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História September. - Capítulo 1


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Capítulo 1 - Capítulo Único


- Vai jogar com a gente? – Leorio ouviu uma voz distante perguntar. Ele afastou o olhar da pista de atletismo e o mundo entrou em foco novamente.

- Oi?

Killua, o dono da tal voz, deu risada. Ele segurava uma bola de futebol embaixo do braço e vinha acompanhado por Gon, ou algo assim, visto que o outro já tinha se distraído e cavucava o chão com uma vareta.

- Se você vai jogar um pouco com a gente. – levantou a bola, reforçando a sugestão.

- Desculpa, não vai dar. Eu tô...

- Estudando, sei. – o mais novo intercalou uma olhada nada discreta entre os livros abandonados no colo do veterano e uma figura loira na pista. – Escuta, nunca vai rolar algo se você não tentar nada. Acho que já te disse isso.

- Nunca vai rolar algo se você for um cara como eu. – Leorio encarou as páginas amareladas sobre suas pernas, já mornas pelo sol do fim da manhã.

- Se houver concorrência, serei desistência. – Gon se manifestou por primeira vez na conversa.

- Cala a boca, bobo. Você não desistiu. – Killua terminou a frase com uma cotovelada no namorado, ao que outro riu em resposta.

- Olha, Leo, ele tem razão. Você não vai colher nada se só ficar se arrastando pelos corredores e olhando pro Kurapika de longe.

- Obrigado pelo conselho, gente. Eu só... sei no que isso vai dar. Prefiro focar no vestibular e esquecer esse tema, ok?

- Como você quiser. – Killua deu de ombros. – Se mudar de ideia, sobre qualquer uma das duas coisas, a gente vai estar lá no campinho de trás, beleza?

Leorio assentiu.

Uma vez no corredor principal do colégio, ele ouviu os comentários inevitáveis.

- Você ficou sabendo que o Kurapika ajudou aquela novata a estudar pra recuperação de filosofia? Ela tirou nota máxima!

- Caramba. Ele é incrível mesmo.

- Um anjo.

- Isso mesmo, um anjo.

- Pronto, já deixei o bilhete. Espero que ele aceite meus sentimentos.

- Tô torcendo por você, amiga. Ele é muito gentil, vai dar tudo certo.

- Cara, eu notei você olhando pro Kurapika na aula de química. Por que não tenta conversar com ele?

- Ah, sei lá. Você sabe como ele é. Vai sorrir, falar algo bem humorado e eu vou quebrar a cara. Aquele coraçãozinho é difícil de conquistar.

“Não sei se eu iria querer conquistar um coração”, pensou Leorio. “Preferiria ser convidado. Ok, pare. Sua cabeça já tá ficando piegas”.

Enquanto ele se dirigia ao laboratório de biologia, captou mais duas ou três conversas nas quais o nome daquela pessoa era mencionado. Ele estava em todo lugar, e isso não era só uma ilusão causada pela paixonite do moreno. Kurapika tinha, de alguma forma, algo a ver com todo mundo. Certamente você já teria ouvido algo sobre ele se estudasse por ali. Ele provavelmente já teria ajudado seu primo com um machucado ou só teria estado impossivelmente bonito na última festa.

Enfim, aquilo tudo só fez a insegurança de Leorio dobrar de tamanho. Quem sequer cogitaria dar uma chance a um cara excessivamente alto e desajeitado, cuja única certeza na vida era a vontade de ser médico?

Isso mesmo, ninguém. Ou algum louco, mas certamente não Kurapika Kuruta.

Mas o final do ano chegou, e os terceiros anos, naturalmente, decidiram comemorar a liberdade provisória recém conquistada, assim como a maioridade de grande parte do grupo, com uma festa. Gon e Killua conseguiram convencer Leorio a abandonar os livros por uma noite para comparecer também, e algumas coisas viraram de ponta cabeça quando o mais velho do trio esbarrou num certo loiro, logo ao chegar na comemoração.

