História Sendo Cecile - Capítulo 18


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Categorias Amor Doce
Personagens Agatha, Alexy, Ambre, Armin, Leigh, Lysandre, Personagens Originais, Rosalya
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Palavras 3.523
Terminada Não
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Ação, Aventura, Ficção Adolescente, Hentai, Policial, Romance e Novela, Shoujo (Romântico), Sobrenatural, Violência
Avisos: Álcool, Bissexualidade, Drogas, Heterossexualidade, Incesto, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Tortura, Violência
Aviso legal
Alguns dos personagens encontrados nesta história e/ou universo não me pertencem, mas são de propriedade intelectual de seus respectivos autores. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos criada de fã e para fã sem comprometer a obra original.

Capítulo 18 - Pode me chamar de Cecile


Cesare não atendia ao interfone e eu sabia exatamente o que isso queria dizer, mas eu não queria voltar para casa, não queria pensar em tudo o que tinha acontecido, em tudo o que tinha sido revelado. Minha vontade era a de simplesmente apagar tudo aquilo, fingir não existir, por algumas horas, alguns dias, talvez.

Meu chefe era mestre nisso.

Perguntei ao atendente se a cobertura esperava alguém chegar e usei meus poderes para conseguir a informação. Se Cesare estivesse esperando por companhia, o andar estaria desbloqueado.

Andei direto para o elevador quando minha teoria foi confirmada.

Bebi mais um gole da garrafa de vodka que eu tinha comprado no caminho até lá, com esperança de que o álcool fosse me fazer parar de chorar. Funcionava para Cesare, porque não funcionaria para mim?

Ouvi os gemidos antes do elevador parar. Isso queria dizer que eles estavam na sala, o que já era ótimo.

Bebi mais três goles, já sentindo minha cabeça girar, mas ignorei. Tirei os sapatos aos chutes, vendo uma massa de corpos embaçado na minha frente, o calor e o cheiro de sexo tão nítidos quando o gosto do álcool na minha boca.

Cesare era de longe o que gemia mais alto, apesar de ter um pênis na boca, outro na bunda, isso enquanto transava com uma mulher, deitada debaixo dele.

O homem mais próximo me viu, olhando-me de cima a baixo enquanto era chupado.

Tomei outro gole, um bem grande. Deixei a garrafa de lado e comecei a tirar minha própria roupa. Mas nunca as alças do meu vestido pareceram ser tão complicadas.

Desisti delas e tentei simplesmente tirar o vestido por cima da cabeça, mas ele agarrou na minha testa e não saia de jeito nenhum.

– Che cazzo è questo? – ouvi Cesare, falando tão alto que pareceu dar eco.

Sentia um par de mãos nas minhas e relaxei, sabendo que ele tiraria aquela roupa de mim e me deixaria descontar tudo no sexo. Mas ao invés disso, ele me vestiu.

– Você sempre me pediu isso. Agora que quero você atrapalha? – perguntei, fazendo esforço para não enrolar minha própria língua.

– Com você nesse estado, não dá pra aproveitar nada, mia succube – ele disse, pegando-me pela cintura e fazendo tudo girar. No minuto seguinte, eu estava sobre seu ombro, feito um saco de batatas.

– Só você tem o direito de beber e fazer sexo depois? – perguntei, certa de que conseguiria convencer ele a me dar o que eu queria.

– Sim, tenho uma licença assinada pelo próprio papa pra isso – eu sabia que estávamos na escada, porque as pessoas no sofá estavam ficando menores e mais embaçadas.

– Da última vez eu estava bêbada também, porque não aproveita que estou oferecendo? – argumentei, estendo as mãos para pegar na bunda dele, bem abaixo do meu rosto, empinando e abaixando a cada passo. Cesare me ignorou completamente.

Desci um pouco mais minha mão, esticando meus dedos pela sua fenda, esticando-me para tentar alcançar seus testículos.

