História Segredo - Capítulo 3


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Categorias Naruto
Tags Genderbend, Naruko, Narusasu, Sasuko, Sasunaru, Sns
Visualizações 139
Palavras 8.033
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: FemmeSlash, Ficção Adolescente, Romance e Novela, Universo Alternativo, Yuri (Lésbica)
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Homossexualidade, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Oie! Até que esse capítulo não demorou muito pra sair, né? Já estou com a história mais ou menos bolada na cabeça, e por isso está sendo mais fácil de escrever.

Muito obrigada pelos comentários e favoritos! Espero que continuem gostando da fic. <3

Capítulo 3 - Capítulo 3


Pouco mais de duas semanas depois da volta às aulas agitada, Sasuko se encontrava deitada de barriga pra cima na grande cama de casal do quarto de Karin. A ruiva, deitada ao seu lado sob os lençóis rosa bebê, tinha as mãos entrelaçadas em cima do corpo e fitava o teto, assim como ela.

Era uma tarde quente e ensolarada de Sábado, e o silêncio pesava no cômodo iluminado pela luz que atravessava as janelas de vidro semiabertas.

Aquele seria mais um fim de semana, desde o começo das aulas, em que Sasuko não pisaria na rua.

Não queria ficar em casa com os pais, com medo de que percebessem que estava mais distante do que o normal. Os dois trabalhavam fora a semana inteira, chegavam à noite e viajavam com frequência; por isso, não os via muito. Além disso, sua família toda era essencialmente séria e quieta. Então, Sasuko já estava acostumada a ficar sozinha; mas em alguns fins de semana, sabia que era inevitável trombá-los pelos corredores, e por esse motivo, havia dormido mais uma vez na casa da amiga.

 

Karin suspirou alto e virou-se para a morena, deitando de lado e observando-a atentamente. Sasuko mantinha a face sem expressão e o corpo completamente imóvel; se não a conhecesse desde a infância, Karin poderia jurar que a garota dormia de olhos abertos. Imaginou, por um instante, o quão longe a mente da amiga devia estar.

 

— Você emagreceu. — Comentou, de repente, despertando Sasuko de seus devaneios.

 

Lentamente, a morena virou o rosto confuso para ela. Pareceu não ter ouvido, ou pelo menos demorado para encontrar sentido no que ela dizia.

 

— Suas costelas. — Karin explicou, apontando brevemente para a blusa meio amassada de Sasuko, que subira e deixara um pouco da pele pálida de sua barriga à mostra. — Estão bem visíveis.

 

Sasuko levou as mãos ao rosto e esfregou os olhos, em um gesto cansado.

 

— Bem, é o que acontece quando não se consegue manter muita coisa no estômago. — Respondeu. — Estou tendo enxaquecas horríveis que vez ou outra me fazem vomitar.

 

— Estou preocupada com você. Todos nós estamos.

 

Karin estendeu o braço e fez um leve carinho no rosto de Sasuko com as costas da mão. A morena suspirou, meio incomodada com o toque, e virou-se de frente para ela, afundando um pouco no travesseiro macio.

A ruiva ajeitou os óculos e deu um breve sorriso. Sasuko tentou sorrir de volta, mas não conseguiu.

 

— Eu sei.

 

— Você não acha que talvez eles… Tenham apenas deixado isso pra lá? — Karin perguntou.

 

— Me esforço pra acreditar nisso, mas não consigo. — Desviou o olhar da amiga, desanimada. — Sei que já faz algum tempo que não recebo aquelas mensagens, mas algo não parece certo. É como se uma bomba estivesse prestes a explodir na minha cara a qualquer momento.

 

— Sei que é complicado, mas não deixe isso te consumir. É agoniante te ver nessa agonia. — A ruiva, mais uma vez, deu um pequeno sorriso de canto.

 

Sasuko a fitou, em silêncio. Seu olhar se prendeu no meio sorriso de Karin por alguns instantes.

 

A situação na qual foram pegas na festa — a qual fora registrada naquela maldita foto — não havia sido a única vez em que as duas se beijaram.

Ela e Karin se conheciam desde os 10 anos, e Sasuko não sabia ao certo quando exatamente haviam se tornado amigas; mas desde então, com o tempo, Karin passou a ser a pessoa mais próxima a ela, e também o alguém em quem ela mais confiava.

Embora não costumasse demonstrar, a morena sentia muito carinho pela amiga. E em certa época de sua vida, quando descobrira, enfim, sobre sua sexualidade, chegou a ficar confusa quanto ao que sentia pela ruiva; contudo, pouco tempo depois, ao ter novas experiências com outras garotas, descobriu que não a via realmente dessa forma.

Karin havia sido a primeira garota que Sasuko beijara, em uma brincadeira, quando ainda eram pré-adolescentes curiosas e atormentadas pelos hormônios; depois daquilo, acabaram pegando certo costume de fazê-lo, embora nunca passassem dos beijos — e nunca o fizessem em público. Ocasionalmente, ainda que não soubessem exatamente o por quê (já que, embora Karin gostasse de beijá-la, tinha plena certeza de ser heterossexual) demonstravam afeto daquela maneira.

Mesmo que parecesse estranho, as duas estavam seguras quanto aos seus sentimentos, e sabiam que eram, de fato, somente boas amigas. E na ausência de palavras, aquele havia se tornado apenas um gesto de carinho entre elas.

 

Sasuko admirou os lábios carnudos da amiga. Passou os olhos pelo maxilar delicado, o pescoço e as clavículas… Sentiu vontade de beijá-la; e, logo em seguida, sentiu também uma profunda frustração e raiva de si mesma.

 

Não conseguia entender por que não podia ser normal, como todo mundo, e se interessar por pessoas do sexo oposto. Não sabia o motivo de se sentir atraída pelo que era feminino e delicado, ao contrário da maior parte das mulheres, que preferia barba, braços fortes e músculos definidos.

Mentira para si mesma diversas vezes, pensando que encontraria o cara certo e tudo finalmente mudaria; mas no fundo sabia que isso era algo que nunca iria acontecer, e já estava cansada de tentar se enganar.

Mesmo assim, ainda que quisesse se aceitar, não podia; tudo à sua volta parecia dificultar consideravelmente esse processo.

 

Durante algum tempo, quando mais nova, sofrera muito por conta daquilo. Não sabia o que estava acontecendo consigo, e não havia ninguém além de Karin (sua única amiga na época) com quem pudesse desabafar, sabendo que a pessoa seria capaz de compreendê-la.

