História Seoul, 2011 - Capítulo 6


Escrita por:

Postado
Categorias Bangtan Boys (BTS)
Personagens Rap Monster, Suga
Tags Angst, Namgi, Sugamon, Tw Abuso Sexual, Tw Violência Doméstica, Tw: Violência
Visualizações 87
Palavras 4.081
Terminada Sim
NÃO RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS
Gêneros: Aventura, Drama (Tragédia), Ficção, Lemon, Romance e Novela, Universo Alternativo, Violência, Yaoi (Gay)
Avisos: Álcool, Drogas, Estupro, Homossexualidade, Insinuação de sexo, Linguagem Imprópria, Nudez, Pansexualidade, Sexo, Violência
Aviso legal
Os personagens encontrados nesta história são apenas alusões a pessoas reais e nenhuma das situações e personalidades aqui encontradas refletem a realidade, tratando-se esta obra, de uma ficção. Os eventuais personagens originais desta história são de minha propriedade intelectual. História sem fins lucrativos, feita apenas de fã para fã sem o objetivo de denegrir ou violar as imagens dos artistas.

Notas do Autor


será que alguém ainda vai ler essa história? hehe.

bem, eu voltei - por enquanto. me desculpem pelo capítulo curto. nesse tempo que eu passei fora eu tentei escrever, mas nada saía bom o suficiente. eu queria realmente postar logo, então, me perdoem pelo capítulo não-tão-bom assim. esses tempos tem sido... confusos. mas escrever ainda é um alívio e um amor, assim como essa história, então não pretendo desistir dela, como já disse.

obrigado.

Capítulo 6 - VI. The Abyss


 

 

 

— Sabe, hyung, isso não faz sentido.

Estavam sentados na calçada em frente a um pequeno mercado do bairro, observando o início de movimento na rua. Dois sanduíches de frango, gelados e desenrolados dum papel plástico nunca foram tão gostosos, junto a uma garrafa d’água dividida. Namjoon sentia sua garganta doer um pouco ao engolir saliva, resultado do cigarro fumado na noite anterior e sua despreparação para atos adultos. Eles não estavam em boas condições – Yoongi tinha o cabelo bagunçado, embaraçado. Seus hálitos não eram os melhores. Assim como as situações de suas roupas, completamente sujas de poeira após uma noite num apartamento abandonado.

— Lembrar dessas coisas... — Pausou e deu uma mordida em seu sanduíche. — Só vai nos fazer mal.

Yoongi o ignorou, terminando seu café da manhã e jogando o plástico na lata de lixo ao lado da entrada. Foi seguido por Kim, que fez o mesmo e terminou a garrafa d’água, guardando-a em sua mochila.

— Lembrar de bons momentos em casa, Namjoon. — Começou, colocando o capuz do moletom sob seu cabelo. — Isso é ruim?

— Sim.

O mais velho revirou os olhos enquanto andavam.

— Como, exatamente?

— Quanto mais nós lembrarmos, nunca vamos deixar essas coisas para trás. Saímos de lá porque as coisas eram ruins, não pensamos nas situações legais quando bolamos o plano, não foi? — Os carros começavam a passar por eles, seus motoristas ainda preguiçosos ao volante. — Para seguir em frente, precisamos deixar as lembranças de lado por um tempo. Focar no agora, no presente.

Ele ficou em silêncio antes de respondê-lo.

— Você parece um livro de autoajuda.

No céu, as nuvens estavam espalhadas; como uma visão em polka dots em branco e azul, tomando todo o espaço em suas cabeças. Eles caminhavam, as marcas de cansaço em ambos os rostos, mantendo um breve sorriso sempre que olhavam para o lado. As olheiras eram profundas, num tom de lilás humano demais para estarem ali. Com bochechas avermelhadas pelo passo apertado, Yoongi tentava se guiar pelas placas para encontrarem o caminho até a estação de metrô.

— Argh, Namjoon. — Resmungou. — Me carrega nas costas. Eu ‘tô cansado de andar.

Ele riu.

— Estou a ponto de despencar no chão aqui mesmo, como posso carregar você? — (...) — Quando descansarmos, talvez eu possa te colocar no colo.

