História Seis Peças de Um Quebra-Cabeça - Capítulo 10


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Categorias Histórias Originais
Tags Drama, Original, Romance, Suspense
Visualizações 24
Palavras 4.576
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Drama (Tragédia), FemmeSlash, Festa, Ficção, Romance e Novela, Slash, Suspense, Violência
Avisos: Adultério, Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sadomasoquismo, Sexo, Violência
Aviso legal
Todos os personagens desta história são de minha propriedade intelectual.

Notas do Autor


Essa é a primeira parte de uma decisão muito ruim...
E temos uma indicação de música para o final desse capítulo.

Boyce Avenue (feat. Fifth Harmony) - When I Was Your Man

Capítulo 10 - Primeira decisão ruim da noite


Fanfic / Fanfiction Seis Peças de Um Quebra-Cabeça - Capítulo 10 - Primeira decisão ruim da noite

Barra da Tijuca, (RJ). Brasil, 2013.

                                     10h18min

 

  Point of view Ravi Bennat

 

Já é a quinta vez que bufo irritado essa manhã. Como se não bastasse ter esquecido meu celular no carro da Chloe, que aliás, nem deu sinal de vida ainda, eu tenho uma festa para organizar, panfletos para entregar e essa aula sobre Psicologia Sócio-Histórica não termina nunca. Mais trinta e cinco minutos e finalmente um intervalo. Junto minhas coisas e saio louco em busca de ajuda Meu Deus, eu preciso dar conta de tudo Já do lado de fora, sigo em direção a lanchonete da faculdade quando Alexia me surpreende com um abraço apertado.

Graças a Deus Alexia! Me empresta seu celular, preciso ligar pra Chloe urgente, eu necessito do meu celular de volta e ajuda com a festa!? – falei num fôlego só, antes mesmo de solta-lá do abraço.

– Será que isso – ela revirou a bolsa – Resolve seu problema? –sorriu me mostrando o celular.

– Claro, meu Deus – peguei o celular de sua mão e sorri animado – Espera, por que ele está com você!? – indaguei confuso e foi aí que eu olhei Alexia melhor, cabelos molhados, olhos brilhando, uma tatuagem, nossa, a tatuagem. Eu me esqueci que iria com ela.

– Eu liguei pra você, só que quem atendeu foi a Chloe e aí fomos onde você – me apontou o dedo acusativa – Não apareceu.

– Desculpa – sorri sem graça.

– Tudo bem, eu preciso te contar como foi, você vai comer agora? Estou morrendo de fome, a gente pode se sentar ali!? – apontou e me arrastou para uma mesa.

Enquanto Alexia me contava sobre o dia com Chloe e a tatuagem, eu via as notificações do meu celular, haviam mensagens do Grupo do Conselho sobre eu ainda não ter arrumado as bebidas, da minha mãe que cobra diariamente minha atenção. Ando exausto, mas quero dar conta, quero fazer tudo que tenho vontade, até me envolver de verdade com alguém – Okay, teve o Nicolas – mas foram só uns beijinhos, não houveram as tais borboletas no estômago como com Dylan, droga, Dylan não... Não agora e não enquanto eu beijava Nicolas naquela noite. Eu sou um péssimo ser humano, meu Deus.

– Você podia me contar né!? – Alexia colocou os cotovelos sobre a mesa e se aproximou com uma expressão angelical.

– Contar o que alexia? – saio de meus devaneios, pois ela não calava mais a boca.

– Sobre o segredo da Chloe – ela tomou um gole de seu suco de abacaxi com uva, esperando por minha resposta.

– Por que você não pode esquecer isso? – eu disse revirando os olhos – O que vai mudar em sua vida, descobrir esse tal segredo?

– Porque estou com vocês agora, nós somos um trio. Estamos até mais próximas, saber quem ela é de verdade pode me ajudar a me aproximar ainda mais – Alexia disse do outro lado da mesa com biquinho pidão.

– Então porquê você mesma não pergunta a ela? – indago com uma sobrancelha arqueada.

– Você pensa que eu sou louca? Já reparou naquele olhar mortal quando o assunto é ela – impõe Alexia arregalando os olhos.

