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História Serena - Capítulo 19


Escrita por: FernandaLins

Capítulo 19 - Capítulo 18: Amigos ou inimigos próximos


FASE II - O FERVILHAR DAS PROVAÇÕES

Capítulo 18

Amigos ou inimigos próximos

 “Quem odeia disfarça as suas intenções com os lábios, mas no coração abriga a falsidade. Embora a sua conversa seja mansa, não acredite nele, pois o seu coração está cheio de maldade. Ele pode fingir e esconder o seu ódio, mas a sua maldade será exposta em público.”

PROVÉRBIOS 26: 24-26

Algum dia temeu verdadeiramente pela sua vida? Nos últimos tempos, tenho me familiarizado cada vez mais com a sensação. Sobretudo, nesse instante, dentro de um carro autônomo, prestes a entrar nos muros altíssimos de pedra da Cidadela de Bretália, eu não consigo sentir nenhuma pitada de medo, apenas ansiedade. Afinal, estar aqui parece tornar o plano mais real, palpável e possível – ainda que o lugar impressione.

-Ótimo, - Lorde Belfort, sentado ao meu lado, termina de verificar minha conta no I-Happy – você não pode postar, comentar ou seguir alguém que possa parecer minimamente contrário a política interna ou externa do país. Rainha Helena também usou seu poder para transformar completamente as suas antigas redes sociais alazianas, retirou tudo que poderia parecer sincero sobre fé e comprou contas com nickname falsos atribuídos a você com críticas ao seu povo e ao cristianismo, desse modo, pode dizer a todos que simplesmente guardava o ódio em segredo, enquanto sonhava em conhecer Bretália. De hoje em diante, tem de parecer não apenas ateia, como antiteísta, mas sem exageros ou pode soar falsa, dissimulada.

-Tudo bem.

-A senhorita também precisa ficar longe dos holofotes, nada de intrigas públicas, - ele mostra alguns comentários negativos sobre mim – isso não é exatamente comprometedor, por que não traz sua imagem para o cristianismo, mas o quão menos comentada você for, melhor. Você não pode atrair atenção desnecessária, exceto pelo rendimento escolar.

Eu concordo positivamente.

-Nós nos conhecemos no baile no Castelo do Fascínio, antes disso, nunca tínhamos nos visto e principalmente nos falado, - continua, enquanto arruma seu terno – soube que eu precisava de uma assistente pela internet e se inscreveu pelo I-Happy, como todas.

-Certo.

-Alguma dúvida?

-Muitas, - admito, observando que estamos cada vez mais avançando na fila de carros para os portões – quero saber os detalhes do plano. Quando vão me contar?

-Quando alguns detalhes técnicos de invasão de segurança estiverem acertados, não encha sua cabecinha com esses problemas, há uma equipe resolvendo. Suas únicas e exclusivas preocupações devem ser transcender como uma amazona trandox e conhecer o Palácio Galahad. Você tem que memorizar exatamente cada sala, quarto, saída, passagens secretas e principalmente cada mínimo componente do sistema de segurança.

-E o lugar é muito grande?

-Veja por si mesma – faz um gesto abrangente em direção ao castelo e eu arregalo os meus olhos, em choque.

A construção principal é gigantesca, imponente e evidenciada pela arquitetura horripilante da Era Serpica em sua forma mais medonha – infinitamente mais marcante que o castelo da Crown College e muito distante do ar delicado do Castelo do Fascínio. Sem dúvida, foi idealizado para apavorar seus inimigos. Ostentando torres compridas, escadas de pedra e esculturas sinistras de rostos serpiscos, tudo na cor preta, verde e prateada.

Já entendi por que não querem que eu gaste tempo pensando em outras coisas.

Memorizar este lugar vai ser um pesadelo.

-Tanto seu trabalho quanto seu treino como amazona devem acontecer somente aos fins de semana, sendo filha de cavaleiro o treino vai ser moleza pra você, por outro lado... – Respira fundo, sincero – O Palácio Galahad vai te custar tempo.

Eu concordo com a cabeça, ainda fitando o lugar enorme que ainda conta com pequenas construções ao redor que devem ser destinadas para treinamento militar, residência de funcionários... Sei lá. Há também ocultos e soldados bretalianos visivelmente armados até os dentes em cima dos muros.

Ainda nem sou uma amazona e já sei que não tenho a mínima chance contra ocultos que são verdadeiras máquinas de matar.

Pela primeira vez, um pensamento derrotado surge na minha mente: Será que eu vou sair viva dessa missão?

Ao chegar nossa vez, um soldado musculoso trajando um uniforme militar impecável sinaliza para que o veículo pare e Lorde Belfort obedece.

-Está tudo bem, haja naturalmente, é tudo normal – ele diz, enquanto baixa o vidro para falar com o homem carrancudo – boa noite.

-Lorde Belfort, boa noite - o soldado o reconhece, porém não demonstra muita simpatia e eu mantenho minha visão fixa no horizonte, bem longe dos seus olhos escuros e assim, me assusto um pouco quando meu colega destranca as portas – quem é a alaziana?

-Uma assistente, - responde naturalmente, abrindo sua porta e me avisa – precisamos sair um instante.

Por que?

Os outros não tiveram de sair do carro.

Meu coração dispara e minha respiração torna-se curta, nervosa.

Belfort me lança um olhar cujo o significado de “fique calma” estava implícito e eu respiro fundo, descendo sem dizer uma palavra sequer.

Ele apresenta os seus documentos, mas não parecem importar muito pro soldado.

-Qual seu nome? – A forma desinteressada que o soldado me perguntou, mexendo em seu tablet, fez com que eu me sentisse mais calma.

-Maria Serena Iglesias – digo, mostrando meus documentos.

-Tudo bem, - começou a digitar, após dar uma boa olhada em mim e na fotografia pequena, então gritou sob o ombro, chamando atenção de uma soldado com expressões mais gentis – Smith! Uma garota.

Outro soldado começa a revistar Lorde Belfort e a mulher faz o mesmo comigo, encostando-me no carro com sua sutileza feminina.

-Tudo limpo – declara profissional, após encerrar as batidinhas no meu corpo.

Enquanto isso, outros dois homens revistam o carro.

-Limpo – concluem.

