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História Segredos - Capítulo 43


Escrita por: Cah_Stark

Notas do Autor


Oi, mores

Boa leitura 💕

Capítulo 43 - Vou te contar um segredo - parte 1


Fanfic / Fanfiction Segredos - Capítulo 43 - Vou te contar um segredo - parte 1

Elizabeth Cooper já tinha tido sua cota de estresse da semana, e seus pesadelos insistiam em fazer parte de tudo, mesmo quando ela achava já ter alimentado a doce ilusão de que aquilo já tinha acabado.

A escova de cabelo descia com lentidão alisando os fios prateados que brilhavam com a luz do sol entrando timidamente pelas frestas das cortinas que não estavam totalmente fechadas. Já deviam ser umas dez horas pela agitação no andar de baixo, mas ela estava acordada desde às cinco depois de mais um pesadelo com seus amigos do além, lhe informando exatamente a mesma coisa que tinha se repetido das últimas milhões de vezes:

"Faça ela acreditar na morte"

"Ele vai machucá-la, aquele em quem ela confia".

Com os últimos pensamentos e divagações sobre seus sonhos e a melhor amiga envolvida neles, deixou a escova de cabelo sobre a penteadeira, e se alargou na cadeira de frente para a mesma. Ainda estava de pijama e se sentia com zero determinação para trocar de roupa e descer. Sonhar com Gelda tinha se tornado uma coisa muito comum desde que as aulas tinham voltado, mas principalmente, depois de Peter Logbothom ter sido encontrado morto. Mas ela não conseguia se acostumar. Os mesmos enigmas que ela não sabia decifrar a estavam deixando maluca, o que eles queriam que ela fizesse afinal?

Já tinha avisado Gelda; já tinha tentado afastá-la de Zeldris e mostrar, que se confiasse nele, ele acabaria machucando ela e apontado os fatos; Mas parecia que seus esforços tinham sido totalmente em vão, no final, as coisas tinham encaminhado para uma direção contrária da desejada, e agora, ela estava ali, tentando entender o porquê de mesmo com tantas pessoas no mundo era ela quem precisava de preocupar com aquilo?!

Amava Gelda, e logicamente queria que ela ficasse bem e que fosse capaz de protegê-la. Mas amava Meliodas também, e enquanto tentava fazer o que achava ser o certo, pareceu que esse segundo era mais importante. Quando não era. E se tivesse tomado a decisão errada? Bom, agora já lhe parecia ser tarde. 

Ainda assim, não conseguia deixar para lá. 

Desta vez, era diferente. Um incômodo mais marcante e muito mais intenso estava a corroendo desde que havia acordado do seu mais novo pesadelo cheio de furos que ela não sabia como preeencher. Aquela sensação era diferente de todas as outras, e de uma forma muito estranha a fazia se lembrar da mãe... ou melhor, da morte dela. Quando sua mãe estava doente e começou a ter seus pesadelos, foi uma coisa, igual a que vinha sentindo desde que, aparentemente, Zeldris e Gelda tinham começado a pecar. Mas esses novos sentimentos eram muito mais parecidos com os que ela havia presenciado um dia antes de sua mãe falecer. 

Um arrepio passou pela sua espinha apenas com aquele pensamento. E se o dia de que todos os avisos falavam tinha finalmente chegado? E o que ela poderia fazer para impedir? 

Olhou para o relógio na cabeceira de cama, o ponteiro quase marcando onze horas. Se ela tivesse tido o compromisso de ir à escola e cumprir seu castigo, talvez encontrasse Gelda e poderia entender melhor o que estava sentindo e o que pretendia fazer com isso. Mas depois de ir "buscar uma vassoura" e nunca mais voltar, ela entendeu que talvez não tivesse volta. Pelo menos, não tão cedo. 

Olhando seu próprio relfexo cansado no espelho, ela reparou que alguma coisa alaranjada brilhava em cima de seus travesseiros, e se virou, vendo o brinco com qual tinha sido presenteada brilhando contra um feixe de sol. Devia ter se soltado enquanto ela dormia. Algo dentro de si começou a se mover novamente, mais uma emoção nova para ela se preocupar; o coração tinha ficado incrivelmente acelerado e seus dedos formigaram para colocá-lo de novo. Mas duas batidas na porta chamaram sua atenção.

– Ellie! – Era a voz de Verônica, que dois segundos depois já estava dentro do quarto pulando de um lado para o outro – Você não vai descer? Temos um presente para você.