– Alexia você não entende – bufei – Isso é pessoal, se você tem medo só do olhar dela, imagina se ela souber que contei isso – me inclinei sobre a mesa – Além do mais isso está lá no passado, nada disso vai… – antes mesmo de concluir a frase sou interrompido pela impaciente Alexia que cospe frenética a frase:

– O Dylan ainda te ama – ela conseguiu me deixar sem palavras – Eu sei que ele foi um idiota, mas eu não suporto ver ele do jeito que está, se você pudesse ver, ia entender o que estou falando – ela cruzou os braços e olhou vagamente a sua direita.

Talvez tenha sido intencional ou só um acaso, mas a sensação foi imediata, não se ouvia mais sobre Dylan há dias, a não ser dentro da minha cabeça, mas no momento que a Alexia disse, meu corpo todo se estremeceu, fiquei estupefato, tentando assimilar o que ela havia dito.

– Eu sei que é ele quem deveria contar isso a você, mas sendo sua amiga eu precisava dizer, isso está me consumindo – ela olhou de volta em meus olhos e segurou minhas mãos sobre a mesa.

Eu não quero falar sobre Dylan, eu não consigo mais. Então busco uma forma de sair disso e acabo entrando em um assunto que não pretendia, nem deveria entrar.

– Chloe quase matou o namorado em um acidente de carro – disse rápido e sem pensar.

– Ela O QUE? – Alexia bateu as mãos sobre mesa se levantando.

– Ei calma – eu chamei sua atenção, indicando que ela se sentasse.

– Ela tem namorado? – Alexia questionou me olhando confusa.

– Tinha – a olhei mais confuso ainda, pelo questionamento – Bom, ele ficou em coma e ela foi embora, então... – eu dizia as palavras com cuidado e fui notando o rosto de Alexia mudar.

– Então ela estava presa? – seu tom ficou mais sério.

– Na verdade não, o padrasto dela é da Polícia, então ele ajudou nessa parte – dei ombros – Os pais do David só queriam dinheiro e abafar o caso. Parece que Chloe e David estavam drogados, mas Chloe nunca fala sobre isso.

– Então qual o motivo para ela ir embora? Chloe não deveria ficar e cuidar do namorado? – fala em tom irônico.

– Não era um namoro de verdade, éramos todos amigos, mas eles com benefícios. Quando os nossos outros “amigos” ficaram sabendo do... – dou uma pausa e sorrio para alguns alunos que passam próximos a nossa mesa – Acidente, passaram um pouco do limite com ela e como Chloe não deixa nada barato, a Tia Carmen decidiu que era melhor ela dar um tempo, principalmente depois que ela foi proibida de visitar David no hospital. Eu não sei que tipo de acordo eles tinham, mas ela não contestou em nenhum momento…

– Ele ainda está em coma? – Alexia me interrompe questionando.

– Não, eu não pude visita-lo, depois que o pai dele também me proibiu e perdi contato com o pessoal, por ter ficado do lado da Chloe nessa história, mas o vi na praia recentemente e ele me pareceu bem.

– Então é isso… – Alexia olhava para o nada, digerindo toda a história, já estava mais branca que o normal.

Acho que nós, meros seres humanos, sempre vamos ter um segredo que queremos que seja só nosso, mas às vezes não adianta, esse segredo transborda e vaza para alguém.

Com isso foi todo o meu intervalo e eu quase nem toquei no meu sanduíche. Me despedi de Alexia depois de perguntar muitas vezes se estava tudo bem, talvez ela não devesse saber essa história, mas como ela mesmo disse, agora somos três. Chloe entenderá, quando souber que foi pra não falar sobre Dylan. Antes de voltar à aula, troquei algumas mensagens com o terceiro elemento dessa equação imperfeita.

“[22/03 13:10] Ravi: Espertinha, você estava com a Alexia esse tempo todo e me deixou sem celular!? Agora você vai ter que me ajudar com a festa!!! E ah, arruma uma fantasia bjs

[22/03 13:18] Chloe: What? Eu cuido bem dele e é assim que você me agradece!? Crie modos mocinho!! Espera, que festa? Oi? Fantasia?

[22/03 13:19] Ravi: Você sabe que eu te amo né S2!? A festa que a Atlética do meu curso inventou pra arrecadar fundos para a formatura e eu preciso de alguém que forneça bebidas, você ainda tem seus contatos?

