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História Sem Pudor-sprousehart (segunda temporada de sem vergonha) - Capítulo 5


Escrita por:


Notas do Autor


Boa leitura💙

Capítulo 5 - 5- caminhos para retornar a casa.


Monique estava de pé no apartamento, no meio da minha sala, próxima à janela e eu desejei ter beijado Cole na rua.

Ela estava nos assistindo… Pela minha vida, eu tinha certeza de que estava. Tamborilou os dedos nos braços, revirando os olhos para mim como se quisesse gritar: "Acabou seu showzinho, virgem?". 

A lembrança de Spider tinha destruído um pedaço de mim e eu quase esqueci que Cole precisaria ser punido pelo comportamento infantil. Um erro que eu não repetiria.

Eu entrei primeiro e ele me seguiu de perto.

– Está mais calma, Lili? – Riu, debochada. – Parece que ela precisa de um pouco de vinho também, Col.

Cole pegou a garrafa em cima da mesa e encarei sua nuca com ódio. Se você a obedecer e me servir uma taça dessa porcaria, eu estouro a garrafa na sua cabeça. Não duvide!

– Pode dar a minha para ela. – Monique indicou sua taça vazia. – Eu e você dividimos a outra.

Chega. Eu dei um passo para a frente sentindo o rosnado subir minha garganta, mas Cole apenas a ignorou. Ignorou-a tão completamente que foi como se ela sequer existisse.

Não era como se quisesse fazê-la se sentir mal, não era por vingança, infantilidade ou mesquinharia.

Era simplesmente um novo dia e Monique não existia mais. Ele apanhou a garrafa e seguiu para o meu quarto em silêncio. Eu observei suas costas se afastarem ainda sem entender suas intenções.

Vi quando colocou a garrafa em cima da penteadeira. E aí meu olhar se perdeu, ao encarar as entrâncias pélvicas daquele abdome deliciosamente malhado quando ele arrancou a camisa pelo pescoço, sem qualquer cerimônia ou aviso.

Piscou um olho safado para mim e fechou a porta.

Monique estava boquiaberta.

E eu estava salivando.

Juro que queria ignorar Monique de propósito. Ela estava falando algo.

Talvez fosse uma crítica, talvez uma pergunta… e eu queria sorrir para ela, revirar os olhos, dizer "é meu" e mandá-la sumir do meu apartamento. Ou algo igualmente à altura…

Mas Cole tinha tirado a camisa e minha língua estava formigando. Estava na minha cama… segurando aquele vibrador… revirando minhas gavetas em busca de alguma camisinha esquecida… planejando qual era a próxima coisa que eu precisava experimentar… E Monique restou, totalmente esquecida e sem importância diante das minhas perspectivas. 

Eu queria ter debochado dela como ela fazia de mim, mas meus pés estavam me conduzindo rumo ao interior do quarto em algum tipo de piloto automático e se Monique queria me dizer alguma coisa, teve que ir embora querendo. Naquele momento, ela também não existia mais para mim.

A única coisa que existia era Cole. E, quando ele tirava a roupa, raramente outros assuntos tinham importância. 

– Isso foi um pedido de desculpa?  Sentado sobre minha cama, sem camisa.

Ele não tinha terminado de se despir, o que me fez pensar que talvez a camisa tivesse sido retirada apenas para provocar minha amiga.

Parte de mim ficou feliz porque ele resolveu colaborar. Parte de mim ficou infeliz porque ele não estava nu.

– Está querendo que eu tire as roupas sempre que faça algo que te desagrada? – Riu. Mas seu sorriso não foi safado como geralmente o era em situações do tipo. Ele estava contido. Delicado. Como se houvesse muito mais em sua mente do que apenas sexo e me peguei surpreendida. – Porque, se esse for o caso, é melhor eu ficar logo nu o tempo inteiro.

– Isso pode funcionar – brinquei.

Do lado de fora, a porta bateu num estalo alto.

Monique tinha decidido ir embora, salientando bem sua fúria para quem quisesse percebê-la. Ela ia descontar em Elise depois. Ia estressar minha amiga até deixá-la preocupada com minha sanidade mais uma vez.

– Lili… senta aqui. – Seus lábios estavam espremidos e eu soube que estava na hora de conversarmos.

Cole me encarou com cuidado, como se tentasse decidir quais palavras causariam menor impacto. 

– Col, só me conta – pedi. – Não se preocupe em como vai falar. Só fale.

Ele balançou a cabeça e respirou fundo.

– Lembra das histórias que te contei sobre o meu pai?

Um gosto de bile subiu-me à garganta.

– Não acho que é o tipo de coisa que eu conseguiria esquecer.

– Certo… – murmurou. – Ele se envolveu com algumas coisas ilegais. Eu tenho conhecimentos sobre algumas delas e… – Sua risada foi desconfortável. – Acho que essa parte não importa muito. O que é importa é o acordo que fiz com Zahner.

– Informações sobre seu pai para que eu pudesse voltar pra casa. Eu lembro dessa parte. – Revirei os olhos, tentando exagerar e descontrair o momento, mas Sprouse estava rígido como uma estátua.

– Foi uma ideia ao mesmo tempo boa e ruim, porque assim eu podia ajudar a polícia a fazer justiça, mas em troca teria não apenas o Kulik atrás de mim, mas também o meu pai.

– Veio atrás de mim porque percebeu isso? – Levantei uma sobrancelha. – Porque, se foi por isso, demorou um pouco para fazer as contas. – Ri, amigável.

– Antes fosse. – Colocou minha mão entre as suas. – Ele ligou pra mim. 

Cole estava encarando nossas mãos entrelaçadas e eu não consegui compreender.

– Zahner? Ele ligou? Você atendeu?

– Não, Lili… Simak, meu pai… ele ligou.

Seguiu-se uma sensação estranha, daquelas que faz seu corpo inteiro dilatar. Eu sei como é quando os músculos se contraem diante de uma notícia ruim: aquela sensação de adrenalina passando pelo corpo e te preparando para fugir. Quando o instinto se resume a levantar e correr para longe do perigo, mas essa sensação era diferente. Uma sensação de dilatação. De se derreter em qualquer superfície e esperar pelo fim. Uma sensação de desistência.

– Seu pai… onde? Como ele… como? – balbuciei e esperei que Col conseguisse traduzir minhas meias palavras.

– Ligou para mim no meu apartamento. Na Itália.

– Estava na Itália?! – Arregalei os olhos e enfiei um tapa no seu braço. – Sprouse! Não deveria me contar isso! Não pode dizer isso para ninguém! Ah meu Deus! – Enfiei os dedos nos olhos, esfregando-os como se essa atitude pudesse nos fazer voltar no tempo. – Precisamos falar com Zahner! Ele precisa te levar para outro lugar! Você vai ter q…

– Lili – Cole falou muito baixo, muito suave e muito devagar. – Lili, me escuta.

Meu queixo tremia.

– Ele sabe sobre você.

– Sobre mim? – sussurrei.

– Não sei como ele descobriu. Nem sobre você, nem onde eu estava… Tenho uma suspeita, mas não tenho certeza. Ele ligou para mim e falou sobre você. Zahner disse que mantinha uns homens por perto para se certificar de que você estava bem, mas… 

– Zahner fez O QUÊ? – exclamei com minha boca aberta de indignação.

– Lili, ele só estava preocupado e fazendo o trabalho dele. – Subiu e desceu as mãos pelos meus braços tentando me reconfortar com seu carinho.

– Preocupado com o quê? – Espremi os olhos, exasperada. – Achei que não havia mais nenhum risco para mim.

Vi seu pomo de adão se movendo e eu soube que tinha sido enganada.

