História Sedento - Capítulo 1


Escrita por: + e ~Metamorfose_

Postado
Categorias DAY6
Personagens Jae, Young K
Tags Brianjae, Desejos, Ghoul, Halloween, Impulsos, Jaehyungparkian, Jaek, Projeto Metamorfose
Visualizações 73
Palavras 3.746
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Comédia, Drama (Tragédia), Fantasia, Ficção, Fluffy, Slash, Terror e Horror, Universo Alternativo
Avisos: Homossexualidade, Linguagem Imprópria
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


Hey, tudo bem??

Primeira fanfic minha com o DAY6 e tinha que ser algo com esse otp <3
Halloween já foi, mas dá pra ser feliz com esse otp sempre galera!

Mais uma para o Projeto Metamorfose, hein? Vejam os links nas notas finais.

OBRIGADA MINHA NENÉM pela betagem lindonha @LiHak
OBRIGADA LINDONA pela capa maravilhosa, quase chorei quando vi @whoso


Boa leitura!

Capítulo 1 - Até logo Jae


O vento bateu em um monte de areia, fazendo com que Jaehyung virasse o rosto para proteger a visão. Mesmo com os grossos óculos de grau, ainda sim era perturbado pelos grãos fininhos que irritavam seus olhos e os deixavam vermelhos. Retirou o boné por alguns segundos, sentindo o sol queimar seu couro cabeludo com intensidade, e arrumou seus cabelos com impaciência.

Apertou os olhos mais uma vez, tentando encontrar algo que não fosse areia ou um céu estupidamente azul.

— Eu odeio a minha vida. — murmurou exasperado, tentando encontrar alguma lágrima em seu canal lacrimal, mas estava tão seco e há tanto tempo sem tomar água que provavelmente choraria pó.

Andou cambaleante pelo solo fofo, afundando os tênis novos no chão arenoso e os puxando de volta, ainda mais pesados. Uma gota fina de suor escorreu por sua testa e conteve o ímpeto de enfiá-la na boca. Provavelmente causaria mais sede.

Estava perdido no Deserto de Gobi há três horas, segundo o seu relógio sujo indicava. Sua segunda expedição pelo território da China havia sido arruinada, e o rapaz só conseguia pensar que morreria logo, já que não haviam dado sua falta e nem o procurado dentro daquele espaço de tempo.

— Eu só tinha ido fazer xixi! — reclamou alto para o vazio, engolindo um pouco de areia no processo.

Tossiu desesperado, puxando o ar com força. Conseguia recordar com precisão como havia sido deixado para trás. Havia acordado atrasado para a expedição e foi o último a subir no jipe que os levaria até os camelos e, mesmo com os olhares tortos dos outros hóspedes do hotel, conseguiu manter um sorriso enorme e uma animação invejável.

Passariam apenas duas horas no Deserto de Gobi, tirando fotos e fazendo uma pequeníssima pausa para um piquenique.

Não havia muito o que ver naquele lugar, apenas areia e muito calor. E camelos também. Mas Jaehyung estava viajando pela República Popular da China pela segunda vez e queria levar uma recordação para casa, mostrar as fotos para a família e poder encher o peito para falar como conheceu o deserto “sozinho” daquela vez. Assim como desejava reviver algumas memórias, de alguém muito querido, que ameaçavam sumir.

Há sete anos, em uma viagem à China com seu melhor amigo, o mesmo desapareceu depois de passar alguns dias doente. Todas as buscam resultaram em nada, porém Jaehyung ainda nutria uma esperança boba no peito; queria refazer a viagem para relembrar os bons momentos que aproveitaram juntos, mas também para buscar alguma — tola e improvável — pista do seu paradeiro.

— Era um xixizinho rápido! — repetiu desacreditado, balançando a cabeça e dispersando os sentimentos sombrios.

Tinha pedido um tempo para o cara dos camelos, antes que fizessem uma pausa para a comida, para que pudesse se aliviar atrás de um monte mais alto rapidamente; abaixou as calças e fez o que precisava despreocupado. E quando voltou... OH! Estava sozinho. Não havia sinal de mais ninguém ali por perto.