[22/03 13:23] Chloe: Vamos ter que descobrir! Hehe

 

             Point of view

  Dylan Maldonado Lafaiete

 

Ultimamente ando a ponto de explodir! Aqui nesse quarto de paredes extremamente brancas, um branco que me dá desespero. Estou com uma sensação no peito que dói, é como se eu precisasse colocar algo para fora, algo que me prende, quero gritar, quebrar coisas, cuspir palavras sem nexo e ao mesmo tempo abraçar alguém muito forte.

Não tenho saído de casa para não ter que encontrar pessoas, até mesmo as que amo. Meus dias se resumem a brigas com minha mãe, comer, ler, dormir e onanismo.

A última vez que sai de casa foi para ir ao cinema semana passada, é claro que não foi onde Ravi e eu trabalhávamos – acho que o melhor para ele é me esquecer, eu não faço bem à ninguém – Assisti ao filme World War Z sozinho, não tão sozinho, pois trazia comigo chocolate e uma garrafinha de água.

Naquele mesmo dia no fim da sessão fui parar na praia, me perdi vendo a lua. Senti vontade de ligar para Alexia e pedir para me encontrar, eu sentia saudades, mas não o fiz, por que sei que ela iria e eu não tinha certeza se estava pronto para conversar ainda. Principalmente depois da minha demissão. Então, peguei um caderno de bolso que carrego e escrevi um poema.


“Es bela como o pôr do sol

Serena como o luar

Quero emaranhar-me a ti caracol

Como cabelos ao ar


Tu que cantas como sereia

Tens a mim para amar

Destruindo castelos de areia

Pobre de mim a rastejar


Na solidão do escuro

Ouso a ti clamar

Esses versos tão puros

Vem que quem não soube amar


[...]


Hoje prometi para mim mesmo que vou manter a calma com minha mãe, vou fazer o que ela pedir e evitar discussões, agora somos só nós dois. Eu sei que também não é fácil conviver comigo. Eu mesmo não me suporto às vezes.

Pego meu celular e fico encarando o numero da Alexia, pensando se mando um SMS ou não e é então que uma voz, não vinda da TV me tira desse dilema, roubando a atenção.

– Filho – minha mãe diz do outro sofá a esquerda.

– Oi – eu disse com expressão de surpresa, não havia percebido até então que ela também estava na sala.

– Você sente falta do seu pai? – indagou.

– NÃO – respondi seco, sem pensar duas vezes.

– Acho que ele sente falta de você – acrescentou pensativa, não se importando com a minha resposta.

– Acho que ele sente falta, do garoto que ele queria que eu fosse – digo me lembrando da promessa que fiz mais cedo, respiro mais fundo, deixo o celular no sofá e cruzo minhas pernas em forma de índio, em sinal de interesse.

– Ele tem perguntado de você – ela disse pegando o controle da TV que passava algo sobre animais e desligando-a.

– E você tem falado com ele? – pergunto; isso seria novidade.

– Tenho sim filho e acho que você também deveria. Ele está diferente agora – sua voz era terna.

Sem pensar já fiz isso muito nas últimas semanaseu queria muito saber onde essa conversa iria nos levar, então cuspo:

– Ele sabe que sou gay mãe? – foi à maneira mais covarde de perguntar isso e mesmo assim a fiz. Depois de alguns segundos me encarando com os olhos arregalados minha mãe teve forças para responder.

– Na verdade nunca tivemos certeza – disse simples, seu tom de voz permanecia calmo, porém era falho.

– Não sabiam? – a encaro com surpresa, passando a mão no cabelo.

– Digo, você nunca… Nunca havia nos dito com todas as letras – Gaguejou, porém prosseguiu – Mas eu sei há algum tempo Dylan, você sempre foi diferente e isso era um dos motivos, das várias brigas que seu pai e eu tínhamos – segurou o fôlego, uma lágrima teimava em querer cair. Nesse momento senti pena. 

– EU SOU GAY! E isso nunca vai mudar – me livrei desse peso abrindo os braços – Mas não precisa pensar e nem perguntar se vou me vestir de mulher, pois eu não sou travesti e nem transexual, eu sou apenas homossexual, ou seja, gosto de garotos – termino olhando para o rosto de espanto dela. Talvez eu tenha pegado um pouco pesado, mas como disse antes, “Estou com uma vontade imensa de cuspir palavras”.

