História Segredos - Capítulo 2


Escrita por: ~

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Categorias Originais
Tags Anjos, Drama, Fantasia, Lobos, Romance, Vampiros
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Palavras 6.028
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Aventura, Fantasia, Magia, Mistério, Romance e Novela, Saga

Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Capítulo 2 - Onde está Ikal?


Fiquei longe, em meus pensamentos, por um bom tempo até Dylan aparecer ao meu lado com um sorriso, de repente, tímido. Sua aparência é tão jovem que às vezes fica difícil aceitar que ele já tem 23 anos.

— O que achou da comunidade? — Ele pergunta.

— Bem, confesso que estou um pouco assustada. — Sorrio.

— Você só precisa entender que para todos nós também é novidade receber alguém de fora. Nem mesmo meu pai pôde entrar para a comunidade.

Ele olha para o céu.

— Seu pai...?

Era óbvio pela reação dele que o pai tinha falecido, entretanto minha boca não se manteve fechada, e me pergunto se estou sendo terrivelmente influenciada por Evelyn.

— Ele faleceu há dois anos. Minha mãe quase perdeu sua posição na comunidade por se envolver com alguém de fora. — Ele olha para onde Anna e os outros continuam sentados conversando.

— E o que nos torna diferentes do seu pai? Achei que estávamos aqui graças ao André, mas se nem um casamento pode colocar alguém dentro da comunidade...

Queria apenas ignorar toda essa confusão, mas é difícil controlar quando tudo não parece fazer nenhum sentido.

— Você só precisa saber que é especial, muito mais do que imagina. — Dylan diz e desvia o olhar, pensativo.

Por que soa como se ele soubesse mais sobre mim do que eu mesma? É possível que alguém que acabo de conhecer possa saber que sou especial? E o que há de especial em mim?

— Parece que você e sua comunidade estão enganados, não há nada especial em mim, apenas uma vida trágica.

Ele balança a cabeça, mas não diz nada. Os outros continuam conversando, agora no lugar de sorrisos há uma tensão nos três. Evelyn parece quase irritada e nunca a vi desse jeito.

Dylan e eu voltamos para a fogueira, e fosse qual fosse o assunto eles encerram neste momento. Anna mantém a mesma expressão de quando se juntou a nós, André está inquieto e Evelyn engole em seco.

— Kate, acho melhor voltarmos para casa. — Evelyn olha para mim e depois para André que acena positivamente para ela.

— Certo. — Digo.

Despedimo-nos de Dylan e Anna e saímos. De volta à escuridão. No completo silencio. Evelyn nem sequer trocou olhares com André, o que me deixou bastante aflita até chegarmos em casa.

— Evelyn... — André olha para mim e sei que precisa conversar à sós com Evelyn.

Deixo os dois e entro. Resolvo esquentar uma pizza enquanto Evelyn não entra. Ligo o micro-ondas e a tv, já faz algum tempo que não me sento para assistir um noticiários ou algo do tipo.

A jornalista é negra com cabelos black power, ela está noticiando sobre os recentes desaparecimentos na cidade, a mesma notícia que li na manchete do jornal de Evelyn. Aparentemente não há relação entre os desaparecidos, apenas que são jovens entre 20 e 35 anos. Ela afirma que as autoridades estão investigando os casos com muita cautela já que algo do tipo nunca aconteceu na região. Ao todo se somam mais de 50 desaparecidos.

Desligo a tv quando os familiares começaram a dar seus depoimentos. Então me lembro do porquê não gostar tanto de assistir aos noticiários, eles sempre mostram pessoas sofrendo. Olho pela janela da sala, por entre as formas retangulares em vidro, e Evelyn gesticula enquanto fala com André, que está imóvel. Ela realmente está furiosa. O que André fez para deixa-la assim?

Sento no sofá, o que era da minha avó, ela deu para meus pais quando se casaram. Passo os dedos pelo tecido e me lembro dos momentos em que sentava no colo de meu pai enquanto ele estava neste sofá, ele me contava histórias sobre anjos e às vezes histórias de vampiros, eu sempre gostei de sentir o medo percorrer meu corpo, como uma adrenalina, mas isso era antes de sentir o verdadeiro medo, o que me tornou o que sou hoje.

Tiro a pizza do micro-ondas e volto para a sala, me sento no chão sobre o tapete e coloco o prato na mesa de centro. Sinto-me impulsionada a ir buscar Evelyn, mas parte de mim confia que André não será capaz de machuca-la e muito provavelmente farão as pazes antes que ela volte para casa.

