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História Sem transparência Sem amor - Capítulo 4


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Notas do Autor


...Oi, faz tempo não é?

eu sei podem querer minha cabeça, faz mais de um ano sem atualizar, mas tenho duas novidades

uma é esse cap maior que os normais

e a segunda é que eu tenho uma agenda e rotiero e assim vou postar um cap a cada 15 dia pra cá

bem, espero que gostem desse capitulo
que vocês estejam felizes

Capítulo 4 - Em dia de chuva


Com um suspiro, desvio a minha atenção da aula para olhar as janelas da sala e o som que a água fazia ao bater sobre elas, observando com atenção agora a chuva que caía sobre a cidade. A classe continuava a conversar e escrever, claro, mas havia uma certa lentidão nesses processos, como se a água os fizesse mais letárgicos, mas a professora parecia a única a não estar nesse ritmo, parecendo até animada para passar a matéria na lousa, o que não parece o certo, mas era o que aparentava.

—Parece que vou ter de cancelar meus planos hoje.

Continuando com minha saga de sustos por coisas normais, me virei rapidamente para Iris, e talvez com meus olhos um pouco arregalados pelo susto, levando só outro segundo para processar o que as palavras realmente significavam.

—Você tinha planos de sair hoje? — Pelo menos eu não tinha gaguejado dessa vez depois de um susto, mas nada se pode fazer com o tom elevado e fraco que minha voz estava.

—É, mas com essa chuvinha de dia inteiro, seria um inferno continuar com eles, e não teria certeza se realmente outros envolvidos nesses planos iriam ao menos aparecer. — Disse ela, logo se recostando com outro suspiro em sua cadeira enquanto parecia um pouco desanimada. — Pelo menos tenho mais tempo para terminar a pintura que estou fazendo.

—Hum, é sobre o quê, essa pintura? — Ok, agora isso virou uma conversinha, mais dez pra mim, mas logo depois desse pensamento, veio uma certa culpa, afinal, eu deveria estar estudando o estado político da Alemanha, não conversando com uma colega sobre pinturas.

—Um dragão. — Foi a simples resposta que ela deu, logo se desencostando da cadeira e voltando a copiar o que havia na lousa. Será que não queria falar sobre isso? Talvez, ou ela só não quisesse continuar conversando com a aluna nova que se esconde nos intervalos.

Bem, não tão nova, já que tem algumas semanas que estou aqui. Semanas não tão legais, com o que parece ser uma greve de respostas pela parte dos professores, se dedicando a não olhar para mim ou ver minha mão levantada sobre questões da matéria. Bem, todos menos o professor Faraize, que parece nem saber dessa “greve”, o que é um alívio, mas ainda me traz problemas, por não mais entender as matérias que estava estudando tão bem, e como os conteúdos continuavam chegando, eles não nos davam o luxo de ter várias aulas sobre eles.

Com outro suspiro, o sentimento de deslocamento voltou a se apoderar de mim, mas logo uma ideia me trouxe um fio de esperança de volta. Me virei novamente para Iris, agora um tanto decidida sobre executar essa ideia. — Iris, você pode ficar depois da aula?

—Ixi, não posso não, eu vou com o transporte escolar e eles têm horário marcado pra esse tipo de coisa, por quê? — Agora ela me olhava curiosa, e notei que seus olhos não eram exatamente azuis, mas algo entre azul e verde, o que me surpreende um pouco já que não é tão normal encontrar pessoas com essa coloração de olhos, apenas personagens de ficção.

—A-ah, não… não é por nada! — E o embaraço se apossou de minha face e ações, logo tendo alguma cor além da normal da minha pele pálida sobre as maçãs do rosto, e também evitando olhar diretamente para os olhos da garota. Me voltei então a meu próprio caderno para continuar a copiar a matéria que era passada. É claro, como poderia esquecer que pessoas tem suas próprias vidas para cuidar além do que me envolve, não deveria ter sugerido isso em primeiro lugar! Agora estou aqui, embaraçada demais até mesmo para olhar minha colega.

—…Ok. — Por fim, ela também voltou a seu caderno para continuar a copiar, e mesmo que não fosse, acho que qualquer telepata iria ouvir o suspiro mental que dei, tanto aliviada de tudo no final dar certo quanto de um pouco de embaraço.

