História Segundas Intenções - Capítulo 9


Escrita por: e EloraSnow

Postado
Categorias As Crônicas De Gelo e Fogo (Game of Thrones)
Personagens Arya Stark, Brandon "Bran" Stark, Catelyn Stark, Cersei Lannister, Daario Naharis, Daenerys Targaryen, Eddard Stark, Jon Snow, Rickon Stark, Robb Stark, Robert Baratheon, Sansa Stark
Tags Daenerys, Jon, Jonerys
Visualizações 234
Palavras 7.688
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Universo Alternativo
Avisos: Adultério, Álcool, Drogas, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Desculpem mesmo não ter postado ontem como eu havia dito que faria, o capítulo ficou muito maior do que eu imaginava além de que eu reescrevi algumas coisas, o que me deu muito trabalho.
Esse não saiu tão inspirado quanto o último, mas eu espero que gostem. Boa leitura!

Capítulo 9 - Antes do Amanhecer - Jon


Quando acordou naquela manhã de sábado a única coisa que Jon queria fazer era ficar deitado se lamentando o dia inteiro. Quando Daenerys retirou o anel de seu paletó e o mundo desabou em sua cabeça como ela disse que aconteceria a única coisa que quis foi se deitar e dormir uma semana inteira para se esquecer. Sim, um Stark também sabe ser dramático. Mas nunca imaginou que estaria a meia noite andando a pé por uma cidade desconhecida indo para um lugar que ele não fazia ideia de onde era. A mulher ao seu lado estava confiante e as vezes olhava para ele e ria da incerteza em sua cara.

— É ótimo quando é você que não sabe para onde está indo, não é?

Ainda não sabia como ela o convenceu a sair daquele quarto. Mas tinha certeza de que aqueles irresistíveis olhos foram a cartada final. Alguém conseguia negar alguma coisa para aquelas orbes violeta?

Depois de revirar sua mala e desdenhar de ele só levar roupas de inverno para uma cidade tão quente quanto Porto Real, Daenerys decidiu que o itinerário da noite deveria começar com uma passagem em uma loja de roupas. Felizmente Petyr Baelish tinha seus contatos e eles não precisaram ir muito longe para encontrar uma. Entraram na loja no final da Avenida Aegon V parecendo dois famosos e saíram como um casal comum. Ambos de calça jeans e camiseta simples. A única coisa chamativa no casal eram os cabelos platinados da mulher, o que em tempos de descolorantes não era tão estranho assim. De acordo com as orientações dela foram somente com roupa do corpo, até mesmo os smartphones ficaram no quarto do hotel. Se alguém pensasse em assaltá-los sairia desapontado. Ou nem tanto. O peso leve no bolso da calça não o deixava esquecer que ali repousava o relógio de ouro. Estava prestes a retirá-lo antes de sair quando ela disse:

— Não, leve o relógio. Nós temos muita coisa para fazer antes do amanhecer. Vamos precisar dele.

E então, para não estragar seu disfarce de casal comum guardou-o no bolso. Desceram a Avenida Aegon V passando em frente a Delírios que bombava naquele horário e a uma das joalherias da Kelio. Depois percorreram ruas menores até dar na praia. A primeira coisa que Jon reparou foi na grande fogueira alguns metros a frente deles bem no centro da praia. Ao se aproximar conseguiu distinguir melhor o cenário: dezenas de motos estacionadas de forma irregular sobre a calçada, algumas tendas simples montadas no lado oposto ao que eles se aproximavam e muitas, centenas pessoas ao redor da fogueira dançando de uma forma que ele nunca tinha visto antes e que Catelyn — ou qualquer fiel dos Sete — classificaria como imoral e indecoroso.

— Tivemos sorte hoje. — Dany cochichou para ele enquanto pegava na sua mão e o puxava para andarem mais depressa. — É um casamento.

— Um casamento? — Jon olhou novamente para as pessoas procurando os noivos em algum lugar de destaque mas só percebendo que quase todas as pessoas ali usavam os cabelos trançados. — Não tem problema a gente invadir a festa alheia?

— Problema nenhum, é uma festa comunitária, a maioria das pessoas aqui provavelmente nem conhece os noivos. Os Dothraki não ligam muito para essas convenções.

Jon parou de repente fazendo Dany se virar para ele. Conhecia muito pouco da história e da cultura Dothraki, mas o pouco que conhecia era o suficiente para seu subconsciente mandá-lo dar o fora daquele lugar o mais rápido possível.

Os antepassados dos Dothraki de Westeros eram constituídos basicamente de tribos, chamados por eles de khalasares, que viveram durante muito tempo como nômades domadores de cavalos bem no interior do continente de Essos enquanto a cidade franca de Valíria dominava as regiões litorâneas. Porém, depois da queda do grande império há 400 anos e sem qualquer força que pudesse deter a ferocidade e força dos senhores dos cavalos, eles passaram a cruzar o continente, das cidades livres ao deserto Vermelho cavalgando através do Mar Dothraki, — uma vasta planície bem no centro de Essos, um oceano de grama ondulante como muitos descreviam — saqueando e queimando cada cidade e vilarejo em seu caminho e sempre brigando entre si. Sua soberania sobre o Mar Dothraki durou pelos próximos 200 anos e acabou quando as cidades livres, lideradas por Braavos, superaram as intrigas vindas da época do império e se uniram contra eles e seus ataques constantes. Os arakhs, machados e força não conseguiram parar as modernas armas de fogo. Depois de vários confrontos pontuais, o episódio final da luta entre os ‘civilizados’ e ‘selvagens dos cavalos’ aconteceu em uma manhã cinzenta do mês de agosto de 1815. Desesperados pelas perdas recentes os Dothraki se reuniram na sua única cidade, Vaes Dothrak, e pela primeira e última vez marcharam juntos contra as cidades livres. O massacre de homens e cavalos foi tão grande naquela data que muitos diziam que o verde da grama foi, por muitos dias, substituído pelo vermelho do sangue. Não por acaso o acontecimento ficou conhecido como Mar de Sangue. Os sobreviventes Dothraki assinaram um acordo de paz que lhes obrigaram a devolver grande parte das riquezas saqueadas e se reunir num pequeno território cedido a eles ao redor de Vaes Dothrak. Os que não aceitaram o acordo fugiram para o leste chegando a Qarth e Asshai, ou para outros continentes como Sothoryos e Westeros. Em toda sua bondade o jovem rei Daeron II permitiu a entrada de refugiados da guerra no reino e eles se estabeleceram especialmente nas Terras da Coroa ao redor de Porto Real. Esse foi o maior erro do longo reinado do bom rei Targaryen. Em pouco tempo os Dothraki se reorganizaram, de tribos passaram se organizar em quadrilhas e quando as primeiras motos surgiram abandonaram os cavalos por elas. Em menos de um século no continente passaram a dominar quase todo o crime organizado, posição que mantinham até os dias atuais. Ou pelo menos era assim que ensinavam as crianças no Norte e por isso Jon teve aquela reação imediata ao ouvir o nome. Onde Dany o tinha levado? Como as autoridades permitiam uma manifestação cultural Dothraki abertamente?

