História Seoltang - Capítulo 1


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Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Jeon Jungkook (Jungkook), Jung Hoseok (J-Hope), Kim Namjoon (RM), Kim Seokjin (Jin), Kim Taehyung (V), Min Yoongi (Suga), Park Jimin (Jimin)
Tags Dom Seokjin, Fight Club, Graphic Violence, Long Pwp??, Namjin, Pwp, Sugajin, Yoonjin
Visualizações 145
Palavras 8.817
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Lemon, Luta, Shonen-Ai, Slash, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


AVISOS: violência gráfica, side!namjin, dom!seokjin, meio domxdom, na verdade.

Capítulo 1 - Primeira Regra


Seokjin tinha certeza de que havia uma filosofia aristotélica envolvida em cair na porrada. Caso contrário, os ruídos de baque seco e grunhidos animalescos não seriam tão prazerosos aos seus ouvidos. Se não houvesse nada de mágico ou transformador na luta, Namjoon e ele jamais teriam conseguido encher aquele porão de bar no subúrbio mais sujo e suspeito que encontram de homens cuja única semelhança em geral eram os jeans esfarrapados e repletos de manchas de sangue seco e os pés descalços.

De jovens ansiosos à beira dos vinte anos a senhores de meia idade com os cabelos acinzentados já rareando, de tempos em tempos eles apareciam despidos de todos os medos, responsabilidades e abandonavam tudo o que era esperado deles em troca de uns momentos de pura insensatez. Socos e dentes amolecendo, pontapés, ombros deslocados, hematomas desvanecendo do roxo para o amarelo, nariz quebrado, ninguém se importava com nada disso ainda que houvesse a obrigação de vestir-se em um terno ou uniforme escolar no dia seguinte e parecer cínico a respeito do que podia ser visto em seu rosto e corpo.

As pessoas respeitam o homem que esteve em uma briga. Respeitam seu silêncio, seus hematomas, a face iluminada de desvario de um Hércules que apanhou feio por alguma coisa – e pode ser qualquer coisa, afinal, se os privilégios masculinos andavam bem esclarecidos socialmente, homens podem brigar por qualquer coisa ainda que não faça o menor sentido. Por isso a primeira regra do clube era Você não fala sobre isso. E a segunda regra era Você não fala sobre isso.

A contradição era que andavam falando sobre o clube por Seul inteira, porque a cada semana havia mais e mais gente, de todo lugar e de todos os formatos. E não era como se alguém estivesse desobedecendo as regras, era mais como se as pessoas estivessem sendo conduzidas até o clube por pura confiança ou mero acaso. Absolutamente todo mundo poderia trazer qualquer parceiro, mas a partir do momento que os degraus de madeira eram descidos e as luzes se apagavam para que somente a lâmpada amarelada acima do ringue ficasse acesa, ninguém se conhecia de verdade. Não havia uma só alma que merecesse confiança, fé ou qualquer coisa que diferisse de gritos vociferantes, ofensas e gemidos de dor.

Seokjin adorava o que havia construído. Observava com olhos cheios de júbilo cada luta que acontecia, cada nova presença que descia as escadas na madrugada de sábado para domingo e se dispunha a brigar como um maluco, sem pagar ou assinar absolutamente nada, apenas pelo prazer de estar ali. Seokjin admirava a transformação, a elevação e a luta em si, o sangue e o som abafado de socos com punho firme. Era seu passatempo, seu legado, e ser respeitado ali entre aqueles homens que mal conhecia significava mil vezes mais do que ser respeitado por covardes como o próprio pai para quem trabalhava quando o dia amanhecia e ele era obrigado a colocar um terno de alta costura no corpo e fingir que amava o negócio que corria no sangue da família.

Às vezes, Seokjin delirava sobre o dia em que o pai apareceria naquele porão. Jeans e pés descalços, sem camisa, sem o Rolex no pulso esquerdo, sem os anéis, só a mente e o corpo, exatamente como o filho. E eles lutariam. E Seokjin acabaria com a raça dele. Suas unhas curtas se afundaram contra as palmas somente com o pensamento, mas a mão de Namjoon sobre um de seus ombros o despertou do transe.

O suor quase podia ser visto entre os fios de cabelo acinzentado de Namjoon e sua testa estava franzida em uma expressão de dor, o corte no supercílio fazendo um desenho de sangue fresco no lado direito de seu rosto. Ele piscou um olho só, tentando de se recompor, havia lutado com Hoseok e até onde se sabia não era muito fácil se livrar do raio de sol – ele era tão rápido quanto um, veloz quando se movia e quente quando batia.

– Porra, olha o sangue pingando no meu pé – reclamou Seokjin, empurrando Namjoon que gemeu quando foi tocado nas costelas – O que quer?

– O que eu quero agora só um ortopedista pode me dar – respondeu grunhindo – Mas vim avisar que Taehyung trouxe outro cara e eu não estou em condições de iniciar ninguém agora.

Ultimamente o que parecia era que Taehyung estava em uma empreitada para trazer Daegu inteira até o clube. Desde que havia se tornado um membro assíduo, o garoto loiro com olhos de tigre começara uma tímida reputação entre os membros que gostavam de vê-lo lutar – o chamavam de Mad Tae –, e apresentara o grupo para pelo menos quinze novos caras que agora faziam volume nos cantos do porão.

Todo mundo tinha um apelido àquela altura entre os mais assíduos, e apesar de reprimir o envolvimento muito pessoal dentro do clube, Seokjin abria um sorrisinho cínico sempre que observava aquela cultura alternativa ser imposta sobre os novatos. Os mais antigos sempre chegavam tirando a camisa e os sapatos, enquanto os novatos ficavam se segurando por um bom tempo até largarem os relógios dentro do tênis e saírem para quebrar a cara no joelho de um amigo mais experiente. Era enternecedor e envaidecia, de certo modo.

Seokjin procurou com os olhos a figura alta e esguia de Taehyung, encontrando as costas bronzeadas do garoto não muito longe de onde estava, perto das escadas. Caminhou entre os corpos quentes de suor, distribuindo acenos de cabeça àqueles que o reconheciam, e assim que viu o homem mais baixo ao lado de Taehyung se perguntou imediatamente que tipo de desespero havia trazido alguém tão delicado até aquela sujeira.

– Seokjin! – exclamou Taehyung, ainda de longe.

Ao se aproximar, Seokjin conseguiu ouvir quando o novato puxou o braço de Taehyung e disse “Ele não é mais velho que você?”.

– No clube nós não usamos honoríficos – explicou Seokjin, indicando que ouvira o cochicho – É a política, tudo o que determina o respeito aqui são as lutas. E Taehyung, eu já disse para chegar na hora, a iniciação já aconteceu.

– Precisei de um tempo para convencer ele a vir – Taehyung explicou, em tom de desculpas – Pensou que fosse brincadeira.

– Brincadeira? – questionou Seokjin, com uma sobrancelha erguida.