Mas a ideia continuava comigo, tentaria encontrar com quem pudesse estudar depois da aula e tiraria minhas dúvidas sobre as matérias! Já consigo sentir um pequeno sorriso em meus lábios, é simplesmente brilhante meu plano, só teria que achar quem pudesse aceitar… Problemático, mas ainda existe esperança, afinal, Iris não é a única pessoa que conheço.

Quando chegou o intervalo, também lembrei de avisar Elivith sobre ficar no colégio depois das aulas, e dessa vez, resolvi não ficar na sala e comer meu lanche, mas ir para o refeitório, tentar encontrar mais conhecidos e perguntar se poderiam permanecer depois das aulas. Ao chegar no local, tentei achar uma mesa menos movimentada entre as várias que ficavam ali, e por sorte, encontrei uma vazia perto de onde era a entrada para o que parecia a cozinha onde esquentavam os lanches que eram servidos ao lado na cafeteria.

Desembrulhei meu simples sanduíche de frango e abri a garrafinha que usava para trazer suco natural, me aprontando para já atacar a refeição. Meu coração fez piruetas quando outra pessoa se sentou quase ao meu lado na mesa, mas consegui me acalmar com o amigável sorriso de Kentin.

—Você poderia me dizer quando estiver planejando me assustar, assim consigo ao menos não morrer do coração.

—Hehe, desculpa se lhe assustei, Amanda, mas é tão raro ver você comendo fora da sala, algum motivo por vir ao refeitório?

—Não muitos, só achei que deveria, dessa vez, mas e você? Também não é tão comum lhe ver por aqui.

Antes de responder, ele virou o rosto para longe de meu olhar e também notei ele brincando um pouco com os dedos, estranho.

—B-Bem, se você está por aqui, achei que seria legal me juntar a você, já que estava aqui — seu rosto se voltou para meu campo de visão, agora portando um sorriso alegre, verdadeiro, que fez novamente meu rosto ser pintado de um tom mais avermelhado, mas mesmo com o embaraço, retribuí o sorriso dele.

—Ah, Kentin, você pode ficar depois das aulas hoje? — Até eu conseguia sentir meus olhos brilharem de esperança, mas algo não estava certo com a surpresa com que ele reagiu à pergunta, parando imediatamente de comer os biscoitos que tinha trazido e se virado para me encarar.

—P-P-P-Por que?!?!

—E-Eu pre-precisava de alguém para me ajudar a estudar. — Reagi do mesmo jeito, gaguejando e me assustando um pouco, mas ainda tinha esperança de que ele poderia aceitar, então valia a pena continuar.

—Ah… Desculpe, não poderia, meus pais poderiam pirar se eu não chegasse em casa na hora. — Ah, por isso o nervosismo dele, até não conseguia olhar para meu lado, se focando no outro canto da mesa enquanto coçava algum ponto por trás de seus cabelos agora um pouco bagunçados do seu comum penteado de tigela.

—Mas você não poderia avisar antes? — Inclinei um pouco, tentando olhar nos olhos dele, não entendendo muito só com essa resposta.

—Eles, quer dizer, meu pai, não deixaria, já que eles não conhecem você e pra eles eu sou muito timido pra fazer amizade alguma. — Finalmente ele se voltou pra mim novamente, agora portanto um sorriso um pouco melancólico, como se pedisse desculpas.

—Wakaru… Quer dizer! Eu entendo, meus pais também tiveram uma época assim, mas logo perceberam que eu teria de me cuidar e conhecer pessoas além deles, mas tenho certeza que eles ainda têm a mesma preocupação com isso. — acabei por sorrir pelas lembranças que isso me trouxe, e mesmo que eu estivesse extremamente irritada com eles no momento, agora, mais velha, consigo entender a preocupação de não me deixar sair tão facilmente, principalmente depois daquele dia… e logo o sorriso desapareceu sendo substituído por calafrios pela minha espinha, me virei na hora para o sanduíche tentando afastar as lembranças daquele momento infernal, dando uma boa mordida nele.

—Bem, espero que meus pais entendam isso logo, afinal, nós estamos a só um ano de acabar o colegial! —Também seguindo minha deixa, ele volta a comer seus biscoitos, parecendo um pouco irritado e energético com a discussão, o que novamente me fez sorrir.