Contar para a mãe como se sentia também estava fora de cogitação; ainda que Mikoto fosse um pouco mais próxima da filha — e mais acessível — que o pai, sabia que seu segredo não seria bem aceito ou mesmo guardado por ela. Sua mãe certamente compartilharia com seu pai o “problema” de Sasuko, e devido à postura excessivamente rígida de Fugaku, sabia que ele faria de tudo para forçá-la a se relacionar com homens e enterrar seus sentimentos o mais fundo possível dentro de si.

Isso, é claro, na melhor das hipóteses; por mais que preferisse acreditar que seus pais jamais agiriam de forma tão extrema, ouvira mais histórias do que gostaria sobre pessoas que haviam sido expulsas de casa, espancadas ou até mesmo mortas por culpa do preconceito alheio — inclusive dos próprios pais ignorantes e conservadores. Temia cada vez mais o que poderia acontecer com ela se alguém descobrisse, e por isso se esforçara ao máximo para esconder aquilo de quem quer que fosse.

 

As outras poucas garotas com quem já havia ficado, desde o começo da adolescência, eram sempre completas desconhecidas com quem se encontrara em algum lugar distante da cidade; nunca permitiu que alguma delas mantivesse qualquer contato posterior ao momento que passaram juntas. Era uma atitude extrema, Sasuko sabia; mas não podia suportar a possibilidade de alguém próximo a ela — especialmente sua família — descobrir seu segredo mais íntimo, e por isso era sempre muito cautelosa em relação a isso.

 

Por uma ironia do destino, naquela fatídica noite da festa em que beijara Karin, Sasuko estava o exato oposto de consciente de suas ações (leia-se: nem um pouco sóbria). Assim como a maior parte dos jovens de sua idade, sair com os amigos e beber não era nada anormal ou fora do comum para ela — embora os pais não estivessem cientes desse detalhe —, mas nunca havia ficado tão mal como naquela ocasião.

Não sabia exatamente como tudo acontecera, mas no fim da noite se encontrara completamente apagada, sendo carregada por Juugo e Suigetsu — junto de Karin, que também mal se aguentava em pé —, até a casa do ruivo.

Acordara no outro dia sem se lembrar de nada — o que gerou muitas risadas entre seus amigos, já que ela sempre fora a mais responsável entre eles e nunca havia feito algo desse tipo até então —; e apesar de estar surpresa consigo mesma, a morena não achou que houvesse motivo para se preocupar… Até receber aquela foto na semana seguinte.

 

Foi apenas um pequeno deslize, mas as consequências daquilo se mostraram maiores do que Sasuko achava ser capaz de suportar.

E embora o autor das mensagens tivesse parado de perturbá-la por duas semanas inteiras, ainda sentia como se estivesse em perigo constante de ser exposta; tinha medo de que eles (ou ele? ou ela?) houvessem mudado de ideia e estivessem simplesmente esperando por uma oportunidade para humilhá-la em público ou algo do tipo.

O silêncio a atormentava ainda mais, e a sensação de impotência a consumia. Estava tão confusa e perdida que não sabia mais nem dizer como se sentia exatamente.

 

Antes que a ruiva aproximasse ainda mais o rosto do seu, Sasuko sentou-se na cama, num impulso, e abraçou os joelhos.

 

— Por que tem que ser assim…? — Perguntou, sem esperar uma resposta.

 

Karin, identificando a tristeza em sua voz, sentou-se e a abraçou de lado, apertando o ombro de Sasuko contra o seu.

 

— Não sei. Mas já que é assim, temos de ser fortes. Tudo tem um propósito… Talvez a gente descubra só depois que passarmos por isso.

 

A morena bufou.

 

— Você fala como se estivesse passando por isso também. — Sasuko respondeu, meio mal humorada.

 

— Mas estou, Sas. Eu e os meninos, querendo ou não, estamos envolvidos nessa história. Nós nos importamos com você… E quando você está com problemas, nós também nos chateamos. Você sabe disso, não sabe?

 

Sasuko a olhou, e Karin sorriu, apertando ainda mais a morena contra ela.

 

Por mais que se sentisse desamparada, sabia que os amigos, cada um a seu modo, realmente se importavam com ela. Durante os últimos quinze dias, devido à suspeita de que os gêmeos estivessem envolvidos com aquela situação, todos os três se empenharam em ajudá-la a conseguir pistas que comprovassem aquilo.

E embora não tivessem obtido nenhum sucesso, sabia que Suigetsu tentara sondar os dois garotos, espreitando suas conversas dentro e fora da sala de aula, e eventualmente seguindo-os quando saíam sorrateiramente da escola; Juugo havia apelado para abordar conhecidos e amigos dos gêmeos, tentando obter o máximo de informações sobre o modo como eram e agiam; e Karin fizera uma relação de todos com quem os dois mantinham qualquer contato e quais deles eram mais prováveis de terem algo contra a morena, além de ter perdido bastante tempo fazendo ligações para o número que enviara a mensagem, na esperança de ouvir uma voz que pudesse reconhecer — embora o autor da chantagem nunca tenha, de fato, atendido.

 

Sasuko havia deixado claro que eles não precisavam se envolver; não queria que parecessem loucos acusando outras pessoas assim, já que não tinham provas de nada e aqueles garotos nunca mais houvessem agido de forma realmente suspeita perto de qualquer um deles.

Mas não podia deixar de admitir que se sentira querida pela atitude dos amigos.

 

— Obrigada. — Respondeu, por fim, depois de alguns segundos de silêncio.

 

Enfim, Sasuko se deu conta de como havia sido idiota em ficar com receio de ser vista na companhia da ruiva no dia seguinte à primeira mensagem que recebera; Karin era a única com quem se sentia à vontade para ter conversas daquele tipo.

Com isso, agradeceu mentalmente pela sorte de não estar só, ainda que fosse assim que se sentisse a maior parte do tempo.

 

≻ ⟡ ≺

 

Naquela mesma tarde de Sábado, Naruko esfregava os olhos e bocejava demoradamente em frente ao espelho.

Vencida pela insistência de Gaara, concordara em ir a um encontro com o ruivo. Não que aquilo fosse algo que ela não estivesse com a mínima vontade de fazer, é claro; mas tinha plena consciência de que, muito provavelmente, não estava tão ansiosa quanto ele para isso.

Os dois tinham planos de ir ao cinema, e embora soubesse que — como uma garota normal — devesse estar mais preocupada com qual roupa vestir ou como arrumar o cabelo, a loira só conseguia ficar em dúvida entre comer ou não antes de sair.