– Não achei que houvesse gente para fazer esse tipo de coisa – disse o cara, num tom meio abusado, os olhos dele desciam pelo tórax de Seokjin com certa curiosidade, talvez pelos hematomas que coloriam sua pele como uma aquarela de tons frios – Eu tenho que lutar hoje, certo?

– Parece que Taehyung citou as regras – Seokjin sorriu irônico – Sem camisa, sem cinto, sem sapatos. Se gritar “pare”, fraquejar ou apagar, a luta acaba. Dois caras, uma luta de cada vez. As lutas aqui duram o quanto tiverem que durar e a última regra você provavelmente já sabe.

Ele respondeu com um aceno de cabeça e disse:

– Se é a minha primeira noite, eu tenho que lutar.

Quando Seokjin virou as costas, ainda podia sentir aqueles olhos oblíquos como cortes de faca ardendo sobre elas. O rapaz gostava mesmo de olhar, era curioso e um lutador quase decente, pegando Taehyung em um mata-leão fisicamente impossível para sua altura e estrutura corporal – segundo Namjoon. Seokjin fingiu um completo desinteresse, não entendendo a excitação a respeito do novato.

No entanto, era no mínimo impressionante que alguém com um corpo tão imaculado batesse tão secamente e sem arrependimentos. Ele também gritava, como se estivesse colocando toda a raiva para fora continuadamente, e batia, batia, batia. No ringue era cruel e fora dele parecia um pouco com a Sininho. A pele pálida, branquíssima, quase translúcida, os cabelos descoloridos sempre apontando para todos os lados, despenteado, uma estrutura pequena com pernas de joelhos proeminentes. A única coisa realmente viril nele eram as mãos grandes repletas de veias azuladas, a voz sussurrada, sombria, e aqueles olhos escuros que perscrutavam o porão em busca do próximo oponente.

Três semanas e ele já tinha uma alcunha: Seoltang – açúcar, em coreano simples, por causa de sua pele brilhante e branca. E uma ironia, se é que os apelidos continuavam tão criativos. Nele nada havia de doce, apesar da aparência. Levar um soco do Seoltang era como fazer o caminho de casa sem sair do ringue.

– Ele é bom – assoviou Jungkook, sentado no chão, limpando o sangue do canto dos lábios na camisa branca amarrotada que segurava entre os dedos – Onde Taehyung achou um cara assim?

Elogios de Jungkook eram tremendamente raros já que o garoto mal falava. Era um colegial, terceiro ano ou talvez segundo, Seokjin não havia perguntado, ele tinha um corpo precoce de fisiculturista cuja única preocupação era esmagar. Jungkook lutava como um profissional, alternando socos e chutes, nada dizia, contudo, e era conhecido como Tough Kookie – ou biscoito duro de roer, lhe quebra os dentes.

– Yoongi é um tradicional homem de Daegu – a voz de Taehyung veio logo de trás, o costumeiro olhar enviesado e sorriso cheio de dentes – Furioso.

– Parece que ele teve uma semana difícil – comentou Jungkook – Olha o que ele está fazendo com a cara do pobre Sehun.

– Toda semana é uma semana difícil para o Yoongi, não me pergunte o porquê – Taehyung deu de ombros – Parece que ele se estressa demais no trabalho.

Yoongi. O nome soou como uma progressão de acompanhamento para a sinfonia de socos e pele suada se chocando, os ganidos de Sehun se tornando mais e mais difíceis de ouvir até que ele gritou “Chega!” e Yoongi soltou seus fios de cabelo coloridos e se levantou, intacto, como um Adônis esculpido em mármore branco que em nada se parecia com a lembrança macia como um pão que Seokjin tinha dele menos de um mês atrás. Alguma coisa queimou em seu âmago, curiosidade, talvez, um pouco de admiração num invólucro de despeito, afinal não havia melhor lutador ali que Kim Seokjin.

O costume de sair com a cara limpa era só seu. Havia uma lousa pendurada na parede esquerda com assinaturas em giz que enfileiravam seus desafiantes, o quadro era conhecido como deadpool pois só aquele que tivesse muita vontade de morrer para se prontificar a brigar contra o hapkidô profissional de Seokjin, a habilidade de ver através de suas veias saltadas onde machucava mais, desviando dos golpes desvairados e raivosos e atacando com precisão e frieza. Namjoon dizia que já havia perdido a graça aquela pose arrogante, mas ele não se via compelido a perder o controle assim como Yoongi, gritando como um psicótico e empurrando narizes contra o chão de concreto cru – simplesmente não era bonito de se ver, não era elegante.

Seokjin via a luta como uma dança destrutiva entre dois amantes apaixonados, uma orquestra de dor e suspiros, as sombras do corpo ficavam sempre mais bonitas depois de algumas semanas se lapidando sob os punhos uns dos outros, tornando as juntas mais resistentes e o olhar mais duro, assim como o estilo de lutar mais calmo.

Se lhe perguntassem, Seokjin diria que não era um mero adorador da violência, não era a respeito disso, era mais profundo e menos gratuito. Ninguém era o mesmo homem após sair do clube, quando acordavam no domingo à tarde em uma cama de casal com lençóis lavados ou mesmo dentro de um quarto e sala em uma cama de solteiro com colchão gasto, ninguém era o mesmo. Seu problema com Yoongi era justamente esse. Por mais escândalo que ele fizesse lutando, ainda soava como se ele estivesse escondendo um milhão de coisas ao sair de seu modo de combate. Quando acabava, ele simplesmente parecia calmo e cínico, se sentava no chão e observa as lutas com certo enlevo, secando o suor da testa na camisa que mantinha no ombro.

Devagar e sem perceber, Seokjin pegava–se analisando Yoongi mesmo depois que ele já havia ido embora e às vezes até depois que a noite chegava ao fim e ele nem sequer havia aparecido para lutar. O sol nascia fora do porão e Seokjin colocava os óculos escuros e entrava no carro na companhia de Namjoon para deixá-lo em casa, mas em seu íntimo ele pensava em Seoltang e nos detalhes que não conseguia descobrir apenas vendo-o lutar.

Yoongi já havia derrotado todos os melhores, só faltava Namjoon e ele. Namjoon não era uma grande questão, baixava a guarda de vez em quando, apesar de parecer esculpido em madeira e ter um tamanho de dar medo. A questão era quando Yoongi resolveria enfrentar Seokjin e o que ele faria para tentar vencer.

O estilo de Yoongi não era muito definido, ele tinha traços de luta de rua, um pouco de karatê e boxe com uma grande dose de improviso. Parecia com Hoseok, mas não tanto. Pernas coordenadas, socos certeiros, chutes altos, mas sem sincronia. Ele lutava de forma extremamente emocional, ainda que distante. O que ele fazia? O que será que um cara como ele fazia fora dali?

– Quero lutar com você – foi o escapou dos lábios de Yoongi um mês e meio depois. Os olhos dele estavam injetados e exaustos, os círculos arroxeados ao redor de seus olhos podiam ser vistos até mesmo no escuro – Me mostre o que você tem.