Senti por poucos segundos a pele enrugada antes de ser jogada na cama, quicando com a força e achando graça disso.

– Você não faz ideia de onde está se metendo, menina – ele disse, com uma voz brava que eu nunca tinha ouvido antes.

– Eu sei que você quer – eu disse, amaciando minha voz. Levantei meus braços acima da cabeça, arqueando meu corpo para me insinuar.

– Quero, quero te foder feito bicho – ele disse, agarrando-me pelos quadris e me puxando para a beirada da cama, antes de me virar, como se eu fosse uma boneca, com minhas costas voltadas para ele. – Mas isso não quer dizer que vai ser bom pra você.

Encarei o borrão que era a mobília, sem me importar com nada. Eu queria sentir qualquer coisa, qualquer outra coisa além do furacão que estava a minha vida.

– E se eu comer seu cu? – a voz dele soou como um rosnado no meu ouvido, todo o peso do seu corpo estava sobre o meu, esmagando-me contra o colchão. Sua ereção era nítida em minha bunda, apesar do tecido do vestido estar entre nossas peles. – Vai me pedir por mais quando eu te rasgar no meio?

– Anda logo – eu disse, entredentes. Eu não sabia o motivo, mas eu estava chorando. Eu queria acabar logo com aquilo, queria arrancar aquelas coisas de mim, mesmo que fosse através da dor.

– Me pede de novo quando estiver sóbria – sua voz mudou completamente de tom, caindo para um sussurro. Beijou minha têmpora antes de se levantar de cima de mim e desaparecer, deixando-me sozinha no quarto.

Agarrei o travesseiro e joguei contra a porta, xingando Cesare com todos os palavrões que eu conhecia. Soquei o colchão como se fosse a cara dele, como se fosse Lysandre, como se fosse meus pais. Rasguei meu vestido, apenas para me impedir de rasgar o lençol, puxando o tecido do meu corpo com toda a força dos meus músculos. Gritei, o tempo todo, como um animal selvagem alucinado, porque era o único jeito de eu dissipar toda a raiva que parecia brotar dentro de mim feito lava, porque eu estava furiosa.

Não ouvi a porta sendo aberta, ou Cesare se aproximando, apenas senti seus braços ao meu redor, segurando-me com força. Tentei com todas as minhas forças me desvencilhar. Pulei, chutei, sacudi-me feito louca, mas o aperto não aliviou.

Gritei para que ele me soltasse, mas ele parecia não me escutar.

Percebi que estava sendo carregada para algum lugar quando minhas pernas encontraram uma porta. Lutei para não entrar, para me empurrar para longe, apoiando os pés nas paredes e na madeira, mas de algum jeito, vi-me dentro do banheiro, com água fria caindo sobre a minha cabeça.

– Cazzo, succube – Cesare arfou atrás de mim, ainda me apertando como se fosse uma camisa de força. – O que deu em você?

O chuveiro pareceu varrer toda a minha disposição para lutar, transformando toda a minha raiva em lágrimas. Minha pele ardia, provavelmente pelos machucados que eu mesma tinha provocado. E de repente, eu estava exausta.

– Eles mentiram pra mim, mentiram minha vida toda – eu disse para o chão abaixo de mim, para o ralo que engolia a água.

– Então surta com eles, não com você mesma – Cesare me soltou. – Olha o seu estado – ele pegou minha mão, analisando o meu braço, todo vermelho, com vários arranhões.

– Fiquei com raiva – eu disse, apoiando no roupão que Cesare agora vestia para sentar e não despencar no chão. Meus músculos doíam e eu não queria ficar em pé.

– Aposto que ganharia de um tigre – ele disse, saindo do box. – Me avisa quando for surtar de novo, vou preparar uma rinha e ganhar dinheiro nas suas costas.

Observei enquanto ele tirava uma toalha do armário, sumia e aparecia de novo, com uma muda de roupas que deixou sobre a pia.