 

Enquanto se arrumava preguiçosamente, recebia mensagens frenéticas das amigas pelo Facebook aberto na tela do computador. O barulho das mensagens do grupo no chat, onde estavam as quatro garotas além de Naruko, era constante. Por isso, a loira havia sugerido uma reunião em vídeo pelo Skype; o que não fez, necessariamente, muita diferença, visto que as garotas não paravam de falar por um segundo — e quase sempre mais de uma ao mesmo tempo.

 

— Eu não acredito que vocês finalmente vão se assumir! — Ino exclamou, dando gritinhos animados e batendo palmas em seguida.

 

— Tá doida, porca? Ela nunca nem ficou com ele! Vai que o menino beija mal. — Sakura rebateu.

 

— Espero que a Naru curta o encontro, porque o Gaara claramente está caidinho por ela… — Tenten suspirou, com as mãos no rosto, provavelmente pensando no próprio (quase) namorado.

 

— Ué, testa, você não enxerga o clima que rola entre eles, não? — Ino se dirigia a Sakura, naquele tom familiar de semi-discussão em que as duas quase sempre conversavam.

 

— Meninas, eu queria saber se… — Hinata dizia, levantando um dedo, quando a cortaram.

 

— Que clima, querida? A Naruko só atura ele, o cara é um atrevido. — Sakura respondeu, indignada.

 

— Pelo menos é um gatinho! Vocês não acham que eles… — Tenten começou, sendo logo interrompida.

 

— Naru! O que você acha do Gaara? — Ino gritou.

 

— Me escutem! Vocês vão vir aqui mais tarde? — Hinata levantou a voz, diminuindo o tom logo em seguida, provavelmente envergonhada, quando todas pararam de falar ao mesmo tempo.

 

Naruko acabava de passar uma maquiagem leve, em seguida franzindo as sobrancelhas para si mesma no espelho. Usava um vestido curto de verão; era preto e estampado com pequenas raposinhas acobreadas. Achou que aquele serviria.

Podia acompanhar as garotas atrás de si, olhando para o reflexo da tela dividida em quatro. Pensou por alguns segundos e respondeu à amiga:

 

— Claro, Hina! É caminho, então vou assim que me despedir dele.

 

— Quero ver aparecer lá com o Gaara! Do jeito que ele é, vai querer te acompanhar até a casa da Hina… — Tenten disse, rindo.

 

— Eu disse que ela não estava tão a fim dele, porca! — Sakura continuou a discussão com a amiga, cruzando os braços.

 

— Mas ela nem falou nada ainda! — Ino respondeu, mostrando a língua para a outra. — Naru, não me ignore!

 

— Calma, gente. Deixa eu sair com o cara primeiro! — Naruko respondeu, rindo da pressa sem sentido das duas amigas.

 

Em seguida, olhou para o despertador em cima da cômoda e logo se deu conta de que, como sempre, já estava atrasada.

 

— Merda, tenho que ir! Falo com vocês depois! — Disse, desligando o computador às pressas, mas ainda em tempo de ouvir as amigas desejarem-na boa sorte.

 

Com isso, pegou a bolsa e desceu as escadas. Já no andar de baixo, se despediu do pai, calçou as sapatilhas e correu porta afora.

 

 

Quando Naruko chegou em frente ao cinema, Gaara já a estava esperando.

O ruivo, encostado em uma das grandes pilastras presentes ao redor de todo o lugar, mexia despreocupado no celular enquanto não avistava a loira. Ele tinha o cabelo levemente desarrumado e vestia uma camisa preta com mangas dobradas por cima de uma camiseta vinho, além de calças jeans escuras e rasgadas nos joelhos; Naruko, observando-o de longe, reparou no quanto ele era realmente bonito.

Gaara havia acabado de mandar uma mensagem para ela, perguntando se demoraria — visto que já estava 20 minutos atrasada — quando Naruko apareceu em sua frente. Apesar da demora, o ruivo apenas sorriu largo quando a viu.

 

— Desculpe pelo atraso! — Naruko riu, meio sem graça.

 

— Tudo bem. Você está linda! — Respondeu o garoto. — Vamos? — Deu o braço a ela, que se prontificou a segurar. Não sabia exatamente o porquê, mas era assim que os encontros funcionavam, não era?

 

Os dois demoraram algum tempo na fila para a compra dos ingressos, e aproveitaram para discutir sobre qual filme assistiriam. Acabaram optando por uma comédia romântica; Gaara preferia assistir a um de terror, mas Naruko era medrosa demais para isso, e o ruivo cedeu à sua vontade sem hesitar. Afinal, não era exatamente o filme que o motivara a estar ali.

Depois de comprarem os ingressos — que Gaara insistira em pagar —, Naruko se prontificou a comprar um balde gigante de pipoca amanteigada e refrigerante de laranja; e então, seguiram em direção à sala. Lá dentro, procuraram seus lugares, sentaram-se e, pouco tempo depois, o filme começou.

O longa era bom, no fim das contas, e rendeu boas risadas aos dois. Durante as quase duas horas dentro da sala escura, Gaara ocasionalmente pegara na mão livre da loira por cima do apoio que dividia as poltronas, fazendo um leve carinho com os dedos; mas não tentara nada além disso, pois sabia o quanto a garota estava concentrada no que assistia.

Saíram do lugar, por fim, quando o filme acabou; e apesar de já estar à noite, ainda era relativamente cedo. Por isso, resolveram conhecer o festival de verão que acontecia ali perto.

 

Na ausência da lua, que se escondia por trás de nuvens acinzentadas no céu escuro, a beleza do ambiente era compensada pelas muitas luzes presentes em toda a sua volta. Naruko ficara fascinada com a imensidão de cores diante de seus olhos quando se deparou com as atrações do parque de diversões montado em meio ao lugar.

Antes de tudo, quis dar uma volta na roda gigante para observar a cidade de cima. Do alto, ainda podia ouvir a música e ver as pessoas, agora tão pequenas, passeando, dançando e divertindo-se lá embaixo. Observou crianças correndo com balões, casais apaixonados andando de mãos dadas e velhinhos descansando nos bancos de madeira. Olhou para Gaara, animada, e ele lhe sorriu. Subitamente, Naruko sentiu-se feliz por estar ali.

Ao descerem, compraram algumas fichas e jogaram tiro ao alvo em barraquinhas montadas ao redor do lugar. Naruko acertara mais do que Gaara e, em oposto aos clichês românticos, ganhara o grande prêmio e escolhera uma raposa de pelúcia para si mesma. Depois disso, brincaram de arremessar argolas, testaram as forças com um pesado martelo e se entreteram com alguns outros jogos disponíveis no local. Também tomaram sorvetes, conversaram e riram; havia sido um encontro divertido, afinal.