Não sei quanto tempo levou, mas adormeci no mais profundo sono enquanto pensava sobre a comunidade e a briga de Evelyn e André. Só acordo novamente quando Evelyn entra pela porta da sala, com o rosto vermelho e coberto por lágrimas.

— O que houve? — Pergunto. — Adormeci enquanto esperava você entrar.

Olho para o relógio a cima da tv e já são meia noite.

— Podemos conversar amanhã? Sinto-me esgotada. — Evelyn praticamente se arrastava enquanto andava em direção à escada.

Eu a olho com incerteza e um grande ponto de interrogação se formando em meu rosto.

— Eu estou bem, só preciso me acalmar. — Evelyn completou e subiu as escadas, degrau a degrau.

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Na sexta feira daquela semana eu recebi a confirmação de que iria entrar para a equipe de auxiliar de bibliotecária da biblioteca Rolf Colin, e Evelyn irá começar a trabalhar no próximo mês. Durante esses dias eu fiquei tentada a voltar até a floresta e tentar encontrar a cachoeira, mas Evelyn ainda estava mal e não me deixava sair com um súbito medo de que eu pudesse desaparecer como os outros jovens do noticiário.

Meu novo emprego me rendeu algum esgotamento físico nos primeiros dias, mas duas semanas depois e já me adaptei. Uma das grandes vantagens em trabalhar aqui é que eu posso levar vários livros para casa depois de preencher uma pequena ficha.

Hoje o dia está especialmente parado, quase não recebemos visitantes e Laura está particularmente animada com o garoto novo que se mudou para a cidade. Ela disse que nem ao menos sabe onde ele mora, mas que ele já veio à biblioteca algumas vezes e parece um tipo "incomum de nerd".

— Ele tem pelo menos 1,90 de altura, cabelos loiros, e olhos verdes, ah! — Ela suspira profundamente. ­— Ele é simplesmente lindo, não consigo olhar para ele sem sentir meu rosto corar.

Embora ela diga que ele visite a biblioteca regularmente nunca tive a oportunidade de vê-lo. Obviamente estou curiosa sobre ele, tenho que admitir.

O dia passou lentamente, e mais uma vez não conheci o misterioso foco da paixão de Laura. Voltei de carro para casa, o carro de Evelyn para ser sincera. Tenho que comprar um se eu quiser continuar andando de carro pela cidade. Foi fácil aprender o caminho, já que minha memória é razoavelmente boa quando se trata de marcar pontos específicos.

Olho para o relógio e já são seis horas da tarde, já estou em frente de casa, mas a floresta está me convidando tentadoramente. Olho para dentro e vejo luzes coloridas faiscarem pela janela. Evelyn está provavelmente dormindo em frente a tv.

Pego algumas cordas coloridas no porta-malas do carro, comprei elas na semana passada, quando passei por uma loja de produtos de acampamento. Testo a lanterna do celular e tento verificar o tempo por entre os galhos das árvores, aqui o tempo pode mudar de um minuto para o outro.

A floresta fechada e mal iluminada dificultou meu trajeto, tropeço em pedras ou troncos a cada cinco metros até alcançar o ponto onde estive da última vez.  O som da cachoeira e o ar úmido me dizem que devo continuar, estou chegando ao meu objetivo.

Passado por mais galhos baixos, e me molhado pelo orvalho, chego onde a cachoeira está. Meus olhos piscam e é quase inacreditável que seja um lugar real. Estou na parte mais alta e oposta da cachoeira, não me dei conta de ter subido tanto. A lua está ao horizonte, emergido por trás da cachoeira, que desce acelerada até um grande lago escuro no fundo, que mal posso ver por ser noite. O vento trás algumas gotículas de água até meu rosto e inspiro a paz que vem do lugar. Retiro meus sapatos e enfio meus pés sob a terra, fria e úmida, mas a sensação é tão boa que me permito senti-la o máximo possível.

Pela primeira vez eu me senti em casa. Este lugar é meu lugar.

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Acordei com o sentimento de renovação, quase como se a esperança pudesse renascer de novo, simplesmente por ter encontrado aquele lugar. O lugar que me chamou desde o momento que coloquei os pés nessa casa.

— Bom dia Evelyn, como está se sentindo hoje? — Digo quando me sento à mesa para tomar o café da manhã.

Ela ficou furiosa por eu ter chegado tarde, mas sei que ela só quis bancar a mãe coruja, pois quando cheguei ela continuava em seu doce sono. Há semanas que ele não tem uma boa noite de sono, mas finalmente parece estar se sentindo melhor.