Em certo ponto da caminhada, decidiram parar e comprar algo para comer quando chegassem a Seul. Afinal, os preços na capital poderiam ser mais altos. Numa larga avenida, rodeada de pequenos comércios, entraram num mercado repleto de pessoas comprando seus cafés da manhã. Namjoon entrou primeiro, abrindo o caminho entre os corredores apertados para que Yoongi o seguisse. No fundo, próximo ao caixa, uma televisão misturava seu barulho aos murmúrios do ambiente.

“A polícia de Seul foi avisada nesta manhã sobre um crime brutal, acontecido numa vila interiorana...”.

O mais novo estava parado em frente aos produtos enlatados, observando os preços atentamente quando sentiu o outro puxar-lhe o braço.

— Você ouviu isso?

— O que?

“A polícia agora está em busca de dois jovens, filhos das vítimas e principais suspeitos, que possivelmente fugiram para a capital. As buscas já foram iniciadas.”.

Os olhos escuros dos rapazes fizeram-se ainda mais. Yoongi apertava a pele do mais alto, as lágrimas desesperadas para caírem.

“Se alguém souber informações dos jovens Kim Namjoon e Min Yoongi, por favor, apresente-se à delegacia mais próxima com informações.“

— Vamos embora. — Kim abaixou a cabeça, saindo rapidamente da loja novamente seguido pelo menor, arrancando alguns olhares suspeitos de quem estava no final da fila.

Ao voltar para a avenida, conseguiam ver ao fundo a estação de metrô. Não havia carros policiais por perto, nem mesmo algum segurança. Entraram num minúsculo beco próximo, entre dois prédios. Yoongi estava impaciente, as mãos enfiadas nos bolsos da calça enquanto o mais alto apenas encarava a parte da rua que podia observar.

— Seul está fora de cogitação.

— Podemos arranjar outra maneira de irmos. — Min abriu sua mochila, procurando por dinheiro. — Sério, Namjoon, nós podemos comprar uma passagem de ônibus e...

— Yoongi, não.

— Por favor, estamos tão perto.

— Você não tem ideia do que pode acontecer conosco? — Mesmo enquanto sussurrava, conseguia estremecer os ossos de Yoongi. Tomou as mãos nas suas, apertando-as sem muita força. — Nós não vamos para Seul.

Fez Min se encolher, abaixando a cabeça enquanto sentia a pele gelada.

— O que nós vamos fazer, Namjoon?

 

Na areia branca, quando as ondas se retiraram por um momento...

Eu escrevi o seu nome e fechei os olhos.

As ondas geladas tocaram meus pés e foram embora.

Você, que eu deixei para trás a fim de esquecer,

Tornou-se o próprio mar e voltou para mim.

 

As coisas estavam bagunçadas como se a lava de um vulcão houvesse destruído tudo por ali e ainda assim, não deixasse nenhuma marca física. Pelo menos a Sra. Kim sentia-se assim. Agora viúva, sozinha, agarrada à carta do filho todas as noites, já não sabia o que fazer. Qual rumo tomar. Como refazer-se. Entre todas as dúvidas, ela tinha uma única certeza: o seu filho havia matado o pai. Mesmo que não houvesse provas e apenas suspeitas, dentro de seu coração materno; dentre seu sangue compartilhado com Namjoon, ela simplesmente sabia. Sabia que ele havia feito aquilo para livrar-se e livrá-la de tudo. E era grata, certa parte de si. Mas a outra parte, a que falava mais alto e gritava e chorava, apenas queria sua vida antiga. Seu filho ao seu lado, mesmo que machucado e mesmo tendo de recobri-lo com bandagens e gelo no rosto. Queria o mesmo medo à noite, queria manter sua cria fora de casa em certos momentos para que ele não brigasse com seu pai. Queria tudo aquilo e mais ainda só para tê-lo junto a si. Mesmo sabendo que era egoísta esse desejo de mantê-lo consigo e seguir a mesma vida estagnada, Kim estava sozinha e sem família alguma. Simplesmente precisava de seu filho.