– Eu não estava a salvo?! COLE! Coloquei Elise em perigo! – Eu já estava de pé. Não lembrava de ter levantado, mas me pusera a andar de um lado para o outro no quarto.

– Eu não sabia! – defendeu-se. – Foi só quando perguntei por você que… Zahner deixou escapar. Foi um dos motivos para eu ter resolvido vir! Eu já achava que você estava em perigo antes, aí meu pai me ligou dizendo que sabe que você existe e eu… eu precisava saber se você estava bem. 

Cole girava ao meu redor, sem nunca me tocar. Como se quisesse desesperadamente que eu me acalmasse, mas temesse que eu fosse explodir se ele me tocasse. Foi uma boa decisão. Cravei os dentes no lábio, sentindo o pânico invadir meu corpo mais uma vez, naquela sensação insana que eu imaginara que nunca mais precisaria experimentar, mas ali estava ela: subindo pela minha espinha e congelando meus músculos.  Mas tinha algo… Tinha algo que não somava. O que era?  

– Eu fui à polícia – murmurei para mim mesma.

– Eu sei. Falou com o inspetor Herbeck, na noite do assassinato. Simak mencionou, acho que Herbeck contou para ele. Zahner fez um acordo com ele, que desapareceu há pouco tempo. Pode ter sido só para começar uma vida nova, ou pode ter sido outra coisa... – levantou suas suspeitas, sombrio.

– Eu liguei pra casa – continuei meu raciocínio, ignorando Cole.

– Ligou pra casa? Quando? Lili, do que está falando?

– Liguei para a casa de Elise! Não para a casa que eles explodiram... – Minha voz escapava quase inaudível. Eu não estava falando para Cole, estava falando para mim mesma.

– Lili, você não está fazendo sentido.

– Eles explodiram a casa achando que era sua? – calculei. – Eles não sabiam da minha existência, devem ter descoberto o endereço por causa do taxista e explodiram minha casa achando que era sua, mas se Herbeck falou com eles, eles saberiam que eu existo e teriam o número de Elise.

– Lili, será que eu posso participar da conversa? – irritou-se. Eu levantei o indicador.

– Eles não sabiam que eu existo, só viram você no estacionamento – listei. – E não teriam como saber sobre mim sem Herbeck.  

– Então Herbeck falou com eles. Foi o que eu disse.

– Shh!

Enfiei a mão em seu rosto, forçando sua boca a se fechar. Eu precisava que ele ficasse em silêncio para que eu conseguisse pensar.

– Eu liguei para a casa de Elise da delegacia, naquela noite. Herbeck sabe da ligação. Eu estava na delegacia, na frente dele quando liguei. Se foi ele quem falou para o seu pai da minha existência, ele deve ter visto a ligação. – Parte de mim já tinha terminado o cálculo e era por isso que eu tremia tanto. – Como nos encontraram em Amsterdã?

– Não faço a menor ideia.  

– Seu pai pode estar trabalhando com Kulik?

– Nada faria mais sentido.

– Eles estão aqui. – Esfreguei minhas têmporas. – Cole! – chamei, em pânico. – Eles estão aqui!

– O quê? Não… eu tomei cuidado! E os homens do Zahner estão lá em baixo. Eu os vi! Tive que despistá-los para entrar no seu prédio, não me viram.

– Homens do Zahner? – Eu parara de respirar não sabia há quanto tempo.

– É. Eles não vão deixar nada ruim acontecer com a gente.

– O que você viu?

– Dois caras suspeitos encarando o seu prédio. – Deu de ombros.

– E como sabe que eram do Zahner? – chiei. Seus olhar de incredulidade se transformou em uma careta de pavor.  – Herbeck é o único que sabe sobre mim! – Segurei seus ombros e o sacudi. – E ele sabe que fiz uma ligação!

– Qual o problema com essa maldita ligação? – reclamou. – Herbeck pode ver para qual número eu disquei e encontrar o endereço no registro de ligações da delegacia! Ele teria acesso a essa informação, Cole! Ele saberia o endereço!

Eu estava gritando, completamente sem rumo. O olhar de Cole se perdeu pálido no horizonte quando ele enfim acompanhou meu raciocínio.

– Para qual número você ligou? – perguntou, mas no seu olhar identifiquei que já sabia a resposta.

– Para cá – gemi, sofrível. – Liguei para a casa de Elise. Se eles têm o número, eles têm o endereço. – Eu sabia que Cole já tinha entendido, mas as palavras estavam na minha boca e eu acabei por dizê-las – Se Herbeck contou uma coisa para o seu pai, ele pode ter contado as duas! O que significa que se ele sabe que eu existo, então sabe onde eu estou. Sabia o tempo todo. Poderia chegar até mim quando quisesse, mas ele não me quer! Ele quer você.

Cole deu um passo para trás e acho que, assim como eu, ele também estava tremendo.

– Seu pai só quis te assustar. Ele sabia onde eu estava, mas não sabia onde você estava. Ou não tinha como chegar até você. E aí fez você vir até ele. Só precisava fazer você vir atrás de mim e te esperar na minha porta. 

Eu achei que Cole poderia chorar quando olhou para mim, como se implorasse meu perdão.

Inspirou como se fosse me prometer algo. Como se quisesse dizer que me amava. Como se estivesse à beira do desespero, mas não houve tempo para nada disso.

Um barulho ensurdecedor invadiu nossa sala. Uma explosão de madeira e vidro e muitas coisas se quebrando. O perigo que nós temíamos tinha batido à minha porta e a tinha encontrado destrancada.

Cole me puxou de um jeito involuntário, me protegendo em seu abraço, mas a carne dele, como a minha, não era à prova de balas.

Nós íamos morrer.

Minha sala deveria estar destruída.

O barulho fora tão alto que eu cheguei a pensar que fosse uma bomba: os russos tinham chegado e iam explodir meu apartamento de novo… Mas não foi uma explosão. Eram só barulhos altos de tudo sendo quebrado e destruído.

– Aqui. – Cole me puxou, veloz, abrindo a janela.

– Cole, eu preciso pegar algum dinheiro.

– Lili!  – rugiu com os dentes travados. – Saia daqui, agora! – Ele me empurrou pela janela do quarto para a escada de emergência.

Caminhei apressada e me equilibrei no apoio de metal que servia de parapeito. A escada não passava exatamente pela minha janela, mas era larga o suficiente para que eu pudesse me pendurar nela sem medo de cair do sexto andar.

Eu já estava praticamente apoiada e pronta para fugir quando Cole hesitou e eu o vi desaparecer para dentro do quarto sendo puxado de volta por um par de mãos pouco amigáveis. Usei o pé de apoio para me impulsionar de volta pela janela.

Não, eu não sei o que eu poderia fazer contra matadores russos. Eu nem sequer sabia se eram, de fato, matadores russos. Eu precisava parar de pensar nas palavras "matadores russos".

Elas faziam com que eu me sentisse ridícula e potencialmente morta. E eu não era uma fã em particular de nenhuma das duas sensações. Senti o carpete do meu quarto sob meus dedos, quando perdi o equilíbrio e caí de joelhos atrás da minha cama. 

O homem agarrava Cole por trás e ele enfiou o cotovelo em suas costelas. Meu corpo reagia sem esperar minha autorização, verificando os arredores e buscando qualquer objeto que pudesse ser usado como arma, e encontrou nada além do longo vibrador em cima do criado-mudo.

Agarrei sua empunhadura sem pensar duas vezes e usei-o como um porrete contra a cabeça do nosso agressor. Cole tinha enfiado uma cotovelada em seu estômago e se abaixou, permitindo que meu golpe encontrasse o alvo em cheio.

