujeira que tinha no corpo. E Jungkook não ficara para trás; encontrava-se tão limpo quanto quando estava em 1945 e seu cabelo apenas fora cortado nas pontas, mantendo um pouco do tamanho próximo aos ombros.

- Pude vê-lo tremendo lá de casa. – Jimin disse. Infiltrou as mãos para dentro do manto e pegou as mãos de Jungkook, sentindo como estavam frígidas. – Se não tomar cuidado, pode pegar um resfriado.

Jungkook sabia, mas estaria mentindo se dissesse que não achava uma graça o fato de Jimin preocupar-se com sua saúde mesmo sabendo que era um médico. Por isso, a lateral de seus lábios se curvou para cima em um sorriso discreto e ele se afastou momentaneamente para fitá-lo.

- E quanto a você?

Apesar do frio crescente, Jimin parecia completamente confortável e à vontade vestido com nada além de sua costumeira camisa e seu kilt (este que retornara às cores vermelhas do clã Park, o que deixara Jimin muito feliz no dia em que Jihyun lhe entregara o novo tardã). Havia um tom avermelhado em seu nariz, mas era somente uma pequena amostra de que as noites amenas de outono também poderiam ser congelantes nas Terras Altas.

- Ah, bem, já estou acostumado. – explicou, sorrindo. – Os escoceses não têm sangue fino como vocês, sulistas puritanos.

Soltou o ar em uma risada nasalada e Jimin ergueu-se um pouco para que pudesse lhe dar um beijo no nariz. Após isso, Jungkook, retirando uma mão das de seu marido, segurou-o pela nuca e mirou a boca dele em um alvo mais abaixo.

Começaram a se beijar sem pressa alguma, saboreando o interior daquelas bocas que conheciam tão bem. As línguas iam e vinham, entrelaçando-se sem malícia nenhuma. Os lábios faziam barulho conforme se moviam uns contra os outros e as salivas se misturavam, tornando-se uma perfeita combinação do sabor dos dois.

Durou o suficiente para que suas temperaturas se igualassem e o sangue quente zumbia nos ouvidos de Jungkook quando este se afastou.

A brisa soprava por trás de seus corpos, lançando alguns fios de cabelo escuro sobre seu rosto. Vendo isso, Jimin ajeitou as mechas rebeldes com os dedos, colocando-as atrás de suas orelhas e permitindo que a luz do sol poente iluminasse seu rosto pálido.

- Parece que você fica mais lindo desse jeito. – ele murmurou, ternamente. – E eu nem sabia que isso poderia ser possível.

Jungkook sentiu seus batimentos cardíacos falharem, observando a forma magnífica com a qual o cabelo loiro de Jimin brilhava sob o sol, assim como seus olhos azuis tornavam-se ainda mais profundos. Metade de seu rosto estava iluminada pelos raios e a outra encontrava-se encoberta de sombras, transformando-o quase em um ser celestial.

- E você parece ser um anjo coroado de ouro. – sussurrou. Teve o prazer de ver as bochechas alheias corarem com o elogio e aproximou-se para lhe dar um selinho inocente, logo afastando-se para retornar a olhar o rosto perfeito do homem que amava. Um pensamento acabou surgindo e Jungkook balançou a cabeça de leve ao dizer: - Por que não me falou antes?

O olhar de Jimin estava fixo em seus lábios. Ele demorou para responder.

- Falar o quê?

- A principal razão de ter se casado comigo.

Jimin ergueu os olhos e levantou uma das sobrancelhas.

- Eu sabia que você não queria se casar comigo. – disse, simples. – Não quis colocar um peso em você ou fazer papel de idiota naquela ocasião, dizendo-lhe que o amava, sendo que era evidente que você iria dormir comigo apenas para honrar os votos do casamento e satisfazer seu ciclo. – ele riu ao receber um olhar julgador de Jungkook; os dentes brancos do sorriso brilhando na penumbra. – Pelo menos na primeira vez, quero dizer. Eu tenho meu orgulho, homem.

Jungkook puxou-o para mais perto, colocando-o à sua frente e entre as suas pernas enquanto continuava apoiado contra a cerca. Ao colocar a mão ao redor do pescoço bronzeado, sentiu a pele dele levemente fria. Envolveu a ambos com o manto que tinha sobre o ombro, cobrindo-os e protegendo-os da brisa gelada.

Sob o tecido de lã, Jimin segurou seu rosto com as mãos, acariciando as bochechas com os polegares. Jungkook o segurou pela cintura e seu coração batia acelerado quando ele roçou seus narizes, sorrindo da maneira apaixonada e abobalhada que somente Jimin conseguia fazer.

- Meu amor... – Jimin sussurrou, parecendo não conseguir suportar tudo o que sentia dentro do peito. – Ah, meu amor. Eu o quero tanto...

- Não é a mesma coisa, é? – falou e acariciou a pele de sua cintura, olhando-o no fundo dos olhos. Azul no preto. – Amar e desejar.

Ele riu, um pouco rouco.

- Quase a mesma coisa, sassenach. Para mim, pelo menos.

O peito de Jungkook contorcia-se com toda a imensidão de sentimentos que Jimin provocava. Quase podia sentir o ar lhe faltar, fitando-o contra a luz enquanto o sol refletia sobre o cabelo dourado. Agora, mais do que antes, ele se assemelhava a um perfeito anjo do Senhor. Um anjo enviado para torná-lo o homem mais feliz do mundo.

Jimin voltou a fitar seus lábios ainda inchados pelo beijo anterior e levou um dos dedos até lá, tocando-os com fascínio.

- Eu amo você.

Jungkook se arrepiou por inteiro, abrindo a boca para soltar um pequeno suspiro involuntário.

- Eu também. – sussurrou em resposta. – Amo você mais do que tudo.

E era verdade. Porque Jungkook desistira de tudo por ele. De tudo, e não conseguia imaginar sacrifício e prova de amor maior do que essa.

Jimin estremeceu, parecendo ter desaprendido a respirar por alguns instantes. Depois, eles olharam para a boca um do outro ao mesmo tempo, ansiosos pelo momento em que estariam juntas novamente.

- Diz de novo. – ele pediu.

- Eu amo você.

- Mais do que tudo?

- Mais do que tudo.

Foi o suficiente para Jimin. Sorriu com a mais genuína felicidade, massacrando Jungkook com toneladas e mais toneladas de sentimentos. Então, ele retirou as mãos de seu rosto e levou-as até suas pernas, fazendo que iria levantá-lo.

