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História Sete-Estrelo - Capítulo 5


Escrita por: e sabrinavilanova


Capítulo 5 - Capítulo Quatro - I Want To Break Free


 

Localizada em uma baía que só podia ser encontrada por aqueles que sabem onde fica, a ilha de Tortuga era um ajuntamento de estabelecimentos que se dividiam em poucas casas e muitos bares, repleta de pilhagens e mergulhada em sangue, onde a violência era constante. Essa ilha tinha regras para as rixas, pirataria e pilhagens, porém o mais comum era ver tais brigas sendo resolvidas nas ruas imundas, cheirando a sangue e a rum, como qualquer outro muquifo pirata que qualquer pobre desavisado encontrasse. 

De onde estava a puxar as cordas para o píer, Shouto já podia ouvir o estardalhaço das vozes das pessoas que tomavam as ruas com o fim da tarde se aproximando. Todos aqueles que se encontravam no convés trabalhavam nos nós, garantindo que estes estivessem firmes e seguros, afinal, nenhum deles gostaria de ter sua cabeça separada do corpo sendo o responsável por ter um navio daquele porte e importância à deriva no mar. No nível inferior, os demais marujos amarravam as cargas e se preparavam para a noite que estava por vir, tomados pelo cheiro próprio que a ilha emanava, ansiosos pelas aventuras que ali encontrariam. Ao contrário de Shouto, que não tinha o resquício que fosse de excitação. Na verdade, a única coisa que transbordava de seu corpo era o cansaço da longa viagem pelo desconforto da rede onde dormia. 

Terminados os trabalhos, os homens se reuniram ao convés, olhos animados ao espreitar a prancha de desembarque sendo abaixada. Uma voz suave e autoritária cortou o clima que se amotinava, lançando sobre os presentes uma paralisia seguida de um silêncio respeitoso. Os pomos de adão subiram e desceram num engolir em seco que refletia toda o nervosismo presente naquele local. 

— Muito bem, seus cães sarnentos — o Capitão gritou, parecendo bem à vontade apoiado nas escadas que terminavam no posto do leme. —, já conhecem as regras.

— Pegue o que puder… 

— ...sem nada devolver.

Um rugido de satisfação subiu entre eles que se apressaram na tentativa de serem os primeiros a desembarcar. Shouto, porém, não conseguia desgrudar seus olhos da figura do Capitão, aparecendo ali de repente como se sempre houvesse estado e não passado os últimos sete dias trancado em seus aposentos. Lambeu os lábios secos antes de ter o braço puxado, estava tão concentrado o observando que mal percebeu a aproximação de Denki. E quando voltou o olhar para frente e viu o companheiro (nunca o chamaria de amigo) sorrir divertido com a sua expressão perdida, revirou os olhos em pura insatisfação com a presença. Desgraçado, grunhiu em sua própria mente. 

Tortuga estava do mesmo jeitinho em que deixou da última vez que passou ali com seu pai. Corpos de bêbados jogados no chão, enlameados e cheirando a cachaça. Shouto tinha uma breve teoria de que aquela era a base da economia local, talvez fosse o que movesse a ilha: homens bêbados fazendo merda. As feições desgostosas não passaram despercebidas pelos olhos esverdeados do Capitão, que riu ao passar entre ele e Denki. Aquela seria uma longa noite. 

 — Venha, Vossa Alteza, conheço um lugar ótimo para começar a festa. — O loiro o puxou pela prancha com um quê de animação e impaciência lhe rodeando. Mas Shouto não lhe deu tanta atenção, compenetrado demais no som das botinas tocando no chão. 

— Ainda tentando soltar minha língua? — ele provocou, com um olhar zombeteiro.

— Nunca se sabe quando um marujo pode ter o seu dia de sorte, não é mesmo? Pessoalmente, eu me sinto excelente. Quem sabe deva tentar a sorte nos dados e se a deusa estiver ao meu lado, ao fim da noite me aparecerá uma bela mulher sobre quem exercer meus dotes.

Shouto apenas revirou os olhos, deixando-se ser arrastado em direção a um beco úmido e bem escondido, sempre mantendo um olho no Capitão que caminhava à frente deles e parecia fazer o mesmo caminho. Parte de sua não resistência se dava pelo fato da curiosidade recém descoberta instigando-o a investigar mais a fundo o misterioso Capitão. E se Denki queria levá-lo até onde ele estaria, não seria Shouto a reclamar. 