– Consegue não se matar por cinco minutos? – ele se virou em minha direção, com uma sobrancelha erguida.

Apenas assenti. Eu mal tinha me movido desde que tinha desabado ali no chão e não tinha planos de fazer isso.

Cesare então desapareceu, por tempo suficiente para me fazer sentir vontade de sair daquela água fria. Usei a toalha que ele deixou e vesti a camisa, cor de rosa, com um tigre rugindo na frente. Ele realmente não tinha noção nenhuma da hora certa de fazer piada.

Ainda assim, aquilo me fez sorrir.

Arrastei-me até a cama e me joguei nela, amontoando os travesseiros que eu podia alcançar embaixo de mim.

A dor de cabeça era surreal. Latejava tanto que parecia que tinha alguém acertando-me com um martelo, repetidas vezes. Levei minha mão até minha nuca, apenas para ter certeza que não estava sangrando.

Eu não conseguia abrir os olhos, parecia que iam explodir se eu fizesse isso.

– Buongiorno, diavolo della tasmania – a voz de Cesare parecia um soco da minha têmpora.

Aquilo não era ressaca. Eu já tinha sentido aquela dor antes, anos atrás, quando fiquei tempo demais segurando meus poderes. Mas não fazia sentido, eu tinha usado eles antes de chegar na cobertura.

Esforcei-me para abrir olhos, segurando as laterais da minha cabeça com alguma esperança de que aquilo fosse aliviar a pressão. As cores estavam lá, onde deveriam estar. Isso pareceu ajudar um pouco, mas não o suficiente.

– Succube? – Cesare me chamou, levantando-me pelos ombros. – O que foi?

– Minha cabeça, está explodindo – precisei de força, de muita força, para conseguir falar.

As mãos deles então estavam em meu rosto, forçando minhas pálpebras abertas. Li todas as conclusões através de seus olhos e o sangue gelou em minhas veias.

– Eu vou morrer – murmurei, com toda aquela história que Tia Agatha tinha me contado. Todas elas morreram, porque eu seria diferente? Eu podia controlar meus poderes, mas quem disse que as outras também não faziam o mesmo?

– Stai zitto – ele disse, pegando-me no colo. – Vou te levar pro hospital, não fala besteira.

Não vi o percurso, não senti muita coisa além da dor excruciante no meu cérebro e do medo de que tudo podia acabar a qualquer momento.

No meio do caminho, eu devo ter desmaiado, porque em um momento tudo era dor e, no outro, eu não sentia mais nada.

Tive medo de abrir os olhos e ter meu alívio interrompido, mas invoquei coragem. Eu precisava saber se estava viva.

Aos poucos, os sentidos foram voltando ao normal. Ouvi Cesare, falando em italiano, andando de um lado para o outro no quarto, no quarto dele. Mas nós não tínhamos saído?

Quando ele me viu de olhos abertos, interrompeu o que dizia e desligou a chamada, sem qualquer formalidade.

– Eu te mato se você beber de novo do jeito que bebeu ontem – ele disse, apontando o dedo para a minha cara.

– Era ressaca? – perguntei, olhando ao redor. Aquela dor tinha sido real, ou tinha sido um sonho? Os arranhões no meu braço tinham desaparecido, deixando pra trás só um rastro, quase imperceptível.

– Também – ele apoiou as mãos nos quadris. – Um senhor tumor apareceu no seu exame.

– Então foi real – assenti. Pelo menos eu estava viva e a dor tinha passado. Eu sempre dizia a mim mesma que nada de bom acontecia quando eu bebia.

– Que monstro é esse na sua cabeça? – ele perguntou, apontando para mim. Ele estava do outro lado do quarto, parecendo ter medo que eu fosse explodir.

– É o que dá os meus poderes – expliquei, massageando minha nuca, apesar de não saber onde esse tumor estava, exatamente. – O álcool afeta ele... Ontem mais do que nunca, provavelmente por causa do meu surto.