 

No fim da noite, quando caminhavam em direção à casa de Hinata, onde o ruivo a deixaria, Naruko reparou em uma flor no alto de uma árvore em frente a um jardim. Era rajada de amarelo e vermelho, e tinha grandes e chamativas pétalas; era a única presente na extremidade de um galho, e a loira parou por alguns segundos para admirá-la. Gaara, notando seu interesse, escalou a árvore habilmente — em meio aos protestos de Naruko, com medo de que ele caísse — e apanhou a flor para ela.

Naruko sorriu, levemente corada, quando o ruivo lhe entregou a flor... E então, a beijou.

 

 

Quando Hinata abriu a porta e deparou-se com Naruko parada, segurando uma raposa de pelúcia nos braços, as três outras garotas de repente apareceram por trás dela e começaram a fazer um mini escândalo animado.

 

— Quero saber de TU-DO! — Ino exclamou, puxando-a pelo pulso para dentro da casa.

 

Todas correram para o quarto de Hinata e, chegando lá, Ino e Tenten jogaram-se na cama da amiga. Naruko, acompanhada pelas outras duas, sentou-se no tapete felpudo, onde haviam almofadas macias e igualmente felpudas espalhadas ao redor.

No exato momento em que terminaram de se acomodar, todas se inclinaram em direção a Naruko, curiosas, esperando para ouvir o que a loira tinha a dizer sobre o encontro.

 

— E então, como foi? — Sakura perguntou, apoiando o queixo nas mãos.

 

— Vocês ficaram?! Fala logo! — Ino quase gritou, impaciente.

 

Naruko corou, meio desconfortável pela atenção repentina dos olhares que a cercavam.

 

— Ahn… Sim. — Respondeu, por fim.

 

Hinata corou, dando uma risadinha, e as outras gritaram e agitaram as mãos.

 

— Eu sabia! Testa, pode me pagar. — Ino estendeu a mão para Sakura, enquanto Tenten ria alto da situação.

 

— Nem ferrando! Você fez essa aposta sozinha, eu nunca disse que concordava com ela! — Sakura devolveu, cruzando os braços.

 

— Não acredito que fizeram uma aposta sobre isso! — Naruko bufou, fingindo estar brava, mas logo depois desatou a rir. — Vocês são terríveis!

 

— Mas e aí, como aconteceu? — Tenten abraçou um travesseiro, animada.

 

E então Naruko descreveu o passeio todo, sem deixar passar nenhum detalhe, enquanto as amigas permaneciam vidradas na história.

Contou sobre o beijo e de como se sentira; não havia sido nem melhor, nem pior do que outros beijos que já dera, mas havia sido bom.

Gaara era atencioso, engraçado e bonito; e embora ainda não perdesse a oportunidade de cantá-la descaradamente em alguns momentos, parecia menos ansioso por fazer esse tipo de coisa quando estava longe dos amigos. E apesar das investidas atrevidas, Naruko o considerava um cara legal.

Sabia que o ruivo também gostara do encontro, e não se importaria em sair com ele novamente. Também contou isso às amigas, claro; mas talvez elas pensassem que seus sentimentos em relação ao garoto fossem maiores do que realmente eram. E isso era o que Naruko, no fundo, gostaria de sentir.

 

Ainda era muito cedo para achar que os dois ficariam juntos, mas sabia que, como uma garota normal, supostamente deveria estar se sentindo mais empolgada quanto àquilo. Sabia que Gaara era um dos garotos mais cobiçados do colégio, e que muitas outras garotas queriam poder ter sua atenção como Naruko tinha; mas o problema, no entanto, não era ele. Naruko, em toda sua vida, nunca havia conseguido sentir nada muito forte por ninguém.

 

E não sabia exatamente o porquê das coisas serem daquela forma. Nunca havia tido problemas em se relacionar com garotos. Até já se interessara por alguns, algumas vezes; mas mesmo que o interesse fosse recíproco, nunca conseguira realmente gostar de nenhum deles. Era como se a única forma que conseguisse enxergá-los fosse algo como bons amigos, apenas; Naruko, na verdade, sentia-se incapaz de corresponder aos sentimentos dos garotos que se apaixonavam por ela.

Era sempre assim. E esse era o motivo pelo qual nunca havia conseguido levar nenhum relacionamento para frente.

Naruko imaginava que, quando sentisse algo parecido com amor, seria de primeira; ela simplesmente saberia. E até o momento, tinha certeza de que ainda não o havia encontrado em ninguém. Bem no fundo, tinha medo de nunca encontrar. Então, se forçava a acreditar que se apaixonaria por algum garoto com o tempo, e por isso continuava tentando manter relações que sabia que não iriam para frente.

Depois de alguns meses, terminava tudo; afinal, não queria enganar ninguém, fingindo coisas que não sentia, e nutria um grande sentimento de culpa por isso.

 

Por fim, a loira se esticou para alcançar a bolsa e tirou de lá a flor que recebera de Gaara. Mostrou às amigas, e Ino e Tenten bateram palmas, animadas, enquanto Sakura e Hinata comentavam sobre o quanto era bonita.

 

— Pena que não vai durar. Já está secando. — Naruko disse, observando a flor em suas mãos.

 

— Mas e vocês, vão durar? — Sakura perguntou.

 

Naruko ficou em silêncio, refletindo sobre tudo isso. 

Já sabia que sua relação com Gaara estava fadada ao fracasso, como todas as outras. Mesmo assim, ainda tinha uma ponta de esperança de que estivesse errada, e decidira que, embora não acreditasse que daria certo, talvez valesse a pena tentar.

Mas essa parte, é claro, guardou para si.

Deu um meio sorriso, em parte frustrada, em parte animada. As amigas, por sua vez, interpretaram de outra forma, e fizeram uma grande e alegre bagunça.

 

≻ ⟡ ≺

 

Alguns dias mais tarde, duas horas depois da saída da escola, Sasuko permanecia em pé, parada no pátio relativamente vazio. Olhava para os lados, meio desconfiada, quando Karin chegou, ofegante.

 

— Oi. — Cumprimentou-a sem muita animação.

 

— Oi! Ufa… — A ruiva jogou-se no chão gramado, ao lado da mochila de Sasuko. — Achei que iria me atrasar. O jogo começa em 10 minutos!

 

— Tem certeza de que a nossa presença é importante?

 

— Mas é claro! Vamos tentar voltar à rotina aos poucos, o que acha? Chega de ficar trancada em casa depois das aulas, você não pode parar de viver por causa daquilo, Sas.

 

Sasuko bufou e comprimiu os lábios, consentindo silenciosamente.