Fez essas mesmas perguntas em voz baixa para Daenerys ao que ela simplesmente franziu o cenho e sacudiu a cabeça descrente:

— As pessoas do Norte não dão muita importância ao que acontece no sul. Você está sendo preconceituoso Jon. Assim como nem todos os Stark são honrados ou nem todos os Targaryen eram loucos, nem todos os Dothrakis são criminosos. Aliás só uma pequena minoria deles o são. — Dany voltou a caminhar em direção a fogueira e Jon a acompanhou. — A história, a mídia e a falta de informação que faz com que todos sejam vistos assim e sua cultura discriminada. A maioria dos descendentes Dothraki trabalham e convivem com os outros cidadãos normalmente, totalmente integrados a sociedade Westerosi. As únicas diferenças são a religião e os costumes. — Virou-se para ele mais uma vez. — Se sente mais seguro agora?

Jon olhou ao redor observando o ambiente. A música ritmada por batidas vinha de tambores e eram periodicamente cortados pelo som animado de estranhos instrumentos de corda parecidos com violão chamados hoyali ki hrazef, como ele viria a saber mais tarde. Nome que significa som do cavalo em tradução livre do idioma dothraki. Muitas das pessoas no local vestiam-se com botas, jaquetas e luvas de couro deixando bem claro o porquê de tantas motos estacionadas ali perto. A maioria no entanto trajava roupas comuns, sem estilo que os definiam como dessa ou daquela tribo, e apesar da maioria ter a pele em tons de cobre e os olhos amendoados típicos dos Dothraki existiam pessoas de todas as raças e estilos ali. Até mesmo um cara enorme com uma longa trança em seus cabelos loiros que passou por eles e cumprimentou Daenerys abraçando-a como a uma velha amiga. Se Dany não tivesse mencionado os Dothraki ele certamente não saberia que aquela era uma festa típica e muito menos um casamento.

— Você está certa. — Disse a ela quando o loiro finalmente percebeu o olhar torto do Stark e os deixou. — Eu estava sendo preconceituoso. Mas porque me trouxe aqui?

— No primeiro dia que nos encontramos você me disse que queria se desprender do estigma da sua família, hoje você me disse que não se lembra a última vez que foi feliz de verdade, sem se importar com nada. Esse aqui é o melhor lugar para você se esquecer de tudo e aproveitar somente o momento, sem nenhuma restrição ou responsabilidade.

“Sem nenhuma restrição?” Isso Jon já tinha percebido. Mais do que pessoas dançando haviam casais se pegando. Casais jovens e idosos, hetero e homossexuais, alguns mais contidos e outros que quase transavam ali mesmo na frente de todo mundo e tinham que ser interrompidos por outros e guiados para alguma das tendas montadas do outro lado da praia. No momento em que percebeu o primeiro casal indo para lá Jon entendeu exatamente para que serviam as barracas.

Guiado por Dany foi levado através da multidão até a única construção do local, um enorme estrutura de madeira que certamente era usado como quiosque durante o dia, mas que agora servia como bar e estava lotado. Enquanto Dany ia buscar alguma coisa para eles tomarem Jon ficou olhando um estranho jogo ou ritual, não saberia definir, que algumas pessoas praticavam daquele lado do festejo: eram formados dois círculos, um externo formado pelos homens e um interno pelas mulheres. De frente um para o outro, cada casal dançava levantando as mãos e batendo os pés ao ritmo dos tambores. Quando uma pancada mais forte soava eles davam um beijo e trocavam pelo próximo parceiro a direita. Jon quase não acreditou quando reconheceu os cabelos vermelhos de Ros no meio das mulheres.

Daenerys voltou com dois copos e uma garrafa de cerveja e o encontrou boquiaberto com a cena que se seguiu a mais uma troca de casais. Assim que acabou de beijar sua parceira um dos homens virou-a com força e com a mão em seu pescoço obrigou-a a se inclinar para frente. A seguir o homem segurou a mulher pelo quadril e fez movimento de vai-e-vem com o próprio como se a estivesse penetrando por trás. Apesar de tudo, o único que parecia revoltado com aquela demonstração sexista e misógina era o próprio Jon. A mulher ria com vontade e as outras pessoas ao redor batiam palmas. Logo depois o casal saiu da roda e caminhou para a área das tendas. Vendo o desprezo em seu rosto Daenerys comentou:

— Apesar de ser um povo bem mais liberal que o restante da sociedade, ainda há grandes demonstrações de machismo. Esse por exemplo é um típico ritual da cerimônia de casamento. Os noivos estão lá do outro lado. — E apontou para um casal sobre uma espécie de tribuna elevada do outro lado da roda. — Eles tem que ficar lá até que todos os outros encontrem seus parceiros. Só depois podem ir aproveitar a noite de núpcias. Mas repare que há somente casais heteros. A “tradição” não permite que casais gays ou lésbicos participem.

— E eu achava o casamento da Fé dos Sete estranho.