Depois que as sirenes da polícia cessaram e os barulhos dos pneus rolando contra a areia também, na sexta-feira em que chegou a casa sem vida, a Sra. Kim precisara andar por toda a casa diversas vezes. Checando todos os cômodos, acreditando que em algum momento, encontraria algum dos dois sentados na cama, com um grande sorriso no rosto. A cozinha estava vazia e as luzes não passavam pelas janelas. O banheiro parecia mais frio e os azulejos já não tinham tanto significado assim. Naquela madrugada, não haveria gritos nem choros. Ao sujar algum prato e colocá-lo na pia, não via motivo para lavá-lo novamente até que tudo estivesse completamente nojento e entupindo sua visão. Assim como tomar banho, escovar os dentes ou pentear os cabelos. Para a Sra. Kim, tudo aquilo poderia apodrecer mesmo acima da terra e seus ossos cairiam no chão da sala, e ela, com alguma sorte, encontraria seu filho. Sabia que ele havia cometido o crime, mas não conseguia sentir nada em seu instinto materno que lhe dissesse sobre a vitalidade de sua cria.

Ela, assim como as pessoas na vila, ligava a televisão todas as noites. O jornal local, parado desde algum tempo como a polícia, finalmente havia encontrado algo no qual podiam se debruçar sobre. Sentia o seu coração apertar ao ouvir o nome de seu marido, e não conseguia segurar as lágrimas que ardiam quando os lábios do apresentador as soletravam, quase em câmera lenta – Kim Namjoon. Porém, naquela noite, algo a mais fora revelado. Em choque, o homem na tela informava que aquele não fora o único corpo encontrado e nem o único jovem desaparecido. Min Yoongi também havia sumido – ou fugido, e ambos seus pais estavam mortos na sala de sua casa. Toda a amizade e memórias dos meninos quando crianças lhe vieram à mente, martelando em seu cérebro. Apertou as mãos pálidas e cheias de veias, levantando-se do sofá e ao abrir a porta da sala, sentiu o vento noturno lhe tocar o rosto e pescoço. E ela chorou desesperadamente. Mais que qualquer outra noite prévia, aquele momento era simplesmente demais para si. Mão solta da maçaneta, ela caminhou para a varanda, descalça e em sua roupa de dormir; o rosto completamente avermelhado ao descer as escadas que a levaram para a rua.

Seguiu soluçando, com a visão turva, pela estrada de terra em que vivia até alcançar a encruzilhada que dividia a família Kim e Min. Correu, sentindo seu pé absorver a terra úmida e só parou ao chegar à frente da casa desejada. Completamente vazia, havia uma fita policial ao redor do local, impedindo que qualquer um entrasse. Ela ignorou aquilo tudo com seus olhos marejados. Abaixou-se para passar por baixo da fita, passando pela porta encostada.

Assim como fez em sua casa, Sra. Kim percorreu os quartos e sala, cozinha, na procura de alguém. E assim como em sua casa, não havia mais ninguém além dela. Nem mesmo as manchas de sangue estavam no chão para fazer-lhe companhia. Apenas o puro vazio do ar, encolhendo-a e reduzindo-a a mais uma viúva; uma mãe sem filho; sozinha. Sentou-se no sofá encostado à parede, encarando as unhas dos pés empoeiradas. Pôs as mãos sobre os joelhos, curvou as costas e deixou-se absorver a atmosfera. A mesma solidão, jurando que conseguia sentir ainda o cheiro de seu filho no último lugar em que esteve. Sentiu sua barriga roncar – não comia desde que chegou a sua casa na sexta-feira à noite – porém aquilo não já significava muito. Não ter alguém para dividir o seu prato ou comer do que preparou não fazia sentido para si.

Tudo estava completamente cinza.

 

 

Após pegar um mapa qualquer de Seul e seus arredores em uma loja de conveniências, Yoongi traçava um caminho mentalmente. Encontrava algumas marcações de hotéis que seriam caros demais, restaurantes onde nunca comeria e algumas pensões. Foi numa dessas que decidiram ficar, e não foi coincidência ela ser a mais afastada do centro da cidade.

— Agora que estamos aqui, — iniciou. — quanto tempo acha que irá demorar até nos encontrarem?

— O que?