E mais um susto para a coleção, eu deveria começar a tentar trabalhar isso na próxima sessão, mas logo me virei na direção onde a mão culpada em meu ombro estava, dando de cara com um sorridente presidente, o que fez uma faísca de raiva passar por mim

—Nathaniel! Não me assuste, por favor!

—Desculpe-me, mas se pode dizer que estamos quites agora com relação à casa de chocolates. — Mais uma faísca de raiva passou pelo meu corpo, mais tentei lhe lançar um sorriso torto para expressar meu descontentamento, não me surpreenderia se ele confundisse isso com um derrame.

—Sore- Então! O que traz o presidente aqui? — O que está acontecendo hoje, ein? Já é a segunda vez que passei pro nihongo, até em pensamento meu deus! Tenho que focar em português, mas mesmo com essa discussão interna minha, continuei com meu sorriso, agora menos agressivamente.

—Parece que tem ainda alguns assuntos sobre sua transferência mal resolvidos, você poderia permanecer depois das aulas para conversarmos melhor sobre isso? — ... eu realmente achei alguém que pode permanecer depois das aulas assim? Aaaah, ima nakitai.

—E-Eh, Nath, eu… eu estava procurando permanecer mesmo depois das aulas, para poder estudar um pouco mais sobre as matérias, e eu queria lhe perguntar se poderia me ajudar nisso, claro, se você tiver algum tempo disponível e quiser. — Mesmo que fosse o melhor que poderia falar nessa hora, sinto que não foi realmente um bom pedido, talvez por minha cabeça estar muito focada em nihongo, mas tenho certeza que passei minha mensagem claramente. Depois de inspirar profundamente, eu levantei meu olhar para encarar o loiro, com esperanças que conseguisse meu objetivo.

—Claro que sim, não se lembra? Qualquer problema, relacionado ao colégio pelo menos, você pode me chamar. — Incrivelmente, ao invés de parecer incomodado ou algo do tipo, ele parecia confuso e feliz de alguma forma, o que me aliviou imensamente, o que fez um grande suspiro escapar também.

—Arigato gozaimasu — Deixei escapar novamente em nihongo, mas antes que pudesse me envergonhar e traduzir, Nathaniel respondeu.

—Significa muito obrigado, não é?

—Oboete imasu? Quer dizer, você lembra?

—É mais difícil esquecer, afinal, japonês é uma língua muito diferente do nosso português. — Terminou a frase com um sorriso, e com outra batidinha com a mão que esqueci que ainda estava em meu ombro, ele seguiu seu caminho, provavelmente de volta ao conselho ou de volta a comer.

Aposto uns 50 reais que estou parecendo alguém psicótico com o sorriso que estou carregando, até Kentin parece me olhar estranho, mas não posso evitar minha animação em finalmente poder saciar minhas dúvidas e entender essas malditas matérias!

Bem, isso até uns outros fios dourados se aproximarem de onde eu e Kentin estávamos. Se bem que o que notei primeiro foram os olhares se desviando para onde permanecemos e não o trio em si, o que me fez virar confusa para as mesas que agora nos olhavam. Kentin, por outro lado, pareceu saber exatamente o que estava acontecendo, e por debaixo da mesa, pegou fortemente em minha mão como se tentasse avisar algo, mas logo aliviou o aperto para não acabar machucando algo, ou foi só o que pensei.

Mas foi isso que me fez olhar o trio que se aproximava da gente. A que se destacava mais entre as três era com certeza a loira cheia, com cabelos bem grandes, não conseguia ver direito até onde iam, mas era certeza que já passavam das costas, e era certo que acompanhando as grandes bijuterias também douradas havia maquiagem em seu rosto, já que cílios não são tão aparentes quanto naturais e há linhas prosseguindo depois do fim de seu olho, mas é só isso que poderia reconhecer, sendo claro que existia muito mais em seu rosto do que simplesmente isso. Mesmo com essa aparência chamativa, não consegui me distrair do sorriso predador que portava, esse também se espelhando nas outras duas garotas que acompanhavam. Uma era também loira, mas seus fios eram muito mais escuros que o da líder do bando, e a terceira que acompanhava o grupo possuía cabelos bem escuros e traços que, ao contrário das duas primeiras, representavam uma ao menos descendência asiática, chinesa ou algum lugar próximo, mas era claro que não diria isso.