- Segure-se em mim. – disse.

Jungkook contornou-o no pescoço, ainda mantendo-os protegidos pelo manto de lã. Jimin o levantou e o segurou no colo, e Jungkook contornou sua cintura com as pernas ao passo em que sentia as mãos já tão conhecidas apertarem-lhe a bunda sobre a calça.

Começaram a se afastar da casa, com Jimin levando-os em direção a um aglomerado de casebres à sombra do bosque de olmos.

- Aonde estamos indo? – perguntou mesmo que já soubesse, divertindo-se com a situação.

- Encontrar um monte de feno.

Gradualmente, Jungkook encontrou seu próprio lugar na engrenagem da propriedade.

Como Jihyun já não conseguia fazer longas caminhadas até as cabanas dos colonos, ele mesmo começou a visitá-los, às vezes acompanhado de um cavalariço, às vezes de Jimin, de Hoseok, de Taehyung, mas nunca sozinho por questões de sua própria segurança como sendo um inglês recém-chegado. Levava alimentos e remédios, tratava os doentes da melhor forma que lhe era possível e fazia sugestões para a melhoria da saúde e da higiene, que eram recebidas com variados graus de boa vontade.

Na própria Kimura, ele bisbilhotava pela casa e adjacências, sempre à procura de algo para fazer, em geral nas hortas e nos jardins. Além do pequeno e adorável jardim ornamental, a mansão possuía um pequeno, de ervas medicinais, e uma enorme horta, que fornecia nabos, repolhos e abóboras.

Já Jimin estava em toda parte; no gabinete com os livros de contabilidade, nos campos com arrendatários e com Hoseok, e na estrebaria com Taehyung, compensando o tempo perdido da forma que fosse possível. No entanto, Jungkook achava que havia mais do que dever ou interesse nisso também.

Não poderiam ficar ali para sempre. Logo teriam de partir até que tivessem certeza de que o Duque de Sandringham cumprira sua parte no acordo e enviara a acusação. Jimin deveria estar querendo deixar tudo funcionando de tal forma que continuasse a funcionar enquanto estivesse fora, até que pudesse voltar definitivamente.

Jungkook sabia que teriam de ir embora, mas cercado pela casa, pelos arredores tranquilos de Kimura e da companhia de Taehyung, Hoseok, do jovem Jungmin e da irônica e sarcástica (além de um pouco temperamental) de Jihyun; sentia como se tivesse finalmente encontrado um lugar que poderia vir a chamar de lar no futuro.

Porém, sabia que ainda demoraria para o dia da partida chegar. Além dos motivos de Jimin, seu ciclo também estava se aproximando. Avisara Jihyun sobre isso durante uma tarde, enquanto ambos trabalhavam na horta, e o Park lhe garantira de que poderiam usar o quarto do Senhor para tal.

- O ideal deveria ser você passar o ciclo em uma cabana separada igual a mim, para o bem das crianças e também para evitar constrangimentos. – disse ele, bufando em irritação por não poder ser dessa forma. – Até poderia lhe deixar usar o meu refúgio, mas ele está impregnado com o meu cheiro e com o de Taehyung. E, acredite, essa é a pior coisa a qual você pode submeter um ômega durante o ciclo: o cheio de terceiros. – então, ele franziu o cenho e voltou-se para Jungkook, encarnado seu pescoço de maneira analítica. – Se bem que você não foi marcado ainda... Mas, bom, é melhor não arriscar.

Por passarem bastante tempo juntos, Jihyun e Jungkook acabaram se acostumando (de certa forma) à presença um do outro. Não sabia ao certo se poderia se referir ao que tinham como "amizade", estava mais para um "companheirismo amistoso".

No entanto, eram suficientemente próximos para que Jungkook notasse o quanto Jihyun desaprovava o fato de que não fora marcado, ainda que ele não dissesse aquilo com todas as palavras. Sempre trazia o assunto à tona, procurando ser discreto e aparentando mencionar o assunto como um mero acaso, mas Jungkook tinha plena consciência do tom acusador que ele usava ao fazê-lo. Jimin nem mesmo parecia se dar conta das segundas intenções do irmão quando conversavam sobre a marca, mas Jihyun era esperto o suficiente para deixá-lo desconfortável somente com uma mera menção. Entretanto, Jungkook era tão esperto quanto e desviava do assunto num passe de mágica.

Não que ainda não houvesse pensado sobre isso (porque, na verdade, andava ponderando muito sobre a questão), mas somente não queria se sentir pressionado a aceitar a marca pela vontade dos outros. Afinal, somente a permitiria no momento em que tivesse total certeza de que era aquilo que desejava, mesmo com todos os riscos que viriam com ela após o ato.

Infelizmente, a marca não era a única coisa não resolvida para eles. A perseguição de Jimin pelas patrulhas inglesas, ainda que seguros em Kimura pela lealdade dos arrendatários, era como uma ferida não cicatrizada, voltando a doer de tempos em tempos.

Em uma manhã, depois do desjejum, Jimin ergueu-se da mesa, anunciando que pretendia ir até o vale, próximo dos limites das terras. Iria ver um cavalo que Martin Mack desejava vender e também aproveitaria para conversar com os moradores daquele lado, procurando fazê-los continuar se sentindo parte de Kimuragaruke e do clã Park.

Jihyun o encarou com a testa franzida.

- Acha seguro, Jimin? Tem havido patrulhas inglesas em toda aquela região nos últimos meses.

Ele deu de ombros, pegando o casaco da cadeira onde o deixara.

- Terei cuidado.

- Ah, Jimin. - disse Taehyung, entrando na sala de jantar pela porta naquele momento. Segurava uma braçada de lenha para a fogueira. - Queria lhe perguntar: você pode ir até o moinho hoje, antes de ir até as fronteiras? Jock esteve lá ontem e disse que alguma coisa estava errada com a roda. Eu dei uma olhada rápida, mas nós dois juntos não conseguimos movê-la. Acho que há alguma sujeira presa nas engrenagens do lado de fora, mas fica bem dentro da água.

Hoseok, sentado à mesa enquanto ainda terminava seu café, olhou para Taehyung com uma das sobrancelhas levantadas.

- É muito sério? - perguntou. - Eu posso ir junto, se necessário.

Taehyung dispensou suas palavras com um aceno de mão assim que se livrou da pilha de lenha que segurava, colocando-a próxima à lareira.

