1. Spirit Fanfics >
  2. Seguindo no trem azul >
  3. Fique em silêncio, deixe o amor entrar

História Seguindo no trem azul - Capítulo 5


Escrita por:


Notas do Autor


Oii gente. Venho com um mimo pra iniciar o fim de semana. TALVEZ role mais um capítulo até domingo. A história está na metade para o final ;)

Não sei se vocês viram, mas troquei a capa da história pra ilustrar como os personagens eram 10 anos antes. Acho que é legal pra conseguir imaginar melhor o cenário da fic hehe.

Enfim, aproveitem!

Capítulo 5 - Fique em silêncio, deixe o amor entrar


"Diná, não vai dar pra eu ir com vocês hoje... É sexta ainda." Estela fala exasperada no telefone. "Eu só posso tirar folga a partir de amanhã."

"Mas Estela, a véspera de ano novo é segunda. A gente sempre passou juntas, em família, não vai ser por causa de um detalhe desses que você vai deixar de ir." Diná argumenta com a irmã.

"Não vai dar. Eu não tenho carro, você sabe. Não vou de táxi pra fazenda..." Estela discute de volta. "A Bia já vai com vocês, não vai ser nenhum fim de mundo se eu não for."

Diná pausa e pensa por um momento. "Tem um convidado da mamãe que ficou de ir no sábado." Ela continua. "Você pode pegar carona com ele."

"Mas..." Estela tenta contestar, mas é rapidamente interrompida pela irmã.

"Sem mas, Estela. Eu resolvo esse negócio da carona pra você." Diná retruca. "Por favor, vai. Não vai ser a mesma coisa sem você..."

Estela considera a sugestão por um momento. "Quem é o convidado, eu conheço?"

“Eu não sei, não perguntei.” Diz Diná. “Não se preocupa com isso, eu resolvo.”

Estela reflete por alguns segundos. Só sua irmã a deixava ser tão maleável assim. “Tá bom, você venceu.”

Diná exclama em alegria. “Ótimo! Mamãe tava falando que ele saía de manhã. Esteja no portão às 9h.”

——————————-

Estela espera fora do portão da vila. São 8h55, sábado de manhã. Em suas mãos estão suas bagagens: uma mala de mão e uma mochila.

A rua estava consideravelmente inerte. Final de ano em geral era assim mesmo, as pessoas viajavam e ali ficava desabitado. Entretanto, por conta do feriadão, parecia que aquilo era uma cidade fantasma.

Ela olha para o final da rua em expectativa. Não gostou muito da ideia da carona, mas havia feito aquela forcinha só pela irmã. Embora gostasse muito da fazenda, parte de si só queria afundar-se em desilusão sozinha, em casa.

Desde o aniversário da sua mãe, no começo do mês, não havia visto mais Alberto. Batia uma saudade que ela não entendia muito bem como poderia existir. Foram apenas três encontros nos quais, de pouco a pouco, o médico havia adentrado os caminhos tortuosos rumo ao seu coração. Ela sentia que ele estava ali, batendo na porta e ela não se decidia se fingia que não tinha gente em casa.

Todo esse turbilhão de emoções só a deixava com desânimo de encarar a realidade. Sentia-se impotente na situação, mas ao mesmo tempo não sabia se queria tomar as rédeas. Sempre havia apassivado-se nas decisões do coração, não foi à toa que terminou casando com um cafajeste como o Ismael. A experiência havia sido tão traumática que agora ela já não compreendia se seria possível deixar-se levar dessa forma novamente.

Seu coração, no entanto, lhe dizia outra coisa. Toda vez que estava perto de Alberto suas guardas caíam. Ele tinha um dom de apaziguar seus ânimos e transparecer cuidado, carinho, zelo. Seu toque gentil a fazia suspirar, seus olhos encantadores penetravam as mais profundas camadas da sua desconfiança e seu sorriso parecia ter uma dedicatória somente para ela.

Infelizmente a sua insegurança a impedia de se jogar naquilo tudo. Havia horas em que toda aquela certeza dos sentimentos de Alberto para com ela esvaecia-se. Se mostrava difícil de separar a atenção que o homem dava aos outros por sua índole, da dedicação que ele aparentava lhe mostrar. Essa ambiguidade a perseguia nos momentos mais vulneráveis.