Mas de qualquer maneira, as três pareciam se focar em nós dois mais do que os olhares das outras mesas, talvez acostumadas com isso? Realmente, a mais importante pergunta seria por que elas estavam vindo para cá, e só pensando diretamente nisso, meu corpo reage, logo pude ouvir meu pulso aumentando próximo ao meus ouvidos, mas tentei não parecer afetada pelo que agora era uma pequena multidão observando-nos.

Quando elas finalmente alcançam a mesa, o que pareceu uma eternidade para meu coração acelerado, eu ao menos tentei ser cordial ao sorrir para as garotas, já Kentin só parecia tenso e pronto para fugir dali a qualquer momento, o que é válido com a ferocidade que a líder portava, mas ainda estamos tentando ser civilizados e não chegar na conclusão mais animalesca aqui, certo?

—Olha o que temos aqui… — É, eu não deveria ser a única a perceber o brilho malévolo que passou nos olhos dessa garota, que também pareciam ser de um tom esverdeado, raro, pelo que a internet e fatos conhecidos apontavam, mas isso não iria impedir um grande arrepio de passar pela minha espinha, e muito menos a intriga que se formava em meu estômago com o reconhecimento nos mesmos olhos predatórios.

Hã… Acredito que não nos conhecemos? — Pelo menos eu não gaguejei ou minha voz falhou, mas podia sentir a tensão que já poderia ser apalpada aumentando cada vez mais, principalmente com o sorriso de certeza de segundos sentidos que a loira abrira depois de minha pergunta.

—Claro que não, por que eu iria conhecer pessoalmente o fracassado e a novata idiota o suficiente para se meter com meu Castiel? Mas acredito que você nem deve saber que transformou o resto dos seus anos aqui em um inferno. — Agora ela só está sendo má, mas não é como se fosse uma completa surpresa depois de ir para a sala da diretora depois no primeiro dia. Parando para pensar, esse Castiel até que é bastante popular mesmo com a atitude… difícil de lidar? — Seu…?

—Claro, Ambre e Castiel só estão a alguns passos de se tornarem o casal mais popular desse colégio…

—E só alguém cego não veria isso — Disseram as duas acompanhantes da loira, que pelo visto se chama Ambre, a de traços mais orientais se sobrepondo à segunda loira. Mesmo que meio que interrompendo uma à outra, pareciam que tinham uma conexão forte, até maior do que o trio em si, mas quem sou eu pra falar algo sobre coisas nas entrelinhas, sendo que eu só estava aqui hoje por não conseguir fazer isso.

—...Ambre, não é? Então, já que está em um relacionamento quase oficial e também parece ter muitas amizades por ser tão popular, ao que devemos a sua ilustre presença? — Tento ir por em um tom neutro ao invés do costumeiro educado, afinal, tudo que indica até agora é que essas três… na verdade noto que tinha mais algumas pessoas em pé atrás do trio, e pelo que parece ao arredores também, e isso nunca é um bom sinal, parece que elas não seriam boas companhias para desprender minhas energias com, então procuro deixar nossa interação o mais breve possível. 

—Por isso. — Ela então procede em se virar para Kentin e ao avançar um passo em direção a ele, estender uma mão com unhas extremamente grandes e brilhantes para meu padrão de mantê-las perto do toco, e das raras vezes em que decido pintar um nude em cima de marquinhas brancas, o que é estranho já que parece que ela está esperando que Ken lhe desse algo.

Foi o que ocorreu, ele retirou de algum lugar de seu sweater algumas notas, que logo foram afanadas pela loira enquanto olhava com uma cara chocada, com ênfase nos olhos esbugalhados, e com uma contagem logo uma face de deboche subiu ao rosto de Ambre.

—Só isso? Isso mal vale pra um suco na cantina, até sentiria pena se não fosse fracassado de carteirinha. — E como se fosse a coisa mais normal do mundo, ela também tomou os biscoitos do garoto e os atirou no lixo mais próximo, o que fez meu sangue ferver além de tamborilar perto de meus ouvidos, mas além disso, poderia notar meu amigo de cabeça baixa, e tinha certeza que em seus olhos tinha algo cintilando sem ser reflexo de seus óculos.