Daenerys lhe entregou um copo de cerveja enquanto falava:

— Já foi pior. Antigamente somente os homens escolhiam as mulheres e até matavam uns aos outros disputando-as.

— Matavam?

— Nas cerimônias de Essos, em Westeros sempre foi proibido. Um casamento sem mortes era um mau presságio. E a transa ocorria aqui mesmo, a vista de todo mundo. Hoje os dois tem que estar de acordo e ninguém é obrigado a ficar até o final.

Jon virou o primeiro gole para disfarçar seu desprezo pelo que Dany acabara de falar. O gosto amargo e forte invadiu sua boca mas mesmo assim ele conseguiu sorrir ao ver a careta de Dany ao virar o copo inteiro:

— Eu tinha me esquecido o gosto horrível disso aqui.

— Você sempre vem aqui?

— Antes eu vinha quase todo final de semana, mas agora com a faculdade eu não tenho muito tempo.

A pouco quando percebeu onde estavam Jon não conseguiu entender por que Daenerys tinha escolhido justamente aquele local. E agora entendia menos ainda. O que aquele lugar e aquele povo tinham de tão especial para ela? Como Dany sempre parecia esquiva ao falar de seu passado Jon introduziu o assunto devagar para tentar sanar suas dúvidas:

— É estranho. Sempre ouvi dizer que os Dothraki detestavam o mar, como agora eles festejam em uma praia?

— Falta de opção. — Dany respondeu enchendo o próprio copo novamente. — Como você já percebeu as tradições não são muito inocentes então esse foi o único lugar em que eles conseguiram autorização da prefeitura para celebrar.

— E todo mundo sabe o que acontece aqui? — Apontou novamente para as pessoas em círculo em frente aos noivos.

— Ah! Qual é Jon. O que acontece aqui não é muito diferente do que acontece na Delírios e você não me pareceu nenhum pouco incomodado de ir com Ros para aquela cabine e muito menos de me chamar lá depois.

As palavras o atingiram como um tapa na cara, leve, mas que ainda assim incomoda. Ela estava certa, mais uma vez. Localizou Ros e percebeu que agora ela estava com Sekh, dançando e se divertindo no meio de todas as outras pessoas. Se todos estavam ali porque queriam então não havia problema, certo? Voltou-se novamente para Daenerys e decidiu ir diretamente ao assunto que o interessava:

— Como você descobriu isso aqui e se envolveu com os Dothraki?

— Já tive um namorado Dothraki.

— E esse… essa…

— Ritual. Faz parte do casamento.

— Esse ritual… Você já participou dele?

— Uma vez.

Instantaneamente Jon se sentiu mal por imaginar Dany no lugar daquelas mulheres. Primeiro veio a repulsa em pensar nela sendo tratada daquela maneira, depois veio-lhe um sentimento inesperado, a mesma inquietude que sentiu ao ver Daario ao lado dela quando ela foi dar a resposta a proposta na noite de sexta, só que agora misturada com raiva ao imaginá-la beijando diversas outras bocas que não a dele. E depois indo para uma daquelas tendas lá trás e sendo tomada por alguém que não fosse ele…

— Já participei uma única vez. — Ela repetiu chamando sua atenção.

— Seu namorado não se importou de te ver beijando tantos outros caras? — Perguntou mais para tentar entender os próprios sentimentos do que por curiosidade.

— Eu só beijei ele aquela noite.

Jon entendeu menos ainda e encarou Daenerys esperando por uma explicação. Ela simplesmente desviou olhando para o chão. Inicialmente Jon achou que era por vergonha, mas quando ela voltou a encará-lo viu tristeza naquele olhar, ou saudade de algo que não voltaria mais. E Jon entendeu. Já a vira assim uma vez. Ela continuou antes que ele pudesse dizer que não precisava reviver memórias tristes só para dar uma explicação a ele.

— Eu participei de outra maneira. — Sorveu mais um gole da bebida. — Eu era a noiva. — E como se tivesse dito qualquer coisa banal apenas apontou para o copo dele — Você não vai beber?

Jon virou o copo na boca automaticamente forçando-se a engolir a nova informação junto com a bebida. Dany já foi casada? Olhou pela primeira vez para a noiva daquela noite. Ela vestia-se de forma simples em comparação aos casamentos da Fé dos Sete ou dos Deuses Antigos que ele já participara, um vestido comprido de tecido leve e escuro que combinava com sua pele morena e cabelo completamente trançado. E ela parecia feliz.

O Stark voltou a olhar para a mulher ao seu lado. Pela tristeza que ela demonstrou agora a pouco ela também foi muito feliz quando ela era a noiva. E constatar isso só fez Jon ter certeza de que o tal namorado Dothraki tinha sido o grande amor da vida dela. A pergunta que ficava agora era: o que tinha acontecido com ele? Deveria perguntar agora? Não. Talvez em outro momento ou talvez Dany decidisse contar. Por enquanto limitou-se a dizer:

— Com certeza você foi a noiva mais linda que já se casou nessa praia.

Dany retribuiu com um sorriso agradecido, pelo elogio e por ele não ter perguntado mais nada do casamento dela. Depois mudou ela mesma de assunto indicando a ruiva e o dothraki dançando:

— Estou curiosa o dia inteiro. O que você disse a Ros para convencê-la a sair com Sekh?

— Bom, primeiro ela me perguntou porque eu tinha ficado tão obcecado por você. E eu respondi simplesmente que pelo mesmo motivo que Sekh fazia tudo por ela: porque nós homens nos tornamos uns idiotas quando se trata de uma mulher.

— E?

— Então ela me disse que todo homem já é um idiota naturalmente. — Jon riu ao se lembrar do tom sarcástico de Ros ao dizer aquilo. Claro que não teve graça no dia, já que ela estava furiosa por ser dispensada e ele totalmente sem rumo sem saber se tinha agido corretamente com Dany. — “Alguns idiotas valem a pena”, eu respondi, “e as vezes você só precisa do amor de um deles para ser feliz.” Não sei se foi isso, mas foi a única vez que nós mencionamos Sekh.