Ela ouve o ronco de um motor a distância. O sol de dezembro brilhava fortemente e Estela não conseguia identificar quem conduzia o veículo que se aproximava. Um carro da marca Ford, azul escuro, encostava na calçada. O vidro do motorista abaixa e ela logo percebe quem lhe espera ali.

“Oi, Estela.” Alberto diz sorrindo, seu braço apoiado na janela do carro e seus olhos um pouco apertados dos fortes raios solares.

“Alberto? É você que vai me dar carona?” Estela pergunta, um pouco atordoada.

“Carona?” Alberto a questiona, sua face demonstrando confusão também. “Como assim? Só tava passando por aqui e te vi, quis te cumprimentar.”

A expressão de esperança que havia se formado no rosto de Estela desfaz-se, uma de decepção toma conta.

“Ah, desculpa, Alberto. Por um momento pensei que você fosse pra fazenda com a gente.” Estela confessa.

Um sorriso vai tomando conta do rosto de Alberto e ele não resiste a tentação de gargalhar.

“É brincadeira, meu bem.” Ele sorri afetuosamente e Estela sente um aperto no coração com o termo de afeição.

“Sou eu que vou te dar a carona sim.” Alberto continua, passando a mão pelo próprio cabelo. “Me desculpa, não resisti.”

Estela acaba rindo junto em alívio, as pecinhas se encaixando na sua cabeça. Diná, sua danada - Estela pensava - sabia exatamente quem era esse tal do convidado. Não consegue nem se recuperar da surpresa direito, Alberto prontamente abre a porta do carro.

“Deixa eu te ajudar com essas malas, tão com cara de que tão pesadas.” Alberto diz, pegando as bagagens e dirigindo-se ao carro. Ele abre a mala e as acomoda com cuidado. Estela não deixa de notar os seus músculos, flexionados com a ação.

Alberto caminha para perto da porta do carona, abrindo-a para Estela. A mulher ainda se encontra meio atônita na calçada.

“Estela?” Ele a questiona, entretido. Seu rosto estampado por um sorriso torto.

Estela se move em direção a porta do carro, parando na frente do homem. Ele ainda está com seu braço esticado ao segurar a porta, barrando sua entrada no veículo. Ela olha para cima e o encara, um pouco desorientada. O sorriso de Alberto muda para algo mais doce. Parecia que esperava algo dela. Entretanto, ele não diz nada, movendo-se para o lado e fechando a porta para Estela quando ela entra no carro.

Alberto dirige-se a porta do motorista, acomodando-se no assento e girando as chaves do veículo. Ao soltar o freio de mão, sua mão encosta no lado da coxa de Estela, que treme levemente com o inesperado toque. Alberto quase não se contém de satisfação, deixando um sorrisinho realizado escapar na sua feição.

Ele acomoda seu braço atrás do assento de Estela e olha para trás para dar ré. O coração de Estela pula algumas batidas com o movimento repentino e o perfume do médico, o mesmo que havia usado para o aniversário de sua mãe no começo do mês. Alberto finalmente quebra o silêncio intimidante ao saírem em direção a estrada.

"Esse é o lugar que você se referia quando disse que gostava de ir pro campo?" Ele pergunta tentativamente.

Estela relaxa um pouco com o tópico da conversa. "É, já vamos lá há muitos anos. Desde que o Raul se casou com a Andrezza." Ela sorri, modesta.

"Deve ser um lugar muito bonito." Alberto conclui, seu olhar concentrado no caminho.

"É sim, acho que você vai gostar." Estela o responde, olhando para a sua janela. Alberto olha para a mulher furtivamente. Adoraria olhar por mais tempo do que a condução lhe permitia.

Ficam em silêncio por alguns minutos, somente o som do rádio tocando baixinho. Estela não quer deixar a conversa morrer, resolve tomar uma atitude. Decide que Alberto não podia mais tomar todas as iniciativas.