— Preocupada com minha sobrinha imprudente. — Ela me belisca no braço. — Me prometa que não vai mais voltar lá à noite? É muito perigoso Kate.

Sua última expressão foi suplicante.

— Okay... Não voltarei mais lá, à noite. — Pisco para ela.

— Seu humor está tão vibrante, parece que você voltou a ser criança. — Ela sorri.

É como me sinto, como se tivesse voltado para quando tinha dez anos e tinha toda minha família ao meu lado. Pelo menos é suficiente para deixar a dor plácida.

Chego à biblioteca e Laura está me esperando com um sorriso entre euforismo e timidez. Ainda é cedo, e geralmente o humor dela é péssimo durante a manhã, então já posso adivinhar o que ela tem para me contar.

— Ele está aqui! — Ela segura meu braço. A voz ofegante.

Olho ao redor e vejo um homem de costas no final da segunda fileira de livros. Pela altura e cabelos loiros, sei que é ele.

— Finalmente irei ver o rosto de sua paixão. — Sorrio para ela enquanto coloco minhas coisas no armário sob a mesa.

— Você poderia cuidar dele por mim? — Ela está nervosa. — Acho que posso falar alguma besteira.

Eu aceito. Parte por estar com pena do nervosismo exagerado de Laura, parte por que estava ficando extremamente curiosa sobre ele.

— Bom dia, posso ajuda-lo em algo. — Digo quando estou só a alguns passos atrás dele.

Ele se vira.

O golpe que me atingiu quando ele se virou me deixou desconcertada. Senti que o olhei de forma direta demais, mas Laura não estava exagerando em nada quando falava de sua aparência. Olhos verdes intensos, lábios finos e desenhados, cabelos loiros naturais, e um corpo admirável por baixo de uma camisa branca e jeans escuros, e certa palidez na pele que parecia tão macia quanto seja possível. Mas havia mais do que a beleza externa, havia algo em seus olhos, na forma como ele olhou para mim, como se tivesse encontrado algo que estava procurando que me deixou ainda mais fora do eixo.

— Eu encontrei. — Ele disse para si mesmo, ainda olhando intensamente para mim.

A voz dele é tão macia quanto sua pele parece ser. Quase como se fosse possível senti-la passando entre meus dedos e tocando minha pele.

— É... — Engulo a saliva congestionada.

— Eu já encontrei o que procurava, obrigado. — Ele disse depois de um longo tempo.

Então ele passou por mim e foi até a mesa de Laura para registrar o livro que pegara. Ele olha para trás, para mim. Eu ainda estou parada, como se minhas pernas pesassem centenas de quilos a mais do que meu corpo pudesse suportar.

Ele assina a ficha e sai.

Laura corre até onde estou, ela me olha com expressão indefinida. Sinto-me ridícula em estar parada aqui até agora, me sinto ridícula por me sentir tão fora de controle sobre meu próprio corpo.

— Ele é fantástico não é? — Ela diz.

— Ele é... Ele é diferente. — Digo, sendo incapaz de definir o que ele é.

— Acabo de descobrir o nome dele. É Clark Haynes. Bom, eu nunca estava na recepção quando ele passava aqui, então não pude ver o nome dele antes.

O nome dele é Clark. Esse nome também é tão único quanto a essência que exala dele? Embora tenha escutado esse nome antes, nunca foi pronunciado da mesma forma, provavelmente estou ficando maluca.

O resto do dia minha mente ficou voltando ao momento em que vi os olhos de Clark, em meus 20 anos nenhum homem chamou minha atenção, talvez porque eu estivesse mais preocupada com o mundo desabando sobre minha cabeça, ou talvez porque já estava acostumada ao mesmo perfil de atitudes banais que a maioria dos garotos tem. Mas esse homem, que surgiu do nada, tem algo nele que eu nunca vi antes.

O sol já se punha quando Laura e eu saímos da biblioteca, como de costume fomos até uma cafeteria e conversamos um pouco, bem, ela mais do que eu. Laura tem 25 anos, mas sua personalidade é tão jovial que às vezes penso que ela é mais nova que eu. Ela tem uma vida comum, pais protetores, amigos por toda parte, e uma queda por aventuras radicais, no fundo eu queria ter uma vida como a dela, não a invejo, pois sinto quão bondosa ela é, ela merece cada segundo de raio de sol sob seus cabelos loiros.

Fico olhando para Laura enquanto ela fala sobre como está ansiosa para encontrar um namorado e se casar, seu maior sonho é ser mãe de uma menina. Os sonhos dela são tão puros que tenho vontade de abraça-la, e meu coração deseja que ela alcance todos os sonhos. Que Laura possa ter um marido gentil e companheiro que a faça feliz todos os dias de sua vida, que eles tenham lindas crianças que os darão muito orgulho.

