História "Sem Palavras para Descrever: O Começo do Fim" - Livro I - Capítulo 8


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Categorias My Little Pony
Personagens Apple Bloom, Applejack, Fluttershy, Personagens Originais, Pinkie Pie, Princesa Celestia, Princesa Luna, Rainbow Dash, Rarity, Spike, Spitfire, Twilight Sparkle, Vovó Smith
Tags Applebloom, Applejack, Aventura, Big Macintosh, Cadance, Celestia, Drama, Família, Fanfic, Fantasia, Ficção, Foreign Eye, Friendship Is Magic, Granny Smith, Guerra, Luna, Magia, Mistério, Misticismo, Mlp, My Little Pony, Octavia, Pinkie Pie, Rainbow Dash, Rarity, Romance, Shining Armor, Spike, Spitfire, Stubborn, Tragedia, Twilight Sparkle, Universo Alternativo, Vinyl Scratch
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Palavras 8.185
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 14 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Famí­lia, Fantasia, Ficção, Magia, Mistério, Misticismo, Romance e Novela, Universo Alternativo
Avisos: Linguagem Imprópria, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Notas do Autor


Arte para capítulo criada por Drason.

Capítulo 8 - Casa da Mãe Joana


Fanfic / Fanfiction "Sem Palavras para Descrever: O Começo do Fim" - Livro I - Capítulo 8 - Casa da Mãe Joana

Equestria — Ponyville — Interior da Biblioteca, 20:28 pm


 

Apesar do tamanho descomunal daquele enorme corcel negramente uniformizado, Rainbow Dash não se intimidou com sua largamente alta aparência corcelística. Sua postura reta e azulada continuava firme; ela o encarava com fervor e sua cabeça estava erguida contra o novo rosto que chegara a esta pequena vila. O corcel olhava para aquela cabeça cheia de farpas coloridas com o rosto um pouco curvado; este demonstrava um leve desgosto em seu lábio inferior para a pelagem reluzente desta pégaso.

    — Vai ficar me encarando o dia inteiro, projeto de cerúleo? — disse o corcel com sua voz irritada. Aquela voz era penetrante e bem imponente.

    — Já é de noite, caso não tenha percebido, espertalhão. — respondeu a pégaso quase que automaticamente.

    O corcel apertou os olhos. Ele abanou seu rabo bruscamente, de alguma forma, para abafar alguma irritação.

    — Você é outro convidado das Princesas? — Dash indagou ao fintá-lo com seus olhos magenta, cujos demonstravam uma expressão um tanto desgostosa; para ela, isso já tá virando a casa da mãe joana. — Preciso que mostre seus docu--

    O enorme corcel a interrompeu com uma quente e forte baforada de suas narinas no rosto da pégaso; gotículas melecosas se chocaram em seu rosto celeste. Ela sacudiu o rosto aos gemidos e o esfregou com um de seus cascos, enojada.

    — Vá encher o saco de outro; tenho trabalho a fazer. Agora saia da frente. — Com passos pesados, o corcel trombou com a pégaso, empurrando-a forçadamente para o lado. Rainbow se desequilibrou e foi de encontro ao chão, batendo seu lombo esquerdo no assoalho de madeira da biblioteca. Todos olharam perplexos para o acontecido, Rarity e Applejack quase se levantaram de suas almofadas para se pronunciarem, até que um pônei chifrudo foi mais rápido do que elas.

    — Ei! Por que isso? Quem você pensa que é?! — Twilight trotou raivosamente em direção ao suposto intruso da biblioteca.

    O corcel a encarou com seus olhos pretos sombrios, que fez a própria unicórnio cor-de-lavanda parar de forma brusca seu trajeto. A pressão se tornara pesada quando ela se aproximou daquele grande pônei; um desconforto indescritível pairava ao seu redor, como se um enorme lobo a encarasse esfomeadamente, fazendo-a ficar imóvel ou incapaz de reagir.

Apesar de querer andar para frente, aquela pressão a fazia andar para trás; mesmo que seus cascos desejassem o norte, seu corpo se movimentava para o sul. Aqueles olhos negros poderiam parar a água corrente ou até mesmo o vento, se quisessem. Twilight engoliu seco, mas conseguiu manter-se parada onde estava.

    As pôneis no recinto encaravam o corcel de trajes militares negros com desgosto. A Prefeita não se levantou de sua almofada, mas Applejack e Rarity já estavam de quatro e com as pernas abertas e duras, numa postura firme. Rainbow Dash ainda estava no chão, já deitada com a barriga para baixo, tentando assimilar o que havia realmente acontecido. Apesar pelo desconforto em seu azulado flanco esquerdo, ela rangia os dentes enquanto olhava para aquele truculento corcel.

    Pinkie Pie apareceu ao lado do corcel amarronzado com uma cara fechada.

    — Ei, grandão! — ela apontou o casco rosado para ele — Não gostei do que você fez com minha amiga! Isso não se faz com nenhum pônei! Foi muito mal-educado de sua parte. Peça desculpas agora para ela, por gentileza!

    O corcel virou a cabeça para Pinke Pie, ela olhava para ele com a cabeça erguida, em um típica cara emburrada. Os olhos azulados daquela pônei fitaram seu rosto sem mudar de expressão: suas sobrancelhas estavam cerradas e seu beiço fazia um bico enorme. O corcel olhou em seguida para a pequena pégaso ainda no chão da biblioteca e, com uma voz pesada, disse:

    — Minhas sinceras desculpas, senhorita. Da próxima vez, saia do caminho se não consegue aguentar uma trombicadinha de nada. Pôneis com essa atitude molenga serão tratados para sempre em suas vidas como capacho. Precisarei limpar meus cascos em você?

    Rainbow olhou ao seu redor, percebendo que, desde o empurrão, não levantou do chão. Na mesma hora, ergueu-se imediatamente dele e olhou para o corcel, soltando um relincho forte. Ela queria pular em cima dele agora pelo comentário, mas Pinkie Pie ainda estava a sua frente e, fazer uma manobra dessas, arriscava acertar sua amiga rosada sem necessidades.

    Pinkie Pie sorriu alegremente e abraçou o garanhão de uniforme, sem restrições. O corcel nem se moveu por conta do abraço, mas Pinkie Pie estava agora por cima dele, abraçando-o.

    — Viva! Você pediu desculpas à ela! Parabéns! — Pinkie Pie desceu de seu lombo e foi bruscamente para o seu lado direito, indagando, — Agora, qual seria seu nome, grandão?

    Ele não a respondeu. Apenas a seguiu com a cabeça lentamente, sem demonstrar nenhuma expressão. Aquela pôneizinha rosa olhava para ele com ansiedade tremenda, um sorriso enorme preenchia seu rosto rosado. Ela esperava com muita determinação o nome dele, até mesmo poderia varar a noite esperando, se possível for.

    O enorme corcel ignorou-a por um momento, virando-se bruscamente para Foreign.