- Puta merda. – murmurou. – Mil desculpas, eu...- então reparou em com quem estava falando. Ele quase desmaiou. Sua pressão caiu e sentiu a cabeça girar. Putamerdaputamerdaputamerda.

- Ei, relaxa. – Kurapika lhe ofereceu um sorriso. Daqueles que partiam corações e faziam qualquer um cair durinho onde quer que estivesse. Leorio sentia um pouco de rancor por esse sorriso. A parte mais amargurada do seu coração sussurrava que era um truque, que não era real. Com certeza o Kuruta fazia tudo aquilo de propósito, como um plano sádico pra ferrar com a vida amorosa da maior quantidade de pessoas possível até os vinte anos, ou algo nesse nível de maldade.

“Você mal fez dezoito e já tá biruta”, Leorio repreendeu a si mesmo. Então começou a gagejar algo que nem mesmo ele compreendia.

- Sabe, acho que você pode dançar comigo como um pedido de desculpas.  Consegui convencer a namorada da Canary a colocar uma playlist dos 70. Tava procurando alguém pra me acompanhar.

O loiro se virou e estendeu a mão.  Leo sentiu seu rosto ficar quente, seu coração nunca tinha batido tão rápido. Tinha alguma coisa errada, ele teria uma parada cardíaca e morreria não disso, mas de vergonha de quando chamassem a ambulância e Kurapika presenciasse seus 193 centímetros de pura estupidez sendo carregados numa maca para fora da festa. Seria um fiasco.

Antes que pudesse afundar ainda mais no espiral de pensamentos autodepreciativos e desesperados, Leorio foi puxado para o centro da sala que cumpria a função de pista de dança. Graças à baixa iluminação, as pessoas não repararam que era Kurapika ali. Não correr o risco de virar o centro das atenções acalmou um pouco seus nervos.

Um sucesso de ABBA encheu o cômodo, e o mais novo começou a dançar, transbordando alegria. Leo fez o melhor que podia para acompanhar, forçando através da vergonha que sentia de seus movimentos rígidos.

- Então... qual seu nome? – sua alma foi ao chão. – Tô zoando. O Killua me falou de você. Seu nome é Leorio.

- O... Killua?

- É. – Kurapika o encarou, com um sorriso debochado iluminando seu rosto. – Nós dois somos do time de atletismo. Ele é seu amigo, não é?

Leorio soltou algo que, esperava, soasse como uma afirmação. Lembrava da primeira vez que sentou nas arquibancadas para espiar o treino, usando a desculpa de estar revisando a matéria para o vestibular. Kurapika era membro da equipe do colégio desde o primeiro ano, quando enfrentou algumas dificuldades para entrar: a instituição não tinha muita experiência com alunos trans. Mas deu tudo certo no fim.

- Então... você gosta de Bee Gees, não é? – perguntou o loiro, casualmente. Como por ordem dele, Jive Talkin’ começou a tocar.

Liguem para a ambulância. Leorio morreu.

 

DEZ ANOS DEPOIS

Uma pequena nuvem de vapor embaçou os óculos de Leorio quando ele suspirou, se perguntando pela décima vez como deixara que Gon e Killua o convencessem a substituir seu plano perfeito de cair na cama após um longo dia no hospital por  fazer sabe-se lá quê naquele bar.

Aparentemente, o lugar era tranquilo  e de bom gosto. “E essa noite é especial dos 70!”, relembrou o berro animado que Gon soltara mais cedo, pelo telefone. Só foram necessárias três ameaças por parte de Killua, e agora estava sofrendo o resultado de ceder.

Era tão difícil assim não forçá-lo a fazer parte de planos nos quais seu único papel fosse de vela? Enfim, deixaram seus agasalhos na entrada e se acomodaram na barra. Não por muito tempo, para o casal mais novo. Eles logo identificaram uma mesa de sinuca e se encarregaram de jogar Leorio para escanteio.