Minha mente volta para o dia em que me disseram que meus pais tinham morrido, era em novembro, como agora, e minha avó Helena – mãe do meu pai – me buscou na escola com os olhos vermelhos e assustados, eu não podia entender o que estava acontecendo, apenas segui cada palavra que ela disse até chegarmos em casa.

— Katherine, preciso que você me ouça com atenção e que não fique com medo. — Vovó Helena disse enquanto segurava minhas mãos. — Dora e Carmo sofreram um acidente e... — Ela engasgou.

Lembro-me exatamente de como me senti, milhares de objetos cortantes atravessavam meu corpo e todo o mundo ficou assustador, como se eu estivesse em queda livre e não houvesse nenhum lugar para me segurar, não havia nada que pudesse me proteger e me salvar, eu estava nua no escuro.

Antes que vovó terminasse de falar Evelyn chegou à sala, ela tinha a mesma expressão da minha avó, foi a única coisa que fui capaz de absorver naquela noite. Depois disso, minhas lembranças começaram a ficar turvas, e me lembro de apenas pequenos flashes onde ouço Evelyn dizer "Não conseguimos encontrar os corpos, só podem ter sido eles que fizeram isso", anos depois essas palavras vieram a minha mente e embora vovó e Evelyn sempre me dissessem que foi um acidente de barco e que os corpos sumiram no mar, eu não me lembro de meus pais terem ido viajar de barco e elas sempre ficavam nervosas quando pedia por mais detalhes. A última lembrança que tenho deles foi de quando me deixaram na escola, os dois estavam especialmente agitados aquele dia, e talvez já previssem seu fim.

— Kate? Oi, alguém em casa? — Laura me desperta de minhas lembranças estalando os dedos em meu rosto.

— Desculpe, estava pensando. — Digo um pouco sonolenta de repente.

— Parecia que você estava em outra dimensão. Não me diga que é por causa do Clark, você sabe que eu tenho preferência. — Ela diz sorrindo.

— Preferência? — Pergunto em tom zombeteiro.

— Claro, por dois motivos. — Ela mostrou os dedos. — Motivo um, eu vi ele primeiro. Motivo dois, eu sou mais velha então estou mais desesperada que você.

Caímos na risada e ficamos discutindo porque uma tinha mais motivos para ter preferência do que a outra. No fundo nós duas sabíamos que ele não ficaria com nenhuma das duas, ele era muito para nossos caminhõezinhos.

— O que eu não entendo é o fato dele aparecer assim do nada, e pegar livros tão aleatórios na biblioteca. Eu não consigo imaginar alguém que lê "Os Contos de Canterbury" em um dia e no outro lê "As Vantagens de Ser Invisível", parece até que ele escolhe livros aleatórios. — Laura gesticula.

— Talvez ele seja um leitor compulsivo e lê qualquer coisa. — Digo enquanto termino de tomar o café.

— Ou talvez ele seja muito desocupado e tenha tempo de sobra para ler qualquer coisa que estiver na estante.

Mais uma vez nos deliciamos com risadas espontâneas e prazerosas. Laura me divertia tanto.

É sexta, chego em casa e olho para a floresta, sei que meu paraíso está a alguns quilômetros dali, mas prometi a Evelyn que não voltaria lá à noite e irei cumprir a promessa, pelo menos até ela se acalmar. Antes de entrar deixo que o cheiro da terra úmida entre em meus pulmões, olho para o céu e sinto as estrelas brilharem em mim, como se cada uma delas fizesse parte das moléculas do meu corpo. Este lugar tem me feito um bem que não acreditava ser possível, há semanas que não tenho nenhum surto, há semanas que até parece que tenho uma vida comum, sem um passado sombrio, exceto pelos momentos em que meus pais voltam a minha mente.

Tudo está silencioso quando entro, Evelyn está concentrada escrevendo algo em seu diário. Aceno para ela e vou para meu quarto. Tenho que verificar meus e-mails antes que Lucia venha até aqui e me mate, o telefone já está funcionando, então preciso passar o número para ela e deixar que minha amiga me importune todos os dias. Às vezes ela age como minha mãe.

Katherine Marie Johnson,

Sua amiga Lucia ainda está aqui esperando por notícias, esperando que a amiga se lembre dela e que se preocupe um pouquinho!!!

Qual é Kate? Você está tão longe e nem ao menos envia um e-mail. Estou me sentindo muito mal com isso.