- Preciso de sua ajuda com aquele outro problema com os Finn.

Hoseok pareceu se recordar desse fato e assentiu, retornando à sua xícara de café logo em seguida.

- Enquanto a mim - Taehyung continuou a falar, virando-se para Jungkook. Sorriu e bateu com a perna de pau no chão, fazendo graça. -, ainda posso andar com isso, graças a Deus. E também montar um bom cavalo e fazer outras coisas bem mais praz...

Inuzuka Taehyung. - Jihyun o cortou, prevendo que o marido falaria algo de cunho sexual.

Taehyung riu baixinho, aproximando-se da mesa para roubar um pedaço de bolo e acariciar o cabelo de Jungmin, sentado ao lado de Jihyun.

- De qualquer forma, não consigo nadar. - explicou para Jungkook. - Fico girando em círculos feito um inseto.

Jimin acabou rindo com a descrição do cunhado e colocou o casaco sobre a cadeira de novo.

- Não deve ser tão ruim assim, Taehyung. Pelo menos esse aspecto o impede de mergulhar em um lago congelado para retirar o que quer que seja que está impedindo a roda d'água de girar. E sim, eu irei salvar Kimura no seu lugar, meu amigo. - fez uma feição divertida e Taehyung riu, acompanhado de um revirar de olhos de Jihyun.

Depois, Jimin se voltou para Jungkook.

- Quer ir comigo, sassenach? Está uma linda manhã e você pode trazer sua "cestinha". - lançou um olhar irônico a uma enorme cesta de palha que Jungkook usava para colher plantas para seus remédios. - Vou trocar minha camisa. Já volto. - com isso, ele se virou e dirigiu-se às escadas, subindo os degraus para o andar dos quartos.

Taehyung o observou se afastar e suspirou, colocando as mãos na cintura.

- É bom tê-lo de volta. - disse, sincero.

Jihyun concordou, apoiando o rosto sobre uma das mãos. Parecia abatido e observou Jungmin tentar comer um pequeno pedaço de pão sem fazer muita bagunça, falhando miseravelmente.

- Quem dera eles pudessem ficar... - Jihyun murmurou.

Os olhos meigos de Taehyung voltaram-se para o marido em espanto, logo se direcionando a Jungkook.

- Não estão pensando em ir embora já, não é?

Jungkook balançou a cabeça.

- Não, não imediatamente. Mas teremos de partir bem antes da neve chegar.

- Jimin pretende ir até Beauly. – disse Hoseok, que conversara com Jimin e Jungkook sobre esses assuntos recentemente. – Quer ver se o seu avô, Lorde Lovat, pode ajudá-lo com a questão de sua cabeça a prêmio. E, se não, ao menos aquele homem poderia arranjar a entrada deles na França.

Taehyung assentiu, mais tranquilo.

- França, hein? Ah, sim. Mas ainda têm algumas semanas.

Era um belo e luminoso dia de outono; o ar pungente como a cidra e um céu tão azul que seria possível afogar-se nele. Caminhavam devagar pelos campos, com Jungkook atento a alguns pés de madressilvas silvestres e cardos temporãos, e conversavam descontraidamente.

- Semana que vem teremos o Dia do Trimestre. – observou Jimin. – Sua roupa nova vai ficar pronta até lá?

- Acho que sim. Por quê? É uma ocasião especial?

Ele sorriu para Jungkook, segurando a cesta enquanto o outro se inclinava para colher um talo de tanásia.

- Ah, de certa forma, sim. Não é nada como os grandiosos eventos de Min-Ki, sem dúvida, mas todos os colonos de Kimura virão pagar seus aluguéis... – seu sorriso aumentou. – e também prestar suas homenagens aos novos Senhores da propriedade.

Jungkook sentiu os ombros tencionarem diante da revelação, mas cuidou para camuflar qualquer desconforto ou sentimento de hesitação. Tinha consciência de que o dia em que seria apresentado como Senhor de Kimuragaruke chegaria, mas continuava sendo um evento que ele gostaria de evitar ao máximo. Continuou a prestar atenção em sua tarefa de cortar as tanásias, colocando as flores no cesto em seguida.

- Imagino que as pessoas ficarão surpresas por você ter se casado com um inglês. – disse, neutro.

- Acredito que alguns ficarão decepcionados com isso; namorei um ômega ou dois pelas redondezas antes de ser preso e levado para For William.

- Lamenta não ter se casado com alguém do local?

- Se acha que eu irei dizer “sim” com você aí, parado, segurando uma faca – observou ele. –, você tem uma opinião menos lisonjeada sobre o meu bom senso do que eu imaginava.

Jungkook acabou sorrindo e virou-se para ele, ainda agachado sobre o chão. Largou a faca, deixando-a sobre a grama, e ergueu as mãos em um ato teatral para mostrar que não segurava nenhuma arma mortífera.

Jimin riu.

- Não, não lamento de nada, sassenach. – ele falou, depois. – Eu amo você, inglês ou não, e os arrendatários terão de lidar com isso se quiserem ser bem tratados por mim.

- Hum.

A reação neutra de Jungkook fez Jimin rir outra vez, divertindo-se com sua falta de emoção proposital, mesmo que, ao observá-lo pegar a faca novamente e retornar a cortar as flores, podia ver perfeitamente o leve corado de suas bochechas.

- Quanto a esses ômegas que já namorou... – Jungkook falou, após refletir. – como tinha certeza de que eles não eram os certos para você e permaneceu virgem até seu casamento?

- A faca.

Foi inevitável rir e Jungkook não demorou a se erguer, colocando as últimas tanásias no cesto, assim como a faca tão temida. Quando deixou esta, olhou fixamente para Jimin, desafiando-o a não acreditar em sua inocência como sendo um marido calmo e não ciumento.

- Obrigado. – disse Jimin, dramático. – Sinto-me mais confortável com você longe de coisas afiadas.

Jungkook lhe deu um soco leve no braço, fazendo-o rir baixinho.

Retornaram com a caminhada e seu marido estreitou os olhos ao olhar para o sol da manhã, pensando no que dizer.

- Minha mãe foi a culpada, sabe? – falou. – Além de me falar para me guardar para a pessoa certa, ela também me disse, um dia, enquanto andávamos pelos campos em um final de tarde, que um alpha tem que ser responsável por qualquer semente que plantar, porque é seu dever proteger um ômega e cuidar dele. Se eu não estivesse preparado para isso, não tinha o direito de sobrecarregar um ômega com as consequências da minha falta de senso e imaturidade.