Foi lisonjeiro quando Seokjin entendeu que Yoongi tinha lutado por meses apenas para enfrentá-lo, assistindo com atenção todas as suas lutas quando estava presente, mas seu ego não teve espaço para se espalhar quando Yoongi parecia tão cheio de raiva.

Quando a luta começou, Yoongi veio até ele como um animal selvagem. Gritos vociferantes misturavam seus nomes no porão que parecia prestes a explodir, o cheiro de suor e o sangue ainda fresco abaixo de seus pés descalços trabalhavam juntos para deixá-lo desorientado. Segurou Yoongi pelos braços, rolando seu corpo por cima dos ombros como uma rampa e atirando-o no chão, pronto para se levantar quando uma perna firme lhe deu uma rasteira, o estampido de seu corpo suado caindo contra o chão de concreto como um saco molhado.

– Filho da puta! – exclamou Seokjin.

Yoongi já estava de pé quando ele levantou os olhos, admirando os arranhões frescos em suas mãos. Na visão periférica, Namjoon e Jimin berravam como dois malucos enquanto Taehyung, com o cabelo preso em um penteado ridículo acima de sua cabeça, fazia-se ouvir como um trator ao gritar “Pra cima dele, Yoongi”. E Yoongi veio, obrigando Seokjin a rolar para o lado e levantar-se, movendo as pernas e montando uma defesa à esmo ao mesmo tempo que Seoltang avançava sobre ele com socos múltiplos como se de repente ele tivesse mil braços.

Seokjin se abaixou e girou o punho direito na direção das costelas, ouviu um suspiro pela metade em busca de ar e soube que havia acertado aquele pulmão, com sorte deslocando as costelas no processo, mas Yoongi não se abateu por muito tempo. Uma série de chutes e uma joelhada forte na lateral do corpo fez a visão de Seokjin apagar por dois segundos antes que ele trocasse de base e se afastasse para respirar.

O tempo no ringue passava diferente. Seokjin sentia como se estivessem ali por uma noite inteira, mas ninguém ao redor deles parecia cansado de assistir – o que provava que ou a luta estava muito boa ou haviam se passado cinquenta segundos. Colocou os olhos novamente em seu oponente que o cercava como um predador, o olhar que ele tinha despertou em Seokjin uma vontade imensa de quebrar em pedaços aquele maxilar, mas nem sequer havia conseguido alcançar o rosto dele.

Nem Yoongi e nem Seokjin gostavam da ideia de serem feridos no rosto, mas ambos tinham um pequeno vício em desfigurar seus rivais. Da última vez, Yoongi havia deixado metade do rosto de Jimin marcado em sangue no chão, coisa que fez todo mundo ter certeza de que ele merecia ser observado – bater em Jimin daquela forma beirava a crueldade, afinal, Jimin era o único ali que merecia alguma misericórdia.

No ringue, Yoongi ainda rodeava. Ele era calmo, fleumático e intenso, parecia incansável à primeira vista e Seokjin se contentava em acompanhá-lo com olhos atentos, trocando o pé de apoio com a guarda erguida em frente ao rosto.

– Me achando bonito, Seoltang? – provocou.

– Também. E pensando onde ficaria melhor a marca do meu punho nessa sua cara de mauricinho.

A plateia uivou e Seokjin sentiu a raiva queimar dentro de si.

– Antes de você chegar perto do meu rosto quebro suas duas pernas – comentou, áspero – Vai precisar de um banquinho, de qualquer forma.

Outra horda de uivos.

– Quer apostar?

Eles brigaram por trinta minutos dentro do ringue – fora dele, no máximo uns cinco. Foi uma luta longa, espaçada, mas extremamente enérgica. Os membros de Seokjin já começavam a fraquejar quando Yoongi o surpreendeu com um soco direto na bochecha, seus dentes abrindo uma ferida na parte interna da boca obrigando-o a cuspir sangue e saliva. Pasmo e desorientado, Seokjin testemunhou a primeira vez que Yoongi esboçou um sorriso sincero, a gengiva cor de rosa aparecendo entre seus lábios pequeninos esticados num riso arteiro que logo se transmutou numa expressão cautelosa sob o contra-ataque raivoso de Seokjin.

Yoongi acabou perdendo a luta, de qualquer jeito. No chão, barriga para baixo, Seokjin segurou seu cabelo loiro com uma mão e pressionou o braço contra as costas brancas repletas de hematomas com a outra, o corpo se debatendo no espaço entre seus joelhos. O rosto de Yoongi já estava marcado por um ou dois socos e um corte acima do lábio superior que o deixavam um pouco parecido com Chuck, o boneco assassino. Seokjin aguardou que ele desistisse e finalizou a luta com desprezo, se afastando do ringue sem oferecer a mão para o oponente como era de seu feitio, seguindo para o banheiro sem olhar para ninguém.

Mesmo vencendo, os louros pareciam ter sido deixados para Yoongi no ringue e pouco importava se ele também estava machucado e mal conseguisse se levantar, havia acertado Seokjin em cheio no meio de seu orgulho intacto e a raiva não iria embora tão fácil conforme o moreno verificava o estrago no espelho manchado do banheiro, virando o rosto de um lado para o outro.

– Você continua lindo, não se preocupe – caçoou Namjoon, seu braço apoiado no batente da entrada – Por que está tão puto, afinal?

– Tenho uma reunião com o novo contador na segunda e aquele filho da puta arruinou a minha cara. Meu pai vai ter mais um motivo para me aporrinhar.

– Arranje um pouco de maquiagem e use gelo para o inchaço, não vai ficar tão aparente. Estou
preocupado com esse machucado na sua costela, contudo. Está conseguindo respirar bem?

– Tudo certo, Namjoon – respondeu, revirando os olhos antes de aparar um pouco de água entre as mãos e jogar no rosto quente, suspirando de alívio – Não precisa agir como um enfermeiro.

– Como você é insuportável, mauricinho – resmungou Namjoon, provocando de propósito – Socos ficam bem no seu rosto, te deixam mais excitante.

– Cala a boca.

Namjoon o prensou contra a pia, encostando uma ereção tímida contra sua bunda enquanto roçava lentamente os lábios semiabertos contra o ombro de Seokjin, soltando pequenas respirações quentes contra a pele. O mais velho fechou os olhos e suspirou, os dedos apertando-se contra o porcelanato vagabundo da pia encardida e seu corpo involuntariamente se projetando para trás, procurando mais contato com o corpo suado e rígido de Namjoon.

A porta do banheiro foi aberta com agressividade e Seokjin abriu os olhos com o susto, afastando Namjoon apressadamente quando viu Yoongi entrar, passando com indiferença por eles e trancando-se na cabine mais distante. Seokjin olhou para Namjoon com preocupação, mas ele parecia tranquilo e por pouco não voltou a fazer o que estava fazendo antes de ser interrompido, mas Seokjin tratou de impedi-lo e os dois voltaram para o ringue, onde Jungkook e Taehyung se matavam entre socos e pontapés.

A madrugada caminhou para o fim e o porão começou a esvaziar às quatro e meia da manhã, Hoseok sendo o último a ir embora depois de uma luta com Hyukjae que o deixou com três dentes moles e a marca de um chute na omoplata, contudo, ele estava sorrindo como se houvesse ganhado na loteria.