— Provavelmente foi isso. Você tem um certo dom de dizer a coisa certa na hora certa. E atingir as pessoas  exatamente onde e quando é necessário e da maneira que você quer.

O Stark se surpreendeu. Não era a primeira vez que ouvia aquilo apesar desta vez terem sido usadas palavras diferentes e faltar o “Você não sabe de nada Jon Snow” no final.

— Por que diz isso? — Perguntou curioso.

— Porque é a verdade. Você já usou comigo.

— Eu não fiz isso.

— Não? Tem certeza?

Jon forçou um pouco a memória mas não conseguiu se lembrar de ter feito algo parecido. Ao contrário, havia sido Dany a ajudá-lo nos momentos mais difíceis como a poucas horas naquele quarto. Vendo sua tentativa frustrada Dany continuou:

— Como acha que me segurou naquela cabine por tanto tempo? E no final ainda conseguiu me beijar?

— Não entendi o que isso tem haver com meu “dom”.

— Você o usou em mim aquele dia. O que foi Jon? Eu disse que você tinha um dom, não que você só o usava para boas ações.

— Aquela foi uma boa ação! — Riu da cara desconfiada e indignada de Dany antes de se explicar. — Foi uma boa ação para comigo mesmo. Eu não teria tido um dia maravilhoso ao seu lado se não tivesse insistido naquela noite.

Dany sorriu.

— Bobo.

— Bobo por que? — Se aproximou um pouco dela. — Eu só estou dizendo a verdade. — Deixou uma mecha platinada correr entre os dedos e acariciou o rosto dela. Nesse ponto Dany já fechara os olhos algumas vezes para voltar a abri-los e encarar os dele. Se aproximou dela para tomar os lábios que desejou o dia inteiro sendo que o máximo que conseguiu foi um “semi beijo” ao final da dança no restaurante. Mas pelo menos aquilo foi alguma coisa, dessa vez ele não conseguiu nada. Antes que ele percorresse metade do caminho Dany virou a cabeça para o lado e sorriu. Jon só não sabia se era do que ele havia dito ou do papel de trouxa que acabara de fazer. Quando ela falou descobriu que não era de nenhum dos dois:

— Eu não disse que você tem esse dom de guiar as conversas e as pessoas para onde você quer. Você está fazendo de novo.

— Eu não fiz nada. — Defendeu-se fingindo-se de inocente.

— A gente estava falando da Ros e olha onde chegamos! E você não fez nada? Não foi para isso que nós viemos aqui.

Jon riu da irritação fingida.

— O que viemos fazer aqui então que não descobri até agora?

— Nós viemos para você se esquecer e para a gente se divertir.

Apesar de ter sempre aquele sentimento incômodo da traição lhe perseguindo, Jon tinha que admitir que que pelo menos estava se distraindo. Também com tantas novidades. Porém, o segundo ponto ainda era desconhecido e por isso respondeu:

— Estou começando a temer o que você tem em mente quando diz “Nos divertir”.

Dany apenas sorriu.

Nas horas seguintes Jon descobriria que a concepção de diversão para Dany não era tão estranha assim. Diversão, como ela lhe respondeu, não dependia exatamente do lugar onde você está, mas com quem você está e o que você faz para aproveitar o que o ambiente te oferece.

Depois de terminarem a garrafa de cerveja — se é que aquilo era mesmo cerveja, — Dany o fez experimentar algumas outras bebidas enquanto caminhavam e ela lhe contava o que um certo instrumento ou um costume significava. Comeram algumas coisas bem estranhas que Jon particularmente preferiu não saber de que eram. Se afastaram um pouco da multidão para caminhar a beira-mar e conversar. Não falaram sobre o casamento de Dany nem da traição que ele sofreu, apenas conversaram descontraídos relembrando este ou aquele acontecimento do dia. E para Jon aquele foi o melhor momento. Até ele estragar tudo ao tentar beijá-la novamente e ela querer voltar.

Se reencontraram com Ros e Jon teve a confirmação de que ela estava feliz. Não sabia se aquilo significava que ela assumiria um compromisso com Sekh mas sabia que pelo menos naquela noite ela estava como ele: deixando-se ser guiado pelo companheiro sem se importar com o amanhã e surpreendendo-se com o quanto aquilo podia ser bom. Jon tinha que admitir que mesmo que não estivesse se divertindo tanto como a platinada ao menos estava se entretendo. Aquilo era bem melhor do que ficar em um quarto de hotel sozinho e insone se lamentando das próprias desgraças e fracassos.

— Um joguinho Daenerys? — Sekh perguntou.

— Você sabe que nunca, mas obrigada.

— Jon?

— Hoje não Sekh.

E o homem passou adiante procurando alguém para fazer dupla com ele no jogo. Estavam sentados na areia em um grupo menor de pessoas e Sekh, Ros e o mesmo loiro que cumprimentou Dany antes estavam organizando mais uma partida nos dados.

— Por que você não quis jogar, teve tanta sorte no tiro ao alvo.

— Sorte? Você que teve sorte de conseguir bater meu recorde uma vez. — Dany respondeu fingindo-se de ofendida.

— Aquilo não foi sorte, foi habilidade.

— Digo exatamente a mesma coisa Jon. Eu não jogo dados porque eu não acredito em sorte, só no que depende de mim mesma. Se eu dependesse da sorte eu não teria feito metade das coisas que eu já fiz.

— Me conta uma vez.

— Uma vez de que?

— Em que teve que lutar para conseguir alguma coisa.

— Aceitar sua proposta por exemplo.

— Hoje não conta, eu estive presente, sei de tudo que aconteceu. Eu quero saber mais sobre você, sobre o que você já fez ou deixou de fazer.

— Ah Jon! Você não vai querer saber.

— Acho que eu sou a melhor pessoa para decidir isso. Pronto, decidi. Eu quero saber tudo sobre você.

Dany olhou para frente, para o lugar onde para os dados começaram a rolar. Jon a conhecia a pouco, mas sabia que o simples gesto de desviar o olhar significava que ela não iria falar nada. Em poucos minutos sua suposição se confirmou:

— Você quer saber mais sobre mim? Aqui vai um detalhe importante, eu adoro dançar. Vamos?