    — Eu mal chego e você já com problemas nessa cidade, Foreign? Que espécie de diplomata é você? Aliás, que espécie de profissionais são vocês, deixando de lado suas responsabilidades e fazendo uma festa em plena reunião? Se é que vocês tem capacidade de se chamarem “profissionais” com estas atitudes...

Ele não deixou de ignorar os enfeites nas paredes e prateleiras, os balões flutuando pelo teto e amarrados na mesa, além de papéis picados pelo chão e a mesa central estar cheia de guloseimas; tudo isso num mesmo cômodo. Um trabalho esplêndido de Pinkie Pie.

    Foreign limpou a garganta antes de responder, — Perdoe-nos com a aparência da reunião, senhor. Para fazer uma breve explicação sobre a mesma: A Srta. Pie, que está ao seu lado, havia montado esta pequena festa para minha chegada pois eu era novo na cidade.

— Hihi! Isso mesmo! É o meu jeito de dizer “Bem-Vindo” a qualquer pônei novo que chega à cidade! Isso os deixa tão felizes! Os fazem esquecerem da vida chata e monótona que tinham antes para abraçar a nova vida alegre e cheia de cor que esperam aqui! Alguns pôneis novos chegaram à Ponyville hoje, acho que uns cinco. O Sr. Eye foi o último deles. Ei! Você é novo na cidade, não é?! Nossa! O Sr. Eye agora é o penúltimo pônei novo na cidade! Então, você é o novo último pônei novo na cidade! Seja Bem-Vindo, senhor “novo-último-pônei-novo-na- -cidade”! — Pinkie saltou sobre o corcel novamente, lhe deu um rápido abraço e voltou ao chão — Precisamos fazer uma festa da sua chegada! Esta festa aqui era para o Sr. Eye, mas todas nós concordamos que iremos fazer uma festa para ele direito um outro dia. Podíamos aproveitar esses enfeites e fazer a sua! Isso vai ser tão legal e reciclável! Aliás, qual é o seu nome, grandão? Precisamos apagar o nome do Sr. Eye do bolo para colocar o--

Um balão verde preencheu a boca rosada de Pinkie Pie, interrompendo-a de seu infinito falatório; mas isso não a impediu de continuar pois ainda se ouvia as balbuciações dela enquanto mexia o maxilar e executava arranhões surdos entre seus dentes e a borracha do balão. O pônei marrom descansou o casco no chão e voltou para Foreign.

— Continue.

Foreign sentia arrepios em suas costas com os arranhões provocantes do balão entalado na boca de Pinkie Pie. Os gritos agressivos da borracha ecoavam em sua mente repetidamente e cada vez mais alto; ele suava frio novamente. “Clemência, é tudo que eu peço!”. Na tentativa de recuperar o conforto, ele afasta discretamente de Pinkie Pie, continuando a conversa com o grande córcel militar.

— E h-houve um pequeno problema com os d-documentos. Parece que a Princesa Celestia não me entregou nada que comprovasse que eu estava convidado para essa reunião--

    O grande corcel rolou os olhos e bufou — Pfft! Aquela inútil. Não precisa dizer mais nada. Você! De crina roxa e olhos esbugalhados. — ele apontou diretamente para Twilight. A mesma olhou atônita para ele e seu casco cheio de cicatrizes diante dela.

— Ainda está com o último pergaminho que recebeste da Nossa Singela Princesa? Um que ela havia enviado entre 18:00 e 19:00?

Twilight pensou por um breve momento e lembrou do suposto pergaminho, o que estava em branco. Spike tinha comentado que a Princesa o enviou por volta desses horários que aquele corcel indagou. Ela começou a olhar pelo chão ao seu redor. Pequenos balões, papéis picotados e serpentinas estavam espalhados, atrapalhando a sua busca pela carta. Ela chutou alguns balões e assoprou serpentinas, tentando localizá-la. Alguns breves minutos de procura, Twilight achou o rolo de papel meio enrolado embaixo da mesa central — ela não entendia como ele conseguiu parar lá —. Com um brilho mágico de seu chifre, puxou o rolo de pergaminho e o orientou diante do enorme corcel.

— E-este aqui? — perguntou ela nervosamente.

    Ele analisou o pergaminho flutuante; estava totalmente em branco — Esse mesmo. A Nossa Distraída Princesa descuidadamente usou tinta invisível ao invés de tinta normal quando escreveu essa carta. Ela pediu para que eu avisasse a Vossa Dedicada Aprendiz que, para poder visualizar seu conteúdo, teria que usar o feitiço Rev--

    — O feitiço Revelador-de-Segredos! — completou Twilight com uma epifânia em sua voz.

    O corcel ergueu uma sobrancelha, — Quem diria. Você sabe.

    — Ora essa, claro que eu sei! Anos de estudo e pesquisa dão esse resultado. Pratiquei vários tipos de feitiços e encantamentos durante minha--

    — Certo, certo. Menos encheção, mais ação. Se estudou pra isso, faça sem ficar se gabando. O tempo voa e borboletas morrem enquanto você fala entediadamente.

    Twilight ficou desarmada. Nunca ninguém havia falado com ela desse jeito. Ou, pelo menos, nunca lembrara de alguém com um comportamento tão desrespeitoso como aquele. Aquela unicórnio se sentiu ofendida com a atitude presunçosa daquele corcel, que olhava para ela com uma expressão dura. Ele conseguiu ser mais grosseiro que uma certa pégaso azul. Quem ele pensa que é para falar desse jeito com a Aprendiz Particular da Princesa de Equestria?

    Ainda assim, sem restrições — por enquanto — acionou a magia de seu chifre com um brilho mais forte. O papel diante dela também brilhou mais intensamente e, num pequeno flash roxo de luz, as palavras que estavam invisíveis tomaram uma cor pálida lúcida. O brilho no chifre de Twilight enfraquecia conforme passavam os breves segundos, assim como as letras que, antes brancas, aderiram a uma cor mais escura, quase como de carvão. Twilight, ao aproximar o pergaminho aos seus olhos, leu em voz alta para todos ouvirem:

 

    “Querida Twilight Sparkle, minha mais dedicada aprendiz,

 

    Venho por meio desta carta para alertá-la das recentes mudanças na equipe que organizará o grandioso evento, “A Última Nota”, em Ponyville. Ninguém será substituído, nem demitido de seus respectivos cargos. Apenas adicionei mais 2 (dois) integrantes para a equipe de vocês, no intuito de auxiliá-las em suas tarefas.

    Entendo que uma organização grande como essa pode ser sufocante, ou até mesmo estressante para todas vocês. A idéia de vocês ficarem desgastadas com este evento me deixa muito preocupada. Não quero que pensem que não acredito que vocês não sejam competentes para essas tarefas porque penso na saúde de vocês e de todos os outros pôneis, meus queridos súditos.

 

    Os seguintes 2 (dois) novos membros são Foreign Eye e Capitão-General Stubborn.”