"Eu fiquei feliz quando vi você abaixar a janela." Ela diz, sorrindo envergonhada e olhando para as mãos apoiadas em seu colo.

Alberto surpreende-se, olhando para ela por um momento, seu olhar esperançoso. "Ah, é?" Ele questiona suavemente.

"Sim, não sabia que a mamãe tinha te convidado." Estela continua, olhando rapidamente para Alberto e de volta para seu colo. "Foi uma surpresa boa."

Alberto reflete por um momento, Diná havia lhe convidado. Por que Estela achava que tinha sido a mãe? Talvez tivesse presumido.

Alberto decide não contestar. "Pois é, fico feliz de passar o ano novo com vocês. Mencionei que não tinha nada planejado."

"Você não ia fazer nada no ano novo?" Estela pergunta, olhando para Alberto um pouco perplexa.

"Eu raramente tenho planos nessa época." Alberto dá de ombros. "Meus pais já são falecidos, e meus amigos já tão na fase de passar a data com as próprias famílias."

Estela sente seu estômago afundar. Como que um homem tão humano como o Alberto podia ficar solitário numa época como essa? Uma época na qual a congregação era o ponto principal. Sua família tinha mil defeitos, mas ainda assim era a sua família. O sentimento que lhe ocupava não era o de pena, mas sim o de uma angústia profunda e vontade de carregar aquele homem no colo.

Alberto estranha o silêncio, olhando para Estela e percebendo seu semblante tristonho. "Ei, ei, ei." Ele fala ternamente para chamar sua atenção e Estela olha para o homem de volta.

"Não fica assim." Ele diz, tirando uma das mãos do volante para tocar uma das mechas do cabelo de Estela. "Já faz muito tempo isso, e eu não sou muito de festa também." Ele pisca o olho para ela em brincadeira, voltando sua atenção para a estrada.

Estela já ansiava por sentir aquele toque em seus cabelos novamente. Ela sorri empaticamente mas não sabe como continuar a conversa.

"Vou trocar a estação de rádio aqui se você não se importar." Alberto pede permissão.

"Claro, por mim tudo bem." Estela responde.

Alberto troca de estação e imediatamente engata na música que está tocando, assustando Estela com seu entusiasmo.

"What's love got to do, got to do with it?" Alberto canta a música em um falsete e Estela não segura a gargalhada. "Who needs a heart when a heart can be broken?" Ele continua, achando graça e entrando no personagem.

"Alberto, eu nunca imaginei." Estela continua rindo.

Alberto não se segura e gargalha também. "Eu sou uma caixinha de surpresas." Ele lhe devolve um sorriso largo.

I've been takin' on a new direction

But I have to say

I've been thinkin' about my own protection

It scares me to feel this way

A música continua tocando na rádio, os dois em uma reflexão alegre após o momento.

"Você também não ia fazer nada no ano novo, né?" Alberto interrompe o silêncio.

Estela franze a testa por um momento. "Não tava me sentindo muito bem."

"Mas você tá doente, Estela?" Alberto olha para ela com preocupação, estendendo sua mão para encostar em sua testa, descendo pela bochecha e pescoço. Estela estremece e cora levemente com contato. "Sua temperatura tá normal, pelo menos isso." Ele volta a mão ao volante sem perceber o que sua ação desencadeou na mulher.

"Não, não tô doente não." Ela responde. "Ando meio preocupada ultimamente, matutando algumas coisas." Estela olha para a janela, desviando do olhar do médico.

"Bem, se você quiser conversar..." Alberto fala carinhosamente, tirando uma de suas mãos do volante e colocando-a sobre as mãos de Estela. “Já sabe.” Ele sorri.

É por causa de você, seu bobo. Estela só consegue pensar.

Estela o surpreende ao passar seu dedo polegar por cima das juntas da mão do homem, num leve afago. "Obrigada, Alberto."

Alberto retribui a carícia como se estivesse ali segurando a coisa mais preciosa do mundo. Ele limpa a garganta, triste em ter que retrair a sua mão de volta ao volante.

"Já pensou nas suas resoluções de ano novo?" Estela pergunta.

Alberto dá uma leve risada. "Eu não acredito nessas coisas."