Ela fez uma careta, encarando a irmã com nítida desconfiança.

– É, desce logo. Foi ideia da Margh. 

E deixando seu quarto, a garota de cabelos arroxeados se retirou fazendo barulho ao fechar a porta. Elizabeth permaneceu parada por mais um bom tempo encarando o nada, tentando descobrir o que suas irmãs poderiam ter aprontado agora. Colocando seu casaco de frio, já que Camelot tinha apresentado fortes chuvas nos últimos dias acompanhadas de um intenso inverno inesperado, ela desceu as escadas sonolenta e preguiçosamente encontrado suas irmãs e pai na sala. 

Ao olhar ao redor, ela finalmente viu o que Verônica queria dizer com "presente", esse estava lindamente pendurado em um manequim e sendo admirado por suas irmãs e encarado pelo seu pai. 

– Não é lindo? – Margareth mexeu na barra do glorioso vestido azul exibido na sala – Era da mamãe, e ela usou em um baile na época de colégio também. Achei que você gostaria de usar hoje.

Elizabeth nada disse, a única coisa que ela conseguia fazer era olhar para o vestido e tentar achar palavras que definissem seus pensamentos. 

Ele era idêntico... não poderia ser mais parecido. Era o mesmo vestido que ela estava usando em todos os seus sonhos desde o início do ano. A cor, o decote, e até as pedrinhas pequeninas que decoravam o bojo e a manga caída pareciam ter sido feito à medida na quantidade perfeita. Em todas as vezes em que ela tinha sonhado com Gelda, a amiga estava usando um vestido de gala muito parecido com o de uma princesa, mas na cor vermelha, enquanto ela usava um na cor azul. Idêntico ao que estava à sua frente. 

Um novo arrepio passou pela sua espinha e ela engoliu em seco. Como aquilo era possível? Então, um outro pensamento lhe apossou: será que Gelda iria ao baile com o mesmo vestido vermelho de seus sonhos? As coisas só pareciam ficar ainda mais estranhas a cada minuto. 

E quando sua família começava a estranhar seu comportamento e a se preocupar com a sua palidez extrema e repentina, além da falta de respostas, a campainha tocou.

– Eu atendo! – Se apressou em dizer, caminhando em direção à porta da frente e abrindo logo em seguida. Um Meliodas de cabelos bagunçados e um sorriso largo no rosto estava parado na sua frente com uma mão no bolso e a outra segurando o capacete da moto estacionado – Oi.

– Bom dia – Ele disse, entrando assim que ela saiu da frente e se juntando a reunião familiar na sala – Hã... estou atrapalhando alguma coisa?

– Claro que não, Mely – Margareth sorriu para ele – Só estávamos falando sobre o vestido que a Elizabeth vai usar hoje, não é lindo?

A platinada pensou em dizer, enquanto se sentava ao lado do namorado no sofá, que nunca tinha dito que realmente iria usá-lo. Principalmente depois de se lembrar de onde já conhecia aquele vestido, mas achou melhor ficar quieta, seria difícil demais de explicar.

– Sim, é muito bonito. Vai ficar maravilhoso em você – Ele disse para ela, com um sorriso encantador, e ela apenas retribuiu um pouco sem graça – Onde está o brinco que eu te dei? – Indagou ele, notando a falta do obejto na orelha dela.

– Ah, saiu enquanto dormia – Se explicou, dando os ombros. 

– Hm – Ele fez um biquinho – Você não gostou? Pode ser sincera.

– Não, não é isso – Ela se apressou em dizer, com medo de que ele ficasse magoado. Os olhinhos verdes estavam um pouco desconfiados e aquilo partia o coração dela – É só que ele realmente saiu, eu vou colocar de novo.

– É bom que você tenha uma gravata azul, cunhadinho – Disse Verônica – Aí você vai ficar combinando com o vestido e o brinco!

– Quem é você e o que fez com a Verônica? – Brincou Margareth, provocando a irmã.

– Ele está no meu quarto – Elizabeth disse para o loiro, se levantando – Vamos comigo?

– Claro, claro – Disse nervoso, como sempre ficava quando Elizabeth o convidava para o quarto quando Baltra estava presente.