 

    Twilight parou um pouco a leitura para olhar para o grande corcel diante dela. Parece que o nome verdadeiro dele era Stubborn. Pinkie Pie ficou muito feliz em descobrir o nome dele; ela já pulava ao redor dele repetindo seu nome sem parar, quase cantarolando.

Sparkle não entendia o porquê de haver um “capitão” antes de “general” em seu título. Ele era um Capitão ou um General? Só podia ser um General, pois seu irmão mais velho, Shining Armor, era o Capitão Real em Canterlot. Mas aquele corcel pode ser um Capitão de uma outra cidade qualquer como Manehattan, Phillydelphia ou Los Pegasus; cidades é que não faltam para ter um capitão para supervisionar as tropas e organizar uma defensiva. Mas aquele “General”... aquele título após o “Capitão” estava de alguma forma incomodando-a. Se ele for um General, representaria praticamente um Reino, como Equestria; não uma pequena cidade. Para ter aquele “Capitão” antes de “General”, ele estaria representando toda Equestria e, além disto, uma cidade muito importante concentrada nela. Pensando nisso, essa importante cidade em Equestria só poderia ser a grande capital Canterlot.

    Mas isso não fazia sentido! Canterlot estava sendo supervisionada por Shining Armor. Ou este título estava tentando enganar a mente dessa inteligente unicórnio ou isto era uma verdade inesperada... e uma outra indesejável verdade esteja escondida dentro desta.

    — Vai demorar muito para continuar? Não temos a noite inteira para ficar olhando você  viajando na maionese. — a voz grave de Stubborn cortou os pensamentos de Twilight como uma navalha em manteiga.

    Twilight estremeceu um pouco, um pouco constrangida por viajar demais em seus pensamentos enquanto os outros esperavam ela sair do repouso.

    — S-sim, hã, claro. Perdão. Caham...

 

“Foreign Eye irá acompanhá-la durante todo o evento, ajudando-a na organização, no preparo e nas decisões mais importantes como Diretora-Chefe do evento “A Última Nota”. Acredito que ele não a decepcionará em seu auxílio.”

    

Twilight tomou um curto fôlego antes de continuar, — “Quanto ao General Stubborn--”

 

Capitão-General Stubborn. — interrompeu Stubborn num tom rude. — Leia direito da próxima vez ou limite-se apenas para Capitão Stubborn.

    Twilight olhou irritada pelo canto de seu olho, sem mexer a cabeça. A unicórnia roxa não gostava desse título de alguma forma, mas, pelo destaque em seu tom de voz, parecia que ele fazia questão de que falassem “Capitão” em seu título.

Mas “Capitão” é de uma hierarquia mais baixa que a de “General”. Por que ele prefere que o chamem de “Capitão”? Pode ser que muitos prefiram chamá-lo de “Capitão” por sinal de respeito ou por ser mais confortável de se pronunciar, afinal, o cargo de General é muito importante; tanto que até intimidava a idéia de estar conversando com um figurão respeitado como ele. Mas, para ela, só servia para preencher o ego daquele indivíduo arrogante.

Twilight descontou uma parte dessa raiva num rouco alto, ao fingir limpar a garganta.

    

    “Quanto ao Capitão-General Stubborn, ...” — ela fez questão de destacar essa palavra. — “... ele irá ajudar a sua querida amiga pégaso, Rainbow Dash, responsável pela segurança e o bem-estar de todos os pôneis como Secretária de Segurança em Ponyville durante todo o evento. Peço que diga a ela para usar bastante de sua paciência com ele e que seja mais firme que o próprio. Ela entenderá o que eu quero dizer. Sei bem o que passa na cabeça dele e ela é a melhor pônei que conheço para colocá-lo na linha.”

    — Pfft! Claro que ela sabe. Afinal, ela sabia que sua sobrinha tinha sido raptada e aprisionada numa caverna embaixo de seu próprio castelo... — disse Stubborn num tom irônico.

    Ninguém ousou argumentar, nem questionar. Twilight mesmo já estava perdendo a paciência e ficando bastante ofendida por esse energúmeno estar desrespeitando sua digníssima mentora desse jeito. Mas, para não perder sua postura jeitosa, ela decidiu engolir a irritação e terminar de ler a carta, ainda com um leve desgosto.

 

“Deixo estes pôneis por vossa responsabilidade e a de sua amiga pégaso.

 

De sua grande mentora,

 

Princesa Celestia.”

 

    Antes que os pôneis no cômodo pudessem discutir sobre a carta, Twilight ergueu o casco bruscamente.

— Esperem! Há um Pós-Escrito: P.S: Spitfire confirmou que irá para Ponyville amanhã, substituindo o comando de Soarin, juntamente com os Wonderbolts para se prepararem para a abertura, quando o evento começar.

— ISSO! — Rainbow Dash deu um salto de alegria e bateu as asas, emocionada. — Spitfire está vindo aqui! AI, MINHA NOSSA! Isso vai ser tão legal! Já que ela virá mais cedo do que antes, posso ter tempo o suficiente para mostrar minhas incríveis e milaborantes manobras aéreas como o “O Vôo Rasante Profundo”! — a pégaso azulada deu um curto rasante ao redor do cômodo com cautela, imaginando como seria sua apresentação de seus truques para os Wonderbolts. E continuou fazendo ao citar os nomes de cada um, enquanto alguns pôneis no recinto a seguiam com a cabeça — Ou “Mergulho Cintilante”! Ou “Tobogã Aéreo”! Ou então o “Cometa de Pégaso”! Ou quem sabe--

    — Nós já entendemos... Já pode parar, querida. — pediu Rarity ao gesticular o casco.

    Rainbow Dash apenas parou no ar e cruzou os cascos, fazendo uma cara fechada. — Hunf... Tá bom.

    — Intonci, como ficô a situação, Tualáiti? — perguntou Applejack.

    — Ao que tudo indica, eu estava certa! — declarou Twilight, erguendo um sorriso confiante — A Princesa definitivamente me enviou uma carta alegando que tinha falado com Foreign e que ele realmente é um convidado para essa reunião! Então, ele não precisa ir embora já que foi comprovado!

    — Mas, ainda assim, ele não possui os documentos oficiais. — interferiu Rainbow Dash, — A carta, sim, provou que ele conversou com a Princesa Celestia e que ela o enviou para nos auxiliar durante o evento. Mas ele precisa apresentar esses documentos. Faz parte do protocolo.

    — Francamente, Rainbow Dash! — respondeu Twilight, sacudindo a cabeça com desgosto ao persistente comentário de Rainbow. — Você nunca dá o casco a torcer! Pela última vez, ele não é um terrorista!

    — Está no protocolo. — agora a voz vinha de Capitão Stubborn. — Isso é verdade e você não pode simplesmente ignorá-la. Como Diretora-Chefe, deveria saber disso e acatar sem restrições.

    Twilight não o contradizeu; mais uma verdade foi jogada na sua cara.