A estalagem em que ficariam já podia ser vista ao longe. Um visual pouco horrendo para aqueles já acostumados com o pouco que tinham sobre as águas. Shouto mordeu os lábios pensando em como essa seria a oportunidade perfeita para ele. Paradas como aquela significavam apenas uma coisa: bebedeira infindável. Não que gostasse do gosto amargo do rum ou da cerveja. Entretanto, beber para afogar as mágoas logo havia virado um costume fácil e vil, a habilidade de esquecer, mesmo que fosse pouco, agradava-o. 

No entanto, daquela vez, ele via ali uma ótima brecha para entender um pouco sobre o homem misterioso que comandava um navio daquele porte. Se Kaminari queria fazê-lo falar, Shouto queria o mesmo, mas esse interesse era voltado inteiramente para o seu Capitão. Estreitou o olhar ao pisar no chão de madeira do estabelecimento, escutando o roncar das tábuas a cada passo dado. 

Em meio a confusão de corpos comemorando e gritando por mais bebidas, os cabelos daquela cor distinta eram facilmente identificáveis. Acompanhou Kaminari até uma das mesas, satisfeito em poder manter dali um olho em seu alvo. O loiro voltou com duas canecas de cerveja espumantes e bateu uma delas a sua frente, chamando sua atenção.

— Se eu não soubesse, diria que você está interessado no Capitão. — Virou o rosto para observar o mesmo rir junto ao balcão, inclinando-se para falar com o dono. — Mas, cuidado, pequeno gafanhoto, dizem que as pessoas que se deitam com ele nunca mais aparecem. — Shouto o olhou, cético, as botas arrastando no chão pela inquietação daquela mistura de corpos se tocando. — Não seja tão sério, meu camarada, a noite é uma criança e temos álcool a vontade para afogar as desilusões. Além disso — o sorriso travesso retornou aos seus lábios, os olhos espiando a forma feminina de cabelos escuros e curtos que circulava por entre as mesas, servindo os demais. —, aquela belezura ali está caidinha por mim.

— Você não pode já estar bêbado com tão pouco. Tem certeza que não caiu de cabeça quando criança? Explicaria essas visões que anda tendo — debochou ele, antes de virar-se para observar o lugar. — Sua imaginação é muito fértil para uma pessoa da sua idade. 

— Falando assim até parece que sou velho, querido. — e piscou para ele, sorrindo para a mulher a percorrer habilmente as mesas. Shouto arqueou a sobrancelha, perguntando-se o que havia feito para merecer aquele prego em seu sapato. — Mas, fique tranquilo, digamos que eu sou um grande apreciador de mulheres da vida. 

— Você quis dizer prostitutas — corrigiu. 

— Ora, claro que não. — Seu tom soou ofendido. — Não vê aquela deusa de cabelos escuros e andar deslizante bem ali? Ela parece uma prostituta para você? — E virou para a moça que estava servindo-os. — Diga-me, milady, doeu quando você caiu do céu? Tenho certeza que os anjos cantaram quando sua mãe a concebeu. 

A garota semicerrou os olhos, aquela altura já acostumada com as péssimas cantadas que recebia em seu trabalho, porém, aparentemente aquele homem havia atingido um novo nível. Bateu a caneca na mesa, derramando um pouco e se inclinou para dizer com um sorriso aparentemente doce, mas que escondia uma fúria assassina.

— Aqui está seu pedido, espero que se afogue nele. — E saiu sem ao menos lançar um último olhar para um boquiaberto Kaminari que rapidamente se recuperou e abriu um largo sorriso entusiasmado.

— Ah, sim, é isso mesmo, companheiro. Tenho certeza agora, ela vai ser a mãe dos meus filhos. — Regozijou, virando a caneca de uma vez.

Shouto desviou os olhos da visão embriagada que era Denki e o coração falhou uma batida ao constatar que o Capitão não mais se encontrava em seu assento perto do balcão. Virou a cabeça mais depressa, procurando-o em meio a aglomeração, a tempo de ver os cabelos chamativos desaparecem em direção ao interior da estalagem onde de certo se localizavam os quartos, esgueirando-se com suavidade ao seguir uma moça cujo olhar encontrou-se brevemente com o seu, os olhos brilhando divertidos,  e tentando passar despercebido. Como se aquela atitude por si só não fosse nem um pouco suspeita. O jovem estreitou os olhos, a parte curiosa da sua consciência lhe gritando para segui-lo e quem sabe desvendar aquele mistério, enquanto a outra, mais sensata, o lembrava que ele poderia não ter muito tempo de vida caso fosse pego.