– Obrigado, Margh, o vestido é lindo e eu vou adorar usá-lo – Disse para irmã, que pareceu encantada, e correu com Meliodas escadas acima na intenção de esquecer àquela sensação que não parava de incomodá-la e tinha ficado ainda maior. 

Já no quarto, ela fechou a porta e correu para a cama buscando pela jóia e colocando-a de volta na orelha.

– Prontinho! – Disse sorrindo, se olhando no espelho – Como eu estou? – Fez uma pose, sem se tocar de que ainda estava descabelada, cheia de olheiras e usando o pijama amassado. 

Não que fizesse diferença, para ele, Elizabeth estava sempre linda. 

– Divina! – Ele bateu palmas em brincadeira e ela riu avançando nele com um abraço de urso – Que horas tenho que te buscar hoje à noite? Mal posso esperar para te ver naquele vestido... e para tirar também.

– Seu pervertido! Pode vir às sete, acho que Margareth já vai ter terminado de me arrumar.

– Okay. Combinado. Agora... – A voz hesitante, o sorriso torto e o claro nervosismo enquanto coçava a nuca deixavam claro que ele estava prestes a tocar num assunto delicado – E você e a Gelda? Como ficou?

Elizabeth revirou os olhos. Esperasse mesmo é que ela morresse.

Depois de sua mini discussão com Elaine no corredor, havia acabado contando tudo para Meliodas e o loiro tinha ficado um tanto magoado, embora dissesse que agora várias coisas sem resposta começavam a se encaixar. "Me sinto um pouco traído – Dissera ele – Mas acho que não posso fazer nada agora. Ela escolheu isso". E desde então, tinha evitado tocar no assunto e sempre parecia muito triste quando o nome do irmão ou da traíra aparecia em suas conversas, então ela passou a evitar.

– A gente pode não falar dela? – Disse irritada, e encarou Meliodas como se estivesse vendo ele ali pela primeira vez. Não havia reparado ainda no quanto ele estava bonito com aquela camiseta e os cabelos caindo sobre a testa, um sorriso malicioso repuxou seus lábios – Por que a gente não faz outra coisa? Uma bem mais interessante – Com os dedos atrevidos, ela os desceu pelo peitoral dele traçando uma linha invisível até a pélvis do garoto.

Por um segundo, pareceu que ele tinha ficado rubro e sem reação, completamente envergonhado, mas no momento seguinte eles já estavam totalmente agarrados e derrubando coisas por onde quer que passavam em uma mistura beijos, gemidos e promessas de amor. 

...

A noite veio, como o esperado. 

O lado norte da cidade tinha se transformado em um belo contraste de cores enquanto carros levavam verdeiros cavalheiros e belas princesas para onde o tão esperado baile aconteceria. Vestidos rodados, ternos muito bem passados e fortes emoções inundavam o coração dos jovens que não viam a hora de se divertirem, e esquecerem do caos em que a cidade se encontrava. Pais e responsáveis pelos alunos, que haviam retirado seus protegidos dos braços do colégio, também compareceram usando a desculpa de que precisavam ver se "ainda existia cura" para todos os problemas, ou apenas fazer uma "humildade doação".

No fim, a única verdade é que ninguém perderia a oportunidade de se arrumar e se ver como importante depois de tanta tragédia. Ao mesmo tempo em que as ruas pareciam mais cheias, também pareciam mais vazias. E com a noite que parecia ficar ainda mais bonita, uma lua cheia explêndida iluminava o céu acima da cidade.

Da janela de seu quarto, Arthur Pendragon observava tudo acontecer sem conseguir acreditar que não iria participar daquilo. Do lado de fora, parecendo tão distante quanto as estrelas, Elizabeth estava simplesmente radiante saindo de sua casa acompanhada do namorado e de seu pai, Meliodas Blossom e Baltra Cooper. O vestido azul fazia uma linda combinação com seus olhos, e ele poderia ver isso mesmo daquela distância, bastava imaginar e se lembrar do brilho dos mesmos. 

Os amigos, antes tão próximos, não haviam trocado mais nenhuma palavra desde que a garota tinha ficado "fora de controle". Depois da situação completamente inesperada, eles simplesmente não tinham mais se falado. Ele estava de castigo; ela parecia estar de mal-humor eterno. Só nos últimos três dias, ele tinha se sentido a pessoa mais solitária da mundo; sentia a falta de Gelda, de Elizabeth, e principalmente de Elaine, com quem tinha conversado duas vezes por face time em horários combinados para que ninguém desconfiasse e descobrisse. E esse "ninguém" se resumia ao seu pai, claro. 