-Um instante, - o soldado chefe me mira dos pés à cabeça, desconfiado e eu ponho as mãos nos bolsos, engolindo meu medo, ao tempo que não desvio o olhar, forçando aparentar equilíbrio emocional – ela seguia Dra. Erica Holmes até recentemente, essa mulher está na lista negra do Rei Maddox.

-Está tudo bem, - Lorde Belfort continua desenvolto, aparentando controle sob a situação e recebendo um olhar sisudo do outro homem – eu explico...

-Com todo respeito, eu prefiro ouvir dela – atravessa sua fala, muito sério.

-Ela está sob minha responsabilidade... – Começa e eu posso ver a falta de paciência estampada no rosto do soldado.

-Dra. Erica Holmes é uma médica formidável, - eu interrompo em um volume de voz mais alto, porém seguro, conquistando a atenção – eu não tinha conhecimento de suas falhas de caráter, quando percebi deixei de segui-la.

O soldado permanece impassível, deixando-me cada vez mais nervosa.

-A Srta. Iglesias é militante ateísta no Reino de Alazon há muitos anos, pode fazer sua pesquisa, - Belfort atesta – eu fiz e ela é confiável, não tenho dúvidas disso.

O soldado continua me encarando, em dúvida.

“Meu Deus, nos ajude” eu oro mentalmente.

Um carro atrás de nós começa a buzinar, fazendo pressão.

O soldado bufa, inquieto.

-Está levando-a para a triagem? – Pergunta.

-Exatamente.

-Ótimo, - suaviza, desligando a tela do objeto tecnológico – o problema é deles. Salve a Nova Era.

-Salve a Nova Era – respondemos.

Ele sinaliza para que entremos de volta no carro e é o que eu faço, soltando um exultante “graças a Deus” na minha cabeça.

-Você foi muito bem, tem nervos de aço – o bretaliano me elogia, quando estamos em segurança, adentrando o portão para achar um lugar no estacionamento.

-Obrigado – digo, meio ofegante.

Por fora eu podia estar cinza de emoções, mas por dentro estava verdadeiramente aterrorizada. Eu não devia ter pensado negativamente sobre a missão.

-Que triagem é essa?

-Vai ser rápido, uma amiga está no esquema e vai cuidar do seu caso pessoalmente, garantimos que não vão barrar seu trabalho.

-Certo - respiro fundo, abrindo e cerrando os meus punhos, ao tempo em que me digo que está tudo perfeitamente sob controle.

-Não tem o que se preocupar, cuidamos de tudo - declara, firme, no mesmo segundo que o veículo é estacionado automaticamente – o que aconteceu na entrada é o mesmo de todas vezes que venho aqui. Apenas militares, residentes da Corte Bretaliana ou membros da realeza entram sem a revista do protocolo.

-Tudo bem, - me sinto mais segura, mas uma dúvida me surge – há alguma chance que eu veja o Rei Maddox pelos corredores?

-Quase nenhuma, ele não costuma andar pela ala dos criados e está sempre muito ocupado, provavelmente nunca a verá, embora a senhorita possa vê-lo de vez enquanto.

-Como assim?

-Passagens secretas – é tudo que diz, enquanto sai do veículo e eu o sigo, interessada no assunto. Eu poderei espioná-lo trabalhando?

O loiro me guia por uma porta do palácio – não a principal, entretanto, uma mais discreta guardada por alguns homens – e nós seguimos por corredores meio estreitos e bem iluminados até chegar a um escritório de triagem.

-Sra. Adams – ele sorri para uma mulher ruiva e gordinha que aparenta ser uma espécie de enfermeira, é uma das várias pessoas no ambiente que contém alguns jovens com currículos sentados com uma expressão entediada. Ela parecia estar a nossa espera.

-Lorde Belfort, estou em feliz em vê-lo – faz uma reverência, simpática.

-Esta é a Srta. Iglesias, - me apresenta – a estudante da Crown College que eu agendei.

-Chegou bem na hora, ela já pode entrar – faz um gesto para o corredor, mostrando o caminho que eu devo seguir e ela me orienta, andando atrás de mim, deixando o lorde para trás – é esse – abre uma porta para uma pequena salinha com equipamentos médicos e eu entro, olhando para tudo, curiosa.

-Obrigado.

-Se me permite dizer, estou honrada em conhecer a nossa salvadora enviada por Deus, senhorita – ela faz uma reverência, após trancar a porta e pisco os olhos, meio assustada com seu comportamento – é um grande prazer contribuir para a missão, tenho orado muito para que tenha sucesso em tudo.

-Ah... Muito obrigado – fico desconcertada.

-Venha, suba na balança – fala, animada e ela inicia seu trabalho me pesando, medindo, avaliando reflexos, pressão e fazendo perguntas de checagem geral de saúde.

-É só isso? – Eu pergunto, após apresentar documentos e assinar alguns papéis.

-Falta só uma coisa, a assinatura da sua tia que é a sua responsável. – Envia-me o documento pelo I-Happy e eu recebo imediatamente – O protocolo não exige de adolescentes amostras de DNA que normalmente é coletado em sangue. Afinal, não existem adolescentes cavaleiros trandox, certo? – A mulher parece se divertir com a ironia da situação.

-Certo – sorrio.

-Fora isso, segundo sua ficha, o Coquetel Wladimir está em dia, então está tudo certo, - explica, mexendo no computador com agilidade - se os níveis de radiação dox no seu sangue estivessem fora de controle por causa da medicação de preparação para a doxanização os sintomas seriam bem visíveis como febre alta, dor de cabeça, náuseas, vômitos... Não tem sentido nada disso, certo?

-Não – falo a verdade. Me sinto perfeitamente normal. – Na verdade, Lady Beatriz me orientou para que eu tomasse antes de dormir, sinto uns efeitos se demoro muito a cair no sono, mas depois fico bem.

-É normal para praticamente todos os soldados da academia nessa fase sentir alguns desses sintomas mesmo tomando antes de dormir, entretanto, Lady Beatriz me contou sobre o seu pai, então não é uma surpresa que venha se sentido bem.

-Que bom.

Nós nos despedimos e eu volto para recepção, onde encontro Lorde Belfort.

Ele encerra de modo cortês a conversa que mantinha com uma enfermeira e me guia para fora das dependências, retornando para o estacionamento.