— Eu não sei. — Negou como nas outras vezes em que ela fez o convite.

— É só me acompanhar?

— Melhor não Dany. Eu vou acabar te fazendo passar vergonha.

— Como se eu me importasse com isso. — Levantou-se e tentou puxá-lo pela mão mas Jon não se moveu um centímetro. — Vem. Não adianta nada você ter saído do quarto para continuar com essa cara. — Se aproximou dele para falar baixo. — Anda Jon, por favor.

Alguém, alguma única vez já conseguiu negar alguma coisa para aqueles olhos? Se levantou sorrindo e a acompanhou até próximos da fogueira. E Jon se esforçou. Tentou imitar os outros dançarinos ao redor deles e depois seguir os passos que Dany lhe ensinou batendo as mãos rapidamente e os pés ao mesmo tempo e rodando até ficar tonto. Quer dizer, mais tonto do que já estava com o álcool. Mas tudo era inútil. Jon não foi feito para aquela dança animada e rítmica, ele foi feito para as valsas e outras danças de salão tradicionais.

Vendo o péssimo desempenho de seu aluno Dany adotou uma nova estratégia: puxou todo o cabelo sobre o ombro direito e se posicionou na frente e de costas para ele. Colocou as mãos de Jon em sua cintura fazendo-o abraçá-la por trás e ditou o balanço de uma forma diferente, da forma em que quase todos os casais dançavam movendo-se de um lado para o outro em uma dança de acasalamento totalmente fora do ritmo das batidas.

Jon fechou os olhos e aspirou o perfume de Daenerys. O simples ato estimulou todo o seu corpo. Apertou a cintura com mais força ao mesmo tempo que a puxava contra si e preenchia o pescoço com beijos.

— Agora você entrou no espírito da festa. — Dany disse fazendo-o despertar. Abriu os olhos e percebeu vários pessoas  ao redor encarando-os. Jon baixou o olhar, desfez um pouco o aperto na cintura da platinada e interrompeu os beijos. Ela se virou ficando de frente para ele e laçando seu pescoço numa forma mais “normal” de dança. — Era um elogio. Você fica lindo quando está envergonhado.

— Eu não estou… — Começou a dizer mas parou imediatamente ao perceber que iria mentir. — Achei que esse tipo de coisa era normal para eles.

— Para eles sim. Mas se tem uma coisa que nós dois não somos aqui é normais.

— Você podia ter me avisado antes. — Daenerys riu alto e ele não teve outra alternativa senão rir junto. — Isso não foi desrespeitoso para com os noivos de alguma forma, foi?

— Ao contrário, isso só mostra que nós estamos gostando da festa ao ponto de seguir todas as tradições.

— Menos mal. Então nós podemos continuar…

Procurou mais uma vez pela boca dela. E mais uma vez ela desviou.

— Ainda não Jon.

— Quando então? — Aquele “Ainda não Jon” já estava começando a irritá-lo.

— Antes do amanhecer, prometo. — Disse contra o ouvido dele fazendo-o se arrepiar e maldizer a própria sorte. Há poucas horas teve a chance de ir muito além com Dany e agora estava praticamente mendigando um beijo. — Que horas são?

Se afastou um pouco e retirou o relógio do bolso disfarçadamente para olhar.

— 04:03.

— Caramba, a gente já está atrasado. — Daenerys olhou em volta procurando por alguma coisa ou alguém. — Espera aqui.

E partiu deixando-o sozinho no meio de todas aquelas pessoas estranhas. Sentou-se tomando o restante da sua bebida enquanto esperava por ela. A viu de longe conversando com uns caras estranhos do outro lado da fogueira. Viu ele entregar algumas coisas para ela e depois se despedirem amigavelmente. Dany voltou mostrando-lhe os objetos: em uma das mãos uma lanterna e na outra um cordão preto com uma chave na ponta.

— Nosso meio de transporte. — Disse e o puxou pela mão não dando tempo sequer dele terminar a bebida.

— Onde a gente vai?

— Achei que você gostasse de surpresas?

— Depois dessa solenidade. — Apontou para a festa as costas deles. — Estou começando a repensar meus gostos.

Riram juntos da troca de papéis. Há poucas horas atrás era ela a insciente, agora era a vez dele. E não parecia que pararia de se surpreender tão cedo. A próxima veio quando saíram da praia para o calçadão e se encaminharam para as várias motos estacionadas de maneira irregular sobre ele. Daenerys andou atrás delas olhando as placas e quando encontrou a que procurava tirou um dos capacetes do guidom e estendeu para ele.

Jon ficou parado sem acreditar no que ela estava sugerindo.

— Meu braço está doendo Jon. Você nunca andou de moto?

— Já. Mas nunca numa máquina tão grande quanto essa e com uma mulher pilotando.

Dany fez cara de ofendida apesar de estar claramente segurando o riso.

— Não seja machista Jon Stark. E nem covarde. Eu encarei um helicóptero e você está com medo de uma moto? Eu juro que vou devagar.

Entrando brincadeira, repetiu o tom assustado dela no helicóptero:

— Tem certeza que nós não vamos cair?

Dany liberou de vez o sorriso:

— Tenho pode ficar tranquilo. — Com habilidade ligou a moto e a manobrou para a rua. Depois virou para ele novamente: — Vem, confia em mim. Prometo que vai valer a pena.

Como poderia não confiar quando ela havia feito o mesmo com ele? Colocou o capacete,  montou na garupa e abraçou o corpo da mulher para se segurar. Pelo menos aquela era uma vantagem.

A motocicleta acelerou e em poucos minutos percorreu uma grande distância deixando para trás a fogueira e o barulho da música Dothraki. Sem se afastar muito da praia Daenerys guiou a moto em direção ao sul se aproximando do centro histórico da cidade, mais especificamente da Fortaleza Vermelha. Ver a construção imponente e bem iluminada sobre a colina de Aegon lembrou a Jon que dali a poucas horas estaria lá tratando de negócios com Robert Baratheon. E provavelmente estaria dormindo em pé depois de mais uma noite em claro. Mas por que estava se preocupando com isso agora? Abraçou o corpo de Dany sentindo o calor emanando dele e os cabelos esvoaçantes com o vento fazendo cócegas em seus braços. Ela e as poucas horas que ainda tinham juntos era tudo que importava agora.