 

— Vai ficar sentada aí por quanto tempo, então? — Perguntou.

 

Karin, animada, ajeitou os óculos e levantou. Acompanhada da amiga, se dirigiram até a quadra coberta dentro do ginásio, localizado em um dos pisos inferiores do grande colégio.

Lá dentro, Suigetsu e Juugo conversavam perto das escadas, já vestidos com os uniformes do time da escola.

 

— Ei, vocês vieram! — Suigetsu comentou, animado. — Achei que a Sasuko não ia querer aparecer.

 

— Eu não… — Sasuko começou a dizer, quando Karin a interrompeu.

 

— E aí, estão ansiosos pro jogo? — Karin sorriu forçadamente, com o intuito de evitar que Sasuko dissesse algo pessimista e desanimasse os amigos.

 

A morena suspirou fundo, com pouquíssima vontade de estar ali, em meio a tantas pessoas que andavam de um lado para o outro, tiravam fotos, corriam pela quadra e se amontoavam nos cantos para conversar — assim como eles mesmos faziam naquele momento.

 

Pouco tempo depois, as duas já se encontravam sentadas nas arquibancadas próximas à parede. A partida já havia começado e os amigos jogavam basquete contra um time de outra escola da região. Enquanto isso, Sasuko permanecia inquieta; sua mente não lhe dava muita trégua, afinal.

Sem conseguir se concentrar o suficiente para assistir ao jogo, acabou desviando sua atenção para as pessoas sentadas ao redor. Despretensiosamente, dirigiu seu olhar para o lado direito, e acabou reparando em uma garota de cabelos dourados relativamente próxima a ela. Por um breve instante, pensou ser a loira irritante de sua sala; mas logo reparou que o cabelo era bem mais curto e a franja, mais reta. E, além disso, a garota era discreta demais para ser a outra — provavelmente, se fosse Naruko ali, demonstraria seu apoio ao time gritando e se agitando, chamando a atenção de todos no lugar.

 

Bufou, irritada por se lembrar dela.

No dia seguinte ao infeliz “acidente” na aula de educação física, começava a planejar sua vingança contra o ato desaforado da loira; já que a garota estava disposta a arrumar briga com ela, não abaixaria a cabeça assim tão facilmente.

Mas então descobrira os possíveis responsáveis pelo maior de seus problemas, e isso fez com que seu desentendimento com Naruko se tornasse automaticamente irrelevante; agora Sasuko tinha algo muito maior (e pior) para se preocupar, e percebeu que não fazia sentido perder mais tempo com ela.

Com isso, limitou-se a ignorá-la completamente, e a loira não fez nenhuma objeção quanto a isso.

Ainda assim, pensar em Naruko a aborrecia.

 

De repente notou que, perdida em pensamentos, continuava olhando para a garota com quem a havia confundido. E logo percebeu que esta também a olhava, e ainda lhe devolvia um sorriso de canto e um olhar carregado de interesse.

Sasuko corou levemente e voltou sua atenção ao jogo. Karin, ao seu lado, vez ou outra gritava frases de incentivo aos garotos; e enquanto a morena prestava atenção na amiga, que agora se levantava e xingava Suigetsu por ter errado um passe, a loira aproximou-se mais um pouco e ocupou o espaço vazio ao seu lado, sem que Sasuko percebesse.

 

A morena estremeceu quando a mão da garota tocou sua coxa. Virou-se, confusa, ao deparar-se com os intensos olhos azuis.

Definitivamente, ela não se parecia nada com a loira irritante; diferente do olhar inocente de Naruko, ela possuía um olhar malicioso e ousado. Aparentava, inclusive, ser um pouco mais velha. Sasuko percebeu de imediato que a garota não era dali; provavelmente, era alguém que viera assistir ao jogo para torcer pelo time adversário.

 

A grande quadra estava abarrotada de gente e o barulho era alto. Por isso, talvez, a garota se aproximara tanto de seu rosto para começar uma conversa — em um tom um tanto quanto íntimo demais.

 

— Olá…

 

Felizmente, a garota retirara a mão antes que Sasuko tivesse de fazê-lo.

Ainda assim, desconsertada, respondeu sem olhá-la; torcendo internamente para que Karin percebesse a situação e inventasse alguma desculpa para tirá-la dali.

 

— Ahn… Oi.

 

— Estive reparando em você… E vi que também reparou em mim. — Deu uma risadinha breve. — Será que te conheço de algum lugar? — A loira se inclinou para frente, deixando o decote com os seios fartos um pouco à mostra.

 

Sasuko a olhou de canto e voltou sua atenção ao jogo.

 

— Provavelmente não. — Respondeu, seca.

 

— Então saiba que tenho interesse em conhecer. Eu sou Samui. Qual seu nome, gata?

 

Sasuko respirou fundo e respondeu, virando-se para ela brevemente. A garota mordeu o lábio inferior, em uma expressão maliciosa; e a morena, em um impulso, deu uma cotovelada em Karin, que a olhou, meio confusa.

 

— Sasuko, é? O que acha de me mostrar onde ficam os banheiros? — A loira estendeu a mão e pegou levemente no braço de Sasuko, fazendo com que um arrepio incômodo percorresse todo seu corpo.

 

Sasuko franziu o cenho, sem entender direito o que estava acontecendo. Ou melhor, o porquê de aquilo estar acontecendo justo ali. Afastou um pouco o próprio corpo, a fim de evitar que a loira a tocasse novamente, quando reparou, de repente, nas pessoas ao redor.

Algumas delas tinham os olhares direcionados para Sasuko e a garota, e riam enquanto conversavam. Não sabia exatamente se por causa da cena que viam ou por algo que acontecia no jogo atrás de si, mas quando avistou os gêmeos em meio ao amontoado de gente, ao fundo — ainda que eles não demonstrassem estar cientes de sua presença naquele momento — teve certeza de que aquela situação só poderia ter um propósito maligno.

 

— Me deixa em paz! — Sasuko exclamou, empurrando a garota e se levantando; logo em seguida, rapidamente desceu de onde estava e correu, passando por detrás das arquibancadas e contornando as pessoas que estavam em pé, até alcançar a porta que dava para as escadas.

 

Não parou para respirar ou para reparar se, de alguma forma, havia atrapalhado o jogo; correu o máximo que pôde, passando pelos corredores internos do colégio, atravessando o pátio e os jardins, até chegar do lado de fora. Assim que olhou em volta e não viu mais ninguém, sentou-se no chão e apoiou as costas e a cabeça na parede do muro externo, aliviada.

Algum tempo depois, Karin apareceu, ofegante e com os óculos tortos no rosto. 