Kardia Pendragon tinha tentado se reconciliar com ele mesmo sem intenção alguma de retirar seu castigo antes da hora; tentando conversar com ele sobre sua série favorita na hora do jantar, fazendo piadas e perguntando como tinha sido o seu dia ou sugerindo que jogassem uma partida de xadrez como nos velhos tempos. Mas para Arthur, aquilo soava artificial demais para conseguir fingir a felicidade esperada pelo pai, sem contar que ainda se sentia profundamente magoado com as palavras do mesmo. E claro, pelas suas atitudes também. 

Desde que ele conseguia se lembrar, sempre foi um bom filho. Do tipo que tira notas altas e é eleito o Presidente do Grêmio Estudantil. Assim como sempre era elogiado pelos professores e só trazia orgulho para dentro da casa, tendo uma relação saudável com o pai e todos os outros moradores. Mas agora, ele se sentia como se fosse o pior filho do mundo, do tipo que o desapantou da pior maneira possível e que já não havia mais volta. Nos últimos dias, ele tinha acreditado tão fielmente naquilo que chegou a se perguntar várias vezes se sua mãe realmente teria desgosto de um filho como ele. 

Elizabeth já tinha saído e agora a rua era um grande borrão de luzes amareladas por trás da chuva que começava a cair. O cheiro da grama molhada chegou às suas narizas mesmo por trás da janela e ele sorriu se lembrando de como seria bom e interessante estar do lado de fora, se preocupando unicamente se a chuva não atrapalharia os planos para aquela noite. Elaine já deveria ter lhe enviado uma mensagem dizendo algo para lhe animar – ou ofender. A realidade, é que desde que o grupo havia sido brutalmente separado, ela também não estava se sentindo muito bem. 

Parecia que todos os Protegidos haviam seus demônios para enfrentar, e que tinham resolvido fazer isso sozinhos, por conta própria.

A porta de seu quarto recebeu duas batidas suaves, mas ele sequer se virou para ver seu pai passar pela mesma. 

– Arthur?

– Fala.

Kardia engoliu a seco, sentindo a amargura na voz do primogênito. Seu coração parecia ter diminuído de tamanho nos últimos dias.

– Eu estou indo para o colégio agora – Anunciou ele sem fazer menção de se aproximar mais – Eu e o seu tio voltaremos logo, não pretendo demorar. Quer que eu traga algo para você, da rua?

Arthur não respondeu de imediato, e quando o fez, nada em sua postura havia mudado.

– Não. 

– Bom, então... até mais tarde – O mais velho de virou para a porta, pronta para fechá-la, mas parou no meio do processo com as palavras engasgadas na garganta – Filho... quando eu voltar, vamos conversar? Eu prometo que vou ouvir você.

O garoto se extremeceu e não conteu o sorriso no canto dos lábios, mas continuou em silêncio fitando o lado de fora. Longos minutos se passaram e ele viu o próprio pai entrar no carro e sair dirigindo em direção à escola. 

Tamborilando os dedos no parapeito da janela como se estivesse ensaiando uma batida de música em um teclado, o ruivo esperou pelo que pareceram dez minutos, até se sentir corajoso o suficiente para tirar a coberta grande de cima do corpo e exibir seu terno novo e escuro para o nada. A gravata laranja chamava a atenção contastando com o preto do blazer e seus cabelos. Os sapatos novinhos brilhavam com o lustre do quarto que estava aceso iluminando o cômodo bagunçado. 

Bom... seu pai teria de ouvi-lo depois e provavelmente ele escutaria o pior sermão da história, mas ele tinha passado meses organizando aquele baile e escutando todas as piadinhas sem graça de Elaine zombando da cara dele. Ao menos, todas àquelas ofensas carinhosas tinham que valer a pena, e ele estava pronto para ver o próprio trabalho e tentar se orgulhar dele. Além disso, uma teoria tinha se passado pela sua cabeça cheia de problemas nas últimas noites, e ele queria saber se ela estava certa. 

De acordo com Elaine, sua principal suspeita era a de que havia um traidor entre o grupo e alguém passava informações para o lado de fora. E era assim que a polícia tinha descoberto onde encontrá-los e como seu pai o havia pego no flagra. Mas até onde àquela fonte poderia ter acesso? O que exatamente ela sabia? Bom, ele não havia contado para ninguém além das meninas como sair da mansão Pendragon e seu pai não havia mencionado ou perguntando como ele tinha fugido naquela noite. 