Jimin olhou para trás, para a casa, depois em direção ao pequeno cemitério da família perto da torre, onde seus pais estavam enterrados.

- Ela me disse que a melhor coisa na vida de um alpha é se deitar com a pessoa que ama. – disse ele, em voz baixa. Voltou-se para Jungkook e sorriu; os olhos tão azuis quanto o céu acima dos dois. – Ela estava certa.

Jungkook também sorriu e pegou a mão dele que não segurava o cesto, entrelaçando seus dedos enquanto continuavam a andar.

- No entanto, acredito que ela não esperava que você levasse tanto tempo para se casar. – falou com graça. – Deve ter sido difícil para você.

Jimin gargalhou alto; o kilt batendo em seus joelhos com a brisa energética do outono.

- Bem – disse, assim que as risadas acabaram e ele quase ficou sem ar. –, a Igreja nos ensina que a masturbação é um pecado, mas minha mãe achava que se fosse preciso escolher entre masturbar-se ou abusar de um ômega, um alpha honrado deveria escolher fazer o sacrifício.

Jungkook abriu a boca em choque ao passo que em que sorria enormemente, não conseguindo evitar de achar a frustração sexual de Jimin ao longo da vida completamente hilária. Então, um pensamento lhe ocorreu e ele estreitou os olhos em sua direção, desconfiado e malicioso.

- Quando ainda não tínhamos nos casado, você já se masturbou pensando em mim?

Os olhos de Jimin se arregalaram e ele ficou completamente vermelho. Desviou o olhar para o lado e pigarreou, murmurando com constrangimento:

- Prefiro não responder a essa pergunta.

Era um sim. E Jungkook o fitou com falsa recriminação, arqueando as sobrancelhas e esforçando-se para não rir.

Quando Jimin se voltou para ele, bufou e soltou suas mãos, afastando-se para bagunçar o cabelo em uma maneira de acalmar a mente.

- Não pode me julgar. – defendeu-se, nervoso. – Quero dizer, olhe só para você! Você é simplesmente a encarnação de todos os meus desejos sexuais! Não pode me julgar por acabar precisando me aliviar em algumas ocasiões...

- Algumas ocasiões? – agora, Jungkook estava muito curioso. – Quando você já se masturbou pensando em mim?

Jimin o encarou com de uma maneira engraçada.

- É óbvio que eu não irei dizer. Irei para o túmulo guardando esse segredo, isso sim.

- Pelo menos me diga uma. – pediu, fitando-o profundamente.

- Não. – negou com a cabeça, dando maior veemência às palavras. – Nunca. Nem pensar. Pode esquecer.

E, percebendo que ele estava realmente disposto a carregar aquele segredo até a morte, Jungkook mexeu a cabeça em negação e sorriu ladino. Acenou para que Jimin voltasse a se aproximar e eles voltaram a dar as mãos, caminhando lado a lado.

- Mas, apesar das dificuldades, você realmente continuou virgem. – disse, retomando a conversa. – Sua mãe ficaria orgulhosa.

- Continuei estritamente pela graça de Deus e de Yeri, sassenach. – falou, sorrindo amarelo ao olhar para baixo. – Não pensava em mais nada a não ser em ômegas quando fiz 14 anos. Mas foi nessa época que fui enviado para morar com Kwan, em Beannachd.

- Não havia ômegas e betas mais ao menos da sua idade por lá? – perguntou. – Pensei que Kwan tivesse vários filhos além daqueles que conheço.

- Sim, tem. Quatro além das duas que vimos em Leoch. Os dois mais novos são alphas, mas a mais velha era ômega e era a mais bonita. Sayuri era um ou dois anos mais velha do que eu. E não era nenhum um pouco interessada em mim, acho. Eu costumava ficar olhando fixamente para ela à mesa do jantar e ela me olhava com desdém e perguntava se eu não estava com catarro. Porque se estivesse, deveria ir para a cama, e se não, ela ficaria muito grata se eu fechasse a boca, porque não queria ficar olhando para as minhas amídalas enquanto comia.

- Estou começando a ver por que você continuou virgem. – disse em tom de zombaria e Jimin riu, concordando com o que falara. – Mas não é possível que todos fossem iguais a ela.

- Não. – disse, pensativo. – Não eram. Um dos irmãos do meio de Sayuri, Akira, era mais amistoso. – ele sorriu, recordando-se de lembranças antigas. – Akira foi o primeiro garoto que beijei. Ou talvez devesse dizer, o primeiro garoto que me beijou. Eu estava carregando dois baldes de leite para ele, do curral para a leiteira. Tentava formular um plano de como iria pegá-lo atrás da porta, onde não havia espaço para fuga, e beijá-lo. Mas minhas mãos estavam ocupadas e ele teve que abrir a porta para que eu passasse. Por tanto, eu é que acabei atrás da porta e foi Akira que se aproximou de mim, me pegou pelas orelhas e me beijou. Fiquei tão surpreso que derramei todo o leite no chão.

- Parece ter sido uma primeira experiência memorável. – comentou, rindo ao imaginar a bagunça que os dois deveriam ter feito.

- Duvido que tivesse sido a primeira dele. – falou, rindo também. – Ele sabia muito mais do assunto do que eu. Mas não chegamos a praticar muito; um ou dois dias depois a mãe dele nos pegou na despensa. Ela não fez mais do que me lançar um olhar penetrante e dizer a Akira para pôr a mesa do jantar, mas deve ter contado para Kwan.

- Kwan deve ter ficado furioso quando descobriu.

- Ele ficou, pode ter certeza. – Jimin estremeceu somente de se lembrar. Lançou um olhar de esguelha para o outro, encabulado. - Você sabe que nós, homens, às vezes acordamos... hum, duros pela manhã, não é?

Jungkook franziu o cenho, perguntando-se aonde aquela conversa iria parar.

Jimin prosseguiu com a história:

- Bem, na manhã seguinte, depois que a mãe de Akira nos pegou, eu acordei... é. - indicou o meio de suas pernas com uma aceno de cabeça. - Eu tinha sonhado com Akira, e meio que não fiquei surpreso de sentir uma mão no meu pau quando abri os olhos. O que me surpreendeu é que... a mão não era minha.

- E era de Akira?

- Não, não era. Era do pai dele.

Jungkook parou de andar, voltando-se para ele com surpresa.