-Ocorreu tudo bem – eu digo.

-Como eu disse – constatou, calmo.

-Afinal de contas, quem nós iremos ensinar a dançar?

-Coordenaremos o ensaio da coreografia das damas de companhia da Corte Bretaliana para o Baile de debutantes da Princesa Hannah.

Eu recordo de a ter ouvido falar sobre isso nos últimos dias.

Agora percebo o porquê do estranho fato de estar na mesma casa que nobres bretalianas.

-Eu vou te enviar a coreografia completa por vídeo.

-Obrigado.

Nós chegamos do lado carro.

-É onde deve acontecer? – Eu pergunto, deixando nas entrelinhas a grande dúvida.

-Não, mas é um caminho até o grande acontecimento.

-Tem mais alguma coisa que eu preciso saber? – Eu pergunto, mau humorada por suas respostas vagas, enquanto abro a porta e ele repete o mesmo ato.

-Nada demais, exceto, se a senhorinha se importar com a presença de Rainha Liu em alguns ensaios – fala sem dar destaque, adentrando o veículo.

Eu paraliso, sentindo o sangue fugir do meu rosto.

Se a rainha me ver, me reconhecerá.

O que eu faço?

E agora?

Eu devia contar?

-Srta. Iglesias?

-Oi – eu pisco os olhos, entrando.

Guilhermo pediu para eu não contar pra ninguém.

Sobretudo, isso pode comprometer a missão.

Eu praticamente salvei sua vida.

Ela me ajudou a fugir.

No entanto, Guilhermo contou que ela não simpatiza conosco, talvez, só não queria que eu estivesse lá com o aparecimento dos policiais.

-Algum problema? – Belfort me questiona, intrigado com minha notável mudança de comportamento.

Se eu contar, corro o risco de ser substituída.

Não posso deixar que isso aconteça.

Preciso arriscar.

-Nenhum – expresso de modo convincente, pondo o cinto de segurança.

Eu vou dar um jeito.

***

Atualmente, graças a atenção perversa que tenho ganhado sem razão, até mesmo me trocar no vestiário do colégio tem sido uma experiência desconfortável. Desde o início dos meus catorze anos, quando meu corpo começou a se desenvolver e eu herdei as curvas alazianas da minha mãe, o meu entendimento de minha própria beleza nasceu e como nunca antes, me senti verdadeiramente atraente. Afinal, além de me agradar do que via no espelho não passaram a faltar elogios a respeito do meu rosto, corpo e até cabelo – quando adotei o colorismo primeiramente com lilás.

Contudo, agora que estou conhecendo os padrões de beleza bretalianos e tenho sido alvo de tantos comentários, foi quase inevitável não me cobrir com a toalha por mais tempo, estando cercada por meninas bem mais magras do que eu. Não sou gorda ou flácida, pois me exercito constantemente e tento balancear minha alimentação com o máximo de coisas saudáveis. Entretanto, tenho os quadris largos, as coxas grossas e os seios medianos que são motivos de inveja no meu país, mas de estranheza para bretalianas, parece que sou grande demais.

De alguma forma, isso tem me afetado.

Por que... Se tantos falam, talvez eu seja.

Ainda que não faça sentido.

Inferno!

Não quero me tornar insegura de novo.

Eu retiro meu uniforme de educação física do armário e começo tirar minhas peças de roupa devagar, desejando que houvesse um lugar mais fechado para isso.

Enquanto isso, vejo um grupo de meninas pelo reflexo conversando alguma fofoca que eu não me importo e em um momento, exatamente no mesmo instante que desço minha saia, uma acotovela outra e simultaneamente todas param para me ver de calcinha. Na verdade, tenho aguentado isso o dia inteiro, por que algum idiota foi descarado o suficiente para fazer um comentário extremamente vulgar sobre minha bunda ser grande e isso parece ter viralizado. Todos a tem olhado a manhã inteira e na hora do almoço para tentar evitar aquele monte de gente me encarando, amarrei a jaqueta na cintura.

As garotas comentam algo e riem.

Um milhão de possibilidades do conteúdo de suas falas que provavelmente incluem minhas estrias passam pela minha cabeça e eu respiro fundo, esforçando-me em pôr os shorts que agora parece revelar demais o meu tamanho.

Pronta, eu saio do vestiário de cabeça erguida, como se nada tive acontecido e começo a me alongar na beirada da quadra, escolhendo cuidadosamente os meus movimentos para que eu não chame atenção dos rapazes na arquibancada.

Eu não deveria, entretanto, meus olhos se prendem alguns segundos em Príncipe Dimitri que está notavelmente flertando com uma lady oferecida – outra que não deve segurar seu interesse por nem meia semana - do outro lado da quadra e quando percebo que estou encarando há tempo demais, desvio o olhar, me xingando mentalmente.

Por que não consigo tirá-lo da cabeça?

Aquele maldito me magoou tanto.

E fez tudo isso, sem se quer sermos amigos.

O que teria me acontecido se fossemos?

Eu suspiro, abatida.

Ao meu lado, algumas meninas que desconheço também estão de olhos vidrados na cena, de modo que comentam sem escrúpulos sobre a lady que ao que parece, não está tentando laçar o príncipe pela primeira vez e elas estão claramente se remoendo de inveja.

O moreno é definitivamente o solteiro mais cobiçado da Crown College.

E isso me irrita profundamente.

-Bochecha?! – A voz de Thiago me tira dos devaneios, chamando-me de algum lugar que eu procuro, intriga – Aqui, Serena!

O rapaz está do outro lado da grade de proteção da quadra, sorrindo.

-O que está fazendo aqui? – Eu me achego sorrindo, feliz em ver meu melhor amigo, mas logo deixo meu sorriso morrer, meio zangada – Fugindo de novo.

-Como assim? – Ri de mim, confuso – Claro que não, estou em condicional, estou me sentindo muito melhor.

Eu entrelaço meus dedos na grade.

Ele realmente parece bem.

-Estou vendo – concluo.

-Quem não deve estar muito bem é você – o rapaz põe as mãos na grade, fazendo uma negativa com o rosto e enrugando a testa.

Não é difícil adivinhar que ele descobriu sobre o bullying.