Voltou-se para a mesa onde Denki continuava comentando sobre como convidaria aquela mulher nem que fosse a última coisa que fizesse e tomou uma decisão. Confiando que o outro não sentiria sua falta tão cedo, levantou-se sorrateiramente e se esgueirou por entre as pessoas na mesma direção que o vira tomar. Prendendo a respiração, adentrou o corredor escuro e vazio, apurando os ouvidos para captar o menor ruído que fosse levá-lo ao quarto certo.

Havia algo no ar, em todo aquele mistério que o fazia sentir a boca seca e o coração martelar no peito. Um passo. Uma respiração. Outro passo. O ruído das chaves encontrando a maçaneta. Costas rentes à parede ao fim do corredor, a cabeça inclinada para a curva que levava a um último quarto em um beco sem saída. E risadas. O leve murmurar que o lembrava segredos trocados. Prendeu a respiração, inclinando a cabeça de modo a ter um mero vislumbre do que acontecia. Nada. Apenas o corredor vazio e o eco de uma porta que se fechava. 

Moveu a cabeça para os lados de modo a assegurar que estava sozinho e adentrou o espaço, sentindo um arrepio subir pela coluna. De certo aquela atitude não seria do agrado do Capitão, seguindo-o assim, bisbilhotando quando este não desejava ser encontrado. Mas Shouto não podia evitar a sensação latente em sua cabeça de que havia algo ali, sob as camadas de ironia, algo além do poder que sentia percorrer seus ossos todas as vezes que os olhos se cruzaram. 

A madeira velha rangeu e ele temeu ser descoberto, mas mesmo assim avançou. Meio passo em direção a porta que agora o separava do que desejava descobrir. Não ouvia som algum vindo de lá ― ao menos não o tipo que se espera quando um marujo acompanha uma das mulheres da noite a um dos quartos. Havia uma brecha ali no canto, junto a fechadura. Hesitou antes de se curvar, uma voz ― estranhamente parecida com a de Kaminari ― em sua mente ecoou com deboche: "Sem coragem para prosseguir, Vossa alteza?" Como se não bastasse ouvir aquele idiota lhe perturbar durante todo o dia, agora ele o perseguia até mesmo em sua mente. Ergueu o queixo de forma teimosa, recusando-se a ser rebaixado por qualquer que fosse a forma que o loiro escolhesse e inclinou-se, fechando um dos olhos e espiando pela brecha, piscando para acostumar-se a escuridão. 

Não havia sinal algum de movimento. Nem mesmo quaisquer silhueta no local, o que levava Todoroki a se perguntar se o Capitão havia ido mesmo por aquela direção. Levantou-se mais uma vez, ouvindo o estalar da coluna e engoliu em seco, tentando escutar algum barulho, qualquer ruído que fosse, para encontrá-lo. Mas suspirou, resignado, quando não ouviu nada. 

Deu meia volta, espiando ao redor com atenção e frustrando-se pela falta de evidências enquanto retornava ao salão e era recebido pelo ruído que parecia ter dobrado de intensidade durante o curto tempo em que estivera fora. A cerveja corria solta,o bem como a maioria dos homens aquela altura já estava. Havia pessoas dançando sobre as mesas em uma parca tentativa de se dar bem com uma das mulheres presentes e não se surpreendeu ao reparar que Denki era uma delas. Pelo visto, ele sentira extremamente sua falta. Rolou os olhos e se aproximou da mesa, estendendo o braço para puxar o loiro ridículo antes que este quebrasse o pescoço, levando em conta como ele já trocava os pés de tão bêbado que estava. O que, pensando bem, não seria de todo mal. 

― Vamos logo, seu idiota, não vai conquistar mulher alguma nesse estado.

Kaminari cambaleava ao seu lado, tentando equilibrar-se na medida do possível. Mas Shouto fazia jus ao seu apelido, e não tinha piedade alguma dos pobres plebeus. Sentiu o corpo pender para frente quando foi solto sobre a cadeira, sorrindo para a expressão azeda que lhe era direcionada. 

― Ciúme, Alteza? ― Riu, bebericando um pouco de sua cerveja.  ― Pode ficar tranquilo, tem um pouco de Kaminari para todo mundo. ― E ergueu o copo num cumprimento simplório. 