—Oh, me desculpe, isso machuca a criancinha? Quer a mamadeira? ou que seus pais virem? — Parecia que Ambre também havia notado isso, e pontuou duramente a reação com sarcasmo, enquanto brandia um sorriso maldoso e um olhar afiado contra o acastanhado, enquanto a dupla que a acompanhava ria como se o que ela disse fosse uma piada, talvez realmente acreditassem que era uma.

—O que estão fazendo!? — Disse, em um quase grito, com certeza minha voz um pouco falha, e só notei que tinha me levantado com o olhar confuso que me foi direcionado por Ambre. Mas não voltaria a sentar, como ela poderia agir assim mesmo quando percebeu o quanto suas ações machucaram alguém? Até que me lembrei que existiam essas pessoas, que gostavam de ver outras sofrerem, o que fez minha raiva passar de algo alto e ardente para ácido e que deixava um gosto estranho na boca.

—O que há com você? Nós só estamos conversando, sua sem noção. 

—Pelo que eu saiba uma conversa é a troca de informação entre duas partes e vocês com certeza não estão fazendo isso. — Minha voz saiu de uma forma estranha, severa, afiada, parecia muito mais com a de Elevith do que minha própria, mas não poderia ligar menos no dado momento. Meu coração e cabeça pareciam ferver junto com os sentimentos que pareciam viajar por minhas veias para todos os pontos do meu corpo, e ainda por cima eram várias ao mesmo tempo fazendo esse trajeto, o que só causava mais confusão em mim mesma, mas não me impedia cerrar os dentes e lançar olhares afiados para Ambre.

—Ora, só porque você acha que não é, não significa nada, afinal, quem é mesmo você para falar alguma coisa contra mim? — Dando grande ênfase em “acha” e “você” em sua frase, Ambre terminou com o que eu só poderia descrever com um sorriso esnobe, o que não ajudou muito na minha situação emocional atual, que parecia tanto mais agitada como mais “fria” de um estranho modo que só resultava em um embrulho em meu estômago.

—Por que está fazendo isso? — Ignorando a pergunta de Ambre, tento focar num meio de parar toda essa situação para poder ficar em paz e ela parar de maltratar Kentin. Falando nele, ele me lançou um olhar estranho, um pouco surpreso mas não conseguia ver outra coisa a não ser isso, o que parecia ter. 

Ambre parecia ter esperado receber essa pergunta, abrindo ainda mais o sorriso que já tinha e avançando em minha direção rapidamente, mesmo que eu tentasse recuar alguns poucos passos que consegui fazer minhas pernas bambas darem. — Porque eu quero, Esquita.

E como se estivesse querendo provar ainda mais seu ponto, ela colocou uma de suas mãos sobre mim, e angariando uma força que parecia não ter, me empurrou para o chão, novamente pontuando com um sorriso desdenhoso suas ações. Isso só me deixa mais confusa, mesmo que conhecesse esse conceito de tamanho orgulho e superioridade, mas não significa que entenderia tão facilmente isso tudo, e ainda mais com o turbilhão, que parece só ter aumentado e se agitado ainda mais com minha queda. Assim, também não pude perceber o soluço que subiu pela minha traqueia, sendo um pouco engasgada por ele e os próximos dois que se sucederam.

—Você realmente está tão sentida por um só um empurrãozinho? Meu deus, que criança.

E em meio às risadas estridentes que o trio trocava pelo que achavam que era uma piada engraçada, Kentin se ergueu pela primeira vez nesse evento todo e veio até mim, me ajudando a levantar de onde estava, mesmo que continuasse a manter seu olhar baixo para evitar qualquer olhar.

—Des-... Desculpe.

Isso quebrou meu coração um pouco, afinal, não era culpa nenhuma de Kentin, mas sim daquela… vaca! Soa tão infantil só de pensar desse modo, mas eu não quero recorrer a palavras de pior significado, já que elas aparentam se tornar algo muito comum no vocabulário quando faziam seu caminho para a mente das pessoas. Não preciso perder ainda mais dos poucos pontos que consegui desde a grande perda de meu primeiro dia. Logo, ao parar de ter toda essa discussão mental e voltar ao presente, Ambre e suas companheiras voltaram a se aproximar de nós, com o objetivo de novamente tirar sarro de qualquer “defeito” que poderiam apontar e ridicularizar aos seus olhos.