Eles caminhavam pacificamente pela calçada, conversando com tons leves. Apesar do dia ensolarado, algumas nuvens começavam a se formar no horizonte. Apesar do dia ensolarado, dentro tudo parecia completamente vazio e escuro. A visão em polka dots havia desaparecido por completo. Namjoon consertou a mochila em suas costas, tossindo para limpar a garganta.

— Vão vir atrás de nós. — Min puxou para trás os cabelos sujos. — Isso é óbvio.

O mais novo suspirou. Havia um espaço em branco em sua mente, um vazio, que começava a tomar espaço; desmatando suas ideias. Estava exausto. Por dentro e por fora. Tentava focar na situação presente, importar-se com o fato de que poderiam ser presos, porém tudo lhe parecia distante. Como se Kim Namjoon fosse apenas um espectador de toda aquela história bizarra dentro de um sonho, e não um dos protagonistas.

— Vamos nos preocupar com isso quando acharmos um lugar para ficar, ‘tá bom, hyung?

 

 

 

Dessa vez não era um prédio abandonado – pelo menos, não completamente. Uma pensão caindo aos pedaços que cobrava barato o suficiente para os dois. Além de Yoongi e Namjoon, viviam outras duas pessoas ali e a dona, junto ao seu gato. A proprietária era uma mulher alta, esguia, com olhos enormes e profundos. Com cabelos castanhos e lábios inchados, ‘Bambi’ – seu apelido, dado pelos jovens da pensão – usava roupas de cores claras e sapatos que não faziam qualquer som ao pisar no chão de madeira antiga. Acompanhava-os com atenção enquanto andavam pelos cômodos, em silêncio.

O prédio de dois andares contava com uma grande recepção anexada à sala de estar, com uma televisão de tamanho moderado e dois sofás pequenos. Diversos tapetes ocupavam o chão, a maioria deles escuros pela falta de limpeza. Eles passavam pelo primeiro andar encarando tudo atentamente. Havia um telefone com fio na recepção e outro na cozinha, alguns metros depois da sala. Lá, uma pequena mesa de madeira, armários fechados e balcões limpos junto a uma geladeira e fogão simplórios os recebiam. Depois da cozinha, uma varanda que servia de lavanderia. Subindo as escadas, havia quatro portas. Três delas, obviamente, já ocupadas. Kim e Min ficaram com a última porta do corredor, a única sem um tapete na entrada. Bambi lhes entregou a chave e deixou que eles se acomodassem no quarto que tinha um tamanho considerável.

Não havia televisão no cômodo, nem algum rádio. Nada que os conectasse ao mundo lá fora. Novamente se sentiam dentro da vila, isolados do resto do mundo, apesar de conseguirem escutar o trânsito ocupado na rua em frente e o burburinho dos comércios ao redor. Yoongi retirou sua mochila e jogou-a ao lado de uma das duas camas, que estavam sem lençóis. Havia um armário de madeira escura próximo à janela, e ao abrir, Namjoon reparou nas naftalinas que afastavam as baratas nos cantos do móvel. Pegou os cobertores e lençóis necessários para fazerem suas camas, junto a duas toalhas. No banheiro – este, minúsculo –, havia uma pequena estante com sabonetes, xampus, condicionadores e pastas de dente. O espelho tinha algumas manchas escuras nas bordas.

Enquanto Kim tomava banho, Yoongi desfazia sua mochila e colocava suas coisas em um lado do armário, dobrando suas camisas com cuidado e em silêncio. Estava sem sapatos e sem meias, sentindo seus pés doerem e suas articulações parecerem presas. Esticou-se e estalou os dedos das mãos e dos pés, girando o pescoço e após colocar tudo seu no guarda-roupa, sentou no chão abaixo da janela e encarou o quarto. Sentia o cheiro de chuva se aproximando e com ele, uma sensação que tocava como um sino dentro de si. Não sabia o que era, nem como identificá-la. Apenas sentia em cada respiração, cada vez infinitamente maior, e o engolindo.