A risada que veio da mesa próxima não pôde ser disfarçada. Uma das mulheres, de um tom escuro de pele e olhos acastanhados tais quais a cerveja em sua caneca, quase dourados naquela iluminação, lançou-lhes um olhar por sobre o ombro, os lábios ainda erguidos em uma risada. 

― Vocês são idiotas?

Shouto desviou os olhos do sorriso convencido que o loiro ostentava e pousou-os na figura feminina que sustentou seu olhar com igual determinação. Havia algo ali, naquela pitada de divertimento a qual se sobressaía em seus olhos quase como se estivesse ali para ocultar sua verdadeira natureza, algo que incitava seus instintos para manter-se alerta. E, acima de tudo, havia aquela sensação estranha de que já a havia visto antes, lembrava-se daquele olhos castanhos, lembrava bem daquele olhar desafiador, só não sabia de onde. 

A mulher arrastou a cadeira para trás e, sem pedir, sentou-se à sua frente, sorrindo divertida para sua expressão. Viu-a lamber os lábios, roubando o copo das mãos de Kaminari, e entornou a cerveja que ainda restava, lançando um sorriso para Denki, mesmo que não desviasse o olhar de canto para Shouto. 

― Quem nos dá a honra dessa presença? ― disse o rapaz loiro ao seu lado, jogando uma perna sobre a outra, enquanto contornava a mesa de madeira com os dedos. ― Pode nos dizer? ― E sorriu travesso. Shouto, àquela hora, perguntava-se de onde Denki havia tirado aquela expressão, com as sobrancelhas franzidas e a cabeça um pouco curvada para o lado. 

― Ora, ora. A essa altura eu já esperava que o Capitão soubesse escolher melhor os seus recrutas ― ela falou, ajeitando a blusa e jogando as pernas sobre a mesa. 

― Não julgue, hm, minha cara ― disse em um tom mais baixo ao se aproximar mais da mesa, consequentemente se aproximando dela. ― Estamos aqui há poucos dias. Não conhecemos a todos ainda. Além do mais ― Ele a olhou. ―, você faz parte da tripulação?

― Estou ali há mais tempo do que você é pirata, garoto.

Hum, então devo me desculpar. ― Piscou, fazendo questão de deixar os olhos fechados alguns milésimos de segundo a mais que o normal. ― Nunca antes a havia visto naquele navio. De certo lembraria de seu belo rosto. 

― Ele é assim com todas? ― rolou os olhos, virando para Shouto que apenas assistia silencioso a troca de palavras entre eles. 

― Infelizmente. Suspeito que foi algum incidente relacionado a um burro que deu um coice em sua cabeça ou algo do tipo. 

Ela lançou a cabeça para trás em uma risada exagerada e bateu com a mão na coxa. 

― Então foi por isso que entraram, hã? O Capitão sabe mesmo o que faz. ― esvaziou a caneca de uma vez e a bateu contra a mesa. ― Sou Mina. Mina Ashido, e como boa veterana que sou, vou pagar a próxima rodada para todos nós. 

E levantou-se de supetão, indo em direção ao balcão sob o qual se inclinou e passou a conversar animadamente com o proprietário. Algo em seus movimentos causou um estalo na mente de Shouto e, num rompante, ele percebeu de onde a achava familiar. Havia sido ela a conduzir o Capitão para as instalações interiores. Estreitou os olhos com essa nova percepção, ainda acompanhando os movimentos dela e puxando Kaminari de lado para lhe sussurrar ao ouvido:

― Eu a reconheço agora. Vi ela acompanhar o Capitão para um dos quartos mais cedo. 

― Mais ciúmes, Vossa alteza? ― Denki riu. ― Primeiro eu, agora o Capitão. Desse jeito os marujos que se cuidem.

Shouto se recusou a cair na armadilha e se ateve ao franzir da testa, dando de ombros.  

― Você não entendeu. Eles entraram em um dos quartos, mas quando espiei pela porta não havia ninguém lá. ― inclinou-se mais, os dedos se fechando no casaco dele. ― Não pode confiar nela.

― VOCÊ O QUÊ? ― ele meio berrou, engasgando-se em seguida com uma gargalhada, ignorando completamente a última frase. ― Quem diria que nosso pequeno membro da realeza teria coragem para tanto. ― E passou o braço por seus ombros, puxando-o para perto. ― Estou orgulhoso, companheiro. As crianças crescem tão rápido. ― Fingiu limpar o canto dos olhos.

― Parece que eu perdi algo. ― Mina retornou, depositando as canecas na mesa. ― Me digam, o que causou tanta comoção?