Em seguida, ouvi um baque surdo e o homem caiu sobre minha cama, que se moveu com o impacto. Cole se levantou me segurando pelo braço e correndo para a janela mais uma vez. Coloquei o pé para fora e...

– Esperem!

Virei para trás e vi o homem caído sobre minha cama, agarrando o nariz ensanguentado com as mãos. Ele gemeu de dor, se movendo, irritado. Então soltou o nariz e agarrou a caixa de lenços sobre o meu criado-mudo.

– Juro por Deus que um dia ainda paro de ajudar vocês dois.

– Zahner! – Eu me joguei aos seus pés em sinal de um alívio que não poderia ser expressado com palavras e tentei lhe ajudar com o machucado. – Sinto muito, eu não…

– É, eu sei! – rosnou, distanciando-se de mim com um gesto.

– O que houve? – Cole se inclinou para observar além da porta do quarto e segui a linha do seu olhar. Podia ver pedaços de vidros quebrados… Minha mesa de centro. Os pés calçados com largas botas negras e rústicas estavam jogados de modo que o corpo sumia do meu campo de visão. Ele parecia ter caído por cima da minha mesa.

– Você ainda me pergunta o que houve? – Zahner avançou, furioso. – Sprouse! Você perdeu o cacete do seu juízo?

– Meu pai descobriu sobre Lili, Gary, o que você queria que eu fizesse?

– Não sei… – começou, dissimulado. – Contar para o responsável pela sua segurança, talvez?

– Temos que ligar para a polícia. – Encontrei meu celular, mas Zahner o tirou do meu alcance.

– Não, a gente precisa dar o fora daqui.  

– Zahner, eu sei que são corruptos, mas não vão poder ser corruptos abertamente!

Um meio sorriso atravessou seu rosto, embora não houvesse qualquer graça em seu olhar. Cores sombrias tremeluziam em seus olhos.

– O mundo é mesmo belo para vocês dois, não é? – Riu. – Vocês veem o dono da máfia russa e maior chefe do crime organizado da Europa cometer um assassinato, mas não é problema algum. – Ridicularizou, dando de ombros. – Se escondem na casa de um amigo e acham que o problema vai se resolver. Então, querem fugir juntos pelo mundo e, quando percebem que não vai dar certo, me convencem a manter a vida normal para pelo menos um de vocês, apenas para que depois o outro – olhou para Cole com raiva e continuou: – possa me enganar depois e fugir.

– Não foi isso que…

– VOCÊS SÃO TESTEMUNHAS DE UM ASSASSINATO! – berrou. – Quando vão enfiar isso nessas cabeças de merda? – Dei um passo para trás e Cole tentou argumentar, mas a fúria de Zahner mal tinha começado. – Não podem simplesmente fugir por aí. Não podem entrar em contato um com o outro. Não podem esconder coisas de mim. Vocês querem morrer? É isso? Porque, se for, só me avisem! Eu paro de me envolver. – Riu. – Prometo.

– Olha aqui… – Sprouse começou, mas tinha pelo menos um homem caído na minha sala destruída e a verdade é que Zahner estava completamente certo.

– Não queremos morrer – interrompi Col, decidindo por nós dois. – Nos diga o que temos que fazer.

Zahner me encarou por um segundo.

– Eu preferia ter feito um acordo com ela. – Indicou-me com o polegar. – E deixado você pra trás – ralhou. – Ela é muito mais coerente. 

– Está querendo me explicar que a vida é uma merda? Porque eu já sei disso, Gary.

Zahner esfregou a cabeça, sacudindo seus cabelos e desfazendo o topete. Eu estive tão preocupada com nossos próprios problemas que sequer dediquei algum tempo para observar a situação do pobre Gary. Sua camisa estava rasgada na altura da manga e ele parecia ter levado um murro no rosto, além do golpe do meu vibrador no seu nariz.

– Discutimos depois. Agora a gente precisa dar o fora daqui. Eram só dois atrás de vocês, dessa vez. Se fossem mais, acho que nem estaríamos tendo essa conversa. Vamos embora. Agora.

Agora era Gary quem me empurrava para a saída de emergência.

– Desçam. Vão.

– Zahner… – Engoli em seco. Eu ia embora de novo, deixando uma bagunça para Elise mais uma vez. – Os homens na sala… estão…?

– Mortos? Não – falou sem cuidados. – Agora, desçam!

– Por que não esperamos a polícia chegar?

Desci pela escada de metal com os dois logo atrás de mim. Alcançamos a rua fria e vimos o aglomerado de pessoas que seguia na direção oposta, provavelmente atraídos pelas sirenes de polícia que começavam a se aproximar.

– Vocês estão processando o pai de Cole e mais um monte de gente, não é? – perguntei rapidamente, enquanto andávamos apressados. – Não pode ser tão fácil assim para um agente corrupto agir agora.

– Mas meu pai sabe onde estamos, Lili.

– Eu sei! Fui eu que percebi isso, lembra? – Senti vontade de lhe dar um peteleco na testa. – Mas a gente já tentou fugir uma vez e isso não nos levou a lugar algum.

– Levou, sim! Eu só voltei porque sou idiota.

– Não foi idiota, só estava preocupado.

– Chega! – Zahner rosnou. Ele nos observava como se não acreditasse que éramos reais. – Herbeck desapareceu. Eu fiz um acordo com ele antes: ele ficaria quietinho e eu não o denunciaria por corrupção, colocando-o na cadeia. Mas eu precisava manter escondida a identidade de Lili por causa do acordo com o Cole – murmurou com uma velocidade tão grande que eu mal conseguia compreender suas palavras. – Então, eu não podia dizer para ninguém COMO eu sabia que Herbeck era corrupto, sem explicar o envolvimento de Lili. Herbeck deve ter percebido que eu estava só blefando e fez um acordo melhor com Simak.

– Foi por isso que mandou alguém ficar de olho nela – Cole compreendeu.

– Estava preocupado com Herbeck. Queria garantir. – Zahner se desviou do caminho e nos puxou para um canto mais afastado da praça, no qual ninguém podia nos ouvir. – A notícia que recebi hoje de manhã piorou tudo – resmungou, impaciente, nos conduzindo por um beco para o outro lado da rua.

– Herbeck reapareceu em Paris, cheio de promoções e contatos, o que tornou minha vida mais difícil.

– Mas como ele conseguiu ser promovido? Com Simak ou Kulik? Eles não estão sendo investigados? Ainda conseguem pedir favores?

– Não há provas, garotinha! – reclamou. – Será que vocês não entendem isso? Ainda não há provas definitivas contra Simak e não há provas definitivas contra Kulik. Nenhuma, fora vocês dois. Os dois idiotas apaixonados – rugiu com uma careta. – A investigação prejudica Simak politicamente, mas, por enquanto, não vai além disso. Herbeck contou para Simak que tinha mais alguém envolvido. – Apontou para mim. – Agora, Simak está se defendendo das acusações e da investigação com uma nova teoria, que envolve o testemunho de Lili.

– Meu testemunho? – Ri. – Como eu poderia afirmar algo para inocentá-lo?

– Ele já conseguiu provar que você existe e que tem um relacionamento próximo com Cole: testemunho de Herbeck, ligação da delegacia e eles encontraram filmagens da estação em Bruxelas em que vocês dois aparecem. Simak está dizendo que você pode refutar todas as informações contra ele porque era confidente de Cole e sabe que Cole está mentindo para se vingar do pai.

– Mas isso é mentira!

– É, as pessoas mentem. – Revirou os olhos, furioso. – Horrível, não é? O problema é que eu te ajudei a desaparecer dessa história – recitou cada palavra como se as amaldiçoasse. – E esse processo não foi feito exatamente dentro do protocolo.