-Por que eu não estaria bem? – Eu desconverso – Consegui um emprego, tia Vera não te contou? Ela assinou os papéis digitalmente hoje cedinho.

-Você sabe que não é disso que estou falando. Por que não me contou o que está acontecendo no colégio? Eu vi o seu perfil no I-Happy e está uma zona de guerra.

-Não fica chateado...

-Eu, chateado? – É acidamente sarcástico - Não, essa é minha cara de feliz, é a que eu faço toda vez que você tenta esconder alguma coisa importante de mim.

-Não está tão ruim – nem eu consigo acreditar, não soa nenhum pouquinho verdade, acho que estou cansada demais para mentir.

-Sem papo furado, - revira os olhos – manda a real que sou eu falando.

Bufo, exausta.

-Eu pensei em te contar no aniversário, mas eu não queria cortar o clima, sabe? – Sou honesta, deixando transparecer minha tristeza – A coisa toda tem acontecido mais online, pessoalmente quase ninguém tenta falar algo pra mim, mas estão todos sempre me encarando...

-Thiago! – Babí me interrompe, surgindo animada ao ver o namorado.

Atrás dela, vem Mar e Yasmin, ambas têm fingindo que eu não existo desde ontem, algo que eu imagino que tenha haver com a terceira componente – e líder - do trio.

De todos os meus “amigos”, Alex é o único que não se afastou.

-Oi, anjo – Thiago sorri para a sua garota e eu me sinto incomodada com a cena. Uma vez que, ela é que mais tem expressado seu desafeto.

-Você chegou um pouco cedo, mas essa é minha última aula e então estou livre.

-Você vem? – O moreno se dirige a mim.

-Pra onde? – Estou confusa e a lady ao meu lado torna-se apreensiva.

-Como pra onde? – Une as sobrancelhas, atônito – Ao shopping, claro. Achei que Babí havia te passado o recado, vamos e voltamos a tempo da abertura dos Jogos das Irmandades. Você não disse que tinha avisado?

Eu a olho, irritada.

Com certeza não me disse de propósito, está estampado na sua cara cínica.

-Quer saber? Acho que esqueci – responde de um jeito inocente.

-Você disse que já tinha falado – Thiago está claramente desconfiado e eu mordo o lábio inferior, prevendo algo ruim a caminho.

Não quero que ele sinta que precisa escolher entre nós duas.

De jeito nenhum, não quero correr o risco de ser a amiga desprezada.

Eu não aguentaria.

Principalmente agora.

-Na verdade, ela me disse – eu minto e a morena me olha, surpresa – eu que me esqueci, é por que não vai dar pra mim, estou ocupada com umas coisas.

Minto sobre a ocupação por que não suportaria passar mais tempo que o necessário em um mesmo espaço que o casal.

-Atenção, vocês! – Nossa professora nos chama de longe, ela não vai deixar que cabulemos sua aula – Já vou começar, venham logo.

-Eu vou ao estábulo resolver umas coisas e dar um “oi” pra galera, - Thiago avisa se afastando – depois eu volto e nós vamos.

-Tudo bem – a namorada concorda.

Eu dou um “tchauzinho” sem graça pro rapaz e ando sem um pingo de animação em direção a turma que está se aquecendo.

-Obrigado por ter dito aquilo - Babí me agradece, pondo-se ao meu lado no final da fileira de alunos – e por não ir hoje.

-Não tem problema – não dou atenção, fria.

-Você já fez o resumo de história? – Fala como quem não tem pretensões, enquanto alonga o braço - Eu estava pensando que podíamos fazer juntas na biblioteca amanhã depois da expedição.

-Você está brincando, certo? – Eu cruzo os braços, a encarando – Não vamos voltar a sermos amigas se você não pedir desculpas.

Minhas palavras causam um efeito de confronto sobre ela, de modo que a morena também cruza os braços e me olha com superioridade.

-E pelo que eu pediria desculpas? – Tem a ousadia de me perguntar e eu rio, desacreditando sua atitude arrogante – Na verdade, você é que precisa parar de se achar tanto, o mundo não gira em volta de você, Serena.

-Você é muito falsa e cínica, o pior tipo de ser humano que existe - expresso com nojo, olhando-a em sua pose orgulhosa – mas contra gente escrota feito você eu sou vacinada, pode tentar o quanto quiser que eu não vou ser manipulada.

-São muitas acusações contra uma nobre – sugere retaliação nas entrelinhas e eu desdenho, rindo – plebeias deviam se pôr no seu lugar.

-Fala sério, Bárbara, você não vai fazer nada contra mim, - me aproximo mais, encarando-a de pertinho – não vai fazer nada por que se fizer o Thiago nunca vai te perdoar.

A garota não pisca, fitando-me com ódio.

-Se realmente acreditasse que você é mais importante pro Thiago do que a própria namorada não teria mentido para que ele achasse que está tudo bem entre nós duas, - sorri de canto, presunçosa e eu hesito, frágil, não contava com sua perspicácia ao ler a situação – ele é meu, todinho meu e no fundo você está morrendo de medo de perde-lo pra mim, sua rodada pobretona. Tem aproveitado muito as roupas que eu te comprei?

-Meninas! – A professora chama nossa atenção.

Estamos muito atrás e não falamos em inglês, mas o confronto entre nós duas é evidente pela expressão corporal e uma porção de olhos curiosos estão sob nós.

Babí volta a obedecer aos comandos da professa e eu me esforço em fazer o mesmo, engolindo minha vontade de chorar.

Eu confiava tanto em Babí.

Eu gostava tanto dela.

Ela partiu meu coração em tantos cacos que é impossível contabilizar.

Mas ela não me verá chorar por sua causa.

Não lhe darei esse gostinho.

Só espero que ela esteja errada e Thiago não a ame tão cegamente.

***

Com as palavras maldosas de Bárbara ecoando na minha cabeça decidir que roupas usar na abertura dos Jogos da Irmandade foi um pouco mais difícil do que deveria ser. Evidentemente, não tenho nada descolado o suficiente ou que me aqueça o bastante nessa noite fria que não pertença ao grupo de roupas que ela me comprou no shopping quando nos conhecemos e ao mesmo tempo que sinto uma vontade perturbadora de amontoar tudo num saco de lixo e devolver, não quero correr o risco de minhas vestes que gritam “plebeia alaziana” chamarem atenção demais. Não só por que Lorde Belfort pediu que eu fosse discreta, mas também por que há cada minuto tem se tornado mais complicado ser Serena Iglesias nesse colégio.