O mais novo lavou seus cabelos, tentando desprender-se de qualquer memória que ainda invadisse sua cabeça. Estava abraçando o espaço vazio e agora o queria mais que nunca. Dentro daquele banheiro pequeno e apertado, tentava encontrar o motivo para não estarem felizes de estarem fora da vila. Desde o início, desde a infância, aquilo era o que queriam. Era quase o ponto final para uma nova história, o quase pote de ouro ao final do arco-íris, a quase luz cintilante ao fim do túnel. Conseguiram chegar bem perto, não importando o que aconteceu nas entrelinhas, e já estavam com um teto sobre suas cabeças. O que estava errado?

— ‘Tá tudo errado. — Yoongi agora estava de pé atrás da porta, o ombro encostado na madeira pintada de branco. Ele bateu duas vezes para ter a atenção de Namjoon. — Você ‘tá me ouvindo?

— Eu sei.

— Nós vamos ser presos.

Namjoon desligou o chuveiro e rapidamente buscou sua toalha, enxugando superficialmente suas pernas e pés, enrolando-a na cintura e abrindo a porta. Encontrou Yoongi com os olhos avermelhados e os lábios pálidos. Ignorando o que lhe foi dito, encarou o pequeno nos olhos escuros.

— Tudo foi um quase, Yoongi hyung. — O outro esperou que ele continuasse. — Foi um plano quase perfeito. Nós quase chegamos à Seul. Quase somos felizes. Quase, quase, quase...

Suspirou. Min curvou-se para abraçá-lo, sua cabeça alcançando não muito mais que o pescoço do outro. Entendiam-se. E o menor não prestava atenção nas gotas d’água que invadiam seu rosto.

— Você quer ir embora?

— Não temos para onde ir.

— É exatamente o oposto. — Kim tocou o ombro do menor, acariciando-o. — Temos Seul inteira. A Coreia inteira, o mundo todo. — Sorriu largo, como ainda não o havia feito.

Yoongi se desvencilhou. Não entendia como Namjoon conseguia manter aquela essência dentro de si, aquele sorriso, aquela magia. Vê-lo sorrir era abrir a janela num dia abafado, deixando a brisa entrar e respirar a terra úmida. Quase fazia o seu coração doer.

Passaram o dia inteiro dentro do quarto. A única pessoa a sair fora Namjoon, que buscou na cozinha algumas frutas para comerem enquanto todos estavam ocupados dentro de seus aposentos. Dormiram na mesma cama, coberta com lençóis mornos e com a janela fechada. Uma completa escuridão banhada com o cheiro leve de laranja cortada e sabonetes recém-abertos. As mãos de Yoongi caíam penduradas atrás das costas do outro, seus braços ao redor do pescoço quente como quem guarda um vaso de ouro, precioso. Dormia profundamente com o queixo acima da cabeça de Namjoon, que se afundava em seu cheiro limpo. Era a noite mais calma que já haviam tido, o mundo tornava-se lento e os ponteiros dos relógios em todo lugar estavam sonolentos, quase adormecidos. Aqueles poucos dias que estavam fora da vila pareciam semanas. Todas as lembranças corriam para alcançá-los, estes que flutuavam sobre o passado. Tornavam-se mitos, histórias que qualquer um agora poderia contar sem qualquer veracidade. Naquele momento, nem mesmo Namjoon e Yoongi realmente sabiam se já haviam ao menos morado na vila. Se aquelas casas de madeira eram realmente reais, se a tinta que descascava na janela havia estado ali. Se o jardim com terra fofa, o céu estrelado e a água acolhedora foram realmente parte de suas vidas.

A pele de Yoongi tinha um tom azul acinzentado na madrugada, e mesmo no escuro, ele parecia brilhar sozinho, levemente. Ao sair do banheiro após acordar, silenciosamente, Namjoon sentou-se ao seu lado e acolheu seu corpo. Estendeu as pernas e deixou o pequeno colocar sua cabeça em seu peito, as mãos longas e unhas sujas se apoiavam na barriga alheia. Respiravam fundo e pesadamente. O mais novo encarava o ponto escuro que a parede havia se tornado, ouvindo atentamente qualquer barulho que percorria a pensão e a cidade ao redor. Lembrou-se de sua mãe – ela ainda existia, persistia. Quilômetros e quilômetros de distância. Perguntava-se sobre sua saúde, se estava comendo, se vivia bem. Esperava pelo melhor. Esperava poder algum dia reencontrá-la, mas sabia que não iria. Imaginava-a fazendo suas malas, as lágrimas escorrendo pelo rosto pálido, pronta para ir embora atrás de si.