Suspeitava que o cara chinês não tivesse entendido seu coreano misturado com inglês afobado e havia ido embora por achar que era um louco. Ou que talvez tivesse sido deixado para trás porque algum hóspede irritado havia pedido para puni-lo pelo atraso de antes.

O motivo não importava muito naquele momento, contudo sim o que faria para sair dali. Não fazia ideia de qual área estava naquele deserto e nem como se guiaria até a saída.

 

A noite começava a chegar, aumentando ainda mais seu desespero.

Sabia que os desertos eram tão confusos quanto sua vida: de dia eram quentes como o inferno e à noite, frios como as geleiras. O lugar estava começando a ficar absurdamente silencioso e a visão de Jaehyung embaçava cada vez mais.

Seu corpo se movimentava de um jeito mole, balançando como um boneco a cada passo. Andava com a cabeça baixa, temendo fazer qualquer esforço a mais que pudesse lhe custar sua pouca energia. Os lábios rachados ardiam de um jeito absurdo e sua sede chegava a um nível sobre-humano.

Sentiu as pernas fraquejarem e seus joelhos foram de encontro a areia, trêmulos. Não aguentava mais.

“Ah pronto, aqui é um ótimo lugar para morrer mesmo” conseguiu pensar, tentando forçar a voz para gritar um pedido de ajuda, mas havia uma grande falha em seu corpo que não conseguia processar uma fala exteriormente. Segurou o colar de nota musical, a lembrança mais especial que tinha do seu melhor amigo, e pediu por forças; não seguia uma religião, então implorava para qualquer coisa que pudesse ouvi-lo.

Ficou um tempo ajoelhado naquela posição, respirando com dificuldade e ainda tentando encontrar alguma lágrima dentro de si.

Precisou parar o processo de busca interior quando escutou passos firmes se aproximarem. Por um momento achou que era loucura da sua cabeça desidratada, no entanto precisou verificar por si mesmo, curioso e esperançoso. Será que alguma Divindade tinha mesmo o ouvido? Aquele colar era mágico?

Sentiu um a adrenalina encher seu corpo e dar um pouco mais de vitalidade para seus membros doloridos. Virou a cabeça como uma coruja, tentando encontrar quem ou o que fazia aquele som. Alguns metros à frente estava uma grande sombra olhando para Jaehyung, parada como uma estátua.

— O-olá? Ajuda? — a garganta seca dificultou ainda mais a passagem de sua voz amedrontada. Não sabia como havia conseguido falar, porém.

O grande vulto voltou a andar em sua direção, os passos ainda mais pesados e rápidos. Aquilo estava muito estranho, muito mesmo. Se antes Jaehyung se sentia esperançoso, agora só conseguia tremer de medo. Sua visão embaçada apenas dificultava a distinção do ser, que estava perigosamente perto.

— Me a-ajude! — clamou por sua vida como um imbecil quando o outro parou em sua frente.

O desconhecido abaixou o rosto e segurou Jaehyung pelos ombros, aproximando-o. A primeira ação de Park foi cutucar seus óculos, assustado; arrumou-o no rosto três vezes seguidas, sentindo as palmas das mãos suadas. Quando os olhos escuros se encontraram foi como um choque.

Em ambos.

WOW! Park Jaehyung definitivamente conhecia aqueles olhos. Eram impossíveis de esquecer; expressivos, lindos e marcantes.

— Jae? É você mesmo? — o não-mais-desconhecido perguntou desacreditado, dizendo de forma carinhosa o apelido há muito não dito.

O argentino estava congelado – mesmo que ainda sentisse seu interior ferver de calor –, incapaz de processar direito qualquer outra informação. Era uma miragem, certo?

Ele não sabia. Realmente não sabia. Parecia real demais. Aquela voz que há muito não ouvia, os olhos que tanto amava observar e a presença física que sentiu muita falta.

Era Kang Younghyun, seu melhor amigo do colegial... Ele… Ele era o dono do “colar mágico”. Ele… O quê? Tudo estava muito confuso. Parecia um sonho conturbado. Havia pensado nele há pouco e então… Então ele aparecia na sua frente. Que absurdo era aquele?

Queria um pouco de água. Será que Younghyun tinha água?