Shouto chutou as canelas de Denki sob a mesa ― e se ele tinha usado mais força que o necessário, ninguém iria perceber ― quando este abriu a boca para responder. 

― Apenas assuntos do coração, madame. Nada que vá ser muito do seu interesse ― ele gracejou sob o olhar vigilante de Todoroki.

― Ohh, pobres marujos, tanta dificuldade para achar uma boa cama em que deitar ― zombou ela. ― Então, ela está nesse salão? 

― A moça do balcão ― Kaminari lamentou. ― Tão linda quanto um beijo do luar. 

Mina observou rapidamente o gesticular de Denki, voltando o olhar para o balcão a procura de tal moçoila e sorriu ao ver de quem estavam falando. 

― Jirou? ― Riu anasalado. ― Vejo o porquê de sofrer tanto. 

― Aquela mulher é a nova dona do meu coração ― ele falou. 

― Uma das outras quatrocentas, não é? ― rebateu Shouto.

― Vocês tem uma amizade bonita ― ela disse, então, ao observá-los discutindo. ― Se conhecem há muito tempo? ― Deu mais um gole da bebida em mãos. 

― Apenas alguns dias. ― Ela franziu o cenho, cética. ― Esse pirralho aqui estava completamente perdido no meio do teste.  

Shouto arqueou a sobrancelha ao ouvi-lo, soltando do agarre de Kaminari. Desviou o olhar para o agrupamento de pessoas que haviam chegado naquele momento e voltou-se para Ashido com um olhar questionador, recebendo apenas um sorriso como resposta. 

― Bom, já que não pode ter quem deseja, que tal me acompanhar em uma dança? ― Ela perguntou a Denki, fazendo questão de segurar na mão dele. E ele aceitou. Até ali, nada além do esperado. 

Desinteressado no que se seguiria, sua atenção vagou pela ambiente, as mãos mexendo a caneca e agitando o líquido amargo em pequenas ondas antes de levá-la aos lábios. Vozes exaltadas se ergueram da mesa a qual Mina antes se encontrava sentada e Shouto empertigou-se mais para ouvir a discussão.

― … estou dizendo a verdade! 

― Como você quer que a gente acredite em uma história dessas? Antes fossem monstros marinhos e navios fantasmas. Mas uma garotinha com poderes de cura? Acho que aquele rum deve estar fazendo efeito, do contrário você não estaria falando essas bobagens. 

― Estou dizendo! Eu vi! Ela mal tocou nele e o braço se endireitou assim! ― demonstrou com o próprio, movendo-o bruscamente no ar.

― Vai dormir com os peixes, seu mentiroso, todos sabemos que não se pode confiar no que diz um maldito pirata! Enquanto eu não ver acontecer com meus próprios olhos, não há cura milagrosa nenhuma, muito menos garotinhas capazes de fazê-la. ― E bateu a palma na mesa indicando que aquela discussão estava encerrada.

Os demais homens perderam o interesse pelo assunto e voltaram a se afogar na bebida. Shouto olhou em volta procurando os cabelos loiros de Denki, cogitando se a essa altura devia dar a noite por encerrada e retornar ao navio quando o estalo ecoou por todo o estabelecimento. Todos que estavam em suas respectivas mesas, bateram com as mãos no tampo e urraram. No meio de tudo, um estupefato Kaminari segurava a bochecha onde uma marca bem delineada de palma começava a se avermelhar, a cabeça erguida para a moça a sua frente que lhe lançou um olhar irritado e voltou ao seu lugar no balcão. 

Shouto não conseguiu evitar. Caminhou até o outro, passando por uma Mina risonha, e apoiou a mão em seu ombro. Os olhos claros se voltaram para si, agradecidos pelo apoio. Ao menos, até o momento em que ele perguntou com um sorriso malicioso tomando-lhe os lábios: 

― Então, companheiro, esses são os seus famosos dotes? Devo dizer que estou deveras impressionado.

Kaminari afastou a mão e puxou a caneca mais próxima, afundando nela sem parar sequer para respirar. Repetiu o mesmo processo com uma segunda e só então limpou a boca com a manga e cuspiu para os que ainda riam:

― Vão se foder. Ela ainda vai ser minha esposa, vocês todos vão ver! ― E desmaiou logo em seguida, para o alívio de Jirou que voltava com o punho em riste, esparramando-se no chão com um baque alto.