Quando a avenida chegou ao fim, Daenerys entrou por algumas ruas mais escuras e desertas o que, mesmo não querendo admitir, deixou Jon aflito. Em pouco tempo as ruelas fechadas deram lugar a um espaço aberto, uma praça com alguns prédios antigos, e aparentemente abandonados do outro lado. Caminhar a noite parecia ser um programa comum em Porto Real já que alguns casais e grupos de amigos estavam ali. Olharam desconfiados quando Daenerys estacionou e enquanto descia Jon percebeu que eles não eram só pessoas curtindo um ambiente público na madrugada de domingo. Daenerys falou baixo enquanto ela mesma descia e tirava o capacete:

— É só caminhar devagar e não dar impressão que vai falar ao telefone ou qualquer outro gesto suspeito. Qualquer coisa somos só um casal de viciados que veio aqui “curtir um pouco”.

— Estou começando a questionar os lugares que você está me levando.

Daenerys não deu importância ao que ele disse, apenas deixou o capacete sobre a moto e ele a imitou. Depois o abraçou pela cintura com o braço direito e ele pôs o seu esquerdo sobre os ombros dela, como se assim pudesse protegê-la dos olhares curiosos e maledicentes dos outros. Começaram a caminhar lentamente cruzando a praça e disfarçadamente Jon olhou em volta checando o ambiente. Um homem franzino levou alguma coisa ao nariz e depois repassou o objeto para a mulher ao seu lado. Um grupo de um homem ruivo e três mulheres quase nuas comprou algo de um homem de capuz e partiram para um conversível estacionado na rua. Com seus clientes indo embora o homem de capuz e seus dois companheiros se aproximaram dele e de Daenerys.

— Alguma coisa em especial hoje? — Perguntou baixo e direto.

Daenerys nem o olhou mas foi educada:

— Não obrigada.

— O que o casal faz aqui?

— Só estamos de passagem.

— Aonde vão?

— A gente só está passando. — Dany repetiu com mais firmeza.

— A área inteira é minha e eu sei onde está cada pessoa desse lugar. Então mesmo que vocês estejam só passando eu preciso saber aonde estão indo.

Daenerys enfim olhou para ele e Jon junto com ela.

— Quem te deu a área?

Mesmo por baixo do capuz Jon pôde perceber a surpresa do outro ao ser questionado além de respondido.

— Eu tomei. O outro que comandava aqui era um frouxo insignificante

— Ninguém apenas “toma a área”. Para quem você trabalha?

O homem ficou sem resposta a audácia de Daenerys, e Jon não podia julgá-lo pois estava do mesmo jeito. Ela apenas sorriu de canto e continuou:

— Como eu imaginei. Você não passa de um traficantezinho de esquina que está aproveitando enquanto o lugar está sem comando para vender a suas merdas. Você não tem autoridade alguma aqui. Então com licença que nós estamos com pressa.

Viraram-se novamente para voltar a caminhar mas não foram muito longe. O homem agarrou o braço livre de Dany e o corpo dela foi puxado para trás. Por puro reflexo Jon avançou sobre ele e o socou na cara. E em poucos segundos o que era uma simples e tensa conversa se tornou um espetáculo para os demais presentes.

Quando caiu para trás, o capuz do cara saiu mostrando seu cabelo platinado. Mas Jon não pôde reparar em muito mais antes dele retirar um objeto preto do cinto e gritar para seus capangas:

— Segurem eles.

O corpo de Jon se retesou e ele cerrou os punhos pronto para a briga que estava por vir, porém antes que ele ou qualquer um dos dois capangas pudessem se mover Dany falou num sotaque arranhado e desesperado:

Shieraki gori ha yeraan! Mori hash tat anna.

A expressão do homem no chão mudou completamente. Seus olhos se arregalaram e as mãos tremeram deixando a arma cair no chão entre as suas pernas. Distraído com a fala de Dany e com a reação do chefe, Jon não viu os outros dois se aproximarem e quando se deu conta seu braços já estavam presos e seu corpo sendo dobrado para frente até que ele pendesse quase ajoelhado entre eles. Desesperado Jon ergueu a cabeça procurando por Daenerys mas encontrou somente os olhos assustados olhando algo além deles, exatamente na direção onde Jon agora percebia que Dany devia estar.

— Soltem ele. — O platinado ordenou. Os outros dois olharam para ele sem entender e ele disse somente uma palavra. — Jhaqo. —  E as mãos segurando os braços de Jon se foram deixando-o cair ajoelhado no chão.

Se levantou rapidamente e procurou por Dany que meio trêmula apenas o abraçou pedindo desculpa.

— M-me perdoe. — A voz vacilante do antes encapuzado fez Jon e Dany desfazerem o abraço e olhar para os três homens novamente. O nariz estava sangrando e os olhos encaravam Daenerys com o que, surpreendentemente, pareceu medo. — Ninguém mais vai te incomodar.

E saiu amparado pelos outros dois. Os que estavam próximos e ouviram Daenerys também se afastaram rapidamente olhando de lado algumas vezes.

— Que merda aconteceu aqui. — Perguntou baixo para ela. Dany apenas o abraçou pela cintura novamente e o puxou para continuarem andando como se nada tivesse acontecido. — Dany?

— Depois Jon. Vamos sair daqui primeiro.

Além de voltarem para a moto, Dany os guiou continuando o caminho pelo centro da praça. Ninguém ousou importuná-los. Ao contrário, não sabia se eles que estavam saindo da área de venda de drogas ou as pessoas que estavam indo embora mas o lugar foi ficando mais vazio. Avançaram por uns alguns metros calados mas Jon pôde perceber o corpo de Dany ainda tenso em seu abraço.