Havia ali muitos lutadores estranhos, gente de todo tipo, mas a loucura era essencialmente a mesma. Todos saíam quebrados, transfigurados, olhos que mal abriam e ferimentos com pouco tempo para desinchar ou curar completamente antes que estivessem abertos de novo. Estar ali era se entregar, Seokjin sabia disso, mas não conseguia evitar sentir raiva por ter dado a cara a tapa, e apesar de não poder dizer isso a ninguém, um nó se formava em sua garganta junto da lembrança de Yoongi entrando no banheiro mais cedo e o vendo com Namjoon. O conjunto de expressões daquele desgraçado o deixava louco, ensandecido de irritação – e aquilo não era normal.

Naquela manhã, depois do clube, Namjoon foi parar em seu apartamento dando sorrisos zombeteiros para os seus eletrodomésticos de inox. “Você é mesmo um playboy”, disse ele, antes de atirar Seokjin na cama, sem roupas, e fodê-lo tarde adentro com uma profunda, irretocável, dedicação.

Na segunda, ele se sentia melhor. O arroxeado no alto de sua bochecha direita foi coberto com corretivo, mas seu rosto ainda parecia inchado, abatido, como se ele houvesse sobrevivido a duras penas à maior ressaca de sua vida. Fora um soco dos bons, isso ele tinha de admitir. Dentro de seu terno, na frente do espelho, Seokjin ajustou a gravata uma última vez e tratou de se lembrar do projeto que havia redigido e dos detalhes contábeis que deveria recitar para o novo contador da empresa na frente do pai durante pelo menos três horas naquela manhã.

O império Kim espalhava construtoras por todo o país, fechava parcerias com governos municipais a todo momento e sonegava impostos com a delicadeza brusca de qualquer empresa respeitosamente grande. Seokjin havia cuidado das finanças pelos últimos três anos antes do pai decidir que o filho mais velho acabaria tendo um surto de incompetência e colocaria tudo a perder, resolvendo contratar um novo contador para formar uma equipe. Fingiu não se importar, afinal a confiança absoluta do pai era um privilégio concedido apenas ao seu irmão mais novo e por mais que fosse perfeito em absolutamente tudo, sempre receberia um olhar enviesado do velho Seokmin.

O desprezo do pai ficara entalado em sua garganta por uma parte tão grande de sua vida que Seokjin não sabia mais dizer se aquilo havia passado ou ele simplesmente se acostumara. E, de qualquer forma, ele criara um jeito muito eficiente de lidar com a raiva que se acumulava em seu corpo.

Seokjin estava coreografando uma luta contra seu próprio pai no elevador a caminho da sala de reuniões, no quarto andar. Era simples, nada extraordinário porque o velho se movia devagar, mas ele adorava cada soco e sorria, a dor em seu rosto sendo o único fio que o ligava à realidade. Quando as portas se abriram a secretária bonita, Bae Joohyun, se bem se lembrava, lhe deu as boas-vindas e disse que estavam esperando por ele.

Quase engoliu um dente quando entrou na sala despreocupado, abrindo sua pasta, e deu de cara com um par de olhos que conhecia muito bem apesar da pouca luz em que estava acostumado a encará-los.

– Seokjin, finalmente – ouviu o pai dizer, distante, como um rádio velho que tocava em outro lugar – Este é Min Yoongi, o novo contador. Sente-se.

Parecia haver uma microfonia constante em seus ouvidos, o choque batendo contra as extremidades internas de seu corpo e impedindo-o de se mover. Yoongi estava sentado com a camisa abotoada até o pescoço, um paletó tweed muito elegante cobrindo seus ombros e pulsos, mesmo os cabelos descoloridos pareciam penteados com esmero, caindo sobre os seus olhos de meia-lua. Era quase revoltante como ele conseguia disfarçar, parecer completamente indiferente, enquanto Seokjin lutava para coordenar os próprios movimentos.

– Bom dia, Seokjin–ssi – lembre-se da primeira regra – É um prazer conhecê-lo.

Você. Não. Fala. Sobre. Isso.

Os hematomas de Yoongi eram discretos em seu rosto, somente quem sabia de onde tinham vindo era que poderia identificá-los muito bem – o pequeno inchaço no lábio superior, a vermelhidão próxima à orelha e as marcas nas falanges. Ele fora eloquente a respeito do inventário que Seokjin estendeu em sua direção, apontando o que poderia ser analisado, melhorado e calculado. Na maior parte da reunião Seokjin não conseguiu articular nada inteligente para dizer e permaneceu calado, parecendo descrente e terrivelmente ofendido com a realidade que se punha em sua frente. Era impossível, completamente impossível, o que estava acontecendo.

Não era como se nunca houvesse encontrado um membro do clube na vida real. Hoseok trabalhava num escritório em Gangnam a não menos que quatro quadras de distância, Jimin era um jornalista na revista de economia para onde o pai concedia entrevistas de tempos em tempos. Certa vez, vira Jungkook na companhia de quatro amigos caminhando pelas ruas de Hongdae, de uniforme e tudo. Um aceno de cabeça era suficiente e todos eles se entendiam. O clube só existia pelas horas em que estava acontecendo, e fora dele nada daquilo era real apesar das cicatrizes.

Mas Yoongi parecia zombar dele entre o cálculo do lucro bruto e a dedução da depreciação dos imóveis alugados, quando erguia os olhos para o seu rosto era como se perguntasse está doendo onde soquei você, Seokjin-ssi?

Era terrível.

Para sua insatisfação, o pai se mostrou impressionado com a competência de Yoongi e a reunião terminou com uma longuíssima sessão de masturbação de ego quase insuportável de se assistir. Quando Yoongi deixou a sala sem olhar para trás, Seokmin colocou os olhos sobre o filho e agitou a cabeça negativamente.

– Você poderia pelo menos ter se mostrado mais inteligente, Seokjin. Pela sua cara era como se não soubesse do que Yoongi estava falando.

– É lógico que eu sabia, abeoji, só não estou me sentindo muito bem hoje – explicou, fechando a pasta com enfado, olhando através das janelas de vidro onde Seul se estendia, prédios altos e o céu azul de um outono especialmente quente.

– Se você parasse de se comportar como um boêmio não estaria de ressaca em toda maldita reunião, Seokjin. Você deveria ser mais como Yoongi-ssi. Você viu como ele é responsável, asseado? Como deixei que você tomasse conta de todo esse dinheiro por tanto tempo, hein, me diga!?

Honestamente, não soube o que responder. Estreitou os olhos para o pai, deixando que seus pensamentos fossem parar longe dali, no escuro do clube, a lâmpada amarelada acima de sua cabeça. Dois socos, um, dois. Direita, esquerda, troca a base, chute, jogue-o no chão, prenda com os joelhos e soque até sua raiva passar. Quando passar, continue socando.