Então, o plano parecia simples: se ele fosse até o porão e tivessem barrado o seu acesso para a liberdade, certamente a pessoa que passava as informações estava tão perto quanto ele imaginava. Se ainda estivesse aberto, significaria que ou o seu pai confiava nele – o que já não era mais uma hipótese para se pensar – ou o suposto "espião" não era tão informado como o esperado. 

Se acaso fosse a segunda opção, ele poderia se decidir entre ser o bom filho que um dia, tinha sido o motivo de orgulho para seu pai, ou ser o rebelde das últimas semanas seguindo seus instintos. A verdade é que embora tivesse feito uma lista de justificativas para ir ao baile sem permissão, parte dele ainda estava se decidindo. 

Então ele foi, colocando os travesseiros embaixo das cobertas caso fossem verificar e fofocar para seu pai, deixando as luzes apagadas e se escondendo entre os móveis dos empregados que, para sua sorte, não eram muitos. 

Abrindo a porta que levava ao porão, ele logo deduziu que sua última chance seria se o alçapão do lado de fora estivesse fechado. Ele torcia para que não, e que o universo ainda sentisse alguma pena dele. 

Começou à descer as escadas deixando marcas de pegadas enquanto pisava, com cuidado, nos dois centímetros de poeira que tinham se formado ali com o tempo. 

Ele estava – se sentia – pronto para a segunda etapa daquele plano que poderia ser muito bom ou muito ruim, quando um barulho no corredor o assustou e ele se desesperou, começando a correr no escuro. Bom, ninguém mandou não olhar por onde anda mesmo quando não se tem para onde olhar, então, se esquecendo completamente das pilhas de caixas que seu pai guardava naquele lugar e que o seu porão era a prova de som, acabou se colidindo com algumas das caixas e indo de encontro ao chão com elas. 

Um barulho muito alto e digno de uma queda muito feia, tomou conta do lugar pelo que lhe pareceram séculos, enquanto ele se perguntava se deveria se preocupar em ter chamado a atenção ou em ter sujado seu terno. No fim, ele se decidiu pela segunda opção. Com o corpo dolorido e a testa ardendo pelo beijo de cinema que tinha dado no chão, ele cambaleou até onde se lembrava estar o interruptor e deu luz ao lugar. 

Agora, ele conseguia ver com muita mais clareza o que tinha derrubado. As caixas estavam totalmente amassadas e o conteúdo delas tinham se espalhado por todo o chão. Ele resmungou, muito insatisfeito consigo mesmo por conseguir ser tão desastrado, e caminhou ainda com dor para recolher o que tinha sobrado.

Foi então, que ele notou que alguns dos vários objetos se tratavam de cadernos pequenos; agendas. Algumas decoradas com borboletinhas cheias de brilho e um cadeado ao redor, e outros, com desenhos mais simples. Um desses havia caído aberto, e como a pessoa nada curiosa que era, se aproximou. 

Uma letra arredondada, bonita e muito legível – completamente diferente da sua ou a de seu pai – marcava uma data antes de se iniciar um texto longo cheio de detalhes. Demorou um tempo até finalmente entender o que estava bem na sua frente: eram diários. 

Diários de sua mãe falecida que ele sequer sabia que existiam. 

Se esquecendo completamente do baile e seus planos para sair daquele lugar, ele se sentou no chão, com os olhos colados nas páginas. Pegando um dos cadernos, com datas pouco antes de seu nascimento acontecer, acabou deixando que uma coisa escondida entre as folhas caísse no chão sobre seus pés cruzados.

Era uma fotografia, onde sua mãe, muito mais jovem e incrivelmente linda com um sorriso adorável no rosto, estava abraçada com outra garota que ele nunca tinha visto na vida. Ela também era loira, tinha olhos verdes e parecia estar rindo quando a foto foi tirada assim como Krone fazia ao seu lado. Ele reconheceu o cenário atrás delas, era o jardim da escola onde ele mesmo estudava agora. Estava um pouco diferente do que ele se lembrava, mas as semelhanças que não tinham sido apagadas com o tempo deixavam claro que ele estava certo. 

Olhou atrás da foto, e assim como sempre acontecia nos filmes de investigação, havia um recadinho atrás com as informações, com a mesma letra 

"Marta e Krone.