Tenho me sentido cada vez mais diminuída por todos.

E dói tanto que mal consigo seguir em frente.

“Preciso tanto de suas forças, Senhor” penso, abatida.

Eu me visto de um jeito discreto, me maquio e arrumo os cabelos à custo, antes de sair do quarto respondendo a mensagem de Alex que me pergunta se eu vou ao evento.

Ao menos ele ainda se importa comigo.

-Serena? – Mar me intercepta logo que saio de casa, parece um pouco inquieta, olha para escada, depois pra mim, ansiosa – Que bom que te encontrei, queria conversar.

-Sem que Babí veja, eu suponho – cruzo os braços, ressentida.

A loira claramente tem medo que a lady desça e nos encontre juntas.

-É, desculpe – ela arfa, sentindo-se culpada.

-O que você quer?

-Eu quero pedir desculpas, - fala, soando sincera – queria te proteger dos ataques da Babí, o que ela está fazendo é horrível, mas não posso.

-Você pode, só não faz nada.

-Eu tenho uma família em casa torcendo para que eu me dê bem aqui, que eu realize meus sonhos e os dê orgulho, não posso me desentender com quem paga minhas mensalidades.

Eu recordo disso e as peças começam a se encaixar na minha cabeça.

O modus operandi da minha ex-amiga está claro, ela compra o direito dela sob as pessoas usando dinheiro, então se eles fazem algo que a desagrada, Babí os prende com manipulação ou chantagem emocional/financeira.

-No hospital há alguns dias te disse que acredito que devemos ser uma família, apoiando uns aos outros e que você pode contar comigo, - ela continua seu discurso, pesarosa – mas, infelizmente, esse é um limite que não posso cruzar, você não sabe do que ela é capaz.

Suspiro, resignada.

Não sinto um pingo de raiva de Marianella.

Na verdade, eu até entendo.

Afinal, eu fugi de casa e entrei no país por meios ilegais, sei as coisas estúpidas que somos capazes de cometer quando estamos em busca de um sonho.

-Eu só queria que você soubesse o quanto eu acredito que você tem potencial, é muito inteligente e determinada – põe uma mão no meu ombro, olhando-me fundo nos olhos – ela se virou contra você por que a fez se sentir pequena, por causa dos estudos e por que pensa que o Thiago te ama mais. Não a deixe quebrar o seu espírito.

Eu sorrio de canto, sentindo-me finalmente amparada e a abraço, emocionada.

A moça me abraça de volta, deslizando os dedos pelos meus cabelos, carinhosamente.

-Estou orando por você, - sussurra no meu ouvido e meus olhos lacrimejam, transbordando emoção – Deus está contigo e Ele te fez perfeita, não deixe ninguém te fazer pensar o contrário, vai dar tudo certo no fim.

-Obrigado, Mar – a aperto com mais força – era o que eu precisava ouvir.

-Eu só disse a verdade – sorri quando nos afastamos – eu tenho que ir, ela vai dar conta minha ausência.

-Espero que um dia não dependa mais dela.

-Eu também – suspirou, se distanciando e subindo as escadas.

Respiro fundo, me recompondo e sigo meu caminho.

Optando por andar pela pequena estrada movimentada - principalmente por alunos em bicicletas - que leva até quadra.

Até que, enxergo Lorde Javier seguindo pela mesma direção, alguns metros a minha frente e eu aperto o passo, o alcançando.

-Oi! – Eu chego, sorrindo.

-Ah olá, Srta. Iglesias – ele me reconhece, posicionando os óculos.

-Lorde Javier, eu só queria agradecer pelos conselhos no outro dia – revelo, um tanto sem graça – eles foram muito bons, obrigado.

-É mesmo? – Abriu um sorriso iluminado – Me deixa muito feliz, foi um prazer dar uma palavra amiga a uma ovelha.

Nós ficamos um silêncio um tempo e começa a chuviscar.

-Então... – O senhor arruma os óculos novamente e continua, notavelmente curioso – Como você está com Deus agora? Decidiu se abrir para o perdão?

-Bom... Sim – eu processo a resposta mentalmente e vejo que ela não é tão simples – mais ou menos.

-Costuma ser um processo, - ele compreende, empático – é assim com quase todos, o Espírito Santo tem poder para nos transformar em um segundo, porém, orgulhosos como somos, não facilitamos, lutamos contra.

-É, acho que é isso... – Admito, pondo as mãos nos bolsos do jeans.

-Tem alguém em particular que tem sido o motivo de sua pendência?

O rosto odioso de Maddox surge automaticamente nos meus pensamentos.

-Sim... – Mordo o lábio inferior.

-E você deseja perdoá-lo?

Reflito por um instante, sentindo uma repulsa imediata a ideia.

-Não – sou contundente – essa pessoa merece pagar.

-Então também tem haver com vingança? – É uma pergunta retórica, pois logo ele continua – Isso me entristece, confesso.

-Sei que vingança não é uma coisa boa, mas sabe... – Eu penso bem em que palavras usar, temendo revelar demais – Algumas coisas aconteceram e até parece que Deus está me dando a oportunidade perfeita para me vingar.

-Deus ou o Diabo?

Certo, eu nunca tinha olhado sob essa perspectiva.

-Se me permite dizer, tenho a impressão de que é uma moça que mantém o costume corrosivo de mentir para si mesma, - conta, calmo – dado que, tenho certeza que tem conhecimento de que algo tão perverso não combina com o caráter do nosso Senhor.

-É... – Arfo, incomodada – Acho que sim.

-Tem inventado outras também?

Mordo o lábio inferior novamente, sentindo meu interior se contorcer.

-Sim, - revelo a contragosto, apenas não conseguindo deixar de ser sincera – digo pra mim mesma que Deus terá que abrir uma exceção pra mim, mas sei que isso é muito idiota.

-Continue clamando, querida. – Pausa, sorrindo de canto – Mas, não posso te dizer que o dom do perdão virá.

-Por quê?