(Mensagem enviada há uma semana)

Olá, alguém vivo por ai?

Já faz semanas desde que enviou aquele e-mail, você ao menos pode enviar o número de telefone para eu poder falar com a Evelyn, talvez ela ainda se importe comigo!?

(Mensagem enviada há 3 dias)

Lucia estava coberta de razão, mas me lembrar dela e de Nova Iorque é me lembrar do meu passado, ela não tem culpa de fazer parte disso, mas eu só quero respirar o ar puro e deixar tudo para trás, mesmo que isso me afaste dela. Sei que isso é errado, sei que ela é muito mais do que uma amiga, e minha falta de consideração é injustificável, mas meu corpo e minha mente estão me levando para longe da dor.

Queria Luci,

Sei que nada justifica minha ausência, mas meu coração precisa descansar de todas as lembranças. Estou deixando que a sensação de paz que este lugar está me provocando invada cada brecha de dor, e estou ficando melhor.

Fiz uma nova amiga, mas André e Evelyn estão afastados, não me pergunte o motivo, eles não me falaram o que aconteceu. Encontrei um lugar maravilhoso a alguns quilômetros da nossa casa, vou tirar algumas fotos e mandar para você.

Está tudo bem Luci, não se preocupe. E agora você já pode ligar para nós quando quiser, o número é (212) 932.XXXX. Ligue a qualquer hora, Evelyn está entediada porque ainda não começou a trabalhar.

Eu te amo Lucia.

Termino a mensagem e sinto um peso sair de minhas costas, então percebo que deixar Lucia afastada pode até me fazer deixar o passado encoberto, mas me faz ficar vazia no lugar onde Lucia ocupa em meu coração. Ela é tão essencial em minha vida como aqueles que se foram.

Encosto na cadeira e espero. Sei que ela deve estar monitorando o e-mail e assim que pegar o número irá ligar e me dizer vários palavrões e depois chorar e dizer o quanto estava com saudade. Mas nada aconteceu. Verifico há quanto tempo a mensagem foi enviada e diz que já fazem uma hora. Meu corpo está dolorido de ficar sentada na cadeira, então me levanto e vou até a janela observar os vagalumes entre as árvores.

A resposta de Lucia não veio, mas vejo o farol de um carro iluminar os troncos das árvores. Desço para ver quem é, e vejo Dylan e André descerem do carro e caminharem em direção à porta. Evelyn está olhando pela janela, antes de ir até a porta onde estou ela me olha com uma expressão incerta.

Recebo os dois que sorriem sem graça, eles cumprimentam Evelyn e nos sentamos na sala. Houve um longo silêncio antes que André dissesse algo.

— Precisamos da ajuda de vocês. — Ele diz olhando para Evelyn.

— O que aconteceu? — Pergunto.

— O filho de um dos membros da comunidade desapareceu. — Dylan informou.

Evelyn trocou olhares com André, como se se comunicassem mentalmente, uma troca de informações que só os dois sabiam.

— O que podemos fazer para ajudar? — Digo, já que Evelyn parece não ter nenhuma vontade em ajudar.

— O nome dele é Ikal. — Dylan me entrega uma foto do garoto. — Ele tem 21 anos e é responsável por duas irmãs pequenas. Olho para a foto e vejo um rapaz sorridente com cabelos longos e negros, a pele clara em comparação a maioria dos indígenas, e o mesmo olhar marcante da etnia.

— Vocês acham que tem relação com os outros desaparecimentos? — Pergunto.

Ninguém diz nada, mas vejo em seus rostos que a resposta é sim. Mais um desaparecido, mais um caso misterioso envolvendo jovens. Estava tentando ignorar o noticiário, mas o caso está cada vez mais próximo de mim, e isso me faz sentir medo. As coisas ruins tendem a vir até mim, de uma forma ou de outra.

— Não se preocupe, nós vamos dar um jeito nisso. — Dylan toca minhas mãos, que estão frias.

Ele viu o medo em meus olhos.

— Precisamos que vocês nos ajudem com a divulgação na internet e espalhar alguns panfletos pela cidade. — André finalmente diz. — A comunidade não faz uso de computador e só o Dylan aqui que entende um pouco dessas tecnologias, mas ele precisa me ajudar com outras coisas, então se vocês puderem elaborar algo...

— Na verdade, foi a líder que nos pediu para dar essa missão a vocês, ela disse que já que fazem parte da comunidade, devem contribuir de alguma forma. — Dylan disse, embora soasse de forma arrogante, eu soube que a intenção não era essa.