— Não, infelizmente não tenho. — respondeu Kang logo em seguida, ainda o segurando pelos ombros. Ele havia feito a pergunta em voz alta? Ou o rapaz sabia ser mentes? — Não, eu não sei ler mentes. E sim, você acabou de fazer as perguntas em voz alta.

— Eu estou ficando louco! O que está acontecendo? Younghyun, como você está aqui? — a adrenalina e a curiosidade haviam tomado conta de todo o seu ser. Mesmo cansado, não poderia ignorar as perguntas que o pentelhavam internamente.

— Calma, calma… Eu também estou surpreso. Não achei que o encontraria em um lugar como esse! Como chegou até aqui?

Jaehyung pensou em como explicaria, porém instantaneamente ficou cansado. Gastaria muito tempo e muita saliva, coisa que ele já não tinha mais em excesso.

— Eu só tinha ido fazer xixi, mas essa é uma história para outra hora. Eu estou perdido, preciso voltar.

— Para a cidade?

— Sim! Você sabe como chegar? — o cérebro exausto e já quase sem esperanças de Park pareceu se acender. O fato de que Kang Younghyun, seu melhor amigo desaparecido há sete anos, estava parado na sua frente e conversando consigo não parecia realmente importante no momento.

— Posso te levar até lá, Jae. Vamos, levante-se. — ordenou ainda soando bondoso. O argentino não escondeu o grande sorriso que moldou seus lábios. Se fosse mesmo uma miragem pelo menos teria alguém para conversar e passar o tempo até morrer.

Sentia muita falta do coreano.

Começaram a andar lado a lado, em silêncio, para a direção oposta à qual Jaehyung ia. Estavam fazendo o caminho de volta seguindo exatamente a trilha que o rapaz havia se rastejado para chegar. Park começava a sentir o frio da noite arrepiar seus pelos e se encolheu, sentindo toda a musculatura arder. Então, assim como o frio chegou, passou.

Demorou alguns segundos para perceber que uma grossa jaqueta azul estava pendurada em seus ombros. Olhou para Younghyun assustado, mas não pelo gesto gentil e cuidadoso, e sim pelo cheiro.

Não era possível. Eles estavam no meio do deserto e mesmo assim o coreano manteve seu perfume anestesiante.

O cheiro delicioso da colônia de Kang estava naquela jaqueta. O argentino podia sentir, tocar e se embebedar com aquilo. Ele havia sentido tanto a falta do melhor amigo.

— Eu morri…? — perguntou e afirmou ao mesmo tempo, completamente perdido.

— Não. Por que acha isso?

— Você sumiu. Por anos. — Park disse simples, voltando a encarar aqueles olhos castanhos.

Os lábios de Younghyun se contorceram, demonstrando que estava incomodado. Ambos pararam ao mesmo tempo e se encararam. O mais velho analisou o outro com cuidado redobrado, com a atenção que seu corpo debilitado e extasiado permitiu. A feição estava ainda mais bela; a mandíbula mais fina e os olhos mais maduros. Estava visivelmente mais magro no rosto e menos encorpado. A boca estava pensa em uma linha fina e sem graça, e ficava sem graça sem o sorriso costumeiro. O sorriso que Jaehyung passou meses sonhando, sentindo a falta e implorando para poder ver mais uma vez.

— Eu sei. — respondeu e voltou a andar, puxando o argentino molenga consigo.

— Você sumiu, mas está aqui. Depois de sete anos! É muita merda do destino que eu me perca e você me salve. Eu só posso estar morto, Young K.

O apelido pareceu um feitiço que congelou todos os membros do mais novo. O cabelo claro balançava com o vento gelado, levando ainda mais a colônia para Jae, que não conseguiu conter o impulso de agarrar o braço do outro. Era real, estava frio como um cadáver, mas era real.

— Por que você sumiu? O que aconteceu? — insistiu desacreditado. — Eu fiquei preocupado. Achei que tivesse morrido, todos nós achamos. Seus pais… Eles… Meu Deus! O que aconteceu com você, Young K?

— Eu não sou mais o mesmo. — retrucou impaciente, desvencilhando do aperto do argentino e virando de frente novamente para o encarar. — Esquece o Young K do passado. Ele sim morreu! Agora eu sou só Younghyun, um perdido.