-Por que ele já chegou. – Sorriu pra mim - Jesus está batendo na porta do seu coração carregando esse dom nos braços e tudo que você precisa fazer é abrir.

Não respondo, somente concordo com a cabeça.

O que mais eu poderia dizer?

Ele está certo e eu sou uma idiota.

A chuva começa a engrossar, todavia, felizmente, chegamos à quadra há tempo de eu não ficar toda molhada e eu me despeço para procurar por Alex.

Ao tempo que, ocorre um show bobo com líderes de torcida.

O rapaz está sentado com os meninos na arquibancada a minha esquerda, acenando feito um louco e eu sorrio, abrindo caminho na plateia até me sentar ao seu lado.

-O que eu perdi? – Pergunto falando alto, por causa do barulho da música.

-Nada, o jogo nem começou.

Ao terminar o show de abertura, percebo que uma das líderes de torcida é a lady que vi mais cedo com Dimitri e logo que seu número termina, ela corre até o príncipe que está sentado com Lorde Nicolau na primeira fila.

Os dois parecem bem próximos e eu cruzo os braços, aborrecida.

Ele precisa mesmo se exibir tanto?

Não gosto disso.

Ao meu lado, Alex liga a câmera do seu celular e me entrega.

-Bate você que é pra sair todo mundo – pede e eu vejo Fabiano revirar os olhos, desgostoso com minha presença, enquanto Luís parece não se importar, sorrindo.

Eu levanto o celular fazendo pose e clico algumas vezes, resultando em alguns registros simpáticos de todos nós e devolvo.

-Ficou muito bom, obrigado.

-De nada – sorrio.

Observo-o postando no I-Happy e suspiro.

-Alex – o chamo.

-Sim? – Responde, ainda com os olhos na tela.

-Queria te agradecer pela forma que tem agido comigo, - começo, roubando sua atenção – você se quer me perguntou sobre o que a Babí falou sobre... Eu não ser mais virgem – tento não me constranger em dizer, mas é inevitável – você só me acolheu e isso me mostrou o quanto você é um amigo incrível.

-Eu não fiz por amizade, - revela, calmo, guardando o celular – fiz por que era a coisa certa, não é meu trabalho julgar.

Eu balanço a cabeça positivamente, embora eu não tenha certeza do que concluir disso.

-Você sabe, - continua, discreto, em um espanhol com forte sotaque de Carabén – não é nosso trabalho julgar o próximo.

Sorrio, entendendo o que ele quer dizer.

Alexandre é um cristão de verdade.

Eu o invejo por isso.

-Tira um selfie comigo – sorrio, desbloqueando a tela do meu celular, ele coloca o braço ao redor dos meus ombros e eu faço vários cliques, em um deles lhe beijo a bochecha e o rapaz não se acanha com meu gesto carinhoso – ficaram ótimas.

-Eu sou muito fotogênico – comenta e eu rio.

Não sei porquê, volto meus olhos por um instante para Príncipe Dimitri e ele está me olhando de volta, com isso, desvio o olhar, constrangida por ser pega no ato.

Será que ele também está me espiando?

Ou foi uma coincidência?

Eu não devia me importar.

Entretanto, é quase como se eu estivesse obcecada por ele.

Não quero que isso signifique o que eu já sei que significa.

Decido voltar a olhá-lo e o encontro flertando com a garota novamente.

A conclusão desconfortável de que o rapaz não se importa comigo pesa no meu coração e eu suspiro, abalada.

Quando o jogo inicia eu me esforço para dirigir minha visão exclusivamente ao time do primeiro ano da Irmandade Esmeralda versus o time do primeiro ano da Irmandade Ouro, porém com o casal tão rente a minha linha de visão não estava sendo fácil.

Dimitri não tem vergonha de estar com ela.

Ele a ouve falar e nas poucas vezes em que diz algo, me pergunto se é para elogiá-la com seu jeito ousado e irresistível – como fez comigo.

À certa altura do jogo os dois ficam mais próximos no banco e antes que eu possa fechar meus olhos, eles se beijam – sem parecem se importar nenhum pouco de estarem visíveis para todos – e a visão me faz sentir vontade de morrer.

Não é a primeira vez que o vejo beijando uma garota, mas agora é diferente.

Eu me sinto horrível.

Me sinto rejeitada.

Me sinto... Com ciúmes.

-Alex, eu já vou – o aviso.

-O quê? Por quê? – Pergunta, mas sem me olhar direito, vidrado no jogo emocionante.

-Não estou me sentindo bem, eu já vou – falo, me levantando.

Não consigo ficar nem mais um minuto aqui.

Não com o casal feliz bem na minha frente.

Dói demais.

Eu me esforço em abrir passagem diante tanta gente, com pressa, quando sinto alguém estapear a minha bunda, apalpando-a no fim.

Viro-me e o autor do ato é uns dos colegas de Lorde Rafael que está com seu habitual grupinho de babacas narcisistas.

Do jeito que o desconhecido ri e me olha com malícia, é óbvio que foi de propósito.

E isso me deixa tão em choque com a audácia que eu congelo.

-Delícia, hein? – Pisca pra mim, provocativo – Se quiser mais, eu faço.

O medo no olhar de Rafael revela o seu pavor a minha reação.

Não foi combinado.

O grupo espera para ver como eu vou reagir, provavelmente esperando que eu seja violenta, mas eu não o ataco.

Não por quê Belfort pediu descrição.

Mas sim por que me sinto tão violada e desrespeitada pelo rapaz achar que tem o direito de me tocar, falar e me olhar desse jeito que estou assustada.

Mal consigo acreditar que a situação evolui a esse ponto.

-Nunca mais toque em mim, seu tarado – falo sem tanta imponência quanto normalmente diria, o empurrando da minha frente, enquanto saio com lágrimas nos olhos.

Está chovendo do lado de fora, mas eu não ligo.

Só continuo meu caminho, chorando.

Tudo isso está sendo demais para que eu aguente.

Eu só quero me esconder debaixo das minhas cobertas, chorando até que minhas lágrimas sequem e eu durma, na esperança de que o dia de amanhã seja menos excruciante.

A chuva cada vez mais pesada me força a me abrigar debaixo de uma grande árvore e é onde eu permaneço, derramando minha dor e orando a Deus por forças.

“Preciso de consolo, Senhor”.