O coro de risadas engrossou e por alguns minutos foi tudo que se ouviu. Pouco a pouco, os presentes foram retomando suas conversas e voltando a atenção para a bebida, até que somente ele e Mina observavam a figura deplorável roncando como se não houvesse amanhã no chão da estalagem. A garota suspirou, como se aquilo fosse um fato inevitável, e empurrou o cabelo escuro para detrás das orelhas antes de se dirigir a Shouto:

― Vamos lá, garotão, me ajude a carregar ele até o navio.

― O que ele fez?

― Perguntou a ela se gostaria de ser mãe dos filhos dele. ― Ela riu, puxando os braços da figura patética que era Denki.

Shouto balançou a cabeça, incrédulo com a falta de noção do outro, e, como não havia mais nada para se fazer ali e aproveitando a oportunidade que se mostrava perfeita para ficar de olho nela, ele concordou, agarrando as penas de Kaminari e arrastando-o para a saída. 

― Não se preocupe com a cabeça, duvido que ainda reste muito dela. 

Foram suas últimas palavras as quais provocaram na garota responsável pela dor que o Denki sentiria nos próximos dias um leve sorriso. Dividindo o peso dele entre si, eles partiram em direção ao navio e suas velas negras esvoaçantes.

⚙⚙⚙

Depois dos dias de calmaria, nos quais o vento os abandonava e o mar parecia suplantá-los com seu infinito, o que os marinheiros mais temiam eram os nevoeiros. Os minutos ― horas ― seguidas em que a névoa espiralava ao redor do barco, impedindo toda e qualquer visibilidade, impedindo-os de saber o que estavam para enfrentar, trazendo consigo o silêncio sussurrante e tenso que perdurava, no qual havia apenas o bater dos corações e o respirar condensado a cortá-lo. 

Era nessa situação que o barco pesqueiro da Ilha Negra cortava as águas calmas, adentrando mais o intenso nevoeiro que havia surgido de lugar nenhum. Eventos como aquele eram raros, e talvez por isso todas as suas aparições acabavam de algum modo tornando-se uma lenda a ser contada e recontada em meio a bebida e brincadeiras de rua.

O que aqueles marinheiros ansiosos e temerosos ali presentes não sabiam, era que uma lenda estava prestes a ter início. E eles seriam seus portadores. O estopim para o futuro que em breve se concretizaria.

Bocas murmuravam orações, implorando à deusa que tivesse compaixão de suas almas e prometendo em troca grandes sacrifícios e uma penca de mudanças de hábito ― como o fato de deixar de cobrar mais caro em peças pouco conservadas ― que não seriam sequer cumpridas. Mas ali, presos sob a constante tensão de caminhar entre a tênue linha da vida e da morte sem saber o que os aguardava, suas verdadeiras personalidades se revelavam. E não havia beleza alguma nelas.

O primeiro ruído veio sob a forma de um rangido, como algo movendo-se sobre uma superfície. E então, veio a música. Uma melodia de erguer os pelos do corpo. Algo etéreo, inumano, que se espalhava pelo entorno, mesclando-se a água, tornando-se parte dela. Estava em toda parte, serpenteando por suas peles, fazendo-os murmurar mais rápido e de forma mais ávida, as orações embaralhando-se e tornando-se ininteligíveis. 

― Olhem! Ali! Tem alguma coisa na água! ― um deles gritou e os demais correram para a popa do modesto barco, espremendo os olhos para enxergar em meio a brancura leitosa que os envolvia.

― É um navio ― o segundo opinou.

― São os restos de um ― o terceiro corrigiu e observaram abismados os restos de madeira e destroços baterem no casco. 

A música se tornou aguda, atingindo seu ápice com um envolvimento que os hipnotizou. E então, num rompante, ela desapareceu. Vários minutos se passaram até que os três recobrassem a consciência, piscando atordoados para a névoa que parecia se dispersar. Comemoravam sua sorte, já imaginando as histórias que contariam ao retornar a terra firme, quando o mesmo que avistara os destroços tornou a gritar.

― Esperem, o que é aquilo?

― O quê? O que você viu agora?

― Acho… acho que é uma menina. ― O barco se aproximou e logo os três puderam ver uma forma pequena e encolhida, estendida sobre um pedaço do casco, vestida em roupas que outrora haviam sido tão brancas quanto os cabelos que lhe cobriam a cabeça. 

― Ela só pode ser uma sereia! ― E fez um sinal curvo, levando a mão de um lado a outro do peito e lançando-a ao céu. ― Deixe a garota aí, vai matar todos nós se subir a bordo.