"Ah, é? No que você acredita então?" Estela questiona o homem espirituosamente, olhando para o seu perfil.

"Eu não espero pelo final do ano pra começar a aplicar o que eu quero mudar." Alberto dá um sorriso tênue, ainda focado na estrada. "Muito chato, né?"

Estela ri um pouco com a resposta. "Não, na verdade faz bastante sentido."

"Que bom que você concorda." Ele murmura, finalmente olhando para Estela. "Se eu não fizesse isso, talvez eu não estivesse com você aqui nesse carro hoje." Alberto arrisca.

Estela sente um frio na barriga com a implicação. Pondera por um tempo se deveria questionar mais.

"Qual foi a sua resolução?" Ela ousa em perguntar, o olhar de Alberto a deixa inquieta.

Alberto reflete por um momento antes de decidir por seguir o caminho mais fácil.

"Estela, nós temos quatro dias pela frente." Ele afirma, tentando disfarçar sua insegurança com uma risada. "Te conto quando chegar mais perto da virada."

Estela ri fracamente, ligeiramente decepcionada.

"E a sua resolução?" Alberto pergunta em troca.

"Quem sabe quando você me contar a sua eu te conto a minha." Estela devolve. Alberto só consegue rir de volta.

---------------------

A dupla chega na fazenda perto das 11h, bem em hora para o almoço. Alberto descarrega seu carro, levando a sua bagagem e a de Estela para os seus respectivos quartos. Por serem os últimos convidados a chegar, a família e alguns agregados já estavam ocupados em atividades das mais diversas. Os dois caminhavam em direção a entrada quando ouvem uma voz.

"Estelinha!" Diz um homem, aproximando-se de Estela com um sorriso para envolvê-la em um abraço apertado.

"Rodrigo, quanto tempo, hein?" Ela o abraça de volta, sorrindo simpaticamente. "Como vão as coisas?"

"Ah, vão muito bem, obrigado." Rodrigo continua, seu sorriso de orelha a orelha, seus olhos escaneando Estela da cabeça aos pés. "Você tá muito bonita, esses anos te fizeram bem."

Estela agradece e ri embaraçada. O sangue de Alberto ferve com a declaração do homem. Alberto nunca fora um homem ciumento, mas aquela situação estava despertando um lado que ele não conhecia sobre si mesmo. Alberto não era bobo, ele reconhecia o olhar que Rodrigo projetava a Estela. E esse mesmo olhar o fazia ter vontade de pular em cima dele pela indecência. Não controla seu instinto de fuzilá-lo com o olhar.

"Rodrigo, esse é o Alberto." Estela diz, apresentando-o. "Alberto, o Rodrigo é um vizinho nosso de muito tempo."

Rodrigo estende a mão para Alberto, que a aperta com a sua maior firmeza. "Prazer em conhecer." Ele não consegue disfarçar muito bem sua antipatia.

Ao afastar-se do homem, Alberto volta para o lado de Estela, repousando sua mão nas costas da mulher. Estela olha em um misto de surpresa e desejo para Alberto, que ainda encara Rodrigo furiosamente.

"Você é o namorado da Estela?" Rodrigo pergunta a Alberto quase que em um tom desafiante.

Tanto Alberto quanto Estela coram um pouco com o questionamento. Os dois trocam um olhar significativo, um olhar de quem quer algo mais. Alberto adoraria dizer que sim. Envolvê-la ali mesmo em seus braços, beijá-la como se sua vida dependesse disso, ser o porto seguro daquela mulher.

No entanto, ele tinha certeza que Estela merecia mais. Merecia uma grande declaração, romance, juras de amor e carinhos que não concerniam a ninguém mais além deles dois. Alberto se preparava para dar-lhe a verdadeira resposta quando Diná entra pela sala.

"Estela! Dr. Alberto! Que bom que vocês chegaram!"


Notas Finais


Esse capítulo foi mais um filler para o que Vem Aí™. Resisti muito pra não progredir mais nesse, mas é que eu amo um Albertinho ciumento e precisei incluir a deixa na história. Joguem aí as suas apostas de quais são as resoluções de ano novo de cada um hehe :)


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...