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História Semear - Capítulo único.


Escrita por: thegoblinking

Notas do Autor


Depois de muito tempo pensando a respeito, decidi reescrever esta história e publicá-la em outro capítulo; havia apenas editado o capítulo original por querer preservar os comentários que recebi. Estou feliz com o resultado, diversos meses se passaram desde que escrevi a primeira "edição" e aprimorei muito a minha escrita nesse ínterim – e certamente tive mais cautela ao escrever pela segunda vez. Queria contextualizar os possíveis novos leitores e agradecer aos antigos, caso cheguem a ler. Obrigado por tudo que me proporcionaram no site durante essa época, criei uma parceria legal com várias pessoas que guardo na memória, embora não tenha mais nenhum tipo de contato com a maioria.

Boa leitura.

Capítulo 1 - Capítulo único.


Fanfic / Fanfiction Semear - Capítulo único.

A vida na floresta para o travesso Saci-Pererê era fácil. Gostava de se pendurar nas copas das árvores para assustar os visitantes que se aproximavam, assim como adorava furtar as guloseimas que traziam em suas cestas de piqueniques. Era divertido não receber ordens de ninguém, poder brincar, rodopiar feito redemoinho com sua carapuça vermelha e sair atazanando a vida alheia sem ter hora para dormir. Mas apesar de todo entretenimento, sentia-se sozinho quando Narizinho, Pedrinho e Emília não apareciam para fazer-lhe companhia. Ou ainda, quando Visconde de Sabugosa não tinha tempo para ensiná-lo alguma coisa. E mesmo tendo suas pendências com Dona Benta e Tia Anastácia pelo tempo que servira como capanga à Cuca e as enchia a paciência, sentia falta dos quitutes que a tia preparava e das histórias que a senhora lia.

Por isso, ao encontrar Curupira, o guardião do verde e dos animais com sua cabeleira vermelha como fogo, foi tomado por expectativas quando percebeu que os dois poderiam se tornar amigos. Saci estava convicto: chamaria a atenção do garoto a qualquer custo. E, devo informar, a qualquer mesmo. Desde fazer traquinagens insuportáveis, as quais Curupira ignorou completamente indiferente, até tentar a sorte na culinária – os moradores locais aprovaram sua salada de frutas, nem mesmo os animais quiseram ficar de fora. Mas o guerreiro? Não apareceu sequer para cuspir na cuia, pois, segundo os outros, estava ocupado à procura de lenhadores.

Depois de tantas tentativas frustradas, Saci cogitou desistir. Para que tamanha humilhação, afinal? Faz sentido correr atrás de alguém desinteressado? Acontece que os esforços de Saci não passaram despercebidos por Caipora, prima do menino que ele fazia questão de conquistar.

Numa manhã chuvosa, enquanto todos estavam ocupados e desatentos ao resto do mundo, Caipora aproveitou a deixa e foi de mansinho até Saci-Pererê, e contou sobre a paixão de Curupira por plantas, especialmente, bromélias. Sugeriu, depois, que Saci o pedisse para dividir com ele os seus conhecimentos de botânica. Tendo retomado o ânimo, o guardião brincalhão agradeceu pela ajuda da amiga e foi em busca de Curupira.

Vasculhou um pouco a região e encontrou o menino sentado num tronco. Saci estranhou o semblante de Curupira, ele não era exatamente sorridente, mas parecia cabisbaixo.

“O que aconteceu?” arriscou perguntar. Curupira pareceu surpreso pela presença de Saci, mas não ofereceu nada além de um balanço de ombros acompanhado de um “não precisa se preocupar” quase inaudível. Em ocasiões comuns, Saci entenderia o recado e daria meia volta, porém, era iminente que Curupira precisava de ajuda; os ombros tensos, o ar preso nos pulmões e a cara de choro fizeram Saci sentar no tronco e insistir na pergunta: “O que aconteceu, Curupira?”.