    — Esse descuido de Nossa Descuidada Princesa não podia ser ignorado. — continuou Capitão Stubborn, — Depois de uma longa e insistente conversa, convenci a ela que me desse ordens para ir à Ponyville para auxiliar a Secretária de Segurança desta cidade na segurança do evento que ocorrerá daqui alguns dias. Além de passar este recado para a Nossa Dedicada Aprendiz da Princesa e ao diplomata.

    — Mas por que ela não me reenviou uma carta explicando? — argumentou Twilight. — Não precisaria ter o enviado até aqui de Canterlot para--

    — Ela me disse isso. — cortou Stubborn — Mas como Capitão-General de Canterlot, preciso ser minucioso com o fator da segurança desses documentos, pode ser que a magia de envio dessa carta seja desviada de seu destino final. — Twilight pretendia protestar nessa parte, mas Stubborn rapidamente a desarmou com — Sim, é possível usar um contra-feitiço para alterar o destino das cartas que você recebe, Nossa Inocente Aprendiz da Princesa. Mas Nossa Confiante Princesa confia demais de si mesma e de sua “poderosa magia”.

    Twilight obviamente não estava gostando dos comentários que aquele estranho pônei estava fazendo de sua devotada mestra de magia. Mas, ainda assim, ela procurava por explicações e engoliu seu incômodo.

    — Insisti que ela me desse os documentos de Foreign e meus, pois eu mesmo iria levá-los e entregá-los, já que as recentes ordens de Nossa Mandona Princesa a mim eram auxiliar a recém Secretária de Segurança desta cidade interiorana. Sei que, comigo, esses documentos estariam seguros. Com isso, para aumentar a segurança deles, ordenei que Nossa Minuciosa Princesa usasse uma magia para inserí-los num pedaço de lenço, usando como disfarce. Depois, saí de Canterlot, no mais tardar, às sete horas, seguindo caminho à galope para Ponyville. Cheguei à cidade pouco mais de oito horas; tempo o suficiente para ouvir a balbúrdia que faziam dentro desta biblioteca.

    Twilight e os outros pôneis não sabiam se acreditavam nas palavras daquele pônei. A distância entre Ponyville e Canterlot era absurda! Milhas, quilômetros; morros, lagos; matos, florestas de distância separavam as duas cidades. E Canterlot se apoiava nas costas íngremes de uma montanha! Os pégasos da Guarda Real levam pouco mais de uma hora para chegar aqui; os Wonderbolts, minutos! Para um grande corcel, não é de suspeitar de sua força, mas sua velocidade seria surpreendente. Até mesmo Applejack arregalou os olhos, surpresa.

    — Ééégua! Cê galopô de Cantêlóti pra cá in mênos di duas hóra?! — exclamou ela, embasbacada.

    — O que é isso, querida Applejack. — Rarity apalpou o casco de sua amiga caipira, ainda surpresa com essa proeza. — Não é tecnicamente impossível de fazer isso. Mas eu sinceramente tenho minhas dúvidas sobre a veracidade dessa façanha. Canterlot é bem longe, são muitas milhas de lá para cá. Para irmos até lá, sempre usávamos o trem da estação de Ponyville, mas ainda assim demorava um bom tempo até chegarmos todas lá. Mesmo para qualquer pégaso, demorariam não mais que uma hora para chegarem aqui.

    — Tem razão, Rarity. — entrou Rainbow Dash no assunto. — Para qualquer pégaso. Mas para um pônei terrestre poderia demorar muito mais do que apenas uma hora ou até metade de um turno diurno para ele ou ela chegar aqui há galope, sem ser por um meio de transporte como um trem. Isso está me cheirando a exibicionismo, meu caro senhor Stubborn. Como pode dizer que chegou de Canterlot para cá em pouco mais de uma hora?

    — E quem é você para dizer que eu tenho que comprovar isso? — Stubborn virou seu corpo bruscamente para Rainbow Dash, ficando de frente para ela. A pégaso azulada afastou por um passo, surpreendida. Em seguida, Stubborn virou a cabeça para os pôneis presentes. — Vocês estão com uma mente muito limitada quanto ao que se pode dizer do “impossível” ou do “possivelmente provável”. Quem disse que não é possível galopar daqui até Canterlot em menos de duas horas?! Há muitos anos houve pôneis que superavam e quebravam o impossível de seus limitados corpos. Como Feather Hoof, que conseguiu galopar de Los Pegasos até Manehattan em menos de três dias de viagem. Ou de Heavy Stone, famoso por construir inúmeras casas e lojas por toda Equestria, mesmo com o seu péssimo senso de equilíbrio. Ele sempre trombicava e tropeçava em seus materiais de trabalho e quase sempre destruía as casas que tinha acabado de erguê-las. Mas isso não era desculpa para o que ele fazia. Se não me engano, há uma citação no livro de Foreign, “Appleloosa É Logo Ali Adiante”, que Heavy Stone foi responsável por construir as casas, os salões e as lojas daquela cidade. Estou errado, Sr. Eye?

    Todos os pôneis explicitamente viraram seus rostos para o elegante pônei de terno, que agora se sentia pressionado pelos olhos ansiosos daquelas senhoritas. Foreign estava deveras surpreso aquele pônei de grande massa corpórea soubesse de uma informação como essa (e te tê-lo chamado pelo “senhor”). Não pelo fator de ele não saber nada ou de ser um leigo que só pensa em malhar seu corpulento lombo e planejar táticas e estratégias militares; mas por ele ter citado seu livro como argumento verídico. Em piscadas repetitivas com os olhos, Foreign respondeu:

    — Claro que não, Capitão Stubborn. O senhor está correto.

    — Correto, isso mesmo. — respondeu de volta o grande corcel, voltando para os outros pôneis.

Ele leu mesmo o livro de Foreign; isso o deixou surpreso. Foi uma ótima tática de demonstração da sua bagagem cultural, quem diria que ele — ele mesmo — pudesse citar algo do gênero, até mesmo antes que o próprio Sr. Eye pudesse comentá-lo pois ele sabia do assunto. Que livros a mais será que ele leu ou conhece, perguntou o pônei elegante para si mesmo em seus pensamentos.

— Como também houve uma façanha mais recente — continuou Capitão Stubborn — de uma pégaso, que não lembro bem o nome, mas a denominam como “Raio da Aurora” em algumas regiões ao sul de Equestria. Dizem que ela havia ultrapassado a barreira do som em questão de segundos, num mergulho veloz e profundo. A velocidade foi tremenda que uma onda de choque multicolorida preencheu o céu azul daquele dia, podendo ser visto suas cores e sentido seu choque à milhares de milhas de distância. Aquela onda afastou e quebrou nuvens, balançou as árvores frutíferas e estremeceu as águas dos rios. Jamais foi visto um céu tão limpo e brilhante em anos como naquele dia.