 

– Odeio a minha vida – segredou a Namjoon, observando seu peito moreno e nu descer e subir em uma respiração errática – Tudo isso aqui é um inferno. Eu queria morrer lutando no clube.

– Yoongi insinuou alguma coisa?

– Não, mas estava lá. Com o meu pai. Na minha empresa, tomando o meu lugar.

– Não é como se você tivesse perdido o seu cargo, Seokjin. Se ele não insinuou nada, está ótimo, significa que ele é no mínimo honesto com as regras.

– Está defendendo ele? – perguntou Seokjin, levantando-se da cama para encarar Namjoon que continuou deitado, encarando o teto.

– Defendendo? Qual é a sua? Deixa de ser birrento – resmungou em resposta, um sorriso sugestivo
tomando conta de seu rosto lentamente – Espera...

– O quê?

– Não acredito, Jinnie.

– No quê, seu imbecil? – enervou-se Seokjin.

– Você está atraído por ele.

Seokjin mostrou-se chocado, lançando um travesseiro no chão.

– É claro que não, caralho.

– Claro que não? Olha só para você, todo nervosinho. Você quer deitar Yoongi aqui nessa cama quase tanto quanto quer se vingar por aquele soco, eu conheço você, Kim Seokjin.

– Conhece muito mal, ranhoso. Vou quebrar essa sua cara no sábado, só por ter insinuado uma merda dessas.

Namjoon riu de sua cara por uma boa hora antes de ser expulso e não parecer afetado por isso, alegando que tinha mesmo que ir trabalhar. Seokjin ficou sozinho com seus pensamentos e aquilo foi ruim a ponto de obrigá-lo a descer até o primeiro andar do condomínio e malhar por três horas seguidas, sem pausa para descanso, até que seus músculos estivessem visivelmente tensos e ardendo sob sua pele. O estresse, no entanto, não foi embora e algo o levava a crer que se sentiria daquela forma até a madrugada de sábado quando finalmente poderia enfiar a porrada em Namjoon como havia prometido.

Na empresa, durante toda a semana, Seokjin topava com Yoongi na copa entornando um copinho minúsculo de café recém passado. Ele até mesmo bebia café como um otário petulante, e pareceu reparar quando Seokjin finalmente parou de usar maquiagem sobre o hematoma em seu rosto, erguendo as sobrancelhas ao observá-lo se servir de um copo d’água.

Constantemente, Seokjin tinha vontade de confrontar Yoongi, perguntar qual era o problema dele ou
qualquer merda semelhante, mas a verdade era que tinha um medo sincero de que as provocações do loiro só existissem em sua cabeça. Ele já havia conhecido pessoas irritantes na vida, o tipo de pau no cu que faria com que seus nervos se enrolassem uns nos outros, seu irmão, por coincidência, era uma dessas pessoas. Mas nada se comparava a Yoongi.

Nada o deixava mais fora de si do que aquela voz que se projetava em sussurros e dizia coisas como “o balanço patrimonial deveria ser feito duas vezes ao mês”, “poderíamos divulgar uma matriz SWOT”, “é importante que todos os detalhes estejam na DRE divulgada no diário oficial”. Era enlouquecedor e não acrescentava em absolutamente nada – exceto as vezes em que ele corrigia alguns cálculos que Seokjin havia feito tarde da noite e meio bêbado.

A parte mais difícil de tudo, no entanto, era ver Yoongi nas camisas de gole roulé pretas abaixo do sobretudo nos dias mais frios. Da sala de Seokjin no departamento de administração e contabilidade, ele conseguia ver quando o Min desfilava com sua pasta e óculos de grau para dentro de sua saleta, retirando no caminho o sobretudo que escorregava por seus ombros largos. Era uma visão quase agradável para se ter todas as manhãs. E por mais que Seokjin soubesse de fato como era cada pedaço do tórax e dos braços de Yoongi, debaixo das roupas era como se fossem terrivelmente mais apetitosos.

Era curioso, com certeza, como ele conseguia simplesmente ser duas pessoas completamente diferentes. Intrigante, para dizer o mínimo. Aquele contador carola com óculos na cara e expressão pacífica e Seoltang, o psicótico lutador que havia deixado Oh Sehun e mais uns tantos caras três vezes maiores que ele com cicatrizes permanentes. Às vezes, quando estavam juntos na copa, Seokjin era flagrado olhando por tempo demais para as mínimas ações de Yoongi com demasiado interesse, como um cientista debruçado sobre um telescópio.

Um olhar interrogativo lhe era lançado, mas nada era dito. Seokjin deixava o olhar escorregar timidamente para o seu copo d’água, como se este fosse muito interessante, e Yoongi deixava a copa com seu costumeiro copo de café e Seokjin tinha apenas a visão de sua bunda durinha sob as costuras da calça social.

 

Quando o sábado chegou, Seokjin estava em chamas. Pulava no mesmo lugar, lançando os braços para trás, se aquecendo. Girava o quadril num eixo, de um lado para o outro, ouvindo a coluna estalar. Namjoon, sentado no balcão inutilizado no porão, sorria em sua direção e cutucava Hoseok ao seu lado para que ele também assistisse ao pequeno show.

– Ele está afim de brigar hoje – sussurrou Hoseok – Espero que ninguém acabe morto.

– Eu só espero que não seja eu – murmurou Namjoon, passando os dedos por entre os cabelos recém cortados.

Naquela noite Seokjin lutou cinco vezes, uma luta depois da outra. Em certo momento ele se viu no meio do ringue, gritando pelo próximo. Ele venceu toda a deadpool e os nomes foram apagados, restando apenas um, escrito no rodapé da lousa, onde ainda havia espaço: Yoongi.

Ao correr os olhos entre aqueles homens, não reconheceu o cabelo platinado, tampouco a pele de açúcar, e uma estranha sensação de frustração tomou conta de seu peito. Ele não havia tomado nenhum soco, seu rosto permanecia em perfeito estado e tinha apagado cinco caras numa única noite, mas nem aqueles detalhes aplacavam a sensação de que tudo havia sido em vão. Irritadiço, Seokjin foi embora às três da manhã, deixando Namjoon sem carona, o que resultou em uma mensagem raivosa em seu celular que dizia, entre outros absurdos: Qual foi, princesa? Seu príncipe encantado te deu um bolo?

Namjoon lhe conhecia bem demais, e era justamente esse o seu maior defeito de personalidade.

 

Yoongi apareceu às nove da manhã na empresa, o que significava sistematicamente uma hora exata de atraso, coisa que nunca havia acontecido. De sua mesa, Seokjin observou-o cumprimentar a secretária com um olhar cabisbaixo por trás dos óculos, um rastro de noite mal dormida em algum lugar entre suas feições pequenas. Curioso, Seokjin esperou que ele adentrasse a saleta e enrolou alguns minutos na copa antes de sorrateiramente bater à porta do
contador, entrando quando ouviu Yoongi sussurrar um rouco “pode entrar”.

– Eu odeio fingir que me importo, mas você chegou bem atrasado hoje – foi o que Seokjin disse, ao
encarar Yoongi sentado atrás de sua mesa – Vou precisar anotar isso na sua frequência.