 

— Aí está você! Porra, Sas, o que aconteceu?! Você me assustou! — A ruiva disse, sentando-se ao lado dela.

 

— Aquela garota… Ela estava dando em cima de mim. — Respondeu, com o cenho franzido.

 

— E isso é tão horrível assim? Ela era bonita, até! — Karin fez uma careta, indignada, como se o motivo fosse idiota demais para acreditar.

 

— Você não entendeu! Eles estavam lá, aqueles caras… Eu sei que eles pretendiam fazer alguma coisa comigo, e tenho certeza que ela estava envolvida nisso! — Sua voz falhava enquanto tentava controlar o nervosismo.

 

Sasuko não a olhava. Karin engoliu em seco, assustada com a paranóia — de certa forma, compreensível — da amiga. Percebeu, de repente, que suas mãos tremiam.

Então, abraçou-a de modo protetor e ficaram sentadas na calçada, durante algum tempo, até Suigetsu e Juugo aparecerem por ali. Não havia muito movimento naquele horário, e podiam ouvir sempre que alguém se aproximasse. Ao reconhecer os rostos dos amigos, Karin suspirou, aliviada pela presença dos garotos, que sentaram encostados no muro ao lado delas.

 

— Desculpem por não termos ficado até o fim. — Karin disse. — Houve um pequeno imprevisto.

 

Sasuko se sentia mal; não queria ser estraga prazeres, tanto por Karin, que estava curtindo o jogo, quanto pelos amigos, a quem sabia que devia estar dando apoio. Mas diante do pânico de ter seu segredo revelado ali, em meio a tantas pessoas, não havia conseguido se controlar. E, felizmente, mesmo antes de explicá-los aquilo tudo, nenhum deles pareceu aborrecido com ela.

Depois de conversarem durante algum tempo sobre as possibilidades de aquilo ter estado realmente prestes a acontecer ou ser apenas coisa de sua cabeça, não chegaram a conclusão nenhuma — como era de se esperar.

Então, passados alguns segundos de silêncio, Sasuko se manifestou:

 

— E vocês… Ganharam? — Perguntou, meio sem graça.

 

Suigetsu e Juugo se entreolharam, rindo.

 

— É claro que não! Nós somos péssimos. — E riram todos juntos por um breve momento.

 

Mas logo o clima pesou novamente, pois nenhum deles sabia como agir diante daquela situação sufocante.

Suigetsu, para quebrar o gelo, colocou a mochila no colo e tirou um maço de cigarros de dentro dela. Acendeu um e ofereceu a Sasuko, ao seu lado.

A morena não fumava, embora estivesse acostumada com o cheiro, já que Suigetsu tinha esse péssimo hábito desde quando o conhecera. Mesmo assim, resolveu aceitar. Queria pelo menos parar de tremer e deixar de ouvir as batidas do próprio coração.

Então, acendeu e tragou fundo. Algum tempo depois, já se sentia um pouco melhor, apesar do gosto horrível na boca. Sentiu, de repente, um grande cansaço mental; e apoiou a cabeça no ombro da ruiva, tomando cuidado para soprar a fumaça longe do rosto da amiga.

 

Enquanto se mantinha apoiada em Karin, viu, do outro lado da rua, a loira irritante — dessa vez, era realmente ela — e seu grupinho de amigas; estavam acompanhadas por outros garotos da escola, e todos riam, despreocupados. Não sabia o que eles faziam ali, justo naquele momento… Mas lá estavam, mais uma vez, os grandes — e curiosos — olhos azuis, que já haviam identificado sua presença e ido imediatamente de encontro aos seus.

De súbito, Sasuko incomodou-se com a cena e virou o rosto, desgostosa. Por alguns segundos, sentiu inveja de Naruko, imaginando como a vida da garota deveria ser muito mais simples e, obviamente, mais divertida do que a sua.

 

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Já na lanchonete, as garotas se apressaram em buscar um lugar para se sentarem, enquanto os garotos ficaram responsáveis por fazer os pedidos. Escolheram uma das grandes mesas arredondadas com bancos de estofado vermelho, aos fundos, e se acomodaram.

Assim que as quatro se encontraram sozinhas, Ino se inclinou na mesa, como fazia quando estava prestes a fazer alguma fofoca e não queria que ninguém ao redor ouvisse.

 

— Ninguém vai falar nada sobre a nerd fumando na porta da escola? Estou pasma com toda essa rebeldia repentina!

 

As garotas se entreolharam, e Naruko sentiu-se aliviada por não ter sido ela quem iniciara o assunto. Havia reparado nisso, sim; mas não conhecia Sasuko o suficiente para determinar se aquilo realmente era ou não estranho à personalidade dela. No entanto, reparara em sua expressão, e no olhar incômodo que a morena lhe lançara no momento em que a viu.

Naruko sabia que ela não estava bem, e não precisava que ninguém lhe dissesse o quanto isso não condizia com o modo como a garota costumava agir.

Mas não precisou dizer nada daquilo, já que Sakura tomara a frente da conversa.

 

— Eu acho que tem algo de errado acontecendo com ela. Sei lá, isso não é normal. — A garota colocou uma mecha cor-de-rosa atrás da orelha.

 

— Bem, ela nunca foi exatamente normal, pelo que me lembro… — Tenten observou, com as sobrancelhas arqueadas.

 

— Talvez ela esteja com problemas na família ou algo assim. — Hinata sugeriu, dando de ombros.

 

— Sei que não somos amigas, mas fico triste por ela… Seja qual for o motivo. — Sakura comentou, olhando de uma para a outra.

 

— Talvez ela só tenha decidido mudar um pouco, mesmo. Já ouvi falar que os pais dela são bem rígidos… Vai ver resolveu se rebelar só agora. — Tenten deu de ombros, olhando para Ino em busca de confirmação.

 

Naruko fez uma careta. Sasuko não parecia ser alguém que faria esse tipo de coisa.

 

— O que você acha, Naru? — Ino perguntou, de repente.

 

— Eu? Ahn… Eu não sei. Ela é… Intrigante. — Completou.

 

Ino franziu o cenho, como se estivesse prestes a pedir que Naruko se explicasse, quando os garotos chegaram à mesa com as bandejas.

 

— E aí, sobre o que estão falando? — Neji perguntou.

 

— Nada importante. — Tenten respondeu. — Agora que chegaram, teremos assuntos mais interessantes, não é? — Disse, sorrindo maliciosamente para o garoto.

 

Naruko suspirou aliviada, mais uma vez, mas agora por não precisar dizer mais nada sobre aquilo. Afinal, não sabia exatamente como se sentia. Era difícil descrever o que aquela garota provocava em si — talvez um misto de curiosidade e fascinação; não sabia o porquê, mas tudo relacionado a ela despertava seu interesse.