— Do que você está falando? E-eu não te entendo.

— Não queira entender. Você não deve entender. Eu não sou mais mesmo.

Younghyun ficou um tempo considerável em silêncio, pensando se deveria ou não contar a verdade.

Jaehyung era seu melhor amigo, se conhecerem quando ainda eram pequenos seres humanos indefesos. Conforme o tempo passava, a amizade só se tornava mais forte. A viagem que fizeram juntos à China era para ser inesquecível.

Bom, de certeza forma foi, mas não de um jeito positivo.

Kang sentia uma saudade absurda do melhor amigo e cada segundo longe, foragido naquele deserto infernal, foi cruel. Passou por situações tão inexplicáveis e horrendas que não gostaria nunca de compartilhar com alguém. Acostumado a não esconder segredos do outro, se viu preso dentro de si próprio e excluído da humanidade quando toda a merda aconteceu.

O coreano teve que largar tudo e fugir para não machucar as pessoas que mais amava. Se odiaria para o resto da eternidade se a sua “nova condição” o deixasse ferir Jae ou seus pais. E naquele momento o relógio estava correndo mais rápido do que gostaria e sua fome aumentava consideravelmente com os segundos.

Encontrar Jaehyung no Deserto de Gobi havia sido um ato acidental, porém agradecia aos céus por tê-lo feito. Se outro monstro tivesse o encontrado antes… Younghyun não queria nem pensar nas possibilidades naquele momento.

— Nós precisamos ir! — completou por fim, retomando a caminhada. Não estavam longe, daria tudo certo, certo? Esperava que sim.

— E eu preciso de uma explicação.

— Você não vai querer saber, Jaehyung. Realmente não vai e…

— Se estou perguntando é porque me interessa! Faz sete anos, caralho! Sete anos que não conversamos, que eu não consigo conversar com ninguém direito, que não consigo dormir lembrando de você.

Younghyun lembrou dos tantos segredos que compartilharam, das risadas escandalosas, dos olhares cheios de significado, dos momentos em silêncio, das músicas cantadas e das madrugadas em claro. Olhou para o céu por alguns segundos, duvidoso. Com um suspiro fundo, segurou Jae pela mão e o puxou para que voltassem a andar.

— Existe uma lenda sobre esse deserto. Na verdade não é uma lenda, eu sei que é real porque vivo isso no meu dia a dia. — começou a contar a história, sentindo o olhar atento do melhor amigo em cima de si. — Este é um lugar onde monstros se escondem e vivem. Monstros como eu, monstros reais, vindos diretamente de pesadelos. Monstros com uma fome insaciável. E para tentar mantê-los aqui, toda semana algumas pessoas são deixadas de propósito para trás, para que eles possam se alimentar. É como um acordo silencioso entre as pessoas da cidade e esses monstros daqui, assim não serão atacados fora do deserto. São chamados de ghouls, Jae. Eu sou…

— Eu fui deixado aqui para morrer!? — a voz saiu mais esganiçada do que esperava e seus olhos se arregalaram desesperados, olhando para os lados procurando por outra forma grande por ali, apenas os espreitando. Estava escuro, não conseguia ver muito. Voltou a cutucar os óculos, nervoso. — Esses “monstros” iriam me matar?

— Não só você, outras pessoas estão perdidas também. Já devem estar sendo caçadas. Eu… Eu não sei se o destino armou muito bem para nós ou se existe algum Deus que gosta muito de você, porque te encontrar aqui foi uma cagada muito boa. Se outro ghoul tivesse te encontrado antes, eu não sei… Eu…

— Você tem certeza de que eu não morri!? Eu estou aqui falando com você, ouvindo essa história doida sobre monstros e perdido em um deserto. Com você! Tudo isso é inacreditável…

— Eu sei que é muito para digerir, mas você só prestou atenção nessa parte? Esquece isso, Jae. Eu sou real e isso não é um pesadelo, uma miragem ou uma loucura. — apertou seus punhos com força e então percebeu que ainda segurava a mão do argentino. Suspirou fundo e tornou a falar, aliviando o aperto nas mãos:

— Jaehyung, eu não consigo me controlar, por isso não sou mais o mesmo. Precisamos sair logo daqui, não quero te expor a mais riscos. Eu sou um ghoul agora!