Ele suspirou de novo, virando-se para observar as pessoas dançando, do outro lado do estabelecimento. A música era agradável, lhe trazia lembranças algo velhas, mas... aparentemente não tão velhas, porque seu coração acelerou da mesma forma que nesse então ao reconhecer uma certa cabeleira loira, um pouco mais longa do que nas imagens que agora inundavam sua mente. Da forma em que nunca mais tinha voltado a fazer.

Leorio considerou seriamente dar o fora. Mas os mesmos motivos que o faziam entrar em pânico, também o mantiveram ali, assistindo Kurapika girar sobre si mesmo, feito o retrato vivo da felicidade.

Era tão bonito que o mais alto sentiu seu peito doer. Pela primeira vez na vida, então, tomou a iniciativa.

Se aproximou da forma mais casual que conseguiu, e perguntou se podia dançar com ele. Kurapika sorriu.

- Claro, mas só se você não ficar pedindo desculpas por pisar no meu pé dessa vez.

A expressão de Leorio se iluminou.

- Você...

- Lembra? Claro que sim. Me diverti muito dançando com você naquela noite.

- Pra ser sincero, fiquei o tempo todo com medo de estar te entediando. – confessou Leo. Ele coçou a nuca, enquanto tentava acompanhar o ritmo do loiro.

- De jeito nenhum.

Deus, como ele sentira falta daquele sorriso. Que bobagem. Nunca chegaram a ter um relacionamento. Aquela festa fora a primeira e última ocasião na qual tinham sequer conversado. Até agora. Leorio não sabia exatamente o que esperava quando tomara coragem pra falar com ele, mas com certeza não era o que estava acontecendo.

- Vem, vamos lá fora. – convidou o mais novo, já puxando sua mão.

Recolheram os agasalhos e sentaram na calçada. Havia um pouco de neve nos cantos da rua, e os carros contribuíam para a cacofonia da cidade.

Leo ouviu algo como uma embalagem, e se virou para a direita, para encarar o mais novo abrindo um pirulito.

- Quer um? – ele tirou outro de dentro do sobretudo, sem esperar resposta. – Você pode segurar assim... – equilibrou o doce entre o dedo indicador e o médio. – e fingir que é um cigarro.

O mais alto dos dois gargalhou, aceitando, e Kurapika sorriu em resposta.

- Então, como vai a vida? Cirurgião?

Leorio confirmou, se perguntando como, da mesma forma em que o outro sabia, dez anos atrás, que ele era fanático por Bee Gees, agora sabia da sua profissão.

- E você?

- Meh. Advogado. Vou tentar um curso de artes plásticas ano que vem. Quem sabe não acabo tendo uma exposição numa galeria por aí.

- Eu adoraria ir ver. – soltou sem pensar.

- Seria um prazer ser seu anfitrião.

Eles ficaram em silêncio por alguns minutos, observando o trânsito.

- Posso perguntar uma coisa? – quis saber Kurapika. – Por que você nunca me chamou pra sair?

- O quê? Sair?

- É, sair. Pra um encontro.

Ele ponderou a resposta.

- Acho que eu não confiava em que você fosse aceitar. Não queria ser mais um na sua fila de pretendentes.

- Que engraçado... eu rejeitava todos por sua causa.

Leorio se sobressaltou.

- Sabe, eu me exibia mais nos treinos nos quais você estava na arquibancada. Mesmo que estivesse estudando e não prestasse atenção neles.

- Eu estava. Prestando atenção, digo.

- Eu também. Sempre.

Eles trocaram um sorriso.

- Então... posso recompensar? Você jantaria comigo no sábado?

- Nesse sábado? – a expressão do loiro assumiu um tom atrevido. - Posso mudar alguns compromissos de lugar, acho.

 

TRÊS ANOS DEPOIS

- Senhor Paradinight? É seu marido na linha. A bolsa rompeu.



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