 

Dois dias se passaram e eles estavam vendo, pela primeira vez, o dinheiro se esvair de verdade. Estavam gratos por terem um teto, uma cama, estarem limpos e sentirem-se em segurança. Se preocupando apenas com o próprio mundo quebrado, não percebiam os olhares suspeitos quando seus vultos subiam as escadas e não faziam ideia de que a televisão permanecia ligada o dia inteiro na sala. Estavam completamente desligados, principalmente Namjoon, que passou aqueles dois dias e uma noite deitado no colchão observando o mais velho esgueirar-se pelo quarto. Ele sentava-se no chão, cobrindo os hematomas nas pernas com a camisa larga. Sorria para Kim, engolindo seco logo em seguida. Quando ouviam alguém subir as escadas, eram sérios até os passos ficarem distantes.

O único momento de verdadeira paz que tiveram fora na primeira madrugada passada ali. Estavam com roupas sujas para serem lavadas e quando todos foram dormir, recolheram-nas num saco plástico e desceram as escadas, indo até o fundo da pensão para encontrar a lavanderia. Era frio o suficiente para arrepiar os pelos dos braços de ambos, mas não para tremer seus dentes. Yoongi reparou no pequeno cercado de madeira que dividia a grama ali, um espaço apertado coberto por fios que serviam de varal para as roupas. As nuvens esticavam-se e se separavam no céu, cobrindo o azul marinho com um pacífico branco. Entregou o saco para Namjoon, que abriu a única máquina de lavar e jogou os tecidos dentro sem muita cerimônia. Eles ficaram ali, parados. Namjoon permaneceu encostado à máquina de lavar, seu corpo tremendo no mesmo ritmo do pedaço de metal. O menor se apoiou num pequeno balcão próximo à porta de saída da cozinha, cruzando as pernas e colocando os pés mornos na bancada fria. Os carros nem-tão-distantes passavam nas ruas e definiam a sinfonia do momento junto ao girar de roupas da máquina de lavar.  

— É o quase, não é?

— O que?

— Olha o céu. — Yoongi tinha sua voz mais baixa, rouca. — O quase. Você acha que vamos ficar assim para sempre?

— Não.

— Como vai ser daqui pra frente?

Namjoon sorriu.

— Você é muito preocupado.

Yoongi balançou a cabeça, confirmando. Sempre fora o poço de agonia e receio da dupla, enquanto Namjoon preenchia-o de segurança com palavras bonitas e um sorriso quente.

— Namjoon-ah, você também sente que isso tudo parece um sonho? Eu quase consigo sentir a turbulência que dá ao acordar. E se eu me concentrar muito, dá pra ver a fumaça turva que diferencia o mundo dos sonhos do mundo real. — Parou, esticando as pernas. — É como se eu estivesse sonhando tudo isso em um grande sonho. Um sonho dentro do sonho... Um sonho dentro do sonho. — Repetiu.

Um silêncio abrupto. O mais velho sentiu um aperto em seu coração, notando o calor próximo quando Kim se aproximou de si no balcão. Ficou de pé, encostado perto dos pés alheios. Naquele momento, as estrelas desaparecidas na imensidão do céu pareciam brilhar mais fortes.

— Yoongi hyung. — O chamou, sem se virar.

— Hm?

— Mesmo se isso fosse um sonho, aqui é onde eu gostaria de estar.

Ele riu, e Namjoon se virou para encontrá-lo, subitamente animado. Ele tinha um sorriso fixo.

— Você já parou para pensar em como nós ainda conseguimos sentir coisas boas? Mesmo que nós tenhamos feito coisas ruins... Ainda somos nós dois. E somos humanos. Eu sinto que vamos viver ótimos momentos, em algum dia.

— Só pelo fato de termos ido embora, esses dias estão sendo os melhores para mim.

— Estar com você é bom para mim.

— Idem. — O mais velho ergueu um sorriso fraco, envergonhado. — Não existe companhia melhor.

 

 

Eu não voltarei para o profundo e esperançoso oceano.

Deixei o seu cheiro e minhas memórias para trás, e fui embora.