15/08/98"


Marta... ele conhecia aquele nome, mas de onde?

Balançando o caderno mais uma vez e com mais força, afim de encontrar mais alguma coisa, ele se surpreendeu quando uma nova fotografia caiu se apresentando. Ele não demorou a pegá-la e analisar o grupo de amigos que, nitidamente, tinha ficado muito maior.

Segundo a lógica de algumas características que o tempo não muda, ele conseguiu identificar algumas pessoas. Sua mãe e a tal de Marta, nesta foto, continuam abraçadas. Embora agora estivessem sentadas no chão da quadra de esportes, usando os uniformes de Ed. Física, enquanto os garotos ficavam de pé logo atrás. Seu pai estava ali; muito mais jovem e parecendo muito menos sério e mais feliz, um sorriso sombeteiro no rosto. Ao lado dele, estava seu tio Fuegoleon com uma cara de poucos amigos. Se estivesse certo, na outra beirada, um pouco mais baixinho que os demais, estava Cusack, o tio de Zeldris e Meliodas, e logo do lado, sorrindo, estava Chandler. 

Arthur avaliou bem aquela situação, quando foi que Chandler foi capaz de sorrir daquele jeito, como se estivesse feliz? Como se, de fato, fosse uma pessoa feliz? 

Havia mais alguém na foto, uma que assim como a segunda garota ele não reconheceu e tinha certeza de que nunca tinha visto na vida. E se tinha, não conseguia se lembrar. 

Olhou o lado de trás, na esperança de que também tivesse suas informações, mas não achou nada além de um: "clube da meia-noite (os mais idiotas)".


Certo, agora sim ele estava muito confuso. 

Abrindo os diários, antes mesmo de ler ele notou que dos lados e na contra-capa haviam símbolos desenhados. Sempre ouviu de seu pai e amigos que sua mãe também adorava rabiscar e era por esse motivo que tinha iniciado um curso de desenho, mas ele tinha a impressão de que o que estava ali não eram apenas rabiscos. Pareciam símbolos, e alguns deles tinham o significado ao lado da figura. 

Uma delas, parecia um espiral cheio de espinhos que acabava em três voltas e uma bolinha no meio. Ao lado, estava escrito "Blossom" com uma caneta vermelha. Foi vendo isso, que ele finalmente fez a ligação: Marta, se não se enganava, era o nome da mãe dos gêmeos Blossom's. 

Pegou a fotografia das duas garotas mais uma vez, e começou a comparar as semelhanças entre eles que conseguia encontrar. E então, fez o mesmo com a outra logo em seguida. 

Se ele estivesse certo, Meliodas Blossom era muito parecido com a mãe e tinha herdado todas as características mais marcantes da mesma; os olhos verdes e os cabelos loiros. Mas agora, olhando para a segunda foto, ele não conseguia mais ver um "homem estranho" entre o grupo de amigos, a única coisa que ele via era o retrato de Zeldris Blossom. Pensando bem agora, com a informação, era como se o moreno tivesse entrado em uma máquina do tempo e se juntando aos tios e os amigos deles na época da escola. A única diferença era que Otávio parecia ser um pouco mais alto e muito menos sombrio que o filho, um sorriso enorme tomava seus lábios. 

Tirando isso, poderiam ser confundidos. Era como se fossem a mesma pessoa.

Foi então, que depois de se sentir tão estranho olhando as fotos e tentando juntar as peças que finalmente iniciou sua leitura ligando tudo que sua mãe tinha escrito com as fotos e os símbolos. 

Mal sabia ele, que mesmo morta, ela tinha uma incrível história para contar. 

...

Se Arthur Pendragon tinha, em algum momento, alimentado a ideia de que Elaine Xavier tinha preparado sua agenda da noite com um vestido de gala e uma taça de champanhe, ele estava errado. Para a loira, a ideia de se divertir em um baile tinha ido por água a baixo depois de perder o melhor amigo e as duas garotas mais importantes de sua vida. Uma desgraça atrás da outra. Não parecia ter sentido algum se iludir com a esperança de que ainda seria a mesma coisa sem os micos de Arthur, os sumiços aleatórios de Gelda e suas mudanças de assunto, e do sarcasmo ácido de Elizabeth. Com quem ela iria falar? Como ela iria rir dos amigos sem a presença deles?