- Kwan?! O quê?

- Arregalei tanto os olhos quando o vi sentado na cama que eles quase saíram das órbitas. Kwan sorriu para mim, muito satisfeito. Então, tivemos uma boa conversa. Tio e sobrinho, pai adotivo e filho adotivo... - suspirou. - Ele falou como toda a sua família gostava de mim e tal. E como ele detestaria pensar que eu pudesse tirar vantagem de sentimentos tão belos e inocentes quanto seus filhos deveriam ter por mim. E também como, é claro, ele estava tão contente por poder confiar em mim como confiaria em seu próprio filho.

- Tudo isso enquanto segurava-o pelo pau. - disse, e um pequeno riso acabou escapando de seus lábios ao imaginar a cena.

- Tudo isso enquanto me segurava pelo pau. - Jimin concordou, o rosto corado. - E ele também tinha uma adaga na outra mão; fez questão de deixá-la bem visível durante a conversa. Eu ficava dizendo: "Sim, tio" e "Não, tio". E, quando ele saiu do quarto, enrolei-me na colcha e sonhei com porcos castrados.

Jungkook já ria alto àquela altura.

- Porcos castrados? - falou entre gargalhadas, puxando-o para perto pela mão e enlaçando seu braço junto ao dele.

- Pois é. Não beijei mais ninguém de novo até os 16 anos, quando fui para Leoch.

Jungkook continuou rindo e Jimin o olhou, um sorriso doce nos lábios. Seus cabelos, como de costume, estavam espetados no alto da cabeça, com reflexos amarelos e dourados no ar límpido e frio. Sua pele bronzeada adquirira um tom dourado durante a viagem de Leoch para Craigh na Dun, e ele parecia uma folha de outono, voando alegremente ao vento.

- E quanto a você, meu lindo sassenach? - perguntou ele. - Os rapazes e as damas ficavam arfando nos seus calcanhares ou você era tímido e recatado?

Jungkook respirou fundo ao parar de rir e passou a mão pelo cabelo, puxando-o para trás.

- O que você acha?

- Acho que você sempre teve muitos admiradores desde que era apenas um garotinho. - deu de ombros. - É fácil se apaixonar por você.

Jungkook sorriu pequeno para ele, acariciando o braço de Jimin entrelaçado ao seu.

- Meu primeiro beijo aconteceu um pouco menos do que com você. - contou. - Eu tinha 8 anos.

- Por Jezebel! Quem foi o sortudo?

- O filho do intérprete. Foi no Egito. Ele tinha 9 anos.

Jimin fez um barulho de desaprovação com a boca.

- Desencaminhado por um homem mais velho... - murmurou, fingindo indignação. - E um maldito pagão, ainda por cima.

Jungkook encostou seus ombros e o empurrou de leve, acabando por fazê-lo rir.

- Éramos crianças, Jimin, foi apenas um selinho. - defendeu-se, mesmo que não fosse necessário. Sorriu cruel. - E eu não acordei duro no outro dia, igual a certas pessoas.

Jimin o fitou com a boca aberta, ofendido e indignado.

- Ora, ora, parece que me casei com uma víbora, senhores.

Jungkook acenou em concordância, aceitando o título com orgulho.

- Uma víbora com muito veneno, meu caro. - disse. - Se eu fosse você, tomaria cuidado sempre que resolvesse contar uma história de si mesmo tendo sonhos eróticos com terceiros.

Ao contrário do que imaginou, Jimin pareceu levar a sério o que falara. Sua feição divertida tornou-se séria e ele o encarou com pesar.

- Você se sentiu incomodado pelo que eu disse? Eu não quis...

- Ei, era brincadeira. - garantiu, interrompendo-o.

- Ah. - ele sorriu, aliviado.

- Gosto das suas histórias. - admitiu.

O sorriso de Jimin aumentou.

- Também gosto das suas.

Então, o moinho surgiu lá embaixo, belo como numa pintura. Trepadeiras vermelho-escuras subiam na lateral da parede de argamassa amarela e as persianas estavam abertas para a luz do dia, bem arrumadas apesar da pintura verde desbotada. A água jorrava alegremente pela barragem sob a roda d'água parada no açude do moinho. Havia até aves no lago da barragem, marrecos e patos selvagens fazendo uma pausa para descanso de sua rota para o sul.

Eles pararam sobre o relevo alto que vinha antes da descida até o moinho, observando a paisagem com admiração.

- É lindo, não? - disse Jimin. - Seria bem mais bonito se a roda d'água estivesse funcionando, na verdade. Eu costumava nadar aqui quando era garoto; há um lago depois da curva do riacho.

Um pouco abaixo da colina Jungkook avistou o lago, visível em meio aos salgueiros. As crianças também. Havia quatro, brincando, espalhando água e gritando, todas nuas.

Jungkook estremeceu ao avistá-las. O tempo estava bom para o outono, mas havia uma friagem no ar e estava mais do que satisfeito por ter resolvido levar um xale.

- Brr... - murmurou. - Fico gelado só de vê-los.

- Ah, é? - disse Jimin. - Bem, deixe-me esquentá-lo.

Com um olhar para as crianças no riacho, ele recuou para a sombra de uma enorme castanheira. Deixou a cesta no chão e passou as mãos pela cintura de Jungkook, puxando-o para junto dele na meia-luz.

Jimin se encostou contra a árvore e Jungkook se pôs entre as suas pernas, segurando-o pelas laterais do rosto enquanto sentia as mãos apertarem sua própria cintura.

- Você não foi o primeiro que beijei. - Jimin disse, docemente. - Mas juro que será o último.

E ele inclinou o rosto, selando seus lábios.

Depois que o moleiro saiu por uma das portas do moinho e eles foram rapidamente apresentados, Jungkook se retirou para a margem do açude e Jimin passou vários minutos ouvindo uma explicação do problema partindo do homem. Então, o moleiro retornou a entrar na moenda para tentar girar a grande mó de pedra pelo lado de dentro.

Jimin, do lado de fora, parou um instante, fitando as águas fundas e cheias de ervas daninhas. Até que, com uma contração dos ombros em resignação, pareceu assumir a derrota e começou a se despir.

- Não tem jeito. – observou ele, para Jungkook. – Taehyung tem razão; há alguma coisa presa na roda embaixo da repressa. Vou ter que descer e... – Jimin parou de falar quando Jungkook camuflou uma risada ao ver o que ele usava por debaixo do kilt. Voltou-se para onde o marido estava sentado, bem na margem do açude ao lado de sua cesta. – E o que há de errado com você? Nunca viu um homem de ceroulas antes?