Ao detectar a chegada de mais uma pessoa no ambiente, olho para o lado e surpreendo-me ao encontrar Dimitri, meio ensopado e sem sinal de estar sofrendo com o frio.

Eu arfo, indignada.

E assim, enxugo minhas lágrimas rispidamente, mesmo que eu esteja tão molhada que não há como distinguir da água.

-Seja o que for que veio dizer, Vossa Alteza, - eu começo a falar em um tom indiferente, encarando os efeitos da chuva na minha frente, eu não devo olhá-lo ou corro o risco de perder controle sobre mim mesma – eu não tenho interesse.

Eu queria poder dizer que estou brava com ele, mas ao invés disso, estou magoada.

Desejando – e não desejando – uma reconciliação.

-Eu sei.

Nós permanecemos em silêncio por um longo tempo, de modo que a única coisa que podemos ouvir é o som das gotas pesadas de chuva batendo nas folhas.

De modo que, eu me mantenho firme em minha decisão de não o encarar.

Ignorando obstinadamente o amontoado de emoções conflitantes batalhando ferozmente dentro de mim. Eu quero gritar com ele, quero ataca-lo e feri-lo da mesma forma crua que me feriu ao me julgar e beijar aquela lady – mesmo que não faça sentido, pois ele não é meu. Entretanto, também anseio pelo seu consolo e compreensão.

Subestimei erroneamente meus sentimentos quanto a Dimitri e agora necessito conviver com as consequências desesperadoras.

-Eu sinto muito – o ouço declarar, calmo e resoluto – o que eles estão fazendo com você não deviam fazer com ninguém, principalmente uma mulher.

Suas palavras me inspiram alívio e eu fecho os olhos, visando afastar minhas esperanças estúpidas e disfarçar os efeitos que sua alegação me faz presenciar involuntariamente.

Ainda que seja exatamente o quero ouvir, suspeito de sua honestidade.

Portanto, eu não respondo, inquieta.

-Eu acredito em você – acrescenta, fazendo com que eu o encare imediatamente, sendo levada pelo ressentimento.

Eu poderia desejar sua compreensão, mas não acredito que o príncipe seja capaz.

-Como ousa vir aqui para mentir pra mim? – Esbravejo.

-Eu não estou mentindo.

Eu expresso um riso de chacota.

-Você me olhou nos olhos e disse que o problema era meu por ficar com Lorde Rafael, nem me perguntou se era verdade, então não me trate como se eu tivesse amnésia.

-Eu sei que tudo o que dizem é mentira, - permanece em um tom vocal baixo, não permitindo se afetar por minha reação – eu disse o que disse para proteger você.

-Me proteger? – Arqueio uma sobrancelha, irônica – Claro, talvez seja uma coisa da realeza humilhar para demonstrar afeto.

-Se eu não a tivesse impedido teria agredido Lorde Rafael e não estaria mais aqui – argumenta com contundência e eu reviro os olhos, mesmo sabendo que ele está certo nesse ponto, mas isso não prova que ele fez aquilo por mim, simplesmente não faz sentido – eu tinha que intervir, eu não pensei que você ficaria tão chateada.

-Então não pensou que eu tivesse sentimentos?

-Do que está falando? Me despreza tanto que nem aguenta ficar do meu lado.

-Quê? – Sua frase me deixa confusa.

-Eu quero dizer... – Ele bufa, transtornado, é a primeira vez que vejo fora de sua tranquilidade ou contenção habitual, o príncipe não se sente mais no controle da situação e isso me assusta – Você não quer ser vista comigo, então não pensei que se importaria tanto com minha intromissão.

-Não fale como se quisesse ser visto comigo.

-É diferente.

-Diferente como?

O rapaz se cala e eu provo meu ponto.

Eu sabia.

Faço bem ao ignorá-lo.

-Não precisa inventar nada pra me fazer sentir melhor, não me deve nada, Príncipe Dimitri – eu cruzo os braços, encarando o vazio novamente, estou brava comigo mesmo por ainda querê-lo por perto – só vamos deixar o outro em paz, terminar esse trabalho estúpido e seguir em frente com as nossas vidas, vai ser melhor.

-Eu não posso.

-Por que? – Eu o miro e ele bufa, impaciente.

-Por que eu sei como você se sente.

-Como poderia saber?! – Explodo - Você é um príncipe!

-Bastardo, - completou a informação, avançando tão rapidamente em três passos para perto de mim que eu recuo automaticamente, batendo as costas na árvore, ele está alterado, quase bravo, embora não violento – eu não sou bem vindo tanto quanto você não é e ao invés de um colégio apenas, eu tenho minha família, o parlamento e até a mídia contra mim, eles aumentam e inventam coisas sobre mim como se eu não importasse.

Dimitri pausa, parecendo cansado só por falar sobre isso e eu me mantenho silenciosa, assimilando toda a situação cautelosamente.

Ainda desconfio dele.

-E a mãe stripper? – Umedece os lábios trêmulos, demonstrando lapsos relâmpagos de uma vulnerabilidade que não pode ser fingida, porém mantém seu discurso, incisivo - Minha mãe biológica foi expulsa do seu próprio clã por estar grávida de mim. Meu pai? Ele me queria menos ainda. E sem nada no Distrito Zero, como você acha que ela conseguiu dinheiro para nos alimentar? – Respira ofegante, olhando-me tão fundo nos olhos que eu poderia mapear seu coração quebrantado - Então eu sei exatamente como é.

Meus olhos se enchem de mais lágrimas, atônita, ao passo que baixo minhas defesas para enxergar mais profundidade em nossas semelhanças.

Ele me entende, agora eu sei disso.

Dimitri comprime os lábios, notavelmente em conflito consigo mesmo, enquanto desvia o olhar de mim e nega com a cabeça violentamente.

Ao tempo que, balbucia algo baixo, possivelmente a palavra “idiota”.

-Eu não devia estar dizendo essas coisas pra você – bufa, frustrado.

-Tudo bem... – Sussurro.

Mas ele não dirige sua atenção pra mim, parecendo decepcionado.

-Eu não conto pra ninguém – digo com sinceridade.

-Eu sei – fala, indiferente e logo vejo que não é isso que o perturba.

O que é?