— Vo-você!? — não era um gaguejo de medo, mas de surpresa. Estava cada vez mais debilitado, no entanto seu cérebro se esforçava para processar as informações corretamente. Mordeu ainda mais os lábios machucados e voltou a considerar que aquilo tudo era uma miragem. A falta de água podia deixar qualquer um louco.

— Eu preciso das pessoas. Necessito me... alimentar delas. — completou Young K.

— Como o Edward Cullen?

— O quê?! Não Jae, não sou um vampiro. Eu sou um ghoul, é diferente. Eu não bebo o sangue, eu como a... carne

— Então você é como um zumbi?

O outro soltou um suspiro exasperado, desistindo de explicar por um momento. Mirou os olhos inquietos de Jae sob os óculos e concordou levemente.

— Quase como um zumbi, mas diferente.

— Como você se transformou? Como virou um…?

— Ghoul. Somos chamados de ghouls. — o coreano viu seu melhor amigo engolir em seco, penando para digerir aquela maluquice toda. Ele mesmo, depois de sete anos, ainda não conseguia acreditar realmente que era o que era. — Injetaram algumas enzimas em mim e aos poucos fui morrendo por dentro. E-eu não sei quem fez isso, mas foi durante um passeio que fazíamos pelo centro da China, eu tenho certeza. Depois daquele dia eu não me sentia mais o mesmo, meus órgãos começaram a apodrecer…

Olhos de Jaehyung se arregalaram em compreensão. Ele lembrava muito bem de como o outro havia ficado péssimo poucos dias antes de desaparecer.

Perdido em apenas quatorze minutos de silêncio e pensamentos, o argentino sentiu algo explodir dentro de si e uma necessidade tremenda de berrar com alguém. Sua frustração crescia a cada segundo, e começou a despejar as palavras em cima do outro, inconformado:

— Sabe, eu sempre gostei de você, Younghyun. Eu sempre… quis algo à mais. Quando você sumiu eu não pude nem me declarar. E agora você está aqui na minha frente me dizendo coisas absurdas, sobre ser um ghoul… E… Você sumiu por sete anos. Há sete anos que eu me arrependo amargamente por não ter dito que te amava… — aumentava o tom de voz a cada palavra, começando a perder o fôlego. — Mais do que só um melhor amigo.

Younghyun apertou a mão do mais velho, que ainda segurava, e sentiu vontade de sorrir. Uma vontade que jurava já estar morta dentro de si, junto com todo o resto. Porém como tudo o que é bom dura pouco, outro ronco estrondoso de seu estômago o fez voltar à realidade:

— Desde que nos conhecemos eu espero por um momento como esse, mas não dá! Por mais que eu te ame como o inferno, eu não posso viver no meio das pessoas. Eu sou um monstro. Os ghouls se alimentam de pessoas, Jae! Você é uma pessoa…

— Você está comigo, está me ajudando e até agora não me atacou. Seu argumento é falho, Young K.

— Você não entende, Jaehyung! Eu sou um perigo. Você não pode confiar em mim, ninguém pode… Eu… Eu não posso viver com a civilização. Por que acha que eu moro no meio dessa merda de deserto?

— Então você quer me comer? — indagou confuso, mirando Younghyun com os olhos cansados da discussão. — Você vai me comer?

— Não! Mas eu não deixo de ser um monstro horrível.

— Você está sendo um tremendo babaca, Young K. Você está focando apenas no problema e não quer uma solução. Você não consegue perceber que é muito mais do que um monstro?

— Mas eu como pessoas!

— Não, eu não quero mais ouvir “mas” vindos de você. Você pode muitas coisas, Young K. Só que prefere acreditar que é apenas um zumbi sanguinário! Isso é burrice. — aos poucos foi diminuindo os passos e parou. Pela quinquagésima vez naquele dia. — Você é o meu melhor amigo, alguém que eu amo e sempre amei, você é um ser humano incrível. Você é a pessoa mais talentosa e especial que eu já conheci na vida, entendeu? Você é muito mais o que acha ser, mesmo sendo uma porra de alucinação não vou te deixar se rebaixar a tanto.