    Um comichão pinicava nas nucas das pôneis presentes, onde resguardam as memórias e lembranças. Essa história que Stubborn acabou de contar era suspeitosamente familiar. Todos coçavam o queixo, tentando lembrar alguma referência. Foi então que Twilight e suas amigas olharam bruscamente para a pégaso azulada de crina rebelde e colorida, que meses atrás participou da competição “Melhor Voador Mirim”, em Cloudsdale, e que, na mesma ocasião, estreou pela segunda e penúltima vez em sua vida, a incrível manobra qual Rainbow Dash se orgulha de patenteá-la e de ser escutada pela boca de outros pôneis apaixonados: O Arco-Íris Sônico.

    Stubborn continuou a citar momentos e comentários que ele ouvia de outros pôneis; histórias que passavam de boca em boca, rumores que passavam de sussurros em sussurros, e piadas que passavam de risadas em risadas. Rainbow não podia fazer nada a não ser escutar cada palavra que aquele arrogante corcel falava indiscretamente sobre ela e sua grande façanha. Seu sorriso azulado ia crescendo, assim como o ego em seu peito. “Raio da Aurora”? Hehe. Adorei esse nome...”, pensou ela. Suas amigas olhavam para o grande corcel e para pégaso azulada repetidamente; não sabe ele que está diante da autora desta grande façanha, bem ao seu lado.

    — EI! — Pinkie Pie interrompeu — Este bafafá está muito parecido com o quê a Rain--

Antes que ela terminasse de falar um nome, Pinkie foi agarrada pela pégaso azulada e sua boca foi tampada por um casco azul, seguido de um surdo “Psshht!” em sua orelha. Suas amigas logo viram e suspeitaram de seu comportamento. Mas antes que pudessem se pronunciar, foram interrompidas.

— Como é? — perguntou Capitão Stubborn para a pônei cor-de-rosa, vendo que ela estava sendo agarrada pela pégaso azulada.

Rainbow disfarçou o agarramento como um amigável abraço, terminando com o casco sobre o ombro da Pinkie. Então, Dash tomou a iniciativa antes dela:

— Ah! Bom...! Hã... e-ela disse que essa história toda que você contou... sobre o choque multicolorido e... e tremores... e-e achou muito parecida com o que aconteceu na competição “Melhores Voadores Miríns” em Cloudsdale. Disseram sobre um grande impacto no céu, que o preencheu com uma onda de várias tonalidades de cor. Será coincidência?!

— Não existem coincidências. — respondeu Stubborn secamente — E eu estava falando exatamente desse acontecido... e de outros dois: um há muito tempo atrás, que ocorreu na mesma cidade, e um outro bem mais recente, durante um Casamento Real em Canterlot.

Rainbow Dash olhou em volta discretamente, tentando arranjar alguma idéia para distraí-lo desta interrupção e fazê-lo esquecer do assunto pendente — E... e... como foi... hã... essa grande façanha... em seu ponto de vista? Sem ser pelos comentários dos outros pôneis quando viram essas incríveis e estupendas façanhas?

— Infelizmente não estive presente em nenhum dos acontecidos para poder ter minha própria opinião. Eu estava em outros lugares, com outros afazeres e outras responsabilidades mais importantes a serem preocupadas. O que posso dizer são as opiniões de terceiros, quais eu ouvi durante algumas viagens. Sempre comentam que era algo que nunca viram antes; que era uma coisa que só via uma vez na vida, mas não é verdade! Isso aconteceu mais que duas vezes. Em menos de uma década; isso não é algo raro. Alguma coisa o executa apenas em situações ou eventos especiais, como a competição de “Melhores Voadores Mirins” ou o Casamento Real. Acredito que, neste evento, poderei vivenciar essa próxima façanha.

E continuou novamente a citar comentários de outros pôneis e do que ele espera encontrar e ouvir outros comentários de novos pôneis nesta cidade durante esse grande show de música. Rainbow puxou devagar Pinkie Pie para um canto, ao lado de uma inocente samambaia, e cochichou baixinho com ela.

Pinkie! O que está fazendo? — perguntou Rainbow nervosamente em sussurros, virando-se para ela num canto do cômodo.

E pergunta pra mim? — Pinkie Pie a pergunta também aos sussurros, — O quê você está fazendo, Dashie? Por que tampou minha boca? Eu só ia comentar sobre o Arco-Íris Sônico que você fez em Cloudsdale--

    — É por isso mesmo!

    Pinkie Pie olhou para ela com uma sobrancelha erguida; até ela boiou nessa.

    — É o quê? Você não quer que eu conte a sua grande façanha para ele? Por quê?

    — Porque eu quero ver o que ele tem a dizer sobre mim e o meu grande feito!

    — Você sabe o que é! É estupendamente maravilhoso e lindo! Você foi com “ZUM”! E “PURRRRRSHHHHH”! E então “BOOOOOM”! Foi incrível e cheio de cor! Você viu! Ou fez... Ou viu e fez!

    — Mas ele é tipo um General, Pinkie! Um militar; um pônei super importante, saca?! Há anos que espero alguém importante como os Wonderbolts para comentarem sobre meus feitos e façanhas. Agora que vejo um importante pônei como ele, que é um General da Guarda Real de Equestria, não posso perder essa chance de ouvir o quê ele tem a dizer sobre isso! É a minha grande chance!

    — Uau! Que legal e super bonito! Tem todo o meu apoio, Dashie! — Pinkie bateu levemente os cascos de emoção — Mas o quê isso tem haver em dizer o seu nome?

    — Porque ele não sabe que eu sou a pégaso que fez o Arco-Íris Sônico! Ele só o conhece por boatos de outros pôneis, quase nenhum dos que ele ouviu era concreto. Ele nem sabe se é um pônei macho ou um pônei fêmea! Ou se é mesmo um pônei! E meu nome tem muita relação com o que aconteceu em Cloudsdale, em Canterlot e com meu recente cargo como Secretária de Segurança em Ponyville. Temo que, cedo ou tarde, ele acabará descobrindo meu nome pois ele vai querer saber quem é a responsável pelo cargo...

    — Ué, é só mudar de nome! Isso é fácil! — respondeu Pinkie de uma forma confiante, mas Dash não a levava à sério; só pôde suspirar tristemente.

    — Não é tão fácil quanto parece, Pinkie. É muito mais difícil. Todos os pôneis da cidade me conhecem por Rainbow Dash. Fazerem eles me chamarem por outro nome é praticamente impossível!

    — Bom, dã! Deixe isso comigo! Sua amigona Pinkie Pie dá um jeito em tudo!

    Rainbow olhou para ela, incrédula — Hã? Sério mesmo que você consegue?!

    — Tão séria como uma pedra pode dançar e cantar!

    Rainbow deu com o casco na testa, mas ela conhecida sua amiga neurótica; ela faria qualquer coisa por suas amigas e, nisso, Dash acreditava em sua capacidade.

Ai, ai, tudo bem, Pinkie. Mas que nome devo trocar? Não tem que ser muito parecido com o meu original.

    — Certo! Pensemos! Hum... — Pinkie colocou o casco no queixo, pensativa.