Respira fundo e enfim, volta a fixar o olhar azul em mim.

Quase conformado com o que está lhe afligindo.

-Eu me importo com você – fala de uma vez, destemido e mesmo assim, consigo detectar uma centelha de medo embaixo de sua postura naturalmente autoconfiante.

Meu coração se enche de uma alegria mágica ao ouvir tal afirmação de forma tão honesta e eu sorrio um pouco, mesmo que eu esteja confusa com seu comportamento.

-Eu também me importo com você, - me aproximo, deixando-me levar pelos meus instintos que contra minha razão só querem me aproximar mais e mais do rapaz confuso na minha frente, nunca foi boa em ser racional – mais do que eu gostaria.

Dimitri sorri de canto, melancólico e baixa o olhar para os meus lábios.

Estamos tão próximos que mesmo que eu não possa tocá-lo, posso senti-lo, preso na mesma atração magnética em que me encontro.

Minha respiração está instável, ofegante, em regência de meu coração efervescido e romântico, trabalhando como louco, enviando-me ideias insanas.

Eu quero tanto beijá-lo que a sensação poderia ser confundida com necessidade.

Nossas mãos geladas triscam – não sei dizer quem tomou a inciativa, pois mantenho meu olhar fixo em seus olhos hipnotizantes -, mas ambos entrelaçamos nossos dedos e o vejo respirar sôfrego no mesmo instante que eu, parecendo sentir o mesmo efeito elétrico, viciante e poderoso que eu ao nos ligarmos em contato físico.

Será que estou enlouquecendo?

Dimitri fecha lentamente o espaço entre nós, inclinando-se para selar nossos lábios, enquanto me puxa pela cintura, fazendo meu corpo inteiro se inflamar, cada célula dentro de mim queimando de ansiedade e eu encho os pulmões de ar, aflita.

O que eu estou fazendo?

A imagem de Sebastian surge como um flash nos meus pensamentos, afundando-me para baixo e eu hesito, parando Dimitri com um toque em seu peito.

-Por favor, não... – Sussurro, fechando meus olhos.

Sinto vergonha por recusá-lo novamente, contudo, não tenho estruturas para negar a insegurança dentro de mim.

Toda vez que me apaixono dá tão errado.

Eu fico destruída, em frangalhos e é evidente que é isto que acontecerá outra vez.

Por que Dimitri sequer deseja ser visto comigo.

Pior ainda, que saibam que tem algo com uma plebeia.

-Me desculpe – ele pede, baixo.

-Por muitos motivos, isso não pode acontecer – abro meus olhos, mas não o encaro, cruzando os braços, o que o obriga a manter distância.

-Eu sei, - concorda, distante – na verdade, estou pensando em vários nesse exato momento, não ia dar certo.

Sua confirmação me machuca.

De modo que lembro do seu beijo recente com uma lady.

-Sim... – Umedeço os lábios, respiro fundo e eu levanto meu olhar em sua direção, visando passar mais confiança.

O príncipe suspira, olhando-me como quem admira algo e estende sua mão para tocar suavemente uma mecha do meu cabelo colado no meu rosto, permitindo que sua pele áspera deslize em meu rosto em uma trilha ardente.

-Mas eu quero tanto você... – Admite e engulo em seco, fraca.

-Eu sei, eu também – desvio o olhar dele, atormentada por nossa química inegável.

-Mas vai passar, eu prometo – o príncipe me assegura rapidamente, parecendo ter certeza de suas palavras e eu fecho os olhos, desconfortável, soa como se Dimitri estivesse me consolando – e eu vou facilitar pra você.

Sem se despedir, abruptamente, ele só se vira e vai embora na chuva.

Vê-lo se afastar tão prontamente me prendeu em uma sensação angustiante de solidão.

O vínculo que críamos desde o baile apenas cresce.

De um jeito ou de outro, continuamos em sintonia e isso é um inferno.

Por que eu gosto dele e não posso mais negar o fato.

Mas, e Dimitri? Ele não me deixou isso claro.

Ainda que eu saiba que sua atração por mim continua presente.

Eu vou para casa destroçada, desiludida.

Ciente de que não vou conseguir deixar de pensa-lo tão facilmente.

Dentro do meu quarto, arranco minha roupa molhada e encaro a última pílula na minha mão antes de toma-la. O último pedaço da primeira fase do processo que trará minha vingança.

Dimitri evidentemente não tem um bom relacionamento com o pai, porém duvido que aprovaria minha missão de assassiná-lo – não que eu tenha a intenção de lhe revelar.

Suspiro, cansada.

Amanhã é o dia, conhecerei meus avós e me tornarei uma amazona trandox.

“Aqui vai o meu dilema

Uma metade de mim quer você

E a outra quer te esquecer

Meu-meu-meu dilema

Desde o momento em que te conheci

Eu simplesmente não consigo tirar você da minha cabeça

Eu digo a mim mesma pra fugir de você

Mas eu me encontro atraída ao meu dilema

Meu dilema é você”

Selena Gomez – My Dilemma


Notas Finais


NOTA MUSICAL:
Eu tinha outra música para esse capítulo, mas decidi guardá-la pra outra oportunidade quando eu tava ouvindo minha playlist de favoritas da Selena Gomez (minha rainha que eu sou fã desde 2009) e percebi que tem tudo a ver com Semitri! Essa música não é single, mas é muito boa e vocês deviam ouvir qualquer dia.

NOTAS FINAIS:
Hey serenianos, tudo bom com vocês?
O capítulo ficou enooorme, sorry. Mas pertinho assim do fim da segunda fase fica meio difícil não ficar grandão pq tem toda uma preparação para o que vem vindo aí, mas depois volta ao tamanho normal e a leitura fica bem menos cansativa, juro.
O que vocês acharam do capítulo?
O que sentiram com a cena Semitri? Deu trabalho, mas eu amei fazer!
Tô atrasada com 2 vídeos do canal (pq como os capítulos estão grandes me sobra bem menos tempo), mas não se preocupem que eu vou recompensar vocês.
O dois últimos capítulos dessa fase estão cheios de ação e outras coisinhas q n posso falar se não é spoiler, mas vocês vão gostar muito, disso tenho certeza!
Fiquem com Deus e beijos!! <3

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Fernanda Lins Oficial

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