– E o que tem? – Eu estava confusa, mas Cole estava apertando meu braço e eu percebi que, dessa vez, era ele quem já tinha entendido.

– Simak está se defendendo ao alegar que Zahner escolheu provas contra ele para incriminá-lo em vez de analisar todas as provas. Ou seja, a tese do meu pai se baseia em afirmar que Zahner se limitou a me usar como testemunha e a se livrar da Lili. Estão te investigando?

– Fui suspenso. E pra piorar, justo quando você deveria ser trazido para um novo depoimento… 

– ... eu fui embora… – completei.

– Você teve que adiar o depoimento e eles acham que você está tentando enganá-los.

– Precisamente.

– Calma! – Eu precisava fazer uma lista porque estava começando a me perder, mas os dois me puxaram por uma área movimentada da rua e eu preferi permanecer em silêncio.

Respirei fundo.

Liste...

Herbeck contou para Simak a meu respeito;

Simak disse que Cole está mentindo por pura raiva dele e que Lili Reinhart é a confidente que pode provar isso;

Aproveitou-se da situação para acusar Zahner de parcialidade;

Cole foi convocado para um novo depoimento, mas Zahner não pôde levá-lo de volta porque ele tinha fugido para me procurar;

As informações nas mãos da Interpol indicam que Zahner escondeu uma testemunha e depois sumiu com a outra;

Simak está agindo como se fosse o injustiçado da história;

e Zahner acabou se tornando o vilão.

Para variar, estamos todos fodidos.

– Perdi meu emprego e minha reputação para que vocês dois pudesses trocar uns beijinhos – murmurou. – Estão satisfeitos? 

– Mas que absurdo! – Eu ri. – Se o problema todo é esse, então me levem até o juiz! Meu depoimento obviamente não vai inocentar Simak. 

Cole e Zahner se entreolharam e eu sabia que não receberia boas notícias.

– Lili… eles não querem que você testemunhe. Eles só precisam que você exista para que possam te usar como argumento de defesa. Faz sentido: você me conhece, procurou a polícia e, logo depois, quando Zahner começou a investigação contra meu pai, você desapareceu. A sua existência é um ponto ótimo para o caso deles. Mas se você testemunhar…  

– Vão me matar – compreendi.

– Vão tentar. – Col segurou minhas mãos, mas não precisava.

Minha vida era uma montanha russa e eu já tinha dado tantas voltas que ficar de cabeça para baixo mais uma vez não ia me fazer vomitar.

– Mas por que não me mataram logo? Eles sabiam onde eu estava! – Olhei de um para o outro à procura de uma justificativa.

– Não tinham acesso a Sprouse – explicou.

– Queriam reunir nós três? – Cole voltou-se para Zahner.

– Matar vocês dois e colocar a culpa em mim, provavelmente. Obrigado por colaborar com eles, por sinal.  

– Mas não nos mataram! Por que não vamos à polícia agora e...

– Garota, desista da polícia! Eles não vão ajudar! Vão nos foder! Assim que você aparecer na frente deles, metem uma bala na sua cabeça, jogam a mim e Cole.na cadeia e alegam ter sido legítima defesa porque um de nós parecia estar armado. O sistema está contra a gente agora. Consegue entender?

– Ei! Não fale assim com ela!

– Isso, moleque, brigue comigo, a única pessoa no mundo que ainda quer salvar sua vida.

– Parem, vocês dois! – Tapei os olhos com as mãos e ouvi os dois se calarem.

Senti que ia chorar e Cole me enfiou em seus braços. A voz de Zahner estava mais amena quando ele continuou.

– Só o que nós precisamos agora é de um esconderijo seguro. Um lugar onde a gente possa se sentar, colocar as ideias em ordem e organizar o que fazer a seguir. Não estou mais na polícia, mas ainda tenho alguns amigos. Gente que vai me ouvir, mas não podemos circular por aí como loucos. Precisamos de um plano.

– Você conhece algum lugar seguro? – Cole quis saber.

– Meus contatos com a polícia. O problema é que…

– São contatos da polícia?

Não ouvi a resposta de Zahner, já que ainda estava com o rosto afundado no peito de Cole, mas imagino que ele tenha confirmado.

– Bem… – Col apertou meus braços e eu me permiti um ligeiro afastamento para respirar melhor.

Ele estava olhando para mim. Aqueles imensos olhos claros que conseguiam me acalmar mesmo no meio de um furacão.

O mesmo sorriso que me ofereceu quando nos conhecemos… diante da cesta de sacanagens de Elise e de toda a minha vergonha.

O mesmo sorriso de todos aqueles dias que passamos juntos. Cada problema. Cada solução. Estávamos enfiados em um inferno de novo, mas pelo menos dessa vez íamos ficar juntos. Eu sorri de volta e ele reuniu coragem para continuar: 

– se o que a gente precisa é de um abrigo seguro e de pessoas confiáveis para ajudar... – Ele piscou um olho descarado para mim, deixando claras suas intenções. – Então acho que conheço um lugar.

                      §§§§§§§§§§

   Zahner usou meu celular uma única vez antes de retirar o chip e jogar tudo no lixo. Eu apenas confiei que suas atitudes fariam sentido e me limitei a sentar no banco traseiro de seu carro ao lado de Cole e esperar que o ex-inspetor assumisse a direção.

Ele acelerou pelas ruas, deixando Paris para trás.

Escorreguei as pontas dos dedos pela janela fria.

Estava indo embora de novo.

E perdendo mais um emprego. 

Era melhor mesmo que Zahner me colocasse no programa de proteção à testemunha dessa vez…

Eu ia precisar de uma nova identidade porque Lili Reinhart nunca mais conseguiria emprego em lugar nenhum de Paris.

Eu estava preocupada com Elise. Minha melhor amiga no mundo e eu ia fazê-la passar por aquilo de novo. Sem me despedir… A diferença é que dessa vez não importava mais: meu rosto ia aparecer na televisão e todo mundo ia saber o que tinha acontecido.

Pelo menos, a mentira ia acabar.

A viagem foi longa.

Foi cansativa.

E em mais de um aspecto foi, principalmente, surreal.

Era surreal estar a caminho de Amsterdã de novo e era especialmente surreal querer ir para Amsterdã. Há um ano, eu nunca cogitaria fazer uma viagem como aquela com tanta resignação e até um pouco de alegria. 

Eu confiava no pessoal do Lucky’s e seria ótimo rever todo mundo. Tínhamos Zahner conosco dessa vez como nosso próprio guia pessoal em assuntos da criminalidade.

E, além disso, era um guia armado.

Já tínhamos passado por aquilo antes e sobrevivido.

Eu já tinha perdido meu emprego, eu já tinha arriscado minha vida.

Já tinha visto alguém morrer.

Eu estava preparada dessa vez.

Mais preparada do que jamais imaginei estar.

E além de tudo… eu tinha Cole.

E ele me tinha.

Qualquer que fosse o problema, era sempre mais fácil encarar quando ele estava ali: pronto para sorrir, me constranger e me deixar excitada.

Relaxei dentro do seu abraço e vi Amsterdã chegar.  

                   §§§§§§§§§

  Eu me lembro de ter dado dois abraços muito fortes na minha vida. Apenas dois. 

O abraço que tinha dado em Cole há pouquíssimo tempo não entrava na lista apenas porque contra Sprouse não havia concorrência.

Ele era único para mim, então tudo o mais que o envolvia era igualmente único.

Em minha lista não constava Cole ou qualquer contato físico com ele.

Minha lista somava apenas dois abraços que me fizeram sentir como se o universo inteiro tivesse derrubado um véu sobre mim.

O primeiro abraço fora o do meu avô, logo depois que os meus pais morreram.