—Isso é realmente tão patético. — Com um alongamento desnecessário do “tão”, qualquer traço que poderia significar alguma emoção humana como angústia ou pena ou até mesmo esnobismo sumiram de seu rosto, só sobrando um sorriso que eu suponho que deveria ser algo como um sentimento neutro, mas só conseguia perceber o quão sem vida era. — Não é surpresa serem amigos, o menininho chorão tentando pagar de homem e um projeto de garota, juntando os dois, dá quase uma pessoa normal.

Com isso, os sentimentos que se reviraram dentro de mim transbordaram, mas há muito mais raiva do que antes, e por mais que seja só uma expressão, eu realmente vi vermelho, enquanto parecia avançar passos muito mais firmes do que me sentia em direção ao trio.

—Retire o que disse!

—O que foi? Se ofendeu? Pare com isso, até parece que isso realmente ofendeu, e também, só estamos brincando, se você não consegue levar uma brincad-... 

—E é sério que você se sente tão feliz em ridicularizar alguém? Ou você quer que outra pessoa sinta como você se sente? — Eu nunca ouvira tanto ácido e corte em minha própria voz enquanto interrompia a loira em meio a sua fala, parecia até quando Elivith tinha minha idade atual, ou até… logo quando a vaga lembrança dele, a raiva que já sentia lentamente esfriar e se fixar novamente explodiu por mim, agora acompanhada com um ódio que viajava junto a meu sangue, enquanto minha pulsação aumentava drasticamente, o que só me fez cerrar os dentes, mal prestando atenção na resposta a resposta que tinha certeza que tinha o mesmo cunho orgulhoso do que as anteriores.

—Eu não me importo com a desculpa que dê, só fique longe de nós se não eu vou conversar com a coordenação sobre seu comportamento. — E tentando fazer minha ameaça parecer mais séria, olhei diretamente para ela, vendo as orbes turquesas vacilarem por um momento com o meu olhar, o que teria me preocupado mais naquele momento se novamente a raiva não estivesse tão florida em mim, mas lá estava eu fumegando de raiva com essas meninas por mexer com o meu amigo.

Finalmente ouvindo o bom senso que restava em mim, eu me virei e comecei a andar bem rapidamente para longe dali, mesmo que ouvisse vozes indistintas, só conseguindo me abraçar a ponto de deixar marcas das minhas próprias mãos para aliviar as emoções negativas que faziam seu caminho por mim, e novamente me vi de volta à sala, o frio da parede contra minhas costas me prendendo à realidade por mais que minha mente se esforçasse em ir para outros lugares enquanto ainda em pânico. Senti a náusea que é parceira de meus ataques, mas cerrei novamente a mandíbula e dentes uma vez. Só depois de a náusea passar um pouco me atrevi a destravar minha boca, inspirando e expirando, tentando fazer o ar passar pelo nó de minha garganta, mas acima de tudo, estava tentando me acalmar, acalmar o mar revolto que transbordava em mim, logo, estava no chão com a desistência de minhas pernas para me sustentar, fracas demais por todas essas emoções estarem tão vivas e ativas.

Um, Dois, Três, Quatro, Cinco, Seis. Seis minutos foram o que levou para o nó se afrouxar a ponto de eu poder respirar mais calmamente. Sete, Oito, Kyū, Jū, Jū ichi. Onze minutos até meu coração voltar a batidas aceleradas, mas normais. Doze, Treze, Catorze, Jū go, Jū roku, Jū nana, Jū hachi, Jū kyuu, Nijū, Vinte um, Vinte dois, Vinte três… Antes que pudesse contar todas as carteiras (29 carteiras contando com a do professor), entrou mais alguém na sala, o que não fez muito bem para meus nervos em frangalhos, mas decidi não simplesmente ignorar quem entrou e tentar conversar até que voltasse ao normal.

…Isso era, antes de levantar minha cabeça e ver o vermelho sangue reconhecido até entre multidões, afinal, Castiel tinha uma atitude que marcava a impressão.

 


Notas Finais


^^


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