– Dylan, uma mãe uma hora ou outra acaba percebendo isso – ela se ajeitou no sofá – Mas o medo de tocar no assunto é maior do que ver o filho sofrer com esse segredo – Ela respirou fundo e me olhou nos olhos, esses que já estavam vermelhos – Eu sei que isso parece egoísmo, mas eu só tenho você de filho, você é minha primeira e única experiência como mãe, eu não sabia o que fazer Dylan – ela argumentava usando os braços – Não pense que você é o único que sofre com isso, imagine como foi devastador ouvir meu filho, meu único filho chorando sozinho todas às noite e não ter forças para fazer nada. Eu não tinha coragem de entrar naquele quarto, eu tinha medo de saber a verdade – nesse instante ela cobriu seu rosto.

– Mãe – chamei com a voz embargada – Não precisa... – abaixei a cabeça me sentindo fraco, putrefato por dentro.

– Por favor Dylan, eu preciso – me pausou estendendo a mão – Não pense que eu não ouço, pois eu ainda ouço e eu queria trocar de lugar com você, ou estar com você naquele quarto todas as vezes que isso acontece – ela não controlou mais as lágrimas.

Agora a expressão de espanto foi transferida para meu rosto, aquela sensação no peito começa a transbordar e me faz buscar fôlego, nunca imaginei ouvir o que estava ouvindo.

– Eu imaginava que essa conversa estaria próxima e tentei ensaiar o que dizer para não te ferir mais filho, mas você me pegou de surpresa – antes de qualquer reação ela corta o silêncio sepulcral e inevitavelmente eu não consigo me conter e choramos juntos.

– Desculpa se eu falhei como mãe, mas eu te amo e quero aprender muito com você – então ela se levanta, desvia da mesa de centro vindo em minha direção e acaricia meu rosto.

– Me ensina a não magoar mais você, por que sei que falo besteiras, mas é pura ignorância – ela soluça – Por favor, me perdoe – um sorriso singelo escapa de seus lábios – Eu te amo meu filho – ela limpa minhas lágrimas e beija meu rosto.

Penso que talvez ela também estivesse transbordando e precisasse cuspir todo esse sentimento reprimido, então rapidamente, sem mais me conter mergulho em seu abraço. Enfim, consigo me livrar de duas das coisas que estavam me sufocando: Aquela dor no peito e abraçar alguém muito forte.

É claro que a conversa não parou por ai, tive que explicar para ela a diferença entre homossexuais, lésbicas, transexuais, travesti etc. Eu não acreditei que fiz isso. Todo esse tempo eu não conseguia conversar tão abertamente com ela, tinha uma trava na minha garganta que me impedia. E por ela ser a única pessoa mais próxima, já que não tenho saído de casa, percebi que viver somente no mundinho que crio em minha mente  não estava me fazendo bem. E, enfim me vem uma vontade de talvez ver pessoas.

[...]

Tudo bem que sair para uma corrida no calçadão, não significa exatamente me reconectar com pessoas, porém é o máximo que consigo por agora. Nos fones de ouvido toca “Be alone do Paramore”, nos pés tênis, uma bermuda da Nike e a camiseta amarrada na cintura. O look do dia foi liberdade.

– Uma água de Coco, por favor – pedi me aproximando do cara gato de bermuda amarela.

Ele me entregou e um outro rapaz passou entregando um panfleto que chamou minha atenção.

– Festa a fantasia “Seja quem quiser” – repeti o que estava escrito pensando, mas guardei o panfleto no bolso.

À volta pra casa foi dura e cansativa.


[...]


Hoje o dia amanheceu nublado e triste, assim como minha vida. Estou a horas sentado na varanda essa tarde, apenas olhando o ventilador de teto, quando subitamente vem em minha mente o panfleto de dias atrás.

Arrasto-me para meu quarto em direção  a mesinha do computador, pego o papel, me sentando na cama. Abro o panfleto e o analiso por um tempo, as cores extravagantes, o cuidado com que foi feito e bem elaborado. Penso em ir, mas lembro que não tenho companhia para sair. É claro que a única pessoa que eu poderia vir a chamar seria Alexia, mas não agora, ainda não. Uma mensagem semana passada foi suficiente pra ela entender que estou bem. Quero pessoas diferentes... Porém não tenho coragem de ir sozinho numa festa.

– Droga.