Eu estava na casa de Elise naquela noite. Eles tinham saído e me deixado com a família dela. Eu lembro que a casa estava cheia quando acordei.

Lembro que a mãe de Elise me segurou pelos ombros e lembro do seu olhar antes de me enfiar em um abraço maternal.

Ela não sabia o que me dizer… É o tipo de coisa que você não aprende na escola, faculdade ou pós-graduação: como contar a uma criança que os pais dela morreram. 

Meu avô chegou o mais rápido que pôde. A única pessoa viva da minha família, além de mim. Ele era a única família que eu ainda tinha.

Quando paro para me lembrar, acho que ele me abraçou muito mais do que eu o abracei. Acho que era porque eu ainda era jovem e faz parte das expectativas sociais assumir que os mais velhos vão morrer antes.

Meu avô deveria sentir o oposto… Sua expectativa deveria ser que fosse morrer antes dos mais jovens.

Sob essa perspectiva, acho que eu era muito mais a última integrante da família para ele do que ele para mim.

É por isso que acho que foi ele quem me abraçou e que eu fui a abraçada.

Seja como for, foi um momento singular que permanecia em primeiro lugar para mim.

O segundo abraço fora o de Elise, logo quando voltei para Paris, depois da minha experiência insana no Lucky’s.

Eu tinha perdido tanta coisa… Tinha perdido minha inocência, minha virgindade, minha vergonha e, acima de tudo, tinha perdido meu Cole.

Abraçar Elise trouxe a sensação de recuperar algo que eu pensava ter perdido, mas que ainda estava lá. A sensação incomparável de ainda possuir algo no mundo. Aquele abraço simbolizou que nada poderia me separar dela. Acho que eu estava errada… Seja como for, dessa vez fui definitivamente eu quem abracei e ela quem foi abraçada. Ou sufocada. Eu nunca imaginei que algum outro abraço no mundo pudesse concorrer com esses dois.

Nunca imaginei que outro abraço sequer seria considerado para entrar na minha lista minúscula e especial.

Porém, assim que vi Luckas parado à porta principal da boate que levava seu nome, o letreiro em neon com luzes falhando, seus óculos modestos, sua postura longa e arrebitada como sua casa de Amsterdã, seus olhos quentes e seu sorriso amigo… Corri em sua direção, lancei meus braços ao redor de seu pescoço e o abracei com força, bem apertado.

Eu me lembrava de suas palavras para mim e Cole. A ajuda que ofereceu a bom amigo e a uma completa estranha.

Eu me lembrava de suas poucas palavras no funeral de Spider e de como senti um arrepio pelo corpo inteiro quando ele abriu uma garrafa de cerveja no meio do cemitério e bebeu um gole direto do gargalo oferecendo um brinde silencioso.

Acho que teria jogado uma boa quantidade do líquido sobre o caixão como uma homenagem à nossa peculiar amiga, se a irmã de Spider não tivesse feito algo semelhante primeiro.  

Nila era o nome dela. Três anos mais nova, tinha acabado de se lançar à profissão da irmã. Estava linda e sorridente, mesmo no funeral.

Lembro que cheguei a imaginar se havia alguma indisposição entre elas para que Nila apresentasse um sorriso tão verdadeiro naquela situação.

Pelo menos até me aproximar e ver que se formavam lágrimas em seus olhos, apesar do sorriso.

Um sorriso transcendental e uma atitude de "eu sei que minha irmã me espancaria com chicotadas na bunda se me pegasse fazendo qualquer coisa que não fosse cultuar a vida, principalmente em seu enterro". 

Serviu duas doses de tequila e sorveu um gole antes de oferecer outro ao chão.

Vi seus lábios se moverem em um diálogo querido e apressado com a lápide de sua irmã, mas não me atrevi a me aproximar. Não era um momento meu, mas de Nila. Era um de seus abraços. Mesmo que não houvesse braços envolvidos.

Lucky apertou minha bochecha como se fosse um tio que eu não via há anos.

– Não conseguiu ficar longe de nós? – brincou. Cole o cumprimentou e agradeceu.

Ele apenas pediu-lhe que deixasse de formalidades e nos ofereceu a chave do quarto no primeiro andar.

– Vão se ajustar bem lá.

– A boate está funcionando? – Zahner observou, por cima de nós. Sempre atento e observador.

Eu sentia um nervosismo quando ele apoiava as mãos na cintura daquele jeito… como se ele estivesse sempre pronto para levar uma mão à arma.

O curioso era que Gareth Zahner era um dos homens mais charmosos que eu já conhecera. Não se comparava ao meu Col, claro, mas ele era alto, tinha um porte que chamava a atenção, olhos profundos e aquele topete de cabelos finos e arrepiados que não era exatamente de propósito, mas também não era completamente acidental.

Exibia um sorriso agradável e sedutor e seria um homem que suscita admiração e suspiros não fosse sua obstinada intensidade. 

O homem exalava estresse. Ele falava qualquer coisa e eu esperava que os arredores explodissem, balas voassem ou sequestros acontecessem.

Quando levava a mão à cintura, eu esperava que ele fosse sacar a arma e atirar em alguém.

Não importava em quem… Seria apenas para aliviar o insistente estresse que carregava consigo.

Eu me senti ridícula por pensar assim… mas talvez ele precisasse de sexo.

Seria legal poder afirmar que a ideia de Zahner e sua suposta necessidade de sexo tinha me encantado e me feito pensar em seu corpo nu se, por mais nada, pelo menos para me dar a ideia de que Zahner era apenas um ser humano com quem eu poderia fantasiar.

Mas nem isso… Detive-me naquele pensamento e até considerei imaginar seu corpo nu e… absolutamente nada.

E não era apenas porque eu estava irremediavelmente apaixonada por Sprouse, mas porque havia algo em Zahner que não pedia pena. Não pedia carinho. Não pedia desejo. Havia algo nele que solicitava apenas que estivesse atento, que não fizesse nenhuma besteira e, acima de tudo, que não morresse. Não havia alívio ao seu redor. Só tensão.

– Está funcionando. – Lucky abriu um sorriso triste e eu imaginei que ele ainda resistia bravamente, e que os meses não tinham mudado o fato de que ele precisaria vender tudo para alguém como o Allender. Pelo seu sorriso murcho, imaginei que não demoraria a fazê-lo.

– Precisamos colocar os dois lá dentro sem chamar atenção – Zahner decidiu.

– E você? Não vai entrar?

– Não. Vou me livrar do carro primeiro.

Col tinha a mão na minha cintura e estava seguindo Lucky para entrarmos na boate quando Gary puxou-o com força pelo braço.

– Posso confiar que vocês dois vão ficar aí dentro, escondidos, em silêncio e sem fazer nenhuma idiotice até eu voltar?

Seu olhar era duro e eu quis revirar os olhos. A gente sabe que você é o policial que está tentando resolver tudo e provavelmente é quem tem mais conhecimento para nos tirar dessa, Zahner, mas não precisa agir como um arrogante imbecil o tempo inteiro. 

– Pode. – Ryker ofereceu-lhe um imenso sorriso de "eu queria que você fosse ali tomar no seu cu e me deixasse em paz" que reproduziu com precisão os meus sentimentos.

Zahner ainda hesitou e nos encarou por mais alguns segundos antes de soltar Sprouse e nos deixar seguir.

Eu sentia seu olhar cravado em nossas costas e tive certeza de que ele só foi embora depois que nos viu entrar em segurança na boate. 

                     §§§§§§§§§

   Eu poderia dizer que o quarto no primeiro andar era exatamente como eu me lembrava, mas não era.

Era completamente diferente.

O bom e velho ditado já dizia que nunca se pode voltar para casa.

Não de verdade. Ou sua casa mudou, ou quem mudou foi você.