Não, ela não tinha motivos para agradar e satisfazer a vontade de outras pessoas, vulgo seus pais – pessoas consideradas importantes demais para não comparecerem àquele baile. King estava no hospital com Diane, e ela teria de aproveitar o tempo sozinha em casa da melhor forma que sabia: resolvendo mistérios.

Com o coração acelerado pelo medo de que pudesse ser pega e acabar dando tudo errado, ela se obrigou a controlar a respiração e digitar o número no celular descartável em sua mão. Até ali, ela nunca tinha achado alguma utilidade no antigo aparelho, substituído pelo presente de Natal, mas sabia que estava certa em guardá-lo, e o momento para provar isso era agora. 

– Boa noite – Ela começou, quando o outro lado da linha atendeu. Tentou fazer uma voz mais rouca e séria – Meu nome é Mônica Posh, a nova assistente social trabalhando no caso dos Cavaleiros Sagrados. 

Boa noite, Sra Posh, em que podemos ajudar? 

Um sorriso de satisfação cobriu seu rosto assim que um alívio apossou de seu corpo. A primeira parte tinha sido fácil.

– Então... estou tentando entrar no sistema oficial do reformatório para ver os dados pessoais do meu cliente, mas aqui diz que minha senha está inválida. Recebi todos os documentos impressos e a senha que recebi há três semanas não está funcionando.

Qual a senha que você recebeu? – Com medo, ela falou o número confidencial achado por ela com algumas fuçadas no escritório do pai, torcendo para estar certa –  Só um segundo, veremos o que podemos fazer.

Ela foi colocada na espera, com um sorriso contido nos lábios e uma ansiedade forte no coração. A caneta em seus dedos batia contra o bloco de notas repetidas vezes. 

Sra Posh, conferimos as últimas atualizações e descobrimos que a senha realmente foi alterada há duas semanas. Devemos passar a próxima pelo seu e-mail?

Não é necessário, poderia repetir para mim? – O homem que falava do outro lado ditou os números que ela escreveu e conferiu no bloco de notas – Muito obrigada, deixarei o meu e-mail caso aconteça de novo. 

Depois de alguns segundos, ela já havia desligado o telefone e voltado para sua pesquisa. Agora, oficialmente dentro do sistema do reformatório da cidade para onde os Cavaleiros Sagrados menores de idade, incluindo o líder deles, Ivan Hababi, tinham sido mandados e estavam vivendo desde então. 

Não importasse o quão maluca ela parecesse e os riscos que teria de correr, ela estava determinada a encontrar o verdadeiro culpado por trás de todas as mortes da cidade, incluindo as dos lado norte: Zaneri Robbins e Peter Logbothom. Ela tinha certeza de que todos os últimos seis assassinatos tinham sido trabalho da mesma pessoa, e não iria parar, até encontrá-la.

...

Gelda tinha a sensação de que se não fosse pelo trabalho e tortura usados para fazer aquele penteado ficar pronto – além do fato de Estarossa ser muito convincente quando queria – ela realmente cogitaria a ideia de ficar em casa, deitada na cama, com uma garrafa de tequila, onde ninguém a acharia e onde ela poderia simplesmente dormir e fingir que estava tudo bem. Mas agora, se olhando no espelho, pensou que se pelo menos uma pessoa não admirasse sua tentativa de ficar bonita, por pelos menos cinco segundos, ela acabaria sofrendo ainda mais. 

Se encolhendo com um susto rápido que recebeu, ela escutou o som da campainha e viu toda a sua motivação para sair de casa descer pelo ralo, e a de ficar em casa também. Se levantando e apagando a luz do quarto no processo de saída, ela caminhou descendo as escadas se perguntando brevemente quem poderia ser, achou que Estarossa era uma boa opção. 

Mas, para sua grande surpresa e das borboletas alvoroçadas no estômago, não era Estarossa nem ninguém que ela pudesse cogitar àquela altura do campeonato.

Zeldris tinha certeza de que a primeira coisa que sentiria quando ela resolvesse abrir a porta para ele, era medo. Mas ali, a única coisa que ele conseguiu sentir foi uma onda de calor que se espalhou por cada célula existente em seu corpo que inundou seu coração, que ficou acelerado no mesmo instante. 

Céus! Como ela estava linda!