Estou quase desistindo quando olho para o enunciado e me vem uma ideia.

– Meu Deus. É exatamente isso que eu estava precisando, eu posso ser quem eu quiser. Eu posso ir sozinho sem as pessoas saberem; posso fazer coisas sem me preocupar com associações a minha imagem. É exatamente pra essa festa que vou.

– Mããããe – grito alto.

Começo a ouvir os passos no corredor e logo minha mãe aparece na porta com uma expressão surpresa, deve ser por nunca a chamar até meu quarto

– Por acaso, minha fantasia do Batman está limpa? – pergunto sorrindo.


   Point of view Chloe Vittale

                           Festa 22h13min

 

Todas as minhas células responderam imediatamente, ao entrarem em contato com o líquido gelado e a ardência que escorria pela minha garganta, matando a saudade e a capacidade de discernimento futura. Era um reencontro de velhos amigos.

Nem consigo acreditar que realmente deu tudo certo e que eu ainda tinha bons contatos para organizar festas. Me gabei disso para ajudar Ravi, entretanto graças a todo o trabalho de comprar copos, entregar panfletos, ir atrás de luzes, DJ’s, me mantive longe de confusão nessas semanas.

Agora, sentada aqui nesse balcão improvisado, no meio do ginásio para vender bebida e arrecadar dinheiro para a faculdade, por trás da tinta preta e branca que cobrem os traços que formam meu rosto, eu tenho uma bela visão de todos que se aproximam em busca de sorrisos forçados e coragem líquida, me deixando assim como uma verdadeira e charmosa caveira.

Ravi esteve o tempo todo tenso, com medo de algo dar errado, ele e sua mania de perfeição – um sorriso singelo roubou a seriedade em meus lábios – mas a festa ficou incrível, as luzes coloridas, a decoração impecável em cada detalhe, os Puff coloridos, os tecidos espalhados pelo ambiente, as máscaras nas paredes, cada traço e cor foram milimetricamente pensados. Todos devidamente fantasiados dos mais diversificados personagens. Estou orgulhosa, sorrio de lado bebendo um pouco mais, quando uma voz familiar chamou minha atenção.

– Eu só tive mesmo certeza de que era você, pelo bom e velho copo de whisky nas mãos – a familiaridade soou bem próxima ao meu ouvido, como uma avalanche de lembranças, me fazendo estremecer e girar lentamente no banco alto de madeira.

– Os bons e velhos amigos nunca morrem de verdade, não é mesmo – dei uma pausa para organizar e pronunciar o nome corretamente – David!?

– Não quando se trata de nós, C – ele se aproximou e passou a mão por minha cintura.

Eu revirei os olhos e bebi mais um gole da bebida amarga, logo depositando o copo no guardanapo sobre o balcão. Ao me virar de volta para David, sua boca estava próxima demais da minha orelha, fazendo seu hálito quente tocar contra a minha pele ao dizer:

– Eu estava com sauda…

– Chloe? – uma voz feminina me desperta do Déjà vu desgostoso daquele momento, fazendo nós dois nos virarmos.

– Alexia? – meu semblante mudou no mesmo instante em que eu coloquei os olhos nela, ao reconhece - lá de Mulher Gato.

– Muito prazer, eu sou o David, namorado da Chloe – Se apressou apresentando-se  à Alexia.

– NAMORADO?? – Alexia e eu falamos em uníssono, nos entreolhando.

– Ta bom C, amigo com benefícios – fez aspas com as mãos e sorriu com seu jeito cafajeste de sempre.

– David a gente não se vê há mais de dois anos – disse em espanto, ignorando a carranca de Alexia. Aquela atitude de David me era muito estranha.

– Ah, então com licença, desculpa atrapalhar o casal – Alexia pigarreou e sorriu cínica dando de costas.

– Alexia espera – me levantei em sua direção, mas David me impediu de dar o próximo passo, segurando em meu braço.

Eu o olhei no fundo dos olhos, procurando um vestígio qualquer de retaliação, então sem dizer uma palavra me livrei de seu aperto me aproximando do balcão, virei o último gole do meu copo de whisky nos lábios, os devolvendo com força no balcão. Me movi lentamente, ainda com os olhos fixos nos seus.

– Ei, o que você está fazendo? – David me olhava confuso.

– Deixando o passado para trás.