De um jeito ou de outro, nunca há um retorno. Era assim que eu me sentia.

Talvez o quarto estivesse idêntico. Talvez nada tivesse sido movido nem um milímetro, mas eu tinha mudado, e muito. E todo o processo de metamorfose começou ali: entre aqueles lençóis.  

Cole estava se despindo e eu nem me incomodei em recriminá-lo. Se ele quisesse transar agora, seria muito bem-vindo. Na verdade, acho que mesmo que ele não quisesse, eu iria sugerir.

Passei os nós dos dedos pelo topo de sua bunda onde a barra da cueca acabava, dando passagem à curva na parte baixa de suas costas.

Ele se virou com reflexos sobre humanos, puxando-me pelo braço.

– Safada – recriminou, apertando-me entre seus braços. 

Eu ri e ele me beijou. Reagiu tão rápido que eu imagino que já estaria planejando algo semelhante antes mesmo de meus dedos terem alcançado seu traseiro.

– Eu me lembro da primeira vez que te vi nua nesse quarto – suspirou.

– Quando arrancou minhas roupas e me fez gozar com a boca pela primeira vez – completei, gulosa.

– Não! – exclamou, ofendido. – Não se lembra?

Estreitei os olhos, vasculhando minha memória e…

– Eu estava tomando banho! – Lembrei, desferindo um tapa em seu ombro. – E você veio me assistir porque um pervertido – exagerei e me afastei. 

Ele me agarrou pela cintura, me virou de costas e alinhou sua virilha à minha bunda, roçando nossos desejos com sua fome característica.

– Ia ficar decepcionado se você tivesse esquecido – murmurou, mordendo minha orelha, fazendo sua rouquidão me excitar.

– De como você é pervertido? – provoquei. – Jamais!

Ele riu e se afastou tão subitamente que, por um segundo, imaginei que a brincadeira poderia tê-lo ofendido. Cole estava vestindo a camisa de volta e subindo o zíper.

– O que houve? – perguntei, preocupada.

– Vamos fazer isso. – A sacanagem em seu sorriso deixava evidente que estava tudo bem. Ele tinha planos… mas estava tudo bem.

– O que você quer? – Levantei uma sobrancelha.

– Quero que você vá tomar banho. – Lambeu minha boca. – Quero assistir com calma desta vez.

Travei os dentes nos meus lábios e despi o casaco que Zahner me oferecera no caminho. Eu e Cole fugimos sem muitos pertences. Larguei o casaco sobre a cama e o encarei enquanto decidia.

– E então? – pediu com urgência.

– Afaste-se – resolvi provocar. – Não me toque a não ser que eu peça, ok?

Cole arregalou os olhos e abriu a boca, indignado.

– Não! Que brincadeira horrível! Claro que não. Peça outra coisa.

Eu estava rindo. Andei até o banheiro e ele me seguiu como um fiel animal de estimação.

Livrei-me de tudo, menos da roupa íntima. Ainda estava em frente à porta do banheiro.

Tentei voltar ao quarto para repousar o resto das minhas roupas sobre a cadeira ou a cama, mas Cole estava quase em cima de mim.

Não me tocava, mas também não permitia que eu me movimentasse, de modo que eu só pude me esgueirar ao seu redor para lançar as peças de roupa sobre seu ombro ou pelo canto entre sua cintura e a porta.

Eu ria enquanto ele mantinha as mãos enfiadas nos bolsos.

Pelo volume em sua calça, eu tinha ciência de que ele estava duro e que as mãos que enfiara nos bolsos estavam cerradas em punhos.

Ele gostou da brincadeira.

Não vai me tocar a não ser que eu permita.

Estava me sentindo ótima e orgulhosa do meu conforto com meu corpo seminu.

E então… girei devagar na porta do quarto e seus dentes se enfiaram no lábio inferior com tanta força que percebi os sulcos se formarem.

Ele estava com raiva? Ah, porcaria… Eu tinha tirado a roupa rápido demais, não era?

Coloquei os braços longos e lentos sobre o meu corpo… Não ia servir para me tapar, mas pelo menos iria conter meu constrangimento momentâneo.

– Acho que não sou boa nessa coisa de striptease. – Senti meus dentes baterem uns contra os outros quando travei minha mandíbula. – Tirei tudo rápido demais, não foi? Acho que não sei fazer sem Lucy e Spider…

Tentei rir e ajeitei o cabelo atrás da orelha, tirando os fios soltos do meu campo de visão.

Queria observá-lo melhor, no entanto, ele não tinha soltado os dentes do lábio e eu não tinha certeza se isso era bom ou ruim.

Comecei a tremer de um jeito horrivelmente familiar, de quando a tensão de véspera de prova me atingia. 

– Coloco de volta? A minha roupa? – Ele ficou mudo. – Coloco, não é? Você disse que queria me ver tomar banho, aí eu tirei de vez! Porém, se fosse pra me ver tirar devagar, deveria… Por que não me disse? Tem que me avisar! – reclamei, sentindo um ardor horrível subir pelas bochechas à medida que eu ficava mais e mais consciente do excesso de roupas dele e da ausência das minhas. – Coloco de volta? Ou só tiro o resto e entro no chuveiro? – ele não me respondia.  Eu atropelava minhas perguntas umas sobre as outras e ele se recusava a me conceder uma resposta, de modo que meu pânico aumentou e aumentou.  – Acho melhor eu me vestir. Você me dá licença? Eu coloco de volta, aí tiro de novo e depois…

Senti a parede do banheiro quando minha nuca e minhas costas se chocaram contra ela. Cole estava ao meu redor, me espremendo contra os azulejos frios.

Não estava me beijando, mas nossa distância não passava de uma fração de centímetro. Estava tão perto que eu sentia seu hálito aquecendo os lábios quando ele respirava em mim.

– Estou tentando obedecer. – Inspirou com dificuldade. – Estou tentando não te tocar, já que você pediu. Estou agindo de acordo com essa sua brincadeirinha desagradável, mas está sendo bem difícil. – suspirou quente.

– Ah! – respirei aliviada. – Então eu estava fazendo tudo certo?

Cole encarou o teto com uma risada breve e logo estava no meu pescoço… Rápido demais. Raspando os dentes na linha do meu queixo como se não me morder demandasse toda a sua força de vontade.

– Isso foi um sim? – Eu quis saber. 

A animação estava começando a me esquentar, afastando o gélido receio temporário. 

– Deixa eu te explicar como é – suspirou, fazendo nossos narizes se tocarem. – A gente conversou sobre você tirar a roupa e eu fiquei duro. Você tirou a roupa e meu pau cresceu no jeans a ponto de doer. Aí você...

– Não tem problema se foi rápido? – interrompi, preocupada.

– Reinhart! Estou tentando ser sensual! – reclamou, alto. – Você deixa? – exagerou na indignação e eu estava rindo. Gesticulei um floreio para que ele, por favor, continuasse. – Onde é que eu estava?

– Ahm… – Estreitei os olhos. – Falar sobre tirar a roupa e ficar duro. Tirar a roupa e ficar mais duro – revisei.

– Isso – proferiu cada sílaba com uma calma infinita. – Obrigado.

– Disponha.

– Não vá vestir a roupa de volta – decidiu com simplicidade. – Vá tirar o resto e entre no chuveiro.

– Tem certeza? Porque eu posso tirar a roupa mais devagar.

– Lili… eu já te vi tirar a roupa devagar vezes o suficiente. Juro. Acho que prefiro quando você fica nua rápido mesmo. É mais seguro.

– Ok! Eu tiro? Você tira? Tanto faz? – Ergui os ombros.

Cole se empurrou para trás e se sentou sobre a tampa do vaso.  

– Você tira. 