    De repente, ela teve um sobressalto — Ei, ei! Que tal Rainbow Dash?!

    — Pinkie! Esse é o meu nome verdadeiro! Tem que pensar em um outro para substituí-lo!

    — Aié! Foi mal. Hihihi. Hum... que tal “Baunilha”?

    — Baunilha? — Rainbow fez uma careta desgostosa — Mas o quê isso tem haver? Eu nem sou branca para ter esse nome!

    — E quem disse que você precisa ser branca para ser chamada de “Baunilha”? A Rarity é branca e nem por isso seu nome não deveria ser “Rarity”!

Mas esse nome é ridículo! — resmungou Dash.

    — Você tá é reclamando de barriga cheia! Precisa passar mais tempo faminta. — Pinkie cruzou os cascos, impaciente. Mas ela não desistiu.

Ei, que tal “Pamonha”?

    Rainbow não esboçou nenhuma reação, mas o tilintar de sua pálpebra inferior era incontrolável e bem visível.

    — Não olhe pra mim! Reclame com o escritor que está me fazendo dizer esses nomes esquisitos para você!

    — Ai, Pinkie, esquece! Eu mesma vou pensar num nome! Deixa-me ver... ah, já sei!

    — Viva! Então, me fala! O que é, o que é?! — a pônei rosa saltitava de ansiedade.

    — “Star Fox”! — Dashie disse o nome com a coisa mais mirabolante e genial de todas as coisas que ela havia pensado, mas a expressão duvidosa de Pinkie dizia outra coisa.

    — Mas você não é uma raposa, Dashie--

    — Isso não vem ao caso! — disse Dash, sacolejando os cascos em frente à ela — Esse vai ser meu novo nome e pronto! Até segunda ordem ou o meu plano ir pelo ralo!

    — Beleza então! Vou falar com as outras e espalhar a notícia! — Pinkie Pie ia se preparar para dar um salto lateral, mas Dash a segurou pelo casco.

    — Espere, Pinkie! Mas não diga para o Brutamontes e nem pro Sr. Eye!

    — Ah, tudo bem-- Ei! Como assim “não pro Sr. Eye”? O que você tem com ele ainda?

    — Nada! Eu... só não confio nele ainda. Acho esse cara meio suspeito. Aliás, não vou muito com a cara dele. — Dash descansou os cascos no rosto de sua enérgica amiga, olhando seriamente para ela — Por favor, Pinkie! Não conte para nenhum dos dois! Promete?!

    Pinkie observou que o quê Rainbow lhe pedia era de profunda seriedade e confiança. De sua narina rosada, ela suspirou mas logo voltou com um sorriso gentil em seu rosto jambo rosa — Pinkie promete. — com um gesto singelo com o casco, ela cruzou-o o peito com ele, esticou-o para o alto e pousou levemente em seu olho esquerdo.

    — Sinto muito, Rainbow, mas não posso permitir isso. — uma voz dura veio por dentro da mente delas, como se alguém a sussurrasse pelo ouvido mas que ecoou em suas cabeças.

     As duas logo ficaram paralisadas, suspeitando dessa voz misteriosamente familiar ecoar por entre seus ouvidos. Nervosamente, as duas olhavam em volta, na tentativa de achar a real fonte daquela voz ameaçadoramente reconhecível, mas ela retornou em seus pensamentos, num tom mais calmo e mais amigável.

    — Calma, vocês duas. Sou eu, Twilight Sparkle. Falando telepaticamente com vocês. Vocês também podem falar comigo, apenas pensem em suas frases mentalmente e eu as ouvirei.

    — Heim?! Sério?! QUE MUITO LOUCO! Não sabia que podia fazer uma coisa dessas, Twilight! Irado! — respondeu Pinkie Pie, mas sua boca não se mexia; imediatamente ela demonstrava dominar essa habilidade de falar mentalmente, após anos praticando em particulares conversas mentais consigo mesma.

    — Mas heim?! C-como e desde quando você faz isso?! — perguntou Rainbow, meio assustada com essa novidade.

    — É só uma magia que aprendi alguns dias atrás, mas só consigo utilizá-la em uma distância muito limitada, mas o suficiente para usar em qualquer parte desta biblioteca. Claro que é uma magia contínua e, por causa disso, eu tenho que utilizar a mágica do meu chifre constantemente enquanto falamos. Mas só podemos conversar por alguns minutos, pois quero esclarecer algumas coisas com vocês duas antes do Sr. Stubborn termine de falar.

    — Está certo, Twilight. Mas como você está sabendo de nossa conversa? Estamos muito longe de você para conseguir ouvir alguma coisa. Ainda mais com esse contador de histórias falando infinitamente...

    — Verdade, Rainbow. — admitiu a unicórnia num tom humilde — Estou longe de vocês, eu não poderia escutar nada de onde estou com a distância e com o falatório de alguns pôneis no ambiente. Mas eu ouvi toda a conversa das duas por causa de um outro feitiço que instalei nessa biblioteca: Paredes-com-ouvidos. Com meu chifre, eu desenhei um símbolo mágico em possíveis locais de haver algum cochicho ou fofocas na biblioteca. Esses símbolos ficam apagados quando estão desativados, mas, com um brilho do meu chifre, posso ativar qualquer uma das marcas ao meu desejo, para ouvir qualquer coisa e o quanto eu quiser. Acredito que tenha um símbolo escondido perto dessa samambaia atrás de vocês. Ele estará piscando levemente com uma cor púrpura.

    As duas pôneis olharam para a samambaia atrás delas, com suspeita. Rainbow esticou o casco e, num empurrãozinho nas folhas, localizou no meio dos galhos um pequeno círculo, do tamanho de uma moeda, pulsando em ritmos lentos com uma cor roxa. As duas pôneis se entreolharam, surpresas. Ao que tudo indicava, aquela samambaia não era tão inocente quanto aparentava ser.

    — Sei que pode soar meio que invasão de privacidade para vocês, mas lembrem-se de que estão na minha casa. Logo, não poderiam usar como desculpa para os seus cochichos secretos.

    — ... Tá certo, tá certo. — admitiu Dash, meio encabulada. — Mas o quê você deseja falar, Twilight? Ouvi bem o que você me disse a alguns minutos e estou muito curiosa de saber o seu motivo com aquela confiante afirmação.

E você ouviu muito bem o que eu disse, Rainbow. — disse Twilight num tom firme — Não vou permitir que faça isso para um benefício próprio, mas que seja prejudicial.

    — Heim? “Prejudicial”? Como assim?