E embora a morena não fosse a pessoa mais agradável do mundo, algo lhe dizia que ela tinha realmente um motivo para ser assim.

Sasuko era um segredo que Naruko gostaria de desvendar.

 

Gaara sentou-se ao seu lado e passou o braço em volta de seu pescoço. A loira viu quando as amigas sorriram com o gesto, e sorriu também.

Assim, todos passaram a tarde juntos, como já havia se tornado costume entre eles ­— embora, naquele dia, tivessem se encontrado mais tarde do que o horário habitual. Naruko e as amigas tiveram de esperar pelos garotos, já que estes precisaram se reunir por conta de um trabalho em grupo que deveria ser entregue no dia seguinte; assim, quando terminaram, todos se dirigiram à lanchonete já relativamente vazia.

Lá dentro, em meio às conversas e risadas, as horas passaram depressa. E por volta das 16:30, quando o céu já mudava de cor, Naruko resolveu que estava na hora de ir para casa.

 

Em seu caminho até o ponto de ônibus, Gaara a acompanhava, como deixara-o fazer algumas vezes desde a última semana — o ruivo parecia contente em esperá-la ir embora para depois caminhar sozinho até onde morava, e Naruko deixara de fazer objeções quanto à sua companhia.

Quando tiveram de passar em frente ao colégio novamente, os olhos de Naruko voltaram-se quase que involuntariamente para o outro lado da rua, onde havia avistado a morena algumas horas atrás; por algum motivo, uma parte de si esperava que a outra ainda estivesse lá sentada, apoiada no muro cinza alto, ao lado dos amigos. Talvez para que Naruko pudesse conferir se ela ainda estava tão triste quanto parecera mais cedo.

 

Queria ter coragem de chegar na garota e perguntar o que havia de errado com ela — sem provocações ou mal entendidos, dessa vez. Queria poder ajudá-la, aconselhá-la ou até abraçá-la, se preciso. Mas sabia que se tentasse algo do tipo, o máximo que receberia em troca seria um olhar irritado, uma ofensa ou um pontapé.

Sasuko não gostava dela, e ela sabia. E isso era compreensível, levando em conta o que acontecera entre as duas na primeira semana de aula. Naruko também tinha motivos para não simpatizar com a garota; mas mesmo assim, sem saber por que, ainda se importava com a forma como a morena a via.

 

Gaara se despediu com um beijo — eles tinham se tornado um tanto frequentes desde aquela tarde no cinema —, e Naruko partiu até sua casa, pensativa.

 

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Já quase no meio do mês seguinte, Sasuko caminhava sem pressa pelos corredores da escola em direção aos armários. Embora fosse o horário do intervalo, o andar estava relativamente vazio; naquele momento, a maior parte dos alunos se encontrava no refeitório ou na área recreativa do colégio.

Parou em frente ao armário vermelho número 100 e suspirou, cansada.

 

Não havia recebido mais nenhuma mensagem desde as que recebera na primeira semana de aula. Por isso, na maior parte do tempo estava apreensiva, com receio de que a pessoa tivesse mudado de ideia sobre guardar seu segredo, e seu mundo pudesse desabar a qualquer momento.

As últimas semanas, desde o incidente com a garota desconhecida, haviam sido um verdadeiro inferno; sentia dores de cabeça constantes — ainda piores que as de costume —  e uma irritação sem igual. Sentia ainda menos vontade de sair de casa e também não tinha mais o mesmo pique para estudar. Se concentrar nas aulas ou em qualquer outra coisa que demandasse muita atenção havia se tornado difícil. E tudo por conta da maldita chantagem e da falta de qualquer manifestação da mesma por tanto tempo.

Ficar sem saber de nada era, sem dúvida, a pior parte; ainda que tivesse grandes suspeitas sobre os prováveis responsáveis pelas mensagens, não havia nada que pudesse fazer. Sempre que cruzava com algum dos garotos pelos corredores, eles permaneciam indiferentes, e isso alimentava cada vez mais a raiva de Sasuko. Gostaria de poder dizer que se esquecia do que estava acontecendo por alguns instantes, mas isso não era verdade; pelo contrário, tudo aquilo parecia estar cada vez mais presente em seus pensamentos, perturbando-a a todo instante.

Por isso, é claro, o cansaço mental não a abandonava.

 

Abriu o armário e organizou os livros da última aula. Por ser excessivamente metódica, achava tudo o que precisava com facilidade. Pegou, em uma pasta, o trabalho de biologia pronto para a aula seguinte. Analisou o conteúdo do papel impresso e sorriu, satisfeita com seu perfeito desempenho, apesar de tudo; quando alguém inesperadamente surgiu ao seu lado, estendeu o braço e empurrou a porta do armário, fechando-o com força próximo ao seu rosto. Sasuko, em um sobressalto, olhou confusa para a garota que sorria maliciosamente para ela, com as costas apoiadas no armário ao lado do seu.

Antes que pudesse abrir a boca para perguntar o que diabos era aquilo, a garota se pronunciou:

 

— Surpresa, vadia! Está feliz com a descoberta? — Riu, debochada. — Aposto que esperou ansiosamente por esse dia.

 

Sasuko estreitou os olhos em direção a ela.

 

— O que você… — Dizia, quando a garota a cortou.

 

— Ainda não entendeu? Sempre te achei meio burra mesmo… — Fitou-a com escárnio.

 

Sasuko permaneceu em silêncio, enquanto a garota tirava o celular do bolso da saia e dava alguns toques na tela. Alguns segundos depois, virou-o para a morena, que surpreendeu-se ao ver a foto que tanto temia.

Engoliu em seco, e sua reação foi mover rapidamente a mão para tentar agarrar o celular. Antes disso, a garota à sua frente o puxou de volta, guardando-o.

 

— Hã-hã. Não pense que será fácil assim, idiota. — Riu, cruzando os braços.

 

— O que você quer de mim?! Eu nem te conheço! — Sasuko a olhou com raiva.

 

— Ah, é? Mas eu conheço você. E meus amigos também.

 

Sasuko bufou, irritada.

 

— Não que isso seja da sua conta, mas como pode ver, eu não gosto de homens. — Respondeu, entredentes, lembrando-se dos gêmeos na festa.

 

— Não se trata disso, imbecil. A questão é: estamos todos cansados do seu jeito arrogante e do seu complexo de superioridade. 

 

— Do que você está falando?! — Sasuko se esforçava para entender os motivos da garota.