André respirou fundo, reprovando a forma que o garoto falou.

Mais um período de silêncio. Eu espero que Evelyn diga algo, que tenha alguma reação, mas ela parece estática, apenas olhando para André.

— Bem, claro, nós faremos o que for preciso para ajudar. — Digo, finalmente.

— Kate, podemos conversar lá fora? — Dylan olha de soslaio para Evelyn e André e entendo o recado.

Nós saímos e deixamos aqueles dois seres se olharem e aparentemente esquecerem que existiam duas outras pessoas com eles. O ar da noite está frio, mas não o bastante para me causar arrepios, então aproveito a sensação.

— Você sabe o que está acontecendo entre os dois? — Pergunto a Dylan que está entretido brincando com um galho seco.

Nós nos sentamos na grama do jardim, poucos passos atrás da fonte.

— Não posso falar sobre isso... — Ele está relutante, como se travasse uma luta interna.

Eu levanto a sobrancelha em tom interrogativo.

— André disse algumas coisas para sua tia... Algumas coisas que ela precisava saber, mas que ela não queria ouvir.

Olho para trás, a sala ainda está silenciosa, não ouço nenhuma voz vinda de lá.

— E por que você não pode falar sobre isso? — Cutuco o braço dele, uma tentativa de deixa-lo menos tenso.

— Porque é um assunto delicado, que Evelyn irá contar a você no momento certo.

Sinto-me irritada de repente. Mais uma vez Dylan age como se soubesse mais sobre minha vida do que deveria, e age de forma tão natural como se isso não fosse tão invasivo.

— Eu realmente estou cansada disso. Vocês mal nos conhecem, se não fosse a amizade de André com minha tia, que por sinal estiveram afastados por anos, tantos anos que nem ao menos o conhecia antes de vir para cá. — Sinto que minha raiva está queimando minha pele. — Estou cheia de tanto mistério, farta de não saber a verdade sobre tudo o que está acontecendo.

Dylan não diz nada. Fico grata, pois tenho a oportunidade de continuar falando tudo que estou guardando.

— Eu sei que a nossa amizade com André não é a verdadeira razão de terem nos colocado na comunidade. Sei que essa missão que vocês vieram nos dar é apenas uma desculpa para poder cravar suas garras em nossas vidas. Sei que... — A essa altura começo a sair do controle. — Sei que meus pais não morreram de um simples acidente e todos mentem o tempo todo para mim, e vocês acham que sou uma idiota, mas eu não sou.

O surto, aquele que já não tinha a muitos dias, voltou a inundar meu corpo. Não havia lágrimas, embora estivesse soluçando como se um rio percorresse meus olhos. E meu corpo de repente ficou frio, muito frio.

— Kate... — Dylan me olha assustado.

Corro para dentro de casa. Paro um momento para olhar para Evelyn e André que estão abraçados. Solto um sorriso irritado e subo as escadas até o meu quarto.

O mundo inteiro parecia apontar para mim e rir, mesmo sob um manto de proteção eu ainda estou exposta. Desde o dia em que meus pais morreram, tudo deixou de ser real e virar um filme de terror onde eu sou o imã de incontáveis dias ruins. E de repente aparecem pessoas em minha vida que se põem acima de tudo isso, me fazendo sentir como uma criança em meio a um vendaval.

Enquanto me remexo na cama de um lado para o outro as lembranças começam a inundar minha mente. O momento em que vi minhas amigas de infância ficarem doentes. Hilary e Ashley, tinham apenas 12 anos quando o câncer as consumiu, as irmãs gêmeas eram minha referência de irmandade quando eu frequentava a escola. Apenas dois anos depois da morte dos meus pais e a vida arrancou de mim mais uma parte do meu coração.

Um ano depois e minha avó também foi tirada de mim após um ataque cardíaco inesperado. Evelyn não era sua filha, mas vovó Helena cuidou dela tanto quanto se fosse sua própria filha, e naquele dia eu vi que não era apenas meu coração que estava sendo destroçado. Evelyn perdeu a irmã e a figura materna que lhe restava, ela também estava sozinha e com a responsabilidade de cuidar de uma adolescente com muitos problemas psicológicos.

Aquela altura nós já conhecíamos Lucia, que se mudou com o pai para a casa do lado da minha avó pouco depois que meus pais morreram. Lembro-me de como fiquei curiosa sobre a garota de lindos olhos azuis e cabelos negros e pele tão clara que parecia nunca ter sido tocada pelo sol. Eu era apenas uma criança na época, e aquilo foi o suficiente para me distrair, pelo menos até a noite chegar e os pesadelos me atormentarem. Lucia fez amizade comigo como se fosse alguém que eu já conhecesse, ela sabia exatamente o que eu mais gostava de fazer e me ajudou a ser criança quando perdi Hilary e Ashley.