― Ele tem razão, companheiro, sabe que mulheres a bordo são o pior tipo de má sorte que se pode pedir. Não se sabe o que pode acontecer conosco se deixarmos ela subir.

― Pior do que atravessar um nevoeiro com uma canção do infernos vinda do nada? ― o primeiro retrucou, recebendo somente o silêncio como resposta. ― Aquela menina só pode ser uma tarefa nos dada pela deusa. Salvá-la em troca de sobreviver ao nevoeiro. Não ouviu aquela música? Vai me dizer que já escutou algo parecido em terra? ― Os demais negaram. ― É o que digo, amigos. Se a deixarmos para trás, certamente seremos amaldiçoados. 

Os outros dois engoliram em seco e se mantiveram quietos enquanto o mais velho deles agarrava uma boia e se lançava ao mar, arrastando a garotinha ainda desacordada consigo até o convés. 

― O que é isso? ― O mais baixo apontou, enrolando os dedos na brilhante pedra presa ao colar em seu pescoço. 

― Não toque nisso! Não sabe que tipo de pragas pode conter. ― Ele assentiu e recuou, observando as tentativas do mais velho de acordá-la.

Foi aí que aconteceu. As pálpebras tremeram e os olhos se abriram subitamente. Os três estremeceram, os arrepios subiram por sua coluna e se espalharam por seus corpos com a onda de poder que os percorreu.

A lua tão brilhante no céu e a mudança das marés lhe diziam: a roda do destino havia sido girada. Não havia como fugir da tarefa que lhes fora imposta. Os problemas só estavam começando. 

⚙⚙⚙

Os três dias que ancoraram em Tortuga passaram com uma velocidade alarmante. As noites eram regadas a bebidas e muita gritaria, enquanto durante o dia sob o sol forte eles se ocupavam em abastecer o navio com todas as provisões necessárias e suficientes para partirem fosse para onde fossem. Durante todo esse tempo, Shouto manteve um olho atento sobre Mina, a quem ainda não se decidira a respeito. Entretanto, a garota não fez nada que apoiasse suas suspeitas. Quanto ao Capitão, ele não fora mais avistado desde a primeira noite e o incidente na estalagem.

O Plus Ultra enfim ficou pronto e, ao fim da tarde do terceiro dia, todos embarcavam novamente, observando saudosos da proa o amontoado de casas que era a ilha se afastar conforme o vento inflava as velas e os carregava de volta para as águas mais fundas. E, mesmo após esses dias festejando, via-se novamente ali, preso em meio aos grunhidos animados de uma tripulação em festa.

Havia música e dança. 

Haviam conversas e risadas das pessoas tomando o ar.

Havia a brisa do mar soprando as velas para longe enquanto deixavam Tortuga para trás e rumavam para o desconhecido. Para a liberdade.

A imensidão dos acontecimentos ameaçava agora o tomar. Ele estava livre. Havia conseguido. Escapara das garras do pai, afastava-se para longe de toda a influência, de toda a dor e pesadelos infligidos, de todo o passado escuro que agora deixava para trás. Estava ali. No famoso navio Plus Ultra, o terror magnífico das histórias, e haviam pessoas cantando.

― Não é nada como o pintam não é? ― Kaminari se aproximou, trazendo nas mãos duas canecas cheias de cerveja, a espuma ameaçando vazar pelas bordas. Aceitou a que ele lhe estendia e deu um gole antes de recuar com uma careta, o sabor continuava detestável como sempre. Estava satisfeito que ao menos isso não mudara.

― Não ― concordou, escorando-se na amurada para observar. ― Não esperava que fosse assim, tão festivo, tão… ― acolhedor, era a palavra que se encontrava em sua mente. Esperava aquilo em grandes cidades de nobres, mas nunca sequer cogitara a hipótese de haver mais em meio às águas do que apenas a frieza da solidão. 

― São poucos que sabem, mas o Capitão não é exatamente essa figura aterrorizante e fria que falam. Bom ― ele riu, relembrando a faca atirada contra si por ousar interrompê-lo. ―, ao menos não o tempo todo. Claro que ele é absolutamente assustador, mas também cuida ferozmente dos seus e qualquer um que sequer pense em ameaçá-los, vai desejar nunca ter feito isso.

― E como você sabe disso? ― Shouto o encarou diretamente, os olhos estreitos de suspeita. O loiro sorriu e bateu amigavelmente em seu ombro antes de se afastar com um aceno.