 

— Estou falando da sua mania de querer ser melhor do que os outros em tudo, porque deve saber que na verdade é um lixo. — Sorriu maliciosamente, afastando os cabelos tingidos de um vermelho desbotado que caíam-lhe sobre os olhos. — É ridícula a forma como você quer se destacar mesmo quando não precisa. Está tão acostumada com um pedestal, não é? Por isso resolvemos te colocar de volta no seu lugar, que é nada mais do que o chão.

 

Sasuko balançou a cabeça, indignada.

 

— Eu ainda não faço ideia do que você está falando. Quem mais está envolvido nisso?

 

— Pense um pouco, idiota! Não que isso vá fazer alguma diferença… — Ignorou a pergunta e revirou os olhos. — Mas vamos lá, vou te explicar como as coisas vão funcionar de hoje em diante.

 

Sasuko engoliu em seco, tremendo de nervoso. Se controlava ao máximo para não pegar a garota pelo pescoço.

Ela continuou:

 

— Já que é tão inteligente assim, sei que não vai se importar em fazer todos os meus trabalhos daqui pra frente. Ah, e dos meus amigos também, é claro; todos diferentes, não se esqueça. Quando forem escritos à mão, mude sua letra. E quando precisarmos apresentar, pontue os assuntos mais importantes e escreva as frases que usaremos para explicar. Se tiver que fazer algum cartaz, me pergunte antes se está de um jeito que eu considere bom, obviamente. E também… — A garota falava, mas Sasuko já não ouvia. Seus olhos ardiam de ódio; achava que explodiria a qualquer momento e iria para cima dela.

 

Pensava em várias maneiras de pegar o celular da garota e estraçalhá-lo no chão. Não seria tão difícil derrubá-la, afinal. Mas se fizesse isso e houvesse uma cópia daquela foto salva em algum outro lugar, estaria perdida.

Ainda assim, a vontade de socá-la até a morte era grande, e Sasuko cerrou os punhos com tanta força que suas unhas curtas chegaram a machucar a palma das mãos.

Sentia uma imensa vontade de chorar e gritar de nervoso; mas não choraria, pelo menos não ali. Não se humilharia ainda mais para aquela cretina. Seu orgulho, talvez felizmente, ainda era maior do que a dor.

De repente, a garota estalou os dedos em frente ao seu rosto, e Sasuko ajeitou a postura, encarando-a.

 

— Acorda, imbecil. Já gravou tudo o que eu disse nessa sua cabeça oca? É melhor que não se esqueça de nenhum detalhe, nem tente nos sabotar de alguma forma. Qualquer coisa que faça que possa me prejudicar, você já era. Sabe que não preciso de muito pra acabar com a sua vida, né? Dois cliques e essa foto vai parar até no e-mail da diretora. — Sorriu, debochada.

 

— Já entendi. — Sasuko respondeu, seca.

 

— Que bom! — A garota sorriu falsamente. — Fora isso, quando eu precisar de mais alguma outra coisa, te aviso. Isso inclui dinheiro, favores, talvez até fazer alguma prova em meu nome, dependendo de como for. E não preciso dizer pra que não ouse me ignorar ou demorar pra me responder, né? No mais, vou fazer a gentileza de deixar um bilhete explicando o que deve ser feito em cada um dos trabalhos que já temos pra entregar. Mais tarde jogo dentro do seu armário, ok?

 

Sasuko a olhava como se ela não estivesse lá. Seu rosto já ficava borrado, devido às lágrimas que se amontoavam nos cantos dos olhos; mas não ousaria as derramar.

A garota a analisou por algum tempo, com um sorriso maldoso no canto da boca. Desviou os olhos para o papel parcialmente amassado que Sasuko segurava, e fingiu surpresa.

 

— Oh, esse é o trabalho do Yamato? Vamos ver se é o mesmo que o meu. — Tomou o papel das mãos da morena e o leu superficialmente. — É, vai servir. Só preciso recortar o seu nome. Da próxima vez, já deixe pronto com o meu.

 

— Eu nem sei como você se chama. — Disse, com a voz trêmula, em um misto de raiva e frustração.

 

— Tsc. — Fez um estalo com a língua, impaciente. — É Tayuya. Se não achasse que o mundo gira em torno de você, talvez já soubesse disso desde a oitava série. Mas agora vou te ensinar algumas coisas, não se preocupe. — Sorriu novamente de forma maldosa.

 

Sasuko, nesse momento, preferia que o motivo de sua raiva não tivesse um nome, e muito menos um rosto; especialmente um rosto ao qual sentia tanta vontade de socar.

Ainda não sabia sobre o que a garota estava falando e nem por que ela a odiava tanto assim. Não se lembrava de já ter visto ela em nenhum outro momento, e isso a deixava ainda mais nervosa.

 

— Bom, por enquanto é só isso mesmo. Vá se acostumando, babaca. Nós estamos em cinco. — Estendeu a mão em frente ao rosto da morena, mostrando o número com os dedos, e depois empurrou o peito de Sasuko, que bateu as costas nos armários, fazendo um barulho alto.

 

Com isso, Tayuya saiu andando, animada, como se nada tivesse acontecido.

 

Quando a garota desapareceu de vista, Sasuko pareceu finalmente se lembrar de respirar.

Sua mente estava a mil; por um instante, suas pernas fraquejaram, e deslizou de costas nos armários, caindo sentada no chão.

Finalmente a chantagista se revelara; e para sua surpresa e indignação, a cretina era uma completa desconhecida. Sasuko havia esperado por esse momento por tanto tempo desde que aquilo tudo começara... E agora que sabia o que a garota queria — ainda que não conseguisse entender o motivo pelo qual ela estava fazendo isso —, continuava sem saber o que fazer. A falsa sensação de alívio que esperava mostrou-se inexistente; agora, mais do que antes, se sentia completamente impotente diante daquela situação deplorável.

 

No mesmo instante, por coincidência, Karin surgiu; com o intuito de buscar seus livros no armário, caminhava pelo longo corredor, quando deparou-se com a amiga no chão, desolada.

Rapidamente, correu até ela e a abraçou, enquanto as lágrimas de Sasuko caíam — em um silêncio perturbador — sob os ombros da ruiva.


Notas Finais


Eita, finalmente ela se revelou! Mas fiquem calmos que por trás desse ódio da Tayuya tem uma história que será explicada um pouco mais pra frente. E quanto à Naru e o Gaara, não se preocupem, esse "relacionamento" não irá atrapalhar (muito) o envolvimento das duas, hehe.
Naruko e Sasuko se aproximarão mais no próximo capítulo. :)

Obrigada por ler até aqui!


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