    — Rainbow, você como Secretária de Segurança em Ponyville... e eu como Diretora-Chefe do evento devo relembrá-la: Você deveria saber que não é permitido quaisquer alterações nos dados pessoais e profissionais dos funcionários e dos responsáveis neste e em qualquer evento. Isso está no protocolo que você escreveu e em qualquer protocolo existente; isso é uma regra geral; padrão: é proibido fazer essas alterações em qualquer lugar. Caso você alterasse suas informações, caso isso seja descoberto e comprovado que você os alterou, poderia perder o cargo presente por alteração de dados; desvio ilegal de informações; formação de quadrilha, pois você está pedindo ajuda de sua amiga Pinkie Pie para auxiliá-la no plano; ela será condenada como sua cúmplice; além de que essa notícia poderia espalhar por todas as regiões equestrianas. Com um vazamento desses, para onde você iria? Sua reputação em qualquer lugar estaria destruída e você poderia até ser presa. Quer mesmo ter esse risco?

    Rainbow ficou com a cara no chão. Ela se sentia encurralada; esqueceu-se deste precioso detalhe, além de muitos outros citados por Twilight. Sua cor azulada quase tomou um tom mais pálido; ela engoliu seco.

    — Isso é verdade, Dashie. — disse Pinkie, sussurrando para sua amiga pégaso — Eu mesmo que não entendi quase nada do que Twilight disse, parece ser uma coisa bem séria.

    — De fato é, Pinkie. — continuou Twilight — Escute, Rainbow. Eu sei que você quer ouvir críticas ao seu respeito; saber o que seus ídolos ou pessoas importantes comentam sobre suas façanhas, mas tens de fazer isso sem prejudicar ninguém e, principalmente, a si mesmo. Não concordo com o seguimento do seu plano para isso e farei o que for preciso para impedí-la. Sinto muito.

    Rainbow ficou cabisbaixa; parecia um plano tão bom. E essa unicórnia metida nem para ajudar, só para atrapalhar mais uma vez. Dash se incomodou um pouco com essa confiança de Twilight sobre impedí-la de todas as formas possíveis. Aquela unicórnio pensava fazer isso pelo seu bem, claro, mas também para interrompê-la em sua carreira profissional. Será que ela queria ajudá-la... ou atrasá-la?

    — Mas seu plano não precisa ser jogado fora. Uma coisa muito mais simples você poderia fazer para ele dar certo, Rainbow.

    A voz de Twilight em sua cabeça a fez acordar subitamente de seus pensamentos, chamando a atenção da pégaso azulada. Há um outro caminho que ela poderia seguir em seu plano?

    — Como é?

    — Sim, há uma outra forma de você seguir com o plano. Ele é mais seguro e, possivelmente, infalível.

    Dash suspeitou, mas resolveu perguntar: — E qual seria? Você... pode me contar?

    — Claro que posso! Seu plano não é mau, só precisava ser mais simples e mais provável de dar certo. — Twilight soltou uma risadinha, mas Dash respondeu com uma bufada pelas narinas — Pois bem: tudo que você precisa fazer para seguir com seu plano, sem ser algo complexo como mudar de nome e fazer todos os habitantes de Ponyville te chamar por esse novo nome, simplesmente você só tem que desviar sua presença nos acontecidos! Calma, deixe-me explicar melhor: Stubborn não sabe que você é a pégaso que fez os Arco-Íris Sônicos naquelas ocasiões; ele sempre esteve ausente nestes momentos. Ele não sabe que Rainbow Dash é a pégaso e nem sabe que Rainbow Dash esteve presente nessas ocasiões. Logo, não há riscos de ele não deixar de comentar essas façanhas perto de você. Sem falar que nem adiantava mudar seu nome pois na carta da Princesa consta que Rainbow Dash é a Secretária de Segurança na cidade. E, por causa disso, ele sabe que você é a Secretária de Segurança, mas não sabe que você é a pégaso dos Arco-Íris Sônicos”.

    Dash analisou bem as palavras da unicórnio e assimilou cada caractere. Ela se sentiu convencida da opinião de Twilight — É, Twilight. Esse seu caminho é bem simples. Devo dizer que me esqueci deste detalhe sobre a carta da Princesa. Que vacilo...

    — Tudo bem, Dash. Só quero que você continue com seu trabalho e que não se distraia com esses assuntos. Não quero dizer que eles não são importantes, mas... o quê é mais importante neste exato momento?

    Rainbow pensou por um tempo, parece que ela entendia o que Twilight queria dizer para ela.

    — O bem-estar dos pôneis durante o evento.

    — Sim. Isso mesmo. Não ponha nada em cima além desta missão. Vou desativar o feitiço agora, Stubborn já está começando a diminuir o seu falatório. Estamos de acordo, Rainbow e Pinkie? Posso confiar em vocês?

    — Pode confiar na gente como um rato que confia no gato em guardar sua toca! — disse Pinkie Pie com o casco na testa, fazendo uma continência.

    Rainbow tentou ignorar o comentário da espalhafatosa pônei rosa; ela respondeu Twilight com um aceno com a cabeça — Está certo, Twilight. E... obrigada.

    Twilight de longe olhava para a Rainbow Dash. Para sua surpresa, Rainbow estava sorrindo, mais uma vez naquela noite. Twilight a olhava com alegria, um sorriso satisfeito ergueu de sua boca; finalmente aquela unicórnio cor-de-lavanda fez aquela pégaso azulada sorrir. Twilight desativou a magia de seu chifre; bem na hora que o Capitão Stubborn terminara de falar suas últimas palavras.

— ... Quem aponta a loucura de outro, acaba sendo o verdadeiro louco por duvidar das capacidades desses e de qualquer indivíduo.

Alguns pôneis não puderam se conter. Apesar de não gostarem da atitude grosseira daquele corcel primeiros minutos que entrou nessa biblioteca, começaram a bater os cascos para o discurso daquele Capitão. Poucos aplaudiam com desgosto; ainda amargurados com as recentes atitudes daquele indivíduo, mas Rarity e Applejack aplaudiram com um certo fervor, pois foram convencidas com aquele discurso dele. Applejack cheirava mentiras a distância e sempre sabe quando algum pônei está dizendo a verdade ou está escondendo-a. Já Rarity suspirava daquele enorme garanhão e seu corpo firme e robusto, acreditando ainda mais em sua história só com o quê estava vendo diante dela. Chega até começou a abanar um pouco seu rosto para aliviar um certo calor que subiu.

    Twilight deu alguns trotes afrente em direção a Stubborn — Bom, por gentileza, posso dar uma olhada nesse pedaço de lenço? — perguntou ela, já preparando um leve brilho em seu chifre.

O grande corcel ficou um breve momento em silêncio. Twilight apenas ficou esperando ele fazer ou falar alguma resposta. Ele encarou a unicórnia cor-de-lavanda e, em seguida, escorreu os olhos de cima em baixo pelo corpo dela de uma forma maquinária, como se estivesse analisando-a e registrando quaisquer gestos em seus olhos ou expressões em sua face, diretamente para dentro de sua memória. Isso a deixou um pouco desconfortável; um pônei grande como ele a encarar de uma forma tão profunda, mas ainda assim ela esperou, comportada.