— O que aconteceu lá atrás? — Perguntou quando percebeu que ela não daria iniciativa para explicação.

— Desculpe ter feito você passar por isso Jon, não achava que eles tivessem voltado.

— Eles quem?

Ela suspirou e afrouxou um pouco o aperto em sua cintura.

— O que aconteceu lá atrás? — Perguntou novamente.

— Há alguns anos essa era uma das maiores áreas de consumo de drogas, mas pouco antes da reeleição o prefeito mandou limpar todas as áreas nobres e centro histórico da cidade que passaram a ser patrulhadas. Aparentemente depois de reeleito ele não quis continuar com suas políticas sociais.

— Isso é fácil de entender. Difícil é compreender o que aconteceu lá atrás.

O novo suspiro profundo de Dany mostrou que ela não estava muito afim de dar explicações ainda assim ela falou:

— Eles caíram em um truque. Shieraki gori ha yeraan! Mori hash tat anna,  significa na língua Dothraki: As estrelas estão brilhando para você? Elas estão para mim. É uma frase usada como aviso por uma gangue Dothraki do norte de Porto Real. Basicamente quer dizer que eles estão por perto. Ao escutá-la os caras ficaram com medo.

— Ok, mas como você sabe disso?

— Eu já namorei um e ando muito com o pessoal Dothraki lá da praia. A gente sempre escuta muitas coisas.

Apesar de fazer certo sentido aquela história estava bastante estranha, mas não sabia se pelo corpo cansado ou se pelo alívio de estarem bem não perguntou mais nada. Apenas apertou o abraço em volta dos ombros da platinada como se assim pudesse mantê-la mais segura.

Ao fim da praça Dany se separou dele e caminhou para a entrada de um dos velhos prédios, o mais alto deles.

— Vem Jon. — Acendeu a lanterna e entrou.

Jon chamou-a baixo mas ela não escutou ou fingiu que não e continuou adentrando o lugar. Jon chamou mais uma vez e como ela não respondeu caminhou a passos largos para alcançá-la.

— Agora eu tenho certeza de que você é maluca. Para onde nós estamos indo?

— Lá pra cima. — Pegou a mão dele puxando-o para que eles fossem mais rápido.

A cada lance de escadas abandonadas que eles venciam Jon tinha a impressão de que o prédio inteiro ia desabar sobre eles, ou que iriam encontrar mais um louco como aquele lá da praça. Mas as únicas coisas que a fraca luz da lanterna mostrava eram os ratos, aranhas e a sujeira do lugar. Pararam em alguns pontos para recuperar o fôlego mas em pouco tempo voltavam a subir até chegarem ao topo. Jon já imaginava o que encontraria lá em cima e a visão foi exatamente a que esperava: a cidade iluminada se estendendo pelas montanhas das Terras da Coroa a esquerda e o mar a direita. Uma visão bonita mas nada extraordinário.

— Agora nós só precisamos esperar. — Dany disse procurando um lugar mais limpo e se sentou no chão cruzando as pernas como uma criança. Deixou a lanterna de lado iluminando o piso e fechou os olhos.

— Dany, o que aconteceu lá embaixo foi muito estranho. Como você…

— Me perdoe por te fazer passar por aquilo Jon. Mas esquece isso, pelo menos agora.

Jon atendeu seu pedido. Seu corpo cansado pelo exercício o fez se sentar também de pernas cruzadas de frente para ela. Apagou a lanterna deixando-os completamente no escuro e também fechou os olhos buscando um pouquinho da tranquilidade que emanava da mulher.

Sentiu uma vontade enorme de se inclinar e beijá-la mas não fez nada. Mal podia acreditar que 24 horas antes desprezava a platinada e agora não conseguia imaginar como seria ficar longe dela. E isso aconteceria em pouco tempo. E exatamente por ele estar se esgotando criou coragem e falou o que já devia ter falado a horas:

— Eu também tenho que te pedir desculpas Daenerys.

— Não se preocupe com isso agora.

— Eu preciso. Já está quase amanhecendo e eu não sei o que vai acontecer depois. — Sentiu Dany tatear até encontrar as mãos dele e apertá-las com força. Ela também tinha medo do que aconteceria.  — Primeiro desculpe ter dado em cima de você e ter te beijado na boate.

— Por isso não precisa pedir desculpas, você não me obrigou a nada.

— Mesmo assim, eu fui um idiota de incomodar uma mulher no local de trabalho. Me desculpe.

— Tudo bem Jon.

— Segundo, me perdoe pelo jeito boçal que te tratei na universidade. Você tinha razão, eu fui arrogante e um completo babaca de ter te julgado sem te conhecer e ter falado daquela forma com você.

— É, você estava completamente errado. — Ela disse com voz triste ao que Jon estranhou. — Mais alguma coisa?

— Não vou pedir desculpas por ter te feito essa proposta porque foi a melhor coisa que fiz por mim nos últimos tempos. — Jon virou as próprias mãos e entrelaçou os dedos aos dela — E obrigada por me dar a chance de me redimir e te conhecer.

— Achei que você tinha me dado uma chance.

— Eu também achava, mas foi o contrário. Você que me deu mais uma chance e eu não tenho como agradecer por isso.

— Na verdade tem sim…

Daenerys estava preocupada com Drogon e não podia condená-la. Aquele software era a vida dela. Felizmente ele havia seguido seu instinto pelo menos uma vez e faria uma grande surpresa para ela quanto àquilo. Mas era um assunto para depois do amanhecer. Por enquanto bastava ela saber que ele cumpriria sua parte do acordo:

— Eu admito que perdi e vou cumprir minha parte do nosso trato. — Jon sorriu sozinho. — Nunca imaginei que perder alguma coisa me deixaria tão feliz.

Dany apertou sua mão em resposta.

— Desculpe também Jon.

— Você não tem nada para se desculpar.

— Tenho sim. Desculpe não ter te falado que ia estar no congresso, ter te chamado e a sua família de arrogantes…

— Eu fui arrogante…

— E principalmente obrigada por ter me defendido daquele escroto do Frey. Eu acho que estou a tanto tempo sozinha que me esqueci como é ser protegida por alguém.