Não importa o quanto eu pense que a vida de Lucia também foi um desastre desde quando ela nasceu, a luz que ela leva aos lugares em que vai é mágica. Ela sempre conseguiu tornar um ambiente pesado em um lugar cheio de diversão. Eu precisava dela e ela se doou totalmente a me fazer feliz, mesmo eu não podendo retribuir.

Foi Lucia também que me ajudou quando o primeiro marido de Evelyn me assediou, eu tinha apenas 15 anos. Evelyn denunciou o marido que foi preso. Mais uma vez o destino atingia a nós duas. Lucia me acompanhava até as consultas psicológicas, e tinha conversas assustadoramente sábias com Evelyn. Lucia sempre foi o nosso anjo da guarda. Embora o destino quisesse tirar tudo de nós, ao menos nos deixou alguém que pudesse nos salvar.

Não sei por quanto tempo fico nessa viagem de lembranças e arrepios dolorosos, mas me levanto, mesmo com meu corpo ainda fora de controle e entro no meu e-mail, procurando pelo meu anjo. Lucia ainda não respondeu a mensagem, me sinto um pouco decepcionada. Mas se aquilo era uma vingança por fazê-las ficar sem noticias por tanto tempo, era justo.

Ainda estou enrolada ao cobertor sentada na cadeira em frente ao notebook quando escuto o carro de David ir embora. A conversa durou tanto tempo quanto meu surto. Sei que Evelyn virá para conversar comigo, mas estou cansada demais para querer ouvir qualquer explicação que ela queira me dar, então apago as luzes e volto para a cama. Entre cochilos vejo o momento em que Evelyn abre a porta do quarto e chama meu nome baixinho, esperando que eu estivesse acordada, depois disso o sono me engoliu.

Quando acordo novamente o sol estava nascendo, olho no relógio e ainda são seis da manhã, aceito aquela oportunidade para fugir de Evelyn. Tomo um banho rápido, coloco uma camiseta preta e calças jeans. Calço tênis e penteio o cabelo. Desço as escadas e vou até a cozinha, pego algumas frutas e saio. Dirijo de forma concentrada, mesmo que a estrada esteja totalmente deserta até a cidade, apenas para não me permitir pensar na noite passada.

Chego à biblioteca e abro o local. Felizmente todas as auxiliares de bibliotecária podem ter uma cópia, e mais uma vez agradeço internamente pelo emprego perfeito. O cheiro dos livros me causou uma sensação prazerosa. Antes mesmo de colocar as minhas coisas na mesa escuto passos atrás de mim, ao me virar vejo ele. Clark.

— Ah... — Digo, assustada. — Você me assustou.

— Desculpe-me. — Ele ainda tem aquele olhar, o que me faz perder o foco. — Gosto de vir aqui pela manhã. É mais quieto.

Gosto tanto do som da voz dele que isso me alarma. Eu só o vi uma vez antes e é terrível que um ser humano possa causar esse tipo de sentimento em mim.

— É muito cedo, nem eu deveria estar aqui. — Digo, tentando agir normalmente.

Ele não diz nada. Permanece parado, analisando meus movimentos.

E se ele for um assediador? E se ele for um assassino? As perguntas sãs começam a enviar alarmes ao meu corpo. Clark pode ser um deus da beleza, mas eu não sei nada sobre ele a não ser que é novo na cidade. E se ele for o responsável por todos os casos de desaparecimentos?

Enquanto guardo minhas coisas pego o telefone sobre a mesa e tiro-o do gancho, preparada apara discar 190 se for necessário. Olho para ele e sinto um certo desconforto em sua expressão. 

— Está tudo bem? — Pergunto, ainda atrás da mesa.

— Acho melhor eu ir... — Ele olha ao redor e parece farejar o ar. — Desculpe.

Ele olha para mim por mais alguns momentos antes de finalmente virar as costas e ir embora. Levanto-me e vou até a porta para ver em que direção ele foi, mas não o encontro em lugar nenhum. Ele simplesmente sumiu.

Fiquei sozinha por mais uma hora até um a um os outros funcionários chegarem e o movimento de pessoas ocupar minha mente. Dylan apareceu na hora do almoço e me convidou para almoçar com ele. Aceitei embora ainda estivesse magoada com ele.