– Pode anotar onde quiser, Seokjin-ssi – ele resmunga entre os lábios entreabertos, ajeitando os óculos e voltando a se concentrar no que quer que estivesse fazendo naquele computador.

Seokjin nunca estivera naquela sala depois que Yoongi a assumiu como sua. Os móveis eram os mesmos, mas a decoração mudara da água para o vinho. Os livros de contabilidade dividiam espaços com alguns CDs e um aparelho de som (o que explicava, em partes, o som abafado de música que Seokjin ouvia sempre no final do expediente, quando o prédio ia ficando mais vazio e quieto), fotos simetricamente tiradas em lugares aleatórios em Seul podiam ser vistas penduradas em molduras na parede, eram todas bem sombreadas e seguiam um estilo. Eram bonitas, tinha de admitir. Parecia profissional.

Na mesa de Yoongi, os objetos não eram muito diferentes do que havia em sua própria mesa exceto pelo porta-retratos com moldura preta e branca com a foto de um cachorro sentado em um sofá. Não só um cachorro – um poodle, de pernas compridas e pelo marrom dourado, longas orelhas felpudas e um focinho fino logo abaixo de uns olhinhos confusos. Ao olhar para a foto, Seokjin teve uma súbita vontade de sorrir.

Yoongi, reparando para onde ele olhava, empurrou o porta-retratos contra o tampo da mesa.

– Já disse tudo o que queria?

– Por que não foi ao clube no sábado? – perguntou, antes que pudesse manter as palavras dentro da própria boca.

Yoongi franziu as sobrancelhas.

– Eu pensei que a primeira regra fosse ‘Você não fala sobre isso’.

– E a segunda regra é ‘Você não fala sobre isso’, eu sei, eu criei. Agora me responda.

– Problemas pessoais – respondeu Yoongi, simples.

– Eu pensei que você resolvesse seus problemas pessoais no ringue.

– Eu resolvo.

– Então...?

– Porra, Holly estava doente, eu não podia simplesmente deixá-lo sozinho – disse, com aspereza, empurrando o teclado com certa força e lançando as costas contra a cadeira, suspirando em frustração – Que droga.

– Holly?

– O meu cachorro – suspirou ele, erguendo o porta-retratos novamente – Esse cachorro.

– Ah... – titubeou Seokjin, sem saber o que dizer – Ele... Ele está, sabe, bem, agora?

– Está, foi uma cirurgia às pressas, mas está cicatrizando. Eu paguei uma petsitter e ela se atrasou,
por isso cheguei às nove – Yoongi falava tão rápido que um quase imperceptível sotaque de Daegu poderia ser ouvido entre suas frases – Satisfeito agora? Pode me deixar em paz, chefe?

Seokjin não contestou, mas ficou parado alguns minutos apreciando o tom rosado tomando conta das bochechas de Yoongi com certo divertimento, sabendo que seu próprio rosto também queimava em constrangimento porque tinha certeza que, ao se ver sozinho, ele se agarraria àquele pedaço inútil de informação como uma adolescente com os hormônios à flor da pele e relembraria ao menos cinquenta vezes, apenas naquele dia, que Min Yoongi deixara de deslocar um maxilar para cuidar de seu poodle marrom que, por acaso, se chamava Holly.

Poucos esforços que Seokjin fez na vida foram tão grandes quanto o que fez para esconder o sorriso ao deixar a sala de Min Yoongi naquela manhã.

Talvez Namjoon tivesse um pouco de razão ao insinuar que Seokjin estava precisando urgentemente de sexo e sangue, mas a semana seria longa demais para que ele pudesse superar Holly, o poodle marrom de Yoongi.

Durante a semana, Seokjin saiu para correr à noite pelo menos quatro vezes e malhou até à beira da
exaustão na academia do condomínio. Quando Namjoon oferecia uma visita, ele negava categoricamente, se recusando a atribuir seu ímpeto incontrolável por exercícios à sua frustração sexual. Seokjin também trabalhou (trabalhou!) madrugada adentro muitas vezes, quando a insônia o pegava desprevenido, e apesar de revisar as contas, fingia não ver um erro de principiante entre os
cálculos – uma parte sua que traía todo o resto de seu corpo sabia exatamente quem corrigiria aqueles erros.

No sábado, ao descer as escadas, a primeira pessoa que viu foi Yoongi. Sem camisa, os jeans detonados de cintura baixa revelando o sombreado de seus oblíquos marcados nas laterais de seus quadris estreitos, músculos discretos adornando seu abdômen imberbe e bonito. Pela primeira vez Yoongi pareceu sensual aos seus olhos ainda que houvesse o visto daquele mesmo jeito pelo menos um milhão de vezes. Nem mesmo a visão de corpos tremendamente satisfatórios como o de Jungkook ou Namjoon impediram que ele se pegasse, de tempos em tempos, encarando o corpo de Yoongi enquanto ele colocava um novato no chão.

Desde o dia em que falara sobre Holly, Yoongi se dedicara a ignorar Seokjin à mera oportunidade e, no clube, sua decisão não mudara. Lutou incansavelmente, implacável, mas não deu atenção ao fato de que seu nome era o único escrito na lousa da parede esquerda, como se fingindo que Seokjin não existisse. O epítome daquele desaforo aconteceu quando Seokjin reparou que Yoongi havia considerado uma luta sua como a pausa para o banheiro, dando as costas para o ringue e rumando para a portinha no fundo do porão.

Quando Yoongi saiu, com gotículas de água escorrendo por todo o seu rosto e pescoço, Seokjin estava o esperando encostado na parede, os braços cruzados em frente ao peito desnudo.

– Não respeita mais as lutas dos mais velhos? – perguntou, sentindo-se um tremendo babaca ao proferir a frase.

– Pensei que ninguém ligasse para idade no clube – comentou Yoongi, levando os dedos à nuca – Enfim, você ganhou?

– É claro.

– Boa luta – Yoongi estava estranhamente tímido, quase sem saber o que dizer.

– Você não assistiu, Yoongi.

– Eu sei que foi uma boa luta.

Seokjin soltou sem querer um riso frouxo, mordiscando os lábios para contê-lo.

– Por falar em boa luta, você me deve uma. Seu nome está na deadpool.

– Ah, isso – disse ele, compreensivo – Você quer lutar agora?

– De preferência, enquanto meu corpo ainda está quente.

Deu para ver quando Yoongi engoliu em seco, seus olhos tomando rumos que ele claramente não queria que tomassem, através do corpo de Seokjin que sorriu, repentinamente consciente de seu poder sobre o outro.

Então eles foram para o ringue, fazendo com que todos os que descansavam em cantos aleatórios do porão se aproximassem para assistir. Seokjin fazia um rápido alongamento enquanto Yoongi apenas respirava fundo, parado, os olhos fechados enquanto seu queixo se projetava na direção do teto. Logo um coro de torcidas se fez presente, gritos tão indistintos e jubilosos que pareciam pertencer a uma igreja pentecostal. Yoongi fechou os punhos e Seokjin assistiu, posicionando-se em base, e a luta então começou.