― As sombras falam, meu amigo. Elas sussurram muitos segredos para aqueles que sabem ouvir.

E desapareceu na multidão que movia-se animadamente, cada vez mais rápido sentindo o ritmo acelerado das palmas e dos gritos de incentivo. Era possível escutar dali o bater dos pés no chão do navio em conjunto com a viola tocada com animação por algum daqueles na multidão. 

Shouto quase sorriu pela animação, quase. Antes disso, uma outra figura chamou a sua atenção. Em sua pose altiva, pronto para matar um ou outro, o Capitão Midoriya ― que reaparecera durante a partida como se sempre houvesse estado ali ― andava vagarosamente em direção à festa. Porém, não foi o gesto de participação daquele festejo que o deixou surpreso, se fosse só isso… Na verdade, o que mais o impressionou foi a forma como o homem parou ao seu lado, apoiando-se na amurada e voltando o olhar para a multidão. Todoroki sentiu um arrepio estranho percorrer os braços cobertos ao notar mais uma vez o quão verdes eram aqueles olhos. E percebeu ali que não conseguiria tirar os olhos daquele homem por algum tempo. 

― Eles são animados, não é? ― começou o Capitão, indicando o trio dançante no meio do convés. Shouto identificou os cabelos loiros de Bakugou, enquanto era puxado para a dança pela imediata e o ruivo de antes. ― Podem estar sob a tempestade mais violenta, na noite mais fria e mesmo assim eles nunca perdem a animação. 

Shouto apenas assentiu e tomou outro gole da cerveja, tentando conter o impulso que lhe tomava a cada minuto de apenas virar e observar aquele estranho e incompreensível ser que era o Capitão. Em um minuto ele agia como um fantasma, distante e intangível, no seguinte se encontrava ao seu lado comentando sobre os demais membros da tripulação como se se conhecessem de longa data. 

― Soube que conheceu Mina. Ela o achou divertido e curiosamente interessante pelo que soube.

― Como…?

― É meu dever como Capitão saber de tudo que acontece no navio. ― Ele sorriu, aquele sorriso que lhe causava arrepios, as sardas em seu rosto capturando sua atenção. Não havia agora aquele quê predatório em seus olhos, apenas uma espécie de satisfação ao observar seus subalternos cambalearem pelo convés, bêbados demais para se importar de caírem uns sobre os outros em um amontoado de pernas e braços. 

― Não estávamos no navio. ― Foi tudo o que conseguiu resmungar. 

Midoriya riu.

― Algo me diz que você tem alguns assuntos pendentes a resolver comigo. Vamos lá então, fale de uma vez.

Shouto lambeu os lábios, ponderando a melhor resposta que poderia dar frente aquela estranha permissão. Confrontá-lo sobre os seus desaparecimentos frequentes ou sobre o quarto na estalagem parecia tão seguro quanto fazer carinho em um tubarão, todos sabiam como essa história terminava, e ele não queria de forma alguma ser a vítima. Forçou os olhos a encararem fundo aquele verde intenso que se movia como as ondas e optou pelo caminho mais seguro. 

― O teste. Estava esperando apenas que algum de nós morresse, assim não teria de escolher, não é? 

― Bom, um de vocês de fato morreu ― apontou. ― E aquele teste não foi nada. ― Riu então, parecendo bastante a vontade ali, o corpo pendendo em sua direção, o calor dos corpos próximos misturando-se ao da bebida que corria em suas veias, enquanto batia a caneca na sua em um brinde. Os olhos pareciam especialmente brilhantes a luz do pôr do sol.

― Nada? ― ecoou Shouto, relembrando todas as diversas vezes que seu pescoço estivera por um fio naquela noite. Midoriya assentiu, estendendo a mão para o céu, em direção aos tons quentes que o tingiam e além, os olhos afiados, ardendo como uma chama necessitada, perfurando os seus como se pudesse enxergar sua alma.

― Certamente. É agora que começa o verdadeiro inferno, meu caro.


Notas Finais


Venho por meio desta informar a Vossas Senhorias que eu amo muito o Kaminari. É isso.
Espero que tenham gostado do Capítulo, nosso pobre Shouto nenhum pouco interessado pelo Capitão, Mina sendo a rainha que é, e Kaminari, ah como explico o Kaminari?
Com um bônus de mais um pequeno mistério para vocês! Já sabem quem é a menina? Um doce pra quem acertar!
E é isso, marujos! Nos vemos em 15 dias com mais um capítulo! <3


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