– Um tumor? – ele perguntou, com os olhos arregalados. – Não achou conveniente me contar isso?

– Não é nada demais, eu consigo controlar – eu disse, mais para mim mesma do que para ele. Joguei minhas pernas para fora da cama. Tia Agatha já deveria estar preocupada com o meu sumiço.

– Nada demais? – sua voz soou exasperada. – Eu vi o cazzo do exame. Parecia um segundo cérebro na sua cabeça. Por muito pouco você não teve um AVE – tentei não surtar enquanto ele falava. Eu conseguia controlar, estava tudo bem.

Tinha sido o surto e o álcool, nada demais.

Não ia acontecer o mesmo comigo.

– Mas depois desinchou, não é? – perguntei, porque eu queria ter certeza.

– Você estaria morta caso contrário – ele cruzou os braços, olhando-me como quem exigisse por explicações.

– Está tudo bem, então – afirmei, ficando de pé. – Obrigada por ter cuidado de mim, apesar de eu ter aparecido bêbada no seu apartamento e agido feito louca.

– Deixa eu comer seu cu e ficamos quites – ele sorriu, mostrando os dentes.

– Por que só me pergunta essas coisas quando sabe que vou negar? – perguntei, procurando pelas minhas roupas. Mas então me lembrei que eu tinha rasgado tudo.

– Me faz ter certeza que está mesmo tudo bem – ele pediu, ignorando completamente a minha pergunta.

– Tenho isso desde que nasci – expliquei, olhando pela janela, apenas para ter alguma noção das horas que eram. – O tumor incha quando fico muito tempo sem usar meus poderes, acho que também quando uso demais... E também quando bebo e surto ao mesmo tempo, ao que parece. Mas é só fazer o caminho contrário que volta ao normal – dei de ombros.

– Quero que me avise sempre que isso acontecer – ele pediu, olhando-me enquanto caminhava para uma porta de correr. – Quero um acompanhamento dessa coisa.

Era um closet, como eu pude ver de onde estava.

– Por quê? – perguntei.

– Porque eu quero – Cesare voltou, com uma sacola na mão, que ele jogou na minha cara. Peguei o objeto no ar, no entanto.

– Não sou um rato de laboratório – cruzei os braços, aborrecida. – Não consta no meu contrato que preciso te dar satisfação do meu tumor.

– Primeiro, você não tem contrato e, segundo, eu não sei nada da sua vida pessoal, nem mesmo o seu nome. – ele respondeu, caminhando em minha direção. – Se alguma coisa acontecer com você fora do meu alcance, eu sequer vou saber. Não pode me deixar ficar tranquilo pelo menos com isso? – Pegou meu rosto entre suas mãos, com um olhar quase suplicante.

– Não sabia que se importava tanto – pensei alto, olhando-o como nunca tinha olhado antes.

Cesare pigarreou, recuando.

– Claro que me importo. A vantagem que seus poderes me dão nos negócios não é fácil de substituir – ele se afastou de vez, avançando em passos rápidos em direção a porta.

– Imagino – assenti, encarando a cama. Apenas ouvi a porta fechando.

Abri a sacola que ela tinha jogado na minha direção. Tinha a logo de uma loja de departamento estampado e parecia envolver algo macio. Abri para ver melhor o que tinha dentro e dei de cara com uma estampa floral. Tratava-se de um vestido, muito parecido com os que eu costumava usar.

Sorri, fascinada com o quanto ele tinha sido atencioso, apesar do jeito vergonhoso como me comportei.

Troquei de roupa e procurei pelo meu celular na cama revirada. Quando vi que já eram quase cinco da tarde de domingo, levei um susto. Mas pelo menos não havia ligações perdidas ou mensagens de Tia Agatha. Ela estava tentando me dar espaço.