Os roundabouts costumeiros, ataques secos e chutes, mas algo estava diferente. O modo como Yoongi o olhava estava diferente, ele parecia não ter certeza do que estava fazendo. Estava hesitando. Seokjin atacou, os socos acertaram os ombros, às vezes as costelas, e Yoongi aguentava todos eles com uma firmeza invejável, se permitindo ao máximo soltar um grunhido cheio de ar denso por dentre os lábios. Atacou Seokjin duas vezes, derrubando-o no chão, mas não finalizando nunca, nenhum deles, falando nisto, estava preocupado em finalizar qualquer coisa.

Encaravam-se longamente, como se conversassem. E não se tratava de provocações vazias um ao outro como da primeira vez, mas um conjunto bastante consistente de pequenas lembranças, pedaços de momentos aleatórios em que eles deveriam ter dito mais do que realmente disseram, conversado mais do que de fato haviam feito. Quando Seokjin resolveu finalizar aquela brincadeira de vez, aproveitando a guarda aberta de Yoongi, ele o socou no rosto três vezes antes que ele caísse para o lado, podendo jurar ter visto a sombra de um sorriso ensanguentado em seu rosto antes que os gritos tomassem conta de seus ouvidos. Comemorações. A deadpool estava pronta para outra temporada.

Mas uma vitória em cima de Yoongi nunca era cem por cento uma vitória, e Seokjin odiava demais aquele aspecto de suas lutas contra Seoltang para não engolir o seu orgulho e oferecer a mão para que ele levantasse daquela vez, o lábio aberto, um corte no supercílio, acima da ponte do nariz e na bochecha esquerda, vertendo sangue como um chafariz. Curiosamente, ele nunca lhe parecera tão atraente quanto naquele momento.

Às três e vinte e cinco da manhã, Namjoon não cobrou sua carona e Seokjin e Yoongi subiram a escada juntos rumo ao carro estacionado a uma quadra do bar fechado quatro horas atrás. A rua estava vazia e um vento frio cortante atravessou seus corpos, Yoongi estremecendo ao lado de Seokjin.

– Não precisa me dar carona – ele resmungou, contrariado.

– Você me deixou ganhar, temos uma dívida. A carona é o mínimo que posso fazer por você – comentou Seokjin, girando a chave no indicador – Além do mais, olha o estrago que eu fiz na sua cara.

– Não é como se eu estivesse menos bonitão – riu-se ele, abrindo a porta do carona quando Seokjin
destravou o alarme.

– Não, não é.

Seokjin não teve certeza se Yoongi o ouviu, mas ele sussurrou de qualquer maneira.

Dentro do carro, Yoongi não lhe disse absolutamente nada. O silêncio era tão profundo que Seokjin apenas dirigiu, prestando uma atenção demasiada aos semáforos, verificando se não havia bêbados dirigindo enlouquecidos pela rua àquela hora. No rádio do carro tocava um rock anos 80 batidíssimo que vivia na playlist, e Seokjin se surpreendeu quando, pelo canto dos olhos, viu Yoongi cantarolando enquanto olhava através do vidro fumê.

Desviou os olhos, um sorriso repuxando o canto de seus lábios sem que ele sequer percebesse. Seokjin deu uma volta imensa, esperando que Yoongi lhe desse alguma direção, mas de um momento a outro ele se conformou que Yoongi só talvez quisesse mesmo ir para o seu apartamento e foi lá que ele parou, na garagem dentro do condomínio.

– Lugar bonito – comentou Yoongi.

– Sim – concordou, sua boca subitamente seca – Yoongi...

– Eu quero dormir com você, Seokjin – oh. – Será que podemos subir para o seu quarto, por favor?

Apesar da insistência, Seokjin conduziu Yoongi primeiro para o seu banheiro com o pretexto de que eles estavam suados e sangrentos demais para os seus lençóis limpos. No balcão de mármore escuro do banheiro, Seokjin espalhou seu kit particular de primeiros socorros que só costumava usar em si mesmo e em Namjoon, e molhou um algodão com água oxigenada que pressionou contra cada um dos ferimentos abertos no rosto de Yoongi que franziu a expressão em claro desconforto, mas não reclamou. Quando acabou, o homem de Daegu parecia menos ferido enquanto uma fileira de algodões ensanguentados decorava o balcão.

Yoongi estendeu as mãos e tocou os hematomas em roxo vívido no peito de Seokjin, subindo para suas clavículas e dedilhando-as como a um piano. O silêncio era aterrador, então Yoongi se aproximou e lhe deu um beijo cujo sabor se parecia com o paraíso com traços de sangue. Tropeçando entre o vaso sanitário, o bidê e toda a sorte de coisas inúteis que Seokjin colecionava naquele banheiro, os dois foram parar abaixo de uma ducha morna, a água correndo entre seus lábios unidos com urgência, mãos tocando e explorando tudo o que podia ser alcançado.

Os gemidos eram ininteligíveis sons entre a dor e o prazer, o que os deixava confusos ao mesmo tempo que sorridentes, incrédulos. Não houveram toalhas ou roupões oferecidos, Seokjin esqueceu-se até mesmo de seus estimados lençóis quando se atirou na companhia de Yoongi, gotejando água ainda morna, sobre a cama no quarto escuro, a luz tímida da manhã nascendo atrás das cortinas fechadas.

Beijou diligentemente cada uma das marcas que ele mesmo havia feito na pele pálida de Yoongi, adorando os longos dedos dele entre seus cabelos e os ruídos que ele fazia quando tocava em um local especialmente sensível com seus lábios e língua.

Por baixo, Yoongi era sensível, frágil e bonito, quase fazendo jus ao seu apelido, explodindo na boca como um torrão de açúcar furtado da cozinha na madrugada – o que tornava a sensação três mil vezes melhor. Por cima, ele era intenso, provocador e excitante, como um lutador em ringue, exceto pelo fato de que Seokjin não antecipava um soco e sim um tipo de sexo oral que nunca havia recebido na vida que o fez suspirar e resfolegar como se à beira da morte. Ele era carinhoso e curioso e lindo, lindo, lindo. Seokjin não conseguia pensar em nada que fizesse o menor sentido.

– Você é tão, tão lindo.

– Eu nem consigo saber desde quando eu quero tanto você, Seokjin, mas eu quero. Quero muito, muito mesmo.

Pela primeira vez em muito tempo, Seokjin sentiu que sua vaidade procurara todos aqueles anos por alguém que o olhasse como Yoongi olhava para ele, com adoração, intensidade e sinceridade, como se estivesse de repente ciente de todas as coisas erradas em Seokjin e as adorasse justamente por fazerem parte dele. Podia ser cedo demais, e aquilo quase escapou de sua boca, mas ele gostaria que Yoongi o quisesse para sempre.