- Não iguais a estas. – disse em tom de zombaria e não demorou a rir quando Jimin despiu-se por completo, passando a usar somente as ditas ceroulas.

Precavendo-se contra a necessidade de mergulhar na água fria, Jimin vestira por debaixo do kilt uma espécie de calção incrivelmente antiquado, originalmente de flanela vermelha, agora manchado com uma surpreendentemente variedade de cores e matizes. Obviamente, aquele par de ceroulas pertencera a alguém com muitos centímetros a mais na cintura do que ele, pois as laterais pendiam precariamente de seus quadris, formando bolsas sobre sua barriga bem trabalhada.

- Do seu avô? – Jungkook arriscou, fazendo um esforço extremamente malsucedido de reprimir o riso. – Ou é da sua avó?

- Do meu pai. – disse ele, friamente, olhando-o com desdém como se o desafiasse a chamá-lo de feio usando aquilo. – Não espera que eu nade pelado como um ovo diante de meu marido e dos meus inquilinos, não é?

E com considerável dignidade, ele recolheu o excesso de pano com uma das mãos e foi entrando na barragem. Seu rosto se contorceu em uma careta conforme entrava mais fundo, provavelmente por conta da baixa temperatura da água. No momento em que somente sua cabeça estava de fora, Jimin começou a caminhar para se aproximar da roda d’água.

Quando estava a uma distância considerável, ele tomou posição e, em seguida, com uma respiração funda, aprumou-se e mergulhou na água enlameada e repleta de plantas aquáticas. A última visão que Jungkook teve dele foram os fundilhos inflados das ceroulas de flanela vermelha, o que lhe causou outra crise de risos.

O moleiro, debruçado à janela da casa do moinho, gritou palavras de encorajamento e instruções quando Jimin retornou à superfície tempos depois, à procura de ar. E isso se repetiu várias vezes, demonstrando que Jimin estava tendo dificuldades em encontrar aquilo que prendia a roda.

As margens do reservatório eram cobertas de plantas e Jungkook ficou remexendo-a com sua vara de escavar, à cata de raízes de malva e das folhas finas da filipêndula. E ele já tinha a cesta cheia pela metade quando ouviu um pigarro educado às suas costas.

Era uma senhora muito idosa, ou ao menos assim parecia. Apoiava-se numa vara de pilriteiro, enrolada em roupas que deveria usar havia vinte anos, atualmente volumosas demais para a figura encarquilhada e encolhida que a habitavam agora.

- Bom dia. – disse ela, maneando a cabeça sem parar. Usava uma espécie de toca branca e engomada que escondia a maior parte de seus cabelos, mas alguns fios grisalhos projetavam-se para fora, ao lado das faces encarquilhadas como maçãs secas.

- Bom dia. – Jungkook respondeu, e a mulher não esperou para avançar até ele e se sentar ao seu lado com uma surpreendente graciosidade. – Eu sou...

- Deve ser o novo Senhor, é claro. Sou a Sra. Chiyo, Vovó Chiyo, como me chamam, sendo todas as minhas noras Sras. Chiyo também. – estendeu a mão escarnada e puxou a cesta de Jungkook para perto dela, espreitando o seu conteúdo. – Raiz de malva... ah, essa é boa para tosse. Mas não vai querer usar esta, senhor. – cutucou um pequeno bulbo marrom. – Parece raiz de lírio, mas não é.

- Sério? Tinha certeza de que era. – Jungkook se aproximou, surpreso, ainda que um pouco incomodado pela forma como aquela mulher parecia não se importar em tocar em coisas que não eram suas.

A Vovó Chiyo riu, com graça.

- Oh, meu senhor, essa raiz engana até os melhores botânicos. É ofioglosso, na realidade. Coma um desses e estará rolando pelo chão, contorcendo-se de dor.

Ela tirou o tubérculo da cesta e atirou-o no reservatório, fazendo a água respingar com o impacto. Colocou a cesta em seu próprio colo e examinou habilmente as demais plantas, enquanto Jungkook a observava com um misto de irritação e divertimento. Finalmente satisfeita, devolveu-a para ele.

- Bem, você não é nenhum bobo para um sassenach. – observou ela. – Pelo menos, sabe diferenciar betônica de fedegoso. – lançou um olhar para o açude, onde a cabeça de Jimin apareceu por um instante, lisa e lustrosa como uma foca, antes de desaparecer outra vez sob a água. – Vejo que o Senhor de Kimura não se casou com você apenas pelo seu rosto bonito.

Jungkook agradeceu com um aceno de cabeça, resolvendo aceitar aquelas palavras como um elogio. Os olhos da velha senhora, penetrantes como agulhas, vagaram pelo seu ventre, logo caminhando para seu pescoço e assumindo uma feição pensativa.

- Ainda não está grávido? – perguntou ela. – Folhas de framboesa. Amoleça um punhado com frutos da roseira brava e beba na lua crescente, antes de ficar cheia. Depois, quando ela começar a minguar, tome um pouco de uva-espim para purificar seu útero.

- Ah, bem...

- Eu tinha um pequeno favor para pedir ao Park. – continuou ela, parecendo estar acostumada a dominar a conversa. – Mas como vejo que ele está um pouco ocupado no momento, vou falar com você sobre isso.

- Está bem. – Jungkook concordou, não vendo como poderia impedi-la de agir como bem entendesse.

- É o meu neto. – disse ela, olhando-o fixamente com os pequenos olhos cinzentos. – Meu neto Hiro, mais especificamente. Ao todo, tenho dezesseis netos e três deles de nome Hiroshi, mas um é Hishi, o outro é Roo e há o pequeno Hiro.

- Parabéns. – disse educadamente.

- Queria que o senhor empregasse o rapaz como cavalariço.

- Bem, eu não sei se...

- É o pai dele, sabe. – interrompeu ela, inclinando-se para frente como fosse lhe contar um segredo. – Não que eu ache que um pouco de firmeza com as crianças seja errado. “Poupe a vara e estragará a criança”, é o que eu digo. E o bom Deus sabe muito bem que os pequeno alphas foram feitos para apanhar ou não os teria criado com tanta parte do diabo. Mas quando se trata de empurrar uma criança na lareira e ela ficar com uma mancha roxa no rosto do tamanho da minha mão, e por nada além de pegar mais um bolinho no prato, então...