Sem escapatória, o esverdeado respondeu: “Ultimamente tenho feito tão pouco pela floresta e pelos animais. Eu sei que não se pode vencer sempre, mas tu lembras dos lenhadores que apareceram no dia da salada de frutas?” Saci ficou levemente envergonhado, ele sabia sobre a salada, então. Espantando os pensamentos intrusivos, assentiu, deixando que Curupira prosseguisse. “Eles retornaram hoje. E pior: com quatro colegas a mais.”

“Oh, por isso do tronco no chão?”.

“Quem dera fosse só esse. Mais adiante causaram um estrago imenso. Nada que eu não possa resolver, porém”.

O de jardineira vermelha franziu o cenho: “Desculpe, mas qual é o problema, então? Dá de resolver, certo?” indagou.

Curupira parecia sem graça, era complicado se abrir assim, falar dos seus medos, explicar que embora seja moleza trazer vida novamente à floresta é difícil perdoar a si mesmo. Suspirou cuidadoso, e disse, por fim: “Caipora apareceu quando um deles tentou acertar o ninho de um pássaro amigo. Sabe o que eu fiz para ajudá-la?” Saci negou. “Nada. Fugi!” Curupira estava usando um tom sarcástico, como se não pudesse acreditar no que tinha feito.

“Por quê? Foi por... medo?” Saci não queria soar intrometido ou debochado.

“Não foi, eu acho”.

“O que houve, então, Curupira?”

O menino vacilou um pouco na resposta, mas conseguiu dizer, finalmente: “Eu... Ok, eu estava com medo, só que não era dos lenhadores, nem tive medo de morrer ou de proteger Caipora. Quando fugi, fui até a margem do rio pedir que Tupã não deixasse que eu fosse mais guardião. E se fosse necessário, ele poderia tirar de mim o jardim que cultivo, ou qualquer coisa de valor inestimável a mim...” Saci piscou algumas vezes. Não sabia que reação deveria ter; não era próximo de Curupira, mas ninguém precisaria ser para saber que isso era tudo para ele.

“Eu acho que continuo sem entender. Proteger a fauna e a flora, manter vivo o verde da grama e das folhas é tão fundamental para ti quanto minha carapuça é para mim. Por que se castigaria dessa forma?” Pererê deixou-se exaltar, mas recompôs sua postura quando notou que Curupira iria chorar. Sem pensar na falta de intimidade entre os dois, passou o braço esquerdo pelas costas de Curupira e o puxou para um abraço.

Curupira chorou. Nenhum deles contou o tempo, não repararam se fazia frio ou calor, cada um estava concentrado demais no gesto desengonçado e em suas próprias inquietações; Saci-Pererê temia o estado do de olhos cor caramelo, e Curupira tentava entender porque estava se aninhando cada vez mais nos braços do de cabelos crespos. Mas Pererê, no fundo, sabia a resposta para a questão de Curupira, e Curupira entendia a dor do talvez amigo.

O sol surgia através das nuvens na medida em que Curupira e Saci desvencilharam-se do abraço. Curupira não chorava mais, e Saci sentiu seu peito esfriar pela ausência do outro menino apoiado em si. Tímidos, ajeitaram-se no tronco. Saci assentiu silenciosamente ao agradecimento discreto de Curupira.

Pouco depois, quando Saci já estava de saída, Curupira mencionou: “Não vou pedir a Tupã que me tire o dever de proteger as aldeias, os animais e toda a mata, Saci. Senti-me desacreditado, isso é verdade, mas não posso, não quero.” Saci o observou com carinho, e deu-lhe um sorriso. “Outra coisa” acrescentou Curupira “Por que não me chamou simplesmente ao invés de pregar-me peças e tentar preparar um banquete de frutas?” Agora era Curupira quem sorria da feição acanhada de Saci.

“Na verdade, eu vim aqui te convidar para me ensinar a plantar bromélias como Caipora sugeriu” defendeu-se.

“Jura?” O sorriso de Curupira aumentou: "Vá até as plantações de café-do-mato amanhã cedo, vou te ensinar tudo que sei e depois plantaremos as bromélias juntos. Até, Saci!” E, assim, mais tarde, Saci-Pererê cultivou não somente a semeadura dos frutos e flores, mas também uma especial amizade.



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