As pernas de Yoongi enlaçaram sua cintura enquanto ele ainda estava de pé, na beira da cama. A luz era parca e não havia nenhuma lâmpada acesa, mas a pele macia e decorada com todas as cores do mundo como uma tela de arte moderna se acendia como se brilhasse, e Seokjin podia até mesmo ver as quase imperceptíveis sardas que Yoongi ostentava sobre o nariz machucado e nas bochechinhas lindas que ele tinha, a boca de um vermelho profano que parecia esculpida com um cinzel.

– Vou desmontar você, Seoltang – ele sussurrou, acariciando os joelhos ressaltados, as panturrilhas magras, as coxas, sentindo os pelos finíssimos arrepiados sob as pontas de seus dedos – Como um quebra-cabeças.

Yoongi gemeu como se o provocasse, inclinando os pés descalços para desenhar padrões pouco compreensíveis em seu peito nu, descendo por um caminho sinuoso até o quadril, o corpo se contorcendo sobre o colchão e bagunçando os lençóis à medida que Seokjin avançava com a boca entre suas coxas e brincava com o rosto muito próximo de seu membro rijo e umedecido de sêmen.

Seokjin não era muito bom em se fazer de rogado e nada o impediu de curvar-se somente para alcançar Yoongi e envolvê-lo inteiro com a boca, escorregando os lábios inchados que sabia serem a perdição de todos os homens do mundo. Nem mesmo com a boca ocupada suas mãos pararam de tramar um modo de excitar e enlouquecer, vasculhando com toda a suavidade pelos pontos que faziam Yoongi arquear as costas e segurar em seu cabelo, os calcanhares grosseiros arrastando-se contra a lateral de seu corpo.

Mesmo na cama, Seokjin se assemelhava ao lutador que era no ringue. Observador, concentrado e objetivo, com o adendo dos olhares e mãos e lábios que só parariam quietos quando Yoongi implorasse ou gozasse ali mesmo, sem ter iniciado quase nada. Yoongi também tinha semelhanças com a persona que incorporava quando em uma luta, era furioso e exigente e com certeza o tipo de homem que Seokjin mais adorava submeter aos seus desejos enquanto fingia, com um cinismo tão característico seu, que o obedeceria caso pedisse do jeito certo.

– Seokjin, por favor – ele disse, finalmente – Eu não vou aguentar muito tempo, eu...

– Tudo bem, então – sussurrou as palavras contra a coxa de Yoongi, o hálito quente resvalando em sua virilha – Vire de costas para mim, sim? Eu quero que você fique confortável.

Era indulgente de sua parte escolher aquela posição quando tudo que queria era pôr Yoongi de quatro, de pé com as pernas ao redor de sua cintura ou mesmo no chão, cavalgando sobre ele lentamente, mas ainda estava em dívida e Yoongi merecia um pouco de conforto depois de uma madrugada repleta de lutas e surras intensas. E Seokjin gostava de pensar que tinham tempo. Que tempo era tudo o que tinham.

Num futuro próximo ele realizaria todos os desejos e fantasias que o pequeno corpo de Yoongi despertava em seu âmago e poderia até mesmo experimentar a sensação de tê-lo somente para si, dentro de si, e descobrir se os homens de Daegu eram mesmo tão furiosos quanto a propaganda anunciava.

No momento, se satisfez como um alcóolatra em um oceano de vinho tinto no infinito das costas marcadas de Yoongi, ouvindo seus suspiros e ofegos, engolindo seus gemidos e embriagando-se no cheiro de sua pele e suor. Encaixou-se com delicadeza entre as nádegas bonitas que se revelaram tão lisas e rígidas quanto imaginava e segurou-as com as mãos, se deleitando com aquele passageiro sentimento de poder.

Alcançou um preservativo e fez todo o possível para ser rápido e discreto ainda que suas mãos tremessem um pouco de ansiedade e tesão. Yoongi o fazia tremer de tesão, era insano. E quando se colou às costas úmidas e quentes dele, procurando um lugar em seu corpo, suspirou tão profundamente que a única ação de Yoongi foi arranhar as costas de sua mão pousada ao lado de seu rosto com as unhas curtas.

Entre a primeira e a segunda estocada longa e profunda, os arranhões viraram um toque e quando Seokjin conseguiu seu ritmo, Yoongi finalmente deixou de ser tão mesquinho e admitiu para si mesmo que queria entrelaçar os dedos nos seus.

A fricção era deliciosa e insuportavelmente quente, eles suavam um contra o outro e o loiro por vezes tinha espasmos de prazer que o faziam mover-se para perto, mais perto, e em alguns momentos Seokjin até mesmo ergueu o quadril para que Yoongi pudesse ondular com mais tranquilidade, sentindo tudo o que quisesse sentir.

– Você é maravilhoso – segredou, a boca colada ao ouvido abaixo de si – Você é tudo de mais doce e gostoso no mundo e eu quero despir você, mesmo que você já esteja nu – Yoongi apertou seus dedos entre os dele e a outra mão procurou a sua que estava um pouco afastada, equilibrando seu corpo acima dele para que seu peso não fosse um incômodo, e assim que achou, entrelaçou seus dedos ali também, mesmo que Seokjin não pudesse retribuir o gesto – Eu quero rápido e quente e depois devagar e suave. Você em cima, em baixo, de pé, sentado e quero ver nos seus olhos, Yoongichi, o quanto eu faço você se sentir bem.

O gemido que Seokjin ouviu, ele teve certeza, veio do lugar mais profundo e intocado de Yoongi, do fundo de tudo o que ele era e desconhecia, um grunhido profundo, deliciado, extasiado, de prazer. Ele estremeceu e sufocou Seokjin dentro de si com uma determinação tão intensa que ficou impossível, completamente impraticável, refrear aquele orgasmo.

O atingiu com força suficiente para quase fazê-lo desfalecer, mil cores atrás de suas pálpebras semicerradas. Ele se viu rolar para o lado de Yoongi, a cama desfeita, o sol um brilho acinzentado atrás de suas cortinas, o ar do quarto denso pelo cheiro de sexo e suor pairando sobre ele como um feitiço que fez com que todo o cansaço recaísse sobre seu corpo. Tudo o que se lembra é de Yoongi se aproximando, sonolento, para deitar-se em seu peito, o rosto machucado sereno e aliviado como nunca antes.

Seokjin deixou que aquele sentimento irracional de felicidade por ser capaz de tranquilizar Yoongi tomar conta de seu peito em brasa, marcando-o mais profundamente do que qualquer tipo de hematoma que pudesse ganhar em qualquer luta. E ele descobriu que a vitória contra Yoongi só tinha algum significado daquele jeito – se ele também ganhasse.

Quando Seokjin acordou, o céu já era de um azul intenso e havia um cobertor fino sobre o seu corpo. O outro lado da cama, no entanto, estava vazio. O gosto amargo não teve tempo de se espalhar por sua boca, pois ele vislumbrou o bilhete escrito à mão ao lado da luminária, preso abaixo de um copo de vidro.

“Obrigado pelos cuidados – todos eles.

Nos vemos na empresa. Esteja na copa bebendo água exatamente às 10:15, vou beijar você.

Lembre-se da primeira regra ;)

(yoongichi)

Seoltang.”

 



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