Coloquei minhas coisas na bolsa e saí, procurando por Cesare pelo corredor. Segui o som de sua voz, que agora falava no que parecia ser inglês.

Encontrei-o no mezanino, andando de um lado para o outro em frente à porta do escritório, falando ao telefone. Apoiei-me contra o parapeito, esperando-o terminar.

– Você acertou – eu disse, segurando a barra do vestido, quando ele desligou a chamada.

– Você sempre usa a mesma coisa, não foi difícil – ele sorriu, parecendo satisfeito. Era estranho ver aquela expressão nele, sem sarcasmo, sem segundas intenções, sem o toque Chesire que ele era mestre.

– Obrigada por tudo isso – eu disse, de novo. Porque havia centenas de outras coisas que ele poderia ter feito, mas dentre todas, escolheu ser gentil e atencioso.

– Não nego uma oportunidade de ter você na minha cama – ele piscou, com um sorriso torto.

– Isso não explica o vestido – provoquei.

– Detalhes – ele deu de ombros. Ri da sua reação.

– Me liga quando precisar de mim – eu disse, por fim, indo em direção às escadas. Mas antes, deixei um beijo em seu rosto. Vi Cesare ficando vermelho, até as orelhas. Tentou falar alguma coisa, pigarreou quando falhou.

Mordi minha boca, tentando segurar a vontade de rir quando virei as costas.

– Preciso amanhã – ele disse, quando pisei no primeiro degrau da escada. – As pessoas que mantém o hotel funcionando querem conhecer o novo presidente, vulgo eu – ele coçou a barba. – Então tenho que organizar um evento pra elas comerem a beberem às minhas custas enquanto eu tenho que forçar um sorriso até irem embora.

– Parece uma tortura – comentei.

– E é, por isso você vai sofrer comigo – ele se aproximou da escada, apoiando o cotovelo no parapeito. – Te espero no restaurante uma da tarde amanhã.

– Combinado – sorri, continuando meu caminho até o elevador.

– Succube – ele me chamou quando terminei o lance de escadas, parado no mesmo lugar. Virei pra ele, esperando. – Não surta quando eu não estiver por perto.

– Vou tentar – ri, avançando mais alguns passos antes de parar de novo e me voltar pra ele. – E pode me chamar de Cecile, se quiser.

– Cecile – ele repetiu, testando meu nome. – Parece delicado demais para um diavolo della tasmania.

Dei a língua pra ele, antes de entrar no elevador. Eu não precisava saber italiano pra saber do que ele estava me chamando. Mas tudo bem, depois de ontem, eu merecia.

Cheguei em casa com a travessa de cassoulet que eu tinha encomendado no restaurante do hotel. Era o prato favorito da minha tia e eu queria mostrar um pouco de boa fé nesse novo começo que ela tinha proposto.

Não que eu tivesse esquecido tudo, longe disso. Ainda estava dolorido, ainda me dava vontade de chorar pensar em todas aquelas coisas. Mas eu precisava seguir em frente.

– Cee – ela me saudou quando consegui entrar, equilibrando a travessa em uma mão e a chave na outra. – Comprei brioche de canela – ela se levantou do sofá, andando em minha direção com um olhar inseguro.

– E eu um cassoulet – sorri, entregando a travessa. – Deve ser de família querer comprar os outros com comida – ri, já me voltando para a cozinha para procurar pelo brioche. Eu não comia nada desde o dia anterior e estava faminta.

– Sempre funciona, o que podemos fazer? – ela respondeu, parecendo um pouco mais animada com a abertura que eu estava dando.

Peguei meu brioche e me sentei com ela na mesa.

– Esse vestido é novo – comentou ela, inclinando-se para olhar melhor apesar da mesa.

– É sim, meu chefe me deu – respondi, sem dar muita importância.

– Você foi trabalhar? – ela disse, parecendo espantada. – Desculpa, quer dizer... Não tem obrigação de me contar.