— Kate, me desculpe se minhas atitudes tem sido arrogantes, eu quero ser seu amigo e cuidar de você e da sua tia. — Ele diz enquanto esperamos pelos nossos pratos.

— Dylan, você e André não precisam cuidar de nós. Vocês não tem nenhum tipo de responsabilidade com a gente. — Digo da forma mais clara que posso imaginar.

— Não temos, mas vocês fazem parte da comunidade e André... — Ele para. — Bem, você já deve ter percebido que ele ama a sua tia..

Eu balanço a cabeça de forma afirmativa.

— Então, você tem que entender que o André e eu só queremos manter vocês seguras. — Dylan completa.

— Nos manter seguras de quê? Do que vocês tanto nos protegem? — Eu tento controlar o tom da minha voz, mas minhas mãos já estão brancas por estar apertando os dedos contra as palmas das mãos com tanta força.

Mais uma vez Dylan deixou minhas perguntas sem resposta. Ficamos sem falar até que os pratos foram servidos.

— Você sabe que esses desaparecimentos seguem uma linha, não sabe? — Dylan diz finalmente, parte respondendo a minha pergunta, parte gerando novas.

— São jovens entre 20 e 35 anos. — Digo de forma decorada, me lembrando do noticiário.

— É mais do que isso. Todos esses jovens são órfãos Kate. Eles têm muito mais em comum com você do que imagina. A maioria são garotas entre 20 e 25 anos, todas elas têm características em comum com você, já os homens desaparecidos apenas seguem a linha de serem órfãos, mas pelo que investigamos os casos não somam nem 5% do total, o que fez com que eu e André chegássemos à conclusão de que os casos masculinos sejam apenas uma tática para encobrir a verdadeira ação.

— E qual seria essa ação? — Pergunto enquanto já formulo outra questão na mente.

— Nós ainda não sabemos, mas é algo muito, muito grave. — Dylan fala de forma tão séria que pude ver mais uns 20 anos sendo acrescentado à sua maturidade.

— E por essas garotas terem características em comum comigo, você e André acham que precisamos de proteção? — Tomo um gole de suco.

— Exatamente.

Embora houvesse furos na história de Dylan permito que os argumentos sejam suficientes para diminuir a estranheza dos fatos.

— Nós fomos até sua casa ontem mais para ver se estavam seguras do que levar a mensagem da líder. — Dylan já está na metade do prato quando finalmente fala. — Como você se enquadra no perfil ela achou melhor deixar você afastada das atividades de busca que iremos fazer na próxima semana. André não queria que fosse eu a dizer isso para você, mas Evelyn o convenceu de que se eu falasse seria mais fácil.

Mais uma vez aceito as palavras de Dylan, que pela primeira vez começam a fazer mais sentido. Olho para o relógio e já é hora de voltar para a biblioteca.

O sábado é o dia mais agitado, mas ainda assim gosto quando eu tenho turnos no final de semana. Não tenho muito que fazer em casa, e embora eu queira voltar até a cachoeira ficar aqui na biblioteca me dá mais chances de não me sentir tão isolada do mundo. Laura não veio hoje, então tento me comunicar de forma mais natural possível com os outros funcionários, mesmo que eu note que não sou tão desejada pela maioria deles.

No começo da tarde quando meu turno acaba resolvo caminhar pela cidade. Vejo lojas, casas e pessoas. Vejo as cores e sinto a energia pulsante da cidade. Não é nada parecido com Nova Iorque, mas um pouco da corrente elétrica entre as pessoas é a mesma, só que aqui as pessoas são um pouco mais calorosas e amigáveis.

Sento-me em um banco em uma pracinha não muito longe da biblioteca, onde o carro está estacionado, e me deixo viajar em pensamentos e sentimentos. Não os sentimentos de medo, dor e perda, mas os de fingir que sou apenas mais uma pessoa com a vida normal descansando depois de um dia de serviço.

Não demora muito até que a lembrança da visita inusitada de Clark me venha à memória. Um lado meu diz que ele é só um cara com hábitos estranhos e que talvez se sinta fora do eixo como eu, e o outro me diz que talvez ele seja uma pessoa perigosa e eu deva tomar cuidado. Apesar de os lados estarem equilibrados, o que vi nos olhos dele me diz que ele não é um assassino, ou assediador, o que vi nos olhos dele tem um aspecto de quase pureza, se é que isso é possível.

Seja quem ele for, minha curiosidade sobre ele tem tomado proporções exageradas, e estou tão cheia de mistérios que me sinto cada vez mais tentada a investigar de perto a vida desse cara incomum. 



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