Indicou o chuveiro com um gesto e se recostou contra a parede. Coloquei os braços para trás para abrir o fecho do sutiã.

Acontece que eu não tiro o sutiã assim… Acho horrível encontrar o fecho sem estar olhando para ele, então eu geralmente dispo as alças, giro o sutiã e desataco com o fecho na parte da frente, atividade essa que não exige nada da minha coordenação motora.

Entretanto, abrir um fecho sem vê-lo, com os braços estirados para trás das costas e um Cole me assistindo com o olhar praticamente na altura da minha virilha, era muito diferente. A ação rapidamente se mostrou impossível e Cole estava rindo daquele jeito delicioso quando se levantou.

– Não ria! – Estalei um tapa no seu peito.

– Aqui. – Me abraçou. – Deixa eu te ajudar.

– Me deixa virar de costas – sugeri, tentando escapar dos braços que me esmagavam para que eu pudesse virar o fecho do sutiã para ele. 

Sua pele subiu pelas minhas costas, seus dedos arranhando minha coluna. Para ele, bastou apenas uma mão para abrir meu sutiã.

– Nossa! – Mantive a boca exageradamente aberta para indicar minha admiração. – Acho que não deve ter sido sua primeira vez, não é? – Torci o nariz, brincalhona Mas Sprouse deteve meu sutiã nas mãos e os olhos nos meus seios daquele modo predador que ele assumia quando a nudez era demais para que resistisse.

Umedecia os lábios com a língua enquanto dedicava longos segundos de observação, divididos entre os seios, um após o outro. Eu me inclinei para tirar a calcinha e foi somente quando seu olhar se inclinou, acompanhando os movimentos da minha nudez, que eu percebi o nível de sua hipnose.

Engoli em seco e me dirigi ao chuveiro.

Ele ficou de pé dessa vez, os braços cruzados com o ombro apoiado contra a parede.

Os cabelos bagunçados e aquele sorriso lindo.

Seus olhos não encontravam os meus, o que significava que ele estava se divertindo ao inspecionar cada centímetro da minha pele.

Liguei o chuveiro e deixei a água encharcar meus cabelos.

                    §§§§§§§§§§

  A água escorria pelo corpo dela, formando um fluxo contínuo entre os seios e escorrendo até o meio de suas pernas.

Eu estava salivando.

Achava a vergonha de Lili excitante.

Até ela tirar a roupa com tanta animação girando pelo banheiro, foi então que percebi que gostava dela sem vergonha, também.

Aí ela se atrapalhou com o fecho do sutiã e eu estava latejando com tanta força que achei que ia romper as calças, porque aparentemente eu gosto até de Lili desajeitada.

Ela sorriu, ligou o chuveiro eu quis beijá-la.

Quis fodê-la.

Quis me declarar e fazer amor.

Qualquer coisa.

O que ela quisesse e do jeito que ela quisesse.

Foi então que percebi que eu gostava de Lili de qualquer jeito.

E o mais curioso é que ela não precisava nem estar nua. Desde que ela estivesse por perto, eu gostava dela de qualquer jeito. Se ela estivesse nua era melhor, obviamente, mas se estivesse vestida, eu não iria reclamar.

Ela apertou os cabelos para que o excesso de água escorresse. Sorriu, sapeca, afastando as gotas de água do rosto.

Eu não conseguia desviar o olhar.

Não conseguia pensar em nada que não fosse ela.

Tirei a blusa sem dedicar muita atenção às minhas ações e chutei os sapatos para o lado.

– Achei que só ia se aproximar quando eu pedisse. – Riu e eu quis apertá-la todinha.

– Eu não prometi nada. – Empurrei as calças para baixo e peguei seu olhar curioso em busca da minha ereção. – Quer ver mais de perto? 

– Sempre! – Deu um passo para trás de modo a abrir espaço embaixo do chuveiro.

Ela era tão linda que me dava vontade de gritar.

E quando ela ria desse jeito, sem vergonha, sussurrando algo safado para mim, eu ficava tonto.

Meu quadril se aproximou primeiro e eu estava raspando nossas mais deliciosas partes uma na outra. Um passo adiante e Lili estava apoiada nos meus ombros.

Beijou minha boca e se pressionou contra o meu tórax, encaixando o rosto na curva do meu pescoço.

Eu a abracei e deixei a água cair sobre nós.

Aquilo era bom.

Aquele abraço quente, aquele banho gostoso, aqueles braços ao meu redor. Aquilo era tão bom.

Apertei o abraço e fechei os olhos.

Minha ereção perfurava a carne da sua cintura, mas ela não reclamou. Minha Lili envergonhada que tinha se acostumado com paus duros.

Estava sorrindo.

Desfrutava do meu momento e da minha menina.

Estiquei o braço e peguei o sabonete no apoio lateral.

Ensaboei suas costas primeiro enquanto ela permanecia abraçada comigo.

A curva de sua bunda, o alto de suas coxas… O sabonete escorregava suave e eu aproveitava para passar minha mão logo em seguida. Eu poderia usar o pretexto de que queria apenas lavá-la melhor, mas… quem eu estaria enganando?

Ajoelhei-me e ensaboei o resto de suas pernas.

Ela riu baixinho e se moveu para me ajudar. Beijei o joelho antes de cobri-lo de sabão.

Lavei seus pés com cuidado antes de me levantar.

Ela mantinha aquele sorriso comedido que me dava vontade de mordê-la. Escolher uma porção de carne, de preferência a dos seios, e abocanhá-la com força.

Todavia, em vez disso, continuei minhas carícias com bolhas de sabão, dedicando um cuidado especial a cada um dos mamilos. São partes delicadas do corpo feminino… e precisam, portanto, de uma atenção especial.

Beijei seu pescoço e, com as mãos em concha, lavei-a por inteiro.

Movendo seus braços para colocá-la debaixo do jato, lavando cada parte do seu corpo.

Quando me dei por satisfeito, depositei de volta o sabonete no recipiente e alcancei o pote que ficava ao seu lado.

Lili enrugou a testa e eu compreendi sua dúvida.  

– Shampoo? – Quis saber. 

Eu ri antes de deixar a resposta escorrer com uma luxúria incontrolável.

– Sabonete íntimo.

Sua expressão se contraiu em uma preocupação intensa e a senti hesitar em meus braços.

– Shh… – Pedi e a fiz se virar, mantendo sua bunda contra minha virilha, esfregando minha ereção contra aquela curva perfeita…

Apliquei uma boa quantidade do líquido em minha mão antes de derrubar o pote ruidosamente no chão molhado.

Deslizei a mão por sua barriga e notei quando ela prendeu a respiração. Minha mão explorou cada canto da sua vagina.

Ensaboando-a com dedos lentos, girando ao redor do clitóris, percebendo os pequenos movimentos de contração em suas pernas, que começavam a ansiar por mais.

Prendi o lóbulo de sua orelha entre meus dentes e enfiei a cabeça do meu cacete entre as bandas de sua bunda.

– Col… – gemeu.

– Não vou fazer nada, amor – acalmei-a. – Não vou fazer nada. Só é gostosinho deixar aqui… nem que seja um pouquinho.

Lili inspirou profundamente e arrebitou a bunda o suficiente para que meu pau se escondesse um pouco mais entre suas bochechas e eu estava de olhos fechados de novo.

Com sua boceta inteira em uma de minhas mãos, levantei a outra para agarrar seu seio.

Ela estava gemendo mais alto e eu não estava mais conseguindo controlar meus dentes.

– Vocês voltaram!

O grito alto fez meu coração disparar em desespero, tomando a frente de Lili.

O pânico fez meu corpo inteiro se contrair e eu ia precisar de minutos – ou horas – para superar a sensação de que meu peito ia explodir.