[...]

 

Eu avançava rápido entre as pessoas em busca de Alexia, encontrei piratas, médicos, coelhinhas, um Buzz Lightyear dançando funk, o Batman, até um homem das cavernas, menos a Mulher Gato que eu queria.

– Chlooooeee é a sua vez – e antes que eu pudesse protestar, fui arrastada pelo Fantasma da Ópera, mais conhecido como Ravi aquela altura, para o meio de uma rodinha de forasteiros seminus, que me aniquilaram com suas pistolas de tequila, direto na garganta. Chacoalhando minha cabeça logo em seguida, aquilo me fez cambalear e esbarrar em uma bailarina de cabaret que passava.

– Me desculpe – sorri amarelo tentando manter o equilíbrio, mas fui ignorada.

Tudo rodou e Ravi se deleitava rindo, ele já estava alto.

– Você viu a Alexia? – perguntei olhando para os lados depois de retomar o equilíbrio.

– Aquela ali – ele apontou com o queixo para um casal que se agarrava encostados na estrutura do DJ.

Por essa eu não esperava, ela estava mesmo sendo engolida por um cowboy ridículo sem camisa. Eu movi a cabeça em sinal de negação, rindo ao notar que eu havia ficado com ciúmes. Que idiotice.

– Que merda, o que tem nessa garota!?

– O que? – Ravi gritou colado em meu ouvido ao ver meus lábios se mexendo.

– Vou ao bar – respondo simples encarando o olhar de Alexia que agora também me olhava.

– Não! Vem dançar – ele moveu meus ombros, me fazendo parecer uma boneca.

– Preciso de mais álcool pra isso. Mas você meu amor, você aproveita, essa festa aqui, vai ser lembrada por todos, para sempre – me apoio em seus ombros e beijo a parte descoberta de seu rosto. Ravi sorriu.

[...]

 

– A Jack Daniels, por favor – acenei para o garçom fantasiado de gato. Me sentando de volta ao bar.

Ele gentilmente colocou um guardanapo e sobre o mesmo um copo com whisky e gelo.

– Não só um copo, eu quero a garrafa – revirei os olhos empurrando todo o líquido de uma só vez garganta a baixo.

– Uma garrafa inteira não seria muito para uma noite só? – uma voz rouca cortou meus ouvidos.

– Não quando se tem um – me virei para olha-lo e ri ao analisar a fantasia – Batman, de olhos azuis junto – lhe ofereci uma dose, que ele aceitou sentando-se um banco mais próximo.

[...]

Meus olhos arderam ao sentir a claridade e um zumbido atingiu meus ouvidos em cheio. Logo um chiado mais alto de pessoas, me fez abrir os olhos brevemente e então orbes avermelhadas me encaravam, não conseguindo mantê-los aberto por muito tempo, desliguei-me. Logo senti a pressão sobre meu corpo aliviar, um vento gélido cobriu meu torso e minhas pernas fraquejaram. Tudo ficou escuro, outro som e eu vi olhos me encarando, olhos negros e lindos me olhavam com receio. Minhas pálpebras pesaram novamente.

– Meu Deus, o que vocês fizeram? – me esforcei ao máximo apenas para ver um vulto se aproximar.

 

Point of view Alexia Beaumont

                             Festa 3h28min


Eu sentia as batidas do meu coração, ritmadas ao grave do som alto, que tocava na festa e as mãos do cowboy que passeavam por meu corpo, enquanto eu olhava pra ela.

– O que? Onde ela foi!? – sussurrei desistindo do beijo.

– Vem aqui gata – ele disse me agarrando novamente, mas eu desviei e o beijo foi parar no pescoço.

– Desculpa – me livrei de seu aperto e corri em direção a Ravi.

– Isso mulher gato, mostra sua sensualidade – Ravi praticamente gritou ao me ver aproximar – Arrasa gata – exclamou me puxando para mais perto, fazendo meu corpo ceder ao ritmo envolvente da música.

Eu fechei meus olhos e coloquei minhas mãos para o alto, rebolando meu quadril como nunca, sentindo minha respiração acelerar, o calor tomar conta do meu corpo, até algumas gotas de suor se tornarem eminente. Nem percebi que Ravi tinha se afastado, ou que eu já me encontrava, próxima demais da parede que dava nos fundos do ginásio, senti minha garganta seca e foi aí que eu tomei a primeira decisão ruim da noite.