- O pai de Hiro bate nele, quer dizer? – interrompeu, querendo entender sua linha de raciocínio.

Vovó Chiyo assentiu com pesar.

- Isso mesmo. Normalmente, é claro que eu não interferiria. Um pai faz com seu filho o que achar melhor, mas... bem, Hiro de certa forma é meu nato favorito. E não é culpa do garoto se o pai é um beberrão, por mais vergonhoso que seja sua própria mãe ter de dizer isso.

Ela apontou o dedo como uma vara, em sinal de repreensão aos prováveis julgamentos que achava passar pela mente de Jungkook.

- Não que o meu próprio marido não tome uns goles a mais vez ou outra, mas nunca encostou a mão em mim e nas crianças. Ao menos, não depois da primeira vez... – acrescentou pensativa, confidenciando-lhe: – Ele me bateu uma vez. E eu peguei o ferro da lareira e acertei a cabeça dele. – ela riu com a lembrança, balançando para frente e para trás. – Achei que o tivesse matado e fiquei chorando e segurando a cabeça dele no colo, pensando o que eu iria fazer, uma viúva com dois filhos para alimentar. Mas ele se recuperou – disse, calmamente. – e nunca mais encostou a mão em mim ou nas crianças outra vez. Eu pari treze, sabe. E criei dez.

- Parabéns. – repetiu, e havia sinceridade no que dizia.

- Folhas de framboesa. – disse ela, colocando a mão no joelho de Jungkook para animá-lo. – Ouça o que eu digo, senhor, folhas de framboesa darão um jeito. E, se não, venha me ver e eu lhe prepararei uma bebida grossa feita de margaridas-amarelas e sementes de abóbora com um ovo cru batido. Vão levar a semente do seu alpha diretamente para seu útero, sabe, e estará redondo como uma abóbora quando a Páscoa chegar.

Jungkook procurou mudar de assunto o quanto antes, desconfortável por estarem conversando sobre sua aparente esterilidade.

- Hum. E você quer que Jimin, hum, o Senhor, quer dizer... contrate seu neto como cavalariço para afastá-lo do pai, que é seu filho?

- Sim, isso mesmo. Hiro é muito trabalhador e fará sempre o que...

De repente, a mulher parou de falar e seu rosto ficou paralisado quando seu olhar encontrou algo atrás de Jungkook. E virando-se para olhar por de cima do ombro, também ficou paralisado com o que viu.

Soldados ingleses. Dragões vermelhos, seis deles, a cavalo, descendo cuidadosamente a colina em direção ao moinho.

Antes que pensasse no que fazer e com admirável agilidade, Vovó Chiyo se levantou para pegar as roupas de Jimin com pressa e colocou-as sob sua bunda quando retornou a se sentar, tornando-as escondidas pelas camadas de tecido que vestia.

Ouviu-se um barulho de água e uma respiração explosiva no açude quando Jimin veio à superfície outra vez. Jungkook teve medo de gritar ou se mover, atraindo a atenção dos soldados para a barragem, mas o repentino silêncio que se seguiu o fez virar a cabeça para vê-lo observando os dragões ao longe, o rosto pálido sobre a água e a respiração acelerada.

Merda. – Jimin sussurrou. E respirou profundamente uma última vez antes de retornar para dentro do lago da barragem.

Jungkook e Vovó Chiyo ficaram sentados, imóveis, o rosto impenetrável, observando os soldados descerem a colina. No derradeiro instante, quando estavam extremamente perto, ela se virou rapidamente para Jungkook e colocou um dedo sobre os lábios ressequidos. Ele entendeu o que ela quisera dizer, que não deveria falar nenhuma palavra, ou logo perceberiam que era um inglês pelo sotaque; mas não teve tempo de assentir quando os cascos enlameados dos cavalos pararam a alguns passos de distância.

- Bom dia, senhores. – disse o líder dos soldados. Era um cabo, mas não a cabo Hawkins de Yoon, o que Jungkook ficou feliz em constatar. Um olhar rápido mostrou a ele que nenhum daqueles homens o vira em Fort William, e isso fê-lo relaxar um pouco a mão que segurava a alça da cesta.

- Vimos o moinho lá de cima. – falou o líder. – E eu pensei em talvez comprar uma saca de farinha. – ele dividiu uma mensura entre os dois, não sabendo a quem se dirigir.

A Sra. Chiyo foi fria, mas educada:

- Bom dia. – disse, inclinando a cabeça. – Mas se veio à procura de farinha, receio que ficará decepcionado. A roda do moinho não está funcionando no momento. Talvez na próxima vez que passar por aqui.

- Ah, é mesmo? O que há de errado? – o cabo, um homem jovem e baixo, com uma compleição jovial, pareceu interessado. Desceu do cavalo, entregando as rédeas para um de seus companheiros, e caminhou até a margem da barragem para olhar atentamente a roda d’água.

Jungkook viu de relance o moleiro aparecer na janela do moinho, prestes a gritar novas instruções para Jimin. Porém, assim que avistou os casacas vermelhas, recuou repentinamente, escondendo-se para dentro da construção.

O cabo chamou um de seus companheiros, uma mulher alta e forte. Os dois subiram o barranco de terra próximo à roda e ao moinho, e ele gesticulou para o outro soldado, que obedientemente se agachou para que o cabo pudesse subir em suas costas. Esticando-se, o homem conseguiu agarrar-se à beira do telhado da construção com as duas mãos. Com um impulso, subiu no teto de sapê.

De pé, ele mal conseguia tocar a borda da enorme roda. Esticou-se e balançou-a com as duas mãos. Depois, inclinando-se para baixo, gritou para o moleiro, através da janela, para tentar girar a mó à mão.

Jungkook se obrigou a manter os olhos afastados do fundo do açude. Não sabia muito sobre o funcionamento de rodas d’água, mas temia que, se ela cedesse repentinamente e voltasse a funcionar, qualquer coisa próxima às engrenagens submersas poderia ser esmagada.

Aparentemente, esse não era um temor infundado, porque a Sra. Chiyo pareceu pensar na mesma coisa quando falou rispidamente para um dos soldados que estava perto dos dois:

- Você deveria mandar seu chefe descer, rapaz. Não vai adiantar nada para ele, nem para o moinho. Não deviam se meter com o que não entendem.