— Eu sou um ghoul! Eu fui amaldiçoado a viver assim para o resto da eternidade. Eu sou um nada, Jae. No máximo um monte de bosta.

Jaehyung podia sentir a dor em cada palavra proferida e não pôde deixar de se compadecer ainda mais. Seu corpo estava tão debilitado que não conseguia mais raciocinar com a clareza de antes, entretanto outra vontade gritante tomava conta da sua mente: já que estava no meio da loucura, por que não ceder de vez aos seus desejos e impulsos?

— Só… Só me deixa… — não terminou a frase e se jogou nos lábios do outro. Younghyun demorou um tempo considerável para reagir, perdido entre o choque e a dúvida, incapaz de dizer se estava feliz ou preocupado. Por anos havia sonhado com a textura dos lábios de Jae, o gosto do seu beijo e a chama acesa entre eles. Contudo, tendo aquela oportunidade bem ali em suas mãos, não sabia se deveria agarrá-la. Não sabia se era merecedor…

No entanto, quando o mais velho fez menção de se afastar, decepcionado e frustrado, Kang o puxou de volta colando seus corpos. A jaqueta caiu na areia com um baque surdo e as mãos do coreano se espalmaram nas costas do outro. O beijo começou lento, com as bocas se conhecendo aos poucos. Park foi quem pediu passagem com a língua, ao mesmo tempo em que enfiava as mãos geladas nos fios macios do outro. Aquela estava sendo a melhor alucinação da sua vida.

As línguas se exploravam com uma urgência tremenda, inebriados pelos sentimentos que os inundavam, e a vontade reprimida de anos sendo finalmente saciada. Eles haviam esperado muito por aquilo e os sete anos distantes não mudaram em nada seus desejos profundos.

Aproveitaram ao máximo o beijo, gravando na memória cada toque, cheiro e gosto.

 

Depois do pequeno momento juntos, estavam finalmente a poucos metros da civilização. Podiam ver algumas luzes ainda acesas e poucos carros andando pelas ruas. Já era hora da despedida e nenhum dos dois se sentia realmente pronto. Não para mais um “adeus”.

— Chegamos. — Young K constatou o óbvio, coçando a nuca desconcertado. Após o beijo o caminho havia sido mais silencioso ainda, mas ambos não soltaram as mãos; permaneceram juntas e firmes, como se tivessem passado super-cola.

Jaehyung ficou um tempo parado, observando as ruas com um olhar perdido. Com um suspiro, levou as mãos até o pescoço e entregou o colar que havia ganhado de presente, o mesmo que zelou por sete anos – apenas esperando o retorno do proprietário –, à Younghyun, que o colocou no mesmo instante, com um olhar surpreso.

— O-obrigado, Young K. Espero me lembrar disso amanhã, foi uma alucinação bem real. — sussurrou fraco, abraçando o outro pela cintura. Younghyun suspirou fundo, querendo que o tempo parasse naquele momento. Podia até sentir seu coração morto querer bater novamente. Retribuiu o gesto com força, perdendo até mesmo a fome monstruosa que sentia.

Não podia negar que tinha desejos e impulsos estranhos, mas os seres humanos também os tem. Não na mesma proporção que os seus, claro. Contudo não deixam de ser impulsos e desejos, que muitas vezes os cegam, fazendo-os cometer os mais variados tipos de loucuras. E ter a compreensão daquilo deixava Kang Younghyun se sentir um pouco mais humano.

Sentiu o corpo do outro amolecer em seus braços, finalmente cedendo ao cansaço. Levou-o até um banquinho de madeira e deixou o corpo desfalecido ali, com cuidado. Em seguida abaixou-se até que pudesse dar-lhe mais um selinho e sorriu, dizendo as próximas palavras com um significado oculto e uma promessa implícita:

Até logo, Jae.


Notas Finais


(Primeira fanfic que posto com o user novo, BJÃO)
O que acharam??? Espero que tenham gostado assim como gostei de escrever. Não tenham medo de compartilhar suas opiniões sinceras <3

O projeto: https://spiritfanfics.com/perfil/metamorfose_
A fundadora: https://spiritfanfics.com/perfil/thaix_uchiha15/jornal


Qualquer coisa me chama no Twitter: @zellowtalk


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