Dany havia falado do irmão com muita saudade mas não podia imaginar que ela não tinha mais família.

— Você não tem ninguém?

— Não. — Disse com voz triste. — Acho que é por isso que eu estou com Daario. Ele foi a primeira pessoa em  muito tempo que não se aproximou de mim com algum interesse. Por isso sinto tanto carinho por ele.

Jon se sentiu mal, primeiro por lembrar que ela “ainda estava com Daario” e depois por perceber que também havia se aproximado da platinada apenas por interesse físico. Mas após falado sua total atenção se focou neste último detalhe:

— Carinho? Não é amor?

— Não. — Admitiu direta e sincera. — Há muito tempo eu não sei o que é amor.

A voz transmitiu claramente a amargura dela e Jon apertou as mãos dela em consolo. Ainda assim perguntou:

— O que aconteceu com ele?

— Quem?

— Seu grande amor. Onde ele está?

A amargura se transformou em pura tristeza:

— Nas terras da noite, se o grande garanhão foi generoso.

Jon conhecia pouco da cultura Dothraki, mas aquelas palavras foram o suficiente para ele entender que o marido de Dany estava morto.

— Sinto muito. — Foi a única coisa que pôde dizer.

— Obrigada. Mas eu já superei.

— Achei que a gente estivesse sendo sincero essa noite.

Ao notar que estava clara sua mentira ela se corrigiu:

— Desculpe, ainda é difícil admitir. Mas eu deixei no passado pelo menos, segui em frente.

Ficaram em silêncio por alguns minutos. Jon abriu os olhos mas ao ver a claridade começando a despontar no horizonte fechou-os rapidamente como se aquilo pudesse evitar que o dia chegasse. Pensou no que devia falar para Dany ou se devia beijá-la de uma vez.

Seu tempo está acabando, faça alguma coisa!

Contudo a próxima pergunta de Dany tirou completamente seu foco:

— E com ela, sua amada, o que aconteceu?

Hesitou um pouco, mas se Dany estava sendo sincera ele também seria:

— Ela está bem longe, nas Terras de Sempre Inverno. Quando eu entrei para faculdade e me mudei para Vila Velha ela voltou para a terra natal.

— Sinto muito por vocês também.

Agradeceu acariciando os dedos de Dany, mas apenas por educação. Não era necessário sentir por ele, já que foi tudo sua culpa. Uma culpa que o acompanhava até hoje. Uma culpa que levaria para o túmulo. Se por sua arrogância quase perdeu a chance de conhecer Daenerys, foi unicamente por sua covardia que perdeu Ygritte. E o filho deles…

Sentiu os olhos ficando marejados e os fechou com mais força para espantar a dor. Deve ter apertado também as mãos de Dany pois ela deixou a sua esquerda e acariciou o rosto dela procurando pela lágrima.

— Desculpe te fazer chorar.

— Desculpe chorar tanto na sua frente.

— A gente devia parar de pedir tanta desculpa, senão nosso relacionamento vai ser só isso.

Jon sorriu do comentário. Em especial porque ela falou de uma maneira que indicava que o relacionamento deles teria um futuro. Finalmente Jon se inclinou para frente procurando os lábios dela mas não os encontrou.

— Ainda não. — Abriu os olhos para ver a silhueta de Dany se levantando. — Quero te mostrar mais uma coisa.

Se levantou e mais uma vez deixou Dany guiá-lo, desta vez poucos passos para a direita ficando virados para o mar da Baía do Água Negra. E com as cenas seguintes Jon soube por que Dany o levou até ali. O sol começando a despontar aos pouquinhos revelando o azul, as nuvens correndo no céu em tonalidades de rosa e alaranjado, a pouca claridade iluminando as ondas. Um presente maravilhosa que Jon tinha certeza que os milhões de habitantes da cidade que acordava aos pés deles não sabia que tinham.

— Ei Jon. — Dany o despertou de sua contemplação. — Pode me beijar agora.

— E perder essa visão maravilhosa?

— Idiota!!

Jon sorriu mas não por muito tempo. Daenerys o puxou pelo pescoço e grudou os lábios nos seus com uma urgência não mostrada em qualquer outro momento. Jon segurou em suas costas puxando-a para mais perto e manteve a pressão suave de um corpo contra o outro. Conseguia sentir os seios dela contra seu peito e o desejo com que ela movia a língua contra a sua. Mas apesar de se sentir extremamente atraído pelo corpo da mulher em seus braços não era aquele o sentimento dominante em seu coração. Sentia o calor do sol começar a aquecê-los, o sabor de Dany em seus lábios, o cheiro delicado das rosas azuis de seu perfume e quando se afastaram viu no olhar violeta que ela sentia o mesmo que ele. Paz. Estavam satisfeitos por estarem em um lugar tranquilo, na companhia de alguém até pouco tempo desconhecido e totalmente livres. Não estavam mais presos a qualquer contrato ou proposta, e para Jon a liberdade ia ainda mais longe. Tinha se livrado do peso da culpa por julgá-la e da tristeza pela sua família. O sentimento final era de felicidade, simples e pura como Dany havia definido.

Daenerys se virou para o mar e ele se posicionou atrás dela abraçando-a pela cintura. Ficaram em silêncio até a luminosidade do sol iluminar quase toda a cidade ao redor deles. Só então Dany falou novamente:

— Como se chamaria essa parte da nossa história?

Sorriu antes de responder:

— Dessa vez é fácil, se chamaria “Antes do amanhecer”.

Dany também sorriu e virou a cabeça um pouco para o lado.

— Feliz aniversário Jon.

E os lábios se encontraram mais uma vez.


Notas Finais


Enfim terminamos essas 24 horas. Foi muito longo e eu mesma não aguentava mais ficar parada nesse ponto da história.
O próximo capítulo será: "A era dos dragões - Jon" e será a ida de Jon a Fortaleza Vermelha.
Não vou prometer uma data pois ele será bem importante e terá de ser bem escrito. E provavelmente também será imenso.
Bem, por hoje é isso e até o próximo!


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