[Play na música]

Caminhei a passos desajustados para próximo do bar, me desviando de um índio muito tarado, na intenção de aliviar a secura e foi quando à vi de longe, Chloe, aquela caveira, sendo seguida pelo “namorado” vestido de pirata na penumbra, para dentro do dark room. Eu sabia desde o início que um lugar para as pessoas se agarrarem com mais privacidade, era uma péssima idéia.

– Uma água, por favor – pedi ao bartender me esticando no balcão e logo sentando.

Ele me entregou a garrafa e sorriu gentil, tentei, porém não pude retribuir. Virei uma grande golada e esperei que aquela imagem se apagasse da minha memória. Apoiei meu cotovelo no balcão e cruzei as pernas observando pessoas aleatórias dançando, o som ficava cada vez mais longe e baixo.

[...]


– Alexiaaa!

“Eles não estão fazendo nada. Apenas conversando.”

– Hey Alexia! – senti meu corpo ser chacoalhado.

– Oi – voltei a realidade olhando assustada para Ravi, que já se apresentava sem máscara. Foi então que percebi um burburinho que agora cobria a música, um tom mais baixo ainda.

– Você viu a Chloe? O som parou e eu preciso dela – Ravi estava tenso e olhava em todas as direções.

– Na verdade eu sei exatamente onde ela está – Meu sangue ferveu, me fazendo levantar e arrastar Ravi até onde eu sabia que ela estava. Está na hora de acabar com esse reencontro – Vem comigo Ravi.

Saímos apressados em direção ao dark room esbarrando em algumas pessoas e ouvindo até mesmo alguns xingamentos. Apesar de já se passar das quatro da manhã, a festa ainda deveria continuar, as pessoas queria mais, muito mais. A cada passo que eu dava, uma sensação diferente invadia o meu ser, eu queria ir e estragar tudo e não dar chance para que eles se reconciliassem. Mas por outro lado eu não queria ver o que poderia estar acontecendo lá. Mesmo assim seguimos desprendidos de qualquer má sensação.

Já na entrada, retiramos a cortina negra que cobria a porta, dando acesso à sala escura e iniciando passos que adentravam no que seria a segunda  decisão ruim da noite.

Caminhei colada em Ravi que se orientava com faixas refletivas no chão, dando um caminho até a caixa de energia. Quando uma luz fraca foi acesa, alguns casais entenderam o recado e se recompororam diante à situação. Uma música mais sensual tocava ao fundo e meus olhos procuravam por Chloe.

Antes mesmo que eu pudesse entender o que estava acontecendo, eu vi Ravi parado olhando fixamente para um enorme puff vermelho. Quando me esquivei de Ravi para olhar melhor, meu estômago embrulhou no mesmo instante, minhas pernas fraquejaram me impedindo de correr. Ao tocar o ombro de Ravi, para manter o equilíbrio, eu pude ouvir o grito esgarniçado.

– DYLAN!?

Ele dava passos errôneos e rápidos para trás quando teve os olhos de Dylan sobre si, derrubando algo que não identifiquei, ele saiu correndo para fora dali.

Eu não sabia o que fazer, fiquei ali parada encarando a cena patética a minha frente, esperava que algo ou alguém me tirasse daquele lugar. Nem o identifiquei quando Dylan passou ao meu lado.

– Pra onde ele foi? – Dylan parou alguns passos atrás de mim perguntando.

– Eu não sei – respondi atordoada sem me dar conta sequer que ele havia se levantado sobre Chloe.

Nesse momento uma dúvida atordoou minha consciência, ir atrás de Ravi e Dylan ou dar alguns passos até Chloe aparentemente desmaiada e seminua? Nada fazia sentido, onde estava David, por que Dylan estava com Chloe…

Minha cabeça gritava para que eu me afastasse, dei alguns passos em direção a saída, mas aí ela decidiu abrir os olhos, aqueles malditos olhos cor de mel. Por mais que ela fosse filha da puta e egocêntrica, por mais que ela tivesse toda sua postura bad girl, ela me pareceu tão frágil ali. Naquele instante meu coração cedeu, mas eu corri.


Notas Finais


Um erro premeditado? Uma baita consciência? Dylan encontrará Ravi? Chloe será perdoada?


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