Não sabia porquê, mas enquanto se preparava para o que poderia ser sua sentença de morte e o pior dia de toda a sua vida, ele a imaginou com seu pijama de todas as noites e os cabelos loiros bagunçados do que jeito que ele tanto amava, com os olhos vermelhos cheios de vida de quem ficaria uma noite inteira assistindo séries de TV e o esmalte da unha saindo. Do jeito que ela ficava a vontade e sem preocupação alguma estampada no rosto, do jeito que ele sempre gostou e se sentiu sortudo por ver.

Mas ele, claramente, não tinha se preparado para como ela tinha se apresentado. Bem na sua frente, estava tão deslumbrante que parecia mentira. 

O vestido vermelho que destacava seus olhos parecia valorizar todas as suas curvas sem estar perto de ser vulgar; os seios avantajados no decote generoso que seus olhos capturaram rapidamente. Os cabelos tinham deixado a trança de lado e agora estavam presos em um coque alto, com apenas duas mexas enroladas da franja na frente do rosto, que agora parecia um pouco mais cheio e muito mais iluminado. A maquiagem – coisa que ele nunca tinha visto ela usando, além de seu gloss – estava leve e parecia não ter tirado nenhuma de suas qualidades naturais mais belas.

– Uau! – Ela disse, como se estivesse encantada – Você sabe usar a porta?

Como se tivesse acabado de ser acordado de um sonho muito bom, ele fechou a cara se sentindo um idiota. Ele havia cogitado a ideia de entrar pela janela como todas as outas vezes, mas se fosse para realmente fazer tudo certo, até isso ele iria arriscar para não errar de novo.

– É, eu sei usar a porta – Respondeu sério, tentando não encarar os seios dela novamente que estavam saltando daquele vestido – Eu não sabia que iria ao baile.

– Nem eu – Respondeu ela – Apenas queria me vestir – Admitiu – O que está fazendo aqui?

– Como assim? Sempre esteve nas metas roubar uma dama de vermelho. 

Ela sorriu, se lembrando de uma época muito boa em que ele a "roubava" o tempo todo, sem saber que ela já era dele. Cruzou os braços, e olhou para ele. 

– Você está bem? Quer entrar?

A doçura e bondade na voz dela o deixaram tão encabulado que se proibiu de olhar para os olhos da garota. Como era possível ela ainda ser o anjo da sua pobre vida depois de tudo que tinha acontecido no dia anterior? Sinceramente, ele tinha ido ali esperando um tapa na cara e ele seria muito bem merecido. 

– Eu quero conversar com você – Ele disse – Eu pensei no que você me disse ontem, e no que eu não disse também. Gelda...

Dando um passo muito delicado para frente, ele segurou a mão gelada dela com medo de que ela acabasse se afastando, mas Gelda apenas se encostou no batente da porta e uniu seus dedos com os dele. Apenas com aquelas atitudes calmas e serenas, ela estava estava conseguindo fazer ele se sentir ainda mais apaixonado, se é que isso era cientificamente possível. 

– Eu cansei de te magoar – Declarou ele, sabendo que ela estava o olhando atentamente – Nos éramos unidos e muitos próximos e, com medo de perder isso, eu acabei estragando tudo – Então, ele finalmente olhou para ela, perdendo o ar por um segundo – Você pode me chutar para fora agora, se quiser. Mas se estiver disposta a me escutar uma última vez, eu quero te contar tudo.

Ela arregalou um pouco olhos. 

Tudo?

– Sim. Todos os baixos da minha família; o motivo do qual eu e Meliodas sermos criados separados e principalmente porquê eu tenho agido como um idiota perto de você. Chega de segredos, eu não quero mais que você pense coisas erradas nem que se magoe por isso. Mas, eu já vou avisando que é insano, maluco e estranho. Você aceita?

Ela pareceu pensar por um segundo, e então, olhou no fundo das orbes negras com a esperança de que sua noite estava para ficar muito melhor.

– Tudo bem, eu aceito. 


Notas Finais


Depois dessa... todos vocês querem me matar por terminar o capítulo por aqui, mas no fim, o mistério vale a pena kkkk

→ Desculpa pelos comentários que eu ainda não respondi, prometo que vou fazer isso assim que der.
→ Depois desse, temos apenas mais dois capítulos para terminar esse arco e entrarmos no terceiro e último, ansiosos? Pq eu tô uma pilha.

Obrigada por ler e comentar ❤️ BEBAM MUITA ÁGUA, MORES!!!


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