– Está tudo bem, tia – sorri, esticando minha mão para tocar a dela, apertando seus dedos nos meus. – Pode me perguntar sobre meu dia, é normal.

– Você foi trabalhar no final de semana? – ela repetiu, com as sobrancelhas no alto da testa.

– Não, só fui ver meu chefe – expliquei, recuando minha mão para continuar comendo. – Somos amigos, eu acho.

Cesar parecia ter uma queda por mim, algum tipo de atração misturado com um carinho que eu não entendia. Na verdade, eu não sabia classificar nossa relação, não depois de tudo.

– E ele te dá presentes, assim, de graça? – perguntou, desconfiada.

– Ele gosta de mim – admiti. Não tinha porque esconder isso. Minha tia nunca o conheceria de todo jeito.

– Se ele fizer alguma coisa, Cee... – ela começou, parecendo preocupada.

– Ele nem conseguiria chegar perto – era mentira. Ele já tinha conseguido, várias vezes. – Tenho os meus poderes, sei me cuidar, tia – sorri, tentando passar confiança.

Ela assentiu, parecendo pensar na possibilidade pela primeira vez.

Mudei de assunto, perguntando sobre o dia dela. Havia muito tempo que não conversávamos daquele jeito e eu precisava admitir que sentia falta. Mesmo depois que terminamos de comer, continuamos na mesa por vários minutos, até que nos transferimos para o sofá.

– Você... Conversou com o Bruno? – ela perguntou assim que deixou a louça na cozinha e se voltou para a sala, sentando-se ao meu lado no sofá.

– Não... Não pensei muito sobre isso – admiti. O foco do meu final de semana tinha sido exatamente o de evitar o assunto. – Ele nem sabe que tem uma filha, como vou dar uma notícia dessas? Aliás... – parei, pensando naquilo uma primeira vez. – Por que ele não sabe?

Minha tia suspirou, puxando as pernas para cima do estofado.

– Mireille estava muito mal quando engravidou – apoiou o queixo nos joelhos, olhando para mim como uma criança esperando bronca. – Ela veio pedir ajuda, porque as dores estavam fortes demais, frequentes demais. Vivemos no hospital durante esse período.

– E o Bruno? – perguntei, ansiosa.

– A família entrou no consenso de que seria melhor que ele não soubesse de nada disso. Depois de tudo o que aconteceu, sabiam que se ele ficasse com a sua guarda, você não teria convívio com a gente – ela esfregou os próprios braços.

– Mireille aceitou isso? – perguntei, segurando pra não chorar de novo.

– Cee... Ela já tinha tido dois derrames quando procurou a gente – ela explicou, com pesar na voz. – Leves, sem muitas sequelas, mas... Já estava acontecendo. A maior parte da gestação ela passou em coma induzido, pra te dar tempo de nascer.

– Então... Ela morreu sem saber nada sobre isso? – perguntei, abraçando meu próprio corpo. – Todo esse tempo, proibiram Bruno de ver ela? Eles nem puderam se despedir.

– Eu sei – minha tia chorou, mas empurrou as lágrimas pra longe do rosto.

– Isso é cruel, tia... – a dor era tão nítida no meu peito que parecia ser comigo. Eu podia me imaginar naquela mesma situação, com o Lysandre. Já era ruim o suficiente o que já tinham feito até agora, se fizessem comigo o que fizeram com Mireille... Eu não seria capaz de perdoar.

– Seu avô determinou que seria melhor assim, que precisávamos ficar unidos e te dar amparo – ela explicou, com um longo suspiro. – Fez sentido na época... Agora não faz mais.

Encolhi-me por reflexo, como se meu inconsciente quisesse me proteger da verdade.

Era isso que eu queria, não era? Saber de tudo, descobrir tudo o que escondiam de mim. Mas agora, que a realidade estava exposta na minha frente, eu não fazia ideia do que fazer com ela.



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