– Lucy? – reclamei.

Lili emitiu alguma exclamação alta e se enfiou atrás de mim.

Na nossa frente, a porta estava abarrotada de curiosos.

Liderados por Lucy, quase todos os nossos amigos da boate tinham aparecido para nos prestigiar.

E malditos fossem.

Todos eles.

                       §§§§§§§§§

  – Não é possível. – Cole abriu a boca, enquanto eu me tapava, envergonhada. – Realmente inacreditável. – Ele não parecia ultrajado ou envergonhado. Só estava verdadeiramente incrédulo. – A gente não vai conseguir transar nunca mais?

– Shhh! – exclamei, em pânico.

– Você tem alguma maldição. Não é possível. 

– Será que você pode se vestir? – implorei, angustiada.

– Algo como: "Um dia se aproximará de você um homem chamado Cole." – anunciou com uma frustração que seria cômica se eu não estivesse tão desesperada. – "E deste dia em diante, Cole nunca mais conhecerá os prazeres do sexo". 

– Bem específica essa sua maldição, hein? – reclamei.

– E irritante! – Arregalou os olhos. Eu me enrolei em uma toalha e Lucy logo me abraçou.

– Vocês voltaram! – repetiu.

Atrás dela estavam Skye, Tonya, Joanie, Devon, Roy e Tim, seguidos de perto por um Lucky que ergueu as mãos para mim como se pedisse desculpas e explicasse que era impossível impedir aquele grupo de fazer seja lá o que fosse.

Abracei Lucy de volta e ela começou a empurrar todos para trás, assim que me soltou.

– Vocês esqueceram que ela tem vergonha? – ralhou alto. – Deixem que ela volte para o quarto para se vestir. Trouxe roupas dessa vez, bebê? – Apertou meu braço. – Ou vai precisar de algumas emprestadas de novo?

Ah… tinha isso também…

– Eu… ahm…

– Tudo bem! Eu te empresto!

– O que aconteceu? – Devon quis saber. – Vocês conseguiram se livrar do russo?

– Que russo? – Roy perguntou.

– O russo que eles viram matar um cara Roy, presta atenção. – Joanie revirou os olhos.

– Como vocês sabem disso? – Cole avançou pelo quarto.

– O policial me contou. – Devon deu de ombros. – Quando eu fui ajudar Lili.

– E você resolveu divulgar? – exclamou, irritado.

– Você já tentou manter algum segredo nessa boate? – Arregalou os olhos.

– Pode se vestir? – pedi para Cole, baixinho.

– Coloca a vida da gente em risco quando faz algo assim, Höfler!

– Ah, vá pro inferno, Sprouse! Fiz o que pude para ajudar sua namorada! E você me retribuiu comendo minha mulher!

– Não te retribuí! – berrou. – Isso aconteceu antes, seu animal!

– Pior ainda! Porque eu te ajudei, apesar disso.

– Meninos, chega! – Lucy pediu.

– E eu não comi sua mulher! – Cole revidou. – Se você não era suficiente e ela precisou contratar um garoto de programa, a culpa não foi minha.

– Cala essa boca! – Devon avançou e eu tive certeza que eles iam brigar.

– O QUE É ISSO?

Era uma voz imponente. O tipo de voz que se obedece, não com a qual se discute. Zahner estava parado na porta do quarto com sangue nos olhos.  

– Qual parte… QUAL PARTE do "fiquem em silêncio e escondidos" vocês dois têm problemas para entender? – Levou as mãos à cabeça. – É impossível. – Ele deu dois passos e se sentou na borda da cama. – Impossível. Vocês vão morrer. Eu não consigo proteger vocês.

– Gary, tira a cueca da bunda – Cole rosnou, furioso. – São nossos amigos. São pessoas de confiança.

– Tenho certeza de que são. – O inspetor torceu o nariz. – Estou aqui há dois segundos e já vi pelo menos um cara que não te quer muito bem. E foi ele quem você indicou para servir de álibi pra Lili. Perdeu o juízo? – Ele se levantou.

Por um segundo, achei que ele fosse entrar em combustão espontânea. 

No entanto, respirou fundo e nos ofereceu uma risada de desespero. 

– Não importa! – decidiu, mais para si mesmo do que para o resto da plateia. – Não importa! O que importa é o que nós vamos fazer agora.

– Vocês precisam de provas para prender o russo? – Joanie quis saber. – Ou só precisam fugir?

Zahner abriu os olhos e boca com uma indignação que não poderia ser descrita em palavras, mas depois apenas se calou, resignado.

Sentou-se de volta e, com o cotovelo apoiado no joelho, escondeu a boca atrás da mão e ali permaneceu.

– Conta a história desde o começo pra gente! – Lucy pediu. – A gente pode ajudar!

– Não quero colocar vocês em risco. – Acenei, preocupada.

– Lili. – Lucy segurou minhas mãos. – A gente adora você e o Cole e, não me leve a mal, ajudaríamos vocês só por isso. Somos uma família. Eles não estão apenas ameaçando nossa família. Eles... já machucaram nossa família. – Engoliu em seco com os olhos firmes nos meus e eu soube.

Spider.

O pessoal da Lucky’s podia ter um jeito insano de lidar com problemas, mas sua união nunca foi um aspecto a ser questionado.

Spider morrera.

O culpado poderia ser punido.

Eles não iriam a lugar algum.  

– Acho que eles não podem contar! – Luckas tentou defender.

– Mas nem pra gente? – Tim pareceu ofendido.

– Não, não podem! – Zahner interferiu.

Esfregava os dedos nos olhos como se aquilo fosse capaz de fazê-lo acordar de toda aquela insanidade.

– Nem eu sei ainda o que pode ser feito para solucionar o problema. Estamos em uma merda bem grande e agora Sprouse e Reinhart precisam ficar bem quietos e me deixar resolver.

Lucy ensaiou um "uhh" que certamente irritaria Gary mais ainda, mas sua revolta foi interrompida pela pergunta de Cole: 

– Por quê? 

Todos se calaram para observá-lo.  

– "Por que" o quê? – Zahner devolveu.

– Por que temos que deixar você resolver? – Está me chamando de incompetente, garoto? Porque eu me lembro de ter salvado sua vida pelo menos umas duas vezes.

– Pare! – reclamou. 

Era bizarro o fato de que ele ainda estava nu e eu precisei…

– Ryk, por que não veste algo?

– Fazia sentido te deixar resolver antes, Gary! 

Ele me ignorou. Eu podia perceber que tinha algo em mente.

O traçar de um pensamento o estava guiando, então resolvi deixá-lo em paz.

– Fazia sentido quando você era da Interpol, quando tinha contatos, quando tinha um plano! Mas agora você é apenas um de nós.

Ele fez silêncio por um segundo, como se esperasse que Zahner refutasse suas afirmações, mas, em vez disso, ele apenas engoliu em seco.

Cole respirou fundo e um silêncio tomou conta do quarto.

– Certo… – Col balançou a cabeça. – Então acho que agora é a hora de pedir ajuda. 

– A quem? – Zahner levantou os olhos para Sprouse. – Não pode confiar em qualquer um! 

– O que você acha? – Ele me encarou.

Um olhar calmo e profundo de quem tem tudo sob controle. De alguém que sabe exatamente o que fazer.

– O que você achar melhor. – Acenei. – Eu concordo. Preciso de um celular – murmurou. 

Zahner estava reclamando sobre alguma coisa quando Tonya ofereceu seu aparelho a Col.

Ele apertou números demais e aguardou em silêncio. Do outro lado, alguém deve ter atendido porque ele disse com uma voz alta e firme.

– Olá. Preciso falar com Sven Delvak, por favor. 



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