A dura e apressada onda só tem se tornado mais macia.

E você, que eu acreditei ter esquecido, tornou-se o vento e voltou para mim.

 

 

Aquele sonho foi o mais longo e mais sincero que Yoongi já tivera. Enquanto estava aninhado ao seu travesseiro, esperando inconscientemente suas roupas secarem no varal do lado de fora, via-se em sua mente num mundo completo de água. Como uma enorme piscina, Yoongi viajava por entre árvores que se balançavam tão lentamente quanto seus passos pelo ar aquoso. Ia de encontro à Namjoon, que o esperava de costas num horizonte cada vez mais próximo e real. Era a imensidão azul cristalina, as bolhas que saíam de sua respiração o guiavam através. Ele ouvia seu coração, a cada batida e palpitação fazendo as ondas acima de sua cabeça quebrar ao chegarem à areia. Seu sangue parecia sair do corpo, gelado como o líquido que o envolvia. Era reconfortante.

E Namjoon não virava para trás, nem fazia qualquer esforço para encontrá-lo. Simplesmente esperava, pacientemente, olhando para algo que Yoongi não conseguia identificar o que era – adiante tudo era escuro e turvo, quase acinzentado. As partículas de areia e poeira giravam harmoniosas, e ao passar pela última árvore daquele caminho marinho, viu-se num infinito de areia branca como neve. Ouviu um barulho distante que fez as próprias bolhas explodirem dentro d’água, cada vez mais próximo, cada vez mais ameaçador. A areia abaixo de si pulava e formava pedras pontiagudas, e não havia maneira de se livrar daquilo sem seguir adiante, em direção à escuridão.

Tentou gritar por seu amigo. Não lhe escutava – aliás, parecia-lhe que os sons próprios nem mesmo saíam da garganta. Pareciam ficar presos nas bolhas. E ao alcançar o meado daquele campo de areia, Namjoon virou-se para encontrá-lo, seus olhos escuros e redondos como nunca antes, como se houvessem absorvido toda a sombra do fundo do mar. Percebeu que ele encarava o abismo em frente, completamente absorto. Yoongi tremia agora, amedrontado, ouvindo o som desconhecido continuar se aproximando. Seu amigo olhou por trás de seu corpo, assumindo uma expressão inquieta, irritada e por fim, assustada. Fez menção de olhar para trás igualmente, mas Kim balançou-lhe a cabeça em negativa repetidas vezes, as mãos agora atrás das costas. Quando não conseguiu conter a curiosidade, Yoongi virou-se subitamente para trás, as luzes vermelhas atingindo seus olhos com extrema intensidade. Conseguiu ouvir, finalmente, a voz pesada de Namjoon lhe dizendo para parar. A voz dele foi o suficiente para fazê-lo acordar, o tom desesperado sendo como a porta de entrada para a vida real.

A porta do quarto foi aberta com uma chave mestra. Bambi encarava os dois rapazes na cama com olhos enraivados e mãos fechadas. Ela tinha os mesmos sapatos silenciosos, mas parecia ter acordado há pouco. Pôs-se na beirada da cama, de pé, e Yoongi pôde ver que Bambi segurava um jornal na mão esquerda. Ele sentiu seu coração apertar e o estômago embrulhar.

— Vocês têm de ir embora.

 

Todos os sonhos acabam ao acordar.

 

 

 


Notas Finais


espero que apesar de curto, tenha sido uma boa leitura. eu gostaria de ter feito algo mais profundo e melhor escrito, e vou tentar trazer isso nos próximos capítulos. obrigado por terem lido até aqui e se quiserem, deixem suas opiniões nos comentários. <3

p.s: obrigado pelos comentários na última coisa que eu postei, onde eu me explicava. de verdade, vocês são uns amores.
p.s.s: os versos sobre o mar e o vento são a tradução livre de uma música do Roy Kim, chamada 'Waves'.


Gostou da Fanfic? Compartilhe!

Gostou? Deixe seu Comentário!

Muitos usuários deixam de postar por falta de comentários, estimule o trabalho deles, deixando um comentário.

Para comentar e incentivar o autor, Cadastre-se ou Acesse sua Conta.


Carregando...