- Ah, não precisa se preocupar, senhora. – disse o soldado, descontraidamente – A mãe do cabo Silver possui um moinho de trigo em Hampshire. O que o cabo não entende de rodas d’água caberia no meu sapato.

A Sra. Chiyo e Jungkook trocaram olhares de espanto.

O cabo, depois de algumas idas e vindas ao telhado, e de tentativas exploratórias remexendo e cutucando a enorme engrenagem, desceu para onde estavam sentados. Suava copiosamente e limpou o rosto vermelho com um lenço grande e sujo antes de se dirigir aos dois inocentes camponeses escoceses sentados à beira do açude.

- Não posso movê-la de cima e esse moleiro idiota parece não falar nenhuma palavra de inglês. – olhou para a vara firme da Sra. Chiyo e para suas pernas tortas, depois para Jungkook. – Talvez o rapaz aqui pudesse vir e falar com ele por mim, sim?

A velha senhora estendeu a mão num gesto protetor à frente de Jungkook, intervindo firmemente:

- Vai ter que desculpar meu genro, senhor. Ele ficou meio perturbado da cabeça desde que seu último filho bebê nasceu morto. Não diz uma palavra há mais de um ano, o pobre rapaz. E não posso deixá-lo sozinho um só segundo, com medo de que ele se atire na água em sua tristeza.

Engolindo seu orgulho, Jungkook fez o melhor possível para parecer meio traumatizado e perturbado, balançando o corpo enquanto desviava dos olhares alheios como se tivesse medo.

O cabo pareceu desconcertado.

- Ah. – disse ele. – Bem... – com isso, andou de um lado para o outro pela borda do açude, ainda franzindo a testa e olhando para a água. Olhava exatamente da mesma forma como Jimin fizera antes e aparentemente chegara à mesma conclusão: - Não adianta, Collins. – disse à mulher que o acompanhara. – Vou ter que mergulhar e ver o que prende a roda.

O homem tirou o casaco vermelho dos dragões da cavalaria e começou a desabotoar os punhos da camisa. Jungkook trocou um olhar aterrorizado com a idosa ao seu lado. E ele estava quase recorrendo, sem muito otimismo, a tentar encenar um ataque epilético para desviar a atenção dos outros, quando, de repente, a roda d’água rangeu repentinamente.

Com o som de uma árvore sendo abatida, o grande arco fez uma súbita meia-volta, parou por um instante, depois começou a girar regularmente; as pás vertendo alegremente brilhantes riozinhos dentro da barragem.

O cabo parou no meio do ato de se despir, olhando admirado para o arco da roda.

- Veja só, Collins! O que será que estava preso na roda esse tempo todo?

Como resposta, algo apareceu sobre a água, passando a flutuar majestosamente de acordo com o ritmo das ondas formadas pelo movimento mecânico.

Eram as ceroulas do pai de Jimin. E um dos soldados que também descera do cavalo as pescou com uma vareta, entregando-as cuidadosamente ao seu comandante. O cabo as pegou como um homem obrigado a pegar um peixe morto.

- Hummm. – resmungou ele, erguendo a peça do vestuário com um ar crítico. – De onde será que saiu isso? Deve ter ficado preso no eixo. É engraçado como algo assim pode causar tanto problema, não é, Collins?

- Sim, senhor. – respondeu a mulher com certo tédio, obviamente não compartilhando do mesmo gosto por moinhos e suas engrenagens como seu superior.

Depois de revirar o pano uma ou duas vezes, o cabo deu de ombros e usou as ceroulas para limpar as mãos.

- Um bom pedaço de flanela. – disse, torcendo o pano encharcado. – Vai servir para polir tachas, ao menos. Uma espécie de souvenir, não é, Collins?

Ela não o respondeu e, em seguida, o cabo fez uma mensura cortês de despedida para Jungkook e a Sra. Chiyo antes de voltar ao seu cavalo.

Mal os dragões ingleses haviam desaparecido de vista a cima da colina, um barulho de água espanada vindo do lago do moinho anunciou a subida das profundezas de Jimin.

Ele estava completamente sem sangue, azulado, parecendo mármore de Carrara por ter prendido a respiração por tanto tempo. Jungkook estava chocado por Jimin aguentar todos aqueles minutos lá embaixo e suspirou de alívio ao vê-lo tentando respirar melhor, vivo e tremendo de frio. E seus dentes batiam muito também, quase tornando impossível de se entender os xingamentos em gaélico que resmungava conforme se aproximava da margem.

Assim que o viu, a Sra. Chiyo ergueu-se educadamente e realizou uma reverência um tanto desengonçada.

Jimin, pelo visto, pretendia sair daquela água congelante o quanto antes, não se importando se estava pelado ou não, mas deteve-se ao avistar a figura da velha senhora. Agora, estava com parte do peitoral para fora da água e havia algumas plantas aquáticas sobre seus ombros largos e seu cabelo molhado.

- Sra. Ch-chiyo. – disse ele, cumprimentando sua velha locatária com um movimento de cabeça; os maxilares trancados para impedi-los de tremer tanto quanto antes.

- Senhor. – ela também o cumprimentou, inclinando-se novamente. – Um belo dia, não é?

- Ex-extremamente r-revigorante. – Jimin desviou os olhos para Jungkook, implorando por socorro.

- Estamos felizes por vê-lo de volta à sua casa, Senhor, e esperamos, meus netos e eu, que logo volte definitivamente.

- E-eu também, Sra. Chiyo. – disse educadamente, ainda que mal conseguisse falar direito.

A senhora, parecendo não notar a situação do homem nu dentro d’água, segurou as mãos em frente ao corpo e tentou empertigar-se com dignidade.

- Tenho um pequeno favor a pedir a Vossa Senhoria – começou ela. – é a respeito...

- Vovó Chiyo. – Jimin a interrompeu, avançando mais um passo ameaçador dentro da água. – O que quer que seja, eu farei. Apenas quero que devolva a minha camisa antes que meu pau e minhas bolas caiam congelados de frio nessa droga de lago.



Notas Finais


Espero que tenham gostado, não se esqueçam de favorita a fanfic e comentar aí embaixo o que acharam com 5 estrelinhas, ok? #jkbruxinho no twitter se quiserem interagir comigo, e eu amo vocês!

espero que estejam gostando dessa fase mais tranquila de Séculos, vai ser um momento para que os nossos meninos criem lembranças engraçadas e ternas.

até a próxima, desculpem a demora dessa vez!!!


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