O grande corcel assentiu levemente com a cabeça e retirou do bolso de seu uniforme um pequeno pedaço quadrado de papel, que estava em branco. Twilight puxou o papel para perto de si com a magia de seu chifre, examinando-o.

— Obviamente está em branco por questão de segurança da Nossa Cuidadosa Princesa. — acrescentou o Capitão. — Possivelmente, seu real conteúdo será revelado no centro dele com a execução do feitiço “Revelador-de- Segredos”. Mas, para não perdermos mais tempo, vou dizer o quê se espera estar escrito nesse lenço: o que contém nele é um símbolo de uma magia de invocação, onde Nossa Respeitosa Princesa inseriu os documentos oficiais meus e de Foreign dentro dele. Para invocar os documentos, precisa usar o feitiço “Mat--

    — ... O feitiço “Materializando Átomos”! — respondeu Twilight com o nome na ponta da língua — É um pouco mais difícil que os feitiços com os quais estou acostumada, mas nada com que eu não possa executar!

    Twilight afastou as patas levemente e fechou os olhos para se concentrar. O primeiro feitiço era fichinha; ela já havia executado ele antes, então podia executar novamente. Com uma rápida execução, o pequeno pedaço de papel reluz num tom branco e o símbolo mágico é revelado em seu centro. Possuía uma forma oval com pequenos círculos ao redor; três riscos cruzavam seu corpo de forma aleatória, sem coordenação ou ângulo específico.

Twilight admirou o majestoso símbolo diante dela. Um discreto suor escorreu pela sua testa chifruda, mas ela não deu atenção a esse mero projeto de distração; estava confiante de que conseguiria fazer uma magia de invocação pela primeira vez em sua vida. Fechou os olhos para concentrar-se novamente na execução do próximo encantamento: o feitiço “Materializando Átomos”. O brilho de seu chifre começou devagar. Conforme o tempo avançava, a luz roxa se intensificava, como uma lamparina à óleo ao regular sua iluminação. Esta aumentou ainda mais; ao redor daquela unicórnio, o assoalho estava com uma coloração roxa e sua sombra já estava visível sobre ele. Minúsculas fagulhas saltavam de seu chifre enquanto o símbolo de invocação sobre o papel reluzia ofuscamente. A unicórnia roxa torceu um pouco os lábios, aumentando sua concentração.

    Do símbolo, um pequeno raio púrpura atravessou o ar a sua frente e emanou um brilho pálido em frente ao rosto de Twilight. Ela não enxergava o brilho por conta de sua concentração contínua, mas podia sentir a luz propagar-se diante de seu rosto; uma sensação morna e delicada.

    Alguns pôneis presentes estavam olhando admirados pela impressionante magia que Twilight estava executando. Alguma coisa estava sendo projetada do nada! E diante delas! A Prefeita e a Applejack olhavam maravilhadas; nunca tinham visto nada igual em suas vidas. Rarity não estava tão surpresa, já que ela também era uma unicórnio; ela sabia como é que funcionava a magia dos unicórnios e como era tão desgastante fazer mágica desse porte como seria para AJ ao cuidar de sua roça, com coices e carregamentos de cargas pesadas. O esforço não era físico, mas mental; precisava-se de muita concentração para executar magias e encantamentos mais complexos como materializar objetos ou viajar no tempo. Pinkie Pie, por outro lado, olhada com extrema admiração; seus olhos azuis brilhavam e seus pêlos rosados se arrepiavam pela incrível visão de uma mágica tão complexa como a de Twilight. Parecia que era a mágica mais estupenda que Twilight havia feito em sua vida. A questão era que Pinkie Pie ficava emocionada simplesmente com qualquer coisa. Uma vez, há algumas semanas atrás, ela estava torcendo de uma forma bem espalhafatosa que as flores dos vasos do Sugarcube Corner crescessem mais rápido que a grama de seu próprio jardim. Ela achava que, assim, fazia as flores se sentirem mais orgulhosas e mais confiantes em si mesmas que, consequentemente, floresciam mais bonitas e coloridas.

O brilho pálido diante de Twilight começou a tomar forma de dois retângulos mas que se perdiam conforme a luz pulsava e ia se enfraquecendo aos poucos. As faíscas mágicas de seu chifre estavam fervilhando e piscavam preocupadamente pois Twilight estava perdendo sua concentração. O suor frio escorria ainda mais em seu rosto roxo e sua expressão tornou-se mais tensa e dolorida. Seus joelhos frontais dobraram levemente com o cansaço e sua cabeça tornara-se estranhamente mais pesada. O feitiço estava sendo complicado demais para ela; sua energia estava se extinguindo e ele precisava de mais magia do que aquele pequenino corpo poderia oferecer. Isso começou preocupar a jovem potra cor-de-lavanda. Ela tinha certeza de que poderia efetuar esse feitiço com maestria, ela tinha bastante confiança. Afinal, foi para isso que ela estudou. Ela tinha a ambição de ser a unicórnio mais habilidosa em magia, queria que seu talento fosse reconhecível por outros pôneis pois seu talento especial é, deveras, magia. Mas, ainda assim, tem dificuldades para executar um complicado feitiço de materialização como esse. Como ela poderia explicar para sua tutora caso falhasse? Sua mestra confiou em sua habilidade quando inseriu esses documentos neste pedaço de pano; ela sabia que Twilight conseguiria executar esse feitiço.

Ela não podia falhar; ela tinha que conseguir.

A unicórnio cor-de-lavanda ergueu um pouco a cabeça, suas sobrancelhas cerraram violentamente e seus dentes rangiam com força. Seu chifre voltou a emitir a luz mágica, só que mais forte do que antes. O brilho pálido diante dela intensificou-se numa coloração roxa, formando novamente as duas figuras geométricas retangulares. As pôneis em volta dela ficaram visivelmente surpresas com a mudança de cor.

Num pequeno flash sonoro, dois pedaços médios de papel planaram da luz pálida e pousaram levemente no chão. As pôneis no recinto aplaudiram em êxtase, maravilhadas pela magia espetacular daquela unicórnio cor-de-lavanda. Twilight olhou ao seu redor com as pálpebras quase caídas para suas companheiras; havia um sorriso cansado e algumas gotas de suor em seu rosto. Mas as luzes das lamparinas estavam estranhamente se apagando; em sua visão, aos poucos, ela estava entrando para a escuridão e sentia o chão mole e distorcido. Suas últimas energias em suas pernas se extinguiram, forçando seu exausto corpo a entrar em colapso com o chão de madeira. As pôneis na mesma hora cessaram seus aplausos, mas suas reações de socorro eram muito lentas e suas distâncias não ajudavam a segurar aquela unicórnio em queda. Ela sentiu seu corpo em ondas, como se tivesse se chocado com alguma coisa mas não sentiu nada; nem dor nem mesmo o toque frio de madeira sólida. A escuridão dominou seus olhos e sua mente. As vozes se calaram e os rostos preocupados se perderam. De todos os sentidos que ainda possuía, podia sentir um delicioso aroma de frutas cítricas.



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